A Canção de Morgana
15 Sobre Testes, Ofertas e Disfarces
Notas iniciais
Tal como Hermione previra, os períodos livres do sexto ano não eram as horas de abençoada descontração imaginadas por Rony, mas aquelas em que se tentava dar conta da vasta quantidade de deveres que eram passados. Não somente estavam estudando como se tivessem exames todos os dias, mas a dificuldade das lições em si exigiam agora muito mais deles do que antes. Harry mal compreendia metade do que a Professora McGonagall lhes havia dito nesses dias; até mesmo Hermione teve de pedi-la para que repetisse instruções uma ou duas vezes. Feitiços não-verbais eram agora muito aguardados, não apenas em Defesa contra a Arte das Trevas, como também em Feitiços e Transfiguração.
Harry frequentemente olhava para seus colegas ao redor da sala comunal ou na hora das refeições e via-os com o rosto roxo e repuxando como se tivessem sofrido uma overdose do Aperto-Você-Sabe-Onde; mas ele sabia que eles apenas estavam se esforçando para que os feitiços funcionassem sem que fosse preciso dizer os encantamentos em voz alta. Era um alívio ir para as estufas; em Herbologia estavam trabalhando com plantas mais perigosas do que nunca, mas pelo menos ainda podiam xingar em voz alta se um dos tentáculos venenosos os agarrasse inesperadamente pelas costas. Uma das evidências da enorme dedicação e das frenéticas horas de prática aos encantos não-verbais dos alunos era que Harry, Rony e Hermione estavam longe de ter tempo livre para ir visitar Hagrid. Ele não estava comparecendo às refeições no Salão Principal, o que era um mau sinal, e nas poucas ocasiões que os garotos passavam por ele nos corredores ou nos jardins, Hagrid estava misterioso demais para notá-los ou ouvir seus cumprimentos.
— Nós temos que nos explicar — disse Hermione, olhando para a imensa cadeira vazia na mesa principal durante o café da manhã do sábado seguinte.
— Nós temos que treinar quadribol esta manhã! — retrucou Rony. E vamos supostamente praticar aquele Feitiço Aguamenti do Flitwick! De qualquer maneira, explicar o quê? Como vamos contar que odiamos essa matéria idiota?
— Não detestávamos — protestou Hermione.
— Fale por si mesma, eu ainda não esqueci dos explosivins — disse Rony obscuramente. — E vou te dizer agora, nós escapamos por pouco. Se tivéssemos ficado, íamos acabar ensinando Grope a amarrar os cordões dos sapatos!
— Eu odeio ficar sem falar com Hagrid — exclamou Hermione aborrecida.
— Iremos até lá depois do quadribol — Harry assegurou-lhe. Ele também sentia falta de Hagrid, embora, como Rony, pensava que estavam melhores sem Grope em suas vidas. — Mas, pelo número de pessoas que se inscreveram, os testes podem levar a manhã toda. — Ele se sentiu ligeiramente nervoso de ter que enfrentar sua primeira tarefa como capitão. — Eu não sei o motivo dessa popularidade tão repentina do time.
— Ah, fala sério, Harry — impacientou-se Hermione — Não foi o quadribol que ficou popular, foi você! Você nunca foi tão interessante, e para ser sincera, nunca foi tão desejável como agora.
Rony engasgou com um pedaço grande demais de salmão. Hermione dedicou-lhe um olhar de desgosto antes de voltar-se para Harry.
— Agora todo mundo sabe que você está dizendo a verdade, não é? Toda a comunidade mágica teve de admitir que você estava certo sobre Voldemort ter voltado, e que você realmente encontrou com ele nos últimos dois anos, escapando nas duas vezes. E agora estão te chamando de O Escolhido. Bem, fala sério, você não entende por que as pessoas estão fascinadas por você?
De repente Harry começou a achar o Salão Principal muito quente, ainda que o teto continuasse parecendo frio e chuvoso.
— E você sofreu aquela perseguição do Ministério quando eles estavam tentando pintá-lo como inseguro e mentiroso. Ainda dá pra ver as marcas nas costas de sua mão de quando aquela mulher diabólica te fez escrever com seu próprio sangue, mas você continuou firme com a sua história...
— Ainda dá pra ver as marcas deixadas pelos miolos que me agarraram no Ministério, veja — disse Rony, puxando suas mangas para trás.
— E não foi nada mal você ter crescido uns trinta centímetros nesse verão — concluiu Hermione, ignorando Rony.
— Eu sou alto — disse Rony sem motivo aparente.
O correio matinal chegara, as aves mergulharam pelas janelas salpicadas de chuva, espalhando pingos de água em todo mundo.¹ A maioria dos alunos estava recebendo mais correspondência do que o habitual; parentes ansiosos estavam aflitos para saber de seus filhos e tranqüilizá-los, por sua vez, de que tudo estava bem em casa. Harry recebera uma carta de Sirius recentemente, e se surpreendeu ao ver uma coruja desconhecida, amarela e marrom, voar até ele e deixar um envelope em cima do seu prato vazio.
