A Centelha da Esperança
2 O Pequeno Alquimista
Tifa
Quando Daphne acordou, conversamos e concluímos que iriamos procurar abrigo em uma casa que acolhe crianças e as ajudam. Então, famintas e com medo, começamos a caminhar.
O sol mal tinha nascido, aquela bola flamejante no céu estava se levantando no horizonte, sem nenhuma preocupação ele brilhava e iluminava o dia, os poucos raios solares que me alcançavam me fizeram relaxar.
_Como vamos achar uma vila? – pergunta Daphne.
_Vamos achar uma estrada e segui-lá, não sei quanto tempo levará. Desculpe... – quando termino de falar, ainda olhando para o céu, Daphne pega minha mão e olha nos meus olhos. Seu toque é leve, sua mão estava quente e aquilo me lembrou muito a tarde que passei com o irmão dela. Seus olhos verdes penetrando os meus me lembraram como ele me observou logo que sai do lago. Queria que ele estivesse aqui, seria muito melhor se ele estivesse conosco agora.
_Vamos conseguir, eu confio em você! E em Wolly também. – ela tinha um sorriso bobo no rosto, então assenti. Não queria falar para ela que eu não fazia a menor ideia para onde ir, mesmo sendo quatro anos mais velha que ela, aquela pequena menina ruiva parecia mais confiante que eu.
_Tudo bem. Wolly, você ouviu nossa caçula, confiamos em você, então nos mostre o caminho. – Daphne riu, e o pequeno filhote que já estava no chão latiu, saindo andando na nossa frente, farejando os galhos quebrados que haviam na floresta. Aquela era uma manhã agradável, o sol nos aquecia, a floresta nos protegia, os pássaros que começavam a cantar, produziam uma melodia linda, que acalmava o coração. Sem sombras de dúvida, dava vontade de ficar ali, sentada, observando a natureza, mas segui o pequeno filho, torcendo para que achassemos um lugar seguro para ficar.
Depois de alguns minutos seguindo Wolly, chegamos em uma estrada, sem iluminação de tochas, e sem pessoas passando, uma estrada deserta, que na chegada da lua ficava cheia de ladrões e animais selvagens.
_Eu disse que confiava nele! Eu disse! – Falou Daphne, abraçando o pequeno cachorro, que agora a lambia no rosto e abanava o rabo, feliz.
_Sim, sim. – afago a cabeça do pequeno cachorro – Ele será nosso novo guia, para onde vamos agora Wolly? – Daphne o coloca no chão e segue a estrada para o norte, meus pais diziam que para o Norte ficava um lugar que eu podia confiar, e que eles me levariam lá um dia, porém, eles não tiveram tempo para tal ato...
Daphne pulava alegremente, sorrindo e com seu cabelo ruivo balançando com o vento, dava para ver nos olhos dela que ela estava triste, mas mesmo assim ela continuava firme, se segurando para não chorar. Ela estava determinada a chegar em alguma lugar, e com a determinação dela, meu coração ficou feliz por não estar sozinha, por ter encontrado aquela menina chorando na floresta, pois sem ela, eu ficaria encostada na árvore, desolada, sem prosseguir, e esperando a morte.
Depois de algumas horas andando de baixo do sol quente de Rune, minha visão começou a ficar turva, sem foco, minhas pernas não aguentavam mais meu peso, e assim, fraca e desidratada, desabei no chão. Enquanto meu corpo caia, consegui ouvir Daphne gritando, a única coisa que me lembro era do sol esquentando meu corpo. E só.
Não sei quantas horas dormir, pois acordei e já era de noite, a lua cheia iluminava a terra, minha cabeça estava deitada nas pequenas pernas de Daphne, e percebi que ela conversava com algumas pessoas que eu ainda não tinha avistado.
_Vocês viajam por toda Rune? – ouvi Daphne perguntar.
_Bem, essa é nossa meta, mas começamos a pouco tempo então, demoraremos para alcança-la. – respondeu uma mulher, com a voz suave e acolhedora.
