A Carta Cinza

5 CAPÍTULO 4 - Aparências


Eliane chegou com pontualidade irritante.


Bateu na porta às 6h01 da manhã, como se estivesse cronometrando minha primeira resposta ao cargo.

Entrou com uma pasta na mão, o coque preso com precisão e o mesmo olhar que mistura disciplina com obrigação.


— Bom dia, Catarina. Temos muito a fazer hoje.


Abri espaço e a deixei entrar.


Ela olhou a casa com discrição, os olhos passando pelas frestas, as cadeiras tortas, o chão limpo com esforço.

Sem comentário algum, sentou-se e abriu o fichário.


— Sua cerimônia pública de união será realizada em dez dias. Será uma solenidade formal, transmitida para os núcleos principais e replicada em noticiários. Nada muito luxuoso, mas precisa parecer firme. Controlado. Digno.


Assenti.


— O orçamento virá da empresa do avô do ministro, como forma de gesto familiar. O senhor Raul Cunha foi engenheiro molecular, fundou a antiga “Moléculas-More” e acompanhava tudo o que o neto fazia no laboratório. O próprio Rafael estudou com ele.


— Você o conheceu?


— Não pessoalmente. Mas o país inteiro conhecia. — Ela fez uma pausa. — Agora é sua vez de representar essa continuidade.


Respirei fundo.

Não parecia real.

Mas, se eu não agisse logo, seria.


— Posso escolher a decoração?


Eliane levantou os olhos da pasta.


— Deve. O evento também é seu.


Pegou um tablet fino da bolsa e abriu uma galeria de modelos.


— Flores, paleta de cores, disposição de mesa, luz. Escolha o que quiser. Eu providencio tudo.


Folheei sem entender metade dos nomes dos arranjos, mas parei em tons de azul e dourado.

Gostava do contraste. Da ideia de céu e metal. Do contraste entre o que voa e o que pesa.


— Posso pedir outra coisa?


— Depende.


— Roupas. Para a minha família. Muita gente rica vai participar… eles não têm nada que sirva para isso.


Eliane cruzou os braços, pensativa, mas não pareceu surpresa.


— Eu já solicitei que fossem enviadas pessoas para tirar as medidas de todos. Não apenas roupas: postura, cabelo, higiene, comportamento. Sua família estará impecável. Mesmo que não entenda exatamente por quê.


— Obrigada… — murmurei.


— Você se antecipou, o que é ótimo. Continue assim.


Fechou a pasta.


— Agora, hora de treinar presença. Postura de entrada, linguagem corporal para entrevistas, reação em fotos ao lado do ministro.


Eu hesitei.


— E ele? Jorge… está onde?


Eliane soltou um riso curto, quase sarcástico.


— Você não anda lendo os jornais holográficos que vieram no seu celular, não é?


Senti minhas orelhas queimarem.


— Eu... ainda não aprendi a mexer em tudo.


Ela apenas levantou uma sobrancelha e sentou dizendo que teríamos uma pequena pausa.


— O Ministro Rafael está viajando para o país de Salles. Reunião sobre intercâmbio genético. Está nos noticiários desde ontem. Ele é a principal pauta do ano.


Engoli seco e peguei o celular de cima da mesa.

Toquei na tela, mas não ativei o modo holográfico, eu ainda não sabia mexer por completo, mas as coisas as vezes eram fáceis de achar.


Abri o campo de mensagem:


“Espero que sua viagem tenha sido boa.”


Enviei. Simples assim.


Não havia motivo para ele responder.

Mas, pela primeira vez, eu quis que respondesse.

“A viagem correu bem.”


Catarina:


“Que bom.”

“Espero que não tenha sido muito cansativa.”


Demorou uns segundos.

Aqueles segundos que deixam a gente tentando adivinhar se a pessoa está escrevendo… ou ignorando.


Rafael:


“Não costumo me cansar com trabalho.”


