A Caçada

1 Um assassino alucinado


A noite estava escura, as nuvens encobriam o céu, e a lua e as estrelas permaneciam ocultas. Sentia o metal gelado do revolver .38 com seis cartuchos e da faca de cozinha encostados na minha virilha. Tinha roubado essas armas há pouco tempo atrás, obedecendo as ordens de meu mestre, e hoje mais uma vez, voltaria a obedecê-lo. A missão era simples, roubar a loja de conveniência de um posto de gasolina. Precisava de dinheiro para pagar mais uma noite no hotel infestado de percevejos em que me refugiava. Olhei em volta, procurando alguma viatura que pudesse intervir na minha missão, e estava tudo limpo. Alguns carros passavam pelas ruas mal iluminadas, mas com certeza nessa cidade caótica ninguém sairia do seu caminho para evitar um simples assalto, que ocorria todos os dias em todos os lugares, como a televisão levava todos a acreditar.

Atravessei a rua, e andei em direção a loja de conveniência. O frentista olhou assustado para mim. Ele tinha razão, eu era mesmo assustador. Tinha quase dois metros de altura, e minha face era a de um homem determinado, pronto a fazer o que fosse necessário para obter sucesso nos meus objetivos, quaisquer que fossem. Meus olhos eram perturbadores, como os de alguém que viu o inferno e voltou para contar história. Tinha cabelos castanhos cacheados longos, usava calças jeans, um pouco curtas para minhas pernas longas, uma camisa vermelha estampada com flores brancas e minha capa de chuva amarela, que me protegia da radiação maligna irradiada pelas lâmpadas fluorescentes.

Entrei na loja de conveniência como quem não quer nada de mais, talvez comprar cigarros ou bebidas, para suportar mais um dia da rotina diária que transformava as pessoas em ovelhas, e as ovelhas em pedaços de carne embalados a vácuo, prontos para serem consumidos no jantar, por senhores burgueses bem alinhados. Havia mais uma pessoa na loja, um homem de pouca idade, no máximo uns vinte e cinco anos. Ele comparava os preços das garrafas de vodka, que certamente planejava dividir com seus amigos de faculdade. Entretanto, mal sabia ele que hoje não era seu dia de sorte, a não ser que por algum motivo saísse da loja nos próximos segundos. As ordens tinham sido claras: não deixar testemunhas. Esperei mais alguns segundos, para ter certeza que o universo já tinha se decidido sobre o destino do homem, e não houve dúvidas, hoje seria seu último dia sobre a face da terra (também não sejamos exagerados, ele ainda teria algum tempo sobre a terra, não seria enterrado imediatamente).

Saquei minha arma e a apontei para a cara da caixa da loja. Ela era morena, tinha os cabelos presos e usava um uniforme azul. Não passava de uma pessoa mediana, em todos os aspectos indistinguível de centenas de pessoas com a mesma idade. Hoje finalmente ela teria a chance de conhecer os palácios celestiais, mas não nos afobemos, uma coisa de cada vez. Primeiro o dinheiro.

