Colton

“Não é possível que ele esteja atrasado de novo!” Aquele ruivo estressado exclamou quando terminamos de ensaiar uma das cenas de A Pequena Sereia.

Eu nunca imaginei que algum dia estaria em uma peça, muito menos em uma Infantil; porém, todos estavam levando o trabalho bastante a sério e aquela era uma apresentação que já havia acontecido até mesmo na Broadway. Não estávamos ali para amadorismos, como o ruivo adorava nos lembrar. Os ingressos para a exposição já haviam quase esgotado. Pelo que tomei conhecimento, tudo que era encenado ou apresentado no Lyric Convent tinha grande notoriedade e reconhecimento. Crianças e adultos, pais e filhos, famílias e os próprios estudantes da Ketteridge lotavam o ilustre teatro.

Era uma grande oportunidade para os aspirantes a atores ou músicos, pois havia diversos patrocinadores envolvidos em todas aquelas apresentações, assim como muitos olheiros. As futuras gerações do cinema, música e artes saíam dali. Eu deveria estar extremamente lisonjeado por atuar nesse palco. Mas, para ser sincero, a roupa de peixe que haviam me dado estava pinicando e eu realmente gostaria de fazer algo além de dançar atrapalhado junto com outros figurantes e fazer um backing vocal que mais se parecia com últimos sons de uma pessoa se afogando.

Ok, estou exagerando. Eu só não estava acostumado a essa maldita rotina de aulas, treinos, ensaios e mais aulas. Já começava a sentir saudades da minha vida boa como prostituto de luxo. Agora eu era um cara atarefado e um prostituto, e as duas coisas estavam me exaurindo pra cacete. E ainda havia o fato de que agora todos na Casa sabiam sobre meu envolvimento com Desmond. Eram irritantes todos aqueles olhares maliciosos ou invejosos que eu havia recebido nas últimas noites em que havia ido para lá.

“Colton!” O ruivo me chamou e se encaminhou até onde eu estava. Eu ergui uma sobrancelha questionadora. “Onde está o seu colega de quarto?”

“Como vou saber?” Rebati com certo tédio. Já havia cansado dessa pergunta nos últimos dias. Tristan sempre se atrasava. Em um dos dias sequer apareceu, o que deixou Lawrence extremamente furioso. Mas nunca tinha ideia de onde Tristan estava; porém, por duas vezes, ele me pediu para ensaiar suas falas comigo no quarto.

Lawrence bufou e pegou o celular, começando a discar um número que, imaginei, fosse de Tristan. Ele se afastou, dirigindo-se para o backstage, mas sua briga ao celular ainda era audível. Eu suspirei e me sentei um pouco. Ao menos, não havia tantas cenas com Tristan, o Sabidão. O problema é que algumas vezes ele sumia junto com a Marion, nossa Ariel, e no fundo todos nós sabíamos o que eles estavam fazendo para se atrasar, principalmente quando Marion e ele chegavam com aquelas típicas expressões de quem acabou de trepar por algumas horas.

Felizmente apenas ele estava desaparecido hoje.

Tristan parecia agir assim justamente para deixar o Lawrence se descabelando de raiva. Era até um pouco hilário ver o ruivo prestes a explodir. Ele ficava excessivamente parecido com Jessica nesses momentos. Às vezes eu me perguntava se ele sabia que a irmã era uma prostituta. Jessica quase nunca falava sobre ele e até agora eu não os havia visto juntos.

Lawrence voltou bufando ao palco minutos depois e mandou-nos recomeçar. Quando Donatella não estava, era ele quem comandava tudo. E, por Deus, ele era o perfeito substituto. Tão intransigente quanto a megera.

“Marion, você precisa parecer mais ansiosa e desesperada, você vai dar sua voz em troca de pernas! E você, Priscila, até um poodle pareceria mais assustador que você. Está sorrindo de uma maneira muito feliz enquanto canta.” Lawrence corrigiu as duas em dado momento.

“Mas... Eu amo cantar!” Priscila exclamou sonhadora.

