Notas iniciais
Pessoal, leiam as notas finais, é muito importante!

Alan

Eu estava em Nova Iorque, mais especificamente no USTA Billie Jean King National Tennis Center, localizado no parque Flushing Meadows, no Queens. Ali aconteceria o último torneio do Grand Slam da temporada, o US Open. Eu havia ganhado o Australian Open em janeiro e o Roland-Garros em junho, mas havia ficado em terceiro lugar no torneio de Wimbledon em julho, um pouco antes do fim das férias da Ketteridge acabarem. Agora perderia duas semanas de aula devido ao US Open, porém eu tinha liberação formal da universidade para participar da competição.

Jeremy não havia gostado da ideia, pois ele perderia as duas últimas semanas em que deveria ficar junto comigo, mas eu já havia garantido a ele que estava dentro da Magna. Eu gostaria de ter a companhia dele durante a competição, mas ele não teria liberação das aulas e poderia acabar rodando por faltas. Quem estava me acompanhando era minha agente esportiva, Sarah Ackles, e meu técnico William Ackles. Eram irmãos, não marido e mulher.

“Você parece mais distraído hoje do que nos outros campeonatos! Em julho você estava transtornado por que aquele David descobriu-se homossexual e veja só o que aconteceu: terceiro lugar! Perdeu a chance de se tornar um dos poucos a ganhar os quatro torneios do Grand Slam na mesma temporada! Que desperdício, tanto potencial...” Ela lamentou, pondo-se a massagear meus ombros enquanto eu bebia água, concentrando-me – ou tentando concentrar-me – antes de meu primeiro jogo.

Sarah era terrível. Ela conseguia arrancar tudo de mim, mas era compreensível visto que nos conhecíamos há dez anos, logo depois que iniciei minha carreira no tênis juvenil. Ela tem 34 anos e é filha de uma grande amiga de minha mãe, e por isso começou a cuidar de minha carreira desde cedo junto com William, que já tem 42 anos. Eu confiava nela, mas às vezes preferiria que ela não fosse tão intrometida em minha vida pessoal.

“Sarah, não é como se eu estivesse me aposentando esse ano.” Eu a lembrei. “Não com apenas 21 anos! E talvez eu ainda consiga um pequeno Slam.” Falei, tentando transmitir a ela algum otimismo.

Nos anos anteriores, eu havia conquistado vários títulos e minha posição mundial era muito boa, porém eu não tinha nenhum pequeno Slam – que é o jargão usado para quem vence três dos quatro torneios do Grand Slam na mesma temporada. Ao menos, eu já tinha um Career Grand Slam, pois já havia vencido os quatro torneios em diferentes temporadas. Em parte, eu devia isso à Sarah, pois ela vivia me colocando na linha.

“Preparado, Alan?” William entrou no vestiário e parou à minha frente. Muitas vezes ele estava comigo durante meus treinos na Ketteridge, mas nos últimos meses estivera com problemas de saúde e afastado do trabalho. Era bom vê-lo inteiro novamente. “Sei que se esforçou bastante desde o Wimbledon. Agora é momento de focar. Esqueça todos os seus problemas na universidade e pense apenas no tênis, agora.”

Era difícil esquecer tudo que estava acontecendo na Ketteridge. Eu sabia que uma guerra estava para começar naquele lugar. Kyle havia iniciado um grande problema ao intimidar calouros e espancar Andreas em pleno campus, ganhando inimigos tanto da Magna, quanto da Sigma. Ele antes era tratado com indiferença pelas duas irmandades, porém agora havia passado dos limites. Essas questões me preocupavam. Eu havia saído bem quando o clima estava pegando fogo e tinha medo de tudo que poderia acontecer em duas semanas.

“Will, convença-o a largar aqueles treinos de natação! Isso tira o foco dele! Ele gasta energia com o que não deve!” Sarah reclamou para o irmão. “Dois esportes é demais. Você é um profissional no tênis, não na natação!”

“Eu gosto de nadar.” Expliquei, mas ela estava certa que ambos os esportes vinham me desgastando. Eu não treinava um terço na natação do que eu treinava no tênis, mas mesmo assim era um gasto de energia. “Ganhei alguns títulos na natação também.”

“Títulos de faculdade! Torneios estaduais! Bobagens! Aqui você está agindo internacionalmente.” Sarah replicou, desgostosa. Ela odiava minhas distrações. Natação era como um hobbie para mim, assim como o boxe, que eu treinava apenas nos minhas raras horas vagas.

