Oliver

[...]

As ruas já estavam silenciosas àquela hora da noite.

“Vamos naquele jogo de basquete amanhã?” Jenson perguntou quando saíamos do treino de luta sexta de noite.

Apenas dois idiotas viciados gastariam um sexta treinando até tarde. Ainda mais porque eu estava exausto pela semana corrida, com treinos e provas finais. Era fim do terceiro ano, fim do nosso tempo no colégio e eu aguardava ansioso pela carta de aprovação da Ketteridge, assim como Jenson. Essa espera garantia noites mal-dormidas, refeições mal-feitas e uma ansiedade filha da puta, mas nós termos vencido as várias provas daquela semana exigia uma comemoração.

Eu sabia que Jenson sempre realizava algumas festinhas na casa dele durante dos jogos de basquete da temporada. Já havia participado de muitas delas e era a oportunidade perfeita para celebrar, torcer e beber até cair morto após xingar todos os professores insuportáveis que havíamos aguentado por três malditos anos de ensino médio. Perdi a conta de quantos já senti uma vontade absurda de socar. Ou apenas de bater a cabeça contra o quadro negro.

“Tudo bem. Meus pais queriam comemorar amanhã a vitória do Chris no campeonato internacional de física e matemática, mas eu irei passar essa festinha deles.” Falei com ironia, revirando os olhos. Não era como se eu quisesse passar meu final de semana ouvindo todos babarem elogios em cima do meu irmão. “Até amanhã.”

“Perfeito. Eu te ligo pra dar os detalhes. Até, Oliver.” Jenson abanou e nós nos separamos, seguindo por caminhos opostos.

Fechei o zíper de minha jaqueta e coloquei as mãos no bolso, abaixando um pouco a cabeça e avançando pela rua. Estava frio e silencioso, e eu queria chegar logo à minha casa. Eu não me importava de caminhar trinta minutos para chegar até onde vivia com a minha família em uma sexta à noite, quando aquela parte central da cidade estava menos movimentada. Eu sabia me virar, e quem tentasse me assaltar levaria um belo chute nas vísceras.

Depois de uns quinze minutos caminhando, escutei um grito feminino, seguido de um pedido de socorro desesperado. A região estava mesmo bastante deserta, com alguns carros eventuais avançando rápido pela rua, mas eu não pensei duas vezes antes de correr em direção ao chamado. Dobrei duas esquinas até chegar próximo de um beco, onde um homem tentava agarrar à força uma garota.

Meu sangue ferveu de raiva com a cena e, apertando os punhos, eu caminhei rápido até os dois.

Quando puxei aquela escória de homem pelo ombro, quebrei-lhe a mandíbula com um soco rápido que o derrubou. Pude sentir o osso se partindo no mesmo instante em que meu punho latejava dolorosamente com o choque, mas, ao vê-lo caído no chão gemendo e sangrando profusamente pelas narinas, tive certeza de que a dor dele era mil vezes pior que a minha. Aproveitei e o chutei na barriga quando ainda estava no chão e depois o chutei no rosto, para terminar de quebrar aquele nariz nojento.

Senti um prazer mórbido ao vê-lo gemer e choramingar, implorando que eu parasse, enquanto a garota ao meu lado pegava o celular e chamava pela polícia. Minha vontade era continuar dando porrada no maldito. Ele não parecia nenhum mendigo, pelo contrário, era somente mais um filhinho de papai, bêbado, que provavelmente havia saído de alguma festa no centro da cidade, e achara-se no direito de assaltar e tentar abusar de uma garota indefesa. Escórias mereciam lições que não se esqueceriam pelo resto da vida.

“Eu estava apenas brincando.” Ele falou aos gemidos, o sangue em sua boca dificultando a articulação das palavras, assim como a mandíbula quebrada.

“Que coincidência. Eu também estou apenas brincando.” Falei ao dar-lhe outro chute, agora nas costelas. Ele se encolheu e choramingou mais. Não merecia perdão.

E eu o teria machucado mais, porém a garota segurou o meu braço, impedindo-me de avançar para outro chute.

“Não... Eu já chamei a polícia.” Ela murmurou, abalada. Era uma garota de cabelos castanhos e olhos azuis, pequena e bonita, sem maquiagem no rosto, sem exageros nas roupas. Havia rastros de lágrimas em seu rosto. “Obrigada por me salvar. Eu jamais me esquecerei disso.” Ela afirmou com a voz falha e poucos segundos depois um carro de polícia parou na rua.

Eles imediatamente pegaram o homem no chão, pediram por explicações, e logo pessoas brotaram na rua, atraídas pelo som das sirenes. Ninguém havia escutado a moça gritar antes, é claro – bando de covardes estúpidos. Eu dei meu parecer a um dos polícias, enquanto olhava para a garota atrás dele, conversando um pouco distante com outro policial. Um garoto loiro e muito alto apareceu naquele momento. Ele a abraçou apertado e eles trocaram algumas palavras.

