A Chance for You
64 Entre Luz e Sombra - Saryuu Evan
Notas iniciais
“Luz e Trevas nunca poderão ficar juntas. Porém há sempre um jeito das coisas terminarem bem mesmo que seja de uma forma meio trágica.”
Seu quarto é enorme, diria que do tamanho de três cômodos grandes de uma residência, piso bem polido e cuidadosamente límpido, tanto que é possível ver seu reflexo nele. Paredes de uma cor que agradava; a tonalidade clara. Móveis esculpidos com a mais pura madeira, brilhavam por causa da resina, mas mantinham o cheiro da árvore de carvalho. Luzes incandescentes deixavam o dormitório ainda mais iluminado.
Tudo o que você gostava estava ali, milhares de objetos que a entretém e tiravam-na do tédio. Desde os simples, moldado do material mais barato e fácil de se encontrar, aos mais tecnológicos aparelhos da última geração ou até da seguinte. E sempre que enjoasse de tudo, poderia pedir outros. Não importava qual, sempre ganhava de presente. Era justamente por isso que seu quarto tinha medidas colossais.
Um suspiro desanimado exalta sua frustração. Não se lembrava de como, nem onde nascera, mas desde que se conhece por gente, seu lar era aquele laboratório. Atravessando a única porta do quarto, cientistas, pesquisadores, filósofos e muitas outras pessoas de classes importantes faziam seus experimentos. Desconhecia como eram feitos, apenas sabia que se tratavam de melhorar a situação do planeta Terra.
À cerca de dez anos atrás, uma calamidade quase extinguiu a raça humana. Apesar da vitória proeminente dos humanos, ainda havia muito o que guerrear. Fome, seca, devastação dos recursos naturais e consequentemente, suas capacidades de se recompor através de um ciclo. Tardou um pouco até todos conseguirem se reerguer. Porém recuperaram o ritmo e a vida voltava na Terra, mesmo que ainda faltasse um longo caminho até ser pelo menos um terço do que era antes.
Todavia, mais uma vez a calamidade veio. Dessa vez trazendo seres extraterrestres, que pelo que se descobriu, foram os causadores do primeiro desastre, eles se denominam, Tenebris. E por coincidência, é uma palavra do latim e significa Tenebroso. O motivo deles terem feito o que fizeram e retornar depois de anos, é uma mistura de vingança e necessidade.
A cada vez que os humanos evoluíam, descobriam mais coisas, possibilidades surgiam, portas se abriam. O nível de evolução foi exageradamente alto, tanto que finalmente descobriram como manipular o tempo e suas linhas temporais. Burlando as leis da física, eles construíram máquinas onde se podia viajar em momentos passados, aparelhos que parassem, avançassem e até incrementassem coisas que não deviam existir naquele momento específico do presente. E o pior de tudo, disponibilizaram para todas as pessoas. Qualquer um poderia usufruir e brincar com o tempo.
E o público extrapolou desse poder. Mais do que o devido. Pessoas foram ressuscitadas, da mesma forma que outras foram impedidas de morrer. Milhares de erros foram corrigidos contra as leis naturais. Com todas estas modificações constantes, linhas do tempo alternativas e paradoxos absurdos, aconteceram. Aparentemente o universo foi prejudicado até afetar dimensões, galáxias, planetas e por fim, criaturas.
É aí que os Tenebris entram. Sua galáxia foi destruída, mudada, misturada além de outros efeitos colaterais diversificados, até se colapsar. Os sobreviventes desse incidente bizarro, que por um milagre escaparam das garras da morte, conseguiram partir para a Terra, buscando exterminar os humanos incompetentes e irresponsáveis não só com o objetivo de se vingar, como de proteger o resto do universo contra as pragas que a espécie é, de acordo com palavras dos próprios Tenebris.
As guerras intermináveis desolavam os restos do planeta. Os Tenebris, apesar de perderem tudo pela imprudência dos humanos, ainda eram uma espécie dominante. Nos quesitos força, tecnologia e inteligência, derrotavam os humanos sem esforço. No entanto, os terráqueos não ficam para trás, tinham suas artimanhas e usavam a estratégia de bater e correr para sobreviver e ganhar tempo.
Desesperados, os cientistas humanos investiam de corpo e alma, em busca de criar armas, sejam biológicas ou não, até em soldados androides, sendo qualquer tentativa em vão. Frustrados, inventaram mutantes. Humanos geneticamente modificados, que nasciam tendo poderes. Estes enfim, mantiveram os lados da guerra equivalentes. Infelizmente, algum dos mutantes se uniam com os inimigos ao ver que estavam do lado perdedor ou por ver que não valia a pena.
Contudo, quando a esperança dos terráqueos desvaneceu, um mutante criado veio para decidir o destino de cada um. Um ser com poder imensurável. Você.
Você era o ponto de luz daquele caos e todos viam em ti, a chave para buscar a paz ou a ferramenta que qualquer indivíduo pode usar para ser um deus. Porém seus poderes não haviam despertado. Portanto a mantinham resguardada num laboratório. Este por sua vez de localização confidencial e protegido com exímia cautela. Porque você é a carta na manga dos humanos.
Um ruído faz sua atenção ser dirigida para a única porta daquela habitação. Uma pessoa adentra o cômodo. Você logo trata de ficar despreocupada ao constatar que era Maya.
— Bom-dia, senhorita. — A mulher se aproxima caminhando lentamente em direção à sua cama depositando uma bandeja de comidas saborosas em cima da escrivaninha ao lado.
