Notas iniciais
MUITO obrigada à Ti Rorschach pela recomendação!

Fabian

Trabalhar na biblioteca da Ketteridge era mesmo fantástico e, mesmo que fizesse menos de duas semanas que eu estava ali, já parecia como minha casa. Se eu não tivesse meus irmãos, provavelmente já teria me mudado para aquele lugar, visto que havia uma espécie de quitinete aos fundos da biblioteca. Era pequeno, com apenas sala e cozinha conjuntas, um banheiro e o quarto, mas era bem cuidado e mais do que o suficiente para uma pessoa.

Além disso, trabalhar com livros era minha paixão e eu me sentia muito à vontade em aprender o esquema de catalogação e organização da gigantesca biblioteca, que se parecia mais com um salão de palácio de alguma fantasia exuberante, do que apenas um lugar para os alunos estudarem. O silêncio me acalmava também, eu gostava dele, para pensar e refletir. Em minha casa, ou na Casa das Máscaras, nunca havia silêncio.

É claro, descobri que eu não era o único a trabalhar ali. Eu tinha mais quatro colegas de trabalho que ajudavam nas tarefas daquele enorme lugar, às vezes no mesmo turno que eu, outras vezes em turnos diferentes. Mas como eu era o mais graduado ali, a maior responsabilidade por tudo era minha, e eu estava adorando isso, adorando aprender como me achar ali dentro.

Meus colegas se chamavam Oscar, Brendon, Susan e Viola, mas eu ainda os estava conhecendo aos poucos e não tenho muito que falar deles. Hoje eu ainda estava com pressa em terminar meu turno, porque era uma das minhas noites na Casa das Máscaras. Andreas também iria e passaria pela biblioteca para irmos juntos. Eu já havia avisado meus irmãos que chegaria em casa tarde. Eles acreditavam que eu possuía uma amante secreta, a qual eu, teoricamente, tinha vergonha de lhes apresentar. Já haviam tecido mil teorias sobre minhas ausências, e eu sempre os deixava acreditar no que bem lhes convinha. Qualquer coisa era melhor do que contar que eu me prostituía. Eu sequer havia lhes contado sobre minha homossexualidade.

“Fabian, pode levar esses livros à zona 11, por favor? Preciso sair mais cedo, meu namorado está me esperando, mas já deixei tudo organizado por ordem, na pilha. Vai da zona 11 à 14!” Viola me solicitou, abrindo um sorriso amarelo por me pedir aquilo, mas o turno dela já estava terminando e eu não me importei.

“Claro, Viola, sem problema. Não deixe seu namorado esperando, vá logo!” A enxotei na brincadeira, já pegando os livros e sorrindo em reflexo ao vê-la abrindo um sorriso contente enquanto pegava a bolsa. Era uma morena bonitinha que ficava muito bem quando se arrumava e maquiava.

“Obrigado, Fabian! Quando a Sra. Lockess te apresentou, achei que você seria um metido pé no saco, ainda bem que eu estava errada!” Ela riu e correu para a porta, abanando por cima do ombro. Eu pisquei algumas vezes, torcendo o nariz. Por que as pessoas sempre achavam que eu era metido? Que frustrante! Ao menos elas mudavam rápido de opinião, o que era um bom sinal.

Suspirei e peguei aquela pilha de livros. Como em breve teria de sair, peguei mais livros do que meus braços gostariam de carregar até o terceiro andar da biblioteca, com a intenção de realizar apenas uma viagem. Antes de chegar às escadas, porém, tomei um susto quando alguém apareceu de repente e tirou alguns livros de meus braços.

Era Lance.

Meu coração se agitou pela surpresa e desgosto que a presença dele me causava. Havia certo medo entre esses sentimentos, como o medo de que ele me reconhecesse.

“Estava me espionando?” Eu perguntei em tom rude, estreitando os olhos para ele, que apenas sorriu e balançou a cabeça em negativa, rapidamente.

“Você acha que eu sou um daqueles jornalistas que ficam andando por aí com uma câmera, prontos para gravar tudo que possa lhe ser útil?” Ele perguntou com um quê de sarcasmo e divertimento perante a ideia, seus olhos sagazes presos em meu rosto. “Talvez me tome por um paparazzi?” Sugeriu.

“Não tenho fama alguma para atrair abutres.” Anunciei, não fazendo nenhuma questão de colocar alguma simpatia naquela conversa. “Isso posto, você pode devolver esses livros e ir embora. A biblioteca logo irá fechar.”

“Logo, mas não agora. E que espécie de cavalheiro eu seria se não o ajudasse com todos esses livros?” Ele deve ter aberto o sorriso mais galante em seu leque de sorrisos falsos, e eu grunhi baixinho meu descontentamento. Porém sabia que enxotá-lo apenas o deixaria com mais curiosidade sobre mim, então decidi simplesmente subir as escadas e agir como o cara mais sem graça e monótono do mundo.

Lance era mais paciente do que eu imaginava, pois não tentou puxar assunto até chagarmos à zona 11, mas eu podia sentir seu olhar queimando em minha nuca e, em alguns momentos, em minha bunda. Não me pergunte como eu tinha certeza disso, você apenas aprende a sentir esse tipo de coisa depois de trabalhar tanto tempo como prostituto. Era constrangedor e eu senti um calor em meu pescoço enquanto andávamos.

Quando alcançamos a estante, larguei no chão os livros que eu segurava e peguei o primeiro da pilha de Lance, guardando-o em seu lugar apropriado. Evitei olhar para ele, mesmo sabendo que ele me dedicava toda a atenção de seus olhos de amêndoas. Depois, peguei novamente os livros no chão e caminhei até a próxima parada. E assim foi repetitivamente. Dois, três, quatro, cinco, seis livros... Até que eu perdi a paciência e me virei para ele.

“Por que está aqui?” Perguntei objetivamente, sem rodeios.