A verdade era que eu tinha bastante tempo ‘livre’ para treinar. Eu cursava Fisioterapia na Ketteridge, pois essa era minha vontade desde antes de me profissionalizar no tênis, mas eu me matriculava em no máximo apenas duas cadeiras por semestre para não precisar me preocupar tanto com os estudos. Demoraria vários anos, mas quando eu não pudesse mais jogar profissionalmente, teria alguma formação.

“Alan, minha irmã tem razão. Você tem um potencial gigantesco, mas precisa se concentrar no mais importante.” William falou mais controlado. Ele era muito mais tranquilo do que Sarah, de uma maneira geral. Ao menos fora dos treinos. “Mas pensemos nisso mais tarde. Agora, é hora do jogo.”

Eu assenti e me levantei, grato por ele ter chegado e interrompido Sarah antes que ela arrancasse novas informações quanto minha vida pessoal. Não queria que ela soubesse sobre meus conflitos internos quanto ao Trace, minhas preocupações com a segurança de Chris e Andreas, ou a amizade renovada que estava crescendo entre mim e David, e o próprio Derek, agora que eles sabiam sobre minha orientação sexual.

Afastei, no entanto, todas essas coisas da cabeça e me concentrei no tênis.

Eu queria muito ganhar aquela competição, e hoje faria minha primeira vítima.

XxxX

Após do jogo saí do Arthur Ashe Stadium e, assim que consegui escapar do ataque da mídia, encontrei um tempo para espairecer enquanto caminhava pelo parque Flushing Meadows. É o segundo maior parque público da cidade e, como eu sempre apreciei a natureza, era relaxante caminhar por ele, apesar da grande quantidade de pessoas que circulava por ali devido ao campeonato.

Eu havia puxado o capuz de meu casaco para não ser reconhecido, pois não queria muita atenção naquele momento, apenas um pouco de tranquilidade. Parei próximo da Unisphere, um dos principais símbolos do parque, e peguei meu celular que havia começado a tocar. Não me surpreendi ao ver o nome Jeremy apitando na tela do aparelho.

“Oi, Jeremy.” Atendi.

“O seu jogo foi irado!” Ele exclamou alto o suficiente para que eu tivesse de afastar o celular do meu ouvido. “Você estava fantástico! Arrasou! Estávamos todos aqui reunidos na Torre da Magna assistindo ao jogo! Nos enchemos de pipoca, refrigerante e bebida! Só não rolou cigarros porque o Jensen proibiu alguns de fumar aqui dentro. Não é absurdo que uma galera dos esportes fume? Jensen falou que quem quisesse fumar que fosse assistir ao jogo em seus próprios dormitórios. É incrível a forma que ele fala...! Todo mundo obedece na horinha!”

Incrível era a forma com que Jeremy conseguia perder o fio da meada em qualquer assunto.

“Hei! Estão tentando roubar meu celular... Derek, larga!” Ouvi sons de briga do outro lado da linha, até que a voz de um Derek muito bêbado alcançou meu ouvido.

Amiiiiiiiiigo! Que orgulho de você! Que jogaço...! Em busca de outra vitória esse ano, então, maluco?” Ele falou arrastado, mas parecendo verdadeiramente orgulhoso, o que me logrou um sorriso. “Eu sempre soube... Desde que éramos pequenos que você tinha futuro. Meu querido, eu te considero tanto!”

É, ele estava definitivamente bêbado.

“Obrigado, Derek.” Falei com um sorriso no canto de meus lábios. Houve mais alguns sons e outra pessoa roubou o celular.

“Esses bêbados são insuportáveis. Bem, só queria dar parabéns pela sua vitória. Eu que não suporto jogo de tênis achei legal assistir sua partida. Boa sorte nas próximas! Estaremos aqui torcendo por você.” Era Oliver. Ele podia ser um tanto grosseiro em inúmeros momentos diferentes, mas também conseguia falar coisas gentis em certas situações especiais.

“Obrigado, Oliver. Irei me esforçar.” Novamente ouvi sons de celular passando de uma mão para outra, em meio à barulheira de vozes e risadas.

“Escuta aqui, viado! É bom você chegar aqui com um título, ouviu? Já foi ruim o suficiente quando você voltou todo chororó por causa de um terceiro lugar. Terceiro lugar! Você é um filho da mãe ganancioso mesmo, apesar de esse seu jeito tranquilo.” Eu me surpreendi ao perceber que era David – também com um tom bastante embriagado – falando aquelas coisas. Ele costumava xingar bastante o Derek e a recíproca era verdadeira, mas entre nós nunca havia existido muitos ‘xingamentos carinhosos’.

Isso trouxe um sorriso completo ao meu rosto.

