A Chance for You
75 Melhor é Três - Kirino X Reader X Kariya
Notas iniciais
“Aceitar o diferente não é um absurdo.”
Seu corpo seguia o ritmo da música contagiante. As luzes coloridas dificultavam a vista, mas era normal. Você e Kirino estavam numa balada, curtindo um belo fim de semana. Não como amigos obviamente. Havia muita pegação, luxúria rolando a solta. O álcool tornava aquela fantasia maravilhosa, mesmo estando cientes que a ressaca não perdoava no dia seguinte.
Era uma balada sem perigos. Todos estavam se divertindo do seu jeito. Bem, existem aqueles que se encontravam largados por seus amigos e os que nem queriam estar ali. Você olhou para seu namorado e agarrou seu pescoço carinhosamente. Dedicou-lhe uma feição apaixonada. O clima da balada a contagiou um pouco. Queria o carinho de seu parceiro ali. Kirino sorriu de volta e abraçou sua cintura por instinto. Ambos se beijam no meio da pista de dança.
Mas tinha algo errado. Você interrompe o gesto e encara seu rosto. A tristeza o marcava. Demonstrava melancolia e insatisfação. É como se estivesse sendo forçado a permanecer ou tivesse incomodado.
— Ranmaru, o que houve? — Você indaga e dedilha seus dedos pelo rosto alvo do rapaz.
— Nada. É sério, vamos curtir amor. — Ele disfarça e põe uma cara fogosa. Você riu porque sabia seu fingimento.
— Não quero que seja forçado a ficar por minha causa. Viemos pra se divertir e descontrair. — Você alega. Queria deixá-lo confortável e não o contrário. — Agora me diz o que é. Sou sua parceira, não sou?
Kirino esbanja um sorriso meigo e suspira. Começa a te conduzir gentilmente até a área das bebidas, onde pediram um drink para se refrescar. O rosado não bebeu muito, o que é esquisito. Quando iam badalar ele ficava empolgado, não tanto. Na verdade desde o começo de seu namoro com ele, Kirino pareceu ter mudado. Algo lhe dizia que você é o motivo por trás disso, mesmo que ele te alegasse todas as vezes que tudo estava bem.
— Me sinto incomodado. Se importa se a gente ir para casa? — Kirino pede comovido.
— Claro que não! Vamos agora. Mas no caminho você me fala porquê? Você parecia um pouco mais entusiasmado pra vir.
— Ah, nada demais, eu só vi que aqui tem pessoas que se comportam como lixo. — Kirino confessa amargamente e crispou os dentes antes degustar seu coquetel. Você bebeu sua bebida suave e levou o namorado para fora.
Vocês rumaram para seu lar, de mãos dadas, abandonando aquela festa de pessoas sem noção.
❣ ✿ ❣
O raiar da aurora inicia a manhã. Felizmente você não estava de ressaca tomando em conta a pequena quantidade de álcool que tomou. Você acorda mais tarde, pois era pra isso que os fins de semana servem. Quem se importa em aproveitar cada dia de sua vida, quando se existe a procrastinação? Ao abrir os olhos, você pega o celular e como o primeiro ato do dia, manda uma mensagem para seu amado Ranmaru. Especialmente depois da noite tensa de ontem. Essa era a prova de que era uma namorada maravilhosa. Trocando as redes sociais para se preocupar com o rapaz. Quer dizer, depois de conferir seu feed. Vai que tem uma notícia avassaladora na cidade? Hihi.
“Bom-dia minha orquídea da névoa ♥
Tudo bem?”
O apelido se devia por causa do nome dele que significa orquídea em japonês e névoa, por uma de suas Hissatsu no futebol: The Mist – A Névoa. Criativo? Sem sombra de dúvidas. Enfim, você papeou um pouco com seu “marido” via chat e terminaram marcando outros programas para o dia. Alguns simples, outros mais empolgantes e interessantes. Tanto faz para você. Estar do lado da pessoa que te dá amor, é a recompensa de todos os dias. Você fez seu desjejum, a higiene matinal e saiu para desbravar o mundo através de sua casa.