“Todos nós amamos, mas você não está interpretando você mesma nesse palco agora.” Lawrence explicou, de certa forma até um pouco paciente. Eu havia segurado a minha risada frente à resposta da menina. Ela era adorável e inocente demais, ao ponto de parecer bem bobinha às vezes.

Quando estávamos finalizando a cena, Tristan finalmente apareceu. Lawrence, quando o viu, caminhou intempestivamente em direção ao meu colega de quarto. Nuvens de fumaça negra pareciam subir de sua cabeça. Tristan sorriu meio debochado enquanto Lawrence se aproximava, e chegou a se escorar numa nas cadeiras, esperando o ruivo se aproximar.

“Onde você estava?” Lawrence gritou. “Por que é sempre tão irresponsável?! Tivemos de chamar Priscila para vir ensaiar para que não perdêssemos a tarde! E para quê? Porque você simplesmente não sabe honrar seus compromissos!”

Tristan suspirou e abriu os braços.

“Estou aqui agora, não estou? Pronto para ser o seu Sabidão. Ensine-me todos os truques do teatro, oh grande e todo poderoso Lawrence! Estou ao seu dispor agora.” Tristan falou teatral, sorrindo com um arzinho desdenhoso antes de se inclinar em uma mesura. Isso arrancou risadinhas do palco, principalmente das meninas.

Eu vinquei a testa e observei a discussão com certo interesse. Tristan era um cara legal a maior parte do tempo. Era simpático comigo e tinha uma paciência de ferro com Julian. Mas se eu estivesse no lugar do Lawrence, posso afirmar que o teria socado. O ruivo parecia mesmo se controlar para não acabar aos tapas na frente de todo mundo. Pelo menos ele não estava com a fantasia. Ele perderia muito a moral numa briga se estivesse com a aparência do Sebastião.

“Apenas vá e se vista.” Lawrence ordenou, apertando os punhos. Geralmente não é necessário ensaiar com as roupas, mas naquele dia Donatella havia mandado que tornássemos o ambiente mais real. “Ensaiaremos até que esteja perfeito.”

“Seu desejo é uma ordem, príncipe.” Tristan sorriu de lado e avançou para um dos camarins para se trocar. Lawrence o fuzilou com o olhar enquanto ele se afastava, bufando ao final. Príncipe era o apelido infame que Lawrence havia recebido há algum tempo. Ele era o príncipe das Belas Artes. Mas ninguém tinha a ousadia de falar aquilo na frente dele, já que ele odiava.

Ninguém além do Tristan, ao menos.

“Ele não é tão impossível assim com as outras pessoas... Eu diria que existe uma implicância mútua entre vocês dois.” Comentei com Lawrence, que me olhou assustado por eu me dirigir a ele. Depois balançou a cabeça e torceu os lábios, olhando ainda na direção que Tristan havia tomado.

“Minha implicância é muito bem fundamentada. Não dou a mínima com como ele se porta com as outras pessoas. Me frustra é que ele seja tão irresponsável com seus próprios talentos.” Lawrence falou duramente e se afastou, voltando a dar algumas ordens.

O clima depois foi intenso. A todo o momento achei que aquele palco iria pegar fogo, tamanha era a animosidade entre Tristan e Lawrence. Meus ombros ficaram muito mais leves quando deixei o Lyric Convent e voltei para meu quarto no dormitório das Belas Artes. De noite eu ainda teria de ir à Casa das Máscaras, e queria tirar um cochilo antes disso.

Felizmente, não havia ninguém no quarto e eu pude me deitar na cama, relaxando.

Não mais do que cinco minutos depois, alguém bateu à porta. Com um resmungo, me levantei da cama e fui até ela, abrindo-a. À minha frente, estava a ruiva mais linda e perfeita que poderia existir atualmente no mundo. E uma com quem eu estava puto da cara. Tentei fechar a porta na cara de Jessica, mas ela me impediu e entrou no quarto, voluntariosa como sempre.

“O que você quer, Jessica?” Perguntei pouco receptivo, fechando a porta e me virando para ela.

