A Chance for You
55 As you Wish - Fudou X Tobitaka
Notas iniciais
“É a nossa vez de mostrar o quanto você é importante.”
Você apoiava o corpo de Tobitaka, tentando o segurar. O braço dele rodeou os seus ombros enquanto saíam do bar. Seu estado era deplorável, olheiras contornavam seus olhos negros, que também estavam vermelhos com aspecto de irritação; andava, ou pior, cambaleava trançando as pernas uma na outra, quase te levando ao chão. Isso dificultava seu “trabalho” de cuidar do amigo. Sua respiração e o hálito fediam a puro álcool. Em plena sexta-feira, lá estava você de novo salvando Tobitaka Seiya de outra confusão de bar. Dessa vez a briga foi por causa de seu penteado, um outro bêbado no local zombou e isso foi o bastante para ambos se atacarem com socos até o dono chegar e expulsar seu amigo.
Você não estava para presenciar tudo, apenas recebeu uma ligação de Fudou e ambos se dirigirem para lá e socorrerem o de cabelos roxos. A essa hora estaria dormindo tranquila ou se distraindo vendo uma coisa que a interessasse. Porém amigos nos fazem sair no meio da madrugada só para comprar sorvete. É uma ironia. Enfim, Seiya não conseguia se manter de pé. Estava pesado apenas você o carregando, Fudou se recusou a ajudar e apenas ficou olhando. Tobitaka estava completamente chapado.
— Quantas você bebeu? — Você pergunta depois de saírem totalmente do bar e sentarem em uma mureta da calçada. Depositaram o bêbado, mas você ainda teve que continuar a sustentar seu corpo. O rapaz não responde e mira seu rosto fixamente com um sorriso ridículo de quem ganha na loteria. Você exibe uma expressão de “e então?” e se assusta quando ele lhe lascou um beijo sem aviso nenhum, se afastou e começou a rir feito uma hiena. Sem reação, você fica congelada uns segundos não sabendo o que fazer, até Fudou dar um tapa forte na cabeça do amigo.
— Ain, p-purque feiz isso, Fu?! — Resmungou ele para o Akio, que o obrigou a levantar com rudeza.
— Quando tiver sóbrio eu respondo, idiota. — Retrucou irado. Em seguida pegou seu braço o rodeando de forma que o Seiya segurasse seu ombro e o abraçasse pela cintura. Em seguida o levou até o carro de Tobitaka. — Me dá a chave. — Fudou pediu, ou melhor, exigiu.
— Oi! Vamus pra praia... Fazê uma suruba nervosa? Muahaha. — Você gargalhou com a fala. Queria até gravar um vídeo para o mesmo ver depois. Ele não ia acreditar no dia seguinte. O de cabelos roxos geralmente ficava nesse estado de ânimo quando bebia. Vendo que ele gargalhava sem parar e tagarelava milhares de coisas aleatórias, você tomou a atitude de procurar a bendita chave. Vasculhou em seus bolsos da calça. — Opa, gata! Assim vuxê acorda meu amigo aí de baixu.
— Cala a boca, cara! — Mandou Akio e logo escapou por um triz de um beijo que Tobitaka ia dar em sua boca, mas Fudou foi mais rápido e virou o rosto, sendo beijado na bochecha. Deu-lhe um cascudo ao revidar. — Ei! Já achou essa merda?! E para de rir!
— Aqui, pronto, pronto! — Você acha o objeto e se apressa em abrir a porta antes que acabe sobrando para você. Colocam o amigo no banco traseiro e se sentam na frente.
Fudou dá a partida e o veículo toma seu rumo para Inazuma, porque estavam em Osaka. No carro, Tobitaka estava insuportável. Há bêbados de todos os tipos, seu amigo é daqueles que só quer saber de falar, sendo o centro do universo. Não importando se vai se confessar, se vai quebrar a cara ou agir feito imbecil.
— Chove chuva, chove sem parar... — Cantarolou Tobitaka dançando com os braços, sentado. Às vezes tentando rebolar sua bunda atrás. — Eieiei! Coneço uma boate dahora, eu levo vocês lár! — Sugeriu, tropeçando palavras. Embaralhando a língua. — Hein, hein? Num tô bêbado, confia.
— Ah tá! E eu sou o Endou pra acreditar. — Fudou responde mal-humorado em sarcasmo.
— É cool! É dahora. Vamos indo lár gente. — Tobitaka tenta pegar o volante, você não o deixa e tenta o aquietar.
— Se deixarmos você dirigir, vamos curtir a festa no céu depois de morrer. — Você afasta essa ideia da cabeça dele para o acalmar.
— No caso do Fuddy, festa do inferno! Hahaha! — Tobitaka o provocou com gosto. Você riu pelo apelido inusitado.
— Fuddy é a sua cachorra, praga! — Esbravejou o Akio entredentes, voltando a se concentrar na direção. — Até assim não me dá sossego.
Após algumas brincadeiras irritantes, muita cantoria por parte do indivíduo controlado pelas bebidas, o jovem começou a ficar sonolento; sua fala lenta e mansa até deitar no banco e desmaiar de exaustão.
— Graças ao bom Deus! — Fudou exclamou baixo para não o acordar, mesmo que nessas condições fosse impossível.
— Quantas será que ele bebeu? — Você indaga, olhando atrás o amigo roncar suavemente... E babar. Ainda bem que o veículo é dele e não de Fudou. Senão Tobitaka já teria assinado seu atestado de óbito.
— Sei lá. — O Akio deu de ombros. Sua feição se tornou melancólica e logo tirou um maço do bolso, você observou a destreza que ele tinha nos dedos em acender o cigarro com uma mão só enquanto dirigia. Por um momento você gritou pensando que um acidente poderia ocorrer. Por sorte não tinha nenhum outro automóvel ali; as ruas estavam vazias a essa hora.