Ao caminhar para encontrar Kirino, você avista uma cabeleira azul cor turquesa ou menta, de olhos avelã, andando com as mãos nos bolsos e de cabeça baixa; a feição raivosa. Você o conhecia por estar no clube de futebol junto com Ranmaru. Era cômico a relação dos dois, no começo, Kariya se portava como o típico indivíduo que se recusa a confiar nos outros para sua própria segurança. Desde o início, pegou no pé e infernizou o pobre Kirino como um mosquito louco para sugar-lhe o sangue. Aprontou muito com a cara do rosado. Até se parecerem inimigos. No entanto, Kariya passou a ter afeto pelo time e ainda mais com Kirino. E que ter amigos era melhor que se afastar.
Porém isso não o impediu de continuar enchendo a paciência de Ranmaru.
Você o cumprimenta como de costume. Já a sua relação com o Masaki é bem contraditória a de Kirino. Sabe aquele colega que parece na verdade um amigo que te conhece há anos? Esse é o Kariya. Surpreendentemente vocês tinham muito em comum e se entendiam. Era fácil conversar com o garoto. Claro, você não escapava de suas gracinhas.
— E aí, campeão, como vai? — Você brinca. Ao te notar, ele sorri fracamente.
— E aí, Senhora Kirino? Vou meio que bem sim.
Você ri divertida. Só ele a chamava assim.
— Mas por que meio bem? Problemas?
Enquanto caminham, ele relata seus dilemas. Kariya era bi. Bissexual assumido. Por sorte, a família do Orfanato Sol, não tinha preconceitos com isso. Até porque ali havia muita diversidade no quesito orientação sexual e até identidade de gênero. Os habitantes dali eram muito bem cuidados e protegidos, pois já não bastavam os dramas familiares, abandono, etc. Dentro de casa é tudo normal. O problema é fora, na rua, na sociedade. Porque sim, eles sabiam, não que o azulado saiu gritando para o mundo que gostava dos dois tipos de frutas. Houve alguns escândalos na vizinhança e como fofoca se espalha ainda mais rápido quando é polêmica, o bairro todo soube. A escola também.
Dos olhares inquisidores da geração mais antiga, aos mais novos que se recusavam a aceitar. Piadinhas, indiretas e diretas e brincadeira de mau gosto. Pelo menos Kariya era forte para enfrentar qualquer um mesmo sendo baixo. Porém ainda se abala.
— Quer desabafar? — Você pergunta dando seu apoio.
— Quero porque estou puto. — A situação deve ser tensa então. — Foi aquela velha irritante que mora na rua de trás. O netinho dela estava brincando no jardim da casa deles e eu passei por ali perto. E você sabe como esse garoto gosta de mim, né?
— É. Ele te chama de irmãozão porque perdeu o dele faz um tempo. — Uma história triste. Kariya foi amigável com o menino e só isso foi o bastante para ele se consolar com o Masaki.
— Só que... A família dele, por saber que eu sou Bi, me acusam de pedofilia.
— Nossa.
— E hoje, ele me viu e me deu um abraço, sabe? Totalmente inocente. Mas aí a vó dele chegou, arrancou o garoto de perto e disse pra eu nunca mais chegar perto dele. E ainda falou: “Vocês não se contentam com o que as leis de deus nos mandam? Que o homem e a mulher são feitor um para o outro e não se pode mudar isso? Porque você quer contaminar o meu neto puro com a sua sujeira?
— Pesado. Muito pesado.
— Em seguida me chamou de servo de satanás, sujo, demônio da luxúria e um monte de coisas. — Você riu com o último apelido e se desculpou. — Eu não falei nada pra me defender porque o menino tava ali perto e aquela velha desgraçada sabia.
— Não podia argumentar? Sabe que quem entende sobre o assunto tem palavras fortes para calar bocas. E outra, você foi acusado injustamente. — Você o conforta.
— Sim, mas pessoas sabem ser ignorantes quando querem e fazem de conta que são cegos. — Concluiu o azulado amargamente. O som de palmas são ouvidas atrás de vocês, que pararam de andar uns segundos ao chegar no ponto de seu encontro.