O aroma estava ótimo e lhe dava água na boca. Na hora da janta sempre lhe era preparado o que gostava. A mulher se senta na beirada, descansando um pouco. Você rapidamente se posta ao lado dela, pegando a bandeja. Enquanto se alimentava, percebeu uma constante mirada. De fato, sentiu-se incomodada. Ela, notando seu constrangimento, desviou o olhar. Já seus olhos, pousaram-se nela, analisando-a de perto.
Maya é uma mulher de vinte e sete anos, estatura média, em torno de um metro e setenta e dois. A pele pálida como papel, a deixava com um aspecto vampírico em conjunto com os membros esguios. Os olhos são cinzentos e as madeixas lisas escorridas possuem a mesma cor. Seu olhar não tinha brilho e combinava com as expressões indiferentes e sem vida. Corpo totalmente desprovido de curvas. Por último, olheiras escuras adornavam-lhe o rosto destacando ainda mais o cansaço proveniente de seu trabalho extenuante.
Isso porque Maya é uma das cientistas do local. Atua na área de criação e estudo de armas, cuja tarefa é inventar ferramentas de combate inovadoras, com diversas utilidades e ainda pesquisar sobre as que os extraterrestres utilizavam. Sua roupa é constituída do clássico jaleco branco e uma calça jeans pouco justa e surrada, tênis All-Star branco-amarelados também gastos. Apesar de sua personalidade fria e séria, ela parecia se importar com seus sentimentos de frustração ao ser obrigada a ficar reclusa ali, ou ser tratada como um mero objeto. Diversas vezes, Maya estava à seu lado ouvindo seus desabafos atentamente. Aconselhava como podia e seus pedidos de ajuda sempre são atendidos por ela. É a única que zela por você a ponto de sempre perguntar se tinha alguma necessidade física ou apenas queria sua presença com o intuito de fazer-lhe uma generosa companhia.
Na verdade, todos se preocupam com seu estado físico e mental, porém é notável que o sentimento deles não é por sua pessoa e sim por seus poderes. Qualquer coisa que afetasse a única esperança da Terra, é motivo de desespero. Maya, pelo que dissera, tinha jornadas de trabalho exaustivas, que requerem toda a sua dedicação e tempo. Portanto o horário de sua visita é curto.
Porém, a mulher sempre dá um jeitinho de vê-la uma vez ao dia.
Terminando a janta, você deposita os utensílios da refeição na bandeja. Maya volta a te observar, não tendo outra coisa interessante pra fazer. Você decide puxar assunto, visto que ela ficaria quieta. Um fato, ela quase nunca abria a boca. Deixava que você tomasse a iniciativa de conversar. Essa atitude provavelmente era pra não te incomodar caso não estivesse com vontade de falar.
— Maya. — A mulher murmura um “hum” indicando que ouvia. — Você tem namorado?
Ela deu um risinho fraco. Logo disfarçando. É raro vê-la sorrindo abertamente, talvez por seu ambiente exigir uma postura séria, ou algo relacionado a sua vida pessoal. Acho que nunca saberia. Maya não comentava sobre seu passado pois não lhe importava.
— Por que a pergunta de repente, senhorita? — Seu timbre era calmo como um vento leve, mas você conseguia identificar o toque amável debaixo da frieza.
— Só curiosidade. — Responde num sorriso fraco.
— Bem. Os homens realmente não têm olhos pra mim. Sou uma mulher desinteressante.
— Tenho certeza que é porque passa o dia inteiro na sala de pesquisas. — Você refuta, tentando aumentar sua autoestima.
— Você sabe que não. — Maya rebate. E você não insiste em argumentar. Ela não mudaria de ideia.
Ambas ficam em silêncio e você se põe a pensar. Tinha sede e vitalidade para gastar e sua vida estava passando entre aquelas paredes. E a troco do quê? Por causa da incompetência dos seres humanos, que não eram capazes de resolver uma situação em que os dois lados estivessem de acordo. Seu destino fora decidido sem o seu consentimento. Tinha que viver sendo a marionete dos outros. De fato, foram eles que a criaram e portanto, era natural que pensassem em te manipular de acordo com seus motivos, especialmente porque você veio ao mundo em prol de ajuda-los a garantir a vitória.
Mesmo assim! É sua vida que está sendo usada. Não importa se é mutante, ou humana. É um ser vivo, com emoções, sentimentos, não uma ferramenta. Até quando iriam te controlar? Pra agravar seu caso, não é à toa que desgostava de todos daquele laboratório, com exceção de Maya. Uma vez num de seus passeios autorizados, pelo jardim artificial do lugar, escutara uma conversa entre dois cientistas.
Falavam sobre seus poderes de maneira ambiciosa. Que nunca houve um tipo de força equivalente e que era um desperdício tanto poder estar numa forma de vida tão fraca. Mas sem dúvida o que te afligiu, foi que no resto da conversa, os dois fizeram planos de obter sua força.
Porém Maya sempre te protegeu.
Outro detalhe angustiante é o que ocorreria se finalmente os poderes despertarem. Diziam-lhe que os Tenebris perderiam, mas como exatamente? Você especula que teria que mata-los, fato que temia. Por um lado, entendia a dor dos extraterrestres. Estavam quietos sem incomodar ninguém e de repente perderam tudo. É aceitável quererem vingança. Foi injusto para eles e outros planetas prejudicados.
— Maya... O que acontece quando eu finalmente usar toda a minha força? — Indagou sem cerimônias. Os olhos cinzas da moça voltaram-se para os seus e logo tornaram-se pensativos.
— Bem... Analisando a anomalia de seu organismo em captar fótons e comprimi-los... — Você segura a cabeça com as mãos, quase arrependendo-se de perguntar aquilo. A resposta da mulher demorou cerca de dez minutos e foi repleta de palavras complexas e científicas as quais chegou a duvidar se realmente existiam. Praticamente tudo o que ela dissera entrava por um ouvido e saía por outro. — Certamente, seu corpo não suportaria a liberação desses bilhões de fótons de luz, a energia faria você explodir como uma super nova.