“Me desculpar...?” Ela sugeriu com um sorriso suave. “Colton, eu jamais imaginaria que você ficaria tão chateado por eu ter revelado o seu pequeno segredinho.” Ela caminhou até mim e acariciou o meu rosto. Suas mãos eram pequenas, delicadas e macias. O cheiro dela me atingiu em cheio, inebriando-me. “Você sabe que eu faço jus à minha cor de cabelo. Ruivos são, em geral, extremamente pavio-curto.”

“Seu irmão que o diga.”

“Ele é pior do que eu. Muito pior.” Ela revirou os olhos e passou a língua pelo lábio inferior. “Então você e ele estão se dando bem?” Perguntou irônica.

“Não diria isso. Não falei muito com ele até agora. É apenas observação dos fatos.” Dei de ombros e me afastei. Jessica tinha certo poder sobre mim. Sobre todos os homens, em realidade. Nunca havia conhecido alguém que conseguisse resistir a ela. Desmond era uma pessoa por quem ela não tinha nenhum interesse, ou assim ela afirmava. Eu não duvidava de nada, e a ideia de ela e Desmond na mesma cama me atormentou.

Olhei pela janela tentando desanuviar meus pensamentos.

“Colton... Ninguém está te julgando por estar se deitando com Desmond. No máximo, há alguns te invejando.” Ela falou próximo do meu ouvido, colocando as mãos em meus ombros. “Mas para ser sincera, eu acho que ele é o sortudo nessa história.” Ela me beijou a nuca. “Irá perdoar-me?”

“Houve alguma vez em que consegui ficar chateado com você por mais do que poucos dias?” Perguntei. Eu era fraco para pedidos de desculpa. Não, eu era fraco por ruivas. Jessica também me lembrava terrivelmente de Emmanuelle. Apesar das personalidades completamente distintas, ela também possuía um charme próprio, uma vitalidade exasperante e uma beleza inigualável.

Jessica soltou uma risadinha leve.

“E você lembra como nosso sexo de reconciliação é uma delícia?” Ela perguntou, abraçando-me por trás. Suas mãos passearam provocativamente por meu abdômen e alcançaram minha coxa e meu pênis por cima da calça, enquanto seus lábios carnudos roçavam em meu pescoço.

Eu segurei seu pulso, impedindo-a.

“Jes, você tem dois namorados aqui na Ketteridge.” Eu a lembrei. “E há alguma regra idiota sobre ser proibido transar nesse dormitório, ou algo assim.”

“O proibido não é justamente o mais gostoso?” Ela sussurrou e me puxou, virando-me. Colocou minha mão sobre seu seio farto, que eu apertei por reflexo. Nossos lábios se encontraram no segundo seguinte. Era difícil resistir a uma ruiva tão disposta, principalmente quando era uma com tantos talentos na cama quanto Jessica.

As coisas aconteceram rápido depois disso. Minhas mãos a tocaram com ânsia, enquanto eu procurava erguer-lhe a saia, minha boca capturou um de seus seios quando puxei blusa e sutiã para baixo. Ela gemeu quando a ergui e prensei contra a parede livre do quarto e abriu o zíper da minha calça. Eu já estava duro, e ela estava molhada. Não houve tempo para nos importarmos com camisinha. Eu a segurei firme pelas coxas e a penetrei com um único movimento, sentindo o interior quente dela me acolher, pressionando suas paredes ao redor de meu pênis. Exalei o ar pelo prazer instantâneo e não me importei de ter os cabelos puxados enquanto sugava-lhe a pele branca do pescoço.

Ficamos minutos daquela forma. Ela contra a parede, eu entre suas pernas, segurando-a firme enquanto investia contra seu corpo quente e sensual. Sequer consegui me preocupar com o barulho que as costas dela faziam na parede toda a vez que me movia; porém em dado momento caímos na cama e continuamos de maneira um pouco mais silenciosa, a despeito dos meus gemidos e dos dela.

“Aposto que você não irá para Casa hoje.” Falei com a respiração pesada, entrando fundo nela e arrancando um sorriso prazeroso de seus lábios vermelhos.

