A Carta Cinza
6 CAPÍTULO 5 - O dia
Passou-se uma semana desde que começamos os treinamentos.
Rafael não respondeu mais nenhuma das minhas mensagens. Nenhuma. Nem um “visto”.
Eliane dizia que ele estava em “agenda ampliada internacional”, o que parecia uma desculpa pronta. Mesmo assim, todo dia eu checava a tela do celular. Às vezes só pra confirmar que ainda estava funcionando.
Enquanto isso, os ensaios de postura e fala seguiam. Meus irmãos passaram a me chamar de "senhora Cata", rindo escondido no quintal. Eu fingia que não ligava. Talvez não ligasse mesmo.
Na manhã do sétimo dia, Eliane apareceu mais cedo que o habitual.
Dessa vez, entrou sem pedir. Sentou-se à mesa, abriu um pequeno painel dobrável e anunciou, como se estivesse lendo o clima:
— Hoje chega a equipe de preparação familiar.
— Equipe? — minha mãe perguntou, parando de cortar abóbora. — Pra quê?
— Medidas. Avaliação de imagem. Roupa, cabelo, unhas, dentes, postura, vocabulário básico. A cerimônia exige coerência visual.
Minha mãe arregalou os olhos.
— Mas a gente não vai casar, não... só ela...
— Sim. Mas vocês serão filmados. A população analisa tudo. Vocês precisam parecer... consistentes.
O silêncio foi quebrado pelo meu pai, que chegou da rua, limpando a poeira da bota no batente. Olhou Eliane de cima a baixo, depois pra pasta cheia de gráficos e papéis que ela mexia.
— Desculpa perguntar... você é gente mesmo?
Eliane levantou os olhos, impassível.
— Depende do que o senhor chama de “gente”.
— Tô falando sério.
— Eu também. Algumas das minhas funções foram automatizadas. Minhas decisões seguem linha institucional. Tecnicamente, sou uma assistente humana com protocolos de execução... otimizados.
Silêncio.
Meu pai cruzou os braços.
— Então é um robô?
Eliane encarou ele por dois segundos.
— De certo modo, sim.
Ninguém sabia se era uma piada. Nem ela demonstrou se era.
— Ah — murmurou minha mãe. — Agora entendi o porquê desse jeito dela.
Antes que alguém fizesse mais perguntas, uma van prateada parou em frente à nossa casa.
Desceram três pessoas: uma mulher com um jaleco azul claro, um homem de blazer creme, e outra com uma maleta cheia de instrumentos digitais.
— Residência de Catarina Gaia? — perguntou a mulher, formal.
— Sou eu.
— Viemos medir todos os membros familiares. Por favor, um por vez, por ordem de idade.
Os meninos gritaram, assustados. Miriam chorou porque não queria “cortar o cabelo igual o de casamento”.
Minha mãe ficou sem graça com a ideia de alguém mexer nela.
Meu pai, como sempre, sentou na cadeira da varanda e não disse nada. Só observou.
Eliane ficou ao lado deles, guiando a equipe.
— Eles vão passar creme, ajeitar os dentes, pintar as unhas e ajustar o cabelo. — Ela virou pra mim. — E depois vão tirar uma foto oficial de cada um.
— Tudo isso? — minha mãe murmurou.
— Tudo isso é o mínimo.
A casa virou um salão improvisado. Pratos de plástico, cheiro de tinta de cabelo, pente quente no fogão.
Enquanto isso, eu fiquei sentada na beirada da cama, com o celular na mão.
Olhei de novo pra tela.
Nada do Rafael.
Respirei fundo.
Lembrei do que Eliane dizia sempre que ele ignorava:
“Ele não responde, mas acompanha tudo.”
Mesmo assim... doía um pouco.
Não ser respondida é uma coisa.
Ser esperada, silenciosamente, é outra.
No dia da cerimônia, o carro chegou antes do sol nascer — como tudo que mudava a minha vida ultimamente.
Era preto e silencioso, com vidros espelhados e bancos que afundavam como água.
A porta foi aberta por um funcionário que me chamava de “senhorita”, mesmo que a papelada dissesse “esposa”.
Eliane me entregou o discurso impresso em papel reciclável com bordas metálicas.
— Se travar, não tente improvisar. Respira. Olha pra frente. Espera. E continua.
Assenti.