— É de Gina — reconheceu um pouco surpreso, sem se dar conta de que a coruja que fizera a entrega agora bebia iogurte de limão direto do seu copo.
— É mesmo? Ela nunca escreve pra mim, porque escreveria para você? Tenho que saber as notícias por mamãe todas as vezes — Rony estranhou. — Abre logo, quero saber o que está dizendo.
— Hum, melhor deixar para mais tarde — Harry enfiou o envelope no bolso rápido, suas bochechas ficando quentes. Não tivera a coragem de contar a Rony que beijara sua irmã caçula no hospital no último dia de agosto; achava que o amigo jamais o perdoaria, se o jeito com que ele ainda encarava o último namorado de Gina, Miguel Corner, dizia alguma coisa.
Hermione olhou para ele com curiosidade, mas foi distraída por uma segunda aterrissagem de coruja, agora lhe trazendo seu exemplar do Profeta Diário. Folheou-o rapidamente e voltou à página principal.
— Algum conhecido morto? — Perguntou Rony com uma voz casual; ele fazia a mesma pergunta toda vez que Hermione abria o jornal.
— Não, mas houve mais ataques de dementadores — disse Hermione. — E prisões.
— Excelente, de quem? — perguntou Harry, pensando em Bellatrix Lestrange.
— Stan Shunpike — informou Hermione.
— Quê? — exclamou Harry pasmo.
— “Stanislau Shunpike, o popular condutor do transporte para bruxos Nôitibus, foi preso pela suspeita de envolvimento nas atividades de Comensais da Morte. Mr. Shunpike, 21 anos, foi colocado sob custódia noite passada, depois de uma batida em sua casa em Clapham…”
— O Lalau, Comensal da Morte? — Admirou-se Harry, lembrando-se do rapaz espinhento que conhecera há três anos. — Sem chance!
— Ele podia estar sob uma maldição Imperius — argumentou Rony. — Nunca se sabe.
— Não me parece que foi isto — disse Hermione, que continuava lendo. — Aqui diz que ele foi preso depois de uma conversa sobre os planos secretos dos Comensais da Morte num pub. — Ela olhou para cima com uma expressão conturbada no rosto. — Se ele estava sob o feitiço Imperius, ele jamais ficaria por aí fofocando sobre os planos deles, não é?
— Pelo jeito, parece que ele estava fingindo que sabia mais do que realmente sabia — disse Rony. — Não foi ele que disse que estava prestes a se tornar Ministro da Magia enquanto tentava impressionar aquelas veelas na Copa Mundial de Quadribol?
— Sim, ele mesmo — disse Harry. — Sinceramente, eu não sei o que eles estavam planejando, levando o Lalau a sério.
— Provavelmente o Ministério quer mostrar serviço — comentou Hermione, franzindo a testa. — As pessoas estão aterrorizadas. Você viu os pais das gêmeas Patil querem que elas voltem para casa? E Eloise Midgen já se foi. O pai a levou ontem à noite.
— Quê! — exclamou Rony arregalando os olhos para Hermione — Mas Hogwarts é muito mais segura que as casas deles! Nós temos aurores e todos os feitiços extras, e nós temos Dumbledore!
— Eu não acho que o tenhamos a todo o momento — replicou Hermione muito baixinho, olhando para a mesa dos professores por cima do Profeta. — Vocês não observaram? Seu assento esteve tão vazio quanto o de Hagrid na semana passada.
Harry e Rony olharam para a mesa principal. A cadeira do diretor estava decididamente vazia. Agora que Harry começava a pensar naquilo, ele não vira Dumbledore desde a sua primeira lição particular na semana anterior.
— Eu acho que ele deixou a escola para fazer alguma coisa para a Ordem — arriscou Hermione com uma voz baixa. — Quero dizer... As coisas parecem bem sérias, não parecem?
Harry e Rony não responderam, mas Harry sabia que estavam pensando a mesma coisa. Havia ocorrido um horrível acidente um dia antes, quando Hanna Abbott deixou a aula de Herbologia para saber que sua mãe fora encontrada morta. Eles não tornaram a ver Hanna depois daquilo.
Harry lembrou-se que Hermione mencionara prisões no plural quando abrira o jornal e achou que ainda podia ficar esperançoso.
— Quem mais foi preso? — perguntou ele, fazendo com que Hermione passasse para algumas páginas. Enquanto ela lia, sua expressão se tornou bem mais alarmada do que se tornara diante do primeiro nome.
— Ah, não. Ah, não, isso não é bom, nada bom.
— Quem? — sibilou Rony, até abaixando o garfo. Hermione deu uma olhada através da mesa antes de revelar, abaixando a voz.
