A Casa Das Máscaras
24 Capítulo 24
Andreas
“Ah...! Mais fundo...! Mete mais!” Louis implorou como o putinho que sempre era. Eu não deveria me surpreender em como ele conseguia mudar tanto quando estava dando a bunda, mas o contraste era sempre gritante. Fora dos motéis, ele sempre parecia um anjinho, mas, assim que passávamos pela porta do quarto, ele ganhava guampas de diabinho. “Seu puto! Estou mandando você me foder com vontade!”
Ele estava de quatro, e eu o puxei pelo pescoço e o empurrei contra o encosto da cama. Mantendo minha mão na garganta dele, apertando-a com um pouco de força, já que ele gostava da ideia de submissão e dominação, eu comecei a bater minha pelve contra os glúteos pequenos dele, gerando baques altos que se repetiam um atrás do outro. Senti-me quase o estuprando, mas a verdade é que ele estava adorando. Seus gemidos se tornaram mais intensos, mesmo que ele não estivesse conseguindo respirar direito.
“Roy... Eu v-vou...” Ele murmurou com a voz arranhada. Eu saí dele e o joguei na cama com nenhuma delicadeza. Assim que ele caiu, abri suas pernas e coloquei o pau dele na minha boca. Ele gostava de gozar na minha boca, no fundo da minha garganta. Apertei meus lábios contra seu pênis e agarrei e dei tapas em sua bunda. Louis ejaculou logo depois, contorcendo-se e puxando meus cabelos.
Quando me afastei, segurei-lhe o rosto e sorri passando a língua sob meu lábio inferior.
“Você é o meu putinho favorito.” Falei e, de uma forma muito engraçada, ele corou como se esse fosse um grande elogio.
“Abrace-me!” Ele exigiu e estendeu os braços para mim. Então deitei ao seu lado e o abracei, beijando sua testa. Há pouco tempo Louis havia dito que me amava e eu achei que isso poderia ser um problema. No entanto, a única coisa que havia mudado era que ele começou a querer ganhar mais abraços e beijinhos depois do sexo.
O que não era ruim. Eu também sei ser carinhoso.
“Roy... Você ama alguém?” Ele perguntou, pegando-me de surpresa. Eu fiquei um tempo em silêncio, com a mente em branco. Porém a noite em que eu estava transando com David e ele se declarou daquele jeito estupidamente sincero e afobado surgiu inesperadamente em meus pensamentos.
“Eu amo minhas irmãs e... minha mãe.” Eu disse, mesmo sabendo que não era esse tipo de amor ao qual ele se referia, e afastei aquelas imagens desconcertantes da cabeça.
“Não! Não me refiro a esse tipo de amor!” Louis se ergueu e me olhou com raiva. Era muito genioso. “Estou perguntando se está apaixonado por alguém!”
Eu suspirei e fiquei de barriga para cima, olhando para o teto.
“Não. Não estou apaixonado por ninguém, Louis.”
“Então... Você poderia se apaixonar por mim?” Ele perguntou ansioso e, quando eu virei o rosto para ele, vi seus olhos brilhando esperançosos. Meu estômago se revirou pelo desconforto. Perguntar esse tipo de coisa a alguém era tão absurdo que eu quase ri, mas me controlei. Não era assim tão insensível e, pior, eu sabia que não se tratava de uma piada.
Esse lado inocente de Louis era o pior.
Toquei o rosto dele, acariciando-o com gentileza.
“Você vai encontrar algo muito melhor que um prostituto. Amor não se compra, Louis. Então eu não posso me apaixonar por você.” Disse e juro que achei estar falando da melhor maneira possível para fazê-lo entender, mas recebi um tapa dolorido na mão.
Ele se levantou com a expressão ardendo em fúria.
“Tudo pode ser comprado!” Ele gritou e duas lágrimas escorreram de seus olhos. “Mas... Se não é assim... Como eu posso fazer você me amar?”
“Louis...” Eu me sentei, exalando pesadamente o ar. “Nós mal nos conhecemos. Tudo que eu sei de você é como você gosta de ser fodido. O que mais eu sei sobre você? Que é um garoto rico. Fim. E o que você sabe sobre mim além do tamanho de meu pau? Nada, apenas que eu me vendo por dinheiro.” Eu me levantei da cama e comecei a recolher minhas roupas. “Talvez seja melhor não nos encontrarmos mais. Não quero que você continue nutrindo esses sentimentos e se magoando. Isso é apenas uma ilusão, Louis.”