Maya, exclamou um “Ah!” elevando um pouco sua voz serena. Levou a mão à boca e a tirou rapidamente, disfarçando. Somente ao falar a última palavra, notou que revelara algo que não deveria. Seus olhos se arregalaram, à medida que processava a informação. Quando compreendeu, um ligeiro pânico a dominou.
— V-você... Quer dizer... Que eu vou morrer? — Indaga hesitante, voz gaguejando, coração apertado, torcendo para a resposta ser negativa. No entanto, Maya te olhou apreensiva, sem saber o que dizer. Você levou as mãos à cabeça, refletindo se ouviu bem, enquanto tentava inutilmente se acalmar.
— Não se preocupe. Eu vou encontrar um jeito do seu corpo ser resistente. — Maya deposita uma mão em seu ombro e te observa com firmeza. — Prometo.
A mulher sugere que você deva dormir. Sem opção, acata o pedido. Maya se afasta lentamente, enquanto esperava a porta se abrir, dedicou-lhe um sorriso confortador, como se dissesse que tudo vai ficar bem. Ela desapareceu no meio da escuridão e a porta se fecha automaticamente. Você apaga as luzes e se aconchega entre os lençóis e cobertas da cama, mas custa a pegar no sono.
Há tantas coisas que queria fazer...
Seria injusto morrer, se sua vida nem havia começado. De certo que a Terra estava desolada, porém mesmo assim deseja explorá-la, apreciar um ambiente com sua vista e gravar pela própria memória, lembranças do lugar e não através de cenas cinematográficas, nem em livros digitais. Aliás, gostaria muito de tocar um livro de papel, pois só ganhava os tecnológicos. Queria sentir o cheiro de folha nova ou desgastada; a textura lisa ou áspera; admirar as belas capas.
Coisas muito simples, talvez fúteis, mas significativas para uma criatura que jamais viu o céu azul límpido, nem pisou na grama verde e pinicante, sequer ouviu de perto o som das ondas marítimas, se quebrando na orla da praia. A sensação de conhecer uma pessoa nova, ou se irritar com outra a ponto de xingá-la. Sentir que alguém lhe ama e você poder demonstrar o mesmo. Amizade; família; paixão; alegria. Agora esses sonhos foram-lhe arrancados tão bruscamente...
Já não mais possuía a perseverança para correr atrás deles. E mesmo com a promessa de Maya, ainda tem a sensação que, de um jeito ou de outro, seu futuro será ruim. Afortunadamente, o sono te inebriou antes que sua mente se apoderasse de maus pensamentos.
Não houve tempo de dormir profundamente, um estrondo a interrompeu em seu leve estágio do sono. Seu coração acelerou pelo breve susto, fora um barulho altíssimo, voltaria a fechar os olhos se não fosse mais um som impactante, junto de uma tremida vinda do chão.
Usufruindo de sua audição, pôde constatar que veio do andar de baixo. Exatamente próximo, porém não tanto pois o cômodo é extremamente seguro, sendo complicado de adentrar. A única porta pesava toneladas e era feita de um metal resistente. Possuía várias trancas tanto do lado de dentro, como de fora e todas têm uma combinação ou padrão diferente para destravar. Do lado externo havia detectores de retina e biométricos, portanto só os autorizados entram. E câmeras de vigilância estão por toda a parte.
Os sons continuavam se alastrando cada vez mais pelos andares; pelos corredores, se tornando mais agressivos e altos. Você decide pular da cama e trocar a roupa para uma eventual emergência. Não havia escolha se não esperar a confusão cessar.
As trancas destravam rapidamente. Você pega um objeto e o mantém em posição de ataque. Parece uma eternidade até a porta ser aberta e revelar uma mulher de cabelos cinzentos. Maya entrou como um relâmpago e com a mesma rapidez, se virou, terminando de trancar a porta. Apesar da mesma fechar-se automaticamente, Maya queria acelerar o processo. Um suspiro longo de alívio exala de seus pulmões. Caminhando até ela com tranquilidade, você preparava pra perguntar o que acontecia lá fora, quando levou um susto novamente ao ver Maya de frente.
Sua roupa estava ensopada de sangue fresco, proveniente de dois cortes horrendos. Um deles na linha horizontal, cortava a barriga, o outro partia da clavícula direita indo em direção ao tórax esquerdo, aproximando-se do coração. Ambos eram profundos. Maya se deixou cair sentada no chão, escorada na porta metálica, a duras penas tentava respirar. As expressões se contorciam em dor, enquanto mais sangue jorrava.
Você ficou um minuto em choque e até segurou a ânsia de vômito. Porém, logo recompôs a postura e corre para ajudá-la. Infelizmente não havia nada que você pudesse fazer. Sua pouca experiência em primeiros socorros e emergências, te falava que antes de tudo, precisava estancar o sangramento. Sendo assim, você rasgou alguns tecidos e envolveu-os ao redor de Maya.
O trabalho não resolveu o problema totalmente, pois os cortes teimavam em sangrar. Você vai até sua escrivaninha e pega um celular, discando um número. Quatro tentativas foram em vão, chamava diversas vezes até a linha cair.
— Droga! — Você resmunga, discando pela quinta vez. — N-não se preocupe, Maya! Você vai ficar bem.
Sua fala transpassou incerteza. Já estava ficando em pânico. Uma poça vermelha se formava debaixo da mulher.
— O laboratório... — Seu olhar aflito se concentra em Maya, que falava quase de forma inaudível. — F-foi invadido. Não se preocupe comigo... Os Tenebris...
