A Chance for You
65 No Regrets - Afuro Terumi (Aphrodi)
Notas iniciais
“No começo decidiram que meu futuro seria ao seu lado sem o meu consentimento, porém agora que aprendi a gostar disso querem tirar você de mim... Mas eles esquecem que nós crescemos e queremos fazer nossas próprias escolhas.”
— Acorde senhorita. — Uma voz serena a chama. Você abre os olhos vagarosamente e se depara com a visão de um rapaz de longos e sedosos cabelos loiros, presos num rabo de cavalo baixo por uma fita vermelha e olhos da mesma cor que ela.
— Ughm. — Você murmura algo ininteligível embebecida pelo sono e volta a se aconchegar nas cobertas. Você ouve um ruído de cortinas se abrindo e logo em seguida sente o incômodo da claridade em suas retinas. E cobre a cabeça.
— Já é de manhã, hora do desjejum. — O loiro a toca gentilmente tentando despertá-la. — Senhorita, precisa se trocar. Seus pais a aguardam na mesa. — Informou. Seus músculos não movem nem um pouco. — Senhora? — Sussurra ao seu ouvido, o timbre meigo. — Mestra? Senhorita? — Lhe descobriu a cabeça lhe expondo a claridade, tentando mais uma vez. — Ei! — Alterou-se começando a ser impaciente e ele a balança com mais força, totalmente em vão. Você o ignorou lindamente como uma rocha. Um suspiro mais que estressado escapou dele. — VAMOS SUA PREGUISOSA, QUANTAS VEZES TENHO QUE CHAMAR?!
Berrou em seus ouvidos a chacoalhando, te forçando a levantar num baque. Seu coração pareceu dar um infarto e se reanimar. Você encara o loiro e o empurra bruscamente.
— O que é?! — Devolveu frustrada por ter o descanso interrompido.
— Se arruma logo, seus pais têm uma coisa importante pra falar. — Ordenou enquanto você entrava no banheiro de sua suíte.
Você obedeceu sem retrucar dessa vez, nem um pouco a fim de saber o que o rei e a rainha queriam de ti.
Você era a princesa do reino de Inazuma. Sua vida era cheia de deveres, regras, obrigações reais e tudo mais. Em sua infância, não teve uma fase tão rígida como agora. Te deixaram desfrutar os prazeres infantis, curtir a inocência e se preocupar somente em comer. Porém, ao completar doze anos, tudo mudou drasticamente. Como era uma menina de personalidade diferente, não costumava aceitar de bom grado as ordens. Portanto, lhe trouxeram um garoto de mesma idade para ser seu mordomo pessoal.
Seus pais buscaram em todo o reino, alguém que pudesse cumprir a missão de te manter na linha e ajudá-la a ser uma dama e uma princesa responsável. O mais adequado seria uma companhia feminina como você, mas nenhuma garota parecia aceitar ficar do seu lado e se dedicar a cuidar de uma menina. Dentre todos, Afuro Terumi, mais conhecido como Aphrodi, foi o escolhido.
O rapaz que pertence a uma família pobre, foi descoberto por acaso e recebeu a proposta de ser o mordomo da futura herdeira de Inazuma. Não fazia ideia do que viram em Terumi. Talvez a beleza e aparência mesmo não sendo da nobreza. Apesar de possuir meros dez anos na época, o garotinho aceitou viver longe de casa para ajudar o lar, pois obviamente fora recompensado por isso. Durante dois anos, foi preparado para esta tarefa antes de passar a habitar o castelo real até atingir a idade ideal e também as qualidades necessárias de um servo.
No começo, ambos se odiaram na primeira vez que olharam a cara um do outro. Você não admitia de jeito nenhum que recebesse ordens de um garoto e especialmente fazer o que não queria. Era birrenta e mimada, mas apenas uma criança. Com o tempo, soube amadurecer. A relação de ambos foi ficando estável, digamos assim. Você notou que de nada ia adiantar desobedecer, portanto foi aceitando que o loirinho a ajudasse. E assim, acabaram se tornando primeiramente amigos, compartilhando segredos e risos; depois irmãos que cuidavam e apoiavam um e outro.
Saíste vestida do banho, depois de fazer a higiene matinal e se senta em frente à penteadeira. Aphrodi chega perto e se posiciona atrás de você pegando uma escova. Suas mãos enluvadas suavemente seguram-lhe os cabelos. Os dedos passeiam pelas mechas e dedilham seu pescoço ao escovar as madeixas. Seu toque era tão macio e delicado ao fazer isso, que te causava uma leve e agradável sensação de calma, a deixando mais sonolenta.
— Não precisava ter me acordado daquele jeito. — Você se queixa formando um biquinho de criança e falando de um jeito manhoso, além de fingir tristeza.
— Desculpe. — O loiro a abraçou por trás com carinho, se mostrando arrependido. — Mas você dorme feito uma pedra às vezes.
Foi um gesto rápido, mas que seu corpo todinho não deixou de ser afetado pelos clássicos efeitos. De borboletas bagunçando seu estômago ao choque da aproximação entre duas pessoas. Além do loiro ter ficado pertinho de seu rosto.
— Não desculpo não. — Você responde se recusando a desculpá-lo de brincadeira. E o vê se surpreender um lapso de segundo. — Pra isso, se ajoelhe e implore a meus pés. — Ordena exibindo um sorriso maroto.
— Ok... Minha senhora. — Um leve rubor aquece seu rosto ao ouvir a voz mansa do mordomo se declarar como seu. Aphrodi se abaixa e segura-lhe a mão, a fitando com aqueles olhos vermelhos. — Mestra, queira perdoar esse humilde servo por ter berrado? — Indagou encenando dramaticamente.
— E promete parar de me acordar cedo? — Complementou. Mas não esperava os lábios do loiro depositarem um beijo em sua mão agora. Na verdade, lembrou que era um hábito ele fazer isto.
— Só se você dormir cedo. — Respondeu, lhe dedicando um sorriso terno. — Agora vamos? — A chamou para se retirarem do quarto, antes fazendo uma mesura digna de um servo fiel.
E saíram de seu dormitório, se dirigindo à mesa. A relação de ambos tinha de ser como a de um mordomo e sua mestra, que apenas conversavam trivialidades e deveres, além de responsabilidades e etc. Nada de intimidade, pois não é correto a realeza se misturar com serviçais. Portanto, ambos tinham que se comportar devidamente na presença de todos.
Mas quem disse que vocês ligavam estando a sós?
Seus pais surtariam ao lhe ouvir chamando o loiro de Teru-chan, com uma intimidade exagerada por exemplo, ou o puniriam severamente ao te ver sendo chacoalhada daquele jeito. Porém mesmo assim, abandonavam as formalidades chatas e se pegavam fazendo cócegas um no outro de um jeito malicioso, caso o fizessem à olhares alheios. Sendo assim, deixavam aquela intimidade deliciosa em particular.