— Bervely Black. Harry, você não disse que esse era o nome da outra filha de–
— Quê! — Harry se inclinou por cima da mesa e puxou o jornal da mão dela. Hermione não estava louca; a foto da garota que ele conhecera no hospital (e que zombara dele fingindo ser a versão mais nova de Bellatrix) lhe encarou de volta na foto da reportagem.
“Bervely Black foi detida na última quinta feira após um informante anônimo indicá-la como cúmplice na fuga do bruxo das trevas Sirius Black da prisão de Azkaban, há três anos. Vice-diretor do DELM, Elliot Purkes, acredita que a jovem pode estar envolvida em outro crime cometido no início desse verão, que resultou na morte de dois trouxas e um aborto em Surrey e foi inicialmente identificado como um incidente trouxa. Novas evidências apontam para o envolvimento da jovem Black com arte das trevas…
— Sirius — murmurou Hermione, horrorizada — Será que ele já está sabendo? Ele disse alguma coisa na carta que mandou para você, Harry?
— Não! — Harry estava chocado demais para raciocinar direito — Ele só mencionou como estava feliz com Johanne na Grifinória e que eu devia garantir que ela participasse dos testes para o time…
— Ela já devia estar aqui, falando nisso — lembrou-se Rony, checando ao longo da mesa à procura da garota — Ela se inscreveu para tentar uma posição de artilheira, não foi?
— Não tem como ela já ter lido o jornal, tem? Ou será que alguém avisou a ela mais cedo? — conjecturou Hermione com preocupação — Pensando bem, qual foi a última vez que qualquer um de nós a viu?
— Ontem a noite no Salão Comunal. Ela parecia ok — Harry lembrou-se. Ele sabia disso porque estava fazendo questão de achar a garota todos os dias depois do jantar e sentar-se por perto por algumas horas, para que ela pudesse ler um dos volumes grossos que costumava encarar antes de subir para o dormitório.
— Mas isso é loucura, como ela poderia ter ajudado Sirius? Ela não estava na escola na época que aconteceu? — Hermione especulou em voz baixa, pegando o jornal de volta e lendo a reportagem até o fim. — E que incidente no verão é esse? Não me diga que estão achando…
— Que foi ela quem tentou me sequestrar — disse Harry baixo, ainda esticando o pescoço para ter certeza que Johanne não estava à vista, talvez na mesa da Corvinal, onde ela ainda se sentava vez ou outra para trocar uma palavra com Luna antes do primeiro horário.
— Você acha que poderia ter sido ela?
— Não, não, eu não acho. Remus pensou o mesmo, mas ela estava internada no St. Mungus na época — disse Harry enquanto se levantava sem perceber — É melhor eu achar Johanne, não é? Quer dizer, alguém tem que contar pra ela…
— Você não pode, Harry — Hermione lhe lembrou olhando o relógio, também parecendo aflita — Marcou os testes do time para as nove, esqueceu? Metade de Hogwarts vai estar lá esperando.
De fato, Harry notou que vários dos colegas tinham interrompido o café da manhã ao vê-lo se levantar e pareciam prontos a seguí-lo até o campo.
— Eu vou — Rony anunciou, escorregando suas pernas longas para fora do banco — Você vai para o campo, Harry. Te encontro logo, vê se dá para deixar os testes de goleiro por último….
— Eu posso fazer isso — disse uma voz tranquila atrás deles, arrepiando os pêlos da nuca de Harry. Ele se virou para ver Luna, que também trazia consigo um exemplar do jornal nas mãos — Acho que sei onde ela está. Boa sorte hoje com os testes, Harry.
— Obrigado — agradeceu ele distraído, vendo em seguida Luna partir na direção à saída. Ele experimentou uma estranha sensação, como se estivesse perdendo algo importante que não sabia bem o que era.
Como Harry já esperava, os testes tomaram a maior parte da manhã. Metade da casa da Grifinória pareceu ter se entusiasmado: de alunos de primeiro ano que apareceram com as velhas e terríveis vassouras da escola, até alunos do sétimo ano, os quais agiam como se fossem bem melhores do que o resto.
Ele não conseguia parar de pensar se Sirius já sabia da notícia sobre Bervely Black. Mas é claro que o padrinho sabia, a garota fora presa na quinta feira, já faziam três dias! Harry queria acreditar que se algo tive acontecido com o padrinho ao receber a notícia (como novas paradas cardíacas), ele teria sido avisado.
Tentando se concentrar na tarefa em mãos, Harry decidiu começar com um teste básico, pedindo a todos os pretendentes a entrar para o time que se dividissem em grupos de dez e voassem ao redor do campo. Foi uma boa decisão: o primeiro grupo foi composto de alunos do primeiro ano, e não puderam voar sem que caíssem no chão logo depois. Somente um garoto conseguiu permanecer no ar por mais que alguns segundos, e com isso levou um susto tão grande que bateu prontamente em um dos aros do gol. O segundo grupo compreendia dez das garotas mais bobas que Harry já tinha visto, as quais, quando ele apitou, caíram na risada e ficaram se cutucando. Romilda Vance estava entre elas. Quando Harry disse-lhes para que saíssem do campo, elas deram pulinhos e foram sentar-se nas arquibancadas junto com os outros. O terceiro grupo fez um giro incompleto ao redor do campo. A maioria do quarto grupo chegou sem vassouras. Os do quinto grupo eram da Lufa-lufa, o que o levou a se irritar seriamente e mandar, aos gritos, que qualquer outro aluno que não fosse da Grifinória saísse do campo.