“Por que você me intriga.” Lance sussurrou sutil, e seu rosto pareceu sorrir enigmaticamente, ainda que ele não estivesse mostrando os dentes. “E eu não costumo deixar para lá o que me intriga, não é de minha índole. Alguns dizem que minha curiosidade é demasiada, mas gosto de pensar que isso me torna um bom jornalista.”

“Um jornalista sensacionalista nunca será um bom jornalista.” Eu retruquei e fiquei aliviado por minha voz soar firme, e não trêmula como eu sentia minhas mãos ao colocar outro livro na estante. A última coisa de que eu precisava era alguém como Lance intrigado ao meu respeito, pronto para escavar um pouquinho sobre minha vida. Ele deu um passo em minha direção, deixando-me ainda mais ansioso, mas encostou-se à estante, virado para mim.

“O público faz um jornalista. Se o Roy Byron é sensacionalista? Sim, em algumas matérias ele é, mas se não o fosse, ele provavelmente ruiria, porque é isso que as pessoas desejam. Querem ler sobre segredos, podres, fofocas sobre os mais populares da Ketteridge. Nós mostramos o que elas querem. Faz parte dos negócios. Mas não fazemos apenas isso, e eu nunca escrevi nenhuma das matérias de nosso ‘tabloide’.” Ele usou o nome com certo divertimento, como se achasse cômica a existência de uma coluna apenas para fofocas. “Você por acaso já leu o Roy Byron alguma vez, ou decidiu tirar suas próprias conclusões sobre ele apenas pelo que as pessoas dizem?”

Eu enrubesci. Ele havia perguntado, mas é claro que já sabia a resposta mesmo antes de eu dizê-la. Eu nunca havia pegado o jornal, nem lido nenhuma de suas matérias, simplesmente tirara minhas próprias conclusões, segundo o que escutei na biblioteca de meus colegas de trabalho e de alunos.

“Estive bastante ocupado na última semana, não tive tempo para ler jornalecos de garotos ricos e mimados com a aspiração de ferrar com outras pessoas.” Eu falei na defensiva, referindo-me ao caso de Christian e Oliver, os dois garotos que eu havia ajudado em meu primeiro dia.

“Algum dia te trarei um exemplar. Você verá que, às vezes, as pessoas falam apenas de uma coisa porque é o que mais lêem e procuram no jornal e, principalmente, que mais adoram propagar, fomentando a fogueira. De novo, de quem é a culpa? Certamente um rapaz inteligente como você não pode achar que é apenas minha.” Lance argumentou, e ele soava tão convincente que chegava a me arrepiar. E não de uma maneira boa, mas como se todo meu corpo falasse que ele não era confiável.

Virei para ele, erguendo um pouco queixo, porque ele era alto.

“E um cara inteligente como você deve perceber que a culpa do todo não absolve a culpa individual. Você pode dizer a você mesmo o que quiser para se sentir um pouquinho melhor sobre você mesmo, mas não tente jogar sua ladainha para cima de mim, não depois de eu ver você deixando outro garoto apanhar apenas pelo bem de uma boa propaganda.” Eu rebati e imediatamente me arrependi. Meu plano de ser enfadonho foi completamente pelo ralo, e eu posso parecer ingênuo, mas entendia o tipo de Lance.

O tipo que adora um desafio.

E eu estava sendo o perfeito desafio. Quase pude ver seus olhos de lince se acenderem em satisfação com minha resposta, enquanto um riso sutil erguia o canto de seus lábios finos.

“Você tem uma visão terrível sobre mim.” Ele comentou, mas não parecia realmente preocupado com isso. Era quase como se concordasse com tudo que eu havia dito. “Terei prazer em fazê-lo mudar de ideia. Ou ao menos, melhorar um pouco minha situação.”

“Isso é impossível.” Eu coloquei em meu rosto minha melhor expressão de metido e desviei o olhar dele. Se eu tinha cara de metido, em algum momento tinha de fazer bom uso dela.

Peguei os dois últimos livros e fui para a outra estante.

Lance não me seguiu de imediato como antes, e o fato de saber que ele estava por perto, porém sem que eu conseguisse vê-lo, deixou minha nuca arrepiada. Olhei para os lados, em busca dele e fiquei apreensivo ao não achá-lo. Sabia que ele estava ali, mas o babaca deveria estar querendo brincar de esconde-esconde. Ah, deus, eu já o estou xingando mentalmente...? Ele me tira mais do sério do que eu imaginava.

Eu suspirei e guardei o último livro, já frustrado, e assim que me virei quase me choquei contra o tórax de Lance. Ele me segurou pelos ombros para que eu não caísse.

“Como eu disse antes, eu recém havia chegado quando você intrometeu-se na luta e ajudou Oliver.” Ele repetiu baixo, e eu me perguntei por que ele se importava tanto com minha opinião, e por que meu corpo parecia importar-se tanto com a proximidade dele? Meus braços estavam arrepiados tanto quanto minha nuca, agora.

Lance se inclinou para mim. Por um breve instante de insanidade, achei que ele iria me beijar, mas ele chegou perto apenas o suficiente para sentir o perfume em meu pescoço.

“Tenho certeza de que já senti esse aroma antes.” Ele sussurrou próximo de meu ouvido.

“Eu não fabrico meu próprio perfume, Lance. Uma marca está à venda para muitas pessoas.” Respondi, e meu tom teria sido quase enfadado se não houvesse um leve tremor ao final de minha fala.

“É, mas cada perfume se molda a uma pessoa de maneira distinta. É como um mesmo sabor, que pode ser percebido por cada um de uma forma diferente, trazendo diferentes lembranças...” Ele sussurrou, e estava próximo demais. Perigosamente próximo, de uma maneira que me entonteceu, porque eu estava acostumado às aproximações masculinas e não deveria ter abaixado a guarda dessa forma.

“E quais lembranças meu perfume te traz?” Perguntei por impulso e prendi a respiração quando ele se aproximou um pouco mais. Eu queria andar para trás, mas meus pés pareceram pregados no chão. Vi-me refletido em seus olhos e soube que por trás deles estavam as imagens que também passeavam pelos meus.