No começo vocês juraram ódio e praguejavam entre si sem parar. Mas o caso é que os dois cresceram aprendendo a amar o outro, seus gostos, personalidades e manias, qualidades e defeitos. E com isso, se sentiam gratos pelo destino aprontar essa travessura de unir duas pessoas assim.
Após percorrerem corredores extensos que esbanjavam uma riqueza desnecessária, se deparam com a mesa de jantar. Você se acomoda na cadeira se pondo para degustar a comida. Seus pais rapidamente se põem a falar.
— Finalmente despertou, é? — Começa o rei lhe encarando, provavelmente já comido seu desjejum. — Pois bem, filha. Sabes que já alcançou uma idade ideal para se casar e dar um herdeiro pra este reino, certo? — Você parou um pouco ao engolir e quase engasgou. Sabia onde a tal conversa ia chegar. Aquele assunto que ouvira desde pequena o qual nunca lhe chamou atenção, agora não ia ter escapatória. Foi bom enquanto pôde ignorar e adiar. — Portanto, eu e sua mãe tomamos a liberdade de escolher um pretendente...
— Tomando decisões sem nem pedir minha opinião... — O cortou friamente e logo depois sentiu a indignação e o desespero tomar-lhe conta. Você avistou Aphrodi de relance, que estava em pé no canto em sua postura formal. Estranhamente parecia incomodado, nervoso.
— Não comece outra vez, menina. — Ameaçou o homem, autoritário. — Possuo o direito de fazer o que julgo ser certo para Inazuma. E você, é uma princesa. Ter que abrir mão e fazer o que não quer, faz parte de alguém da realeza; de sua obrigação. — Continuou o clássico sermão familiar.
— Por que não governar sozinha? Não é necessário ter um filho homem para isso. Hoje em dia as mulheres se tornam mais influentes e fortes. Aos poucos, mas já conseguiram provar que fazem bastante coisa. — Rebateu defendendo sua humilde opinião.
— Porque não se trata de machismo ou desvalorização das mulheres como pensa de mim. — Retrucou ligeiramente alterado. Massageia as têmporas, buscando alívio para a dor de cabeça que começou agora. Sua resposta a surpreendeu. Acreditava que seu pai era um homem sexista. É o que parecia. — Esqueceu que estamos em crise? — Ao ouvir, você optou por se calar. Não podia argumentar muito contra isso. — O povo está quase tendo que enfrentar uma miséria e não tem dinheiro pra pagar os impostos que nos mantêm. — Completou ele com amargura. Pela sua feição, se sentia um rei fracassado.
— M-mas deve ter outro jeito. Sempre tem uma alternativa. — Gagueja hesitando nas palavras. Não queria aceitar o futuro imposto para você. Até porque recentemente descobriu algo que passou a existir sem você controlar.
— Talvez até tenha. — Sua mãe concorda pensando em outras possibilidades e lhe dando uma pontada de esperança. — Mas é muito complicado e delicado. — Lhe veio um desânimo aterrador.
— Exatamente. — Concorda o rei. — Até encontrarmos uma outra solução, o reino estará passando mais do que fome e sede. E você não quer isso, certo? — Indagou mais calmo. Você permanece em silêncio. — Sendo assim, me deixe continuar. Nós dois buscamos um pretendente de outro reino, há três anos. — A informação lhe chocou. Esconderam e decidiram isso há anos? E desde quando? Nem ao menos, você teve a oportunidade de ver e conhecer o rapaz antes. Senão o impacto disso seria menor para você. — Seu nome é Hiroto Kiyama, príncipe de Hokkaido. Oferecemos sua mão a ele e sua família, em troca da ajuda necessária para evitar que Inazuma fique falida. — Concluiu enfim. Você apenas absorveu lentamente as informações, porém não as aceitava. — Terá que viver em Hokkaido. — Mais outro baque veio na sua cabeça. — E... Afuro. — Chamou o mordomo, também tenso por presenciar a conversa.
— Pois não, majestade? — Reverenciou e atendeu ao chamado encarando os olhos do rei.
— Aproveitando a ocasião, eu devo lhe dizer que seus serviços em prol do futuro e aprendizado de minha filha, foram muito satisfatórios para mim. Eu agradeço imensamente por isso. — O rei inclina sua cabeça de leve semicerrando os olhos no ato.
— Eu que fico agraciado pela oportunidade. — Aphrodi reverencia. Sorriso fechado delineando seu rosto. Você também sorri instintivamente, contagiada. — E não possuo palavras ou gestos para compensar o favor. — O loiro dizia repleto de pura humildade no olhar e na voz.
— Mas, mesmo fazendo um excelente trabalho cuidando da princesa, seus cuidados não serão mais precisos. — Você e ele sentem o novo choque lhes perfurando em forma de flechas no coração. — Amanhã, Hiroto-san chegará e será apresentado a nós como uma visita familiar. Ficará vindo ao castelo em torno de um mês, o qual ele e minha filha se conhecerão melhor, antes dos preparativos para o casamento. — Agora ambos estavam paralisados em suas próprias reflexões. — E depois da cerimônia, ela partirá para Hokkaido, onde será seu novo lar. Após se casar, não é necessário um mordomo com a sua função, portanto seu dever está concluído. E terá permissão para retornar a sua casa e sua família. — Finaliza o rei gentilmente para Aphrodi.
— E, para recompensá-lo, te recomendamos a vários lares que pertencem a nobreza. — Completou sua mãe com igual gentileza. — Assim, vai conseguir um emprego sem muitos problemas.
— Entendido, meu jovem? — Indagou ao loiro, que pareceu estar visivelmente confuso. — Afuro-kun? — Chamou sua majestade ao não receber resposta.
— Sim, senhor. — Aphrodi pareceu parar no tempo em seu próprio mundinho.
— Ha... Ha ha. — Você ri de deboche. Termina a refeição e se levanta da mesa, ignorando os protestos de seu pai pedindo explicações quanto a essa atitude. — É o bastante pra mim.
E antes de se refugiar em seu dormitório, agarra a mão de Aphrodi e o arrasta consigo. Ele, também não entendendo nada. Chegando enfim, seu corpo se joga na cama, o loiro se coloca a seu lado também. Ficaram em silêncio remoendo tudo o que foi despejado naquela maldita conversa.
Primeiro, você acabou de descobrir que irá se casar com um cara que nem chegou a vislumbrar o rosto, nem imaginava a silhueta desse tal de Kiyama. Certo. Segundo, soube que isso estava decidido há três anos e seus pais não lhe falaram absolutamente nada, além de deixar o anúncio quase de última hora. Certo. Terceiro, teria de abandonar a cidade natal e se habituar com Hokkaido e sua população. Certo. Quarto, seu amigo, que te acompanhou durante momentos marcantes e criou com você, lembranças maravilhosas, seria obrigado a simplesmente ir embora de sua vida.