— Toda essa confusão me deixou muito estressado. — Ele alegou como uma desculpa pelo que acabou de fazer. Você suspira e revira os olhos descontente, desaprovando seus atos. — Ah, qual é, eu preciso fumar! Se não fico pior, você sabe.
— Não falo nada. — Retrucou se acomodando na poltrona e bocejando. Estava cansada, nos dois sentidos, tanto fisicamente como mentalmente. — O carro vai ficar empesteado de fumaça. — Contestou num aviso.
— Eu ligo o ar condicionado. É só um pouquinho. — Tentou aliviar a tensão formada entre ambos.
— De pouquinho em pouquinho até você ter que fazer um transplante de pulmão. — Ironizou enquanto ele ligava o ar e abria um pouco a janela também. — Muito que bem.
— Tch. — Resmungou entre raiva e decepção consigo. — Não é por que quero.
Você decidiu encerrar aquilo ali antes que começassem a discutir e a noite já fora péssima o bastante para isso. Apoiando o cotovelo na porta, contempla os pingos de chuva caindo no vidro, inicialmente devagar e depois forte, combinando com o clima melancólico daquela situação.
Devia ser por volta de uma e pouco quando recebeu a mensagem de Fudou.
“Aconteceu de novo, dessa vez temos que buscá-lo em Osaka. Acredita? O idiota foi parar em outra cidade! Parece que ele se meteu em briga.”
Mas quando você perguntou aonde Fudou também estava, ele simplesmente visualizou, mas ignorou sua dúvida, indicando um endereço para vocês se encontrarem e buscar Tobitaka Seiya. Você obedece se desfazendo de sua cama quentinha contra gosto e rapidamente se encaminha ao lugar de encontro. Vocês foram com o carro de Tobitaka de Inazuma para Osaka, mesmo às altas horas da madrugada. Ao chegar onde informaram ao Akio sobre o paradeiro do de cabelos roxos, vocês já se depararam com barulhos de vidro quebrando; objetos sendo lançados ao chão com força; gritaria incessante; palavrões obviamente.
Isso somente do lado de fora. Adentrando o local, homens completamente bêbados e alterados de álcool, xingavam e se agrediam. Porém todos pareciam estar contra o Seiya. A qualquer momento, ele podia ser linchado ali, portanto você e Fudou se apressaram em salvá-lo mesmo que o de moicano tivesse falado para você esperar fora. Mas se tratava de seu amigo, devia ou melhor, queria ajudá-lo com seus problemas pois é isso que amigos fazem.
— Espere, calma aí todo mundo! — Mandou Fudou, mas de um jeito que não piorasse as coisas.
— Quem são vocês, pirralhos? Essa área é nossa, não têm direito de causar barraco. — Perguntou em tom de ameaça, um homem alto de aparência intimidante tomando postura de líder ali. Seus comparsas o rodearam como escudeiros prontos para lhe proteger.
— Só queremos saber o que houve. — Você explica cautelosa. Não entendia muito sobre essas relações ou regras da criminalidade; gangues. Apesar de ter conhecido um pouco através de Fudou e Tobitaka.
— Esse otário amigo de vocês, tá querendo brigar com a gente. Se achando o fortinho. — O homem continua bravo e os outros consentem com ele, faltava um pequenino motim para acontecer uma tragédia.
Viu alguns presentes ali discretamente colocarem a mão no cós da calça parecendo segurar algo. Armas. Não apenas você notou, como Fudou também. Se quisessem sair dali e ver o dia seguinte intactos, teriam que se apressar para viver. O dono do estabelecimento estava em choque e não quis se meter, só ficar são e salvo. Se protegia atrás do balcão de bebidas num ato covarde, mas não podia o culpar quando também era uma vítima dessas pessoas.
— Epa! Peraê, foi vucê que falo do meu cabelo! — Retrucou Tobitaka alterado e bêbado. Avançou ao homem, mas Fudou o segurou por trás, recebendo chutes em suas canelas, protestos e xingamentos do Seiya.
— Desgraçado! Se põe no seu lugar! — Um outro indivíduo do lado dos que queriam matar Tobitaka, ameaça os atacar com uma faca. Você quase chega a implorar para deixá-los partir.
— Só queremos o levar. Perdoem as merdas que ele deve ter feito, por favor! — Mesmo que fosse humilhação, o que vale é continuar com vida pois ela é única. Estava desesperada.
— Acha que vamos deixar por isso mesmo? — O suposto líder daquele bando de homens, inquere retoricamente. A situação piorou quando ele resolve apontar um revólver calibre trinta e oito para vocês. O que mais preocupava é que ele também estava com muito álcool em seu organismo.
Houve silêncio por partes de alguns, que estavam chocados e surpreendidos, além de ansiosos e nervosos esperando o desfecho daquela história, que talvez surgisse no noticiário pela manhã. Você e Fudou tinham adrenalina em suas veias. Em um momento curtíssimo suas vidas acabariam ali, com um motivo idiota. Ao se preparar de novo para implorar e pedir clemência, um outro homem, que estava com o líder armado, acalmou seus ânimos de querer assassinar Tobitaka e todo mundo. O puxou para conversar num canto e conseguiu o convencer de que nada daquilo valia a pena para ambos.