“Não... É meu dia de folga.” Ela disse, entre arquejos. “Chase e Derek estão ocupados... Mas eu sabia que você estaria livre. Achei a oportunidade perfeita para-” Ela se interrompeu ao gemer alto, agarrando minha bunda e a apertando. “fazer as pazes.” Finalizou ofegante, voltando a sorrir. “Eu fiquei me perguntando quem é o ativo entre você e o Desmond? Já que você faz isso tão bem.” Ela ronronou, mas eu abri uma careta. Não era o melhor momento para lembrar de Desmond. Menos ainda para eu me lembrar de todas as formas que já havia dado a bunda.

Eu ia falar alguma coisa, mas algo em minha visão periférica me chamou atenção. Olhando para o lado, arregalei os olhos ao ver Julian parado à porta do banheiro. Eu não tinha ideia de que ele estava no quarto desde o início, ou melhor, no banheiro, e me levantei, afastando-me de Jessica. Julian nos encarava com uma expressão perplexa, como se nunca houvesse ouvido falar que um homem e uma mulher poderiam fazer esse tipo de coisa.

“V-Vocês... É proibido para um aluno das Belas Artes fazer sexo. Principalmente aqui.” Julian falou, engrolado. “S-Se alguém descobre...”

“Você vai contar a alguém?” Eu me aproximei dele, que se afastou alguns passos, voltando para dentro do banheiro. Eu o segui ali para dentro, não deixando a distância entre nós dois diminuir. “Julian! Você pode ficar quieto quanto a isso?” Segurei-lhe o braço.

“E-Eu não sei... Lawrence... E-Ele sempre foi legal comigo...” Ele falou, contorcendo-se inteiro. “P-Por favor, largue meu braço. E-Está sujo... Vocês estavam...” Ele engoliu as palavras, parecendo achá-las nojentas demais até mesmo para pronunciá-las.

Eu pisquei os olhos umas três vezes, até me lembrar do problema dele com sujeira e arrumação. Antes que eu o largasse, Jessica apareceu atrás de mim, olhando por cima de meu ombro com curiosidade. Não estava nem um pouco constrangida ou desconfortável por ter sido pega no flagra em um momento íntimo. Para Jessica, sexo era apenas natural, nada pelo que alguém precisasse se envergonhar.

“Quem é esse? Seu coleguinha de quarto?” Ela perguntou e passou por mim. “Que gracinha! Você tem quantos anos?”

“V-Vinte.” Julian respondeu, hiperventilando.

“Você quer se juntar a nós? É o que quer para não contar nada a ninguém?” Jessica perguntou com certa diversão, mas eu não duvidava que ela estivesse falando sério. “Você é virgem?” Ela tocou o rosto de Julian, que pareceu prestes a desmaiar. “Parece tão surpreso pelo que viu.”

“E-Eu não gosto de... disso.” Julian murmurou, afastando o rosto, mas seus olhos pararam no volume em minhas calças, que eu havia erguido. Ele ficou ainda mais vermelho do que já estava. “Eu não posso fazer isso. É tão sujo...” Ele apertou os olhos.

Jessica arregalou os olhos.

“Ele é católico fervoroso?” Ela me perguntou admirada.

“Não. Ele tem TOC.” Soltei Julian antes que ele desmaiasse de verdade. Ele se encolheu até o chão, parecendo extremamente afetado e transtornado. Fiquei preocupado e me agachei na frente dele. “Julian... Não é assim tão sujo. Ninguém morre por fazer sexo. E ninguém precisa ficar sabendo sobre isso, se você fingir que não viu nada. Você prefere esquecer que viu alguma coisa, não prefere?” Eu tentei. Estava preocupado em perder a chance de continuar na peça d’A Pequena Sereia. Eu era apenas o figurante, mas se desagradasse Lawrence ou Donatella, eu não seria nada por um bom tempo. “Olha, desculpa por te tocar.”

“Ela tem de sair. Agora. E você, tomar um banho. Daí não conto nada...” Ele exigiu, erguendo seus olhos claros para mim. Era uma ordem, mas parecia um pedido de um homem desesperado.

Jessica ergueu as mãos para o alto.

“Certo. Estou saindo.” Ela falou entediada. “Nós nos vemos depois, Colton. Boa sorte com o virgenzinho.” Deu-me um beijo na bochecha quando levantei e saiu dali, deixando eu e Julian sozinhos.