Após duas horas, muitas queixas e diversas irritações envolvendo uma Comet 260 estragada e dentes quebrados, Harry havia encontrado duas artilheiras: Katie Bell, de volta à equipe após um teste excelente; um novo achado que se chamava Demelza Robins, que era particularmente boa em evitar balaços; e Cristine Linch que era apenas razoável, mas ia ter que servir. Ele se viu desejando que Gina estivesse ali para fazer o teste, porque tinha certeza que ela seria a melhor de todas. Cogitou por um momento deixar a vaga da garota em aberto, mas sabia que não era justo. Pensou na carta dela em seu bolso, ainda sem abrir. Será que estava trazendo boas notícias, como que voltaria em breve e estaria de pé em tempo do primeiro jogo?
Harry teve que gritar asperamente com muitos companheiros insatisfeitos. Mais tarde, ele se achou numa batalha semelhante com os batedores rejeitados.
— Esta é a minha decisão final, e se não saírem do caminho eu vou azarar vocês! — gritou ele de cara feia, já cansado e querendo andar logo com aquilo, sua barriga roncando.
Nenhum de seus batedores escolhidos tiveram o brilhantismo de Fred e George, mas ele estava razoavelmente satisfeito com suas escolhas: Jimmy Peakes, um menino baixo, mas de compleição larga do terceiro-ano, que agitou o bastão furiosamente acertando um balaço que fez brotar uma protuberância do tamanho de um ovo na parte traseira da cabeça de Harry, e Ritchie Coote, que não era muito forte, mas tinha boa pontaria. Juntaram-se agora à Katie, Demelza, e Cristine nas arquibancadas para prestar atenção à seleção do último membro da equipe.
Harry tinha deixado deliberadamente a seleção dos goleiros por último, esperando que tivessem menos público à essa altura. Infelizmente, todos os jogadores rejeitados e um número de gente que tinha vindo para o campo prestar atenção depois do almoço tinha formado uma multidão, de modo que a audiência estava maior do que antes. Contudo não precisava ter-se preocupado: Rony defendeu um, dois, três, quatro, cinco faltas seguidas. Encantado, e resistindo aos aplausos da multidão com dificuldade, Harry foi até os outros concorrentes dizer-lhes que infelizmente, Rony os tinha batido, mas encontrou a cara vermelha de um garoto grandalhão que mais cedo tinha se apresentado como McLaggen.
— Bell não o testou realmente — disse McLaggen de modo ameaçador. Havia uma veia que pulsava em sua têmpora como Harry via frequentemente no tio Válter. — Ela deu-lhe defesas fáceis.
— Besteira — disse Harry friamente. Aquele foi o que ele quase perdeu...
McLaggen se aproximou de Harry, que agora estava no solo. — Dê-me outra chance.
— Não — disse Harry. Você teve sua chance. Você defendeu quatro. Rony defendeu cinco. Rony é o goleiro, ele ganhou honestamente. Saia de minha frente.
Harry pensou por um momento que McLaggen fosse o esmurrar, mas ele se satisfez com um sorriso feio e tempestuoso e se afastou, rosnando o que soava como ameaças soltas no ar. Harry girou ao redor para encontrar sua nova equipe sorrindo de alegria.
— Muito bem — disse a Rony, feliz — Você voou realmente bem!
— Você foi brilhante, Rony!
Desta vez era Hermione que gritava para eles das arquibancadas, e não Lilá, que exclamara alguns encorajamentos muito vigorosos enquanto Rony defendera os aros. Harry viu Lila diminuir o ritmo, de braço dado com Parvati, uma expressão levemente irritada. Rony deu um sorriso amplo para a equipe e para Hermione.
Após marcar o primeiro treino completo para a próxima quinta-feira, Harry, Rony e Hermione se despediram do resto da equipe e dirigiram-se em direção à cabana de Hagrid. Um sol aquoso agora tentava aparecer através das nuvens e havia parado de chuviscar finalmente.
— Eu pensei que não iria pegar a quarta falta — Rony disse feliz. Arremesso complicado de Demelza, você viu, teve um pouco de curva nele...
— Sim, sim, você foi magnífico — disse Hermione, olhando distraidamente na direção da cabana de Hagrid. Harry não deixou de notar que ela ficara menos enfusiva agora que Lilá não estava mais à vista.