Você desiste das ligações e dá atenção à mulher. Ela dizia coisas desconexas e sem sentido. Não conseguia falar claramente, o que deixou-lhe em pânico. Isso significa que ela perdia a consciência.
— Maya? Está me ouvindo? Tente ficar acordada, olhe pra mim!
Você segura o rosto dela, repetindo a ordem sem parar. Mas cada vez mais, sua respiração ficava fraca, a pele perdia mais cor e estava gélida. Já não agoniava como antes. Seus olhos lacrimejaram, enquanto tentava a todo custo manter a esperança de que ela ia sobreviver. Depois de todo esse tempo, ela é sua única amiga, uma irmã mais velha e até protagonizou o papel da mãe que você nunca teve.
A única pessoa que abriu o coração para te receber, estava morrendo. E você não podia fazer nada.
Maya, utilizou o resquício de suas últimas forças para lhe dar um abraço fraco. Você chora descontroladamente, tinha medo de tudo, do que iria acontecer. Ao pé do ouvido, sussurrou: “Você vai ficar bem”. Fez isso como se quisesse confortá-la.
O tempo passou. A baderna lá fora, continuava. Explosões, gritos e passos desesperados, não se sabe quanto tempo você permaneceu abraçada ao corpo inerte de Maya, choramingando. Nem percebeu quando ela parou de sussurrar, nem sentiu a que horas seu coração deu o último batimento.
Uma das paredes de seu quarto é destruída formando um enorme buraco. Dele, saíram umas criaturas que não eram familiares. Julgou ser os Tenebris invasores, pelas roupas negras que usavam e também pela aura negra e anormal que deles emanava ou seja, seus poderes. Que os ajudaram a entrar no cômodo.
Você deu uma breve olhada para aqueles seres. Curiosidade adornava seu rosto, nunca tinha visto um Tenebris. Eles pareciam se assemelhar muito com os humanos. À medida que os olhares se encontravam tensamente, um deles caminhou em sua direção. Possuía os cabelos brancos como a neve do inverno e os olhos, você pôde confundir com a cor preta de início, mas cada vez que ele se aproximava, foi possível avistar um brilho roxo se destacando. Diria que a tonalidade certa seria violeta. Sua expressão é séria e fechada com um cenho franzido. Tem um toque maligno, que a fez se encolher e se agarrar ao cadáver de Maya.
Ele cessou os passos quando estava perto o suficiente. Te observou com aquele semblante frio, analisando silenciosamente. Você devolveu o olhar com dificuldade e conteve a vontade de fazer qualquer pergunta, ou traçar um plano de fuga. Sentia-se como um inseto perante a eles. Qualquer gesto arriscado que fizesse, equivalia a uma tentativa de suicídio. Por mais que não gostasse, estava a mercê deles, portanto, optou por colaborar para que sua vida fosse poupada.
O silêncio entre você e o suposto líder, é cortado pela risada curta e debochada que ele proferiu.
— Gillis, Meia, tem certeza que essa coisinha é a arma mais poderosa dos humanos? E que pode nos derrotar? — O albino se vira, dirigindo a palavra a dois de seus companheiros. Um deles é um garoto de cabelos amarelos claros, mesclados com uma cor creme e olhos azuis violeta. O segundo é uma garota de longas e lisas madeixas rosa púrpura, olhos verde esmeralda. Ambos se postaram ao lado do líder e afirmaram à pergunta. — Que desperdício, essa coisinha não consegue nem levantar a cabeça contra nós.
A ofensa despertou um ligeiro sentimento de raiva em você, mas novamente sua única opção foi se calar. O albino dedicou-lhe um olhar prepotente e em seguida analisou Maya, morta a seu lado. Um minuto de tensão dominou o ambiente e todos ali presentes. Seu pulso é agarrado e você se viu obrigada a levantar bruscamente. Nem mesmo era capaz de mexer o braço para se debater. Ele segurava-o com violência, não se importando nem um pouco se estava te machucando. Inclusive, um filete de sangue de um corte feito pelas garras afiadas dele.
— Patético.
A sua resposta para mais esse insulto, foi um muxoxo. Porém, sentiu seus pés saírem do chão. Seu corpo fora jogado nos ombros do albino como um saco de batatas de um jeito bruto e com muita facilidade. Pelo visto, carregar uma criatura não exigia o mínimo esforço para eles. Antes de sequer pensar onde a levariam, seu olhar vislumbrou o cadáver de sua amiga uma última vez até os desconhecidos saírem do laboratório e também daquelas terras pertencentes aos humanos. Sua vista se transformou quase em um borrão pela velocidade com que fora transportada. E a claridade dos raios solares a obrigou a comprimir os olhos. Não estava acostumada com aquela naturalidade. Sua boca se abriu por reflexo da surpresa.
A paisagem da Terra na verdade, era mais que deplorável. Ao contrário das imagens mostradas nos livros mágicos que leu, grande parte do lindo planeta azul estava deteriorado. A cor predominante ali era o cinza, destroços de prédios e outras construções enfeitavam o cenário; o ar exalava fumaça de bombas, fogo. Era decepcionante.
Porém, você pôde perceber que a pouquíssima natureza tentava se manter firme. Havia uma plantinha ali, um laguinho de água pura por lá, insetos e animais correndo por suas vidas. E outros acontecimentos que fazem parte do ciclo da vida em meio àquele caos. Mas o rápido “passeio” acabou. Um ambiente bastante anormal e peculiar, passou a ser analisado por sua mente. Porém, logo que se pôs a conhecer o local e gravar na memória, novamente você se viu jogada numa cela. Literalmente. Não se comparava nem um pouco com o luxo de seu cativeiro anterior. Nesta, você possuía uma cama onde dormir e alguns móveis a sua disposição.