Deus, não, eu não poderia deixá-lo descobrir que eu era o prostituto com quem ele havia se envolvido há pouco mais de um mês. Eu era estúpido?

“Quer que eu mostre?” Ele perguntou ainda baixo, e suas mãos desceram por meus braços, deixando um rastro de calor. Elas seguraram gentilmente minha cintura, apenas pousando ali sem nenhuma força ou intimidação, como se me dissessem que eu poderia me afastar se assim desejasse.

Mas não precisei buscar por lucidez por mim mesmo. Alguém gritou meu nome no silêncio estarrecedor da biblioteca.

“Princesa!” A voz, indubitavelmente, pertencia ao Andreas. “Onde a princesa francesa está? Iremos nos atrasar!”

Eu poderia atirar um livro bem grosso na cabeça de Andreas agora. Senti todo meu rosto enrubescer pelo princesa francesa e me afastei de Lance sem afetação ou brusquidão, como se não estivéssemos a milímetros de distância, e ele apenas comentasse amigavelmente sobre como meus sapatos estavam lustrosos naquela noite.

“Com licença.” Pedi e me afastei, seguindo para o primeiro andar. Andreas estava ali futricando no balcão. Ele era terrivelmente inquieto e curioso, ainda que fingisse que não. Ao me ver, ele abriu um sorriso largo e lindo. Andreas tinha um brilho apenas dele, meio garoto, meio maduro e muito pervertido. Mas era isso que o tornava atraente.

“Já estava me perguntando se... Quem é aquele ali?” Ele se interrompeu em meio à frase assim que seu olhar passou por cima de meus ombros. Eu não precisei olhar na mesma direção para concluir que Lance estava logo atrás de mim.

“Lance Harris, prazer. Você é Andreas, não é?” Lance não se importou de parecer tão bem informado quanto diziam que ele era. E por bem informado, entenda bisbilhoteiro. Ao menos, era como eu o via, e estava com um medo tremendo de que ele descobrisse sobre mim e Andreas.

Andreas disfarçou muito bem seu incômodo, que eu apenas percebi por conhecê-lo já há algum tempo. Ele era um ótimo ator, muito melhor e mais disciplinado do que eu.

“Sou eu mesmo. É um prazer, igualmente.” Ele fez uma leve mesura que tinha um quê de malícia e deboche, quase uma afronta.

Eu suspirei internamente.

“Iremos fechar.” Falei ao Lance. “E nós dois precisamos ir.” Eu avancei e comecei a preparar a biblioteca, desligar o sistema e as luzes. Quando fui para a saída, Andreas e Lance já estavam ali, conversando, o que gelou minha espinha.

“É uma oferta intrigante.” Ouvi Andreas falar. “Ainda mais porque não sou nenhum superdotado. Tampouco sou alguém interessante.” O loiro dispensou com um movimento gracioso de mão, mas seus olhos brilharam, deixando claro que não acreditava no que falava. “E imagino que não é comum avisar esse tipo de coisa com antecedência.”

“Digamos que alguém falou em seu favor.” Lance respondeu, educado. O fato de ele não negar que Andreas não era nenhum superdotado não passava batido, mas ele tentou transmitir placidez. “Você deve saber quem.”

“Jessica.” Andreas sorriu torto. “Somos amigos. Então é assim? É tudo um jogo de influências e contatos?”

“A vida é um jogo de influências. Eu não remo contra a maré.” Lance comentou, suave como uma brisa que apenas segue o rumo que lhe é imposto. Mas a frase me deixou incomodado. Eu tinha certeza que ele remava contra a maré, quando a maré ia contra seus desejos e maquinações.

Céus, como eu conseguira pegar tanta implicância por ele em tão pouco tempo?

“Bem... Ainda tenho até amanhã para considerar. Se vamos falar com alguma sinceridade aqui, eu lhe digo: não confio em você, também não vou com a sua cara. Você ferrou com o Christian, e não faça essa cara de garoto ofendido. Nós dois sabemos que Jessica intercedeu por mim para que não me colocasse naquela matéria.” Andreas nunca havia sido alguém de meandros ou meias palavras. “Ele poderia ter se machucado se o irmão dele não houvesse aparecido para defendê-lo. E agora ele me odeia, por sua culpa. Se nada disso tivesse acontecido... Ele tem apenas 15 anos.” O tom de Andreas começou a se tornar mais grave, mais irritado. Eu vi seus punhos apertarem. “Não merecia aquilo, essa humilhação. Humilhar os mais vulneráveis é um hobbie para você?”

Lance olhou demoradamente para Andreas, os dois digladiando-se silenciosamente. O ar ao redor deles até pareceu ganhar forma, cor e densidade, tamanha era a tensão transmitida.

“Não.” Lance falou por fim, e sua voz pareceu ondular por aquele invisível tecido espesso ao redor. “É por isso que estou tentando consertar as coisas. Christian também entrará para Sigma, e você pode também se redimir com ele.”

Andreas riu, uma risada que parecia nascida do fundo de seu estômago, e rompera à superfície como se buscasse por oxigênio e liberdade. Mas não era verdade, era uma risada forçada e cheia de descrenças.

“Está certo. Eu talvez acredite em você. Você me disse que Chris entrará nessa tal fraternidade... Eu falarei com ele amanhã. Apenas o bem-estar do Chris me interessa nessa merda toda. E eu não precisaria de você para tentar me redimir.” Andreas pareceu hesitar ao afirmar aquilo. “Não confio em você.” Repetiu.

“Estou acostumado com esse tipo de coisa.” Lance sorriu, colocando as mãos no bolso. “Confiança é algo que se conquista. E eu nunca me esforcei para ganhar a confiança de ninguém. Pelo contrário, eu acho.” Ele manteve o sorriso, parecendo quase orgulhoso do que dizia. Mas havia algo em seus olhos, opaco e sombrio, que me deixou uma sensação estranha. “Nós nos falaremos novamente amanhã.” Ele então se despediu. Seu olhar recaiu sobre mim, que observava a cena em silêncio. “Até breve, Fabian.”