Já no banco de trás, com o vestido azul claro pressionando meus ombros e as joias pesando mais do que eu achava que pesariam, segurei o papel com força.
Li cada linha. E depois de novo. E de novo.
"É uma honra representar a continuidade funcional de um país que acredita na ciência…"
"Estou disposta a cumprir com responsabilidade minha designação genética…"
"Confio nas diretrizes do nosso Ministério…"
Nada daquilo era meu. Mas era minha voz que ia falar. E isso ainda significava alguma coisa.
Olhei o reflexo no vidro do carro. A maquiagem profissional, o cabelo estava solto com ondulações nas pontas.
O salto fino.
Suspirei. Tentei mexer a perna, mas ela estava presa pela própria estrutura do vestido.
— Está desconfortável? — perguntou Eliane.
— Muito.
— Normal. Você vai se acostumar. Os cargos vêm com trajes desconfortáveis.
Fiquei em silêncio.
Depois olhei meu reflexo de novo e falei, mais pra mim mesma do que pra ela:
— Eu nunca me vi tão bonita.
Ela me olhou de canto, mas não disse nada.
Talvez fosse a primeira vez que me viu admitir isso.
Talvez ela soubesse o quanto doeu pra eu acreditar nessa frase.
***
Do lado de fora, o palácio cerimonial surgia entre árvores alinhadas e pedras polidas.
Jornais holográficos já noticiavam nossa chegada. Câmeras giratórias se posicionavam no ar.
Rafael ainda não tinha respondido.
Mas eu ia subir naquele palco com o nome dele.
E ninguém mais podia fazer isso além de mim.
***
O salão cerimonial era frio, bonito e impessoal.
Tinha o cheiro de lugar limpo demais. Superfícies lisas, flores que pareciam montadas à mão, e um palco elevado com dois microfones perfeitamente alinhados.
As pessoas chegavam em silêncio elegante.
Ninguém falava alto. Ninguém esbarrava. Cada gesto parecia ensaiado.
O sussurro das pulseiras de prata se misturava ao som de sapatos caros no piso.
Eu fiquei de pé, ao lado do púlpito, como ensaiado.
Com as mãos sobre o discurso dobrado e o coração batendo rápido demais para o meu rosto continuar normal.
Os olhares vinham como lanças silenciosas.
Algumas mulheres sorriam. Outras apenas me examinavam, como quem avalia uma vitrine.
Eliane estava a poucos metros de distância, com um ponto no ouvido e uma prancheta digital. Deu um leve aceno com a cabeça.
Eu já tinha sido fotografada.
Já tinham falado sobre mim nos boletins internos.
Mas ali… ali era a primeira vez que o país inteiro ia ver. Mesmo que o país não se importasse com mais uma esposa qualquer anunciada num rádio qualquer de uma revista de folhetim.
Ah... Certo. Eu tomei as vitaminas mais cedo. Apenas respirei fundo.
O Rafael...
E ele ainda não tinha chegado.
***
— Convidados, por favor, silêncio para a entrada do Ministro Jorge Rafael Prado Cunha — anunciou uma voz sem rosto, amplificada por todo o salão.
O ambiente congelou.
Ele surgiu pela lateral, caminhando sozinho. Sem comitiva, sem segurança visível.
Alto, postura impecável, cabelos negros penteados pra trás.
Usava terno cinza-escuro de corte militar e uma pulseira Prata com um símbolo azul que eu nunca tinha visto antes.
Mas foram os olhos que me prenderam.
Lilases.
De verdade.
Não era lente.
Não era brilho.
Eram olhos naturalmente claros demais, parecendo distantes até quando olhavam direto pra mim.
Ele subiu ao palco sem pressa. Sem pressa nenhuma.
Me olhou por um segundo como se estivesse verificando se tudo estava no lugar.
Não sorriu. Não acenou. Apenas assentiu com a cabeça.
E aquilo, vindo dele, era o equivalente a um gesto íntimo.
Ficamos lado a lado no centro do palco.
Catarina Gaia e Jorge Rafael.
O Ministro técnico e a garota que ninguém sabia de onde tinha saído — só que era a única possível.
Eu senti o peso da luz sobre o rosto.
A câmera sobre mim.
A expectativa presa no ar como arame invisível.
E então… respirei.
Não pra ele.
Pra mim.
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