Nem tão precários, nem tão esplêndidos. Por incrível que pareça, fabricados somente de tecnologia, porém, desgastada e antiquada; paredes de metal negro e escuro; chão negro do mesmo feitio que o resto. Alguns detalhes remetiam ao gosto humano ali. Portanto não foi um choque total saber que existiam elementos familiares. Não queria imaginar ser abalada por coisas desconhecidas. Janelas eram algo inexistente. O albino não parou um segundo de agir com brutalidade contigo desde que a viu.
— As regras são bem simples. — Explicou, praticamente ordenando. Seu semblante sério, também se recusava a abandonar o rosto. — Obedeça e terá comida, além de a deixarmos viver. — E saiu sem esperar nenhuma resposta sua. Porém, mais que isso, te abandonou na quase escuridão do lugar. Seus olhos acabaram se acostumando, apesar da escassez de iluminação. Havia uma luz fraca, entretanto. Perscrutando a cela, você tateia o ar, procurando não cair, até encontrar uma parede em que possa escorar as costas. Feito isso, você abraça as pernas, sem opção se não pensar na vida.
Não era assim que você imaginava conhecer o mundo afora.
O tédio dominou sua alma por dois dias consecutivos. Ninguém vinha e apenas lhe davam comida sem sequer dizer uma palavra. Sua única escolha ali, era encarar a solidão e proteger sua sanidade. Pensava em Maya. Em como não era justo ela ter sido morta. Um leve ódio fez parte de sua carga de emoções atuais e negativas. Uma onda de pessimismo desgastou sua mente. Felizmente uma vivalma apareceu para lhe dar um ligeiro ânimo. A jovem de cabelos roxos e olhos esmeralda. Se recordava de seu nome: Meia.
— Não se preocupe, não temos intenção de te machucar. — Confortou a bela jovem, sorrindo amável. Mas é claro que não confiava plenamente nela. Sorrisos escondem bem o que há de mal por detrás. Você se manteve alerta e cuidadosa. — Apenas queremos sua força.
Meia fez um gesto para que a seguisse. Sua vontade era aproveitar essa pequena brecha e desatar a correr, porém a ideia teve que ser excluída ao deixar a cela e ver corredores. Fugir era burrice se não conhecesse a saída do lugar. E mesmo sabendo, aquelas criaturas a alcançariam rapidamente. Isso a frustrava. Não tinha opção. Era inferior a eles de qualquer modo, teria que acatar qualquer ordem caso quisesse sobreviver. Contudo, se Meia e os outros realmente fossem piedosos, talvez pudesse ser ao menos amiga. Ambas caminharam em silêncio, ousou fazer perguntas em troca de obter alguma informação.
— Vou ficar presa o tempo todo naquela sala escura? — Meia dirigiu sua atenção a ti. Foi a primeira dúvida que lhe apeteceu, quem sabe com ela, tivessem pelo menos a compaixão de a deixar numa prisão mais iluminada?
— Como disse, apenas queremos seu poder. Basta apenas nos entregar e a deixaremos ir embora. — Respondeu sem lhe responder corretamente. Vendo que ela não demonstrou ignorância, rudeza ou raiva, continuou o interrogatório.
— Como faço isso? — Porém não houve tempo de sequer começar a unir mais questões. A moça a levou para outra sala daquele labirinto, a qual você nem se deu a importância de observar detalhes. Não é como se tivesse a liberdade de andar por aí.
Olhares diversos se postaram em sua figura. Cada um emitia a mesma aura negra que o líder possuía ao redor de si, só que menor, menos raivosa e perigosa. De toda forma, ninguém deixou de desviar os olhos. Inevitavelmente sentiu um incômodo. Meia tomou a frente e se colocou ao lado do rapaz loiro daquele dia em que a sequestraram. Você pôde vê-los unir as mãos de forma discreta. Isso lhe chamou atenção, Tenebris então, eram capazes de ter sentimentos? No laboratório, todos os cientistas os descreviam como monstros sem coração.
— Eu sou Saryuu Evan; me chame de Saru. E isso não é um pedido. — Se pronuncia o albino, ordenando a você, exibindo autoridade. — Vou logo ao ponto. Trabalhe ao nosso favor. E de novo, não é um pedido.
— Na verdade, não estou exatamente de nenhum lado. — Depois de pronunciar seu nome, você refuta. Os dois lados tinham seus motivos, erros e acertos em sua humilde opinião.
— Não quero saber quem você é, nem o que acha disso tudo. Apenas coopere. — O tal Saru estava sendo mais que arrogante. Irritante. Até seus supostos amigos não mostravam uma expressão satisfeita.
— Eu tenho escolha? — Você indaga e ele lhe dedica o mesmo olhar sério que sempre tivera até agora.
— Não, agora nos dê uma amostra do quão estrondosa é, essa arma secreta dentro de você. — Ordenou novamente erguendo um dedo como um comandante. Você apenas ficou paralisada no mesmo lugar enquanto todos voltaram a lhe encarar. Olhares de expectativa. Dois minutos inteiros se passaram como um infinito. Todos ali com cara de tacho esperando o que não sabiam. Saru franziu o cenho. — Então é assim que você quer? — Questionou se teleportando em um piscar de olhos. Você se viu diante de uma criatura raivosa, pronta pra te matar. A seu lado, Meia interviu.
— Saru, espera! — A jovem pediu ligeiramente desesperada atraindo uma expressão indignada do líder. Ao parecer, ninguém ousava questionar ele.
— Não se atreva a me impedir, Meia. — Exigiu Saru numa ameaça, fazendo a rosada se arrepiar.
— Acho que ela realmente não sabe usar seus poderes. É perda de tempo forçá-la. — Explicou cautelosa.