“Não!” Louis correu e me abraçou, escondendo o rosto em meu peito. “Por favor, Roy! Você não pode me deixar! Não pode! Eu juro que... Eu não vou permitir! Eu pago mais por você, eu pago tudo que você quiser!” Ele me olhou desesperado e segurou meus cabelos com força.
Depois ficou na ponta dos pés e me beijou possessivamente.
“Você disse que eu sou o seu putinho favorito.” Ele me lembrou, acusatório, estreitando as sobrancelhas.
Eu segurei a cintura de Louis e o afastei de mim, tentando manter-me firme em minha decisão. Não era uma boa ideia irritá-lo considerando que ele era um garotinho rico, mimado e com um pai poderoso. Porém era ainda mais perigoso deixá-lo acreditar que eu também o amava. Por que tinha de ser tão complicado? Por que as pessoas não podiam simplesmente querer sexo e ponto final? Por que sempre tinham que dificultar as coisas metendo sentimentos no meio dos negócios? Isso me frustrava.
“Eu sou bom com sexo, não com sentimentos, Louis.” Eu terminei de colocar as minhas roupas e peguei o envelope com o dinheiro que ele sempre deixava em cima do criado mudo. Coloquei-o no bolso do casaco e olhei para Louis, que continuava parado no meio do quarto, nu e com lágrimas no rosto. “Me procure de novo quando perceber que amor e sexo são duas coisas bem diferentes.”
Caminhei até a porta, mas, quando coloquei a mão na maçaneta, Louis jogou um abajur do quarto em minha direção, atingindo-me no braço. Eu o olhei meio embasbacado depois que o abajur espatifou-se espalhafatosamente no chão, quebrando em mil pedacinhos.
“Você vai se arrepender por isso, Roy.” Ele disse com uma ira impiedosa em seus olhos chorosos.
Agradecendo mentalmente por meu nome falso, eu saí dali o mais rápido possível.
XxxX
Antes de retornar para a faculdade eu ainda passei por um bar gay, bebi algumas doses de álcool e transei com um desconhecido apenas por prazer. Às vezes eu sentia falta de fazer aquilo apenas pela simples vontade de trepar, sem nenhum dinheiro envolvido. E o melhor, com alguém que eu provavelmente nunca veria de novo e não me incomodaria com sentimentos e palavras românticas que, para mim, sempre soavam vazias e sem sentido.
Não foi uma boa transa. Minha mente me cutucava com a ideia de que eu teria de encontrar outro cliente que pagasse tão bem quanto Louis, do contrário, talvez eu não conseguisse cobrir os custos da faculdade junto ao tratamento da minha irmã. Ou seja, eu apenas havia perdido tempo com um cara que, apesar de bem dotado, não sabia o que fazer com o que Deus havia lhe dado.
Mas minha sorte não acabou por aí.
Eu senti que meu dia – ou melhor, minha noite – estava prestes a piorar quando fui encurralado em uma área da Ketteridge próxima dos dormitórios. Infelizmente, ninguém parecia estar passando por ali naquele horário da noite, o que significava que eu teria de me virar sozinho com os três caras mal-encarados que surgiram como sombras à minha frente. E, pior, eram três caras que eu já conhecia mais do que eu gostaria: Kyle, Avery e Frederic.
“Então você não está sendo protegido vinte e quatro horas por dia assim como Christian.” Kyle falou, aproximando-se de mim com um sorriso torpe. “Pena para você. Bom para gente.”
“Sabemos que foi você que ligou para alguém da Magna naquele dia.” Avery acusou, cercando-me junto com Kyle e Frederic.
Percebi que tentar negar, fugir ou gritar seria inútil. Mesmo se não tivesse sido eu o delator, eles me espancariam de qualquer maneira, apenas para enviar um recado, ou simplesmente descontar a raiva que sentiam em alguém. Eu era a presa mais fácil, a que não tinha para onde fugir, ou a quem recorrer. Então abri um sorriso tão atravessado quanto o de Kyle e ergui as mãos para o alto.