Eles chegaram próximo o bastante para avistar Hagrid mexendo no jardim nos fundos da casa. O meio-gigante os reconheceu e, no momento seguinte, estava lhes dando as costas e sumindo para dentro da cabana, batendo a porta atrás de si com um estrondo.
— Ah, não — murmurou a garota, suspirando desanimada.
Não foi nada fácil convencer Hagrid a falar com eles, mas no final das contas o meio-gigante os deixou entrar, ainda de cara feia, servindo-lhes o bolo de carne mais duro que a Escócia já tivera notícias. Depois de convencê-lo de que a única razão pela qual não tinham pego Trato das Criaturas Mágicas naquele ano era por causa dos seus horários cheios, Hagrid amoleceu e acabou lhes contando as novidades. Aparentemente, Aragog, sua aranha monstruosa de estimação estava muito doente. Depois ele os deixou saber como seu meio-irmão Grope estava evoluindo em uma insuspeita criação de ovelhas nas montanhas e teve comentários a fazer quando Harry mencionou as duas prisões anunciadas no jornal aquela manhã.
— Lalau não poderia machucar um besouro-cascudo se quisesse, quanto mais se aliar à Você-Sabe-Quem. E essa garota Black, ajudar Sirius a fugir da prisão? Que grande bobagem! No ano que Sirius fugiu ela estava bem aqui em Hogwarts, monitora-chefe se bem me lembro. Ajudou um bocado com as Mandrágoras depois dos ataques do Basilisco, até a acompanhei ao Beco-Diagonal para comprar ingredientes para as poções uma vez…
— Você sabia que ela é filha de Sirius? — Harry lhe perguntou, mas Hagrid balançou a cabeça vigorosamente em negativa.
— Filha de Sirius? Nem pensar, isso deve ser boato, Harry. Eu já ouvi absurdos parecidos, ouvi por ai falando que ela era filha da própria Bellatrix Lestrange, a comensal da morte!
Hagrid silenciou quando viu o olhar significativo no rosto de Harry. O queixo do meio gigante caiu, levando a ponta da sua barba a tocar na barriga.
— Você ‘tá brincando!
Eles deixaram a cabana de Hagrid pouco tempo mais tarde, sem querer se atrasar para o jantar depois do trauma dos bolinhos de carne. No caminho para o castelo, se depararam com uma cena estranha na escadaria; Cormac McLaggen tentava entrar no castelo, mas na primeira tentativa ele errou a porta por meio metro e acabou tropeçando no batente e caindo sentado. Rony gargalhou, passando por ele direto, mas Harry lançou um olhar desconfiado na direção de Hermione. A garota o ignorou de propósito e adiantou o passo para dentro do salão na pista de Rony.
Harry reparou que Johanne também não estava na mesa da Grifinória para o jantar e ele não achou Luna em lugar nenhum também. Precisou correr para cumprir a detenção com Snape, que tinha conquistado no primeiro dia de aula. O professor o fez classificar vermes podres para serem usados em poções, sem luvas, pelas duas horas seguintes. Quando Harry finalmente foi autorizado a sair daquela tortura sem fim, ele parou no banheiro dos monitores (a senha era a mesma desde o seu quarto ano) e esfregou as mãos com força por uns vinte minutos, até ter certeza que tirara todos os pedaços de verme de debaixo das unhas. Já estava no corredor quando achou um pedaço gosmento de verme no seu cabelo; horrorizado, Harry deu meia volta e dessa vez tomou um banho de corpo inteiro, com a água mais quente que conseguiu suportar, para ver se escaldava fora qualquer resquício das criaturas fedorentas.
Quando ele voltou ao Salão Comunal já era bem tarde; esperava encontrá-lo vazio ou com pouca gente e estava certo; havia um casal de setimanistas enrolados no sofá vermelho perto das escadas, aproveitando-se da relativa privacidade que o canto proporcionava; eles nem se separaram para dar conhecimento da entrada de Harry. Havia mais alguém de costas para a entrada, sentado em frente à lareira; Harry reconheceu o topo escuro da cabeça dela e desviou o caminho que já traçava rumo ao dormitório.
Ele se aproximou e ocupou a poltrona perpendicular à que ela estava, sabendo que Johanne o teria notado a essa altura; afinal, com a sua proximidade ela devia ser capaz de ver o fogo que crepitava à sua frente. O gato prateado estava de volta ao seu colo, sendo afagado por ela em movimentos distraídos. A garota vestia um moletom desbotado azul e o cabelo não parecia ter visto um pente aquele dia; estava revolto em ondas negras em torno do rosto e caindo pelos ombros até perto dos cotovelos; o fogo lhe fornecia um brilho lustroso.
— Desculpe por faltar ao teste hoje — ela disse com a voz fraca, aparentemente falando com o fogo.
— Não tem problema — disse Harry quietamente. — Então você achou seu gato.
— No fim das contas ele não estava perdido, só foi dar um passeio. Não é meu gato, aliás. É da minha irmã — Harry sentiu uma aflição estranha no peito ao ouvir a voz dela tremer na última palavra.