Estendi a mão para Julian, mas então me lembrei que ele odiaria tocar nela naquele momento.

“Tristan me falou que você estava tomando remédios e fazendo terapia. E ainda assim é tão difícil para você?” Perguntei, tirando a minha camisa e me afastando. Comecei a tirar minhas calças, mas Julian me interrompeu.

“O que está fazendo?” Ele exclamou petrificado, já de pé.

“Indo tomar banho. Não foi o que você pediu?” Perguntei olhando-o com a testa franzida, chutando minhas calças para longe. Depois de trabalhar tanto tempo como prostituto, é difícil se incomodar ou se constranger com a nudez própria ou alheia. Demorei a me tocar que estava nu na frente de um garoto virgem, mas, mesmo assim, não achei que havia algum problema. Garotos não se importam com a nudez de outros garotos. A não ser que... “O que foi? Você gosta do que vê?” Perguntei, não resistindo a abrir um sorriso.

Julian entreabriu os lábios, corando.

“Nunca viu um cara pelado antes?” Ergui uma sobrancelha. Aí já era demais. “Nem na TV?”

“Eu já vi...! N-Num filme... Não era pornô!” Ele exclamou frente ao meu sorriso safado. “Mas nunca... Assim... Nem homem, nem mulher. E-Eu...” Ele olhou para o lado, tremendo. “É bonito... S-Seu corpo é lindo. Todo ele.”

Chame-me de devasso, mas a forma como ele falou aquilo enquanto olhava para o lado e espiava de esguelha meu corpo, me deixou excitado novamente. Meu rosto chegou a pinicar com o elogio, mais pela surpresa, do que por embaraço. Já havia escutado tal elogio várias vezes, mas receber daquela maneira era... diferente.

“Você gostou de tocar meu corpo da outra vez, não?” Eu o lembrei.

Julian havia agido como se a vez que o fiz tocar meu abdômen nunca tivesse acontecido, mas havia começado a maneirar na mania de tentar limpar minhas coisas espalhadas na minha parte do quarto. Não tínhamos muito tempo para ficar próximos ou sozinhos. Aquela era a primeira desde então. E eu desejei ter a mão dele me tocando novamente.

“N-Não! Você está sujo agora.” Ele me lembrou.

“Então... Eu vou entrar nesse banho. Se você quiser, pode entrar comigo e se limpar também. Afinal, eu te toquei e você também está sujo. É sua escolha.” Eu falei antes de entrar no boxe e ligar a água quente. Comecei a me lavar fingindo tranquilidade, mas estava ansioso para saber o que ele iria fazer, enquanto ele lutava internamente tentando decidir que decisão tomar.

Foram somente alguns minutos de espera, até que Julian caminhou na direção da porta e eu me desanimei, achando que ele havia decido sair. Porém, ele fechou a porta e a trancou. Pouco depois, entrou no boxe também, livre de roupas, assim como eu. Seus olhos correram por meu corpo com aquela mesma curiosidade e deslumbramento, e eu também me distraí observando-o.

Ele era magro e branco, seus músculos mal apareciam e suas costelas eram aparentes. As pernas eram bonitas, mas não muito grossas. Ele também estava excitado, mas parecia não ter percebido isso ainda. Seus olhos estavam pregados em mim, no entanto ele não se moveu para tentar algum contato.

Peguei o pulso dele e levei sua mão até meu peito.

“Você gosta do calor, se bem me lembro.” Murmurei suavemente, como se não quisesse assustá-lo e fazê-lo fugir. Julian me encarou surpreso, mas depois assentiu timidamente. Ele tocou lentamente meu peito, parecendo hipnotizado.

“Sua cor também é bonita.” Ele admitiu baixinho. Minha pele era morena, e alguns diziam que eu já era mulato. Se eu pegasse muito sol, facilmente ficaria parecido com um afrodescendente. “É tão quente...”

“Você pode me lavar, se quiser.” Entreguei a ele minha esponja de banho. Hesitante, ele a pegou e passou sabonete nela. “Eu posso te lavar também?” Perguntei.

