A Cat In My Life
4 4 — Um salvamento estranho, de alguém estranho
Notas iniciais

3
–
As pessoas entram em nossa vida por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem. (Lilian Tonet).
–
Natsu estranhou o sumiço repentino da mulher. As garotas que estavam com Sting nem sequer comentavam mais sobre o acontecido. Mas Gajeel, Gray e Juvia estavam um pouco ociosos e não falavam nada.
Eles continuavam andando em direção à casa de Natsu novamente, mas sem precisão alguma. Natsu pensava que às vezes ser popular era chato, pois privacidade era algo difícil de ter, ainda mais por ser o neto do diretor. Por algum motivo ele sentiu algo estranho consigo mesmo e pensou em ficar sozinho para pensar um pouco.
— Vou sozinho pra casa agora, podem ir em direção a de vocês. — ele resmungou no meio da conversa.
— Mas por quê? A gente disse que ia com você. — disse Gray, parando junto a todos.
— Estou cansado, e vocês não têm por que virem comigo. — ele se virou para o pessoal e acenou com um sorriso, andando de costas. — A gente se vê.
— Você vai ter que pagar depois — disse Gajeel. —, sair para algum lugar com a gente.
— Ok, ok. — suspirou, já cansado.
— Cuidado com a bruxa. — brincou Sting, imitando um fantasma.
Após todos — ou quase todos — gargalharem e se despedirem, Natsu saiu em rumo à sua casa.
Passando por mais uma rua — que por sinal estava deserta —, Natsu olhou para os becos para ter certeza de que a mulher não estava o perseguindo mais. Nunca fora medroso, já havia batido em muitos garotos da escola por atormentarem seu sono ou fazer uma brincadeira de mau gosto. Então, uma mulher não lhe daria essa primeira experiência, nem mesmo uma louca.
Mais uma rua e ele chegaria em casa. Aquele silencio da noite o deixava se sentir estranho, apenas escutava grilos e mais grilos, e ele particularmente odiava esses insetos. Ele colocou as mãos nos bolsos do casaco por causa do frio e encolheu os ombros, precisava parar de ser tão idiota e paranoico.
Ele se pegou pensando quem era aquela mulher. Uma bruxa ou uma gótica maluca, talvez. Natsu tinha certeza que a vira conversar com o avô há algumas semanas atrás, isso o enlouquecia mais do que qualquer coisa.
Ela tinha mencionado seu pai, que já havia ido embora há eras atrás. Ele sabia que Igneel era da policia e gostava muito do trabalho como dizia Makarov, mas ele mal escutava, preferia não pensar nele e nas coisas horríveis que se passaram. Nunca pensou que um policial faria mal a uma família, e talvez eles mesmos fossem os culpados e queriam pôr as mãos no dinheiro da família Dragneel.
As botas pretas médias que ele usava raspavam no chão, os vizinhos estavam calados, talvez já dormindo. Estimou que fosse quase 23h da noite, para ele era cedo demais, ainda mais nas férias que infelizmente já estavam no fim.
Quando chegou, finalmente, à rua que esperava, sentiu uma pontada estranha na cabeça. Ele parou no meio da rua e tocou a testa, parecia um tipo de dor de cabeça insuportável. Ao abrir os olhos, sua visão estava turva e tudo ao seu redor girava como se estivesse bêbado, que há muito tempo não ficava, mas lembrava da sensação.
— Merda.
Resmungando, ele tentou andar, mas começou a ouvir vozes em sua cabeça que não conseguia distinguir o que era. Ele tocou com as duas mãos em sua cabeça, um pouco assustado e fechou os olhos. Um gato preto de olhos verdes apareceu em sua mente, dando um miado ensurdecedor que se localizou em seus tímpanos.
Não aguentando aquilo, ele se viu dando um grito de dor e caindo no chão.
Ele havia desmaiado.
[...]
Lucy saía do banheiro após um longo e reconfortante banho. Ela foi procurar uma roupa casual para vestir, já havia comido mais cedo e estava com muito tédio, mas preferiu ficar em casa.
Já fazia dois dias desde o passeio com Levy que ela havia adorado. Levy não dava as caras desde aquele dia, dizia ela que iria estudar para as aulas que estavam muito próximas. Lucy não aceitou o convite que ela a fizera para estudarem juntas, ela queria mais era descansar antes da tortura nas aulas.