Ambos cresceram juntos, encararam a doce parte da infância, apesar das dificuldades, compartilharam as dúvidas da pré-adolescência e agora teriam que vivenciar separados, os prazeres e desgostos da maturidade.
— De novo, eles não me deram muita escolha. — Lamentou o loiro melancólico.
— Você não é o único, amigo. — Contesta em resposta como se dissesse que ele não está só, nessa situação.
— Hum... — Murmura fechando os olhos vermelhos, pensativo. — É estranho, durante muito tempo, eu odiei esse trabalho por me manter distante da família. — Desabafou lhe chamando atenção, a fazendo se aproximar dele. — Mas aprendi a aguentar sua teimosia chata de criança; suas birras pra me provocar; seus corpo pesado que eu tinha que carregar quando desmaiava de sono no sofá. — Confessou a última parte com risos.
— Espera, isso eu desconheço. — Respondeu com as bochechas aquecendo em um tom rosado ao imaginar a cena do loiro a carregando. Não sabia mesmo dessa informação.
— Claro, porque estava ocupada demais roncando nos meus braços. — Retrucou fingindo frustração também corado. — Enfim, aprendi a conviver com suas qualidades e defeitos... E a gostar.
— O mesmo pra mim. — Concordaste apreciando o papo agradável e triste.
— Apesar de que não possuo nenhum defeito. Afinal, sou um semideus perfeito. — Esnobou provocativo. E de quebra ainda, jogou os cabelos lisos em sua face.
— Ser metido é um deles. — Rebateu atacando suas áreas sensíveis a cócegas, fazendo uma risada gostosa sair por parte dele. Você estava por cima de Terumi quando este apartou seus braços e lhe encarou amavelmente.
— Sabe, comecei a gostar dessas coisas pequenas que você faz. — Admitiu mudando o tom de voz para um suave. Seu corpo passou a manifestar nervosismo. As coisas pareciam estar partindo para outro lado, fora da melancolia. — Normalmente eu acharia que não passava de coisas fúteis e idiotas, mas talvez eu fosse também meio amargo. — Você transparece confusão, não entendia o que ele queria dizer. — Mas acho que gosto apenas dos seus abra... — Se interrompeu, parecendo deixar escapar algo que não devia ter falado.
— Oi? — Você indaga exigindo explicação. Ele rapidamente se ajeita na cama, se sentando.
— Nada de mais, tô meio confuso com essa história da gente não se ver mais. — Tentou disfarçar em vão.
— Ia dizer abraços? — Você adivinha. Mas procurou também abafar a cena constrangedora. — Mas, quem disse que a gente vai parar de se ver? Vamos caçar outra solução pra crise de Inazuma? Eu acredito que tem.
— Precisa perguntar? Claro que eu ajudo, até porque não estou muito inclinado a viajar pra Hokkaido. — Ele brinca debochando. — Ainda mais pra te acordar cedo todo dia.
Você ri e desarruma seu cabelo invejável, mas infelizmente ele sempre se ajeitava quando Aphrodi passava seus próprios dedos entre eles num gesto extremamente simples.
Pronto, falamos da parte ruim das novas notícias que adquiriu no dia de hoje. Agora falaremos das piores, ou talvez não dependendo do ponto de vista. Recentemente, um sentimento que você passou a temer, invadiu sua mente e praticamente se instalou lá feito uma erva daninha. Sentimento este causado pela simples presença de seu considerado amigo e irmão. De repente se sentia insegura ao dizer certas coisas a ele, o que antes nunca lhe aconteceu, visto que confiavam em si plenamente, mas agora você se segurava quando queria compartilhar e simplesmente falar com Aphrodi, ou seja, receio de ser julgada. Não gostaria que o loiro a achasse idiota ou algo do gênero. Esta preocupação lhe veio de uma hora a outra. Demorou a admitir, demorou a aceitar isso de braços abertos sem surtar conforme ele crescia a cada dia. Mas enfim assumiu.
Estava loucamente apaixonada por Afuro Terumi.
Seu coração exigia por ele, queria se alimentar dessa emoção cada vez mais, sem limites. Por enquanto ambos não tinham conhecimento de como o outro se sentia. Talvez ele a correspondesse. Isso faria seu corpo aquietar e se deleitar perante a seu amor. Se ouvisse o tão esperado Eu te amo, se entregaria sem controle nenhum. Porém o obstáculo chamado Casamento Arranjado te convencia a desistir. Mas não era tudo, é o maior e mais complicado deles, mas não o único.
Mesmo se não fosse forçada a se casar, ainda há a questão do sangue. Jamais a deixariam “manchá-lo” com um mero mordomo. E isto lhe indignava. Como uma coisa tão simples sobrepõe o valor de um indivíduo? E não existe sentido nenhum, que sangue possa manchar e contaminar outro. São apenas desculpas idiotas para humanos se sentirem superiores a seus semelhantes.
E além disso, há a crise do reino, que lhe obrigava a pensar em aceitar a solução de seus pais. Inazuma sempre fora um império pequeno e de poucos luxos, com um povo humilde. Não tinham muitos recursos e viviam fazendo uso moderado deles, os reservando o quanto durasse. Porém de uns tempos para cá, os recursos ficaram mais escassos e rapidamente chegaram ao ponto crítico. A população passava um período de quase fome. Outros impérios se recusavam a oferecer ajuda se não recebessem algo em troca. O que a faz repensar seriamente.
Fazendo uma aliança com Hokkaido, não mais veria crianças pedindo comida aos pais e eles tendo que pedir aos filhos serem fortes e aguentar a dor no estômago por falta de alimento. Já ouvira dizer que alguns dormiam para esquecer a fome, tomavam água para deixar a barriga com a sensação de estar cheia e enganar os próprios corpos, isso quando não precisavam resguardar água.
Portanto, você estava numa encruzilhada. Ignorar seu amor e se sacrificar pelo povo, suportando a infelicidade, ou abandonar a responsabilidade, fugindo por amor e conviver com a culpa de renegar o reino? Nenhuma opção era favorável para você, parece mesmo que teria de ser infeliz de um jeito ou outro. Contudo se recusava a desistir completamente. Tentaria buscar outra alternativa até o último segundo no momento de trocar alianças e fazer votos de casamento com um homem que não amava.
❣ ✿ ❣
— Apresento-lhes sua majestade, o rei Kira Kiyama e seus filhos, princesa Hitomiko e Hiroto. — Introduz o criado.