— Eu nunca achei que fosse dizer isso, mas... Filosofou hein, Kariya. — Um rosado de maria-chiquinhas aparece.
— Ué, tava escondido nos arbustos? Achou que eu troquei de marido? — Você brinca e faz os dois rirem com sua ousadia.
— A ciumenta é você, moça. Eu tava escutando a conversa logo atrás. Vocês falam alto. — Ralhou o Ranmaru.
Vocês se acomodam nos bancos da praça pública e continuaram o assunto.
— Bem, o argumento mais usado por esse povo é que vamos pro inferno; que estamos destruindo a imagem da família tradicional, blá, blá, blá e mimimi. — Kariya confessa, atuando e fazendo caretas.
— É assim mesmo! — Ranmaru concorda.
— A primeira coisa que fazem é colocar deus no meio para nos fazer recuar em nossas decisões e nos oprimir. — Kariya continua esbanjando frustração nas palavras.
— Exatamente. — O rosado concorda com pesar.
— Além de falar que isso é doença e a igreja cura. Eles não percebem o quanto as palavras machucam. E é a mesma coisa com religião, cor da pele, aspectos físicos de alguém. AAAA! As pessoas julgam demais e amam menos! — Kariya enfim termina seu desabafo. Você e Kirino aplaudem com razão.
— Lispector, Masaki – 2018. — Você zoa o chamando de Clarice Lispector, filosofa e escritora renomada.
— É triste, Kariya, mas a gente só pode continuar lutando contra essa pressão. — Kirino abaixa a cabeça. Você muda de assunto.
— E vocês, meninos? Novidades? Kariya tem um novo alvo ou continua atentando o pobre Hikaru? Não é mesmo demônio da luxúria, ou devo te chamar de demônio papa anjo? — Os três gargalham. Kariya geralmente namora pessoas mais novas que ele. Uma coincidência, apenas isso. Também chegou a namorar pessoas mais velhas ou de sua idade.
— Continua fazendo cú doce pro Hikaru. — O rosado responde por ele, que fica vermelho.
— Eu não preciso de um intérprete, senpai! E não! Não tô afim do menino Hikaru. — Kariya rebate e nega.
— Engana que a gente gosta. — Kirino continua. É a vingança pelas provocações do azulado.
— É sério, só o vejo como amigo. — Kariya continua negando e Kirino insistindo. Até o azulado agarrar seu namorado e se iniciar uma briguinha infantil e de mentira. Um sufocando o outro até que alguém peça arrego.
Quando se despediram para você e o rosado terem seu encontro em paz, Kariya deixou a melancolia se apossar de sua face e disfarçou. Você se intrigou, mas pensou no quanto ele estava farto de aguentar os dramas da vida.
❣ ✿ ❣
Se fez uma semana. Você estava frustrada de tanta preocupação. Kariya e Kirino não estavam felizes e você não conseguia desvendar esse enigma. Era por sua causa? O que fizera de errado? De qualquer forma, você caminhou para uma cafeteria para descansar a mente e comer um pouquinho. Estava uma agradável noite.
Você avista uma moça linda. Cabelos cor de mel dourados e olhos verde-floresta; a pele alva, mas rosada. Um sorriso de deusa grega do amor. E alta. A felicidade decorava seu rosto mesmo sozinha na mesa, o oposto de ti. Ao te ver ela leva um susto e vai até você.
— Oi! Tudo bem se eu sentar aqui? — Ela indaga, você permite. Até sua voz era maravilhosa. — E então, o que uma moça tão linda faz aqui sozinha? Deve ter namorado, né?
— Obrigada. Bem, eu tenho sim um namorado. — A intimidade com a que ela te abordou, assustou-lhe.
— E onde ele está? Pode perder a garota perfeita que tem num piscar de olhos! Ou ele é cego? Porque sabe, eu já vi numa novela, o cara era cego e mesmo assim conseguiu uma gata. Acho que era traído...* — O senso de humor da loira a fez rir.