Ela apontou para mim em meio à conversa, e o garoto virou o rosto em minha direção, seus olhos azuis cheios de gratidão. Ele caminhou até onde eu estava, interrompendo sem nem perceber, ou então sem realmente se importar com o relato que eu dava ao policial, e me abraçou apertado, praticamente imobilizando-me.

Arregalei os olhos.

“Você salvou minha namorada.” Ele revelou, agradecido. “Muito obrigado. Eu nem tenho como te agradecer! Eu e ela tivemos uma briga boba... Ela fugiu do pub onde estávamos e eu a procurei por todos os cantos, mas não a achava, somos novos nessa cidade e nos perdemos... Se você não tivesse aparecido, e-la... E-ela teria... Eu nunca me perdoaria.”

Eu percebi com verdadeiro espanto, preso em meio àquele abraço – que eu não retribuía – que aquele garoto enorme chorava contra meu ombro.

“Não foi nada.” Eu murmurei sem-jeito, com alguns tapinhas em seu ombro. “Ela está bem, é o que importa, ok? Não chore.” Nem sua namorada está chorando, caralho! Eu quase soltei essa, mas segurei minha grosseria gratuita. Homens chorando me lembravam de Christian, e eu havia desenvolvido uma raiva e irritação instintivas por lágrimas masculinas.

“Como posso te recompensar por isso?” Ele perguntou ao se afastar, deixando meu ombro molhado.

“Não precisa disso. Eu fiz o que qualquer pessoa decente faria. Nenhuma garota merece aquilo que sua namorada quase sofreu.” Eu evitei usar a palavra estupro, pois não queria fazê-lo chorar novamente. “Olha, eu me chamo Oliver.” Falei, prevendo que ele iria me perguntar.

“Sou Robert. E sou eternamente grato a você, Oliver.” Ele me abraçou novamente, dessa vez ainda mais apertado, para meu desespero. Esse cara tinha óbvia mania de abraçar desconhecidos, e o pior era que ele era grandão e musculoso, e eu me sentia uma criança abraçada por um adulto de braços enormes. Era uma sensação bastante desagradável e eu já estava quase o mandando se afastar, mas ele me soltou antes disso e retornou para junto da namorada, após olhar-me novamente com gratidão.

Naquela noite, apesar dos dois abraços apertados de um marmanjo chorão, eu voltei para casa feliz e satisfeito por ter ajudado alguém, e ainda mais satisfeito por minha ajuda ter sido realmente reconhecida. Diferentemente do que acontecia com meus pais, Robert havia me agradecido por ajudar quem ele amava.

E, porra, eu tinha quase certeza que havia fraturado algum ossinho da mão, porque ela continuou doendo pra cacete durante toda a noite.

[...]

Era fora do horário de treinos e somente por isso eu estava ali, com minha sunga, toca e óculos de natação, sentado à borda da piscina. Se Trace me visse, ele iria me enxotar dali e mandar que eu fosse descansar. Minhas costelas, pelas palavras médicas, poderiam demorar cerca de quatro semanas para curar completamente. Eu deveria evitar esforços físicos e realizar apenas exercícios respiratórios. Mas eu não pretendia nadar a valer, queria apenas sentir a água em meu corpo, por isso entrei cuidadosamente na gigantesca piscina de treinos, já me sentindo mais relaxado quando a água envolveu meu corpo.

Comecei a boiar de costas, batendo eventualmente os pés para aos poucos afastar-me da borda. Meus pensamentos estavam longe. Minha semana havia sido uma merda sem poder treinar, nadar e extrapolar. Resumindo, sem poder fazer porra nenhuma além de me preocupar com o irritante do Christian. O que eu ganhava por me ferrar por ele? Ouvir dos meus pais que eu era um péssimo irmão, um exemplo a não ser seguido. Eu não sei por que diabos eu ainda me deixava afetar por isso, já que era o mesmo discurso desde que eu podia me lembrar.

Oliver, você é muito irresponsável! Oliver, você só arruma encrencas no colégio! Oliver, de novo você quebrou as coisas em casa?! Oliver, por que não cuida mais do seu irmão? Oliver, eu esperava melhores notas, seu irmão gabaritou a prova de cálculo avançado essa semana! Oliver, por que você briga com seu irmão dessa forma?! Ele é um anjinho! Oliver, Oliver, Oliver!

E Christian estava sempre lá, ou abaixando a cabeça, ou segurando lágrimas e aceitando absolutamente tudo que nossos pais diziam. Até mesmo ao acusarem-no de ser gay ele foi capaz de permanecer quieto! E isso que era ele... Eu gostaria de saber o que eles falariam se soubessem que eu transava, eventualmente, com um garoto de má reputação nas Belas Artes. Provavelmente me acusariam de influenciar negativamente meu irmão e induzi-lo à homossexualidade.