“Pode deixar, dessa vez o título não me escapa.” Garanti, sentindo que falava a verdade. Pode parecer arrogância minha, mas eu estava confiante e, depois de falar com meus amigos, muito mais focado.

Achei que o celular voltaria para o Jeremy, mas me surpreendi ao escutar outra voz familiar.

“Erm... Oi, Alan.”

“Oi, Chris.” Falei, sorrindo de leve enquanto olhava a água jorrar da grande fonte onde ficava a Unisphere. “Não achei que estaria aí no meio da Magna.”

“É... Meu irmão e até Jensen me obrigaram a vir, andam com medo de me deixar sozinho e sabiam que eu também iria assistir ao jogo no meu quarto. Eu só... Queria te desejar boa sorte. Você foi incrível hoje!” Ele falou empolgado, mas depois se calou por um momento. Quase pude imaginá-lo mordendo o lábio, corando por ter falado tão animadamente. “Eu acredito em você.”

O celular voltou para Jeremy antes que eu pudesse falar alguma coisa.

“Bem, acho que é isso, vou desligar antes que minha conta de celular fique nas alturas. Meus pais vivem reclamando do quanto eu gasto no celular, imagina uma ligação à distância dessas?” Jeremy falou ficado um pouco nervoso. “Então... Tchau, Alan. Boa sorte... ah, tudo bem eu desligar, né? É tão estranho falar tão pouco!”

“Está tudo bem, Jeremy. Obrigado por ligar. Nos vemos em duas semanas, amigão.” Me despedi antes que ele começasse algum novo assunto. Aquela ligação provavelmente havia saído bem dispendiosa então decidi que levaria alguma lembrancinha especial dos Estados Unidos para Jeremy.

Quando desliguei, me surpreendi com quem parou em minha frente.

“Você deveria usar óculos escuros se está tentando se disfarçar em meio à multidão.”

“Trace?” Perguntei impressionado, arregalando meus olhos. “O que está fazendo aqui?”

Trace exalou o ar e levou a mão aos cabelos loiros e curtos, hesitando. Ele parecia muito mais novo quando ficava assim, constrangido.

“Eu precisava de um tempo... Quando soube que você viria para cá para competir, comprei passagem e ingresso para os jogos. Eu adoro tênis, já algum tempo sou seu fã.” Ele sorriu de leve, numa mistura de ironia com sinceridade. “O reitor não ficou feliz com meu pedido de férias, mas aleguei problemas familiares, o que não é nenhuma mentira.”

Eu estava extremamente confuso com a presença dele ali, meu coração não estava preparado para uma surpresa dessas em meio ao campeonato. Trace havia dado um ponto final ao que tínhamos. Era uma relação baseada em sexo, mas nós também conversávamos e, obviamente, aquilo havia mexido comigo. Eu não era muito o tipo de transar e não acabar me envolvendo.

“Não entendo, Trace.”

“Minha esposa descobriu que eu a traí com um primo distante... Há dez anos atrás.” Trace se encostou à arvore ao meu lado, com a cabeça baixa e um olhar compungido. “É engraçado como essas coisas retornam... Ele... E você... Foram as duas pessoas com quem me envolvi além dela, em toda minha vida.” Ele balançou a cabeça. “Com ele, foi apenas uma vez. Eu já mal me lembrava.”

“Vocês se separaram? O que você disse a ela?” Eu perguntei um pouco ansioso e confuso. Minhas mãos começaram a suar frio pelo nervosismo.

“Não. Ela pediu um tempo... para pensar. Estou dando a ela esse tempo. Eu disse... que foi apenas uma curiosidade do passado.” Ele riu de maneira amarga. “Eu sou uma péssima pessoa, não sou? Mas eu olhei para barriga dela, carregando meu filho, e simplesmente não pude admitir a verdade.”

“Eu não entendo do que você tem tanto medo. Acha que irá perder seus filhos?” Eu perguntei em um tom um pouco mais carregado. Eu senti uma raiva brotar no meu peito. Ele não devia ter mentido. E não deveria estar ali, fugindo e me colocando no meio de seus problemas. Quando ele não respondeu, eu lhe dei as costas. “Você não deveria ter vindo aqui.”

“Alan!” Ele chamou e eu parei, virando-me para ele. Aquele era um homem orgulhoso e feroz, nos treinos sabia nos levar ao limite. Sua palavra era a lei, e seus olhos eram vorazes. Naquele momento, vi apenas um homem destruído e olhos molhados por lágrimas. “Me desculpe... Eu não planejava te encontrar. Ia apenas assistir aos jogos e voltar. Mas quanto te encontrei aqui no parque, sorrindo ao celular... Eu simplesmente não consegui resistir. Me desculpe.” Ele se virou e começou a caminhar no sentido contrário.

