A Caçada
2 Progênie
Saí do Instituto de Criminalística e do lado de fora farejei o ar. Tudo que sentia era o tradicional cheiro de queimado que vinha dos escapamentos dos infindáveis automóveis que empesteavam a cidade. Uma cidade imensa dessa, e eu com nada para fazer. Afinal, o que faziam os mortais durante suas curtas vidas? Estudavam, trabalhavam, procriavam e morriam. Eu não precisava estudar, pois já sabia tudo o que precisava, e tampouco podia procriar. Me restava trabalhar, para ocupar minhas intermináveis noites. Mas deveria trabalhar com um objetivo especifico, acumular poder, como era o preceito de minha trilha. Precisava escolher um caminho para obter poder, e já tinha algo em mente: assassinar o príncipe, e o diablerizar. Essa seria uma missão dificílima, e que me levaria por uma longa jornada obscura, mas recompensadora. Mas não tinha nada com o que começar, afinal sequer sabia onde ficava o Elísio dessa cidade. Para descobrir essa informação tinha uma ideia, precisava encontrar vampiros da Camarilla. Não seria difícil encontrar um, usando a isca apropriada. Liguei para um taxista que tinha usado anteriormente, e cujo número eu tinha salvo no meu smartphone, e pedi que ele me levasse até o posto de gasolina que tinha roubado. Paguei a corrida e fui em direção a meu carro, que estava estacionado lá perto. Tratava-se de um moderníssimo sedan dos anos 70, que tinha adquirido num ferro-velho, mas que era bom demais para ser vendido por peso.
Fui de carro até a cracolândia, e dei uma volta pela rua, para ver o movimento. Dezenas de pessoas se encontravam sentadas no chão ou em pé na calçada, usando drogas ou sentindo seus efeitos. Além disso, havia na região hotéis que serviam de refúgios para usuários de crack. O cheiro de urina, fezes e crack infestava o ar. Fiz questão de manter meus auspícios inativos, para não invadir meu sistema sensorial com aqueles cheiros. Era impressionante como uma comunidade de drogas criminalizadas pudessem se organizar dessa forma em um local só, sem sofrer intensa repressão por parte da polícia. A sociedade mortal era mesmo fracassada em lidar com seus problemas, e a Camarilla não era diferente. Provavelmente controlavam o tráfico de drogas na cidade, e influenciavam para que os usuários de crack permanecessem ativos para assegurar sua renda. Não pense que eu sou ingênuo, o Sabá não era melhor que a Camarilla nesse sentido. Enquanto a Camarilla acreditava que a sociedade mortal poderia servir para ocultar os vampiros, o Sabá pensava que sua função era servir os vampiros diretamente, e em cidades dominadas pelo Sabá a situação dos mortais não melhorava, muito pelo contrário. Já eu pouco me importava com os destinos desses mortais insignificantes, que só eram relevantes a medida que me auxiliassem a obter poder. E era para isso que serviriam hoje.
Estacionei meu possante e fui em busca de um traficante. Perguntei a um dos crakentos onde poderia encontrar um, e ele parecia hesitante em responder. Diminui o que ele estava sentindo, e ele então pareceu mais despreocupado, e apontou para um homem que podia ser distinguido dos usuários por não estar imundo, e nem ter a mesma expressão sofrida. Me aproximei dele e comprei cem reais de crack. Depois andei por entre os viciados, e ofereci a droga para alguns deles, dizendo que eles me acompanhassem se quisessem recebê-la. Levei-os para um dos hotéis miseráveis, e aluguei um quarto. Então distribui um pouco da droga para eles, para mantê-los entretidos.
— Murilo, se você beber sangue deles você vai ficar drogado! – disse minha mãe.
— Que se foda. – respondi. – Isso faz parte de meu caminho para o poder.
Os crackentos nem pareceram me notar conversando com minha mãe, como era comum, de tão fissurados estavam na droga. Um de cada vez, fui esgotando o sangue de seus corpos, e consumindo o sangue para aumentar meus atributos físicos. Quando o sangue se esgotava, oferecia uma quantidade mínima do meu sangue, pois os queria em frenesi. Entretanto, a droga foi se acumulando em meu corpo, atingindo níveis extremos. Se eu fosse um mortal teria tido uma overdose, pois tinha consumido todo o sangue de cinco pessoas drogadas! Me senti completamente eufórico, como se pudesse fazer qualquer coisa que quisesse sobre a face da terra, e com a força descomunal que tinha alcançado realmente haveria pouco que eu não pudesse fazer. Além disso sentia extrema excitação, como nunca tinha experimentado antes, tanto na minha vida mortal como na minha não-vida. Os efeitos da droga foram tão intensos que esqueci o que estava planejando, e fiquei deitado na cama, viajando. Alguns minutos se passaram, e os vampiros que tinha criado começaram a se levantar, loucos de sede. Eles tentaram me atacar mas os repeli facilmente, com minha presente força descomunal, então eles saíram do quarto, e por algum tempo não posso dizer o que aprontaram. Mas pude deduzir, pelos sinais óbvios que deixaram, que atacaram os empregados do hotel, mas não os acharam do seu gosto, por falta de crack. Então saíram para rua e drenaram o sangue de múltiplos drogados. Uma luta generalizada tinha então ocorrido, com os drogados lutando por suas vidas e por seu sangue. Logo os coxinhas chegaram e descerem o cacete na minha progênie, que com certeza mal a sentia, levando os policiais a loucura devido ao pouco efeito de seu intenso esforço. Então seus cassetetes tinham sido tomados, e eles foram obrigados a atirar, também com pouco efeito. Finalmente tinham sido mortos pela minha progênie, que depois disso fugiu pela rua, já saciada. Todos esses detalhes só pude obter no dia posterior, através da coleta de relatos e do uso dos Olhos do Caos, pois nesse intervalo de tempo estava mais louco que o batman, viajando no quarto de hotel. Os funcionários do hotel vieram até meu quarto tentando descobrir o que tinha acontecido, mas do jeito que estava noiado não pude falar nada coerentemente. Apenas entreguei dinheiro extra, para que eu pudesse ficar o próximo dia inteiro no hotel.