Fechei os olhos e me deixei levar, desejando apenas ficar ali por algum tempo, flutuando na solidão acalentadora da água. Mas minha tranquilidade durou muito menos do que eu previa.

“Oliver?”

Eu me aprumei rapidamente, ficando de pé e olhando em direção ao chamado.

“O que você está fazendo aqui?” Eu perguntei em um tom já defensivo, marcando a frustração de ter meu momento interrompido. E justamente por ele!

“Eu perdi o treino de hoje, e Trace mandou que eu viesse mais tarde e... Espera, não importa por que eu estou aqui e sim que você está aqui, quando deveria estar descansando! Sua costela-“

“Ah, que inferno, Bobby!” Eu exclamei, impedindo-o de continuar. “Eu só queria ficar sozinho...! Minha semana foi um saco sem poder me mexer, ok?” Comecei a me afastar o mais rápido que eu podia, tentando chegar até a borda da piscina.

“Não era ‘não se mexer’, mas ‘não poder fazer esforços’... Só estou preocupado com você, Olie.” Ele falou, alcançando-me e me encurralando contra a borda da piscina. Não era uma atitude agressiva ou dominadora, mas ansiosa e carente, percebi por seus ombros caídos e pela expressão típica. Era incrível o quanto isso me aborrecia, justamente por ser quase impossível continuar irritado frente ao jeito de cachorrinho com o rabo entre as pernas dele.

Até seu apelido lembrava o de um cachorro – Bobby.

“Bem, eu não preciso da sua preocupação.” Resmunguei, desviando o olhar. “Eu evitei esforços, se quer tanto saber.”

“Você não parece bem. E não me refiro só aos roxos que não sumiram por completo ainda.” Ele falou, desarmando-me. Meus olhos se arregalaram de leve. “É algo a ver com seus pais?”

“I-Isso... Isso não interessa.” Eu balancei a cabeça e o encarei. Seus cabelos loiros estavam escurecidos pela água, e as bochechas avermelhadas pelo esforço. Havia certos momentos em que Bobby parecia mais sério do que um vira-lata, e esse era um desses momentos. Seus olhos não se desviaram de meu rosto, como se me escrutinassem, e isso gerava calafrios na boca de meu estômago.

“Costumava interessar. Até um tempo atrás, você confiava em mim.” Bobby lembrou, e ele não estava falando nenhuma merda, mas eu preferia que ele não insistisse nesse assunto. Que não insistisse em mim. “Foi algo que eu fiz? Algo que eu fiz te machucou pra você se afastar de mim dessa maneira?”

“Bobby...” Murmurei, levando minha mão aos meus cabelos e tentando pensar em alguma coisa. Minha mente estúpida parecia ter entrado em pane e de repente tudo que eu queria eram justamente os consolos dele. Desse garoto bobo, enorme e loiro que lembrava um cachorro vira-lata, ou uma criança crescida na maior parte do tempo.

“Porque se foi, eu peço desculpas, Olie. Você sabe que eu nunca faria nada pra te magoar. Eu me importo tanto com você e-“

“Não!” Eu exclamei, empurrando-o. “É sério, eu não preciso escutar isso de você. As pessoas simplesmente se afastam, ok? Eu nunca fui de muitos amigos. Jenson foi meu único amigo por boa parte da minha vida e nem com ele eu me abria tanto! Mas você simplesmente se meteu na minha vida desde que nos reencontramos na Ketteridge! Eu nunca quis isso, está bem? Eu não sei lidar com isso. Eu não sei lidar com você!” Exclamei e tentei me virar para sair da piscina, mas quando fui me erguer, senti uma fisgada dolorosa intensa na região das minhas costelas fraturadas.

Falhei em sair da piscina e coloquei a mão sobre a região, sentindo-me nauseado pela dor.

“Porra... Mas que porra.” Murmurei, irritado.

“Oliver...” Ele tocou em meu ombro. “Desculpe... Eu achei... Eu estava tão grato a você... Mas eu achei que realmente tínhamos virado amigos. Desculpe se forcei a barra.” Ele falava verdadeiramente arrependido, seu tom de voz dizia-me isso. O quão tapado você consegue ser, Bobby? Eu pensava enquanto me virava de volta para ele, sem nem saber muito bem por que, porém era aquela angústia irrefreável de querer ver o rosto dele. “Mas eu quero que saiba, ainda estou aqui se precisar de mim. Pra qualquer coisa: cuidar de um machucado, fazer dupla na natação, ou ouvir seus problemas-“

E eu o beijei.

Puta que pariu. Eu o beijei!