O albino parou um pouco e se aprofundou em seus pensamentos. A tensão dominava aquele cômodo, sala, ou o que quer que seja. Não conhecia absolutamente nada. Ninguém esclarecia nada. Saru apertou a testa com os dedos em sinal de frustração. O resto foi contagiado por suas emoções. E sem explicação nenhuma, Meia te conduziu ao cativeiro.
— Me deixe tirar essa confusão de sua cabeça. — Contestou, se pondo a seu lado se acomodando na cama. — Acredito que já sabe por que os humanos e nós, guerreamos. — Você assente a questão retórica. — Todos sentimos ódio, mas Saru é o que mais quer vingança.
— Algum motivo especial? — Indaga, absorvendo as informações. Meia parece querer se abrir; dar espaço para confiar em sua pessoa. Sabia que não é correto perguntar algo tão delicado e íntimo, mas quer tentar compreender ambos os lados daquela batalha.
As orbes verde esmeralda denotaram melancolia. Meia se recusou a responder. Nenhuma das duas arriscou falar uma sílaba e só o silêncio teve seu espaço. De repente, a moça criou uma chama de luz. Mas não era branca. Decerto, iluminava, de um modo diferente, era um rosa púrpura. A deixou flutuando ali. E você a agradeceu, podia agora andar sem bater os dedos dos pés nos poucos móveis.
— Infelizmente não posso contar. — Respondeu e se retirou. Nenhuma dúvida foi respondida. Estava mais que frustrada.
❣ ✿ ❣
Meia apareceu nos quatro dias lhe fazendo companhia. Provavelmente conseguiu ganhar sua simpatia. Não sabia como, mas agradeceu por pelo menos ter uma aliada. A rosada trazia refeições maravilhosas e conversava trivialidades, como curiosidades sobre os Tenebris e coisas que os humanos inverteram na história. Não sabiam nada deles. Seus costumes, hábitos, ambiente, planeta, entre outros. Por um instante, a garota de outra raça te recordou de Maya e isto a fez se sentir mais confortável. Eram criaturas bem distintas, mas parecidas às vezes. Numa de suas visitas, um convidado especial acompanhou sua nova amiga. O rapaz de cabelos claros, olhos azuis e óculos que atendia por Gillis.
— Meia falou sobre você. — Anunciou. Ele aparentava ser calmo. Sorria singelamente. — Se tudo o que ela disse é verdade, então não vejo motivos para sermos inimigos.
— Eh?! Não acredita totalmente em mim? — Meia questiona mostrando decepção e fazendo um draminha desnecessário. Gillis se apressou a corrigir o que tinha dito. Nem era preciso perguntar se eram amantes.
De qualquer modo, rapidamente nasceu um triângulo de amizade.
Você não podia sair de jeito algum. Porém, Gillis e Meia trouxeram cada vez mais um companheiro novo, que compartilhava histórias e banalidades. Você retribuía com o mesmo. Praticamente todos os Tenebris daquele lugar te conheceram. E como lhe era proibido deixar a prisão, eles faziam questão de te visitar. Apenas um jamais era visto, até aquele momento.
A porta se abriu e uma cabeleira branca foi entrando naturalmente e se jogando como um relaxado na cama que você dormia. Tudo foi de repente. Ele entrou como se tivesse dado um passeio e voltado. Demorou um tempinho até tomar a palavra.
— Então, tá todo mundo falando de você. — Informa o albino sem ao menos lhe dirigir o olhar. Parecia querer interagir com sua pessoa, mas ter um orgulho e uma posição a manter. É essa a impressão que dava ou queria aparentar. — E estão quase me implorando pra te soltar. Me diga, como deixou meus companheiros desse jeito?
Isso te surpreendeu, pois era o que mais queria. Menos inimigos, mais amigos.
— Bem... — Você começa a responder, mas Saru te corta.
— Eu vou deixar você fora dessa cela. Mas não pense que é por sua causa. Culpe a eles, que não me deixam em paz. — E assim como entrou, saiu misteriosamente.
A partir daí, você apenas concluiu que Saru é confuso. Mas debaixo de toda aquela seriedade que mostrava, uma leve simpatia queria dizer olá. Era como se a raiva o impedisse de mostrar.
❣ ✿ ❣
Após enfim ser autorizada a deixar aquele cômodo de tédio, você se sentiu mais tranquila. Os desconhecidos, que não eram mais tão desconhecidos, lhe faziam companhia, te deixavam familiarizada como se realmente a quisessem ali. Talvez por você não ser exatamente humana e todos perceberem que você não tinha nenhuma intenção de fazer mal; era uma boa criatura. Apesar de ainda serem seres anormais, a diferença de raças não deixou que laços não fossem criados. Mas não importava. Eles te ensinavam diversas coisas e cada dia te surpreendiam, seja com seus costumes ou na forma como demonstravam emoções. Assim como os humanos todos demostravam sentimentos que conhecia. A amizade que sentiam com o próximo, a tristeza ao perder alguém, seja distante ou não.
O único que se mantinha impassível é justamente quem possuía mistérios dos quais não conseguia decifrar: Saru Evans.
Nada parecia chamar a atenção do jovem Tenebris do que a vingança, especialmente quando havia conflitos entre eles e os humanos. Sua cólera era inigualável. Todos tinham rancor e seus próprios motivos, mas pareciam estar cansados; desgastados pela guerra, suas mentes exigiam paz. Só de ver suas feições ao entrar em batalha, isto é notável. Porém não adiantava os intrusos estenderem a bandeira branca sendo que o lado oposto queria continuar aquilo. Após a invasão no laboratório que era seu antigo lar, houve revolta. Os humanos queriam usar seu poder, cada um com suas ambições. E iam atrás da outra espécie como loucos, pois perderam sua arma mais importante. Aquilo deveria ser finalizado.