Enfim, por um milagre as coisas se ajeitaram, o alarde e a confusão foram cessados. O salvador de suas vidas, retorna e lhes dá um aviso de que não mais eram bem-vindos ali naquele bar e que se aparecessem, seriam mortos sem piedade agora. Mesmo que fora um dos homens a iniciar a confusão mexendo com o de cabelos roxos, eles não se importavam. Provavelmente já mataram antes. Ao serem poupados, Fudou foi forçado a engolir seu orgulho e se desculpar. Era isso ou perder a cabeça. Você foi encarregada de levar Tobitaka.
— É melhor você fazer isso, antes que eu acabe quebrando os dentes desse sem noção. — Fudou mandou a você. Estava possesso de ira, ainda com adrenalina do momento, porém mais aliviado.
E agora voltando ao começo do começo, antes dos acontecimentos atuais. Tudo se passou num dia em que se preparava pra entrar na tão desejada faculdade, estudar e viver seus sonhos. O natural é um dormitório para duas pessoas do mesmo sexo o compartilhando, porém a universidade em que foi presenteada, não tinha uma infraestrutura para abrigar um aluno em cada quarto e aqueles que já dividiam o seu com um parceiro, passaram a ganhar mais uma pessoa. No seu caso, você ficou com dois colegas de quarto, Fudou Akio e Tobitaka Seiya. Mesmo sendo dois parceiros masculinos, a parte do quarto onde você dorme é separada deles de modo que ninguém interromperia seu descanso; você tinha a liberdade de trancar sua porta.
No primeiro dia, você foi recebida pela fumaça da nicotina irritando suas narinas e o quarto cheio de “névoa”. Aroma de álcool impregnado nas paredes e uma bagunça. Enquanto você se apresentava formalmente, o de moicano apenas disse um “Oi” seco e te olhou de canto como se sua presença fosse um nada. O outro companheiro de quarto nem estava ali para te conhecer. Demorou quase uma hora para você ver como era sua cara. E quando viu... Se deparou com um rapaz completamente embriagado que a ignorou quando fez uma tentativa de diálogo com ele. No outro dia se desculpou e se apresentou como uma pessoa decente mesmo que sua cara ainda estivesse com indícios de uma ressaca horrível.
Um fumava, deteriorando seus pulmões a cada dia. O outro estragava seu fígado misturando milhares de bebidas. Você não sabia o passado deles, nem o porquê disso. Uma pessoa qualquer ignoraria e se focaria somente no que quer e no que veio fazer ali. Se afastaria ao máximo, pois ninguém está a fim de cuidar dos problemas dos outros. Porém, uma coisa você tinha certeza, eles não eram pessoas ruins. Provavelmente são perturbados por tomar caminhos errados em suas vidas, mas se estavam ali e escolheram estudar, é porque querem melhorar; ser diferentes. O cigarro e o álcool devia ser um escape porque nenhum dos dois tinha coragem o suficiente para enfrentar seus problemas.
Por isso que você não quis simplesmente os deixar de lado.
No começo foi duro tolerar suas palavras rudes; atitudes ignorantes por tentar ajudar e se intrometer. Você sabia que seria difícil, mas até hoje continua tentando. Porque mesmo que dissessem que não precisavam e não queriam abandonar os vícios, no fundo imploravam para o dia em que não mais colocariam um cigarro na boca, no caso de Akio, nem que revirassem uma garrafa inteira de vodca na garganta, no caso de Tobitaka.
Aos poucos, os três se apegaram uns aos outros. Não demonstravam um carinho excessivo como super amigos, porém um estava ali para salvar o outro quando se metia em problemas. Vocês são uma família disfuncional, mas ainda uma família. Era estranho ao ver dos que não participavam daquele círculo observando de fora, mas os três procuravam conviver em uma quase harmonia.
— Chegamos. — Avisou Fudou ao chegar no campus da universidade. A chuva já havia parado e você não notou enquanto pensava. Você suspirou pesadamente, criando coragem junto com o amigo. Saiu do carro pertencente a Tobitaka, mas que ele compartilhava com vocês. O tiraram do banco traseiro, apoiando o bêbado em seus ombros.
A parte mais difícil sem dúvida, era cuidar da pessoa nesse estado pois parecia um bebê frágil. Dar banho, vestir e colocar para dormir, mas não era a primeira vez para vocês dois. Em quantas confusões se meteram para o proteger? Já não mais contava. Porém no outro dia, trataria de ouvir o motivo dessa vez dele ir à outra cidade e beber.
A parte de o banhar, você deixou por conta de Fudou, por motivos óbvios. O Akio reclamou e xingou o tempo todo não segurando as palavras de baixo calão. Praguejou e amaldiçoou o amigo, mas este, apenas estava inconsciente não ligando para nada. E depois de toda aquela confusão, depois de ter que encarar a morte, vocês enfim se sentiram livres para abraçar o cobertor e o travesseiro.
❣ ✿ ❣
Você acorda no outro dia, quando o sol já terminava sua estadia e via-se o crepúsculo pela janela. É uma sensação desagradável acordar assim, mas não podia se culpar, dormira quatro da manhã, com o corpo super exausto. Também faltou às aulas, para sua preocupação. Ultimamente você também estava encarando alguns problemas. Insônia e dor de cabeça eram constantes. Não conseguia prestar atenção às lições, professores lhe advertiam que suas notas estavam caindo muito e que inclusive, corria o risco de repetir de ano.
Tudo por casos assim como os de ontem. Mas não era justo sempre culpá-los, eles precisavam de ajuda tanto quanto você. Porém quanto mais se esforçavam, pareciam também se deixar vencer e cair por seus vícios ganhando um alívio momentâneo. Havia dias em que os garotos estavam a fim de fazer de tudo para se tornarem pessoas melhores, outros, que não aguentavam a pressão e queriam se acalmar logo.