Eu me afastei com os olhos arregalados, encontrando os dele no mesmo estado de surpresa. Minha mão ainda estava no rosto dele, e eu a afastei rapidamente de volta para mim. Minha respiração acelerou dolorosamente, enquanto eu me condenava internamente pela minha impulsividade. Eu sempre havia sido impulsivo para atitudes agressivas, mas não para esse tipo de coisa. Bobby apenas continuou olhando-me, meio boquiaberto, com uma expressão boboca.

Ignorei toda e qualquer dor e saí daquela piscina, gritando em minha mente: você é mais imbecil e retardado do que todos os caras que já xingou na vida! Minha dor na costela pareceu aumentar, como uma punição pelo que eu havia feito. Depois de meses tentando afastar Bobby, tratando-o mal, eu cometia um deslize desses. O que diabos eu tinha na cabeça? Merda?

Bobby namorava a mesma garota desde a adolescência. Candice também estava na Katteridge e os dois tinham planos de se casar quando terminassem a faculdade e começassem a morar juntos. Eram amigos de infância, ambos nascidos em uma cidade interiorana. Ela era a garota que eu havia salvado de um estuprador, e a única razão pela qual Bobby insistiu em ser meu amigo quando me viu novamente, no clube de natação. Era idiotice beijá-lo.

Era burrice estar apaixonado por ele.

“Que merda, que merda, que merda. Por que você tem que ser tão idiota?” Eu murmurei já no vestiário, tentando me secar e vestir o mais rápido possível. Eu não sabia se me referia a mim mesmo, ou ao Bobby. Ele não deveria aparecer todo prestativo em um momento em que eu encontrava-me vulnerável e chateado. Era culpa dele. Culpa dele por sempre me perseguir dessa maneira como um vira-lata fiel. “Cachorro, cachorro, cachorro...” O xinguei pelo simples alívio e conforto que isso gerava. Eu não queria nunca mais olhar na cara dele, não queria que ele me olhasse com algum olhar de pena por não poder corresponder aos meus sentimentos. “Eu não te amo.” Afirmei, para mim mesmo.

“Oh... Ok.”

Eu me virei para a porta e não pude deixar de pensar no quanto a última semana vinha sendo uma comédia de erros, ao ver Bobby parado na entrada do vestiário. Eu suspirei e apenas terminei de colocar minha camiseta e casaco, evitando olhá-lo. Era extremamente constrangedor olhar para a cara dele depois do que eu havia feito, e eu nem queria imaginar o que ele estaria pensando naquele momento.

“Olie-“

“Não me chame de Olie. Eu nunca gostei desse apelido, parece nome de poodle.” Eu resmunguei contrafeito, e ele riu brevemente. Ele costumava rir dos meus resmungos e reclamações, dizendo que no fundo eu ficava engraçado quando estava com raiva da vida e de todos os seres humanos. Isso geralmente fazia com que minha irritação esmorecesse.

Não hoje.

Bobby pigarreou.

“Talvez devêssemos... Conversar sobre isso?” Ele sugeriu, inseguro.

“Conversar sobre o quê?” Eu o olhei com a minha melhor cara de paisagem, fazendo-me de sonso ao erguer uma sobrancelha e colocar minha mochila nas costas. “Não tenho nada para conversar. Pelo contrário, a última coisa de que preciso é de alguma conversa sem sentido. Volte para a Candice, ultimamente você tem dedicado pouco tempo a ela, não é?” Eu avancei para a saída, o que infelizmente me aproximava dele.

Bobby deu um passo para o lado, bloqueando a porta e impedindo-me de sair dali. Nós nos encaramos. Ele continuava com a expressão indecisa e confusa, chegou a abrir a boca, mas voltou a fechá-la. Eu bufei.

“Se não me deixar sair daqui, eu juro que consigo te obrigar a isso, mesmo com duas costelas fraturadas.” Vociferei. Minha vontade era mesmo socá-lo, mas, no lugar de obedecer, Bobby puxou-me e me abraçou, praticamente me sufocando e, claro, estrategicamente imobilizando-me. Ele certamente não queria um soco nas fuças, só não sei se para se proteger, ou para evitar que eu piorasse minhas fraturas com algum movimento brusco.

“Me desculpe.” Ele sussurrou, apoiando o queixo no topo da minha cabeça. “E-Eu... Eu estou sem saber o que dizer! Você é meu melhor amigo na Ketteridge, mesmo que você não concorde com isso... Eu sei que forcei uma amizade, no início, mas depois que nos aproximamos você se tornou quase um vício na minha vida, uma constante. Eu juro que se eu fosse gay e estivesse solteiro-“

“Bobby!” Eu gritei. “Cala a porra da boca! Meu Deus, você é tão idiota!” Eu tentei me debater, mas esse era um dos meus pontos fracos. Numa briga, eu precisava ser ágil e rápido, derrubando o adversário antes que me segurassem. Eu era forte, mas não tanto quanto um cara musculoso como Bobby. Nos braços dele, todas as minhas habilidades de luta tornavam-se obsoletas.