— Passe o dinheiro. – disse uma voz distante, aparentemente proveniente de um homem com minha aparência, que podia avistar do teto da loja onde me localizava momentaneamente. Não sei por que mas isso sempre acontecia comigo, tinha a impressão que meu corpo não me pertencia. Mas esse não era o momento para isso, tinha que focar no que estava fazendo. Voltei para dentro do meu corpo e saquei a arma da cintura. Se demorasse mais alguns segundos para exibir minha máquina a moça logo pensaria que se tratava apenas de uma piada. Ou não, não com a minha aparência intimidadora. Ela entregaria todo o dinheiro nem que viesse assalta-la só de cuecas. Ela abriu a caixa registradora e tirou de lá um punhado de cédulas coloridas de valores variados. Peguei o dinheiro e soquei no bolso. Me aproximei da mulher e encostei o revolver na sua testa. Olhei fixamente nos seus olhos, esperando ver neles a indicação de que ela aceitava seu destino. Nada. Não tinha a noite toda, então pressionei o gatilho. A moça caiu no chão morta, com um enorme orifício irregular na testa. Não tinha tempo a perder, ou o garoto que avaliava bebidas fugiria. Virei para ele e atirei em seu peito, duas vezes. Ele deu um gemido e também caiu no chão. Finalmente eles tinham alcançado seus respectivos destinos, e podiam descansar em paz. Hoje tinha ajudado duas pessoas a se livrar da maldição da vida, mas não pararia por aí. Ainda tinha muito o que fazer. Mas primeiro, um breve intervalo para um refresco. Me acocorei e peguei o pulso sem vida do garoto (pois afinal não passava disso, um garoto). Ainda estava quente, o que me era muito agradável. Mordi seu pulso e drenei seu sangue avidamente. Me levantei e olhei para fora. O frentista tinha desaparecido, certamente temendo se tornar mais uma vítima da besta imortal em que consistia. Peguei do meu bolso três cartuchos, e os inseri cuidadosamente no tambor de meu revólver, jogando no chão os estojos vazios. Me perguntei o que a presença desses estojos levaria os investigadores a pensar sobre minha ação. Provavelmente pensariam que eu tinha feito essas monstruosidades calmamente o suficiente para pensar em municiar minha arma antes de partir. Por outro lado, esses estojos provavelmente poderiam ser utilizados em confrontos balísticos, o que permitiria que ligassem todos os crimes em que meu revólver participou ou iria participar, o que, devo adiantar, não seriam poucos. Mas conhecia meu destino, e não era morrer queimado pela luz solar num banho de sol da prisão. Puxei a cadeira da caixa para o meio da loja, e me sentei ofuscado. Não teria risco de ninguém me encontrar ali, pois a ofuscação faria com que desviassem o olhar da minha direção. Logo o frentista entrou na loja hesitante, se aproximou do rapaz que tinha executado, e o chutou na perna, esperando ver se ele reagia, e obviamente ele não se moveu. Depois ele foi até a caixa, e também a moveu com a perna. Então ele sacou um celular e ligou para alguém, presumivelmente a polícia, e disse que haviam dois mortos no posto de gasolina cujo endereço ele passou. Logo a polícia estaria aqui para investigar o crime, e eu também estaria aqui, para garantir que nada fosse descoberto.

Uns vinte minutos mais tarde uma viatura da polícia militar estacionou no posto de gasolina, e os soldados vieram até a loja. O frentista os levou para dentro, e mostrou os corpos. Os policiais sentiram a pulsação dos cadáveres, e um deles falou no walkie-talkie, chamando a perícia. Depois de outros trinta minutos chegou uma perita, acompanhada de um fotógrafo. Ela era muito bonita, um chuchu, branca, loira e com as feições finas e agradáveis. Vestia uma camiseta preta com “Perícia” escrito atrás. O fotografo começou a tirar fotos do local, e não me preocupei em não sair nas fotos. Eles com certeza teriam uma surpresa quando vissem as fotos – o assassino estava lá o tempo todo e ninguém percebeu! Isso poderia até ser considerado uma quebra da máscara, não que isso interessasse para mim. Estava acima da Camarilla e de seus vampiros fracotes moralmente, que ainda seguiam a retrograda ética humana. A ética da Trilha do Poder e da Voz Interior era muito superior, pois levava o vampiro a obtenção do poder supremo. Mas não era hora para pensar nisso.

A mulher anotava tudo em uma prancheta, enquanto mexia nos corpos. Ela até tirou as roupas deles, provavelmente em busca de ferimentos. Ela coletou os estojos que tinha deixado no chão e comentou:

— Por que esses estojos estão aqui? Isso é estojo de revolver. O assassino parou para municiar sua arma depois do duplo homicídio?

O fotógrafo acenou positivamente com a cabeça. Aparentemente ele não tinha muito o que falar sobre o assunto.

A moça loira guardou os estojos em um saco transparente e o lacrou. Depois olhou pelas paredes, para ver se encontrava outras marcas de tiros, mas obviamente não encontrou, pois eu tinha sido preciso. Ela parecia ter finalizado a perícia, se despediu dos policiais militares e saiu junto com o fotógrafo. Eu não deixaria que ela saísse da cena do crime sem levar nada consigo, então usei assombrar a alma, o segundo nível de demência, nela. Ela logo passaria a ter visões peculiares. Mas isso não seria o bastante, ela me atraiu de tal forma que não quis deixar que ela partisse assim, e entrei em sua viatura.

— O que você está pensando seguindo essa mulher. Acha que ela vai gostar de você? – disse minha mãe.

Não respondi nada, pois se dissesse alguma coisa perderia a ofuscação, embora com certeza não estivesse pensando que ela ia gostar de mim, isso só podia ser mais uma acusação falsa da minha mãe. Pensando bem na viatura, cheguei à conclusão de que já tinha visto a mulher em outro lugar, mas não lembrava onde, e por isso ela tinha me chamado atenção.