Não sei que força me levou de volta até ele, mas quando o alcancei, puxei-o pelo braço e o abracei apertado. Trace demorou alguns segundos a corresponder, provavelmente pela surpresa, mas logo me abraçou em retorno e engoliu o choro que havia se formado em sua garganta. Eu acariciei seus cabelos, não me importando em chamar atenção dos transeuntes.

“Você sabe... Essa escultura representando o globo terrestre tem o tamanho de um prédio de doze andares e foi elaborada especialmente para Feira Mundial de 1964. Foi concebida para celebrar o início da era espacial e representa a interdependência global.” Trace falou referindo-se à Unisphere, provavelmente porque se tentasse falar qualquer outra coisa acabaria realmente chorando em meus braços.

“É uma escultura bonita.” Eu concordei.

XxxX

Três dias depois, ganhei meu segundo jogo. Faltavam quatro disputas para a final agora. Enquanto esperava entre minhas disputas, eu assistia aos jogos femininos, ou de duplas junto com Trace. Graças a mim, ele podia assistir aos jogos que não tinha ingresso de graça. No resto do tempo, ficávamos juntos. Saíamos, conversávamos e conhecíamos melhor um ao outro.

Sarah e William não ficariam felizes por eu ter alguém me distraindo, mas a verdade é que a presença de Trace não me atrapalhou como eu havia imaginado. Minha vitória no segundo jogo foi a prova disso, e isso serviu para acalmar minha agente e meu técnico. Trace entendia muito de tênis e nós nos perdíamos conversando sobre esse assunto.

Depois do jogo, William me pegou e começou a discutir alguns erros técnicos que eu havia cometido e como poderia melhorar para o próximo. Ele era fantástico e tinha uma baita visão de jogo, notava coisas que nem eu mesmo percebia. Após os abraços de congratulação de Sarah, eu me encontrei com Trace próximo da entrada do estádio. Mesmo pequeno, ele chamava atenção. Seus olhos estavam mais vívidos e ele sorriu conforme eu me aproximava.

“Ótimo jogo, Alan.”

“Você parece diferente esses dias.” Eu comentei, olhando-o sob um novo prisma. “Menos... Severo.”

Trace riu, fechando os olhos e abaixando a cabeça para segurar a gargalhada. Depois me olhou de uma maneira quase carinhosa, lembrando-me dos onze anos de diferença entre nós.

“Não sou seu professor e técnico de natação no momento... Não preciso exigir nada de você. Aqui, somos apenas conhecidos aproveitando a companhia um do outro. Eu aproveitando mais da sua, acredito.” Ele falou sincero, colocando as mãos no bolso. Sua expressão era amena e madura, e eu me perguntei como um homem como ele poderia agir de forma tão... estúpida em relação à sua vida pessoal.

“Eu gosto da sua companhia, Trace. É bom conhecer esse seu outro lado.” Admiti, também mantendo a sinceridade na conversa. Olhei para o lado e vi que um repórter com um câmera ao lado havia me visto e reconhecido. Peguei Trace pelo braço e comecei a arrastá-lo comigo na direção contrária. “Vamos almoçar juntos. Estou faminto.” Declarei.

“Eu comi um cachorro-quente durante o seu jogo... Mas tudo bem, acho que aqui posso sair da dieta.” Trace concordou, apressando o passo junto comigo.

“Comer cachorro-quente faz parte da dieta?” Perguntei trocista, e ele corou de leve.

“Bem... Não exatamente.” Riu. “Digamos que já saí da dieta há alguns dias.”

“Você não precisa de dieta.” Falei.

“Manter uma dieta saudável é importante para a saúde, Alan. Você, como jogador profissional, deve saber disso. Espero que seu técnico esteja cuidando da sua alimentação também, mocinho.” Ele disse, mais rígido e preocupado.

“Esse é o Trace que eu conheço.” Suspirei com um sorriso.

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“Conte-me sobre seus pais.” Trace pediu enquanto almoçávamos no Parkside Restaurant, próximo do parque. Eu não estava esperando por essa pergunta, então demorei um pouco para organizar meus pensamentos.

“Eles eram ótimas pessoas. Tinham muita grana, mas eram sempre humildes e discretos, esses dois valores eles me passaram. Também generosos, sempre faziam doações para entidades carentes... Eu os admirava muito. Não eram nem muito presentes, nem muito ausentes. Tinham seus compromissos, mas sempre se esforçavam para ir aos eventos do colégio quando eu era criança, ou assistir aos meus jogos de tênis. Sinto muita falta deles.” Falei com a típica ardência no peito quando nos lembramos daqueles que amávamos, mas que não estavam mais ao nosso lado. Notei a expressão de Trace tornar-se mais triste e preocupada enquanto eu falava.

