A Chance for You
68 Accept your Darkness - Endou Mamoru
Notas iniciais
“É tão difícil acreditar que também possuo o mal dentro de mim?”
— E aí linda, quer ver Guerra Infinita comigo? Eu deixo você chorar na minha blusa. — Disse uma voz de tom masculino. Pela frase e cantada falha, você tinha certeza que era um daqueles caras querendo se engraçar contigo. No entanto no mesmo instante, seu coração salta ao reconhecer o dono da voz e mais ainda quando um par de braços te abraça forte. Tanto que ambos os corpos trocavam temperaturas.
— Endou?! — Você exclama surpresa, mas nem tanto. — Mas q...
— Essa não foi tão ruim, né? Eu ia falar aquela da Graxinha. — Endou esbanja seu sorriso sacana e divertido. E ainda lhe abraçava por de trás. Você resmunga e tenta se soltar de seu agarrão. Ele lhe dá um beijinho em seu ombro pra lhe irritar e te solta.
— Vou fingir que nada aconteceu agora. O que você quer? — Você inquire num misto entre frustração pela provocação e também vergonha. Endou novamente parte pra cima de você a encurralando contra a parede posterior. Desta vez, você procurou não ser dominada. Ter autocontrole, não era a primeira vez que Mamoru tinha esta atitude cheia de pretensões.
— O que acha que eu posso querer? — Indaga o moreno de olhos chocolate, que estavam fixos nos seus. Assim você não conseguiria evitar a grande pressão que ele colocava ali.
— O que aconteceu com o antigo Mamoru? — Você quebra o contato visual para fazer essa questão tensa.
Mamoru para e parece refletir e não saber o que falar agora. Você aproveita a situação para escapar enquanto o deixava com os próprios pensamentos. Fazia um tempo que aquele Endou Mamoru tinha mudado um pouco. De repente mostrou uma outra face. Crise de identidade, bipolaridade, existencial, depressão, não dava pra saber se era uma dessas razões. O doce, carismático e louco Endou, decidiu se tornar um pervertido, trevoso e briguento. Ele ainda tinha seus traços de sempre, mas não era mais o fanático por futebol. Amava o esporte de paixão, porém controlou a obsessão.
Os que eram próximos, acharam que era algo errado e tentaram o “concertar”. Isso o deixava mais triste.
Na sala do time, isso era o assunto de todos. De certo que ver alguém extremamente querido, mudar, é chocante. A maior preocupação deles, é de Endou deixar de lado a grande amizade que fizera com todos.
— Fico preocupado com o jeito que o capitão, anda. — Confessou Kabeyama num canto da sala velha de reunião do time, o olhar triste. — E se ele estiver em perigo?
— Como assim, Yama? — Você o questionou, se referindo a ele com o apelido que criou pra facilitar quando o chamar.
— E se o capitãozinho tiver agindo assim porque está muito encrencado? Tipo muito, muito mesmo? — Esclareceu o grandalhão. Kabeyama, era um que mais se recusava a aceitar o novo Endou. Vivia dando motivos para explicar isso. Como se não quisesse admitir que essa mudança veio do próprio Mamoru.
— Kabeyama, você sabe que não é nada disso. Já até cansamos de pensar em um monte de coisas. No fim, é mesmo o capitão de sempre. Só... Inventou alguma coisa que a gente não entende. — Alegou Someoka para acalmar o maior. — Olha, é o Endou. Você nunca sabe o que esperar desse cara.
— Real. — Você confirma e Kabeyama parece aceitar um pouquinho, mas continua deprimido.
E quando se menos espera, uma sombra energética e veloz pula em Kabeyama, o dando uma chave de braço e esfregando sua cabeça.
— COMO VAI MEU GORDINHO GOSTOSO? — Exclama Mamoru brincalhão. Apesar da brincadeira, não era natural fazer isso sem que todos estranhassem.
— E por falar no ex fanático por bolas... — Claramente Natsumi estava ali pois é a gerente principal, mesmo que Aki fosse a primeira. O time todo se amava, do goleador estrela até Megane, o quatro olhos. Porém de vez em quando tinham que aturar a chatisse da filha do diretor. Mamoru lhe dedicou um olhar frio. Ele não mais segurava a raiva pela de cabelos castanhos o humilhar. — Estava procurando outra Waifu? Que tal a bolinha de golfe? Ela é tão dura quanto sua cabeça. — Natsumi zombava com gosto. Ela também se mostrou afetada com o novo Endou. Mamoru fechou a cara e olhou para a gerente de tal maneira, que ela preferia estar morta do que o encarar. Ela até engoliu em seco.
— Pelo menos a minha cabeça tem um cabelo perfeito. Diferente do seu, que precisa de uma hora de Babyliss e Chapinha. — Respondeu Mamoru. Deixando Natsumi morrendo de ódio. O insulto ainda não tinha terminado. — Ah! E nem adianta dizer que esse Babyliss mal feito é natural.
— S-seu filha da... — A jovem não sabia o que responder e começava a ficar vermelha. A vergonha a consumia.
— Ô filha, vê se fica mais humilde e menos chata. A sociedade agradece. — Endou calou a boca da garota, que saiu correndo de pura humilhação.
De fato, Natsumi bem mais que mereceu esse “tiro”, mas de certa forma foi meio cruel demais. Todos ficaram boquiabertos. Endou, notando isto, tratou de tirar a risadinha do rosto e fez uma expressão confusa.
— Ué, que foi? — O moreno indaga.
— C-capitão... — Kurimatsu estava abismado, assim como muitos.
— O quê? A Natsumi vive me rebaixando. E é malvada às vezes. — Endou se defende.
— Mas vindo de você... — Kurimatsu começa e pausa um pouco, com receio de o irritar. — Soa cruel.