A carruagem real e muito mais luxuosa que a de sua família, chegou no dia seguinte à revelação de seu futuro. Dela saíram um homem de uns quarenta anos, vestes no estilo oriental tradicional, feição tranquila e um sorriso que não se desfez nenhum segundo; uma jovem moça de vinte e poucos anos, cabelos negros longos e lisos caídos como uma cascata preta por suas costas e olhos azuis, parecia séria; por fim, um rapaz que devia ter sua idade, cabelos vermelho intensos, íris verde-esmeralda e uma pele anormalmente branca. Ao te avistar, dedicou-lhe um sorriso. Os três vieram cumprimentar sua família.
As formalidades foram realizadas e todos adentraram o castelo real. Desde que colocou o pé para descer os degraus do carro, o ruivo manteve seus olhos verdes em você e mostrou um sorrisinho galanteador. Se postou a seu lado e a acompanhou até o salão principal, causando surpresa e um certo desgosto estampado na cara de um certo jovem. Aphrodi, praticamente estava de vela, sobrando naquele meio. É somente um mero mordomo e não fazem muita questão em dar muita atenção à sua presença. Esboçou uma carranca séria, especialmente porque o tal Hiroto lhe cortejava inúmeras vezes e de um jeito atrevido. Aquilo era incômodo, mas devia admitir que o ruivo tem seus encantos.
— Que tal deixarmos os dois se conhecendo melhor? — Sugeriu seu pai, dando aquele empurrãozinho de cupido. Ele papeava com o senhor Kira. Ambos se deram muito bem. O mesmo de Hitomiko e sua mãe, que encontraram gostos em comum. Para sua infelicidade, pois significa que as duas famílias concordam com o casamento, sem nenhum ressentimento.
Você aceitou a palavra do rei desta vez, dizendo para si que não importava o quanto o rapaz fosse perfeito ou tivesse milhares de qualidades e quase nenhum defeito, seu coração pertencia a outro. Aphrodi fez menção de segui-los, mas é impedido por seus pais.
— Afuro-kun, não creio que eles necessitam de sua presença. — Seu pai contesta, achando anormal as atitudes do loiro.
— Ahn? Ah! — Aphrodi pareceu desconcertado e depois notou a burrada que fazia. Se envergonhou ao se deter no meio do caminho.
— Não tem problema em Aphrodi vir, certo, Hiroto-san? — Você se dirige ao príncipe, que mostrou descontentamento com sua decisão. O loiro sempre foi seu amigo, irmão e secretamente, seu amado. Desde o começo, não tem intenção de responder às cantadas de Hiroto e muito menos deixar que lhe jogassem para ele, portanto não se importava com as caras feias que fizesse.
— Filha, iss... — Seu pai se prepara pra retrucar e é cortado.
— Tudo bem, sua majestade. — Hiroto finaliza aquele início de discussão, consentindo com a presença do mordomo e logo após o observando. — Esse rapaz me parece amigável. Provavelmente vamos nos dar bem.
Sorriu cínico. À medida que se encaravam, faíscas invisíveis chamuscavam entre um e outro junto de uma tensão impregnando o ambiente. Você arrasta os dois rumo ao jardim para caminhar e passar o tempo.
O local exalava verde. Plantas vivas e flores diversas, pareciam até sintéticas. Tudo ajeitado e comportado. Podado no mínimo detalhe, sem deixar uma folhinha sequer fora dos limites dos vasos. Um jardim que não crescia livre, praticamente. É assim que funcionam as casas reais. Bonito é, mas algo de não muita utilidade, tirando o fortuno de garantir o emprego dos jardineiros. Os três andaram por entre as trilhas aspirando os aromas naturais.
Aphrodi tomou a postura de um cão de guarda perto de você, enquanto o ruivo conversava alegremente trazendo assuntos, evitando que tudo fique silencioso; não fechava a boca. Isso era bom, excluindo o fato dele se tratar mais sobre você e aparentar começar uma guerra com o loiro. Talvez, só talvez, ele se sentira inferior ao mordomo, o que é acreditável de acontecer, visto que para um príncipe se rebaixar é necessário que a pessoa seja incrível. Bem, Aphrodi é. Isto deve ter afetado o ego e auto estima de Hiroto.
— E você, etto... Aphodi, certo? — Hiroto erra o apelido do loiro, que se frustra um pouco pois parecia que foi de propósito.
— Aphrodi. — Corrige ele entre dentes, mas se esforçando para não ser muito rude e mal-educado.
Você dá uma leve risada da situação. O que quer que seu amigo tinha, de certo modo a deixava bem. A sensação de ser disputada por dois caras mais do que... Atraentes. Ok sejamos realistas, gostosos. Era prazeroso. Decidiu refletir. Isso aparentemente é uma demonstração de ciúmes por parte dele. As borboletas reviraram seu estômago de uma maneira forte ao pensar no loiro a tratando como dele.
— Então Aphrrrrodi. — O Kiyama fala corretamente agora, mas puxando o R e logo esboça um riso divertido. Afuro fita aqueles olhos verdes. — Que tipo de posição prefere entre as quatro paredes?
— H-hiroto-san isso é uma intimidade de cada um. — O mordomo repreende o príncipe com timidez aderindo suas bochechas pela pergunta abusada e sem escrúpulos.
— Ah moço, somos todos crescidos para saber e comentar sobre sexo. — Rebate ele com malícia, trazendo mais constrangimento ao outro. — E você, minha futura noiva? — Se referiu a você com a mesma questão.
— Hein? — Você se surpreende e fica sem ter resposta. Que ousadia esse ruivo! Você vê seu mordomo numa mistura de indignação e seriedade.
— É brincadeira! Vocês dois são muito carrancudos. Eu só quero deixar uma boa impressão para minha noivinha. — Brincou. Tirou uma rosa de um pé e a ofereceu. — Posso ser bem amável e sedutor. Posso ser quem você quiser ao mesmo tempo. — Jogou-lhe uma piscadinha. Você sente o rosto corar com as palavras doces e cheias de intenções diversas e nota Aphrodi sem muita paciência.
— Perdoe minha opinião, sua majestade, mas primeiras impressões podem mudar com o tempo. — Retrucou Afuro recebendo um olhar que convidava para a briga; sorriso provocante. — Digo, é só o que acredito. — Complementa sem querer causar uma confusão séria.
— Aphrodi, você tem sorte de eu ser tolerante e bem-humorado. — Avisou sem alterar a voz. — Por simplesmente opinar desse jeito, você levaria uma punição mediana.
O loiro reverenciou e se desculpou, o que te deixou brava. Então só por causa das classes sociais, uma coisa tão banal como se expressar e argumentar pode acarretar em sofrimentos? Você se sentiu péssima vendo seu melhor amigo abaixar a cabeça por aquele príncipe arrogante. Se ele queria uma boa impressão, conseguiu o oposto. O olhar vermelho do loiro se tornou inferior e o sorrisinho vitorioso do outro aumentou sua fúria.