— Então Tobi? O que nos tem a dizer? — Você se levanta e rapidamente após fazer a higiene matinal e se senta ao amigo ao lado da cama.
O de cabelos roxos olhava tudo e qualquer direção, exceto os olhos de vocês. Era sempre assim, abaixava sua cabeça plenamente consciente que estava errado. Ficou em silêncio enquanto vocês começaram o interrogatório.
— Por que diabos você inventou de ficar chapado no outro lado da cidade? — Fudou inquere mal-humorado, querendo que o outro sentisse o peso da culpa. Com razão. Vocês quase morreram.
— Não sei... — Respondeu calmo, mas ainda num estado deplorável. — Quando dei por mim, já estava naquele bar. — Ele recebeu um soco forte no braço e gemeu de dor.
— Sabe que não pode entrar ali, aqueles caras te odeiam. — Continuou Fudou com o sermão. Era impressionante como você acreditava que um fingia que o outro não existia antes, mas depois de você quase ir sozinha resgatar Tobitaka, na primeira vez que conheceu seu lado chapado, o coração do Akio pareceu se amolecer. Alguma coisa o fez se conectar ao colega de quarto. — Aquele negócio de zuarem seu cabelo foi só uma desculpa pra uma briga e te matarem com motivo, idiota.
Alegou o de moicano com impaciência. Tobitaka era impulsivo ao beber e qualquer provocação o deixava irado facilmente. Os rivais da gangue que ele participava sabiam disso e quiseram também o humilhar, percebendo como ele estava. Tobitaka ficou quieto. Você não censurou Fudou por lhe dar lição de moral, pois já estava farta da situação.
— Isso precisa acabar. — Enfim, você se pronuncia. Foi o cúmulo agora. — Quase morremos. E agora? Vai ser parte da nossa rotina ter uma arma apontada pra nossa cabeça? — Você pergunta retoricamente e firme com o intuito de os fazer refletir.
— Mas não sou o único. — Ontem mesmo, Fudou, eu vejo que você continua fumando maconha. — Contesta Tobitaka. A face do outro empalideceu na mesma hora e ele abaixa o olhar, constrangido.
Você pensou um pouco. Então era por isso que ele não disse onde estava, mesmo não tendo total certeza. O clima estava tenso. Incrivelmente você não se surpreendeu ao descobrir esse segredo, pelo menos não mais. Depois de um tempo você passou a acreditar no quanto eles a “surpreendiam”.
— O mais importante, é sair de todas estas confusões. — Você tomou as rédeas e conduziu aquela discussão. Era agora que os ajudava de vez ou você os abandona. Não queria, porém em suas condições era preciso porque já deixara de cuidar de si para dar sua máxima atenção a eles. — Vocês realmente querem melhorar? Então façam por onde de verdade. Se não levarem a sério, não vou mais insistir nisso.
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Você tentava. Realmente tentava. Houve várias discussões no processo e ninguém suporta isso por tanto tempo. Numa medida radical, você chegou a jogar o maço de cigarros de Fudou no lixo e na frente dele e derramar a garrafa de bebida de Tobitaka no ralo da pia. Apesar disso parecer o correto em certos casos e para algumas pessoas, não é desse jeito que se resolvem as coisas. Mas o que podia fazer? Estava desgastada. No entanto, de vez em quando os dois problemáticos tinham momentos felizes contigo.
Para amenizar um pouco a tensão, você decidiu trazer um “presente”, não sabia qual seria a reação de ambos, mas mesmo que não aprovassem, você se responsabilizaria. E em pelo menos um aspecto iria resgatar um pouco de sua alegria e paz. Sua mente necessitava. Era sempre bom ter pelo menos um membro na família. Podia dar um pouquinho de trabalho, exigir cuidado e atenção, porém como disse antes, você tomaria conta.
Não foi complicado encontrar, havia vários por todo o lugar. Apesar de você se dirigir para um local específico para fazer isso, também há espalhados pela rua. É triste ver que só podia escolher e levar um, enquanto todos continuariam esperando por outras pessoas. Mas você não tinha condições de levar todos infelizmente.
O presente escolhido foi um gatinho de pelagem marrom e olhos verdes. Lembrava exatamente o Akio. Se agarrou a seu peito como se caso a soltasse, você desistisse de o adotar. Você o levou ao quarto do campus, já sentia a felicidade lhe abraçar mentalmente e a tensão se esvair um pouco. Ao entrar no dormitório que compartilhava, os pares de olhos de seus parceiros se fixaram no animalzinho em seu colo confusos.
— Espero que não se importem com nosso novo parceiro. — Você explica hesitante, torcendo para uma reação positiva enquanto colocava as coisas do gatinho em sua parte do quarto.
— Você podia ter falado. — Alegou Fudou deitado em sua própria cama, lhe decepcionando.
— Não tem problema, eu cuido dele. — Você responde meio friamente por essa recepção do Akio. Tobitaka apenas deu de ombros e analisou o gatinho, acariciando seus pelos. O felino ronronou ao toque e você sorriu.
— O nome dele pode ser Fudou. — Provocou o de cabelos roxos zombando e recebeu uma travesseirada do outro.
— Não. — Negou o de moicano de tom meio rude, querendo rir entretanto.
— Então Fuddy. Em homenagem ao seu apelido. — Tobitaka continuou irritando o colega e não parou de brincar com o filhote, que retribuía suas carícias, roçando nas mãos dele. Um sorriso de orelha a orelha brotou em sua face. Pelo menos um deles reagiu bem.
— O nome dele pode ser vá se foder. — Xingou o Akio, levemente bruto. — Bom, contanto que ele não rasgue minhas coisas, problema seu.