É claro que ele já sabia o meu nome.

XxxX

Chegamos à Casa das Máscaras já um pouco atrasados, mas era compreensível devido aos meus novos horários de trabalho na universidade. Entramos pelo caminho exclusivo dos acompanhantes e seguimos para o local onde poderíamos tomar um banho, nos arrumar e colocar nossas máscaras. Depois de tudo isso, Andreas riu de mim ao ver-me colocando lentes de contato.

“Querendo se disfarçar bem, é?” Ele insinuou.

“Sim... Estou com medo de topar com ele novamente, por aqui.” Falei. Eu havia contado ao Andreas sobre meu envolvimento prévio com Lance. “Tenho certeza que ele desconfia de algo. Não especificamente que eu trabalhe aqui, mas que estou escondendo alguma coisa com unhas e dentes. O olhar dele é desconfortável.” Suspirei e, após um segundo de reflexão, peguei outro perfume para usar, não o meu habitual.

“Ele é perigoso... Você acha que eu devo entrar na fraternidade dele?” Andreas falou, ajeitando os cabelos em uma peruca também loira, mas que disfarçava seu corte natural. “Jessica xingou até meus ancestrais pré-históricos por eu ter chamado atenção para mim logo na primeira semana de aulas.” Ele revirou os olhos.

“Você é voluntarioso e inconsequente. Era apenas esperado.” Eu encolhi os ombros, mas mesmo assim ganhei um olhar de desagrado de Andreas.

“Não sou sempre assim. Pode parecer, mas eu sei me controlar, quando eu quero.” Ele falou e baixou a máscara frente ao rosto. Achei-o mais sério que o comum, mas logo um sorriso curvou o canto de seus lábios. “O problema é que eu raramente quero.”

“Aí estão vocês!” Jessica apareceu no recinto. Vestia um corpete e uma saia, ambos pretos e extremamente sensuais, que ressaltavam seus seios volumosos e as coxas firmes e torneadas. Nos pés, botas compridas de couro preto. Seus cabelos vermelhos cacheados davam um contraste intenso com as cores escuras, assim como sua pele claríssima. Era surpreendente que nenhum homem já não a houvesse tomado naquela altura da noite; ela devia ter dispensado todos. Ela podia. “Andreas, há um cliente doido atrás de você. Está bêbado e já reclamando em alto e bom tom. Se fosse um qualquer, poderíamos enxotá-lo, mas é alguém importante. Um tal de Julian.”

“Julian?” Outra pessoa entrou pela porta. Era Colton, elegantemente vestido, com sua máscara deixando-o com um ar misterioso e sensual. Naquela noite, ele deveria estar envolvendo-se mais com mulheres. Elas vinham em menor quantidade, mas tínhamos clientes fiéis à Casa. “Tenho um colega chamado Julian. É magrelo e baixinho, além de paranóico com sujeira.”

“Certamente não é o mesmo Julian.” Andreas se levantou, prontificando-se. “Queria um trepada mais intensa essa noite. Estou de cabeça cheia. Mas parece que terei de bancar o inocente. O que acham?” Ele piscou um olho e, como em um passe de mágica, pareceu um garoto recém contratado na casa, cheio dos temores e da ansiedade dos inexperientes. “P-Por favor, senhor Julian... A-ah... Seus lábios são tão quentes.”

Colton gargalhou da atuação do loiro, que então sorriu orgulhoso de si mesmo, aprumando-se e voltando a parecer o mesmo garoto confiante e ousado de sempre. Ele se curvou galantemente sob nossos aplausos.

“Eu gostaria de conseguir fingir isso. Hoje em dia, no máximo consigo parecer menos vadia.” Jessica falou, jogando os cabelos para trás, e parou em frente do espelho para retocar o batom carmim. “Mas, sabem... Eu ando cansada dessa vida dupla. Todos vocês podem me entender agora, já que entraram na universidade. Ainda que não todos como alunos.” Ela lançou um sorriso entendido para mim, que retribuí. “Às vezes eu desejo apenas uma vida normal e um relacionamento normal com algum rapaz normal.”

“Está se esforçando bastante para isso, transando com dois ao mesmo tempo na universidade, e comigo também.” Colton alfinetou inesperadamente, surpreendendo a nós três. Seu tom era crítico. “Você reclamou do Andreas, mas parece estar fazendo pior.”

Jessica endireitou o corpo e virou-se para Colton, assumindo uma postura mais ousada e ameaçadora. Pareceu até mesmo crescer em tamanho, conforme seus olhos faiscavam, lembrando alguma rainha poderosa que se ergue do trono, exalando força e respeito ao ouvir alguém desafiando sua autoridade. Jessica raramente aceitava críticas com facilidade.

“Não venha com ironias ou críticas veladas para cima de mim, Colton. Acha mesmo que devo alguma coisa aqueles dois garotos? Chase vive perseguindo outras garotas, e Derek eu conheci há uma semana. Minha boceta é assunto meu. Ela é livre tal como eu sou livre enquanto não firmar compromisso com nenhum deles. E eu estou, sim, fazendo um esforço tremendo para conciliar essas duas vidas, tanto que em dois anos eles nunca desconfiaram que sou uma das prostitutas do lugar que eles procuram para afogar as mágoas de suas vidinhas medíocres de riquinhos mimados e arrogantes, enfiando o pau em desconhecidos com máscaras.” Jessica sibilou. Seu tom transmitia uma raiva branca. Não se alterou ou gritou, também não tremeu nas sílabas. Pareceu perfeitamente calma e quase cortês, mas poderia derrubar uma parede de aço.

Colton encolheu-se um mínimo.

“Estou apenas preocupado.”

“Pois não se preocupe, lindinho. Sobrevivi muito bem toda a minha vida sem a preocupação dos outros. E se está aflito que algum deles vá tirar satisfação com você por transarmos regularmente, também fique tranquilo. Eu, diferente do que você fez agora, não pretendo anunciar aos quatro ventos que trepo com o brinquedinho de meu chefe.” Jessica pareceu usar um machado para pregar um prego em uma chapa de vidro. Houve o estilhaço após a pancada, depois um silêncio pesado e quebradiço. Eu arregalei os olhos, enquanto Andreas entreabria os lábios, e Colton ficava vermelho de vergonha e raiva.

