A Chance for You
76 Atitudes - Shirou Fubuki
Notas iniciais
“Eu irei te mostrar uma atitude, mas não para esfregar em sua cara e sim porque não aguento mais esses sentimentos reprimidos.”
Nossa infância juntos foi uma brincadeira maravilhosa, doce e meiga. Você me chamava de irmãzinha e me carregava nas costas, implicava comigo, mas não suportava a dor de ficar muito tempo sem trocar palavras comigo assim como eu. Ainda não era época de malícia, de fazer idiotices, nem se preocupar se o outro estava pensando em você. Não era aquele amor ardente que fazia seu coração queimar feito uma fogueira, com o mínimo toque entre ambos. Até com um olhar. Era somente um afeto delicioso e totalmente fraternal. E se eu pudesse controlar o tempo, congelaria nossos momentos ali para evitar de passar tanta angústia; evitar a evolução daquele sentimento.
Mas é como dizem, a gente cresce.
O amor também.
Você esteve ali quando eu precisei. Atendeu todos os meus chamados. Seja de dia, tarde, noite e até de madrugada. Para ouvir meus soluços chorosos; ver minhas lágrimas delinearem meu rosto ou comprar absorvente – mesmo com toda a vergonha e timidez, que eu julgava seu pequeno charme – e eu, oferecia meu ombro amigo com prazer. Pedia suas emoções, não através só de palavras, consolo, gestos. Qualquer coisa que você dissesse com toda a sua sinceridade e honestidade, era um tesouro. Eu só não queria que você sofresse suas dores pessoais em silêncio, sendo que eu estava ali para amenizá-las. Atsuya também faz parte de meu coração, meu carinho por ele é diferente. Eu zelava – e ainda zelo — por seu bem estar e seu amor.
Nós três tivemos momentos de ouro. Por vezes simples e por vezes grandiosos tanto a primeira Hissatsu que vocês aprenderam, quanto minhas conquistas. Tivemos momentos tensos, como quando assistimos Atsuya chorar, o que julgávamos ser impossível; quando você quase não suportou a pressão da sociedade e cometeu uma besteira; os deslizes que me arrependo e as coisas que precisava ter feito. Os que eu mais detestava eram as fases em que arremessávamos um ao outro, palavras que perfuravam até a alma; venenos, que tinham efeitos quase sem cura em nossas mentes desequilibradas. Nós nos machucamos...
Em meio a tudo isso, notei um aquele mesmo amor, que apenas eu e você sentíamos – sem Atsuya – se tornar algo fora de meu controle. Fora de minha zona de conforto, mas que eu queria me aventurar, mesmo sabendo dos riscos. E na realidade, talvez foi aí o erro fatal que cometemos. Eu te pressionei, quase implorei para que você me amasse. Isso o deixou confuso. Você não sabia distinguir os tipos de amor. Ainda me encarava como a irmãzinha de anos antes. Eu não admitia sofrer tanto. Minha confissão ajudou a piorar as coisas. Nossa relação se transformou em brigas feias, provocações ridículas do tipo de tentar fazer ciúmes no outro. Diretas e indiretas que de nada serviam se não, nos fazer mal.
Enquanto isso, Atsuya foi quem me deu o apoio necessário.
Eu confundi isso com amor distorcido graças a minha falta de carência. Como Atsuya já tinha um crush em mim, nos rendemos a tentação e o poder de nossa imaginação fantasiosa. Os três mentíamos, enganávamos nossas emoções e sentidos. Eu tentava ver a sua imagem me beijando com desejo; você tentava ignorar o que sentia, seja por medo, receio, falta de confiança; Atsuya se fazia de cego acreditando que eu o amava ou que seria capaz de me fazer amá-lo. Um maldito triângulo.
Esperei, esperei uma atitude sua que nunca veio. Cada vez mais nos iludíamos, mas contanto que isso continuasse, estávamos satisfeitos com essa situação deprimente. Shirou... Isso se estendeu até o ponto em que aceitei me casar com seu irmão! Tá legal, cometi um erro dizendo sim, mas quando você soube, não fez nada. Como pôde? Eu chorei por você e tentei te esquecer. Quis me amaldiçoar no dia do casamento por estar no altar com meu noivo e querer que outro homem invadisse a igreja. Mais especificamente naquele momento: Se alguém aqui não concorda com essa união, fale agora ou cale-se para sempre.
E você se calou por anos...
Na verdade só veio na festa de cerimônia.
Tentei viver feliz com seu irmão. Atsuya pode ter seus defeitos, mas não sou hipócrita de ignorar suas qualidades. Eu soube aproveitar os bons momentos. Entre eles, os dois filhos lindos que hoje são minha vida. Porém aquela falsidade no nosso casamento não estava trazendo alegria as nossas crianças. Nossa união, um horror! Frustração, discussões frequentes. Um amor esquecido. Meu sentimentos por você ainda era vívido. E por Atsuya eu sentia pena porque ele me amava de verdade.
Você sumiu. Evitou contato conosco para evitar sofrer mais e eu também. A relação de irmão que vocês tinham, ficou tensa por minha causa.
O que quero dizer com tudo isso, é que nenhum de nós três quer continuar assim. Atsuya e eu nos divorciamos. Foi duro encontrar um modo de contar as crianças, mas elas já aceitam melhor hoje em dia. Estou partindo de Hokkaido e indo para Fukuoka.
Tudo isto...
Para te encontrar. Então me espere, Shirou.
Com amor daquela que você provavelmente nunca esqueceu.
❣ ✿ ❣
Você atravessou mais da metade do país inteiro. E fitava o rosto nervoso de Shirou em sua frente, sentado no sofá da própria casa. Talvez ele estava em choque de te ver, mais por tudo o que sua carta dizia.
— Por que você — Fubuki parecia extasiado.
— Eu vim resolver as coisas. — Você responde o interrompendo sua fala. Shirou e você beiravam entre seus trinta e poucos anos. Ainda eram jovens, mas essa novela mexicana perdurou tempo o bastante.
Ele não desvia o olhar dos seus. Depois daquelas palavras, você não teve tempo de se incomodar com o breve silêncio instalado. Apenas se concentrou em sentir a boca quente do príncipe do gelo, dentro da sua e vice e versa. Desespero dominou aquela cena. Fazia anos que a angústia os devorava. Nenhum ficante, namoro ou sexo sem compromisso foi capaz de apagar a chama que existe desde o nascimento de ambos. Nem cortar o Akai Ito que unia suas almas antes trágicas.
— E agora eu estou tomando a atitude que devia ter tomado por nós.
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