“Parece que vocês me pegaram, rapazes.” Fingi me render com certa ironia. Meu coração estava acelerado, mas eu estava tentando manter a calma, ou fingir que não me importava. Tudo que eu conseguia pensar era que não poderia trabalhar se eles machucassem o meu rosto. E se eu não pudesse trabalhar, não teria dinheiro para pagar o tratamento da minha irmã. “Que tal resolvermos isso de maneira civilizada?” Sugeri.
Dei uma joelhada entre as pernas de Kyle antes mesmo que eles pudessem cogitar a hipótese ridícula de uma conversa e, obviamente, me responder com um soco certeiro na cara, deixando claro que não havia chances para civilidade entre nós. Assim que Kyle se ajoelhou soltando um urro de dor, eu o empurrei e tentei correr para os dormitórios.
Nos primeiros passos, cheguei a acreditar que conseguiria fugir.
Mas eu estava subestimando demais a minha sorte. Eu já deveria saber que a minha vida é fodida demais para que eu me dê bem em uma situação como essa. Avery foi quem me alcançou, jogando-se contra mim e me derrubando no chão. Eu usei minhas mãos como apoio e as senti ralarem e sangrarem contra o chão de pedra. Eu xinguei e tentei virar o corpo para chutar ou socar o filho da puta, mas recebi um soco no nariz antes que tivesse tempo de reagir.
Foi quando me arrependi de ter sido tão preguiçoso e nunca ter treinado alguma luta de defesa corporal. Eu até poderia lidar com um deles, mesmo saindo machucado, mas três? Isso já era uma piada. Avery me pegou pelo colarinho e me levantou. Eu estava zonzo pelo soco e podia sentir o sangue escorrendo, molhando meus lábios com aquele gosto nauseante de ferro. Cuspi o sangue com saliva na cara dele. Isso me garantiu uma cabeçada e uma tontura ainda mais forte.
Avery me jogou no chão ao lado contrário ao que eu havia corrido e eu caí desajeitado, tossindo porque havia conseguido a proeza de me engasgar com minha própria saliva ensanguentada. Kyle já havia conseguido se recuperar, apesar de ainda mancar um pouco enquanto caminhava em minha direção. Assim que ele me alcançou, me chutou o rosto em cheio, fazendo-o rolar de barriga para cima. Gemi de dor, sentindo lágrimas involuntárias chegarem aos meus olhos. Não porque eu estivesse realmente chorando. Era apenas meu corpo respondendo a um estímulo doloroso e à raiva que eu estava sentindo.
Eu soltei uma risada engasgada.
“Vocês devem se achar muito machões, espancando alguém no três contra um. Parabéns, vocês são mesmo incríveis. Intimidando e molestando calouros... Batendo em quem não gostam. Me pergunto como puderam te expulsar da Sigma, Kyle? Você é tão cheio de princípios.” Falei sarcástico, sujando as palavras com sangue e desprezo. “Chego a sentir pena do que vocês precisam fazer para se acharem superiores aos outros.”
“Cale a porra da boca.” Kyle me chutou de novo, agora nas costelas. O ar fugiu de meus pulmões, deixando-me ofegante. “Você vai sentir pena de como vai ficar o seu rosto depois de cuidarmos de você.”
“Até Lance é melhor que você. E olhe que eu acho ele um bosta.” Ainda o provoquei. Eu deveria ter merda no lugar de miolos, mas eu nunca havia sido do tipo que consegue ficar quieto, mesmo quando estava na desvantagem. Eu iria apanhar de qualquer forma, então eu ao menos falaria algumas verdades. E, pelo olhar de Kyle, eu havia atingido seu ponto fraco. Eu tentei me erguer um pouco, olhando-o com um sorriso que não deveria ser nada bonito. “Ele tem tudo que você não tem, não é? Uma irmandade de verdade, um jornal, poder e influência que ele conquistou através da inteligência. Não da força. Você é um cachorro que apenas sabe latir e morder, Kyle.”