“Você está louca?! Eu não-“

“Igor é bastante tagarela após o sexo, você nem imaginaria.” Jessica o impediu de negar, balançando displicentemente os cachos de fogo. “Quando descobri que, mesmo com 25 anos, ele era virgem, senti-me piedosa. E ele cantou como um passarinho os vários segredos desse lugar após o maravilhoso orgasmo que lhe proporcionei.”

Colton ficou ali parado, mortificado. Era visível que se envergonhava do fato. E eu, compungido ao vê-lo tão rígido e tenso, me aproximei e lhe toquei o ombro, mas ele afastou minha mão rudemente e deixou o lugar a passos rápidos e pesados.

Jessica suspirou ao vê-lo sair e se sentou em uma cadeira.

“É como eu disse, eu apenas consigo ser menos vadia, vez ou outra. Mas nem sempre.” Ela abanou a mão, um pouco abalada.

“Eu não acredito que ele e Desmond trepam! Que sortudo de uma figa!” Andreas exclamou, e eu pensei que ao menos Colton não estava ali para ouvir isso, ou ficaria ainda mais irritado.

“É uma revelação e tanto...” Eu murmurei, mas balancei a cabeça. Não era de meu feitio ficar comentando coisas assim, ao menos, não antes de conversar com Colton e tentar entender aquilo um pouco melhor. Pela reação dele, cheguei a temer que Desmond o houvesse coagido a ir para a cama, o que me deixou bastante aflito.

E, parar brindar a situação, Igor apareceu pouco depois.

“Desmond chama por você, Fabian.” Ele informou em seu tom sempre formal. Tentei imaginá-lo como o passarinho tagarela, mas foi difícil. Porém como prostituto eu tinha plena consciência de que os homens podem mudar completamente no momento do sexo.

“Não me diga que o Desmond também te come!” Andreas arregalou os olhos, mas depois riu quando eu lhe lancei um olhar atravessado. Depois, hesitei com a ideia de encontrar com o chefe logo após saber que ele e Colton tinham aquele tipo de relacionamento. Lembrei-me de ele pedindo para eu manter um olhar em Colton, na universidade, e tudo pareceu ter mais sentido.

“Vá logo, Fabian. Desmond odeia esperar. E você, Andreas, por que ainda está aqui? Já disse que seu cliente está fazendo arruaças atrás de você!” Jessica disse impaciente.

Andreas mostrou-lhe a língua e partiu, mas não sem antes me dar um beliscão na minha bunda.

Respirando fundo, eu segui Igor até o escritório de Desmond.

XxxX

Entrar no escritório do chefe sempre causa desconforto e ansiedade em praticamente todo mundo. Mas isso se elevava ao extremo quando se tratava de Desmond, mesmo que ele sempre houvesse me tratado cordialmente, ainda que com sua típica formalidade fria e difícil de decifrar.

Ele estava conversando com outro homem quando entrei, e eu esperei polidamente eles terminarem algum assunto de negócios. Não durou mais que um minuto, e ele logo dispensou o homem de meia idade e barba grisalha. Depois, levantou-se e contornou a mesa, apoiando-se a ela, de frente para mim.

“Como está seu novo emprego, Fabian? Adaptando-se?” Ele perguntou. Mesmo que fosse gentil da parte dele preocupar-se, seu rosto mantinha-se impassível ao perguntar.

“Sim, é um ótimo emprego, Desmond. Obrigado por tê-lo conseguido para mim.” Falei, agradecido como me sentia.

“Nós dois sabemos que, assim que você puder, largará esse emprego aqui.” Desmond disse, sem firulas, mas não havia repreensão em sua voz. “Ao menos agora tem uma garantia.”

“Por que me ajuda?”

“Por que não ajudaria, se eu posso? Você é um bom garoto. Esforçou-se aqui dentro e me conseguiu bons contratos e relações, ao deitar-se com homens importantes. Eu ajudo quem me ajuda.” Desmond cruzou os braços, olhando-me longamente. Quase desejei abraçá-lo, ao escutá-lo. Mesmo na frieza, eu sabia que havia um bom homem por baixo daquela carcaça.

“Você não é um monstro.” Não foi uma pergunta. E me senti um idiota após a afirmação, mas mantive meu olhar firme nele, deixando transparecer minha certeza. Desmond perdeu parte da impassibilidade, ainda que apenas em um rápido segundo de surpresa antes de voltar a vestir sua máscara. Ela não era como a minha: visível e palpável, colorida. Era uma máscara intrincada, que ele vestia com tamanha frequência que talvez já não soubesse como retirá-la naturalmente, sozinho. “Espero que cuide bem do Colton.”

Desmond não era lento, ou burro. Pelo contrário, era um dos homens mais inteligentes e sagazes que poderia existir, e o brilho em seus olhos denunciou que ele havia entendido que eu já conhecia o tipo de relação entre ele e Colton.

“Cuidarei como não pude cuidar de outros.” Ele falou enfim. “Agora vá.” Ele dispensou, cortando aquele assunto pela metade. Eu sabia que ele também me chamara para perguntar de Colton, mas, frente ao que eu havia dito, talvez não quisesse prolongar o assunto.

Respeitei, e deixei seu escritório de maneira silenciosa.

Caminhei por um corredor, mas antes de chegar aos locais da mansão em que ficavam os clientes, fui interceptado por outra pessoa. Reconheci os olhos verdes por trás da máscara de imediato, assim como o aroma de almíscar e terra molhada forte e envolvente.

“Jett.” Sussurrei, com minhas costas contra a parede e as mãos dele em meus ombros, pressionando.