— Talvez no seu reino, Hiroto-san, costumam tratar seus criados assim, mas aqui não é Hokkaido. — Interrompe aquela rivalidade recém surgida entre eles. — E enquanto eu estiver aqui, não vou deixar que criem punições sem cabimento. — A resposta deixou o ruivo de boca aberta primeiramente e depois com um sorriso denotando segundas intenções. — Especialmente com o meu melhor amigo. Então por favor, não seja cruel com os criados. — Você pede tomando uma postura de autoridade. Ele mantém os olhos em ti, surpreso.
— Ora, princesa. Uma bela e honrosa atitude, se parece com as palavras de uma rainha. — Elogiou Hiroto com ar de interesse. — Mas ter uma relação tão próxima de um mordomo não é bom pra sua imagem real.
— A minha imagem real é essa mesma. — Você retruca sem se alterar também. — E ninguém vai maltratar Aphrodi, não vou permitir. — Você conclui e percebeu que o loiro mantinha o olhar em sua direção o tempo todo; lábios delineavam um sorriso meigo além de fazer conjunto com um rubor fofo em suas bochechas.
Durante o resto do dia, os três passaram analisando o caráter um do outro. Felizmente você não teve nenhum tipo de atração com seu noivo, o que não é muito certo. Mas estava extremamente aliviada, porque não se imagina nos braços de outro sem ser o mordomo loiro com aparência comparada a de um semideus. Ainda há a questão do casamento arranjado e da solução alternativa para salvar Inazuma, sem que você precise sacrificar sua felicidade, contudo, talvez tivesse que aceitar.
Não sabia o que ia acontecer, só não queria adivinhar de onde arranjaria a coragem de dizer “Sim” ao invés de sair correndo da igreja. Voltando no momento presente, a família Kiyama foi-se satisfeita com a visita desse dia, mesmo que tenhas respondido Hiroto daquela forma. E finalmente estava a sós com Terumi. Em seu quarto, você se depara com o rapaz exibindo uma expressão feliz a qual lhe encantou por dentro.
— Que foi? — Indagou. Você o vê se aproximar. E simplesmente lhe abraçar. Não estava entendendo nada, mas aproveitava esse curto momento. Nos braços dele, você sente o que esconde há tanto tempo e quase quis deixar a insegurança de lado e se jogar com ele naquela cama.
— Eu te amo. — Você esteve a ponto de dar um enfarto por essas palavras. — Digo, eu não esperava que você ia me defender daquele jeito. — Afuro pareceu sem graça ao admitir. Por um segundo, você se iludiu e se entristeceu, mas se recompôs.
— Claro que eu ia te defender... Meu amigo. — Apesar da decepção, você continuou o abraçando, inalando sua fragrância suave. E infelizmente, se recordou que daqui há uns tempos, seria forçada a sentir o perfume de outro.
❣ ✿ ❣
A família Kiyama passou a frequentar seu lar para ajudar a reforçar laços e todos se davam perfeitamente bem, exceto você, que estava irritada pelo caráter de Hiroto e seus flertes. E Aphrodi, que não o suportava. Hiroto via nessa situação, um jogo de diversão em que tinha de vencer o loiro. Tudo isso enquanto vocês tentavam sair dessa encruzilhada e serem felizes.
— Encontrou algo? — Ele pergunta. Estavam na biblioteca de seu palácio desesperados folheando e fuçando prateleiras de livros à procura de alguma informação, grande ou pequena que te dessem alguma salvação.
— Nada. — Responde com desânimo. Você massageia as têmporas, guarda seu livro e também o dele, que estranha sua atitude. Não tinha nada que falasse de alguma mulher herdando o trono e administrando um império, por exemplo. Existiam aquelas que tiveram um papel importante na sociedade, mas todas sempre ao lado de seus maridos, os reis. Nada adiantaria ficar se remoendo em angústia à toa. — Teru-chan. Faz anos que sua família não te vê, certo?
Aphrodi adquire uma expressão de melancolia. O rapaz foi separado de seus parentes desde muito jovem, carregando a grande responsabilidade de os sustentar, porém em troca tinha de permanecer no castelo. Deixavam-no ter contato com eles através de cartas, mas jamais permitiram que Aphrodi os visitasse. Mesmo que enfim pudesse voltar para casa, você queria dar esse presente adiantado a ele por tudo o que fez e por ter sido um amigo tão especial em sua vida. Afinal, já o testemunhou chorar escondido e no começo quando o menino chegou, viu ele sentir o medo de estar sozinho no meio de desconhecidos.
— Há muitos anos, mas já me acostumei. Vai ser até estranho quando eu voltar. E não me chame assim. — Ele reclama do apelido que o deu desde criança.
— Mas é fofo. — Você alega apertando suas maçãs do rosto e o percebe mostrar constrangimento. Homens geralmente não gostam de ser chamados de fofos. — O que acha de fazermos uma visita a eles? — Sugere.
— Como assim? — O loiro arregala os olhos surpreso.
— Não acha que vão adorar essa surpresa? E você quis tanto isso, né? — Um sentimento de culpa lhe veio por não ter dado essa oportunidade a ele antes.
— Isso... É sério? — Aphrodi estava desacreditado.
— Claro. Depois de me aturar por anos, esse será meu agradecimento.
— Não precisa fazer isso por mim, princesa. — Recusa de maneira gentil. — O que fiz durante esses anos pra mim não foi uma obrigação. Foi um presente, porque ganhei você. Sua resposta foi o dar um beijo nas bochechas. E o arrastar até a saída, onde deixariam as preocupações de lado um pouco. Você se recusava a explicar o porquê de sua atitude pois nem você sabia. Apenas fez aquilo para não o beijar por impulso.
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A carruagem lhe mostrou a vista de uma vila pacífica e abandonada. Longe dos limites do castelo e muito distante nos confins de Inazuma. Como esperado, os camponeses executavam suas tarefas diárias debaixo do sol escaldante e as crianças, por vezes os acompanhavam e outras não. Trabalhavam para garantir a refeição de cada dia. Você se sentiu mal ao ver os traços da fome e miséria em algumas áreas. A mão de seu mordomo segura seu ombro em consolo.
Não precisam conversar entre palavras para saber o que o outro pensava, os olhos se comunicavam por si. Por falar nisso, os dele transpassavam claramente aflição e nervoso.
O veículo parou numa região não tão miserável e em frente a uma residência simples. Ao descerem, o loiro paralisou na porta de entrada reflexivo. Você respeitou seu tempo e esperou até que ele tomasse a iniciativa de bater. Uma mulher de quarenta anos, cabelos loiros misturados com mechas castanhas e olhos também castanhos, ficou estática como se visse uma assombração, a boca abriu, o que a fez botar uma de suas mãos como se isso tirasse seu espanto. E de repente, ela apertou o moço em sua frente com tanta força, que parecia querer esmagar seus ossos de saudade. Ele a retribuiu.