Contesta se levantando da cama e tirando sua camisa de dormir e buscando outra em sua gaveta de roupas. Seu rosto cora um pouco por ver seu peitoral, mas você consegue controlar o calor que queria subir ao rosto e denotar sua timidez. Não tinha o porquê sentir vergonha e se constranger. Já o vira fazer isso em sua frente várias vezes, apesar de admitir que o achava atraente.
— Posso trocar minha calça ou quer me ver? Eu não ligo. — Você ouve a voz dele o despertar e chamar atenção mostrando um sorrisinho sacana.
— Tá enganado se pensa que estou louca atrás de homem. — Devolve a provocação rapidamente disfarçando. Percebera que estava o olhando demais e foi até sua parte do quarto onde podia ter privacidade.
— Então por que paralisou agora? Se assustou com o tamanho do tanquinho? — Zombou divertido se achando.
— Que tanquinho? Seu espelho tá com defeito, amigo. — Você devolve.
— É você que não admite meu poder de sedução. — Risadas são ouvidas pelos três. Fudou podia ser um rabugento normalmente, mas seu humor muda da água para o vinho. Do mesmo jeito que queria arrebentar a cara de um, geralmente de Tobitaka o qual era seu depósito de ira, depois de um segundo já queria brincar, só que provocando maliciosamente. — Vou sair. — Avisa e você o olha aliviada. Um pouco decepcionada consigo mesma por não ter sido atrevida dessa vez e o ter visto um pouco através da fresta de sua porta. Fizera uma vez... Talvez duas. Ou três inconscientemente. Mas só um pouquinho. Parou pra pensar. Tobitaka estava ali e se a visse fazendo isso, avisaria aos quatro ventos.
— Onde vai? — Você indaga preocupada. Na verdade, sempre quando saía, fazia ou aprontava algo. Ele se metia em confusões também, mas diferente de Tobitaka, não envolvia os outros. Mesmo assim é motivo de preocupar.
— Fumar. — Respondeu com sua voz denotando decepção. Você revira os olhos, mas busca se alegrar um pouco. — Consegui aguentar três dias pelo menos.
— Progresso. É um recorde. — Parabenizou Tobitaka ainda feliz com o gatinho, que mordia seus dedos. — Mas não precisa se arrumar todo só pra fumar. — Contestou o Seiya. Chamando sua atenção.
— Se acham que estou saindo pra fumar baseado, me sigam. Não tenho o porquê mentir. — Explicou o de moicano tranquilo. — Tô cansado dessa vida. Já deu. — Se referiu às confusões, brigas e decisões erradas que ele tinha tomado para ficar assim. E saiu com um aceno.
Pensar desse jeito já é um começo para melhorar. Você procurou confiar nele. Enquanto isso, o Seiya ao seu lado era só amores com o felino que ele nomeou.
— Pelo menos você o adotou também. — Você ressalta, assistindo o gato ronronar após se aconchegar ao lado do dono.
— Eu nunca tive um bichinho quando era criança. — Explicou ele e logo mostrou uma feição triste. — Na verdade, já tive um cachorro, só que meu pai o matou quando estava bêbado e alterado. — Você não impede sua boca de abrir um pouco em surpresa e exclamar um “ah”. — Prefiro então gatos. Mas cachorros também são legais.
O assunto morreu no ar uns segundos. Você pensou que fez muito bem na hora quando entrou no PetShop ao escolher entre um gatinho ou um cãozinho. Pegou o primeiro por ser mais prático de cuidar. Nunca iria adivinhar essa história vivida pelo amigo. Seria melancólico o obrigar a se recordar disso toda vez que ele olhasse o bichinho. Se aliviou por ter feito o certo inconscientemente.
— No fim, acabei ficando como aquele maldito. — Xingou ele. Você se pôs a ficar quieta e se concentrar. É somente nesses raros momentos que tinha a chance de saber um pouco do sofrimento passado desses rapazes.
— Não é verdade. — Discorda o olhando nos olhos com a seriedade que a situação exigia. — Você é você, seu pai é seu pai. — Tentou o consolar.
— Sei, mas sempre depois que eu fico daquele jeito, é impossível não lembrar dele... Quando quebrava as coisas com sua raiva... Quando batia em minha mãe... — Mais tenso do que estava, não podia ficar. Essa revelação não só te chocou, como a fez ter pena do de cabelos roxos. Uma lágrima quase escapou. Não sabia o que dizer. Qualquer sílaba parecia tornar tudo pior.
A sorte foi que o pequeno felino começou a se esfregar na mão de Seiya e logo em seguida subiu por seu corpo ronronando. Era como se adivinhasse que o clima estava horrível e quisesse de alguma forma trazer alegria de novo. Tobitaka deu o devido carinho que o bichinho recém adotado implorava. Um sorriso brotou, tanto na carinha linda e fofa que o gato expressava, quanto no rosto geralmente triste e sério daquele rapaz problemático.
O dia se passou e nenhum sinal do Akio. Você normalmente estaria correndo atrás dele indagando para um e outro sobre seu paradeiro, mas além de se sentir quase morta e açoitada pelos estudos; questões; equações e tudo que maltratam seu cérebro, cansou de ser idiota. Como declarou antes, se querem mudar, eles que tomem as devidas responsabilidades. Você ajudaria, mas partiria deles o pontapé inicial. E parecia que jamais começaria. Você se jogou na cama após esse período exaustivo de aulas e rapidamente se agarrou a tentação do sono.
Porém mesmo que aparentasse dormir feito pedra, na verdade não estava, mesmo com o cansaço iminente. Portanto, você ouviu quando alguém adentrou o quarto; acordou sonolenta. A pessoa entrou de mansinho e emitia barulhos baixos de mexer em coisas. De repente um miado suave corta o silêncio.
