A Carta Cinza
3 CAPÍTULO 2 - A Caixa
Eu recebi uma entrega de tarde.
A caixa estava em cima da mesa quando voltei do mercado.
Selada com plástico rígido, sem remetente visível, só um símbolo do Ministério da Tecnologia no canto. Ninguém se atreveu a tocar. Meus irmãos menores cercavam a embalagem como se ela pudesse explodir.
— É pra você, Cata! — gritou Mariana.
Minha mãe nem olhou. Estava ocupada tentando acalmar o caçula, que chorava porque queria leite e não tinha mais. Ela resmungou alguma coisa sobre “gente grande inventando moda” e saiu pra varrer o quintal.
Peguei uma faca sem ponta e cortei a lateral da caixa. Dentro, envolto em espuma preta, havia um celular. Mas não um celular qualquer. Era o tipo que a gente só via nos cartazes do governo — liso, preto, com bordas metálicas e visor holográfico.
Eu nunca nem tinha tocado num aparelho assim.
A tela acendeu com um toque. E antes que eu conseguisse explorar qualquer coisa, ele vibrou.
“Ligação entrando – Número Classificado”
“Chamador: Rafael Cunha – Autorizado”
Toquei. Respirei.
— Catarina Gaia?
A voz era firme, seca. Não parecia de alguém perguntando — parecia de alguém checando se o número estava funcionando.
— Sou eu.
— Sou Jorge.
Minha mão congelou sobre a embalagem. Me afastei do barulho das crianças e entrei no meu quarto, fechando a porta atrás de mim.
— Oi… — foi tudo que consegui dizer.
— Você não esperava que eu ligasse? — ele cortou. — Eu também não. Mas fui informado de que você estava demorando para responder às instruções. Então estou resolvendo diretamente.
— Eu li a carta. Só ainda não consegui organizar tudo…
— Você deveria ter começado ontem. Já perdi tempo demais esperando um retorno.
O tom dele era cortante. Falava comigo como quem gerencia uma falha técnica, não uma pessoa.
— Eu trabalho o dia inteiro. Estudo à noite. Tenho irmãos pequenos.
— Não me interessa sua rotina pessoal. Me interessa o cumprimento da designação.
— Pausa. — Você precisa aumentar sete quilos. Está abaixo do peso mínimo recomendado. Estou enviando um suplemento genético com a próxima entrega do núcleo. Pegue e consuma com responsabilidade.
Engoli seco.
— Certo. Obrigada… eu acho.
— Não precisa agradecer. Só me diga: você sabe falar em público?
— O quê?
— Falar. Em eventos. Sorrir sem parecer forçada. Consegue?
— Eu… posso tentar.
— Ótimo. Vai precisar. — Pausa. — Quando fomos nos apresentar oficialmente… eu li seus relatórios escolares.
Fiquei em silêncio por um segundo.
— Você leu minhas redações?
— Todas. Você se comunica melhor que a média. Vai aprender a fazer isso por mim. Vai sorrir por mim.
— E você vai aprender a sorrir por mim?
Silêncio.
— Não.
A ligação caiu.
Fiquei olhando pra tela brilhante por alguns segundos.
Depois, encostei o celular na cômoda e me encarei no espelho rachado.
Acho que ele não vai me matar.
Tentei sorrir.
Não deu certo.
Tentei de novo. Horrível.
Fechei os olhos. Respirei fundo. Pensei em algo bom.
O cheiro do café no mercado.
O som dos meus irmãos me chamando “Cata” quando estavam com fome.
A sensação de entender uma palavra difícil num texto difícil.
Sorri.
Quase funcionou.
— CATARINA! — gritaram do outro lado da porta.
— CATAAAA! TEM PÃO!
Suspirei e abri a porta.
Cinco crianças me olharam como se eu tivesse nascido pra salvar a tarde delas.
— Não é pão. Mas tem mandioca. Com sal.
— Rodelinha!
— Faz agora, Cata!
Descemos juntos.
Na cozinha, minha mãe já dormia sentada na cadeira, com o rádio chiando uma transmissão sobre fertilidade obrigatória e estabilidade nacional.
Fritei a mandioca enquanto minha irmã me abraçava pela cintura.
— Você vai casar mesmo?
— Parece que sim.
— Vai embora?
— Vou.
— Mas volta, né?
Olhei pra Miriam. O cabelo bagunçado, o dente de leite faltando. Os olhos cheios de sapequice.