_Que legal! – responde Daphne, super animada.
Enquanto eles conversavam, minha cabeça latejava,meu corpo não respondia com muita velocidade aos meus comandos, eu estava fraca e precisava comer alguma coisa. Com muita força de vontade consegui colocar a mão na testa, Daphne seguro minha mão e disse:
_Calma Tifa, levante devagar. – disse minha pequena companheira. Fui me sentando as poucos, e vi as pessoas que conversavam com Daphne. Olhei para eles, investigando-os. Era um casal, e um menino, eles pareciam amigaveis, mas não confiei neles de primeira.
_Quem são eles? – pergunto.
_Aah, eles nos ajudaram. Resumindo, você desmaiou, fiquei desesperada, Wolly saiu correndo pela estrada, e depois voltou com essa família, que nos ajudou. – Permaneci calada, apesar de Wolly ter trago eles, eu não confiava muito em pessoas que andam por estradas perigosas de noite e ajudam duas meninas e um cachorro, não depois da destruição da vila.
_Você esta se sentindo melhor, querida? – perguntou a mulher, fiz que sim com a cabeça. – Takashi, vá ver se ela está com febre. – Então, um menino que devia ter minha idade se levantou e veio em minha direção, enquanto ele andava a mulher começou a falar – Takashi lê muito sobre alquimia, sabe muito bem quando as pessoas estão melhor ou não. Ele lhe deu uma mistura que a ajudou a acordar mais rápido, espero que se sinta melhor depois de dormir mais um pouco. – Apesar da senhora explicando a tal capacidade do menino, meu pensamento da hora foi: “Não, você não vai tocar em mim!”. Quando Takashi se aproximou, levando a mão em minha testa, bati em sua palma, tirando-a de perto do meu rosto.
_Mas é muita ousadia. Quem você pensa que é? Estou tentando te ajudar. – disse ele, com a voz irritada.
_Ora, ora, deixe ela Takashi, ela ficará bem. – Disse o velho que estava sentando no chão, acariciando o pelo de Wolly.
O menino se sentou ao lado da mãe, e continuou comendo, Daphne se levantou e pegou um prato de sopa para me dar. Embora fosse simples a comida, era a melhor coisa que já tinha comido, era delicioso. Enquanto eu comia, todos conversavam, menos eu e Takashi. Ele me encarava com um olhar de raiva, talvez ele não gostasse de mim. Sei que fui grossa em afasta-lo, mas eu só estava tentando me proteger, aquele olhar não me botava medo, só criava dentro de mim um sentimento de arrependimento, eu precisava pedir desculpas.
Fiquei do lado da fogueira quando todos foram dormir, Daphne deitou em uma cama improvisada feita pelo casal, o homem e a mulher insistiram para que eu dormisse mais, mas acabei convencendo-os de que eu estava bem e eles podiam dormir tranquilos. Takashi estava sentando em cima de um pano de couro de lobo, lendo algum livro, seus pais falaram para ele não ler muito e ir dormir, pois teriam que caminhar bastante para chegar ao seu destino, ele assentiu, e continuou lendo. Wolly, que estava perto no homem que o acariciava antes, sentou-se ao meu lado, pedindo carinho, comecei a mexer em seu pelo enquanto olhava intensamente para o menino.
Minha mente pensava: “Vá falar com ele! Peça desculpas”. Meu coração dizia: “Você não precisa falar com ele. Ele é bonitinho. Mas não vá falar com ele”. Havia um conflito em minha mente, eu não sabia o que fazer.
_Por que esta me olhando? – perguntou o menino. Eu estava tão absorta em pensamentos que nem vi ele olhando para meus olhos. Suas roupas eram simples, de pano, o mais barato produzido pelos mercadores. Seu cabelo era arrepiado, um pouco grande para um menino, e seus olhos, nunca vou esquece-los, castanho claro.
_É...eu quero...pedir des...
_Pedir desculpas? Tudo bem, não me importo com o que você sente. – Takashi disse, abaixando a cabeça e voltando a ler.
