A Carta Cinza

4 CAPÍTULO 3 - Ninguém Nem Ousava


A encomenda chegou antes do sol subir.


Meu nome estava impresso numa etiqueta branca, com um código grande e frio logo abaixo.

O símbolo do Ministério da Tecnologia e Continuidade Genética cobria metade da tampa da caixa.

Era mais uma daquelas entregas que ninguém ousava tocar. Nem minha mãe, nem os meninos.


Eu mesma levei pro quarto.


Dentro, duas divisões.

Na primeira: uma fileira de frascos pretos, com tampa metálica e etiquetas seladas. Suplemento genético, com a instrução escrita em letras cinzas:


“Consumir duas cápsulas por dia com alimento sólido. Não interromper sem liberação médica.”


Na segunda: uma pasta dobrada, com papel plastificado.

E, debaixo dela, uma pilha de roupas novas, dobradas com precisão militar.

Vestidos longos. Saias discretas. Camisas de gola alta.

Tecidos que eu nunca tinha tocado na vida — leves, mas pesados de aparência.

E tudo do meu número.


Na pasta, uma folha destacada com o brasão do governo. O título em negrito:


Agenda e Perfil do Ministro Jorge Rafael (uso orientativo)


Eu li inteira.

Documento Oficial:


Assunto: Agendamento, Funções e Diretrizes Conjugais – Rafael C. Cunha

Classificação: Informativo interno de alinhamento pré-matrimonial

Data: 13 de Quarto – 345


Prezada Catarina,


Por solicitação da Diretoria Executiva, seguem abaixo informações essenciais para sua integração à rotina e às exigências protocolares do Ministro Técnico Jorge Rafael Prado Cunha, atual dirigente do Ministério da Tecnologia e Continuidade Genética, com quem a senhora foi oficialmente designada para união funcional prioritária.


O Ministro ocupa um cargo técnico vitalício no Governo Federal, concedido por mérito genético e competência operacional em áreas sensíveis da política de continuidade populacional.


Não exerce função política tradicional. Atua como responsável máximo por decisões técnicas e científicas que afetam a reprodução nacional, o controle genético intercastal e o armazenamento populacional.

Sua função é permanente e indelegável.


Quadro Resumido:

Item Descrição

Nome completo: Jorge Rafael Prado Cunha

Classe: Prata (com extensão funcional exclusiva)

Idade: 27 anos

Cargo: Ministro Técnico do Governo Federal

Pasta: Ministério da Tecnologia e Continuidade Genética

Tempo no cargo: 5 anos

Formação: Engenharia Molecular (Com Laúrea acadêmica)

Acessos especiais: Banco Genético Nacional, anteriormente “Moléculas-More”, empresa de seus parentes.


Nota da secretária (anexada no fim):


“Não se ofenda com a frieza. Esse é o jeito dele.

Ele não odeia você. Ele simplesmente não funciona como a maioria das pessoas.”


Atenciosamente,

Elaine Brandão

Secretaria Técnica do Gabinete Executivo


Fechei o documento. Encostei na cama. Olhei as roupas de novo.

Horas antes, numa mensagem breve, Jorge tinha escrito:


“Escolha o que for necessário. Eu não entendo de roupas femininas. Mandei várias opções.”


Então escolhi o que achei bonito. Discreto. Mas bonito.


Na manhã seguinte, vesti um dos conjuntos.

Olhei no espelho rachado do quarto.

Fiquei com a impressão estranha de que alguém muito mais importante do que eu me olhava de volta.

Alguém que parecia preparada.

Mesmo que não estivesse.


Coloquei o vestido bege claro de tecido fosco.

Ele era simples, mas estruturado.

Tinha um corte reto, gola alta e um caimento que me fazia parecer mais alta.

O sapato combinava: discreto, quase silencioso ao andar.


— A Catarina já está pronta? — escutei do lado de fora.

Coloquei a cabeça para fora da janela. Era o mesmo segurança do outro dia.

Dessa vez ele veio sem o técnico.


Terminei de me arrumar, beijei a cabeça da minha mãe e saí de casa antes que meus cinco irmãos viessem chorar no meu ouvido.


Saí com uma pasta em mãos — o primeiro dos documentos que a secretária tinha me deixado para revisar.

Ainda não tinha ideia de onde eu estava indo exatamente. Me disseram apenas:


“Você precisa ser vista. Sem barulho. Sem discurso. Só presença.”


Fui até o terminal do Núcleo, atravessando um dos corredores externos com sombra e bancos de ferro branco.

Pessoas passavam — maioria de pulseira azul e branca.

Quando me viram, alguns pararam. Outros disfarçaram, mas olhavam de canto.


Um homem se aproximou, pulseira branca, com um crachá digital:


— Perdão, a senhorita é...?


— Catarina Gaia. Designada ao Ministério da Tecnologia.


O funcionário olhou para minha pulseira, ainda desconfiado da minha verdadeira origem.


— Pode me dar sua pulseira para identificação?


Estendi o pulso e ele passou o identificador.


— Por que você ainda não atualizou sua pulseira?


— O Rafael ainda não mandou...


— Ah... é... Eu vou manter durante a montagem das fotos. Talvez seja bom para a população saber que incluímos vocês na sociedade. Cuidamos de vocês... Ah — suspirou. — Vamos?


— Sim.


— Posso tirar uma foto sua para o boletim interno?


— Claro.


Fiquei reta, ajeitei o cabelo e tentei sorrir.

Mas ele não tirou só uma. Ele tirou várias.


Depois, outras duas pessoas se aproximaram, uma senhora e uma jovem.


— É só pro jornal informativo do Núcleo — explicaram. — A população precisa se familiarizar com os rostos que fazem parte da nova geração pública.


— Claro, tudo bem — repeti, com educação.


Eles me perguntaram de onde eu era, como era minha vida antes da designação.

Respondi tudo com gentileza.


— Você fala muito bem — disse uma mulher de óculos pequenos. — E seus olhos… são de uma cor comum, mas têm um formato bonito.


Sorri.


— Obrigada. Nunca tinha escutado isso.


— É sério. E isso é importante agora. O jeito como você olha diz muito pra quem tá do outro lado da tela. Espero que dê tudo certo para você.


Fiquei quieta por um instante. Era como se estivessem me apresentando pra mim mesma pela primeira vez.


Depois de algumas fotos, me agradeceram, apertaram minha mão com cuidado — como se eu fosse mais frágil do que sou — e voltaram aos seus setores.


Fiquei ali, sozinha por um momento.

Com a pasta na mão e a cabeça girando.

As roupas novas, o suplemento, o rosto que eles agora conheciam.

Nada daquilo era mais meu.

Mas o modo como sorri para eles... foi.


Voltei para casa com o mesmo rapaz.


— Eu também já tirei foto com o pessoal do folhetim — disse ele, tentando me confortar. — Quando mudamos para a classe Prata ou funcionário de Pratas, somos obrigados a cumprir esse dever cívico.


— Apenas os Pratas tiram fotos?


— Sim... Eu já fui um Azul, mas consegui fazer uma prova e ser selecionado como o motorista oficial do Ministro Técnico. E agora, sirvo a senhorita também.


— Temos que mudar de pulseira então...


— Não se preocupe, é apenas um choque leve na hora da troca.


Esse choque deve servir para lembrarmos de onde viemos...


Pensei comigo, mas não expressei mais nenhuma opinião.

Fiquei com a cabeça cheia de pensar nisso.

Sinto como se estivesse abandonando minha família.