Do posto de gasolina a perita foi para outros locais de crime, e a acompanhei. Havia um local de roubo, outro de suicídio e um que muito chamou minha atenção, de homicídio. O corpo tinha sido encontrado em uma casa normal, sem nada de especial, mas o morto tinha tido sua garganta rasgada, e o sangue tinha escorrido copiosamente sobre o chão. Em sua testa havia uma marca de um pentagrama, provavelmente feita com ferro em brasa. De quem poderia ter sido a ideia de cometer um crime desses? Provavelmente não de um vampiro, pois nesse caso não haveria todo esse sangue desperdiçado. Usei os olhos do caos para retirar alguma informação da cena do crime, e vi um dragão com seis cabeças . Nada que pudesse interpretar.

Por fim voltamos a base da perita, que era um Instituto de Criminalística, pintado de verde, ao lado de um IML. O fotógrafo, que estava dirigindo, abriu o portão com o controle, então entramos por uma porta lateral. O fotógrafo entrou em uma sala e sentou em um computador, e foi mexendo nele. Aparentemente ele está passando as fotos para o computador. Logo ele me veria nas fotos, e reagiria. E foi exatamente o que aconteceu, ele passava as fotos distraidamente quando uma delas repentinamente chamou sua atenção. Ele então passou para as fotos seguintes, e olhou boquiaberto para minha presença nas fotos. Então chamou a perita, que se chamava Karina, e ela foi ver as fotos. Ela também ficou espantada com o que viu, e disse:

— Como esse cara estava lá o tempo todo e ninguém o viu?

— Pois é.

— Será ele o assassino?

— Não sei.

— Agora já era, não adianta voltar lá.

A perita e o fotógrafo conversaram um pouco, e então foram dormir, cada um num quartinho. Entrei no quarto junto com a perita, e sentei numa cadeira ao lado da cama. Ela retirou a arma e os carregadores e pôs em cima de uma mesinha que havia lá, e se deitou. Logo ela levantou na cama assustada e esfregou os olhos, como se estivesse vendo algo que não poderia estar lá. Minha disciplina estava tendo efeito. Ela fechou os olhos e tentou dormir, mas logo fez o mesmo de novo. Então pôs o pé no chão para se levantar, e eu disse:

— Não se assuste, você está sob meu efeito.

Ela virou para mim assustadíssima, foi até sua arma, tremulamente retirou-a do coldre, e a apontou para mim.

— Quem é você? O que está fazendo aqui?

Reduzi seus sentimentos usando demência nível um, e ela olhou para sua arma com curiosidade, como se não soubesse o que estava fazendo com ela, então devolveu-a no coldre.

— Você é o homem das fotos.

— Sou.

— O que você está fazendo aqui?

— Te segui porque acho que te conheço de algum lugar.

— Não me lembro de você. Como você me seguiu até aqui sem que te víssemos? E como você apareceu nas fotos sem que nós percebêssemos?

— Murilo? Murilo? – disse uma voz inconfundível, que só podia ser de meu mestre.

— O que foi, mestre?

— Transforme-a em uma carniçal.

— Tudo bem, mestre. Trata-se de uma disciplina vampírica, chamada ofuscação.

— Vampírica de vampiro? Com quem você estava falando?

— É, vampírica de vampiro. Estava falando com meu mestre.

— Tá bom. Tô falando sério.

— Mas é isso mesmo. Vou usar de novo para você entender. – e me ofusquei.

Ela ficou olhando para o chão por alguns instantes, e então desativei a ofuscação. Ela voltou a olhar para mim e disse:

— Nada aconteceu. Eu só olhei pra baixo.

— Por efeito da ofuscação.

— Hahaha, tá bom. Você não pode ficar aqui. Vou te levar até a saída.

— Não, você vai beber meu sangue.

— De jeito nenhum!

Agarrei-a pelos cabelos e mordi meu pulso. Então pus o pulso na sua boca, e a obriguei a beber do meu sangue. Logo ela tinha pegado gosto, e não queria largar meu braço, de forma que tive que forçá-la a me soltar.

— Viu, você gostou.

Pude ver nos seus olhos que ela estava chocada, justamente por ter gostado. Era a primeira vez que fazia um carniçal, e nem eu sabia exatamente porque iria transformá-la em um, a não ser para obedecer meu mestre.

— Pode me levar pra fora agora. Onde podemos nos encontrar amanhã?

— Que horas?

— A noite.

— Claro, porque você é um vampiro. – disse ela ironicamente. – Amanha à noite estarei em casa. Vou te passar meu endereço.

Então anotou o endereço num papel e me entregou.

Notas finais
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