A Centelha da Esperança
1 A Perdição da Vila
Notas iniciais
Tifa
Quando eu tinha doze anos minha vila foi invadida pelo clã das sombras, pouco conhecido em toda Rune, mas os contos falavam: “Se você ouvir uivos e risadas, corra, corra o máximo que conseguir, pois eles vão acabar com tudo, eles vão acabar com sua família e amigos. Esse é o clã das sombras”. Para mim, isso era apenas uma história que os mais velhos contavam para as crianças não saírem das suas vilas, mas não era história, eles acabaram com minha vila, com minha família...
A pobre cidade que eu morava era pacata, as casas que ali havia eram simples, de madeira e com poucos móveis, sem luxo nenhum. Pilt tinha poucos inimigos, mas em apenas alguns minutos tudo mudou. Moradores que limpavam suas casas de madeira, ferreiros que esquentavam seus equipamentos, alquimistas que vendiam suas poções, e eu, que apenas brincava na rua com meus amigos, ouvimos uivos de lobos, risadas macabras. Já sabíamos o que ia acontecer. Eles estavam vindo. Por que? Por que aqui? Uma vila pequena, com poucos moradores.
Todas as pessoas que estavam na rua correram para dentro de suas casas, crianças corriam desesperadas para seus pais. Eu corria para minha família, mas quando cheguei perto o bastante, uma explosão. Na hora fechei os olhos por medo, e logo abri, deparando-se com minha casa sendo queimada aos poucos.
Com apenas doze anos vi minha casa pegando fogo, meus pais estavam lá dentro, as pessoas que eu mais amava...eu não conseguia me mexer, as risadas e uivos ficavam mais altos, mas ver minha moradia pegar fogo, imaginar meus pais queimando lá dentro, me deixou em choque.Paralisada. Sem reação alguma.
Porém, uma coisa me tirou daquele transe, a janela foi quebrada e uma coberta de pano fino foi jogada em meus pés, ao cair ouvi um ganido. Quando sai do choque, abri a coberta que estava quente, vi um filhote de cachorro preto, pernas finas, e olhos amarelos que suplicavam ajuda. Ele estava desesperado igual eu, meus pais o jogaram para mim, querendo que eu saísse dali, salvando aquele pequeno filhote e salvando minha vida.
Quando peguei o pequeno filhote nas mãos, senti um força entrar em meu corpo. Uma voz falava em minha mente para eu correr, olhei para o pequeno animal e ele estava penetrando aqueles olhos amarelos nos meus, parecia que ele estava tentando me salvar, falando que eu tinha que correr. E foi o que eu fiz.
Corri, não parei de correr, abracei o pequeno cachorro e sai em disparada na direção da floresta, não olhei para trás, sabia se olhasse não conseguiria mais correr. Foi difícil não dar meia volta e tentar ajudar as pessoas que estavam gritando, dava para ouvir o fogo se alastrando pelas casas. Mas eu não pude voltar, não ia conseguir fazer nada, era muito jovem para saber como eu poderia ajudar...
Fiquei rapidamente exausta de tanto correr, mas consegui fugir dos gritos, e do cheiro de fumaça que havia em meu antigo lar. Sentei encostada em uma árvore e desenrolei o cachorro que eu carregava, ele me encarava com aqueles olhos amarelos, então lembrei que eu sempre havia pedido um cachorro para meus pais, e eles falaram que eu não tinha como ter um, e mesmo assim, eles me deram, no dia em que minha vila sumiu, destruída.
Com muitos devaneios, quase não consegui ouvir alguém chorando, fiquei em silêncio para detectar da onde vinha o barulho, o som estava vindo de perto, enrolei o pequeno cachorro no pano e segui na direção da pessoa chorando. A floresta era escura, não dava de ver muito longe, havia árvores de todos os jeitos, galhos quebrados no chão, fazendo com quem andasse ali fosse flagrado.
Ao me aproximar da fonte do barulho, consegui ver que era uma menina, lembrei dela imediatamente, observando o seus cabelos ruivos tampando o seu rosto, eu a via com um menino que eu sempre chamava para brincar, mas ele nunca vinha, ela sempre sorria para mim, mas também não ia brincar, mas eu nunca desistia de chama-los. A menina levantou a cabeça quando me ouviu, seus olhos verdes fitaram o meu, do mesmo jeito que o irmão dela me olhara um dia. Ela estava chorando muito, soluçava, então me aproximei e sentei ao lado dela. Sabia o que ela estava sentindo, ela estava sozinha igual eu, sem ter para onde ir, sem família, sem nada.
_Daphne, certo ? – eu disse, tentando tirar os pensamentos daquela menina no fogo que havia destruído nossa vila. Ela apenas assentiu, não conseguia falar. – Quantos anos você tem ?
_Nove anos. – ela olhou para meus olhos. – Meu irmão...ele...me salvou, e não sei se ele conseguiu fugir. Não pude ajudar. Não pude fazer nada. Ele gritava para eu fugir, que nos encontraríamos de novo, mas eu duvido, aqueles caras tinham uma cara de mal, eles queimaram minha casa e...
_Nossa vila inteira – interrompo-a. – Seu irmão foi um herói, foi não, ele é. – Ao falar isso a menina começa a chorar mais ainda, eu a envolvi nos braços, e começamos a chorar juntas. Eu lembrava muito bem do irmão dela, e eu sabia que ele tinha condições de fugir, mas não queria botar muita esperança na pequena menina que chorava comigo. O cachorro que havia se desenrolado da coberta se aninhava no colo de Daphne. Ali que percebi que ele foi enviado pelos meus pais, para proteger quem eu desejasse, e obviamente, para ajudar em minha jornada.
Eu que apenas tinha doze anos, e Daphne que tinha nove anos, estávamos perdidas na floresta que rodeava nossa antiga e destruída vila, com um cachorro que nos protegeria a qualquer custo, estávamos a procura de uma família, de comida, e um lugar que nos ajudaria a entender o que aconteceu com nossas parentes e amigos.
Passamos a noite ali, abraçadas, com Wolly em cima das pernas da pequena menina. Sim, esse é o nome do meu cachorro, e foi Daphne quem escolheu. Ela adormeceu em meus braços, e eu não conseguia dormir, quando fechava os olhos imagens da vila apareciam em minha mente. Era horrível.
A noite passou rápido, embora os mais velhos da vila falassem que quem botasse os pés naquela floresta de noite não sobreviveria. Acho que eram só histórias, pois eu me sentia segura ali, encostada naquela árvore, pensando o que faria depois daquele dia. Eu e Daphne podíamos pedir abrigo em uma casa que acolhem crianças perdidas, ou andar de vila em vila pedindo comida sem ter um teto para dormir.
Quando ela acordasse eu perguntaria pra ela, e então partiríamos para algum lugar, longe da nossa aniquilada vila.
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