Chegou até o quarto e abriu o guarda-roupa. Era inevitável, pensava em Natsu todas as horas do dia — e da noite — Pensou que o encontro predestinado pudesse ter sido com ele, mas também não podia, nunca ficaria com um popular como ele.
Quando Lucy saiu daquela loja do destino, Levy perguntou a ela o que Kana havia dito, mas ela preferiu não contar usando o método você-não-acredita-nisso para sair bem na mentira. Levy não insistiu, mas bufou, bem irritada.
A história da garota do gato também não saía de sua cabeça, era como se ela tivesse um pressentimento sobre aquela mulher, um pressentimento estranhíssimo que não queria pensar, talvez estivesse acreditando até demais em magia e coisas do tipo por causa da sua mãe que também acreditava nessas coisas.
Começou a vestir um short e uma regata para assistir televisão. Ainda eram 9h da manhã e ela queria sair mais, nem que fosse sozinha. Pensou em ir até a escola, apenas para ver a entrada, pois obviamente ela estaria fechada naquele domingo, mas mudou de ideia.
Lucy já tinha mandado por carta o endereço de onde morava para o pessoal de sua antiga casa, isso a deixava com menos coisas a se fazer. Provavelmente eles mandariam muitas cartas a ela.
Ao se vestir, penteou os cabelos louros e lisos e calçou uma chinela enfeitada para sair àquela hora da manhã. Pegou as chaves do apartamento, dinheiro, e colocou-os na bolsa grande que levou e trancou a porta. Ela precisava esticar as pernas e pensar sobre o que fazer de sua vida no futuro; parar de pensar em Natsu e parar também de pensar em destinos e encontros predestinados. Provavelmente ela ficaria louca se ainda pensasse nessas coisas.
Saindo do prédio, ela pensou aonde iria. Primeiramente esperou um táxi passar, ela tinha certeza que passaria algum, pois era o horário de trabalho para muitas pessoas. Quando o primeiro passou, ela o chamou com o dedo indicador e o esperou parar. O taxista era um homem de cabelo grisalho e sorria, mostrando algumas rugas no canto dos olhos.
— Aonde a senhorita deseja ir? — perguntou ele enquanto ela entrava.
— O senhor conhece alguma loja bem movimentada por aqui? — ela questionou com um rosto duvidoso.
— Se a senhorita quiser, posso levá-la para uma loja muito conhecida, é pertinho daqui. — ele sorriu pelo espelho do carro.
— Claro, eu adoraria. — riu.
O taxista acenou com a cabeça e deu partida. Lucy repousou a cabeça na poltrona e esperou até que ela chegasse até o local. Realmente o taxista estava certo, não demorou nem 15 minutos para que ela chegasse à loja estimada. Ela o pagou rapidamente e saiu do táxi, olhando os arredores.
Era muito bonito. A loja era enorme e ela conseguia ver várias pessoas entrando e saindo. Parecia ser bem frequentada, mas ela não compraria nada, apenas iria olhar para ver se algo a interessaria, outro dia ela iria com Levy.
Respirou fundo aquele ar matinal e andou até a loja.
Ela gostou do lugar, mas ficar sozinha não era uma coisa que Lucy gostava muito. Tinha lojas de roupa, cinema, sorveterias, restaurantes, lazer para crianças e tudo mais, com certeza ela iria para lá novamente, mas da próxima vez acompanhada. Ela não passou muito tempo e logo saiu. Sentou em um banquinho que havia próximo da porta e olhou para os minutos passando.
De repente sentiu uma presença estranha, como se algo que ela esperava há muito tempo estivesse chegando. Ela franziu o cenho e passou as mãos pelos braços, ficando arrepiada com a sensação esquisita.
Olhou para o lado, procurando algo que nem ela sabia. Viu outro gato que chamou sua atenção. Sua cor era estranha e ela não sabia distinguir, parecia uma cor meio goiaba com cinza, muito bonito e elegante. Ele estava no meio da rua, como se ele fosse o centro do universo e não existissem carros, mas ao mesmo tempo parecia um pouco assustado e cansado. Lucy se preocupou e levantou-se do banco, olhando para os dois lados da rua, pensando em pegá-lo.
Ela levou um susto ao ver que um carro vinha em alta velocidade e o gato nem utilizou sua audição altamente apurada para ouvi-lo. Não, ela não queria ver um animal morrendo atropelado na sua frente, definitivamente.
Lucy correu até o gato e olhou para o lado, não se importando em quase morrer. Ele olhou para o carro que quase a atropelara, dando uma freada brusca e barulhenta, chamando várias atenções. Seu coração foi a mil quando viu o carro praticamente em cima dela. O gato estava com os pelos em pé por causa do susto, então ela o pegou nos braços e olhou para o motorista.