Derrotado, eu apoiei minha testa no peito dele.

“Você simplesmente...” Suspirei. “Me tira do sério.” Um bolo se formou em minha garganta.

Isso era tão fodido.

Eu dei uma joelhada nos testículos de Bobby. Ele me soltou e caiu de joelhos, gemendo de dor, o que fez eu me sentir bastante mal sobre mim mesmo. Foi algo pavorosamente impulsivo e exagerado, mas eu não iria me desculpar. Ele não deveria ter aparecido no vestiário e nem falado nada daquilo, para começar.

“Como eu disse, não estou apaixonado por você. Até admito, você me fez descobrir que sou bissexual.” Eu falei, conseguindo adquirir um tom mais confiante enquanto ele me olhava ajoelhado no chão. “Teve uma época que eu senti tesão por você, mas já passou, entendeu? Encontrei outra pessoa. Aquele beijo foi apenas... Curiosidade de como seria.” Dei de ombros, internamente queimando de vergonha pelo que eu dizia. “E não foi nada demais. Então, se quer tanto, podemos continuar como amigos. Aliás, eu nem estava agindo diferente, você é quem está imaginando coisas.”

Bobby não disse nada, apenas parecia ainda mais perdido e perplexo do que após o beijo roubado. Eu saí logo dali, antes que ele resolvesse me abraçar de novo, ou talvez retribuir a joelhada. Aquilo tudo havia sido muito estranho e bizarro. Meu coração batia frenético enquanto eu avançava pelos caminhos escurecidos da Ketteridge. Meus pés não me levaram para meu dormitório, entretanto. Acabei num dos prédios das Belas Artes, numa sala com sofás, uma mesa de professor, estantes, piano e alguns instrumentos.

Desabei num dos sofás, mas me arrependi ao sentir minhas costelas reclamarem.

“Droga...” Eu peguei minha mochila e tirei dela um analgésico. Engoli-o e depois peguei meu celular.

Mandei uma mensagem: Se puder, me encontre na sala de sempre. E depois deitei minha cabeça para trás, no encosto do sofá, olhando para o teto. Minha cabeça parecia latejar e minha vontade era sumir. Eu havia agido como um louco – beijei Bobby, depois lhe dei uma ajoelhada e então falei um monte de asneiras. Mas era melhor que ele acreditasse no que havia escutado.

Eu me perguntava como seriam as coisas a partir de agora, entre nós dois.

Um tempo depois, alguém entrou na sala, fechando à porta e a chaveando. Eu havia aberto as janelas, então não me importei de continuar fumando o cigarro que havia acendido. Olhei para Tristan, que se aproximou até sentar-se no sofá à minha frente. Ele estava com os dreadlocks amarrados naquele dia, o que o deixava com um ar de moleque.

“Está menos chateado comigo?” Ele perguntou.

Eu e Tristan havíamos tido um desentendimento depois da notícia de jornal sobre Christian. Ele era o melhor amigo de Lance e isso me deixou puto da cara com ele também. Mas Tristan garantiu que não sabia de nada e era contra o que Lance havia feito. Foi nesse dia que ele me contou que Lance tinha planos de incluir Christian na Sigma, mas que ele iria se certificar de proteger e integrar meu irmão na fraternidade.

Dei uma longa tragada antes de responder.

“Você já disse que não teve parte naquilo. Você e Lance são amigos desde pequenos... Seria idiotice querer o fim da amizade entre vocês, só porque estamos fodendo.” Falei, enrouquecido pelo efeito do cigarro. “Você e ele conversaram?”

“Lance me garantiu que protegerá Christian no que for preciso, depois que ele entrar na Sigma. Eu mesmo manterei um olho no seu irmão, não tem por que se preocupar. Nossa fraternidade é muito unida, assim como é a Magna.” Tristan falou e, inesperadamente, confiei plenamente nele. Não em Lance, nunca confiaria nesse filho da puta, mas eu me sentia mais confortável em saber que meu irmão estava numa fraternidade e que teria alguém para interceder por ele, se necessário.

Puxei longamente o ar, fechando os olhos.

“O que aconteceu? Certamente não me chamou aqui a essa hora da noite para falar do seu irmão...” Tristan falou, perceptivo como era. O que às vezes era um porre.

Abri os olhos e mirei o teto por alguns segundos.

“Eu o beijei.” Contei, nem sei bem o porquê, para justamente o cara que me comia sempre que eu precisava tirar Bobby de minha cabeça. Era tão irônico que eu poderia gargalhar, mas não queria que Tristan me achasse louco, ou afetado demais pelo episódio.

Tristan suspirou e se acomodou no sofá, olhando-me atentamente.

“E ele?”