— Merda. De novo isso? — Mamoru pragueja e o clima fica tenso. Ele demonstrava indignação. — Então só porque mudei, quer dizer que não sou mais eu e não posso ser mais o amigo de vocês? — Endou indaga meio irado, jogando esse tipo de questões que deixavam todos em silêncio.
— Não é isso, é que é difícil acostumar. Mudanças geram tempo pra aceitar e pra serem feitas. — Você diz sabiamente tentando aliviar o clima, o que não funciona.
— Não foi tão difícil aceitar quando todos me conheceram como um bobão, né? — Endou retruca, te deixando sem resposta. — Ou será que vocês gostavam mais porque se apoiavam no meu excesso de esperança?
— Porra, Endou! — Exclama Someoka, sem ter como responder a isso.
— Porra, Minna! — Endou se exaltou de volta. — Eu ainda sou eu. Não é um clone que vos fala, sou eu mesmo! Ainda amo todo mundo de paixão e não posso viver sem ninguém, eu apenas estou sendo mais realista com as coisas... E comigo também. — Algo que não havia mudado de jeito algum é a capacidade de Endou de deixar todos surpresos e chocados com suas palavras inesperadas.
❣ ✿ ❣
Passados dois dias. Uma outra surpresa, Endou Mamoru voltou a agir feito o mesmo retardado extremamente fanático por futebol.
“MINNA, SAKKA YAROUZE!”
E todos voltaram a ficar aliviados, esperançosos, felizes como nunca, afinal o velho e magnífico Endou, voltou a ser a luz do mundo. Provavelmente aquilo foi uma espécie de fase, problema de bipolaridade, etc. Claro que você também estava feliz, mas algo não estava certo. Em um dos lados do gol, Mamoru não era mais capaz de esbanjar aquela linda felicidade que ele possuía. Era como se todos fossem iluminados por ele, mas ele estava rodeado pela nuvem de tristeza, que assola qualquer um. Parecia que todos estavam ocupados demais, achando que tudo estava normal, para ver através de sua alegria forçada.
Uma vez você o seguiu. Fora tipo uma sensação ou sexto sentido lhe avisando para o seguir. Endou foi até uma área isolada e pouco conhecida do colégio. Parecia tão concentrado, que não a notou. Você teve medo de descobrir o que seja que ele ia fazer ali. Endou se sentou em um toco de árvore. Parou um tempo com a cabeça entre as mãos. Até tirar uma faca debaixo da blusa. Seu coração parou e suas pernas bambearam. Parecia em choque demais para impedir o que sabe-se lá o que o goleiro ia fazer. E de repente ele levantou uma das mangas.
Alguns cortes adornavam seu braço.
Você entendeu de imediato.
Quando Mamoru estava prestes a fazer outra marca de faca em sua pele lisa, você teve tempo e a iniciativa de chegar perto o bastante para deter a mão que segurava o objeto cortante. Os olhos chocolate a encaravam assustados. Mamoru se levantou num instante. Ele estava chocado demais para dizer algo e parecia esperar você falar.
— Capitão... — É a única coisa que você pronuncia.
— Vai contar pra todo mundo? — Ele questiona num tom frio, como se a pressionasse.
— Falar pra todos não vai ajudar, só te complicar. — Teve que pensar numa resposta rápida, ele ainda tinha a faca. — Isso é uma coisa delicada, muitos podem te julgar mal. Mas por favor, capitão, me conta.
— Não precisa ser tão cautelosa. Eu não vou me matar. — Pra provar suas palavras, lhe deu a faca, a qual você escondeu. E sentando ao lado de Endou, vocês conversam.
— Olha, o caso é que eu sou sempre aquele que todos depositam sua fé. — Começa ele com ar indignado. — Se está tudo perdido, é sempre o Mamoru que precisa fazer algo inédito ou dizer uma coisa que faça todo mundo ficar de boca aberta, tipo: Mano, que foda! Só eu.
— Estou tentan... — Você ia dizer que tentava entender, mas é interrompida.
— Só que às vezes nem sempre eu consigo animar todo mundo, fazer uma coisa doida. Mano! Eu sou um derrotado também, cheio de erros, falhas. Por isso eu tentei “mudar” porque o meu eu verdadeiro é assim. Não um ser quase perfeito, um quase Deus do futebol. Eu achei que vocês iam entender... Não pensei que fosse tão difícil pra eles verem que eu também tenho o mal.
— Ah. — Você murmura, compreendendo tudo. — E a faca, onde entra?
— Era meu desabafo pra me livrar da pressão.
— E aí você voltou a ser como antes... Pra deixar todos felizes de novo. — Você recapitula sua conclusão. E no fim quis chorar e guardar Endou num potinho. Mas você o abraçou fortemente.
— Wow. Gata, me pegando de surpresa assim eu não me controlo. — Mamoru fez gracinha. Você iria ficar do seu lado nessa situação assim como ele sempre ficou do lado de todos. E com certeza eles iam entender, se explicasse com calma.
— Não precisa mais prender seu eu de verdade pra agradar os outros, capitão.
— Mas você sabe que eles podem não gostar mais de mim. — Ele retruca meio melancólico.
— Quem ama uma pessoa, ama todos os lados que ela tem. Defeitos e qualidades. — Você diz como sua última opção para o convencer e recebe o silêncio em troca. Mamoru te olha com os olhos lacrimejando e retribui seu carinhoso abraço.
— Então você me ama mesmo, linda. — Endou diz com seu sorriso de verdade.
Aceitar uma pessoa é estar ciente que assim como você, ela pode ter qualidades belíssimas e invejáveis. E defeitos que você aprende a superar por amá-la tanto a ponto de não se importar.
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