— Xiu. Pra lá, pra lá. — A voz resmunga, expulsando o gato. Era Fudou, que acabara de chegar e evitava os acordar. Você ficou quietinha em suas cobertas. O miado se tornou constante e Fudou praguejava baixinho. — Ok, ok.
Após enfim se vestir pra descansar, você testemunha uma cena que teve a obrigação de tirar uma foto silenciosamente. O de moicano pegou o gatinho parecido com ele e o pôs deitado ao seu lado na cama. Ambos se aconchegaram. O bichano ronronando suave e enroladinho como uma bolinha enquanto Fudou o agarrou como um ursinho.
Então não fora apenas o Seiya que aprovou o presente que trouxera.
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Tobitaka escolhera curso de engenharia e você podia ver que não é o que ele queria. Só prestar atenção em sua cara de desgosto ao frequentar as aulas. É exatamente o motivo dele as cabular. Porém você sabe que ele se arrependia no fim. Mas qualquer um compreendia seu lado. Ninguém quer se esforçar para algo que lhe causa desânimo.
O local de trabalho que o de cabelos roxos parecia o dar mais prazer que na faculdade. Claro que ele trabalhava para pagar as despesas. Por mais que exagerasse nas bebedeira, é um rapaz que tem seu juízo quando estava sóbrio.
Sua paixão é a comida. Notava-se quando ele observava admirado Hibiki preparar seus pratos enquanto os clientes agradeciam e salivavam. O homem cuidava de sua comida com o cuidado que se segura um bebê. Cortava os alimentos com maestria e destreza, deixava sua preciosa cozinha sempre limpa e organizada de um modo que não parecia que tinha feito um prato. Deixava capricho até numa hora que era impossível caprichar.
Tobitaka queria ser admirado, queria ser alguém que fizesse coisas boas como Hibiki. Não o oposto, qual sempre fora. Estava cansado de ser escravo do álcool.
— Você realmente devia mudar para o curso de gastronomia. — Você sugere ao passar no restaurante Rairaiken para almoçar em que não havia compromissos. Na verdade, sua presença surpreendeu o amigo de cabelos roxos o deixando vermelho e aparentemente nervoso, chegando até a derrubar os objetos que segurava. Tobitaka vestia um avental de cozinha e uma touca em sua cabeça para evitar que fios de caíssem na comida.
Seu dever ali era apenas limpar e arrumar o estabelecimento, visto que o dono não possuía muito tempo para esta tarefa, especialmente quando enchia de clientes. Hibiki também não queria contratar muitos empregados. Você não sabia como o Seiya foi chamado para trabalhar com ele, entretanto. Enfim, você descobriu esse segredo por acaso quando percebeu que ele voltava cansado. Achava que o mesmo passava o tempo em festas; baladas. Vez ou outra sim, mas não era o caso agora. Escondida, o assistia gentilmente ser ensinado por Hibiki. Era como pai e filho, naqueles momentos seus olhos percebiam que aquilo arrancava sorrisos do rapaz.
— O-o que faz aqui? — Questionou constrangido pela roupa, você supôs.
— Comer, ué. — Responde com a maior naturalidade, se sentando em uma das mesas e pedindo um prato suculento de Ramen. — Não precisa ficar com vergonha, amigo. Você está trabalhando. — O confortou ao ver que ele se sentia incomodado. Escondia isso há muito tempo. Talvez antes de o conhecer.
— Eu sei, eu sei. — Ele não soube como reagir com sua presença ali. Você se perguntou se não foi um erro ter entrado e mostrado que sabia.
O macarrão chegou e Tobitaka lhe serviu, sentando à sua frente, cruzando os braços. Parecia ainda desconfortável. Assim como Fudou, ele também procurava manter uma espécie de orgulho e uma posição a zelar.
— Tobitaka, vou deixar o restaurante por sua conta um pouco. Preciso dar uma saída. — Declarou Hibiki, já se dirigindo a porta, sem esperar a reclamação do de cabelos roxos.
— Não se importa se eu ficar aqui vendo seu serviço, né? — Você indaga sorrindo.
— Contanto que não fique desocupada... — Diz o Seiya te entregando uma vassoura, já mais tranquilo.
Os clientes entravam e Tobitaka mudava totalmente de um jovem perturbado para um trabalhador. Cumprimentava todos de bom grado e preparava as refeições com gosto. Podia não ser um chefe como Hibiki, mas ninguém reclamou. Você permaneceu até o fim de seu período. Hibiki não mais voltou depois de ter os deixado. Apenas ligou para o telefone do Rairaiken, avisando para o Seiya que não retornaria a tempo de fechar o local. De acordo com ele, isso acontecia às vezes, por isso chegava mais tarde que o costume. Você se ofereceu para ficar, apesar dos protestos do amigo, até o sol se pôr totalmente. O ajudou a limpar as mesas e tudo mais.
— Você ainda não respondeu minha pergunta. — Chamou-lhe atenção enquanto terminava de lavar a louça.
— Só ficou nós dois... — Murmurou para si achando que não havia escutado.
— E dai? — Ao ver que você ouviu, tratou de disfarçar.
— Respondendo sua dúvida de antes, às vezes temos que abandonar sonhos para alcançar objetivos maiores na vida. Declarou esboçando tristeza na voz enquanto organizava coisas aleatórias e não se importando de esconder a melancolia.
— O que quer dizer? — Você busca entrar a fundo no assunto.
— Que... Há coisas mais importantes que o que queremos. — Explicou sem esclarecer totalmente.
— Como... — Sabia que era errado pressionar alguém a falar essas coisas.