— Eu a vi no jornal hoje de manhã — lhe contou, apesar de que ela já devia saber disso por Luna. — Mas porque é que eles estão acusando ela de ajudar Sirius a fugir? Isso é loucura, ela tinha o quê, dezesseis anos na época?
Anne deu um sorriso triste de quem sabia muito mais do que ele imaginava mas não disse nada, só continuou afagando o gato mecanicamente e olhando o fogo queimar.
— Sirius já sabe? Remus deve ter falado para ele, não é? O que eles vão fazer, será que não podem falar com Dumbledore? Ele me defendeu quando o Ministério estava querendo me expulsar de Hogwarts por magia fora da escola e ele é muito bom nisso, conseguiu retirar todas as minhas queixas.
Anne meneou a cabeça para aquela torrente de ingenuidade.
— Você era inocente. Estava se defendendo dos dementadores que atacaram você e seu primo. Sirius nos contou — explicou ao captar o olhar surpreso no rosto dele pela sua visão periférica — Sirius nos contava montes de coisas enquanto estávamos no Instituto, gostava muito de falar sobre você. Mas voltando ao ponto… não é a mesma coisa, você foi acusado de uma violação à lei do sigilo, minha irmã está sendo acusada de cúmplice na fuga de um bruxo que eles consideram ex-partidário de Voldemort. Sem falar do seu… do seu sequestro.
— Eu juro que nunca fiz nenhuma queixa — Harry se adiantou — Não sei nem como eles sabem, porque no dia que aconteceu nenhum auror foi ao meu auxílio, só policiais trouxas e mais tarde, Remus e Tonks!
— Não importa — murmurou ela, balançando a cabeça, sua voz quebrando. — Nada que você ou o professor Dumbledore disserem vai livrá-la da prisão agora que eles a tem lá dentro. Eles andavam loucos para encontrar um culpado e agora que acharam, não vão abrir mão assim tão fácil.
— Mas deve ter alguma coisa que a gente possa fazer! — Harry exclamou. Odiou vê-la soando tão derrotada; logo ela, a primeira a lhe dizer que não deviam pensar em desistir de Sirius quando parecia que ele não ia resistir após retornar do véu.
— Tenho medo que Sirius faça uma besteira — confessou Anne, encolhendo-se ainda mais contra o sofá, deixando de afagar Jinx para cruzar os braços em frente ao corpo de forma protetora.
— Como o quê? — preocupou-se Harry, embora pudesse imaginar. Tratando-se de Sirius, a pessoa mais impulsiva que conhecia…
— Como se entregar — disse Anne baixo, acompanhando o contorcionismo do fogo como se este fosse uma metáfora para o contorcionismo de seus medos. — Barganhar com os aurores a liberdade dela em troca da prisão dele. É algo que ele faria. Acho que a única razão que não fez ainda é porque Remus está impedindo.
Harry se horrorizou com a perspectiva de ver o padrinho voltando à Azkaban depois de tudo pelo que passara para se manter longe da prisão naqueles últimos anos. E logo agora que o Ministério achava que ele estava morto e finalmente saíra de sua cola! Sem falar que Sirius ainda estava no hospital, bem melhor segundo a sua última carta, mas não completamente sadio para enfrentar os dementadores.
— Isso não pode acontecer — ele disse por entre os dentes. — Vou escrever para Sirius. Não, vou dar um jeito de falar com ele pela lareira. Tem que ter uma maneira de resolver isso sem que ele precise se entregar!
Harry já estava arquitetando um plano para ter acesso a uma lareira (será que conseguia se esgueirar para a sala de McGonagall sem ser pego essa hora?) quando percebeu que Anne tinha enterrado o rosto nas mãos, os óculos escuros escorregando da sua cabeça para o tapete. Primeiro ele achou que ela estava chorando, mas percebeu que não era o caso. Ela ergueu o rosto para ele, os olhos vermelhos, mas secos.
— Ele voltou para a cabana e está com Remus. Sirius se recusou a ficar no hospital por mais um dia depois que soube da notícia, então “recebeu” alta. Alguns membros da Ordem vão ter uma reunião amanhã, Dumbledore com eles, para ver o que podem fazer. Eu acho… acho que vai ficar tudo bem. É no que eu quero acreditar, pelo menos.
Harry assentiu, se aquietando de volta à poltrona. Ele se abaixou e pegou os óculos dela no tapete, se inclinando para lhe entregar. Anne os aceitou, mas não os colocou de volta. Os olhos prateados dela encaravam o gato em seu colo, os ombros encolhidos. Harry teve uma vontade inesperada de lhe garantir que sim, ficaria tudo bem. Mesmo que ele não fizesse a menor ideia.
— Você está cheirando bem — ela disse de repente.
— Ah, eu, hum, tomei um banho há pouco — disse ele, completamente sem graça. Ela sorriu, olhando-o de relance.