“Desculpe, eu não sabia sobre isso.” Ele colocou uma mão sobre a minha, em cima da mesa.

“Para um fã, você está meio por fora.” Brinquei para amenizar o clima. Já fazia cinco anos desde que meus pais haviam morrido em um acidente de helicóptero, e agora já não era mais um tópico tão difícil de falar.

Trace forçou um sorriso – ainda estava arrependido de ter tocado no assunto.

“Não costumo vasculhar sobre a vida pessoal dos jogadores que admiro. Muito menos de meus alunos. Acho desrespeitoso.” Ele acariciou de leve minha mão antes de soltá-la. “Quem tem cuidado de você desde... a morte deles?”

Eu fechei a mão e a levei à frente da boca para abafar uma risadinha. Depois o encarei com um ar malicioso. “Não me trate como criança quando você, mais do que ninguém, sabe que estou bem longe disso.” Provoquei, pintado seu rosto de vermelho vivo. Trace entreabriu os lábios e depois os franziu apertados, olhando-me irritado.

“Isso não tem nada a ver com ser criança.” Ele falou ríspido, mas logo sua expressão suavizou. “Apenas... Ninguém merece ficar completamente sozinho.” Desviou o olhar, parecendo perder-se em memórias distantes. Eu estava para lhe pedir uma provinha de seus pensamentos, mas fomos interrompidos por um casal com duas crianças.

“Er... Desculpe incomodar.” Disse a mulher. “Mas meus dois filhos jogam tênis e lhe admiram muito. Você poderia dar um autógrafo e tirar uma foto com eles?”

Eu olhei para os dois meninos que pareciam ter em torno de dez anos. Eram gêmeos de cabelos cor de mel, olhinhos castanho-claros e dois sorrisos gigantes. Olhavam-me como se eu fosse alguma espécie de ídolo, e eu não pude me impedir de sorrir de volta.

Esses momentos valiam mais do que muita coisa.

“É claro. Qual o nome dos campeões?” Eu perguntei, aceitando a caneta que um deles me ofereceu quase saltitando de alegria por minha concordância.

“Peter!”

“Ethan!”

Eles exclamaram em uníssono.

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“Você leva jeito com crianças.” Trace falou enquanto nos apoiávamos ao parapeito de uma das pontes do Central Park. Eu adorava aquele lugar e, com o consentimento de Trace, havíamos pegado o metrô para chegar até ali. “Até mais do que eu que já sou pai.”

“Eu adoro crianças.” Falei, olhando contemplativo para algumas que brincava no gramado do parque, junto com um labrador. “Deve ser culpa do meu instinto protetor.”

“Então... Você pretende ter filhos no futuro?” Ele perguntou com cuidado.

“Bem, talvez quando eu encontrar algum cara que eu ame e me ame de volta,” essa era uma parte importante, já que eu não havia tido muita sorte até então “eu tenha planos de adotar.”

“Tenho certeza que encontrará alguém para realizar esse sonho. Você daria um ótimo pai e... É fácil amar você.”

E puxei Trace pelo braço e o encurralei contra a murada da ponte. Ele ergueu a cabeça e me encarou com os olhos arregalados enquanto nossos corpos estavam bem próximos e nossas respirações batiam nos lábios um do outro.

“Não faça isso.” Murmurei, quase sentindo o calor de seu corpo. Seus lábios semicerrados eram uma tentação, mas eu desviei o olhar dele antes que cometesse uma burrice. “Não faça isso se depois irá voltar para sua esposa e fingir que esses momentos nunca aconteceram.” Eu o larguei e me afastei, seguindo o caminho da ponte tentando normalizar minha respiração.

Trace me alcançou pouco depois.

“Desculpe. Eu não deveria ter falado aquilo.” Ele disse baixinho, ao meu lado.

Eu não respondi.

XxxX

Talvez fosse pela frustração de Trace não ter me procurado no dia anterior, porém dois dias depois que havíamos almoçado juntos e passado a parte no Central Park, eu ganhei de lavada meu terceiro jogo. Durante a partida, eu tentei procurá-lo nos momentos de pausa na plateia enorme, mas não o encontrava. No entanto, eu tinha certeza de que ele estava assistindo de algum ponto em que eu não conseguia avistá-lo.

Achei que minha vitória satisfaria Sarah, mas quando a partida terminou, ela nem deixou a mídia chegar perto de mim. Arrastou-me junto com William para um lugar mais reservado, onde estaríamos longe de curiosos.