“Ele não é gay e tem uma namorada. Preciso dizer mais?” Apaguei o cigarro, largando-o no cinzeiro sobre a pequena mesa e me levantando. Caminhei até a janela e peguei outro cigarro do bolso, mas Tristan parou ao meu lado e me impediu de tragar após acendê-lo.

“Você não costuma fumar tanto.” Tristan me lembrou.

“Hoje não é um dia exatamente normal. Hei!” Ele arrancou o cigarro da minha mão e eu tentei pegar de volta, pulando que nem um coelho. Não deu muito certo, tive de olhar para Tristan fumando meu cigarro. “Você também não deveria fazer isso, ou devo lembrá-lo da sua própria doença?”

Tristan torceu os lábios. Eu havia tocado no ponto mais fraco dele.

“Foda-se isso.” Ele caminhou até a mesa de professores e ali se sentou, dobrando uma perna e colocando um braço sobre o joelho. “Mesmo um doente tem direito a certas liberdades, vez ou outra.” Ele tragou sedutoramente, soltando a fumaça. Não, isso não era certo. Eu o conhecia pouco, mas sabia que ele zelava muito pela própria saúde.

Fui até ele e arranquei o cigarro de sua mão.

“Deixa de ser estúpido. De idiota nessa sala, já basta eu.”

“Deixa eu ter você, então, no lugar do cigarro. É uma troca que me convence a parar de fumar, beber, até dormir... Podemos passar a noite toda aqui. Se quiser, posso até dançar ou tocar para você.” Ele sorriu lado, de uma forma um tanto felina, ou predatória. Eu o imaginei roncando no sofá da sala de música logo após o sexo, falador como era.

“Ok.” Eu traguei mais um pouco do cigarro, aproximando-me dele. Virei o rosto para não soltar a fumaça na cara de Tristan, e depois apaguei o cigarro sobre a mesa. Ficou uma marca, e imaginei alguém surtando por causa disso. A mesa parecia cara, como quase tudo naquela saleta. “Quer... Me ajudar a esquecer essa porcaria de dia?”

Tristan sorriu um pouco malicioso – era claro que ele queria, por qual outro motivo eu o teria chamado, e por que outro motivo ele teria vindo até ali? As mãos dele seguraram minha cintura, apertando de leve. Meu corpo reagiu facilmente, acostumado aos toques dele. Ele se sentou melhor e me puxou para entre suas pernas; nossos olhos se encontraram, mudos.

“Eu disse para você... Você precisa esquecer esse cara.” Ele murmurou e capturou meus lábios num beijo sensual, deslizando as mãos por minhas costas até meus ombros e me livrando do casaco fino que eu usava. Eu segurei seu rosto, sentindo a maciez da pele sem barba enquanto a língua dele afundava-se na minha boca bem lentamente. Aquilo era bom e inebriante.

Tristan era bom e inebriante – desde sua música, até seus beijos e saliva. Seria mais fácil gostar de um cara como ele. Ao menos, eu teria algo para me satisfazer. Às vezes, tudo de que precisamos é disso. E eu precisava disso mais do que nunca. Eu poderia eu mesmo foder Tristan naquela noite, pelo tanto que eu precisava extravasar, mas minhas fraturas impediriam isso, então eu deixei que ele erguesse meus braços após puxar para cima a barra de minha camisa, e suspirei quando seus lábios roçaram em meu pescoço, provocando-me um arrepio leve.

Com facilidade, soltei seus dreads da fita que os prendia, sentindo a leve aspereza de seus cabelos em minhas mãos.

“Você está com cheiro de cloro... E gosto de cigarros.” Ele falou, enlaçando-me a cintura com um braço, enquanto a outra mão segurava minha nuca. “Combina com você.” Retrucou antes que alguma grosseria me escapasse.

Ainda me segurando, Tristan se levantou e me pegou no colo, pelas nádegas, levando-me para o sofá. Eu odiava quando ele fazia isso, mas nessa noite não me importei. Ele me deitou no sofá e se afastou apenas para tirar a própria camiseta, revelando seu torso esbelto e definido. Quando ele se deitou sobre mim, nossas peles friccionaram de maneira quente, e eu abri as pernas para deixar ele se acomodar ali. Achei que nos beijaríamos, terminaríamos de retirar as roupas e partiríamos para o grand finale. Geralmente eu não tinha paciência para as preliminares, em parte por que, apesar de tudo, eu não me sentia tão íntimo de Tristan, e em parte porque eu buscava por um alívio rápido e impessoal na maioria das vezes.

Mas Tristan passou a distribuir beijos por meu queixo, garganta e pescoço, enquanto suas mãos exploravam minhas coxas, nádegas e cintura, apertando e acariciando alternadamente. Eu observei um pouco confuso sua boca dedicar-se a beijar e lamber meu peito, meus mamilos e minha barriga. Contraí meus músculos, sentindo minha respiração se agitar. O que o imbecil estava planejando? Uma parte de mim queria afastá-lo, a outra estava abatida demais para impedi-lo.