Julian me olhou chocado, e eu achei que havia ido longe demais, porém, após alguns segundos, ele assentiu também, parecendo-me deliciosamente acanhado. Eu peguei a esponja dele e o puxei cuidadosamente para baixo da água comigo. Ele ficou nervoso, trêmulo, ansioso, hesitante e amedrontado, um pouquinho de tudo.

“Meu psiquiatra diz que é bom eu me colocar em situações difíceis.” Ele comentou em um sussurro abafado pelo som do chuveiro. “No início, ele me dava pequenas tarefas, como tocar no chão e não correr para lavar as mãos.” Começou a explicar lentamente enquanto passava a esponja em meu peito, evitando olhar-me nos olhos. “Depois as tarefas foram se tornando mais difíceis. Mas hoje eu já consigo sentar na poltrona lá embaixo, comer sem limpar os talheres cinco vezes, tomar banho apenas uma ou duas vezes ao dia, não lavar as mãos até sangrá-las e não usar luvas... Melhorei bastante. Mas... Quando você chegou, era algo novo e eu fiquei assustado.”

“Por isso vasculhou minha mala e tentou limpar minhas coisas?”

“Tinha de checar se você não era algum porco.” Ele falou sincero, e eu ri.

“E passei pelo teste?” Perguntei, passando a esponja por suas costas com cuidado.

“Você é estranho... Mal nos conhecemos e estou embaixo do chuveiro com você.” Ele balançou a cabeça, parecendo não acreditar naquilo.

Eu não sentia a mesma perplexidade. Já havia feito muito mais coisas com pessoas com quem eu não havia trocado nem cinco palavras. Me sentia até mesmo confortável tomando banho ali com ele, enquanto tentava entendê-lo melhor.

“Um estranho limpo, eu espero.” Gracejei.

“Mas coisas mais íntimas...” Julian continuou, me ignorando. Seu olhar estava vidrado em meu abdômen. “Beijo. S-Sexo.” Disse com dificuldade. “Isso n-nunca...”

“Seu terapeuta te deu alguma tarefa quanto a isso?” Perguntei. Talvez fosse a explicação para ele ter aceitado ir para debaixo do chuveiro comigo. “Beijar alguém, talvez?”

“E-Ele disse para eu tentar não evitar... Se alguém quisesse se tornar mais íntimo. B-Beijos... Ele disse que poderia começar com selinhos.” Julian enfim ergueu o olhar para mim, seus olhos um pouco apertados devido à água. “M-Mas...”

Eu coloquei um dedo sob o queixo dele.

“Você quer que eu te beije?”

Julian não me respondeu, e eu tomei aquilo como um sim. Dei um passo à frente, colocando minha mão em seu rosto de maneira cuidadosa para não assustá-lo. Os cílios pequenos dele tremularam e ele segurou minha cintura, inclinando a cabeça para trás. Eu consegui sentir a fragilidade dele e quase pude imaginar a maneira como se deixaria envolver por meus braços quando eu aprofundasse aquele beijo, porém quando eu estava bem próximo de experimentar seus lábios finos, ele soltou uma exclamação baixinha e fugiu de mim, correndo para o quarto, mesmo molhado e coberto apenas por uma toalha que capturou no caminho.

Com certa decepção, eu terminei meu banho.

XxxX

“Estou exausto.” Falei, colocando meus braços por cima dos ombros de Fabian e encostando meu queixo no topo de sua cabeça. Ele estava sentado numa das cadeiras da cozinha, comendo o café da manhã preparado pela Sra. Stella. Ainda não havia amanhecido, mas eu e Fabian já tínhamos terminado nossos serviços.

Eu adorava quando o cliente da noite ia embora no meio da madrugada, e os que restavam já tinham seus acompanhantes.

“E morto de fome.” Estendi a mão para pegar um dos pãezinhos torrados à mesa. Levei-o à boca e o mastiguei soltando um suspiro deliciado. Quando terminei de comer, notei que Fabian estava mais quieto que o normal, com um ar ausente. “Fabian?” O chamei.

“Oi?” Ele pareceu acordar e virar o rosto para cima para me olhar. “Desculpe... Estava distraído.”