— Que horror! Mas não. Meu namorado não é cego, ainda bem! Só que ultimamente ele me preocupa... — A outra se sensibiliza e indica interesse.
— Por quê?
— Ele anda meio distante... Digo não exatamente distante. Algo o perturba, deixa angustiado. Eu vivo implorando pra ele me contar, mas ele desvia o assunto e deixa quieto... Chego a pensar se não sou eu o motivo.
A outra fica com uma feição que mostrava tanta sensibilidade e compaixão, ao mesmo tempo de uma tristeza tão profundo que pareceu que uma lágrima escapuliu de seus belos olhos. Que pessoa boa. A mão dela pegou suavemente e com carinho a sua. Você levou um susto pelo contato súbito.
— Hey. Jamais seja dura consigo mesma, sem saber o motivo. Não se condene pois isso, não vai adiantar de nada. O que se resolve a situação é conversa e amor. — Aconselhou amorosamente.
— Obrigada de novo... Er...
— Karina.
Desde o começo, você sentiu a confiança nessa moça. Sentiu-se segura. E não se arrependeu de se abrir com ela. Vocês comeram, riram e conversaram mais. Até ela pegar seu braço de um jeito caloroso e te arrastar sem violência.
— Você gosta de balada né? — A conversa tomava um rumo diferente.
— Gosto, mas por quê?
— Por que a gente não curte um pouco?
— O quê?! Você quer que eu traia meu namorado? — Estava começando a se decepcionar.
— O quê? De jeito nenhum! Sem beber, sem intenções. Só curtir como amizade mesmo. Topa? Por favor...
Você estranhou a insistência, mas prometeu a si mesma que se as coisas ficassem esquisitas, sairia correndo e gritando.
Na verdade já estavam.
— Mas essa é...
— Uma balada Gay. Tudo bem pra você? Eu juro que não é nada. Não estou tentando te seduzir nem nada.
— Como eu vou acreditar? Todos os fatos indicam que sim.
— Confie em mim. Caso contrário, pode me bater, xingar. — Você é convencida, mas permanece coma pulga atrás da orelha. — Ah, trouxe identidade?
Karina de fato, cumpriu com sua palavra e ambas se divertiam na balada. Você nunca tinha entrado em uma festa assim. A curtição rolava solta e as pessoas não importunavam as outras. Claro que tinham desentendimentos, mas esta parecia suave. Karina rebolava como uma doida e você só ria. Até ela ser puxada e vocês serem separadas. Você a caçou por entre a multidão uns minutos, mas tinha muita gente. Porém quando a achou. Teve uma surpresa, uma bem grande.
Kariya estava a beijando. E... Seu cabelo virou rosa do nada. Um tom de rosa bem peculiar...
Um rosa de Kirino Ranmaru.
Você se questiona se estava bêbada ou drogada pois não havia sentido naquilo. Como? Onde? E ele parecia estar correspondendo até empurrar o azulado de repente ao notar seu erro. Kariya pede desculpas arrependido e Kirino olha para sua direção. Paralisou ao contemplar seu olhar de choque e confusão. Kariya acompanhou seu olhar e os três ficaram ali extasiados na maior tensão. Até você sair às pressas dali. Não entendia o que se passava e queria um descanso.
O rosado com a resistência maior, te alcançou perante a corrida. Kariya sumiu. Um Kirino de lentes verdes, te olha frustrado. Como você o reconheceu? Seu cabelo era inesquecível. Você tenta se debater e soltar. Queria correr para sua cama e reorganizar seus pensamentos.
— Me dá uma chance de explicar. Ao menos uma. — Seu olhar fita o chão sem falar nada. O que significa tudo aquilo? Estava sendo traída e feita de palhaça? Imperdoável. — Eu devia ter te falado antes. Eu sou gen — Você o corta.
— Falado que estava me traindo?! E ainda por cima com o Kariya?! É o quê? Complô contra mim? Você nunca me falou que era Bi ou Gay, Sei lá!
— Não é nada disso! Eu sou gênero fluído. — Kirino enfim admite. Você arqueia uma sobrancelha desentendida.