Acompanhada por um certo albino, que era impossível de se entender completamente, você sente nervosismo. Estava a sós com ele por uma razão que não sabia.
— Saru, por que quer tanto essa vingança? — Decidiu iniciar uma conversa visto que ele não falava nada e você sempre o esperava falar. Os olhos frios se pousaram em sua pessoa enquanto andavam.
— Você também não ia querer se vingar após ter seu planeta destruído? — Perguntou sarcástico e você quase se arrependeu. — Eu vi minha família ser dizimada. De uma forma que você não imagina.
Continuou ele. Aproveitando a chance que Saru dava de revelar um pouco sobre si, você o ouviu quieta e concentrada. De repente, alcançaram uma porta de saída e a atravessaram. Lá fora a noite se fazia singela naquele cenário de destruição.
— Ah! — Exclama de surpresa interrompendo sem querer o relato que ia começar. Você não quis fazer isso. Na talvez única oportunidade que Saru conversava claramente contigo, você o tirava do foco.
— Hum? — Murmurou o albino curioso.
— Nada demais, apenas... Eu geralmente ficava presa no laboratório. Quase nunca me deixavam sair. — O outro nada disse, se sentou numa pedra do lugar cheio de destroços. — Na verdade, eu nunca cheguei a ver o mundo aqui fora.
Saru contemplava o céu noturno, salpicado de estrelas cintilantes, que felizmente não foram afetadas pelas tragédias que ocorriam. Isso a deixou levemente triste. Você abriu um pouco de seu coração revelando sua melancolia e o desejo bobo de conhecer lugares diversos, mas ele nem pareceu se importar. Você tratou de esquecer e se acomodar numa pedra.
— Tudo se transformou em um segundo. Vimos mais que o caos. — Saru continua o desabafo anterior. Faz uma pausa longa e passa os dedos entre os fios brancos de suas madeixas. Esboçava frustração e arrependimento de dizer tais palavras. — Mas nada importa mais. A vingança, é a única coisa que me resta.
E se levantou para sair, te deixando com vontade de saber mais. Você agarra seu braço, obtendo uma expressão de raiva por parte dele, isso não a intimidou o bastante para segurar sua boca.
— Não é verdade! Seus amigos amam o líder que tem. — Você retruca desse jeito. Palavras carinhosas para afetá-lo. — Não vê, Saru? Ninguém quer mais lutar. Não querem mais perder um companheiro.
— E-eu sei. — Concorda com dificuldade. — É que... É mais fácil estar cego pelo ódio, do que enxergar o amor de verdade.
E puxando seu braço, ele te leva de volta para a suposta base deles. Dessa vez, não com brutalidade como no começo, porque você notou ele se importar em não a machucar, ou seja, Saru começava a vê-la como uma companheira a zelar.
❣ ✿ ❣
“...A explosão te fará explodir como uma super nova.”
A frase de Maya lhe veio a mente ao sentir seu corpo estranho por dentro. A todo momento era como se realmente fosse explodir. Era incômodo. Você testemunhou um brilho surgir vez ou outra de suas mãos e resolveu contar para os outros, porém só depois de alguns dias que havia notado.
— E por que escondeu isso? — Gillis indagou assustado junto com o resto, que esboçava surpresa.
— Ahn, eu achei que se tratava de algo sem muita importância. E... Eu também... Esqueci. — Admitiu a última parte com timidez, provocando uns risinhos.
— Quem é que esquece de uma coisa assim? Você é meio tapadinha. — Gillis brincou bagunçando seus cabelos. Saru a chamou para dar uma volta. Novamente sem explicar nada.
Ele lhe apresentou lugares peculiares que ainda restavam naquele planeta devastado. Desde a simples árvore numa mata, a uma cachoeira mortal e exuberante. Seus olhos curtiam os detalhes, que apenas via de maneira artificial em livros digitais e hologramas sem graça. Sensações como a grama áspera em seus pés; o cheiro de vegetação úmida, entre outras, já não poderiam ser sentidas por você graças a destruição. De qualquer forma, se sentia grata.
— Obrigada. — Agradece de repente ao retornar, chamando a atenção de Saru.
— Pelo quê?
— Por me sequestrar. — O albino arregalou os olhos em espanto. Esperou explicações necessárias para entender. Você riu de sua cara confusa. — Digo, desde aquele dia, não pude ter uma família melhor que a de vocês.
— Considera extraterrestres, sua família? — Saru pergunta indignado, talvez assustado por tanta naturalidade nessas palavras.
— Por que não? Não é o sangue, nem a raça que faz uma união familiar. Afinal, os humanos tratam animais do mesmo jeito, por exemplo. — Não foi preciso responder a essa questão retórica que fizera.
— Você sempre quis sair e ver a Terra, certo? — Mudou o assunto. Hábito dele em prol de prezar sua postura séria.
— Sim. Aquele quarto de laboratório era gigante, mas não compensava a companhia que agora tenho. — Admite melancolicamente, logo retomando a felicidade.
— Espero que... Hoje tenha suprido seu desejo de conhecer o mundo. — Alegou Saru mantendo seu semblante calmo, entretanto hesitante.
— Então, você me levou pra sair por isso? — Ele responde com o silêncio. — Obrigada.
— Você manteve todos felizes nesses momentos de guerra. — Declarou e você lhe dá um sorriso amável de pura gratidão.
Decerto, você não conheceu um terço do quão maravilhosa é a Terra. Parte dela infelizmente estava arruinada pelos humanos, triste fato, porém o pouco que viu já foi o bastante para alegrar seu coração.