“O que está acontecendo? Você está daquele jeito de novo. Não, não de novo. Não permitirei que perca mais um campeonato pelo mesmo motivo!” Ela ralhou e me olhou profundamente, como se esperasse encontrar a mínima hesitação ou mentira em minhas próximas palavras.

“Não é pelo mesmo motivo. E eu estou ótimo.” Falei convicto. Convicto até demais.

“Então é outra pessoa dessa vez? Onde está o desgraçado? Eu juro, vou quebrar a cara dele por atrapalhar em um momento tão crítico!” Sarah exclamou furiosa, olhando para os lados como se pudesse encontrar a razão do meu descuido ali mesmo.

“Sarah, controle-se. E Alan, você deu sorte. Começou a partida com uma explosão de energia, mas no final você estava cansado e cometeu alguns errinhos bobos. Se seu adversário fosse um pouco mais resistente, poderia ter virado o jogo contra você.” William falou sério, cruzando os braços. “Saber medir e usar sensatamente suas energias também é muito importante. Lembre-se: esse foi seu erro na semifinal do Wimbledon.”

“Eu sei.” Suspirei, deixando meus ombros caírem. Eu me sentia exausto. “Irei me controlar no próximo jogo. E nos próximos também.” Completei ao ver o olhar homicida de Sarah. Ela assentiu para isso e se aproximou para massagear meus ombros, mesmo que eu estivesse pingando suor.

“Eu fico preocupada com você.” Ela falou mais docemente. “Se precisar desabafar, saiba que estou aqui.”

“Obrigado, Sarah.”

“E não nos decepcione nas oitavas de final.” Ela deixou claro.

“Sarah, não pressione o garoto!” William a repreendeu.

“Oh, William, você é meu irmãozão e eu te amo, mas... Vá à merda.” Ela rosnou, fazendo-me rir disfarçado e William abrir uma careta ofendida.

XxxX

Reencontrei Trace após meu penúltimo jogo. Eu estava nas finais agora, a mídia estava louca atrás de mim, meus amigos me ligaram novamente enlouquecidos enviando votos de boa sorte, e eu estava uma pilha de nervos. Nenhum jogo até ali me deixara realmente nervoso, porém com finais era diferente. Era o tudo ou nada. Você chegou longe e falta apenas um passo para subir ao topo do pódio. A ansiedade se tornava gigantesca e eu precisava me concentrar ao máximo nos próximos dois dias.

Então, ver Trace depois de uma semana me perguntando o que havia acontecido com ele não me ajudou muito a me concentrar. Ele estava almoçando no Parkside, apreciando um daqueles pratos italianos que eu adorava. Eu não resisti a me aproximar e sentar-se à mesa dele, mesmo sem receber nenhum convite. Ele me olhou chocado, arregalando seus olhos azuis.

“Alan...” Ele murmurou, abaixando o garfo. “Estou orgulhoso que chegou à final. Foram jogos maravilhosos de assistir.”

“Por que sumiu?” Eu interpelei, ignorando seu cumprimento. Trace ficou surpreso de novo, depois hesitou e desviou o olhar para o prato, suspirando baixo.

“Achei que não queria ver-me novamente. Também, não queria atrapalhá-lo ou... magoá-lo.” Ele manteve a cabeça baixa, incapaz de olhar-me nos olhos.

“Senhor, deseja fazer seu pedido?” Um dos garçons se aproximou e, me reconhecendo, arregalou os olhos. “Oh...! Será que eu poderia...”

“Claro.” Eu dei a ele um autógrafo e depois pedi o mesmo prato que havia pedido da última vez. Eu não era muito criativo com comida. Assim que ele se afastou, voltei minha atenção novamente para Trace, sentindo-me um pouco menos irritado. “Você sumir me atrapalhou bastante.”

Ele ergueu o olhar para mim. Havia uma culpa enorme em seu rosto, e eu me culpei por acusá-lo daquela forma, mesmo quando suas intenções haviam sido boas.

“Desculpe...” Murmurou.

“Você já se desculpou várias vezes desde que nos encontramos no parque.” Falei áspero, ainda tomado pela frustração prévia.

Ele soltou uma risada sem-humor, levando uma mão à testa e afastando alguns fios de cabelo dela.

“Tem razão. Eu me desculparia por isso, mas acho que apenas agravaria a situação.” Ele me fitou, ficando mais sério. “O quão saudável é continuarmos dessa forma?”

“Nada saudável... Mas já não concordamos antes em sair da dieta?” Brinquei.