Os olhos negros dele pareceram queimar e sua expressão perdeu todo o ar irônico. Ele me pegou pela jaqueta e me ergueu, desferindo-me então mais um soco, agora na mandíbula. Se eu perdesse um dente seria uma verdadeira merda. Passei a língua por eles, sentindo o gosto metálico do meu sangue, mas felizmente todos os dentes ainda pareciam estar ali.
Kyle agarrou meus cabelos e ergueu meu rosto. Na outra mão, tinha um celular.
“Acho bom você saber bem pelo que está apanhando, loiro.” Ele falou, puxando meus cabelos com mais força e me arrancando um gemido. Ao menos a esse tipo de coisa eu já estava bastante acostumado. “Está vendo essa mensagem? Quem sabe você a lê? Vai perceber que se meteu com o garoto errado.”
Eu forcei meus olhos para o celular. Havia uma foto minha ali. Era uma daquelas fotos que são tiradas sem que se perceba... Nela eu dormia nu de bruços, serenamente, sobre um colchão de casal. Na mensagem, lia-se: “Mano, esse garoto se chama Roy. Eu e ele estávamos saindo... Mas hoje, depois de transarmos pela primeira vez, ele me deu um pé na bunda. Roubou minha virgindade. Eu estava apaixonado por ele!!! Você pode me ajudar a encontrá-lo? Eu acho que ele estuda na Ketteridge, uma vez o segui e o vi entrando na sua universidade...” É, vida. Eu poderia gargalhar dessa mentira, porém eu deveria ter imaginado que Louis conseguiria sua vingança mais rápido do que eu imaginava.
“Deu um nome falso para o meu irmãozinho, trepou com ele e depois o chutou?” Kyle me jogou no chão de novo e se levantou. “Você é um bosta muito pior do que qualquer um de nós.”
Kyle deu o sinal e então Avery e Frederic começaram a me chutar com força, um atrás do outro, repetitivamente. A dor era excruciante, sufocante, angustiante e me deixava com vontade de morrer de uma vez. Agora eu percebia que os tapas mais agressivos que eu já havia recebido de alguns clientes não eram nada.
Tapei meu rosto com os braços e me encolhi, tentando não acabar desfigurado. Os minutos pareceram se transformar em horas de agonia. Em alguns momentos quase implorei para que parassem, ou quis gritar que o irmão dele era um louco mentiroso, mas meu orgulho e meu bom-senso me mantiveram calado. Kyle falava algumas coisas como ‘Está gostando disso, loiro?’ ou ‘Esse seu rosto nunca mais irá iludir garotos inocentes’. Eu poderia rir da alcunha inocente para Louis se não estivesse praticamente aos prantos pela dor.
Evitar os gritos era o mais difícil... Odiaria dar esse gostinho a eles.
Eles só pararam quando um dos guardas noturnos da universidade apitou de longe.
“O que está acontecendo aqui?!” Ouvi o grito e depois os sussurros dos três. Eu estava cansado, machucado e perto demais de desmaiar para conseguir entender o que eles falaram antes de saírem correndo, conseguindo escapar antes que fossem realmente flagrados.
Meus olhos doeram quando a lanterna do guarda me iluminou.
“Meu santo Cristo...!” O segurança murmurou assombrado.
Eu nem quis imaginar o estado pavoroso do meu rosto.
Apenas deixei a inconsciência me levar dali de uma vez.
XxxX
Eu estava no hospital quando acordei. Não sabia qual, mas supus que fosse o Medical University of Ketteridge, o hospital vinculado à universidade onde os estudantes de medicina, enfermagem e outros cursos da saúde atuavam durante a formação. Eu sabia disso porque Derek havia comentado algo sobre seu ex-colega de quarto estagiar ali.
A primeira pessoa que vi no quarto, que era compartilhado com outros dois pacientes, foi Christian. Ele estava sentado numa poltrona ao lado de minha cama, jogando algum joguinho no celular, e arregalou os olhos ao perceber após meio minuto que eu havia acordado.
“Andreas!” Ele pulou da poltrona e parou ao lado do leito. “Ai meu Deus, eu estava tão preocupado!” Ele pegou minha mão com cuidado. “Você está bem?”
“Eu pareço bem?” Perguntei, sorrindo de canto. Não conseguia abrir um dos olhos, que estava inchado e latejante, e mover a mandíbula doía. “Por favor, diga-me que meu nariz não está torto.”