“Senti sua falta.” Ele murmurou e me abraçou, afundando o rosto em meu pescoço e aspirando fundo. Suas mãos percorreram meu corpo, espalhando o calor que era sua marca. Eu o abracei de volta, tomado pela languidez que sua presença sempre me proporcionava, mas quando seus toques começaram a ficar mais ousados, como se quisesse arrancar minhas roupas para me possuir ali mesmo, naquele corredor, eu o afastei.

“Jett, espera.” Eu pedi, colocando as mãos em seus ombros, mas ele não parou. Seus lábios tomaram os meus e sua ereção pressionou-se contra meu pênis, que também começava a despertar. Eu gemi com suas investidas, sentindo sua ânsia e necessidade de me tomar, de saciar a fome que ele tinha. Mas aquele não era local, nem hora. “Jett!” Empurrei-o, olhando-o firme. “Nós estamos aqui a trabalho, não para nos divertimos juntos.” Tudo que eu menos queria era desdizer as palavras de Desmond sobre meus esforços logo depois de ele me conseguir um ótimo emprego.

Jett olhou-me de uma forma que me partiu o coração. Eu o estava rejeitando e, não importava o quão sensual, ferino e belo ele fosse, ou que ele conseguisse seduzir a qualquer um e transmitisse uma grande confiança em suas habilidades. Era fachada, e sua insegurança era o que o fazia voltar sempre para meus braços, em busca de carinho e calor. Ele, que fora rejeitado pelos pais e se prostituíra desde criança, nos piores bordeis, até Desmond encontrá-lo e trazê-lo para a casa, onde, ao menos, tinha luxo e clientes minimamente decentes, que não o machucavam.

“Jett...!” Tentei chamá-lo quando ele se afastou, praticamente fugindo. Era a segunda vez que eu o rejeitava, e meus olhos marejaram com isso, meu peito ardeu e minha angústia cresceu no peito. Tentei buscá-lo, mas aquela mansão era um labirinto e eu o perdi.

Estava abalado quando cheguei às partes mais movimentadas da mansão, vendo homens jogando, ou conversando. Mulheres dançando sensualmente, algumas especialmente para algum cliente. Flertes para todo o lado. O ar denso e escurecido, cheirando a incenso e sensualidade exuberantes. Olhei para o anel em meu dedo, que me marcava como um acompanhante.

E desejei apenas me encolher em um quarto e chorar, por me sentir tão sujo, de repente.

Mas eu era forte, e me aprumei quando alguém se aproximou, com dois copos de bebida.

“Acompanhado?”

Eu desejei ser mais forte.

Era Lance novamente.

XxxX

Observei Lance próximo às portas de vidro do quarto, olhando contemplativo para a chuva que começara a cair no meio da noite, apenas o suficiente para sujar o céu e espalhar um manto tricotado de água pelo ar. Ainda assim, alguns trovões ressoavam ao longe, avisando que aquela aparente calmaria não duraria muito tempo.

“Gosta da chuva?” Perguntei, em parte por curiosidade devido à maneira absorta dele, em parte porque estava cansado do silêncio.

“Ela me traz lembranças. De um dia, assim... Dessa chuva que molha, mas não o suficiente para te deixar ensopado, como se fosse uma brincadeira de mau-gosto dos céus.” O canto do lábio de Lance subiu, num meio-sorriso sem humor.

“Pela sua expressão... Não parece uma boa lembrança.” Arrisquei.

“Pelo contrário. É uma linda lembrança, o problema é que nunca mais a terei, e é única e exclusivamente por minha culpa. Porque eu sou um filho da puta manipulador e egocêntrico.” Ele se virou para o quarto, apoiando as costas no vidro e cruzando os braços. “Eu costumo estragar aquilo que cultivo.”

“Se isso te machuca tanto... Por que não muda?”

“Não, Tempo, não zombarás de minhas mudanças! As pirâmides que novamente construíste não me parecem novas, nem estranhas; apenas as mesmas com novas vestimentas.” Lance falou, como se estivesse em uma peça de teatro, e seus olhos se voltaram para o alto.

Reconheci o trecho de um dos sonetos de Shakespeare. Eu amava Shakespeare, é claro, mas seus sonetos estavam abaixo dos de muitos outros, como Milton, Wordsworth, Rossetti ou Swinburne. Balancei a cabeça. Os sonetos de Shakespeare são confidências que nunca acabaremos de decifrar, pois as sentimos imediatas e imperiosas. Então eu entendia e ao mesmo tempo não entendia o que Lance queria dizer. Talvez exprimisse que ele já tentara mudar, mas tropeçava em seus mesmos erros, numa alusão à doutrina do tempo circular e à repetição da humanidade em seus desacertos.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares... É o tempo da travessia. E se não ousarmos fazê-la teremos ficado para sempre... à margem de nós mesmos.” Eu mesmo declamei um poema, cujo autor me faltou no momento, devido ao olhar intenso que recebia de Lance ao recitá-lo.

Lance então sorriu e, pela primeira vez, ainda que eu o houvesse encontrado pouquíssimas vezes, aquele me pareceu um sorriso sincero.

“Você parece ser muito perceptivo...” Ele comentou devagar. “Mas me pergunto, entende qual foi meu erro?”

“Reconheço seu coração quebrado. Muitos que buscam a casa buscam fechar efemeramente uma ferida do amor. Apaixonou-se e errou, e seu coração sangra sempre que o céu chora, porque seus olhos estão secos de lágrimas.” Murmurei um pouco piegas, mas estávamos trocando poemas como quem troca figurinhas e pareceu natural. Não importava, meu lado literário de escritor gostava dessas coisas. Eu me levantei e fui até ele, tocando seu rosto.

Havia uma dose de obrigação nisso. Eu era seu cortesão, seu acompanhante. Era meu dever confortá-lo. Outra parte era própria de mim, de trás de minha máscara, pois, por mais que eu não confiasse nele, sempre fui romântico o suficiente para empatizar com corações partidos. Lance segurou minha mão e a beijou, depois me puxou suavemente para perto. Seu perfume parecia mesclar notas cítricas com notas concentradas, que remetiam à essência da terra, da madeira e do musgo.