— Teru-nii! — Um garoto não muito jovem de cabelos curtos e totalmente castanhos, exclama correndo e pula nos braços de Aphrodi entrelaçando suas pernas na cintura dele, a fazendo rir da cena e achar bonito e engraçado esse afeto familiar.
Logo depois veio um homem alto de madeixas castanhas e olhos de mesma cor, supôs ser o patriarca.
— Quem é essa moça, Terumi? Sua namorada? — Perguntou o menino. Devia ter uns três anos a menos que o irmão, mesmo assim aparentava se comportar como uma criança. De qualquer jeito ele pôs você e Aphrodi numa situação constrangedora. — Eu sabia que Teru-nii era um pegador.
— Yato! — O loiro pigarreia; as bochechas vermelhas como tomate iguais as suas. — E-ela é minha mestra. — O loiro corrige e repreende o garoto. Sua mente queria dizer: Ah, quem dera se fosse a verdade.
Afuro a apresenta a todos, que se curvaram em respeito. Você não estava exatamente vestida como a princesa que era, pois não queria chamar atenção. E era incômodo. Viera discretamente ali. O reencontro familiar fora agradável tirando o fato deles a temerem por causa da classe social. Instintivamente você dedicou toda a sua atenção a Aphrodi. Ele ficara tão feliz. Nunca se lembrava de já vê-lo esboçar tal alegria assim.
O crepúsculo anunciou o fim do dia e a partida de vocês. Entretanto, a mãe e o pai de Aphrodi não o deixaram partir antes de falar algo de extrema importância a ele, qual se tratava de um assunto particular. Você esperou pacientemente mais afastada, dando privacidade enquanto a noite banhava a cidade devagar.
Quando enfim a silhueta dele foi avistada, notou uma súbita mudança de expressão nele, que a preocupou. De repente, a felicidade grandiosa deixou espaço para um fraco sorriso. A cara pálida como se passasse mal. Todos se despediram com abraços amigáveis e ambos retornaram. A volta foi acompanhada por uma tensão mais que desagradável, parecia que uma nuvem de pessimismo se apoderou dele. E como sempre, Aphrodi tentava ocultar isso para não te preocupar.
— O que aconteceu com aquele sorriso? — Você inquere chegando ao seu dormitório, que realmente havia se tornado um refúgio de desabafos. O mordomo caminhou até a janela procurando os astros para contemplar. Você se posta a seu lado novamente até esperar ele responder que estava tudo bem.
— Nada. Estou bem. — Você ri por estar certa e segura-lhe o rosto com as mãos o obrigando a fitar seus olhos. Ele, apenas deixou que fizesse isso.
— Eu te conheço Afuro, melhor falar porque vou insistir. E muito. — Ameaça sem raiva. O soltando.
O moço mergulha um período de tempo em suas reflexões até tomar a palavra. Antes você vê que o assunto era sério.
— Então vou falar de uma vez, certo? — Concorda preparada pra ajudá-lo a suportar sua dor. — Eu descobri que sou adotado.
O impulso fez seus lábios se abrirem. Preparar a mente para uma revelação assim é inútil, você acaba sendo surpreendido por elas mesmo sem querer.
— Não estou triste. Apenas surpreso. — Alegou, mexendo no cabelo para se distrair.
— De qualquer forma, eles ainda são sua família. — Opina com cuidado para não o confundir mais. — É igual nós dois, eu te aceitei não como meu servo, mas como amigo. E eles o aceitaram como filho, não importando se foi gerado por outras pessoas. — Conclui com gentileza o deixando feliz de novo.
— Obrigado. — Agradece com um tom amável e logo continua. — Por existir. Se não fosse por você eu perderia muitas coisas.
— Como o quê? — Questiona levemente sem graça, já prevendo outro desmaio por parte de seu coração pelo que ia ouvir do loiro.
— Como a felicidade que só você me causa. — Seu coração não aguenta agora, mas rapidamente ele tenta disfarçar. — E... A amizade.
Foi o cúmulo. Você agarra-lhe o pulso o obrigando a se levantar. O conduz até a cama e o joga no móvel, ficando por cima dele. O rosto do rapaz mostra uma feição assustada por suas ações abusadas. Tomada pelo perigoso e arriscado sentimento de impulso, você continua o que iniciou sem medo de tudo dar errado. Ambos se encaram um lapso de tempo, apreciando a face um do outro em silêncio. Os olhos vermelhos dele não desviavam um segundo dos seus. O rubor da paixão se apoderou de seu rosto e desejo a dominou.
— Terumi... — O chamou proferindo o primeiro nome pois sabia que o loiro gostava de ouvir, mesmo dizendo o contrário. Usou um timbre manhoso. — Seja franco, sabemos exatamente o que o outro sente... E quer.
— Você... — Ele estava nervoso, o que significa que provavelmente é nesta noite que tudo vai acontecer.
— Quero acabar essa amizade e começar algo mais... Íntimo. — Você assiste o rosto dele pegar fogo e o corpo ficar inquieto abaixo do seu. — Sei que pensa assim também. — O máximo que podia ocorrer era uma rejeição dele.
Porém sem aviso, ele inverte as posições, ficando por cima.
— Claro que quero ser mais que um amigo. Há anos. — Confessa seriamente. — Mas não podemos. Você está prometida a outro.
— Não significa nada. Não é ele que vai me fazer feliz. É você, Terumi. Então me beije logo.
Pede numa quase súplica de seu corpo, mente e coração. Aquele tópico poderia se estender muito mais, porém os efeitos do êxtase não os deixaram raciocinar com juízo. As emoções do momento falaram alto.
O beijo dele começou hesitante no início se encaixando em seus lábios com receio, como se tivesse medo do que iria acontecer em seguida. Mas logo depois ele foi se entregando à paixão com você o correspondendo fortemente com a intenção de o relaxar. Naquele momento não existia mais nada que pudesse os afastar da imagem do parceiro. Sua mão dedilha a nuca do loiro e acaricia seu pescoço numa forma de querer mais contato. O clima esquentava junto com os beijos. Antes eram suaves e doces e acabaram por se tornar desesperados, numa briga de línguas esfomeadas onde um queria que o outro desfrutasse mais prazer naquele ato.
— Tem certeza? — Aphrodi interrompeu o clima, fitando seus olhos. O olhar dele denotando um misto de desejo e compreensão. Ele não queria que nada fosse feito sem seu total consentimento. Manteve essas emoções; essas vontades há tanto tempo, que tudo o que menos gostaria é de a fazer sentir arrependimento.
— Sim. Eu quero isso. — Você responde cega pelas tentações, porém consciente de suas palavras. Mais do que certeza, tinha. Ansiava por aquele homem, esperava muito para o dia em que pudesse ser tocada dessa maneira. Não era agora que descartaria a chance de provar dessas sensações que ele gostaria de te brindar.