Na noite seguinte, acordei me sentindo muito deprimido, certamente um efeito colateral do crack. Estava desanimado com a vida, e achava que jamais conseguiria alcançar meu objetivo de matar o príncipe, e nem qualquer outro objetivo que por ventura viesse a ter. Tinha vontade de me matar, pois não passava de um inútil.
— Você tem razão, não passa de um inútil. Por que você não se joga de alguma ponte? – disse minha mãe.
Não respondi, pois nem para isso tinha energias. Fiquei imaginando formas de me matar, não poderia me enforcar, e na realidade se jogar de uma ponte não seria muito efetivo. Para garantir minha morte poderia me queimar vivo ou tomar um bronzeado. Pensei em diversas outras coisas, sem sair da cama, até que lembrei de algo que tinha esquecido. Já sabia de onde tinha conhecido Karina, ela estudou na mesma escola que eu no ensino médio. Podia me lembrar dela com o uniforme da minha escola, na hora do recreio, comendo salgadinho e conversando com outras garotas. Falaria isso para ela hoje, se tivesse animo para sair da cama.
Então vi algo que me animou, o resto da droga que tinha comprado. Podia entregar parte dela para um dos crackentos e beber seu sangue. Isso com certeza acabaria com minha depressão. Me levantei da cama num salto, peguei a droga, e antes de sair do hotel perguntei para os funcionários o que tinha acontecido. Eles me contaram a parte que tinham visto, e alguns deles estavam ainda enfaixados das mordidas da minha progênie. Fui ter com os viciados do lado de fora, e perguntei para vários deles o que tinha acontecido na noite anterior, e aos poucos fui montando uma história logica e racional. Por fim usei os Olhos do Caos para ter uma visão do que tinha acontecido, e vi como se fosse numa gravação da televisão os cinco neófitos que tinha criado fugindo após terem matados várias pessoas e alguns policiais.
Então convidei um dos viciados a ir até o hotel comigo, e lá dei várias pedras pra ele. Ele usou um cachimbo improvisado com uma lata de alumínio para consumir a droga, e então bebi todo o sangue dele, até a última gota, consumindo o excesso de sangue aumentando meus atributos físicos. O efeito da droga foi muito inferior ao que tinha sentido no dia anterior, mas foi suficiente para acabar com minha depressão. Mais uma vez tudo parecia lindo, e me parecia que poderia fazer o que quisesse, incluindo eliminar um vampiro ancião como o príncipe. Só precisava de um pequeno esforço. Peguei o cachimbo e o isqueiro do morto, para caso precisasse mais tarde, fui para a rua e fiquei andando por entre os drogados, ofuscado. A camarilla certamente mandaria alguém para investigar o que tinha acontecido, e então tomaria do grupo enviado a informação que precisava – onde encontrar o príncipe. Nesse meio tempo fiquei imaginando o que poderia ter acontecido com os vampiros que abracei na noite anterior. Será que eles tinham instintivamente percebido que a luz os queimaria vivo e se ocultado? Provavelmente não. O mais provável é que já estivessem todos mortos, e torcia para que tivessem se transformado em cinzas em frente de uma multidão, e ou na frente de câmeras de TV, para chamar bastante atenção.
Esperei na cracolândia por algumas horas, e apareceu uma dupla que não combinava com o local. Um deles era moreno, e usava um terno cinza e gravata, e o outro era um menino de uns doze anos, vestido com camiseta de desenho animado. Podiam se passar por pai e filho, mas o que eles estariam fazendo na cracolândia? Estariam perdidos? Eu duvidava muito. Eles com certeza não eram crackentos, e tampouco estavam ali para comprar drogas. Só poderiam ser os enviados da Camarilla. Eles estavam conversando com alguns dos viciados, e me aproximei para ouvir o que eles estavam falando.
— Eles vieram correndo daquele hotel. Você pode perguntar para os empregados de lá. – disse um dos viciados.
Não havia mais dúvida, eles estavam investigando a criação de minha progênie, e provavelmente obteriam com os empregados do hotel minha descrição. Não podia deixar que isso acontecesse. Eu era muito mais forte que qualquer um dos dois, e não teria dificuldades lutando com eles se os pegasse de surpresa, antes que eles pudessem usar sangue para aumentar suas forças. Pelo jeito tratava-se de um Ventrue, mas o garoto não podia identificar a qual clã pertencia. Então melhorei meus atributos físicos com sangue, saquei minha faca de cozinha e esfaqueei o adulto na barriga, múltiplas vezes, sem que ele tivesse tempo de revidar. O garoto saiu correndo então, e eu corri atrás dele, e o agarrei. Perguntei o endereço do Elísio e ele me disse. Então não hesitei, e cortei o pescoço do garoto. Ele caiu no chão, com o sangue borbulhando de sua garganta. Guardei a faca ensanguentada e me ofusquei de novo. Já tinha obtido o que precisava, corri para meu carro e parti na noite.
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