❣ ✿ ❣
Tempo ia e vinha. Conflitos eram intermináveis e causavam cada vez mais tragédias. Mas pelo menos o clima entre os Tenebris era um pouco ameno e descontraído. Houveram perdas em ambos os lados. Você gostaria de impedir isto a todo custo. Contudo, o parceiro que os deixou desta vez...
Foi Meia.
Gillis estava inconsolável, queria vingança. O amor dos dois era perfeito, do tipo em que se escrevia num livro de romance, porém agora, com um final horrível. Você podia não ser tão íntima do loiro, mas tentou dar todo o apoio que possuía. Ele a repudiava, rejeitava, pois, estava cheio de cólera. Te acusou de deixar isso acontecer, o que lhe fez se corroer de culpa.
“Se tivesse dado esse poder...” — Disse Gillis entre sofrimento e amargura.
Mas você também a amava como amiga. Foi a primeira a ter compaixão e confiar em ti. Só que Gillis não suportou a dor. Decidiu acabar com ela, partindo com Meia para o além e reencontrá-la. Os dois amigos mais importantes de Saru Evans o deixaram. Seu ódio cresceu mais forte. Aos poucos o lado afável e gentil que recém despertara nele, foi se extinguindo por emoções negativas.
— Agora eu realmente perdi tudo. — Se lamentou e automaticamente, seus braços o rodearam com muito carinho. Mesmo que ele a afastasse, ficasse furioso, você fez isso. Não por ser apenas o mais adequado no momento, mas também por querer o calor dele; a presença dele, mais perto de você, de um jeito mais próximo do que a simples relação de companheiros, nem parceiros.
— Você me tem. Sei que não sou o sufi...
Você descobriu que o albino compartilhava do mesmo tipo de amor contigo, quando notou que ele te beijava de olhos fechados e a impedia de interromper o gesto pois as mãos dele se mantinham em sua cintura, a agarrando com força, sem a machucar. Você corresponde tímida, tentando aproveitar o doce momento; as doces sensações, ao mesmo tempo que se lembrava do que os romances digitais lhe ensinaram e tentou corresponder com esses “ensinamentos”.
❣ ✿ ❣
Você encarava em choque, Saru deitar os cabelos brancos e macios em seu colo. Contemplava as orbes roxas quase a ponto de se fechar, querendo um descanso. Um ferimento enorme e feio se fazia presente no estômago, exibindo seu suposto sangue negro. Não importa.
Saru estava morrendo.
O extraterrestre que a fez experimentar coisas prazerosas e únicas. Te deu uma liberdade diferente da que esperava, mas melhor que a prisão do laboratório; o cativeiro abandonado. Te apresentou uma família, amigos. Agora estava dizendo adeus.
— No fim... Eu nunca disse... — Você desesperada o assistia declarar suas últimas palavras com seus últimos suspiros. Ele lutava como um guerreiro para continuar vivo em seus braços. Se via pela respiração descompassada. O coração que pulsava com força no peito dele. E apesar de não ser humano, muitos aspectos físicos se comparavam com ambas as raças. A vez de Saru deixar esse universo tinha chegado em um descuido pequeno, porém fatal.
Era superior a milhares de humanos e poderia exterminar um exército com um simples estalo de seus dedos. Mas não significa que os humanos não podem ser fortes e surpreender de vez em quando, em especial, quando movidos a ganância. Não queria saber como isto foi acontecer, só queria ter Saru vivo ao seu lado.
— Obrigado. — Murmurou com um fio de voz, você se decepciona ligeiramente, desespero começa a se transformar em pânico você tentava se controlar e ficar calma, mesmo que fosse impossível numa situação dessas. Até ouvir algo que lhe deixasse a beira de insanidade. — Eu te amo. — E naquela despedida apaixonada, os olhos violeta se fecham eternamente.
Seus olhos gritaram um mar de lágrimas e sua boca despejou palavras suplicantes, pedidos que não seriam atendidos pois aquele que a cativou se foi para sempre.
Ao longe, a espécie humana comemorava a morte de um dos obstáculos na rota deles para a vitória. Sem um líder, os Tenebris ficariam perdidos e perderiam.
Não se você puder impedir.
Maya.
Meia.
Gillis.
Saru.
O universo a deu presentes maravilhosos. Emoções, lembranças, criaturas. Decerto, você nunca chegou a tocar a textura de um livro antigo ou de um novo em folha, nem pisar os pés na areia e ouvir a canção do mar como gostaria, mas o que viu e sentiu naquela pouca vida que teve não tinha preço. Contudo... A vida não lhe ensinou a superar perdas. Portanto, já podia morrer feliz.
Seu corpo todo brilhou, emitindo uma luz branca e forte. Sentia que é a hora de seus poderes despertarem, então nada a podia segurar. Nenhum lado era digno de uma vitória concreta, sem prejuízos. Uma explosão causada por você, destruiu tudo e todos.
Seu objetivo estava concluído.
Tudo tinha que renascer para o equilíbrio voltar como antes.
Seus olhos se abrem com a visão de um albino a seu lado, o qual você acomodava sua cabeça em seu ombro. Despertaste meio aflita, meio avoada em pânico. Porém ao encarar aquelas orbes violeta, que expressavam seriedade e autoridade, seu coração se acalmou na hora.
— O que foi? — Indagou Saru preocupado.
— Tive um pesadelo. Não me lembro qual. — Responde confusa. Você realmente não recordava de nada, apenas tinha certeza que fora uma ilusão. Só que...
Tão espantosamente real...
Abraçando Saru com uma força que o assustou, mas com carinho, você confessa.
— Eu também te amo.
Não sabia o porquê, apenas sentia que devia dizer.
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