“Você anda bastante distraído ultimamente. Tem alguma coisa acontecendo? Algum problema no trabalho aqui ou na universidade?” Perguntei e me sentei na cadeira ao seu lado. Fabian mordeu o lábio e desviou o olhar, hesitante.

“Alguém da universidade... Descobriu que sou um prostituto.” Ele admitiu com a expressão angustiada.

Minhas sobrancelhas subiram.

“Quem?”

“Lance Harris, diretor do jornal.”

“Puta que pariu!” Exclamei, o que não ajudou muito. Fabian tapou o rosto com as mãos, constrangido e derrotado.

“Eu sou um idiota!” Ele exclamou com o rosto escondido. “Ele veio aqui na Casa e me escolheu. Eu nem sei dizer se foi premeditado! Mas eu não resisti. Nós bebemos juntos e ele tinha uma lábia... Ah, Deus! Eu desejei ir para o quarto com ele. E a noite foi tão intensa... Ele falou coisas que me fizeram baixar a guarda. Então eu cochilei e, quando acordei, ele não estava mais ali. Nem a minha máscara.” Fabian revelou tudo de maneira rápida, atropelando as palavras. Depois me olhou com os olhos azuis brilhando em desespero. “Desde então eu fico esperando que apareça algo no jornal a meu respeito. Não consigo mais dormir direito.”

Eu reparei que havia olheiras sob seus olhos, um pouco disfarçadas por maquiagem.

“Se meus irmãos descobrem...” Ele murmurou, apoiando um cotovelo à mesa e descansando a testa contra a mão. “Eles... Eles sentiriam nojo de mim?”

“Seus irmãos te amam, Fabian.” Falei colocando minha mão em seu ombro e o apertando de leve. “E se o Lance não publicou nada até agora, pode ser que não publique mais... O único problema é que ele sabe um segredo seu.” Eu esperei que Fabian me olhasse, pois eu estava sorrindo um pouco enigmático. “O melhor a se fazer é conseguir um segredo dele também.”

Os lábios de Fabian entreabriram lentamente.

XxxX

Tomando um café, eu caminhei até uma área arborizada da Ketteridge e pude ouvir o som de uma flauta, ou eu achava que era uma flauta. Segui em direção à música, atraído por ela. Quem estava tocando aquela flauta sabia muito bem o que estava fazendo. Se eu não estava errado, era um cover de Demons, da banda Imagine Dragons.

Eu acabei topando com um muro largo, de altura mediana. Olhando para cima, vi que quem tocava estava deitado no muro, tocando para si mesmo.

“Então é aqui que você costuma matar aulas, Tristan?” Eu perguntei alto para ser escutado.

Tristan afastou a flauta da boca e se virou um pouco para olhar para baixo.

“Isso depende do dia.” Ele respondeu, abrindo um sorriso. “Você parece um morto-vivo.”

Eu tirei um cigarro de maconha do bolso e me encostei ao muro, acendendo o isqueiro. Não era sempre que eu fumava, apenas quando me sentia um lixo como naquele momento. Noites mal dormidas fodiam a saúde de qualquer forma, o que era uma maconhazinha para manter o bem estar?

“Não tive uma das noites mais tranquilas.” Falei antes de tragar um pouco. Ergui o cigarro para o alto. “Quer um pouco?”

“Há uns três anos, eu aceitaria sua oferta.” Ele falou e se sentou no muro, deixando as pernas penderem para o lado em que eu estava. Levou novamente a flauta à boca e recomeçou a tocar, não me dando tempo de perguntar o que havia acontecido há três anos.

Dessa vez, não reconheci a música, mas era bonita e transmitia uma boa vibração. Eu ergui minha mão e, com o cigarro na boca, balancei meu braço, fingindo que guiava uma orquestra.

“Espere! Essa é aquela música daquela bandinha famosa... One Direction?” Perguntei, reconhecendo-a em um rompante.

Tristan parou de tocar e riu despreocupadamente.

“Não me julgue. Minha irmã adora essa banda e pediu que eu tocasse uma música deles no aniversário dela. É semana que vem... E eu venho praticando.” Ele deu de ombros. “É uma boa música até... Story of my Life. Meio que combina com meu estado de espírito atual.”