— Você quer morrer? — ele praticamente gritou pela janela.
— Desculpe, mas você ia atropelando o gato, senhor. — ela respondeu com um pouco de medo, de um jeito mais educado possível.
— Eu sou um homem muito ocupado, estou atrasado pra ir ao trabalho, saia da frente e leve esse gato estúpido com você ou eu atropelo os dois! — gritou. Lucy pensou que realmente existiam pessoas idiotas e que se preocupavam apenas com o próprio ego.
Levou o gato até a calçada, com ele ainda nos braço e parecendo irritado. O carro partiu e, quando o gato olhou em seu rosto, não parou mais. Lucy olhava-o com o cenho franzido, ele realmente a encarava. Ela remexeu a cabeça e sorriu.
— Você é um gatinho bem maluco, sabia? — riu. — Nem parece um gato.
O gato tentou pular de seus braços lentamente, mas ela o segurou mais forte.
— Tem um dono?
Ele reproduziu um som abundante de raiva, como uma ameaça que os gatos fazem. Lucy pensou que o gato fosse um chato, mas por algum motivo, ela gostou dele.
— Não tem nenhuma coleira, quer ir pro meu apartamento? Não é permitido animais, mas eu posso te esconder até saber o que fazer com você.
Por um momento ela lembrou-se da moça que escondeu um gato que Levy havia contado a ela. Sabia que não era certo e podia ser perigoso se alguém descobrisse, mas não queria deixar o gato na rua, não era certo, ele não parecia viver pela cidade a solta, ele era como um “gato riquinho e fresco”. Talvez tivesse sido abandonado.
O gato ficou quieto, não tentou pular de seus braços, nem nada. Talvez fosse um sinal positivo. Pensou que era uma boba conversando com um gato, mas, pelo menos, havia feito mais um amigo.
Esperou passar um táxi, e enquanto ele não passava, ela fazia carinho na cabeça dele. O gato ronronava de vez em quando, devia ser um ótimo sinal.
O primeiro táxi que passou, ela rapidamente chamou sem pestanejar. Quando pediu ao taxista o destino, tentou brincar com ele, mas o gato nem se importava, preferia deitar em seu colo ou encará-la. Lucy achava estranho, parecia que ele queria lhe dizer algo ou já a conhecia.
Ela cansou de tentar chamar sua atenção. Quando chegaram, ela pagou o taxista e pensou como iria entrar sem ser vista pela recepção. Olhou para sua bolsa grande e depois para o felino. Ele era adulto, mas caberia.
— Desculpa, gatinho, mas tenho que te colocar aqui pra poder entrar — mordeu os lábios e tentou colocá-lo, mas ele estava um pouco relutante e colocava a pata para impedir o ato. — Ah, por favor, vai ficar assim? É só alguns minutinhos, prometo.
Colocando uma força a mais, ele entrou, mas não se contorceu para sair. Lucy agradeceu por ele ter ficado quieto, mas a saliência da bolsa era muito estranha. Ela passou apressada pela recepção e deu um sorriso torto para a mulher, tentando esconder a bolsa de um lado e correndo até o elevador.
Apertou o botão de subida e suspirou, com medo e agitação correndo pelo seu sangue. Era até engraçado, ela riu, nervosa.
— Calma, estamos quase lá. — sussurrou ao ver que o elevador se abria.
Quando chegaram, ela correu até o quarto e remexeu a bolsa. Era a única forma. Pegou a chave que também estava lá dentro, com medo que o gato a arranhasse, mas por sorte ele estava calmo. Abriu a porta e a trancou em seguida, dando um longo suspiro.
— Meu Deus!
Ela colocou a bolsa do chão, deixando o gato sair por si só. Ele olhou os arredores, depois a encarou com um rosto sério, não parecia assustado. Lucy caiu na gargalhada e foi até o sofá, se debruçando sobre ele.
— Você pode não acreditar, mas esta foi a coisa mais radical que fiz em toda minha vida. — riu mais um pouco e respirou, sem ar.
O gato se sentou com elegância e a encarou.
— Ser de família rica não era fácil, ainda bem que agora sou independente — ela ergueu os braços para cima em vitória, quase se espreguiçando. — Quero dizer, quase.
Lucy se ajeitou no sofá e olhou para o gato que não se movia do lugar, parecia estar entendendo o que ela dizia.