Sua mão direita atrevida, se dirigiu ao laço vermelho que prendia os longos cabelos do semideus e os desprendeu. Cada fio de suas madeixas caiu suavemente pela cama e também em sua direção, que se encontrava abaixo ainda. A visão de o ver assim era delirante. Realçava a beleza de Aphrodi e contribuía para a deixar mais tentada a receber o que ele estava disposto a oferecer. O loiro deixou escapar um riso pelo ato e continuou após sua permissão.
O calor não parava de se elevar entre ambos, portanto mais do que deviam, queriam se livrar dos tecidos indesejados antes que começassem a ferver entre as cobertas. Os lábios não paravam de variar os movimentos, desde aprofundar, distribuir selinhos apaixonantes ou explorar a boca alheia. O que importava era não se separar do outro. Primeiro as luvas do loiro foram ao chão enquanto ele subia suas vestimentas e a jogava num canto qualquer, suas mãos faziam o mesmo. Ele parou um segundo para contemplar seu corpo apenas com as peças íntimas e exibiu uma feição de puro prazer.
Uma a uma, as roupas foram arremessadas pelo dormitório, se espalhando em vários cantos. Apenas as íntimas sobraram, cobrindo o que mais lhes deixavam pulsando de excitação. Mas ainda não era a hora de iniciar com o principal do ato. Seus pulmões exigiam ar e assim que seu corpo fora agraciado por beijos e chupões famintos, que distribuíam marcas, você não suportou toda aquela temperatura corporal ocasionada pelos roces da pele dele com a sua; e suspiros profundos unidos com o arfar delirante escaparam de ti. Esse ato somente aumentava a pressão que o loiro exercia sobre seus gestos. Ele usava intensidades diferentes com o intuito de deixar sua mente embaralhada com o que sentia, não sabia o que fazer com tantos hormônios castigando seu organismo.
Suas mãos procuravam agarrar as costelas do loiro cada vez pedindo mais e mais proximidade, cuja as últimas peças mantinham em ter. Sabia que suas mãos estavam deixando unhadas, mas você não conseguia parar de amaciar aquela pele alva que Aphrodi tinha. Não podia deixar de apertar e apalpar cada pedaço de seu corpo, pois autocontrole nenhum de vocês mais teve. À beira da insanidade, apenas se concentravam no doce e enlouquecedor prazer. Os corações à essa medida pulsavam como se fossem enfartar.
O próximo passo ali foi iniciado por você e suas mãos abusadas, que gostariam de fazer o loiro arfar também como se quisesse vingança por te obrigar a perder tanto ar durante os suspiros. Rolando seu corpo entre o colchão espaçoso, você colocou seu peso por cima. A expressão do Terumi, ao mesmo tempo que era de surpresa e dúvida do que você ia fazer, esboçava o quanto queria ver até onde sua malícia chegava. Você estava preparada para mostrar que podia o enlouquecer também. Sorriso sacana delineou sua face e se pôs a pôr em prática o que sabia mesmo sem ter muita experiência.
A cueca enfim encontrou seu espaço no chão revelando o membro do Afuro já exaltado pela ereção. Você não pode impedir a leve timidez que lhe tomou ao avistar o tamanho, mas logo deixou a coragem sair depois dele pegar sua mão e a guiar até si, já sabendo sua intenção como se a provocasse dizendo que não era tão capaz.
— Ajuda? — Indagou o loiro exibindo um sorriso malicioso e sugestivo; com os cabelos molhados de suor, grudados em seu rosto.
A sua resposta foi simplesmente fechar a mão em seu membro. Com isso um gemido saiu automaticamente do Afuro, o que lhe contentou. Você estava no comando agora.
Sua mão manuseia movimentos de vai e vem ao redor de seu membro pulsante lentamente no início e em seguida variando de velocidade, o deixando alucinado de tentação. A medida que se deliciava com seus gemidos, adorando ser aquela a dar essa satisfação ao corpo do semideus, ele agarrava os lençóis implorando incessantemente por mais; mais força; mais rapidez; mais toques seus naquela área; quase não conseguia se conter e delirava. As caras que o loiro fazia, lhe davam o impulso que a permitiu continuar com mais coragem e entusiasmo, pois ver que ele apreciava aquilo, você igualmente se animava como ele.
De repente um par de mãos aperta seus seios lhe forçando uma reação meio involuntária, um leve choque de arrepio a sobressaltou em cima do seu amado; também a fez perder o foco no que fazia por um lapso de segundo e isso que ainda tinha tecido os cobrindo. Fora surpresa que seu ponto fraco foi descoberto. Era justo que ele não a deixasse tomar o controle por muito tempo. Os dedos angelicais de Aphrodi se livraram de seu sutiã e logo se posicionaram na região desprovida de roupa. Massageando com firmeza e brincando com as novas partes de corporais expostas, ele obrigou a sua voz gemer, ainda se contendo por ser desacostumada a tal emoção.
Porém não era possível segurar os sons quando os apertos se aprofundavam como se o loiro tivesse um tipo de massa em suas mãos. Uma que modelava a seu dispor. Era uma espécie de disputa de quem perdia a sanidade primeiro. Como o loiro aparentava alcançar seu limite, ele a derrubou na cama sem brutalidade, tomando a liderança de novo. Desfrutaram bastante das carícias quentes e já sentiam que era suficiente, ou melhor, sabiam.
Aquele súbito nervosismo tomou conta do seu corpo sendo o estímulo principal a dominá-lo. Não importa o quanto alguém esteja preparado para isso, a primeira vez sempre causa um sentimento de medo; estranheza. É uma novidade completamente diferente de tudo que sentiu antes, que não pode ser descrita por mais ninguém apenas experimentada através de você.
Por mais que soubesse o quanto é bom, ainda sim surge um breve receio, especialmente por causa da dor nessa busca do prazer. Você não sabia que feição esboçava para Terumi, porém ele pareceu notar sua ligeira preocupação neste momento. Fitando seus olhos com ternura, ele acaricia gentilmente seu rosto a confortando em seguida.
— Não vou fazer nada que você não queira. — Alegou enquanto o peso do corpo dele se choca contra o seu; as mechas loiras tocando sua face. Enquanto você deixava sua calcinha escorregar entre suas pernas. E rapidamente o semideus caçava na escrivaninha próxima a cama, a proteção necessária. — Irei parar à qualquer instante... É só me dizer. Mesmo que seja difícil.
— Como eu disse antes. Eu quero. — Você responde ofegante e convicta, encarando o brilho naqueles olhos vermelhos. Se for ele, não há nada para temer. Sabe que Aphrodi não a machucaria. Poderia sempre confiar nele como confiou há anos.