— Como assim?
— Eu me identifico como um indivíduo que o gênero flui constantemente. Isso quer dizer que me sinto um homem num dia e no outro, uma mulher. E as vezes a frequência de cada fase aumenta ou diminui. Dias, horas, semanas. E tem dias que não me identifico com nenhum e outros com os dois.
— Ainda não entendi. O que isso tem a ver com a situação, Kirino? — Você pergunta em confusão. Por acaso ele estava te fazendo perder o foco da raiva?
Ele te pede para ir até um restaurante de Ramen e pergunta se estava com fome. Você diz que não o olhando com ódio, mas ele tenta te pedir para você se acalmar e para que você escute atentamente sem interrompê-lo. Depois Kirino responderia todas as suas dúvidas.
Um suspiro cansado e frustrado sai do rosado. Se preparava pra recomeçar.
— Eu estava falando que sou gênero fluído. Você entende o que eu expliquei antes?
— Bem. Acredito que sim.
— Vai compreender melhor mais tarde. Então... Você sabe que pessoas não Héteros, são oprimidas e desprezadas pela maioria, né? As pessoas não aceitam isso. Não só apenas sexualidades diferentes, como identidade de gênero, que é algo ainda mais complicado. — Kirino passa a mão nos cabelos e abaixa o olhar. — Na sociedade de hoje, somos obrigados a nos esconder, vezes fingir quem somos; ficar em silêncio porque temos medo do julgamento. Ou seja, não podemos ter liberdade de expressão direito. O que quero dizer é que muitas vezes que me sinto feminino, sou obrigado a ser masculino. Tipo quando fomos naquela balada. Não consegui aproveitar e me senti um intruso ali. Além da pressão.
— Mas... — Você quase o interrompeu, mas relembra o que ele disse. Kirino não escuta seu murmuro.
— Quando começamos a namorar, não tive coragem pra te contar tudo com medo de te perder. No início pensei, ela não me merece e nem o meu amor, se for como os outros. Porém eu vi que não. Você não é. Aceitou Kariya muito bem. Eu prezo isso.
Você sente o coração amolecer, mas não podia se deixar encantar por elogios e se tornou séria atenta aos detalhes.
— Mas bissexualidade é um assunto mais conhecido pelas pessoas. Fiquei hesitante sobre contar e continuei ocultando a verdade até criar coragem. Porque eu notei que você é preciosa pra mim e eu não queria te perder cedo.
— Eu nunca imaginei... — Você finalmente se contagia com a tristeza do relato.
— Por isso, eu faço crossdress às vezes e me visto como uma mulher, escondido. Só queria que você me aceitasse assim. Pra gente sair junto os dois curtindo de verdade mesmo.
— Devo acreditar? — Você se auto indaga, ainda duvidosa.
— Todos não vivem me perguntando por que eu uso maria-chiquinhas? Não é só pelo meu cabelo grande. — Kirino é irônico. E meio debochado.
— Tá... E Kariya? — Você estava se coçando para saber onde o azulado se enfiava ali. Traição é algo complexo para se perdoar facilmente.
— Sabe como ele é. Vive me atormentando e um dia descobriu, quando fomos pra mesma festa e ele me reconheceu. E depois eu fui obrigado a contar pro dito cujo. Mais tarde o idiota se apaixonou. Apesar de que ele já tinha um crush por mim. Eu sabia.
— Você pareceu corresponder na hora. — Acusa friamente. A cabeça em confusão.
— ...Sim. — A afirmação de Kirino só a fez arregalar os olhos. — Socorro, me apaixonei pelo Kariya.
— E você ainda admite na minha cara? Acha que não tenho sentimentos?!
— Eu sei que você tem. E são os mais bonitos que já vi. — Kirino confessa docemente, olhos de paixão em sua figura. Você queria gritar.
— Mas que? Eu não entendo nada! Primeiro fala que tá apaixonado por um cara e depois age como um cachorrinho atrás de mim?