— Devia fazer mais vezes.
Ele abriu e fechou a boca, piscando surpreso, até perceber pelo sorrisinho de canto de boca que ela estava brincando. Ele rolou os olhos.
— Obrigado por avisar, vou me lembrar disso.
O silêncio recaiu de novo sobre eles, mas agora Harry estava ansioso para continuar falando. Ele cavou em sua cabeça por algum assunto que não parecesse muito forçado.
— Ahh... você não apareceu no jantar hoje…
— Eu tive que ir na ala-hospitalar — justificou ela rápido, mas pareceu se arrepender em seguida.
— Você está doente? — Harry se lembrou de como o nariz dela sangrara na quinta feira, quando ela tinha segurado o punhal no banheiro do dormitório.
Anne negou, um tanto constrangida.
— Não foi nada demais.
— Você deveria dizer se está — ele insistiu, por alguma razão — Prometi a Sirius que ficaria de olho em você.
— Você prometeu? — ela achou graça. Harry assentiu muito sério.
— Sim. Foi uma promessa implícita, mas real — percebeu que estava tagarelando. Ao menos a estava distraindo; quando disse aquilo, um sorriso divertido surgiu no rosto de Anne.
— É mesmo? Eu fiz a mesma promessa implícita pra ele. Prometi que ia ficar de olho em você, porque vamos combinar, é você quem se mete nas confusões por aqui, Harry Potter, se o seu histórico nos diz alguma coisa.
Harry não se deixou distrair pela acusação infundada. Todo mundo estava cansado de saber que era a confusão que o achava, não o contrário.
— Você vai dizer porque estava na ala-hospitalar ou vou ter que procurar saber com Madame Pomfrey? Eu vou conseguir convencê-la, nós temos uma relação antiga, ela repõe meu ossos desde que eu tinha doze anos.
Anne balançou a cabeça, depois parou e o encarou com divertimento.
— Se você conseguir suborná-la em nome da sua relação especial, ela lhe dirá que eu estava com cólica e fui buscar uma poção do Sangue da Lua¹. É aquela época do mês, sabe? Toda bruxa crescidinha passa por isso, mas não estou correndo nenhum risco de vida.
Harry sentiu o rosto esquentar, completamente sem graça com sua insistência infundada. Ao menos agora ela estava sorrindo. Percebeu que nunca a tinha visto sorrir antes sem os óculos; e também que gostava do rosto dela. Talvez nunca tivesse se dado conta do fato porque ela estava sempre escondida detrás daqueles óculos, sem falar na cortina espessa de cabelos negros, ou porque ele estivera distraído com outras coisas, como sangue de seu padrinho empapando o vestido de festa dela, ou com ela invadindo sua mente e lhe causando sensações estranhas, para poder reparar nisso.
— Então, Harry — Anne lhe chamou, notando que o silêncio se estendera e que ele estivera lhe encarando sem piscar por mais de cinco segundos — Você contou a alguém sobre o que descobrimos à respeito do punhal?
Isso o puxou para a dura realidade como nada mais poderia. Assentiu, preferindo que ela não tivesse trazido o assunto à tona.
— Mencionei à Rony e Hermione.
— E então? — ela o pressionou, curiosa, mas Harry relutou em responder. Como poucas vezes na vida, seus dois amigos tinham concordado numa coisa: era absurdo acreditar que Morgana Le Fay em pessoa decidira enviar um presente para ele mil e quinhentos anos atrás. É claro, ela era conhecida como uma das bruxas mais poderosas de todos os tempos, mas daí a prever que justamente ele, Harry, cujos tetarataravós nem haviam nascidos ainda naquela época, precisaria de uma arma contra um bruxo das trevas?
Pura insanidade.
Mas não foi o que ele disse para Anne; não queria aborrecê-la. Ela claramente acreditava no que tinha visto aquele dia no banheiro do dormitório.
— Eles ficaram tão surpresos quanto a gente — disse Harry por fim, desviando os olhos dela, embora não fosse uma completa mentira.
— Eu andei pesquisando sobre Morgana — disse Anne, aprumando-se no sofá. Jinx miou um resmungo e pulou do seu colo, mas Anne não lhe deu bola. Um renovado brilho de interesse se ascendera nos olhos dela. — Parece que não era incomum que ela fizesse previsões sobre o futuro. Morgana previu a vitória dos bretões contra os invasores saxões e o dia exato da morte do Rei Arthur, embora isso só tenha se revelado muitos anos depois através dos seus diários. Há uma sessão no Ministério que tem diversas profecias supostamente atribuídas à ela, re-contadas por outras videntes, talvez fosse interessante escrever para eles, quem sabe não tem alguma a respeito do punhal?
Harry negou com a cabeça.
— Se for a sala que estou pensando, nós a destruímos durante a batalha no Ministério no verão. Duvido que tenha sobrado muita coisa inteira depois que explodimos as prateleiras em cima dos Comensais da Morte.