“É... Você é um bom irmão. Quantos anos ela tem?” Perguntei, já sentindo minha cabeça mais leve pela droga.

“Quatorze. É uma gracinha. Ela sempre reclama se fico mais de uma semana sem visitá-la.” Tristan falou, soando bastante como um irmão mais velho protetor e carinhoso. “Então... Onde você passou a noite?”

“Me conte por que está em um estado de espírito depressivo e então conversamos.” Sugeri, sorrindo de lado. “Recebeu um fora de alguma das várias garotas que os boatos contam que leva para a cama?”

“Que insensível.” Tristan riu, mas sua risada não foi tão espontânea quanto a anterior. “Mas... Pode-se dizer que sim.” Ele admitiu e, com a flauta, reproduziu o som típico de derrota. “E você? A noite não foi boa com você...? Não foi a primeira vez que dormiu fora do dormitório. Estarei conversando com o novo Don Juan da Ketteridge?”

Foi minha vez de soltar uma risadinha.

“Preocupado?” Provoquei.

“Nah... Eu gosto de desafios.” Ele rebateu com certa malícia na voz.

“Somos dois, então.” Esclareci. “Mas a garota que eu amava mais que a mim mesmo está morta... Há cinco anos. Assassinada.” Falei num rompante, quebrando completamente o clima ameno. Talvez fosse efeito da maconha, mas meus sentimentos pareceram transbordar pelo peito, machucando. Já fazia tanto tempo e, ainda assim, doía. “Nunca soube o que aconteceu exatamente com ela.”

“Isso é horrível. Me desculpe.” Tristan lamentou, parecendo sentir-se mal por ter nos conduzido àquele assunto. Mas eu que havia lhe perguntado sobre sua suposta decepção amorosa.

“Não se preocupe. Agora, é somente uma doce memória.” Eu sorri e ri sem motivo. “Mas acredite. É melhor receber um fora e saber que quem você gosta está vivo e bem, do que...” Eu não completei aquela frase. Meu Deus, o que diabos eu estava falando? Eu ri novamente. “Desculpe... Acho que esse foi o pior tipo de consolo que eu já dei na minha vida.”

“Não... Está tudo bem.” Tristan então pulou do muro com a facilidade de um gato. “Qualquer hora você vai conhecer outra pessoa que vai abalar seu mundo novamente.” Ele deu um tapinha em meu ombro.

“É, você provavelmente está certo.” Dei de ombros.

“Quanto a mim... Já estou acostumado a levar foras de pessoas que gosto. Vou ficar bem, como você disse, foi apenas um fora, não uma tragédia.” Ele falou mais relaxado e olhou para mim. “É melhor eu ir... Ou vou acabar não resistindo a usar um pouco.” Ele se referia à maconha. “E Lance me mata se descobre sobre isso.” Ele riu como se achasse isso ridículo.

Minhas orelhas pareceram subir como as de um cachorro quando escuta um barulho suspeito.

“Lance Harris?”

“Ah sim... Somos amigos de longa data. Ele é um filho da puta que se acha responsável, e pensa que eu devo ser responsável também. É como um irmão mais velho chato e hipócrita, já que o desgraçado adorar puxar um traguinho.” Tristan piscou e começou a se afastar, despedindo-se por cima do ombro. “Vejo você mais tarde.”

Eu fiquei em silêncio observando-o se afastar. Lentamente, uma risada nasceu no fundo do meu estômago e explodiu em minha garganta. Tristan era a forma perfeita de descobrir algum segredo podre de Lance e, assim, ajudar o Fabian.

Notas finais
https://www.youtube.com/watch?v=TgSoH9ox1hc - Demons, flauta. https://www.youtube.com/watch?v=VCoBUjp0fTc - Story of my Life, flauta. https://www.youtube.com/watch?v=wJpCFIUG0sQ - Som típico da derrota KKK! Obrigada a todos que continuam acompanhando e comentando, isso é muito importante para mim! Obrigada ao Incon, Dragomir, Rafael, Hinamore, Jeeh, Tsukasa, Naiara, Mila Scorpius, Cut, Laylin, Ruth, Lucy por terem comentado e incentivado! Beijos, até o próximo!!!