— Será que você era de alguém rico? Está perdido? — ela colocou a mão no queixo, pensativa. — Talvez amanhã eu coloque alguns cartazes pelos postes perto da loja que te encontrei.
Ele miou, como se estivesse falando. Lucy sorriu e se levantou.
— Deve estar com fome, espero que goste de alguma comida enlatada, acho que é a única coisa que mais se parece com gato.
O gato a seguiu e sentou na cadeira que havia na cozinha, de frente à mesa de jantar.
— Nem pense, vai comer no chão. — brincou, olhando a geladeira.
Ele não se moveu.
— Carne de lata, ok? É o que tenho pra você — suspirou e pegou um prato raso. — Quando encontrarmos seus supostos donos, pode comer à vontade. — riu.
Lucy estava se achando uma idiota maior por estar conversando mais com um gato. E ainda por cima, ele parecia um chato, nem sequer agia como um gatinho. Mesmo ele parecendo quase adulto, poderia saber brincar com algo.
Ela abria a lata com o abridor e pensava em como iria escondê-lo se Levy chegasse em sua casa a qualquer momento. Penso em trancá-lo no quarto, só esperava que ele não miasse, com medo.
Terminou de abrir a lata e despejou a metade dentro do pratinho transparente. Não esperava ter que esquentar para um gato, era demais. Ao colocar, ela levou até o chão, perto da porta.
— Aí está.
O gato desceu da cadeira e foi até o prato. Encostou o nariz na comida e se afastou, provavelmente nunca havia comido aquilo. Um gato qualquer já estaria lambendo os lábios com aquilo tudo, e ainda mais ele que parecia estar com muita fome.
— O quê? Não vai comer mesmo? — ela cruzou os braços, irritada. — Problema seu, coma quando estiver com fome.
Lucy guardou o resto da lata na geladeira e deixou água em outra vasilha para ele. Saiu em direção ao banheiro. Precisava tomar um banho rápido e trocar de roupa. Iria almoçar em breve.
O gato cheirou a comida novamente e sentou-se perto do prato. O estômago estava vazio. Ele chegou até a comida e lentamente deu uma mordida. Quando ele deu-se por visto, já havia comido tudo.
–
Lucy estava no quarto, de lingerie, escolhendo uma roupa para vestir por cima. Depois do banho não viu o gato em lugar nenhum, apenas percebera que ele havia comido tudo que ela tinha deixado no prato. Ela achou até bom, pelo menos ele não passava mal mais tarde.
Não fazia tempo que ela havia chegado à cidade e já tinha acontecido bastante coisa. Talvez àquele ano, gatos a dariam sorte, ela esperava. De repente ela pensou em Natsu e sorriu sem perceber. Olhou para trás e viu o gato a observando, sentado e parado, como uma estátua. Seu sorriso morreu, como se estivesse com vergonha.
— Poxa, você me assustou — ele pôs a mão no peito, por cima do lingerie.
Por algum motivo ela sentiu envergonhada por estar com aqueles trajes na frente de um simples animal. Ele a olhava de um jeito tão diferente que ela se vestiu rapidamente.
— Por que você me encara tanto, hein? — suspirou, pegando uma escova de cabelos.
A parte do dia passou rápido. Pediu frango assado pelo telefone de um galego que Levy havia lhe dado e experimentou a comida pela primeira vez. Era uma delícia, ofereceu ao gato, mas ele se recusou. Pela primeira vez ela viu um gato de “dieta”, riu pensando nisso.
No fim da tarde, ela o deu um nome: Gato, simplesmente, Gato. Ele não prestou atenção ao que ela disse. Ela tentou brincar com ele, mas foi ignorada.
À noite, ele quis comer o resto da carne enlatada. Ela pediu uma pizza pequena mista. Enquanto ela não chegava, Lucy lia um livro no sofá, o gato estava sentado no tapete.
— Ei, Gato, vem aqui. — ele o chamou com os dedos, se abaixando.
Ele ficou ocioso no começo, mas acabou indo. Ela acariciou sua cabeça e ele ronronou, ela parecia estar começando a domar a fera.
De repente escutou a campainha, era bem mais provável que fosse a pizza. Ela parou de acariciá-lo por um momento e correu até a porta com um “Já vou.”.
Quando abriu-a, levou um susto.
— Loke? — ela abriu a boca.
— Olá, Lucy. — ela viu o sorriso cordial que ainda lembrava bem.
Fale com o autor