Trace acabou rindo e demorou a conseguir parar. Seu rosto ficou corado e ele levou a mão ao abdômen, tentando se segurar. Mais do que nunca parecia um adolescente sem jeito. Quando o garçom voltou com meu pedido, ambos ainda estávamos rindo feito idiotas.

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“Esse vinho é ótimo.” Trace falou impressionado após experimentar um gole de sua taça, e eu desviei meu olhar do céu estrelado para ele.

Estávamos na cobertura que eu havia alugado para passar aqueles últimos dois dias. O preço da diária era salgado, mas apesar de eu não gostar de extravagâncias, queria poder me dar um pouquinho de luxo antes da final.

“É o vinho do Porto Dow Vintage. Comprei há algum tempo quando visitei Portugal. Ele foi escolhido como o melhor do mundo ano passado e, por incrível que pareça, custou-me apenas 82 dólares.” Falei com um sorriso satisfeito e bebi um gole de minha taça, degustando lentamente. Eu era apaixonado por vinhos e tinha minha própria bodega em minha casa fora da Ketteridge. Era uma paixão que havia aprendido com meu pai. “Eu trouxe para comemorar minha vitória.”

“Mas... Você não ganhou ainda. Não vá chegar à final convencido demais.” Trace falou, adquirindo seu ar de técnico rígido. “Essa é a perdição de muitos atletas.”

“Não... Não estou comemorando minha vitória em antecipação.” Eu revirei os olhos com diversão e lhe sorri pelo canto do lábio, erguendo minha taça. “Apenas achei que valia à pena abri-lo antes do tempo, já que você está aqui comigo.”

As sobrancelhas de Trace subiram e ele fez menção de falar alguma coisa, mas calou-se antes de tentar. No lugar disso, ergueu sua taça e brindou comigo.

“À sua vitória amanhã.” Falou. “Só não vá beber demais. Não quero ser o responsável por uma possível ressaca.” Franziu a testa.

“Beberei apenas essa taça.” Garanti, tomando mais um gole. “O resto fica para amanhã à noite.”

Ficamos em um silêncio confortável por alguns minutos, apreciando a visão das estrelas.

“Você... Se decidiu? Depois dessas férias?” Perguntei-lhe então, não aguentando guardar apenas para mim aquela dúvida que pairava acima de todos os meus pensamentos.

Trace suspirou profundamente, ainda olhando para o céu.

“É... Mais complicado do que você acha, Alan.” Ele largou a taça sobre a mesinha e se ergueu da cadeira reclinável em que estivera deitado. Caminhou até a beira da cobertura, apoiando os braços no parapeito para olhar para a cidade. Mesmo à noite, as luzes eram vibrantes em Nova Iorque, assim como o movimento que nunca parecia cessar por completo. “É minha família.” Ele falou dando ênfase à importância da palavra. “Eu amo minha esposa...”

“Mas não como deveria amá-la.” Eu afirmei com uma certeza arrogante.

“Não.” Ele lamentou, abaixando a cabeça. “Não como ela merecia ser amada.” Para minha surpresa, após alguns segundos pesados de silêncio, eu pude perceber que, de costas para mim, Trace chorava baixinho, tentando a todo custo manter-se silencioso.

Levantei-me também e fui até ele.

“Trace...” Falei, virando-o para mim. Quando tentei tocar-lhe o rosto, ele se afastou.

“Eu deveria ir.” Ele murmurou, mas eu o impedi de fugir, segurando-o pelo braço.

“Por que não consegue deixá-la?” Perguntei angustiado. “Se é por seus filhos... Eles vão continuar sendo seus filhos, estejam vocês juntos ou separados.”

“Por favor... Eu não quero falar sobre isso, Alan. Tudo isso... Não deveríamos estar falando sobre isso. Vai tirar seu foco de amanhã. É melhor eu ir e você dormir cedo.” Ele tentou se afastar novamente, mas eu o segurei pelos ombros com força.

“O que me importa o amanhã, se o depois vai continuar assim?! Você acha que esse campeonato é o mais importante para mim?!” Exclamei irritado e atormentado. Trace me encarou como se eu fosse louco e se afastou bruscamente.

“Não acredito no que eu acabei de ouvir! Pare de agir como um adolescente inconsequente! Amanhã é parte de seu futuro. Amanhã é importante. Muito mais importante do que paixonites passageiras!” Ele exclamou ainda mais alto que eu. Seus olhos brilhavam com fúria. Deus, como eu gostava desse olhar feroz.

“Então é isso que você acha que eu sou? Que você é? Uma paixonite passageira?” Perguntei apertando os punhos, sentindo meu corpo encher-se de mágoa e raiva.