A mão dele acariciou minha coxa e subiu vagarosamente, até chegar à minha ereção, apertando-a também. Eu gemi e olhei para o teto, desviando o olhar do dele quando ele ergueu os olhos para meu rosto. Seu olhar de duas cores, âmbar e safira, sempre me deixavam desconfortável quando me encaravam daquela maneira desejosa. Com o rosto pegando fogo, eu me segurei ao sofá quando ele abriu minha calça e, após uma mordida em minha coxa, chupou meu pênis sobre a cueca.

“O que você tem hoje?” Eu perguntei, segurando-o por um dos dreads e o olhando-o. Tristan me encarou por um segundo, mas não respondeu, voltando a beijar-me agora no ventre. Fisgadas percorreram minhas entranhas, deixando ansioso enquanto fechava os olhos e exalava o ar. Minha cueca também desceu e o calor úmido da boca dele envolveu meu membro, lançando prazer por meus músculos tensos.

Ele chupou tão forte que ergui o quadril querendo mais, apertando com mais força seus cabelos. O filho da mãe era bom naquilo, eu podia ter certeza, pois já me envolvi com uma boa quantidade de garotas desde meus quinze anos. Apesar de minha aparência andrógina, que eu detesto, por sinal, nunca tive problemas em relação a isso, talvez pela confiança gerada pelas minhas habilidades marciais. Mas não era momento para ficar pensando em mulheres, não quando um cara estava me chupando de uma maneira enlouquecedoramente imprópria.

“Porra...!” Murmurei em dado momento, dobrando as pernas.

Tristan então se afastou e puxou o que restava das minhas roupas inferiores, deixando-me despido sobre o sofá. Depois tirou do bolso uma camisinha, levando-me a acreditar que as preliminares acabariam ali; porém ele a colocou nos dedos, não no pênis, e voltou a me chupar.

“Fique parado.” Ele murmurou, e sua respiração provocou a glande de meu membro enrijecido. Eu me segurei novamente ao sofá quando ele empurrou minhas coxas para cima, segurando-as com um braço contra meu abdômen.

“Tristan...” Eu chamei realmente desconfortável com aquilo. De novo ele não me respondeu ou parou, apenas continuou e seus dedos protegidos pela camisinha insinuaram-se entre minhas nádegas. Com a lubrificação da camisinha a penetração ocorreu com facilidade, deixando seus dedos alcançarem minha próstata e a tocarem com uma precisão cirúrgica. “Filho da puta...!” Eu gemi e soltei o primeiro xingamento em minha cabeça, mas meus olhos reviraram e eu esqueci toda a merda que eu vinha ruminando desde o beijo na piscina.

Era tudo de que eu precisava – mais do que um cigarro, uma chupada ou um orgasmo rápido.

Ele continuou até que eu estivesse prestes a ejacular, mas, com um movimento mais brusco, eu senti minhas costelas reclamarem. O gemido seguinte foi de dor e eu xinguei, o que atraiu a atenção de Tristan. Ele parou e se inclinou sobre mim, percebendo que eu segurava a região ainda arroxeada. Com cuidado, Tristan roçou lentamente os dedos sobre o roxo, olhando com compreensão para o machucado.

“Serei gentil.” Ele sussurrou, deixando-me vermelho.

“Cale a boca. Eu não preciso de gentilezas por causa de um machucadinho...” Devolvi.

“Serei gentil mesmo assim. Eu não quero te machucar.” Ele afagou meu rosto e voltou a me beijar, deitando sobre mim cuidando para não largar todo seu peso. Era difícil encontrar vontade para lutar contra aquele beijo, e, puta merda, eu nem queria lutar. Eu estava fora de mim naquela noite – carente, chateado, amargurado – e nem bater em alguém podia para relaxar. Mas o fogo daqueles toques e daquele beijo lento e intenso aplacava esses sentimentos, animava as fibras do meu corpo, excitava as batidas no peito e consumia minhas memórias ruins.

E, porra, apenas um beijo muito bom poderia me deixar tão pateticamente poético. Eu sentiria o mesmo com o babaca do Bobby?

Não pense nisso.

Deixei o cheiro de alfazema de Tristan encher minhas narinas enquanto nossas ereções roçavam conforme ele se movia e ondulava o quadril de maneira vagarosa, incitando o prazer a avançar e contaminar nossos corpos. Suas mãos subiram por meus braços, colocando-os acima da minha cabeça para prender meus pulsos.

“Você quer isso?” Ele perguntou, encarando-me.

“Que merda de pergunta.” Disparei, grosseiro, tentando disfarçar a vergonha que sentiria ao responder que sim. “Apenas me foda logo.”