— É muito difícil explicar... Não sei se devia ter contado ou se daria na mesma. — Kirino se lamenta.
— Mas afinal, você me quer ou o Kariya?
Sua pergunta fica em pleno ar e uns segundos misteriosos devoram o ambiente entre vocês.
— Eu quero os dois, meu amor.
❣ ✿ ❣
Foi necessário um tempo pra pensar. Diante de tantas emoções reverberando sua mente, dúvidas, você não sabia qual ação tomar. Foram muitas informações jogadas em seu cérebro. Primeiro, seu namorado é gênero fluído e não te contou. Teria terminado com ele, se tivesse descoberto antes? Seria uma hipócrita concordando com as opiniões sobre a sociedade que todo mundo critica, mas estaria julgando como eles. Que destroem os sentimentos de pessoas inocentes, que nada faziam se não apenas lutarem pra viver pacificamente.
E quanto a Kariya, estava decepcionada. Ambos possuem uma relação de muita confiança para se abrir e confiar seus problemas um ao outro sem se arrepender. Achava essa amizade tão especial e bonita... Você ficava feliz em ser a pessoa que ele escolheu ser amiga. Como o Masaki podia fazer isso contigo? Te apunhalar pelas costas vendo que você o aceitou em seu coração?
Sua cabeça girava em puro caos.
Kirino nunca mostrou que era ser transgênero. Não, o nome era gênero fluído. Puxou da mente a explicação que o Ranmaru lhe deu. Não tinha ouvido muito sobre o tema e era leiga. Mas como assim uma pessoa podia variar de gênero? Tipo, hoje ela se sente mulher e no outro dia, homem? Espera. Ele também disse que às vezes se identifica como ambos. Vezes como nenhum!
Era bem complicado para alguém novo no assunto. Porém você se recordou da feição alegre que Kirino demonstrou enquanto estava do jeito que queria. Às vezes garoto, vezes garota, etc. Não era uma falsa alegria. É como a sensação de tirar o sutiã ou o salto alto depois de muito tempo. Como um conforto. Ao menos é a feição que ele mostrou nas poucas vezes.
Não queria se afastar dele, mas não sabia se era correto exatamente.
A campainha de sua casa toca e você vai atender tranquila por se livrar daqueles pensamentos por enquanto. Isso até seus olhos se encontrarem com o de um Masaki sério. Sua têmpora pulsou. Você se manteve quieta até ele tomar a palavra.
— Eu quero pedir desculpas. — Um suspiro de tristeza é expirado.
Demorou um bom tempo até você concordar em ter uma conversa civilizada com o Masaki e não sair xingando ele aos quatro ventos e fazer um barraco ali. O motivo era simplesmente que se importava muito com o azulado para fazer isso. Possui um carinho e amor pelo tal, que nem você podia definir ao certo. Jamais conseguia brigar seriamente com o azulado. Kariya alega que foi totalmente culpado por deixar as emoções lhe dominarem. Não te agradou ele tomar toda a culpa, mas você foi enganada pelos dois e estava machucada ainda. Foi difícil engolir e o perdoar, porém você o fez. Ele ouve seu lado da história e todos as cenas acontecidas.
— Então você não sabe o que fazer? — Masaki perguntou perdido.
— Essa situação me parece... Incomum. — Sua boca toma cuidado. A última coisa que queria é causar outro problema e estragar ainda mais as coisas. Muito menos ofender.
— Como assim? Coisas novas te incomodam? — Kariya acusa e você recua. Não se tratava de preconceito.
— Não. Só me deixa... Com medo.
— Do quê? De como será o julgamento das pessoas?
— Não. Eu nunca me importei com opinião alheia. — Você se sente incomodada com a pressão. Não queria cometer erros e perdê-los por palavras mal colocadas. Seu nervosismo não ajudava. — É que tipo, não vou estar fazendo algo errado?
— E por acaso amar é errado? — Kariya te surpreende. — Você está amando Kirino não cometendo um crime. Portanto para de besteira, a identidade de gênero dele não te impede de o continuar amando. Ou impede?