— Como uma pessoa para cuidar. Minha mãe tem uma saúde muito frágil. Eu quero concretizar o sonho dela de ver o filho sendo um engenheiro de sucesso. — Confessou de uma vez.
— Às custas do seu? Mesmo que dedique sua vida toda para algo que não quer? — Você refuta desaprovando. Apesar de ser um motivo delicado, tempo é curto em nossas vidas, passa rápido se não aproveitarmos.
— É justo depois que a trouxe muitas decepções. — Após essa frase, decide parar antes que discutissem, o que não é sua intenção. Viera ali também para ver o quanto o rapaz era uma boa pessoa mesmo com seus problemas com a bebida. Para afastar o silêncio tenso que se instalou, você teve uma ideia.
— Me ensina a fazer isso? — Apontou para um dos pratos exibidos no cardápio.
—... Não sei. — Ele responde hesitante passando os dedos entre seu penteado peculiar.
— Ou melhor, por que não jantamos aqui? Aproveite pra me ensinar. — Sugeriu e o arrastou a pia, conseguindo o convencer. — Então, chefe, minhas mãos são suas. — Esticou seus braços a ele, brincando.
Após o convencer por completo, Tobitaka se aproximou de você lhe indicando como proceder. Cozinhar pode parecer fácil, mas quando se não tem o dom, se torna uma bagunça. É o que fez. Acabou por sujar tudo o que limparam com sacrifício, além de sentir vergonha. Não tinha noção alguma do que fazer. Você tentava, mas acabava fazendo mais tragédias culinárias.
— Para, para. — Repreendeu o Seiya te deixando acuada pela bronca. — Vamos fazer assim.
E sem aviso, ele chegou perto. Mais perto do que estavam, tanto que era possível sentir a respiração em seu pobre pescoço. E impossível foi ficar tranquila nessa situação. Para piorar, ou talvez melhorar, ele pegou suas mãos as guiando por debaixo das dele.
— É assim que se faz. — Instruiu com uma voz suave enquanto ensinava, deixando de lado sua postura de durão. Você não pôde prestar muita atenção com toda esta proximidade excessiva.
Mas enfim puderam desfrutar um jantar comestível feito por você. Ambos voltaram ao campus da universidade a pé, pois ele não vem ao trabalho de carro. Ao entrarem no dormitório, se depararam com um Fudou largado na cama e um leve e estranho aroma de fumo, não apenas de nicotina, parecia mesclado com outro tipo de cheiro, que não soube identificar com certeza.
— Que cara de encontro são essas? — Perguntou o Akio num tom de malícia. Seus olhos estavam avermelhados por irritação ocular. A voz também mostrava diferença, embargada e embaralhada. Não era seu jeito habitual.
— E que cara de quem fumou maconha é essa? — Rebateu Tobitaka provocando, você revira os olhos em desgosto por pensar que ele regrediu em tentar melhorar.
— Cala a boca, quem é que fumou aqui?! — Vociferou o de moicano jogando um olhar assassino deitado e acariciando Fuddy sem importar se o viam dar carinho ao bichinho. Você temeu que uma discussão começasse, apesar de querer dar um sermão para o Akio por causa da revelação de agora a pouco. Ele mudou de tópico. — Mas esquece... Onde é que cês tavam?
— Por que o interesse, tá com ciúmes? — Provocou Tobitaka. Você foi até o seu meio quarto para se trocar e deixou um atiçando o outro.
— Quer levar uns tapas, moleque? — Ameaçou Fudou de brincadeira.
Se ouve uns barulhos como se estivessem se agarrando; lutando. Não deu importância. Ambos se tratavam como irmãos de vez em quando. Você estava retirando suas roupas tranquila quando escutou uma conversa baixa, mas suspeita. Não diria exatamente suspeita; curiosa.
—...Rolou algo?...
—...Não me diga que também tá a fim dela...
—... Com tantas nessa escola... Mas entendo...
Seus ouvidos apenas captaram fragmentos. Era impossível distinguir qual fala pertencia a quem. Talvez falavam de você? Um arrepio castigou sua espinha, um arrepio bom, daqueles que apenas se sente quando... O sentimento de atração por tal pessoa começa a palpitar seu peito. Ou seja, você não percebeu quando começou a amar esses dois encrenqueiros.
❣ ✿ ❣
Um período cansativo de aulas exigia um bom sono e descanso. Era o que você queria e também merecia, mas infelizmente não podia. Tinha de passar antes e comprar a ração de Fuddy. O PetShop ficava perto de um beco, que teve de passar na volta ao campus, não precisamente por entre ele, mas próximo. Era de noite e para se preocupar, aquele caminho era deserto mesmo que ainda fosse não tão tarde do anoitecer. Ao andar você percebe passos atrás de si e aperta o passo. O seguidor continua a seu encalço sendo motivo para lhe desesperar. Pior, mesmo com a pouca adrenalina do momento, o cansaço a derrotava. Não conseguiria correr nessas condições. Já previa uma tragédia. Torcia para o dito cujo só levar seus pertences e a deixar em paz. Seu braço é agarrado enfim e seu coração pula.
“É o fim.”
Pensou.
Só que não.
O perseguidor possuía um belo par de olhos verdes e um moicano impossível de não reconhecer. Suspiro aliviado escapa de sua boca. Fudou lhe segurou com firmeza e logo afrouxou o aperto, vendo seu ligeiro estado de medo. A abraçou numa tentativa de a confortar. Você retribuiu sem pensar.
— Não saia de perto de mim. — Mandou e você pôde ver um homem correndo atrás de ambos. — Nunca.
— Às vezes... Seu lado ruim tem suas vantagens.
