A Caçada

3 O príncipe


Fui de carro até o endereço que Karina tinha me passado. Tratava-se de um prédio pintado de verde, num bairro de classe média primariamente residencial, com poucos comércios esparsos. Karina morava muito melhor que eu, mas eu poderia vir morar com ela se quisesse, depois de finalizar meu laço de sangue. O prédio tinha um porteiro, o que certamente tornaria uma invasão fácil para um vampiro com dominação, mas prédios sem porteiros também não são difíceis de invadir. Basta dizer que tem uma surpresa para entregar, que algum dos moradores abriria o portão.

Pedi para o porteiro chamar Karina, e ele logo me mandou entrar. Adentrei no prédio, subi até o andar de Karina e bati na porta de seu apartamento. Ela atendeu a porta usando uma camisola que deixava suas pernas a mostra. Senti seu cheiro com auspícios, o que abriu meu apetite, mas estava lá para lhe entregar sangue, não para tomar. Entramos no apartamento, e lhe ofereci minha vitae. Ela bebeu e depois parecia extasiada. Beber sangue de vampiro certamente era muito agradável, só não sei se tanto quanto o beijo. Depois conversamos, e contei para ela sobre meu novo objetivo. Ela pareceu não entender bem essa história de príncipe, Camarilla e Sabá. Tentei explicar melhor, e acredito que tive um sucesso moderado. Ela, por sua vez, contou que tinham ligado para ela avisando que um crime semelhante ao homicídio da noite anterior tinha acabado de ocorrer. A vítima tinha sido encontrada praticamente exangue, com todo o sangue despejado sobre o chão, e um pentagrama marcado na testa com ferro em brasa. O modos operandi tinha sido o mesmo que o da noite anterior, a porta tinha sido destrancada sem sinais de arrombamento, e a vítima era uma pessoa de bem, que certamente não teria motivo para ser brutalmente assassinada dessa forma. Contei então que lembrava de onde tinha a conhecido, do ensino médio. Disse para ela a escola em que tinha estudado, e ela disse não ter estudado lá, na verdade nem sequer tinha ouvido falar da escola. Fiquei perturbado com isso, afinal tinha me lembrado dela com detalhes. Mas tanto faz, tinha coisas mais importantes para fazer, agora que tinha o endereço do Elísio podia me preparar para assassinar o príncipe. Perguntei para Karina se podia vê-la no dia seguinte à noite, e ela disse que sim. Sai do apartamento de Karina e fui de carro até o endereço que o vampiro juvenil tinha me passado.

O elísio ficava num bonito prédio espelhado, num bairro de elevado nível, constituído principalmente de prédios de design moderno. Era impressionante a superioridade da Camarilla em relação ao Sabá, enquanto a Camarilla tinha um prédio inteiro para ela, o Sabá tinha que se encontrar em covis. O Sabá na cidade era realmente muito desorganizado, constituído de uns poucos vampiros espalhados, sem um propósito único que os guiasse. Esperei no carro do lado de fora, vendo quem entrava ou saia. Várias pessoas passaram por ali, na maioria pessoas pálidas, provavelmente vampiros. A população da Camarilla na cidade era muito elevada, como nós do Sabá poderíamos ter esperança de desafiá-la? Mas eu tinha feito uma decisão, e não desistiria enquanto não conseguisse o que pretendia – destruir o príncipe.

— Murilo, você precisa ir ver o príncipe. – disse meu mestre. – Como você vai matá-lo sem o conhecer?

— Você tem razão, mestre. Vou indo lá.

Saí do carro e fui até Elísio. Na entrada havia uma sala de espera, onde algumas pessoas estavam sentadas, e o acesso ao elevador era protegido por um grupo de brutamontes de terno, e um homem magro de cabelo grisalho, também de terno, mas usando pendurado no pescoço um amuleto misterioso. Havia também um detector de metais. Me aproximei deles e disse que estava armado, então mandaram que eu guardasse minha arma no guarda-volumes. Deixei lá meu revolver, minha faca, e os cartuchos que tinha guardado comigo. Então passei pelo detector de metais, e subi no elevador até o andar que me informaram que era onde poderia encontrar o príncipe. Naquele andar andei até encontrar uma antessala, onde havia uma secretária. Perguntei se ali que ficava o príncipe, e ela respondeu que sim com a cabeça, e disse que o príncipe estava ocupado agora, mas disse que em cerca de meia hora ele poderia falar comigo. Na antessala, próximo a porta da sala do príncipe, haviam outros dois brutamontes de terno. Esperei por lá até ser admitido, e então entrei em uma sala com janelas amplas, como uma vista belíssima, uma estante à esquerda com livros diversos, quadros de paisagem no parede direita, e uma escrivaninha de madeira pesada, atrás da qual estava sentado um homem loiro, alto, com feições finas, vestindo um terno muito elegante. Ele apertou minha mão com firmeza, e disse:

— Pois não, em que posso te ajudar?

— Vim me apresentar.- era uma regra entre os vampiros da Camarilla se apresentar ao príncipe assim que chegassem a uma nova cidade. Ele não desconfiaria que eu era na verdade um vampiro do Sabá.

— Muito bem, como você chama, e quem foi seu mentor?

— Meu nome é Murilo, e meu mentor foi Gustavo Siqueira. – Menti para ele, meu mentor não tinha sido Gustavo, mas se dissesse o nome real dele ele poderia saber que eu era do Sabá.

— A que clã você pertence?

— Malkavian. – respondi, tendo subitamente a impressão que não controlava meu corpo. Esse era um prenúncio para minha alma abandonar meu corpo, mas precisava manter minha sanidade enquanto conversava com o príncipe, ou ele descobriria que eu não sou completamente são. (Descobriria? Ela já não sabia que eu era um Malkavian?)

— Você mudou para cá definitivamente ou está aqui de passagem?

— Mudei definitivamente. – disse o cadáver ambulante que via como se fosse um filme. Mesmo sem alma meu corpo podia conversar, como se consistisse em um autômato.

— Muito bem. Aproveite a cidade.

O príncipe estava sozinho na sala, e eu poderia aproveitar a oportunidade para tentar matá-lo, mas jamais conseguiria fugir com os brutamontes esperando do lado de fora. Deixei de lado essa ideia por enquanto, e saí do Elísio. Então decidi esperar até que o príncipe saísse da toca e fosse para seu refúgio. Isso aconteceu perto das cinco horas. Um sedan de luxo saiu do estacionamento do prédio, levando em seu interior o príncipe, e outras quatro pessoas, homens vestidos de ternos. Saí com meu carro e segui o príncipe, que continuou até chegar a um bairro residencial de classe alta, composto principalmente de enormes mansões. O carro chegou até um portão preto de metal, que se abriu automaticamente, e adentrou o terreno da mansão, estacionando perto de uma fonte de água.

— Se você parasse de ser tão preguiçoso e encontrasse um emprego de verdade talvez em mil anos conseguiria uma mansão dessa. – disse minha mãe.

— Já estou trabalhando, em busca de algo muito mais valioso que bens materiais – poder.

— Poder não enche barriga.

— Sou um vampiro agora, esqueceu? Não preciso de comida. Fique quieta, não me atrapalhe!

O príncipe realmente era podre de rico, provavelmente tinha mais dinheiro que todos os membros da Sabá da cidade juntos. Mas toda essa riqueza não lhe protegeria, quando fosse atrás de seu sangue. Já tinha alguma ideia sobre o que faria para matar o príncipe, precisava apenas de um lança misseis (apenas?).