Christian balançou negativamente a cabeça e eu soltei um suspiro de alívio, descansando minha cabeça contra o travesseiro. Ainda havia esperanças de não ter acabado desfigurado. Mas eu não tinha ideia de quando poderia voltar a trabalhar e isso significava que minha irmã ficaria no mínimo um mês sem tratamento, o que já poderia gerar vários problemas à saúde dela. Ou levá-la à morte...
Eu deveria ter estrangulado Louis antes de deixar aquele quarto de motel.
Se bem que Kyle e os outros provavelmente me espancariam de qualquer forma... Talvez eu tivesse tido sorte de Louis e Kyle serem irmãos. Eu havia levado duas surras em uma.
“Será que você pode elevar a parte de cima da cama?” Pedi.
Christian se apressou a apertar alguns botões do leito e logo a cama já tinha um formato que lembrava o de uma poltrona.
“Obrigado.” Olhei para o relógio. Era final da tarde. “Hoje é domingo?”
“Não. Sábado. Você foi trazido sexta no início da madrugada para cá... A notícia sobre o espancamento de um aluno da Ketteridge já está no Roy Byron. Bobby, um amigo do meu irmão, descobriu que era você.”
“Notícias ruins sempre se espalham com rapidez.” Eu grunhi ao tentar me acomodar melhor. “O que eu quebrei e quando vou poder sair daqui?”
“E-Eu não sei... Cheguei há apenas meia hora. Tinha vindo durante o almoço, mas você estava dormindo, então não fiquei muito e não perguntei nada ao médico.” Chris mordeu o lábio. “F-Foram eles, não foram? Kyle e os outros...?”
“Foram. Vingança por eu ter acabado com a festinha deles.” Falei, omitindo a parte sobre Louis. Qualquer que fosse a versão que eu contasse, a minha ou a de Louis, eu ficava mal na foto. “Não faça essa cara.” Eu olhei para Chris e ri. Ele parecia prestes a chorar enquanto me encarava. Eu realmente não queria um espelho tão cedo, se minha aparência estava tão horrível a ponto de fazer alguém chorar. “Já recebi surras assim antes.”
“Já?!” Chris exclamou assustado. “Por quê?!”
“Hm... A primeira, se bem me lembro, foi quando eu tinha dez anos. Meu irmão chegou drogado em casa e me espancou. Ele é oito anos mais velho, logo eu não tinha grandes chances. Nós vivíamos brigando de qualquer forma.” Dei de ombros. “Se quando eu era um moleque eu sobrevivi, com certeza irei sobreviver agora. Então fique tranquilo.” Tentei sorrir para garantir que eu ficaria bem, mas desisti por causa da dor.
“Isso é horrível, Deas...” Chris lamentou abaixando o rosto. Depois se aproximou e, para minha surpresa, me abraçou. “Você não merecia nada disso.”
Eu não sei por que aquilo me emocionou tanto. Meus olhos quiseram se encher de lágrimas, mas eu os fechei rapidamente e retribuí o abraço, descansando suavemente minha testa no ombro de Chris. “Obrigado...” Sussurrei, achando agradável a maneira como ele acariciou meus cabelos desgrenhados.
Quando ergui o olhar, vi David parado em frente à minha cama.
“Eu... Tinha ido buscar uma água, caso você acordasse.” Ele falou um pouco desconfortável e só então eu notei o copo de plástico em sua mão. Percebi também que estava morto de sede.
Chris se afastou de mim e abriu um sorriso empolgado.
“David ficou aqui parte da manhã e toda a tarde! Ele deve ter falado com o médico!” Ele exclamou, mas David lhe deu um tapa atrás da cabeça quando se aproximou para me entregar a água. “Ai, por que fez isso?” Chris perguntou magoado. Eu, no entanto, entendi que David não estava muito feliz por Christian ter contado que ele estava ali há tanto tempo.
“Pegue.” Entregou-me o copo e eu bebi a água em silêncio, olhando de relance para David. “Eu falei com o médico... Você quebrou o nariz, mas eles o colocaram no lugar. Por sorte quebrou apenas duas costela sem atingir o pulmão, por isso é melhor não se mover muito. O resto está inteiro, para sua sorte.”