“Alan...” Trace se apoiou à cadeira e levou a mão ao rosto, tapando-o por um momento. “Até pouco tempo atrás você me dizia que era apaixonado por seu amigo de infância. Agora você quer que eu acredite que está apaixonado por mim, e que não é passageiro? Você é jovem, está confuso... Não vê? Deus...!” Ele gritou com raiva, empurrando a cadeira para longe e me dando as costas, para respirar fundo. “É verdade, eu vim até aqui porque queria te ver jogar. Queria ficar perto de você. Mas foi longe demais. Eu igualmente agi como um adolescente inconsequente indo ao seu encontro. Se você perder amanhã... Como poderei me perdoar?” Ele sussurrou a última parte e, atormentado, avançou de volta ao apartamento.

Demorei apenas um segundo parado em choque no mesmo lugar antes de correr e alcançá-lo antes que chegasse a porta.

“Trace!” Chamei e o segurei, virando-me para mim em desespero. “Não vá.” Pedi num murmúrio, olhando em seus olhos confusos.

Nossas respirações pesadas e ruidosas foram minha única resposta antes que nossos lábios se encontrassem em um baque violento e cheio de desejo. As costas dele bateram contra a parede mais próxima quando o presei contra ela, apertando-o pela cintura e afundando minha língua em sua boca quente. Havia gosto de vinho ali e eu, como um viciado, sorvi todo aquele sabor.

Trace gemeu abraçando-me pelo pescoço, correspondendo com o mesmo fervor. Havia fogo entre nós, mas era o desejo que queimava meu corpo, consumindo-me de uma forma que sugava todo o controle de minhas ações, puxando-me para fora da realidade. Eu apertei os fios loiro-prateados de sua nuca, enquanto minha mente tornava-se turva como numa noite de neblina. Trace desceu as mãos para minhas costas, apertando minhas roupas. Nossas línguas se entrelaçaram com vigor, mal nos deixando respirar, mas não paramos. Eu apertei seu glúteo redondo e firme com minha outra mão, empurrando-o com mais força contra a parede, fazendo-o sentir a ereção que surgia sob minha calça. Trace gemeu em minha boca, parecendo render-se de vez ao momento, render-se a mim.

Perdi todo o controle que me restava.

Eu queria arrancar suas roupas, beijar e morder sua pele, apertar sua carne e me afundar em seu corpo para ouvi-lo gemer daquela forma sensual novamente. No entanto, Trace apartou bruscamente meus intentos, segurando minha cabeça e a empurrando para trás, para longe de seus lábios avermelhados. Nós respirávamos ainda mais rápido e turbulento do que antes e nos olhávamos intensamente, perdidos nas íris um do outro.

“Ganhe amanhã.” Ele pediu doce e, com uma carícia leve em meu rosto enquanto me olhava de uma forma afetuosa, ele partiu como um gato escorregadio, fugindo de minhas garras.

Não fui atrás dele. Sabia que era inútil.

Quando deitei para dormir, sonhei com aquele beijo centenas de vezes, misturando-o com cenas das outras vezes em que ele havia se entregado a mim.

XxxX

Não vi Trace no dia seguinte, nem antes, nem depois da partida.

Foi um jogo acirrado e difícil. Cometi erros e acertos, assim como meu adversário. Mas eu sabia que ele, assim como tantos outros – Sarah, William, meus amigos, até mesmo meus pais em algum outro lugar – estavam me vendo e torcendo para mim.

Então, naquele dia, conquistei meu terceiro campeonato de uma mesma temporada.

Notas finais
Galera, desculpa a demora. A minha vida anda realmente muito enrolada. Meus dias se resume a sair de casa sete e meia da manhã e voltar pra casa oito da noite, e ainda ter que estudar, fazer trabalhos, preparar seminários, etc etc etc. Tá bem difícil e cansativo. Estou totalmente sem tempo para responder os reviews, MAS irei responder todos os reviews atrasados assim que possível! Eu tardo, mas não falho! *estufa o peito* Outra coisa muito chata que aconteceu foi meu pendrive quebrar e eu perder dois capítulos que eu tinha escrito dessa história, um do Lawrence e outro do Fabian. Foi muito desanimador e por isso que eu dei uma pausa na história, pensando no que eu iria fazer. Não irei reescrever os capítulos porque sei que não ficarão da forma que estavam os outros, eu que tinha gostado muito do resultado. Então, eu irei aqui escrever dois ou três extras em terceira pessoa (um do Lance, um do Bobby e talvez um do Tristan). Após isso, vou finalizar essa fic, A continuação dela virá em outra fic que postarei depois, que será narrada em terceira pessoa, com maior integração entre os personagens. Ainda há muita água para rolar... Espero que todos entendam x) Beijosss!