Estremeci e não impus resistência quando seus lábios buscaram os meus, lentamente. Houve um roçar suave, sem pretensões de ir além daquilo. Suas mãos seguravam delicadamente meu rosto e, com a pouca diferença de altura, ele não precisou curvar-se mais que um palmo.

“Você mudou de perfume?” Ele sussurrou, e por um instante me assustei, achando que ele implicava que sabia que era eu, Fabian, bibliotecário de sua universidade. Ao ver minha confusão, ele sorriu com o rosto bonito muito próximo. “Da última vez em que estive na casa... Foi com você, não foi? Mas foi passageiro, fugaz. Eu estava bêbado e queria um consolo rápido. Agora, tenho o prazer de sentir melhor os detalhes. Sua pele macia e clara, seus olhos...” Ele os mirou e houve uma cintilação de dúvida ali. “Não lembrava que eram castanhos.”

“Como você mesmo disse, estava bêbado.” Eu sussurrei, fingindo-me calmo ao soltar um riso cristalino. Deixei minhas mãos deslizarem por seu corpo, querendo distraí-lo do assunto. Na Casa, eu também tentava alterar o timbre de minha voz. Treinei por tanto tempo que ela já parecia natural. Ela era mais aveludada e rouca que minha voz do dia-a-dia. “Deixe-me lembrá-lo de outros detalhes...” Segredei em seu ouvido, enquanto abria os botões de sua camisa.

Lance me permitiu lembrá-lo. Em questão de segundos nossas respirações aceleraram e nossas roupas começaram a ser tiradas, com uma pressa angustiada. Suas mãos agarraram minhas coxas e subiram por minhas costas, arrepiando minha espinha enquanto ele me guiava para a cama.

A chuva aumentou de intensidade lá fora e um trovão clareou o quarto por um momento, quando já estávamos nus. Lance não tinha o corpo musculoso como os daqueles que viviam na academia. No entanto ainda era bonito, com músculos firmes e delgados. A maneira como me tocava e beijava o corpo era o mais inebriante. Não era viril e rude como alguns homens mais afoitos, que tentavam provar sua masculinidade através da dominação. Tampouco era morno e afetuoso demais, a ponto de tornar o momento tedioso ou enfadonho. Não havia pressa em seus toques, mas havia vontade e desejo. Sua arte na cama assemelhava-se a de um artista desenhando ou pintando um quadro numa tarde de inverno, ou um músico dedilhando com paixão e esmero seu instrumento para uma plateia atenta.

A cada novo raio que estalava no céu e iluminava o quarto, eu podia ver seu rosto e, diferente de tudo isso que citei, eram seus olhos. Eles carregavam uma paixão intensa. Não por mim, especificamente. Mas pelo momento, pelo ato, pelos beijos, pelo desejo em si. Lance era o tipo galante, um falso príncipe, um conquistador pelo charme. O tipo que vivia intensamente certos momentos, sem a pressa de estragá-los, mas com a malícia de moldá-los e manipulá-los entre seus longos dedos habilidosos.

Ele tragava, como areia-movediça. Lenta e mortal.

Não entrarei em detalhes das preliminares, mas elas levaram mais tempo do que eu estava acostumado. Se eu disser que não tenho dúvidas que podem ter alcançado três horas ininterruptas, talvez alguns duvidassem. Mas houve mãos e carinhos, beijos intensos e outros cálidos e lentos, houve toques ousados e íntimos de amantes. E quando ele enfim colocou a camisinha, após vários minutos me preparando anteriormente, nós já estávamos suados e com os cabelos em desalinho. Ambos já havíamos sujado a cama e um ao outro de sêmen, mas eu continuava tão excitado quanto ele, e o abracei e puxei para mim sem nenhuma hesitação ao senti-lo começar a me penetrar.

Suas mãos se prenderam nas minhas e não houve nenhuma dor, depois de tantas preliminares. Ele deslizou facilmente em meu interior. Saiu e moveu-se de novo, erguendo uma de minhas coxas para facilitar o contato. Seus lábios estavam próximos aos meus quando gemi com a respiração pesada. Ele beijou meu pescoço e moveu-se de novo, segurando-me com destreza, ainda paciente e determinado. Como um amante zeloso, mas voraz.

Quando me tratas mau e, desprezado,

Sinto que o meu valor vês com desdém,

Lutando contra mim, fico a teu lado

E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,

A te apoiar te ponho a par da história

De ocultas faltas, onde estou enfermo;

Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:

Curvando sobre ti amor tamanho,

Mal que me faço me traz benefício,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.

Assim é o meu amor e a ti o reporto:

Por ti todas as culpas eu suporto.

Lance sussurrou em meu ouvido o soneto, num instante suspenso no tempo, em que não nos mexíamos, mas continuávamos ligados. Parecia querer dizer isto a outra pessoa, não a mim. Mas aquela era minha função ali – sangrar com ele. Servir como esparadrapo para a ferida em seu coração. Um engodo, uma solução fugaz para uma saudade dolorosa. Eu o abracei mais forte e tomei seus lábios para mim. Depois, o deitei na cama e me sentei sobre ele, deixando-o apenas relaxado enquanto eu lhe proporcionava aquele esquecimento.

“Está bem versado em Shakespeare.” Comentei.

“Andei lendo seus sonetos, coisa que nunca havia feito. Apenas suas peças. Como tenho boa memória, alguns pipocam em minha mente quando baixo minha guarda.” Ele sorriu e segurou minha cintura, enquanto eu me movia. Eu lhe sorri também, terno.

“Está de guarda abaixada, então?”

Lance manteve o sorriso e se ergueu, tocando meu rosto.

“Com você dançando sobre mim dessa forma... Não há dúvidas.” Ele murmurou. Havia malícia em sua frase, mas também um elogio sincero. “Seu calor aquece-me como a mais majestosa fogueira.”

Rolamos pela cama algumas vezes mais, até que não houvesse mais forças e a camisinha fosse jogada no lixo. Continuava chovendo, ainda mais ferozmente do que antes, e não duvidei que nós já havíamos ultrapassado a alta madrugada dentro daquele quarto. Acomodei-me nos braços dele e distraidamente acariciei seu peito.