Você admite ainda nervosa. Não sabia dizer o que teria acontecido contigo se ele não tivesse ali e aquele indivíduo não se intimidasse com Fudou.
❣ ✿ ❣
Sua saúde estava se acabando pelos estudos. Cada vez mais as matérias escolares queriam arrancar esforços de você, que não sabia mais de onde tirar forças para aprender. Adquirir conhecimento forçadamente dá dor de cabeça. E somado aos problemas extras que os dois rapazes traziam, mesmo que tinha prometido a si mesma, que não se envolveriam mais em suas confusões, sua mente estava mais que desgastada com aquela tensão e toda a preocupação. Para incrementar e ajudar a agravar, murmurinhos de colegas pioravam tudo.
“Quem diria que uma aluna tão esforçada acabaria assim”
“Vai repetir ano, certeza!”
“Ela continua com aqueles garotos e sabe muito bem que são pedaços de mal caminho. Então, problema dela.”
O que você fazia? Simplesmente ignorava. Era melhor que seus ouvidos não escutassem críticas assim e no lugar delas ouvissem músicas, pois elas sempre melhoram o dia de qualquer um. Porém tinha de ser forte para passar por essas pedras que a vida coloca no caminho.
Um suspiro mais do que pesado sai de seus lábios, mostrando a frustração que sentia ao presenciar uma discussão entre seus colegas de quarto. Como uma boa pessoa, tentou convencê-los a parar e argumentar, mas desistiu após ver o estado de ambos. Se apenas um tivesse assim, tudo bem, pois podia suportar com o outro ajudando. Só que os dois estavam alterados. Fudou, infelizmente por maconha e antes por sua indispensável nicotina. Tobitaka, pelos efeitos do álcool variado com outras bebidas. Você não sabia o que tinha se passado para isso acontecer, contudo de uma coisa aprendera com este convívio de um ano, parecia pessoal para eles.
Tentava estudar para uma prova. Seu pouco alívio é que seria em quatro dias, portanto daria tempo para se reorganizar e se concentrar. Quer dizer, tentava. Deixando de lado os palavrões do Akio e a as provocações infantis do Seiya. Cansada, decide dar um basta naquilo.
— Quando é que eu vou conseguir estudar?! — Você exclama interrompe os argumentos dos dois, apesar deles provavelmente não darem ouvidos a ti. Sua cabeça latejava. Os analgésicos não pareciam fazer efeito. Tentou se segurar um pouco mesmo estando indignada.
Por mais que estivessem sob efeitos de várias substâncias, resolveram enfim se calar tendo a consciência que são errados. Ainda bem para você, porque se fossem o tipo de drogados ignorantes, teria os abandonado sem pensar.
— Não estou pedindo muito... Só um pouco de compreensão. — Você leva seus dedos às têmporas, massageando para amenizar as dores. À medida que parecia se sentir mal, sua voz se acalmava. — Então... Que tal uma trégua pra mim?
Após seu pedido, você sentiu braços a segurarem. Nem notou que ficara ligeiramente tonta e por pouco caíra para frente dando de cara com o solo. Estava tão mal assim? Doente? Desde quando? Todos os problemas se acumularam dentro de si e só esperaram até explodir como uma bomba de uma vez. Não importa o quanto forte alguém seja, precisa extravasar as emoções pelo menos uma vez. É até bom, trazendo um certo alívio em alguns casos.
— Desde quando não tá se cuidando? — Indagou Fudou sério. Tobitaka também lhe observava quieto. Prestavam assistência enquanto te levavam à cama mais próxima para descansar. Ambos se sentaram à seu lado lhe dando travesseiros para que encostasse de um jeito confortável. Lentamente ficavam lúcidos.
— E-eu... — Parou pra pensar. Não se alimentava corretamente, na verdade. Corria com as provas e trabalhos para evitar a queda das notas à todo custo. — Talvez é... Melhor eu não incomodar vocês. Ir para outro canto por um tempo. — Alegou. Não queria ser egoísta e dizer que os queria deixar por pensar em si, mas notava que incomodava mesmo tentando ajudar.
— Nós vamos melhorar! Prometo. Certo, Fudou? — Tobitaka assegurou convicto se dirigindo ao Akio, que concordou.
— Só... Não nos deixe. — Implorou Fudou abaixando o olhar. — Assim como me deixaram. — O de moicano confessou.
— E como ninguém se preocupou comigo... — Completou Tobitaka melancólico. Ambos desabafaram uma parte de seus sentimentos. Engoliram seu orgulho com o intuito de a fazer ficar com eles, mesmo sendo do jeito que eram. Encrenqueiros, problemáticos e rejeitados, com mais defeitos do que qualidades.
— Fica? — Um pediu e depois o outro.
Você se deparou com os olhares ansiosos e nervosos com sua resposta. Uma situação e decisão tensa. A verdade é que você aprendeu a amar eles assim. Não que concordasse com seus atos, mas Fudou e Tobitaka apenas precisavam de alguém que os amasse a ponto de acreditar que eles queriam ser pessoas melhores na vida.
— Tá. Eu fico. — Enfim deu sua resposta e testemunhou sorrisos tímidos brotarem no rosto de cada um.
Até receber um abraço caloroso do de cabelos roxos para surpresa sua, que mesmo tímida com gesto, retribuiu. Tobitaka era mais carinhoso. Só não esperou que Fudou também se juntasse e fechasse com um abraço em trio.
— Mas... Vocês terão que cuidar de mim também. — Contestou ao desfazer o gesto sorrindo.
— Sempre. — Ambos consentiram.
Mesmo que te decepcionassem, iria ficar com Fudou e Tobitaka, porque assim como eles pediam sua presença, você também pedia a deles.
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