— Volto.
E naquele momento, mesmo sem certeza nenhuma, eu quis que fosse verdade.
Desci para fritar a macaxeira. Confesso que meu instinto maternal era maior por causa dos meus irmãos, mas ao mesmo tempo, eu tinha vontade de largar o colégio para cuidar deles.
Fui egoísta ao pensar que eu poderia conseguir um emprego melhor se eu soubesse ler algumas coisas e interpretá-las.
Comecei a trabalhar no mercado porque a única pergunta que o dono me fez foi se eu sabia ler e ainda estava no colégio.
E com isso recebi um pouco melhor que as pessoas da mesma classe que eu recebem.
O cheiro da macaxeira se espalhou.
Quando meu pai chegou — sujo de poeira vermelha, botas gastas, cheiro de ferro e cansaço — os meninos entraram em festa.
Eles o idolatravam.
Pulavam em cima dele como se ele fosse um herói.
Ele riu, pegou dois no colo e disse:
— Já tem comida?
— Tem macaxeira, pai! Cata fez!
Ele me olhou com um aceno curto.
— Sua mãe tá onde?
— Lá fora, varrendo o quintal.
Ele suspirou, tirou as botas e disse:
— Então vou comer depois. Ela não quis entrar. Acho que não quer me ver agora.
Ninguém insistiu.
Ele se sentou com os meninos no chão da cozinha, comendo direto da panela.
Como se nada tivesse mudado.
Como se a filha mais velha não estivesse prestes a ser arrancada dali.
Mas naquele momento, eu só queria segurar tudo junto por mais um dia.
Ele comeu a macaxeira devagar, mastigando como se o mundo tivesse tempo.
Os meninos falavam todos ao mesmo tempo, brigando por pedaços maiores.
Eu me sentei no batente da porta, observando.
Quando as panelas estavam quase vazias, ele me olhou com mais atenção.
Olhou mesmo.
— Esse pacote que chegou hoje… era seu?
Assenti.
— Aquilo era celular de ministro, Cata.
— Eu sei.
Ele limpou a boca com a mão. Olhou pros meninos.
— Saiam um pouco.
Eles foram sem reclamar, o que já dizia tudo.
Ficamos sozinhos.
— Que história é essa de casamento?
— Designação obrigatória. Genética. Classe mais alta. Parece que sou compatível com o Ministro Jorge Rafael. Da Prata.
Ele demorou pra responder.
Mastigava o silêncio como se fosse caro.
— E isso é... bom?
— Não sei.
— Vai casar?
— Vou.
— Quer?
— Não tenho escolha.
Ele se recostou na parede, olhou pro teto como se tentasse achar explicação ali. Depois me encarou, com o rosto sério e os olhos fundos.
— Então faz direito. Não enrola. Não desobedece. Esse povo... não gosta de “não”.
Assenti.
— Mas se ele for ruim contigo... se fizer qualquer coisa errada...
Ele não terminou a frase. Mas o aperto no punho dizia tudo.
— Eu volto — prometi.
Ele balançou a cabeça.
— Só com autorização dele. Não quero encrenca. Você manda uma carta, manda um recado... mas não foge. Entendeu?
— Entendi.
Ficamos quietos por um tempo. O rádio ainda chiava na sala, mas bem baixinho agora.
— E vai ter festa? Igual as pessoas ricas fazem?
— Acho que sim. Pelo menos uma cerimônia pública. Uma coisa... oficial.
Ele riu, pequeno.
— Sua mãe sempre sonhou em usar um vestido azul. Disse que no casamento a gente usou branco emprestado, mas que azul teria sido melhor pro tom da pele. Eu falei que ela estava linda.
— E estava?
— Linda. Mas eu era mais bonito.
— Ele sorriu de canto. — Você puxou mais pra mim.
Eu ri.
E aí, sem saber por que, meus olhos encheram.
Ele me olhou de novo, e os dele também começaram a brilhar.
Mas nenhum de nós dois chorou de verdade. Não com lágrimas abertas.
Só... deixamos o ar pesar nos olhos. E ficamos ali, um de frente pro outro, tentando não desmontar.
— Não esquece da gente, Cata.
— Nunca.
Nos abraçamos. Foi um abraço duro, forte. Sem palavras doces, sem beijo na testa.
Apenas braços apertados e um coração batendo no outro.
De pai pra filha.
De quem sabia que aquele momento era um fim — mesmo que o começo estivesse sendo prometido.
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