“Você parece uma incógnita.” Eu sussurrei. Não queria que ele realmente escutasse, mas escutou e soltou uma risada pequena.

“Por que diz isso?”

“Alguém consegue explicar o que faz de uma incógnita uma incógnita, para além do significado da palavra?” Retruquei, mantendo minha carícia e sentindo ele a retribuir em minhas costas. Suspirei. Não poderia defini-lo sem deixá-lo desconfiado de que o conhecia além da Casa. “Sua forma de amar é diferente.” Falei. O sentido era dúbio, eu poderia estar me referindo apenas às suas habilidades na cama, ou no todo.

“Tenho minhas crenças sobre os amores e as paixões. Sempre fui um cara realista e desapegado. Achei que poderia controlar a paixão e bloquear o amor. Fui ludibriado por mim mesmo, mas meu gênio e orgulho me impediram de tentar resolver o assunto quando ainda havia tempo. Ferido, eu feri quem não merecia.” Lance olhava para o teto. “Eu era cheio de certezas antes de tudo, agora tenho apenas pedaços quebrados dessas certezas, que continuo cultivando por pura teimosia, ou burrice.”

“Conte-as para mim.” Pedi suavemente, deixando no ar a sugestão de que ele poderia negar compartilhá-las se assim preferisse.

Ele ficou em silêncio um momento, ainda olhando para cima, e eu achei que o assunto iria morrer. Mas então as palavras fluíram de seus lábios, fatalistas, machucadas e orgulhosas.

“Construímos e destruímos o mundo através de nossas paixões. Paixões por pessoas, ideias, causas... Paixão pela mudança. Ela é aquele fogo vivo que queima e corrói ao mesmo tempo em que sopra e acaricia. Somos apaixonados desde sempre, talvez para sempre... Mas a paixão não deixa de ser uma venda sobre nossos olhos, limitando aquilo que vemos e vivemos. O coração pulsa focado exclusivamente nos objetos de nossas paixões. Mas eu sempre pensei que o mundo era muito mais do que isso. Para os outros não é confortável pensar assim, então eles aceitam a paixão facilmente, porque não é agradável observar a forma como vivemos, ou as estruturas antigas que reinam em nosso templo interior. Por milênios as pessoas seguem ignorando isso e se concentram apenas em si mesmas.” Lance parou um momento, sorrindo amargo. “E podemos ver claramente no que deu. Em nada. Continuamos os mesmos de ontem, de cinco, dez mil anos atrás. Por fora, o mundo mudou, por dentro, nós sangramos como sangrávamos.” Ele me olhou. “Antes eu queria não me limitar. O topo sequer era meu limite e eu acreditava, cheio da arrogância dos jovens, que poderia controlar tudo ao meu redor se tentasse, até mesmo o amor e as paixões. E tentava não deixar o amor e as paixões me dominarem, pois senão seria eu o perdedor nesse jogo, seria como todos os outros. Mas diferente do que eu acreditava, apenas sangrei como todo o resto e machuquei quem foi tolo o suficiente em sentir o mesmo que eu.”

“Seus argumentos fazem sentido, mas ainda são contraditórios.” Murmurei e beijei seu peito lentamente, por dentro tocado com suas palavras. “Julgou quem se concentra apenas em si mesmo através das paixões e amores, mas suas reflexões concentraram-se apenas na tentativa de buscar benefícios a você mesmo, como se a vida fosse um jogo e você tentasse controlar as peças do tabuleiro. Não é assim que funciona, não é tão simples.”

“Eu sou confuso. Sou todo cheio de mim, mas tomo atitudes das quais me arrependo, ou repreendo, e continuo tomando-as. Desejo estar no controle e sentir-me superior. Gosto dos jogos e da manipulação, e ao mesmo tempo tento remediar meus atos e apaziguar minha mente.” Lance riu nasalado, parecendo achar-se ridículo. “No fundo, sei que manipulo principalmente a mim mesmo, fingindo que não sou quem sou para, algum dia, poder conclamar meu lugar ao céu.” Disse isso com extrema ironia.

Eu não podia, como desejava, começar a aconselhar Lance e em certo grau repreendê-lo. Eu estava ali para fazê-lo sentir-se bem, para consolá-lo e, mesmo que falsamente, amá-lo. Então falei algo que não o magoaria, mas fui sincero, pois nunca foi de meu feitio mentir nesses momentos.

“Se percebe tudo isso, você pode começar a prevenir e não remediar. Pode tomar a melhor atitude primeiro, e não depois de já ter estragado tudo, com a intenção de abrandar seus pecados. Só uma mente livre pode enfrentar a vida, não a mente amarrada a um sistema qualquer, a uma crença, a um determinado conhecimento. Sua maneira de pensar faz sentido, mas é fatalista demais. A vida não é apenas miséria e sofrimento... Se você ainda ama quem machucou, pode começar, ao menos, com um pedido de desculpas.” Falei.

Lance ficou em silêncio por tanto tempo, que acabei quase adormecido em seus braços. Enquanto eu piscava, com as pálpebras pesadas, lá estava ele, ainda profundamente pensativo. Cometi o grande erro de cochilar e, quando acordei, meu corpo nu estava gelado na ausência de outro para me aquecer.

Lance havia partido e, para meu grande terror, eu estava sem minha máscara.

Notas finais
Obs1: A citação do Fabian é do Professor Fernando Teixeira de Andrade Obs2: Eu sei que ainda não respondi a todos os reviews do capítulo passado, mas PROMETO respondê-los todos até domingo! Me perdoem por isso. Obs3: FABIAN, COMO É QUE TU ME DORME, CRIATURA? A ordem dos próximos capítulos é a que segue: Chris > David > Colton > Alan > Andreas > Lawrence > Oliver > Fabian e então TERMINA o primeiro arco da história. Para o segundo arco, haverá uma surpresa para todos vocês ;) Beijos, gente querida!