“Que estranho. Quebrei duas costelas e não estou com dor...?” Tentei me remexer, mas uma fisgada me impediu de forçar demais.
“Você foi medicado para isso. Mas é melhor não se exceder...” David comentou, parecendo preocupado. “O médico deve estar passando por aqui daqui a pouco. Já que você acordou, eu acho que vou indo...”
“Não!” Falei rápido, nem sei bem por quê. “Fique.” Eu o olhei e sorri de leve para sua expressão surpresa. “O que foi? Não gosta de ficar perto de mim agora que não tenho mais um rostinho bonito?” Provoquei.
“Não achei que fosse querer minha companhia, já que parece sempre repudiá-la.” Ele falou, fingindo-se de indiferente.
Eu dei de ombros e o celular do Chris tocou, interrompendo as provocações.
“São meus pais... Eu preciso ir.” Christian me abraçou outra vez, fugaz. “Depois eu volto!” Ele se despediu e saiu dali apressado, deixando eu e David sozinhos um com o outro.
O silêncio perdurou por alguns segundos.
“Por que ficou aqui de manhã e toda a tarde?” Perguntei enquanto tentava em vão encontrar uma posição mais confortável. Meu corpo estava simplesmente cansado e, eu já previa, nenhuma posição ajudaria.
“Eu não sei.” Ele falou meio emburrado e se sentou na poltrona em que o Chris estava antes. “Por que quis eu ficasse?”
“Digamos que é bom ter alguém com quem implicar quando se está com raiva da vida.” Expliquei fingindo-me de sonso. Se ele não iria me responder, não era eu quem iria bancar o sincero. E, para falar a verdade ao menos uma vez na vida, nem eu sabia por que pedi a ele para ficar, de qualquer forma.
“Você deveria ter raiva de quem te bateu. Quem foi?”
“Quem mais? Kyle e outros dois, Frederic e Avery. Parece que não causei uma boa impressão naquela adorável reunião.” Zombei, mas notei pelo canto do meu olho bom que David estava tenso, apertando os punhos. “Por favor, não diga que está pensando em se vingar?” Revirei os olhos e os fechei, voltando a me sentir sonolento.
“E você acha o quê? Que vou apenas aceitar que eles te espanquem e deixar por isso mesmo?” David se levantou novamente, tamanha era sua indignação e frustração.
“Olha...” Falei lentamente, umedecendo meu lábio inferior ressecado. “A noite anterior começou com um cliente afirmando que me amava pela, sei lá, quinta vez. Eu decidi não fazer mais negócios com ele. Ele ficou puto e pediu ao irmão para me procurar... Código para me dar uma surra, suponho. Agora, imagine minha surpresa quando descubro que o irmão dele é o Kyle?” Olhei um momento para David, deixando-o absorver aquilo. “Um cliente dizer que me ama é alerta para problemas. Sempre foi. E agora você quer se vingar do filho do prefeito, neto do governador e sobrinho do delegado da cidade... Isso é outro problema. Que deriva do quê? De você achar que tem algum sentimento mais profundo que tesão por mim.” Eu olhei para o teto, minhas palavras saindo em tom monótono. “Você sabe que a política e a polícia do nosso país são podres... Não fosse assim, eles nunca teriam legalizado a prostituição e a cafetinagem.”
“Você está me ouvindo dizer que estou fazendo isso por amor, Andreas?” David perguntou sério, atraindo meu olhar abismado. “Eu nunca disse que te amo, se é que você não lembra. Eu disse que estou apaixonado. São coisas diferentes. Talvez virasse amor se você me deixasse conhecer um pouco mais sobre você, como por exemplo, sobre seus problemas com seu irmão...” Ele passou a mão pelos cabelos de uma maneira exasperada, desviando o olhar. “Mas a questão é que eu faria isso por qualquer amigo. Só não se preocupe, dessa vez eu não pretendo falar ou fazer nada impulsivo. Você já me ensinou o quanto agir assim pode ser doloroso.” Com aquela indireta bastante direta, ele me deu as costas e deixou o quarto.
Eu senti como se houvesse levado outra bofetada na cara.
“Imbecil...” Murmurei e fechei os olhos, sentindo-me um tanto idiota. “É claro que eu me preocupo.”
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