“Tão encantador.” Ele ironizou, mas segurou minha coxa e, quando abri a boca para xingá-lo, seu membro forçou caminho, gerando a dor típica que não era nada perto dos chutes e socos que eu já havia levado na vida. Sua mão apertou meus pulsos com mais força, enquanto eu apertava os punhos e gemia.

Tristan me beijou de novo.

“Eu gosto do seu jeito.” Ele murmurou contra minha boca, ainda me penetrando, lento. “Seu jeito irritado é engraçado e, de certa forma, fofinho.”

“Vai à merda. Eu não sou palhaço para ser engraçado, principalmente não quando-“

Ele me beijou de novo. Era irritante. Muito.

Quando ele soltou meus pulsos, abraçou-me e passou a se mover lentamente. Seus lábios marcavam meu pescoço, mordendo. Eu arranhei suas costas, notando que ele estava mais cuidadoso que o normal. Geralmente quando transávamos era bruto e selvagem, rápido, intenso, um furacão que terminava com um cigarro e nenhum beijo. Não estava sendo assim, e eu notei o que havia de diferente.

Porque havia algo de diferente, e não era apenas meu estado lamentável de carência. Os toques dele estavam diferentes, seus beijos eram mais macios e quentes, seus toques eram cuidadosos e gentis, mas marcavam com a necessidade maior do que apenas a carnal. A cada vez que ele se movia, nossos olhares se encontravam e conectavam, nossos corpos adquiriam uma nova camada fina de suor e nossas peles deslizavam sensualmente, entre aquele ar abafado que se formava.

Minutos se passaram naquilo, minha cabeça girava, imagens povoavam minha mente, suspiros chegavam aos meus ouvidos, meus ou de Tristan. Eu me sentia entorpecido, drogado, distante, mas agarrava-me a ele para me manter presente. Quando ele abraçou minha cintura e se sentou no sofá, levando-me para seu colo, apenas continuei abraçando-o e beijando-o. Realmente havia cheiro e gosto de tabaco em nossos lábios. Suas mãos marcavam minhas nádegas e meu pênis roçava contra seu abdômen magro. Eu sentia o ápice se aproximar, como se eu subisse por uma montanha, veloz a cada novo passo, e buscasse pelo topo que já estava ao alcance de meus olhos.

Meu sêmen manchou o abdômen dele, criando uma arte contemporânea ali. Psicólogos poderiam perguntar o que aquele desenho significava. E não era nada além de nada. Não significava nada.

Eu me sentia vazio.

Sentia-me sujo e um crápula. Tristan havia chegado ao topo também, mas eu precisava fazê-lo descer. Quando me levantei, ainda nu e, no momento, livre de constrangimentos, peguei minha carteira de cigarros e meu isqueiro, não me importando de fumar três cigarros seguidos, algo que eu nunca havia feito até hoje. Sentei-me no sofá, deitando parcialmente, de barriga para cima contra uma almofada.

“Você está apaixonado por mim, não é?” Eu perguntei. Eu havia percebido, apenas hoje, agora. Eu era idiota? Tristan não queria tanto que eu esquecesse Bobby por altruísmo.

“Eu sou ridiculamente óbvio, não é?” Ele respondeu, não oferecendo ao momento um segundo sequer de hesitação, o que me causou um mal-estar e uma ânsia de vômito em minhas entranhas.

Não por achá-lo nojento. Não por achá-lo idiota. Mas por achar a mim mesmo um idiota. Eu não estava apaixonado por Tristan. Deus, não, eu não consiga imaginar uma relação com ele diferente de sexo e conversas aleatórias após um orgasmo. Ele era bonito e sedutor, além de talentoso e dono de um baita coração. Então o que faltava nele? A babaquice e ingenuidade de Bobby?

Pare de pensar no Bobby, porra!

“Não podemos continuar com isso.” Eu falei sem olhá-lo e fumei novamente, deixando a nicotina acalmar minha culpa. A culpa por causar em Tristan o mesmo que Bobby me causava – um sentimento sem retorno, sem esperança, sem futuro. Um sentimento morto, com cheiro de cigarros.

Tristan chegou a rir, mas não era um riso feliz.

“Eu sei.” Ele nunca forçaria a barra. Eu sabia também.

“Desculpe.”

Notas finais
Ai, que dó de ambos. Me sinto meio malvada, parece que ninguém se dá bem amorosamente nessa história. IUJAIOSAJSIOAS Quando eu escrevi o capítulo, achei ruim, mas relendo achei bom até, apesar de que escrever uma lemon com o Oliver narrando foi BEM difícil, afinal, ele não é dos personagens mais soltinhos para descrever essas coisas! Mas espero que vocês tenham gostado! Obrigada aos que comentaram capítulo passado (eu tinha anotado todos os nomes aqui, mas o Nyah comeu quando postei e agora deu preguiça). Um agradecimento especial pra Kahekili que continua betando!