— Eh? Claro que não. — Kariya estava acusador, mas vendo que você continua hesitando em tomar uma decisão, te pressiona mais. E lhe dá uma ajudinha.
— Olha, depois de perceber que me apaixonei pelo Kirino e pela Karina, percebi que sou Pansexual. E não. Não quer dizer que eu quero transar com panelas ou pandas! — Kariya descontrai e você ri fracamente. — Significa que eu amo qualquer pessoa. Também não quer dizer que sou um ninfomaníaco. Qualquer indivíduo que eu tiver um sentimento ou conexão amorosa, irei dar e receber carinho. Independente da aparência e gênero.
— Eu apenas queria que as coisas voltassem como eram. — Você desabafa melancólica.
— Não é difícil...
Kariya se aproxima de você, cortando aquela distância considerada segura. Invadiu seu espaço pessoal, mas você não se importou. Ele já fez isso várias vezes. Ambos também tinham um afeto íntimo. Mas... Depois do que ocorreu, seu coração também passou a enxergar Kariya de um modo diferente. Colocou as mãos dele por cima da sua. Começou a passar um agradável calor ali, que a fez automaticamente fitar seu olhar maroto.
— Você apenas precisa abrir seu coração para coisas novas.
Kariya te dedicava um sorriso malandro e uma piscada gentil. Você sente um calorzinho bom e ao mesmo tempo te dava nos nervos. Especialmente nas maças do rosto. Espera, seu peito palpitava? Talvez fosse impressão sua, mas Kariya tinha chegado mais perto ainda.
E ficou ali, logo depois ficando abraçado a ti um bom tempo.
❣ ✿ ❣
Aquele sentimento... Não podia ser realmente que estava enxergando Kariya de outra maneira; com outros olhos. Não olhos de amigo, olhos de paixão e desejo. Você quis se amaldiçoar por estar sendo escrava daquelas emoções impulsivas e destruidoras. Ao mesmo tempo deliciosas.
Três semanas judiaram de seu coração. Queria aqueles tempos de volta. O mundo estava tão vazio, escuro e sem cores. As palavras dos homens de sua vida, giravam e giravam em sua cabeça.
Mas porque hesitar? A resposta é simples: Amar e não olhar para os lados, nem para trás. Até quando iria deixar os pensamentos complicados que a sociedade padronizou, lhe privar da felicidade? Dane-se o que era correto para uns e errado para outros. Apenas você sabia o que é melhor para sua vida.
Então uma decisão foi tomada.
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Você reúne seus amados em sua casa. Sim, são dois. Seu amor conseguia ser dividido para ambos. O nervosismo e a nuvem negra de melancolia, tomava a expressão de Kirino e Kariya. Apenas você estava risonha e com o sorriso manhoso de um gato.
— Tenho uma proposta. — Os dois ficam quietos aguardando seu mistério acabar. Você se refere a Kariya e aponta para sua figura. — Kirino, você disse que queria nós dois, certo?
— Bom, sim. — O rosado estava se segurando pra não agarrar vocês dois ali mesmo.
— E Kariya me falou pra abrir meu coração.
— Certinho. — O azulado responde, menos tenso que o outro.
— Então. Eu sugiro que nós três procuremos a felicidade juntos. Tudo bem? — A cara deles foi cômica, só Kariya que não tinha tanto susto. Kirino estava desacreditado.
— Então finalmente você entendeu. — Kariya estava satisfeito.
— Se eu aceito? Fui eu quem teve essa ideia, sua copy cat.
Kirino brinca e aquele drama foi resolvido. Vocês três se abraçaram e uma sessão fofa de beijos conjuntos se iniciou. Um beijava o outro, que recebia um selinho do lado, que via o próximo lhe beijar apaixonadamente.
Num mundo onde aceitar é difícil, é preciso ser amado para não procurar outras coisas como sinônimo de alegria ou uma falsa felicidade, pois cada um desfruta essa emoção a seu modo. Não é dever de ninguém julgar. Não irá fazer o mundo melhorar. Não é errado amar, mesmo sendo algo conjunto com mais de duas pessoas.
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