Sorri sozinha. Era a cara dele responder desse jeito.


Catarina:


“Eliane já me passou tudo da cerimônia.”

“Estou tentando fazer do jeito certo.”


Rafael:


“Você vai conseguir.”

“Já está fazendo o necessário.”


Li a frase duas vezes.

Talvez fosse elogio.

Ou só constatação.


Catarina:


“Você vai estar lá?”


Rafael:


“Sim.

“Sempre estarei onde for preciso.”


Essa última frase ficou piscando na tela.

Eu li como uma promessa.

Talvez não fosse.

Mas naquele momento, eu quis que fosse.


Catarina:


Obrigada por responder.


Rafael:


“Não precisa agradecer por obrigação.”


Demorei pra digitar a próxima. Apaguei e reescrevi umas três vezes.


Catarina:


“Não foi por obrigação.”


A conversa parou ali.


Mas eu fiquei olhando pra tela mais um pouco.

Não esperando outra resposta.

Só... acompanhando a respiração no peito.

O jeito que ela parecia mais leve do que antes.


Eliane entrou no quarto logo depois.


— Treino de imagem à tarde, leitura de pronunciamento à noite. E... — ela me encarou com um sorriso discreto — já respondeu?


Assenti com um meio sorriso.


— Ele disse que vai estar onde for preciso.


— Hum. Bem estilo dele.


— Você o conhece bem?


— Ninguém conhece bem. — Ela fez uma pausa. — Mas ele não falta.


Eliane me fez andar em linha reta pelo quintal batido, com os chinelos de borracha da minha mãe. Disse que o importante era manter a coluna ereta, o peito projetado, o queixo firme — mas não arrogante.

— Você tem que parecer natural. Mas com domínio. Como se estivesse sempre no controle, mesmo quando não está — disse ela, andando atrás de mim.

Miriam e Maria Eduarda ficaram bisbilhotando pela janela do quarto, com os olhos arregalados e os dedos grudados no vidro. Riam e cochichavam, como se fossem aprender também pra usar na cerimônia.

— Elas querem fazer igual — murmurei.

— E talvez façam — respondeu Eliane, sem nem olhar. — Isso não é um desfile. É uma apresentação pública. Sua imagem não é sua, Catarina. É do sistema. Seu corpo está dizendo que você foi aceita por ele.

Parei por um segundo.

— E se alguém... não aceitar?

Eliane me olhou com calma.

Virou as páginas da prancheta.

Falou como quem já viu isso muitas vezes.

— Algumas pessoas serão grosseiras com você. Especialmente mulheres.

— Mulheres?

— Sim. Não por você. Mas por ele.

— Fez uma pausa. — A maioria das mulheres que vai comparecer à cerimônia são Pratas. Nasceram Pratas. Cresceram cercadas por outros Pratas. Muitas são casadas entre si — primas, irmãs de aliados. São parte do mesmo ciclo fechado.

Ela voltou a andar, riscando com o dedo uma linha invisível no ar.

— Você veio de fora. E, pior ainda... você é a única compatível com ele.

— Isso é... ruim?

— Isso é imperdoável pra quem acha que sangue define valor. — E então, com a voz mais baixa: — Mas ninguém é compatível com Rafael. Ninguém. Nem entre as Pratas. Só você.

Então não deixe que te abalem.

Fiquei quieta.

Não porque doeu.

Mas porque eu nunca tinha pensado que minha existência — o simples fato de ser compatível com alguém — pudesse ofender tanto.

Eliane me olhou mais uma vez, seca, mas sincera.

— Se te olharem torto, sorria. Se murmurarem, finja que não escutou. A maioria das pessoas grosseiras tem cargo alto demais pra se preocupar com quem elas machucam. — Mas Eliane abriu um sorriso quase robótico. — Mas você vai estar acima de todas elas.

Assenti.

Endireitei os ombros.

E continuei andando.