_Eu só quis ser gentil... – falei, tentando consertar as coisas entre nós.
_Eu também, e você deu um tapa em minha mão. – Ele olho para meus olhos de novo. – Boa noite. – e então se deitou.
_Boa noite. – ele me irritou. Me irritou muito. Me levantei e fui um pouco para longe da luz da fogueira. Wolly veio comigo, eu andava pisando pesado no chão, nervosa, com raiva. Queria dar um soco na cara daquele menino. Andando distraída chego em um pequeno barranco, que dava na estrada ao lado, o caminho era iluminado por tochas, e um rio corria ao lado. Tinha uma placa no outro lado da rua, queria ver em qual direção ficava a cidade mais próxima. Então comecei a descer o barranco, quando eu já tinha colocado os pés para descer, minhas mãos ainda apoiadas no topo, alguém me puxa. Areia cai em meus olhos, meu coração acelera, e então a pessoa que me puxou me deitou no chão e cobri minha boca com a mão. Olhei em seus olhos, cor castanho claro. Takashi? O que ele estava fazendo ali. Comecei a me debater, tentei gritar, mais a mão dele ainda forçava a minha boca.
_Fique quieta, por favor! – Sussurrou ele em meu ouvido.
_QUEM ESTÁ AI ? – Pergunta uma voz. – QUEM ESTÁ AI ? – Tinha gente na estrada, e eu não vi. Fiquei em silêncio. E então ouvimos passos.
_Deve ter sido sua imaginação, Carl. Eu não ouvi nada. – Fala outra voz.
_Pode ser, preciso dormir. Estou cansado.
_Todos estamos, mas precisamos chegar a cidade logo e entregar a mercadoria, a senhora Misty não gosta de atrasos. – Falou um homem, com a voz grossa, autoritária. Os passos ficaram menos audíveis, eles continuaram sua jornada. Takashi me soltou e olhamos para aonde os caras continuaram andando.
_Uma carroça cheia de... – Não consegui olhar aquilo direito, havia mais de dez crianças enjaulas em um carroça, de longe não deu de ver muito bem, mas eu tinha certeza que elas estavam feridas, algemadas. Uma lágrima escorria dos meus olhos. Para aonde estavam levando elas ?
_Vamos voltar. – Takashi se levantou e começou a caminhar em direção aonde eramos para estar.
_Não vamos fazer nada? Vamos simplesmente deixa-los ir? – Falei aumentando um pouco a voz, ele continuava andando. – Você é um babaca! Só sabe ignorar as pessoas? Você não tem coração?! Aquelas crianças vão sofrer e você vai simplesmente deitar e dormir? — Quando terminei de falar, Takashi virou-se para mim e disse:
_Eu não tenho coração? Se eu não tivesse coração não teria a ajudado quando a vi desmaiada! Não tinha te puxado agora, sabe-se lá o que eles fariam com você se eu não a puxasse! Tem certeza que eu não tenho coração?! Somos só crianças, o que você acha que poderemos fazer para ajudar? Só aumentaríamos o numero de crianças dentro daquela jaula. Se você quer ajudar alguém, tente ajudar a si mesma primeiro. – Nunca tinha ouvido ele falar tanto, havia uma fúria em seus olhos, ele estava certo, eu sabia disso, mas fui teimosa o bastante para ignora-lo e continuar andando. Passei ao seu lado, ele olhava para meu rosto, não consegui olhar para seus olhos, eu queria chorar, tinha apenas doze anos, e queria enfrentar três ou quatro homens armados e treinados, não conseguiria de jeito nenhum. Parei ao lado de Takashi e disse:
_Você está certo, desculpe. – abaixei a cabeça e continuei andando. Cheguei aonde estávamos e deitei ao lado de Daphne, que dormia tranquilamente. Wolly me acompanhou, eu nem reparei que ele estava comigo aquele tempo todo. – Desculpe por isso Wolly, desculpa por tudo... – Aproximei o cachorro para mais perto de mim, o abracei e tentei dormir, demorou, mas consegui.
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