Contemplando seu rosto o tempo todo como meio de se preparar, você experimenta a dor desagradável primeiramente, em seguida seu gemido foi abafado com um suave beijo, até que se acostumasse com o ato. Seus quadris se remexiam; gemidos de todos os tipos escapavam de seus lábios, desde baixos e profundos, a altos e afinados. Sem pudor, vergonha nem timidez. Sem conter o volume das vozes.
Por ser um dormitório espaçoso, não havia chance de serem ouvidos, a porta havia sido devidamente trancada, de modo que nada arruinaria aquilo. As paredes testemunhavam aquela cena única da primeira vez que enfim podiam se sentir profundamente. Cada vez que as intimidades se tocavam, se friccionavam, os corpos suados gritavam por mais através do vai e vem incessante. A cama chacoalhava sem ritmo maltratando a parede.
Foi sua vez de se agarrar aos tecidos enlouquecida. Suas mãos saíam do controle, executando gestos que não podia distinguir, pois sua cabeça estava distante. Mordidas, chupões e beijos foram incluídos com as estocadas.
Conforme a força aumentava a cada ida e vinda, o ápice do loiro chegava. Um gemido mais em forma de grito foi proferido por Aphrodi indicando seu limite ali. Porém ele continua firme em prol de te dar a mesma satisfação. Você sentia como se fosse explodir internamente. Até sua voz emitir o que tanto se esforçaram.
Ambos caíram moles no colchão. Ele, descartando o preservativo em um canto qualquer e logo puxando o lençol, cobrindo a nudez. Corpos suados e agitados ainda pela luxúria. Aphrodi lhe abraçou por detrás a envolvendo possessivamente. Sua respiração lhe arrepiava a nuca a cada sopro de suas narinas. As costelas também eram atingidas por estímulos deliciosos.
— Hey. — Cantarolou Terumi, a forçando a encará-lo. Ao obter seu olhar atento, deu uma risadinha. — De onde você aprendeu a me masturbar daquele jeito?
A timidez subiu de imediato. Imagens de você executando aquele gesto, vieram rápido e depois foram esquecidas. Mas relembrou de como a feição do loiro ficou. Fora tão bom dar uma de dominante um pouco...
— E-eu... Sei lá, oras! — Respondeu sem saber como reagir à pergunta abusada. Não sabia como havia aprendido aquilo. Talvez em livros eróticos que vez ou outra matava a curiosidade. Com isso, uma noção você adquiriu disso. Aphrodi riu novamente adorando a deixar constrangida. — E você gostou, sua cara dizia claramente.
— Achei que ia ficar com todo o trabalho, não esperava uma atitude assim, moça. — Contestou passeando um dedo em partes aleatórias de seu corpo.
— Ainda tenho muito pra surpreender.
— Então... Quer botar em prática na próxima vez? — Indagou exibindo malícia.
O resto da noite se passou tranquila, mesmo que os problemas puxassem sua mente para eles, querendo causar estresse. Você procurou relaxar e deixar tudo para o amanhã. Por hora, apenas aproveitaria o que tomou conhecimento. Provavelmente foi um ato proibido, visto que tinha de o experimentar através de outra pessoa. Porém não tinha arrependimentos. Teria se fosse com o ruivo. Nem queria imaginar caso ele estivesse ali na cama, sendo aquele que não havia escolhido. Mesmo que no outro dia encarassem as broncas e punições, neste momento valeu a pena tudo que fizeram.
❣ ✿ ❣
Foi errado olhar nos olhos de Hiroto e se comportar como sua futura esposa, forçadamente. Ele sempre agia tranquilo e não abria mão das cantadas e investidas atrevidas para lhe conquistar. Afuro, apesar de detestar, igualmente esbanjava a calmaria. Você era do loiro. Provou naquela noite. Por isso, não se importava como antes.
Porém o dia de colocar aquele vestido branco e caminhar até o altar, jurando amor e votos para o Kiyama, estava próximo. E ambos o mordomo e sua princesa, corriam contra o tempo, almejando uma solução. Infelizmente ela não vinha de jeito algum. Contudo, enquanto a buscavam, você notou que Terumi procurava outra coisa, além de esconder uma.
E seu pânico apareceu ao se ver no espelho, totalmente vestida para outro homem. O que era pra ser um dia memorável, virava um melancólico. Todos parabenizavam e choravam mostrando uma felicidade que não tinha. O único a compreender suas emoções não estava ali pra te segurar e consolar. Talvez preferisse estar só com seus próprios sentimentos. Claro que exigia sua presença, mas também é complicado assistir a pessoa que esteve em situações de vários tipos, não poder ser mais sua.
Ao caminhar pelo tapete, você denotou sua infelicidade especialmente para seus pais, que eram os culpados de arruinar seu futuro com aquele evento. Nem prestou atenção nas palavras do padre, seu foco era totalmente numa maneira de sair da ocasião. Talvez se fingisse um desmaio, ou simplesmente saísse correndo... Mas duvidava que desse certo. Pensou em um turbilhão de escapatórias e rotas de fuga. Nenhuma plausível. A hora do sim se aproximava e você rezava esperando um milagre do céu, que provavelmente não ocorreria. Sua mente dormiu derrotada de tanto esforço inútil.
E acordou quando a porta foi escancarada e seu braço agarrado, a levando para fora da igreja, dando muitas graças de não ter que aguentar o resto da cerimônia. Seu amado a arrastou até um local isolado, onde poderiam raciocinar melhor. Cansados, descansaram em cima de uma pedra.
— Terumi... Eu não quero fugir deixando todos os problemas. — Você contesta triste, queria ser tirada de lá, mas isso não resolve as coisas.
— Lembra que descobri que sou adotado? — Indagou mostrando auto controle perante aquela loucura que faziam. Você assente. Como esqueceria aquela vez? — Minha família biológica... Parece ser... De um reino.
— E... — Exigiu uma rápida explicação. Aquilo era complicado e confuso.
— E eu, pareço ser o herdeiro de algo.
A revelação a deixara boquiaberta. Isso devia ser realmente um milagre divino. As coisas faziam sentido, você unia as peças mentalmente. Esclarecia muitos fatos, assim como resolvia muitos problemas. Se o loiro pertencesse à realeza, além de terem a liberdade de se casar, Inazuma teria Terumi como seu rei. Sem palavras é o que definia seu estado. Foi incrível como tudo se ajeitou a seu favor com tanta facilidade... Agora é somente questão de deixar tudo ainda melhor com estas novas esperanças.
Um beijo encerrou a história.
Havia várias coisas que ambos podiam se arrepender e nunca se arrependeram. Ainda bem, do contrário, jamais desfrutariam tudo. As escolhas que fizeram por si, podiam ser erradas e contra os outros. Mas agora foram certas no coração de ambos.
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