Ela desanimou, mordendo o lábio inferior, que ganhou um tom vivo de rosa onde seus dentes apertaram.
— Talvez eu pudesse perguntar à Sophia. Ela sabe muito sobre a história de Avalon, foi lá onde ela teve seus últimos anos de educação mágica. Morgana viveu grande parte da vida em Avalon de acordo com as lendas, talvez eles tenham registros ou até mesmo os diários dela? Ela teria escrito algo assim num diário, é o tipo de coisa que você conta, não é, quando manda uma coisa mil e quinhentos anos no futuro!
— Você nunca me contou de onde conhece a professora Neveu — Harry lembrou-se. Quando tentara lhe perguntar isso na aula de Adivinhação, Anne desviara-se do assunto.
— Ela é minha madrinha — disse Anne com impaciência — Não uma das melhores, mas a gente não escolhe, né? Mas como eu ia dizendo, ela pode ter informações sobre Morgana que não dá pra achar nos livros de história que usamos aqui em Hogwarts. Podemos perguntar na próxima aula. E quem sabe você possa falar com o professor Dumbledore da próxima vez que encontrá-lo? Ele deve achar interessante saber que o punhal veio de Morgana.
— É, deve. Vou ver se faço isso — Harry concordou, na esperança de que isso a satisfizesse e eles pudessem mudar de assunto.
Em que lhe ajudaria se tivesse sido a bruxa Morgana a lhe enviar uma arma? Ela deveria ter deixado passar em sua previsão o detalhe pequeno de que Voldemort era imortal; pouco adiantaria espetá-lo no coração com uma lâmina, ou alguém já teria tentado. Lembrou-se com um gelado desconforto da tinta negra que fluía para fora do Voldemort no seu pesadelo, enegrecendo tudo pelo caminho, inclusive sua própria alma.
O gato prateado pulou em seu colo, arrancando Harry desse pensamento. Ele percebeu que estivera distante e encontrou Anne lhe encarando intrigada. De repente muito consciente, Harry olhou ao redor e viu que estavam sozinhos no salão comunal; o casal de setimanistas tinha desaparecido (Harry não achava que tinham subido cada um para seu respectivo dormitório, no entanto).
— Melhor irmos dormir — ela disse como se pudesse ler o seu pensamento. Se tratando dela, isso era bem possível. Harry concordou.
— É. Longo dia amanhã.
O que era uma coisa boba a se dizer, afinal o dia seguinte era domingo.
— Obrigada por me distrair da coisa toda com Bervely — agradeceu ela ao se levantar, pegando os óculos no sofá e encaixando-os no rosto. Então ela tinha percebido que era isso que ele estava tentando fazer! Será que algum dia ele conseguiria enganar aquela garota?
— Não foi nada — Harry lhe deu um sorriso resignado. — Durma bem.
— Você também, Harry, boa noite — ela assentiu e se inclinou na direção dele. Harry achou que ela ia pegar Jinx em seu colo, mas ao invés disso Anne estalou um beijo em sua bochecha, bem parecido com o que Luna lhe dera após a reunião da AD.
Diferente do de Luna, o beijo de Anne ardeu em sua pele e continuou ardendo quando ela se afastou. O cheiro de lavanda do cabelo da garota, que ele sentiu quando os fios roçaram em seu nariz, também permaneceu impregnado ao redor dele depois que ela saiu.
Harry sentiu uma queimação culpada ao perceber que a carta de Gina, recebida ainda pela manhã, continuava intocada em seu bolso.
— BD —
Remus Lupin não pisara os pés em Azkaban uma só vez nos doze anos em que o seu melhor amigo ficara preso. Ele achava irônico que a sua primeira visita à fortaleza dos dementadores fosse justamente para visitar a filha dele.
Após todos os procedimentos de segurança para que tivesse acesso ao interior da prisão, o fizeram esperar num salão retangular cortado na pedra, que lhe lembrava um mausoléu subterrâneo. Eles tinham lhe dado um colar com um encantamento que era suposto a lhe proteger dos efeitos dos dementadores, mas ainda assim Remus sentia aquele frio oco em seu peito, esperando pegá-lo de guarda baixa a fim de expandir-se e tomar-lhe os pulmões até sufocá-lo.
Respirando fundo, ele apalpou o bolso atrás de uma barrinha de chocolate, mas desistiu de comê-la ao ouvir a movimentação do outro lado das portas feitas de pesadas grades. Estava ansioso; não sabia bem como encontraria Bervely Black cinco dias após o inesperado anúncio de sua prisão. Uma coisa era certa: ela não ia gostar de vê-lo ali, entre todas as pessoas.
Bem, paciência. Ele era o menor dos males.
Um dos guardas humanos de Azkaban trouxe a prisioneira, puxando-a por correntes mágicas atadas aos seus pulsos. Remus assistiu quando o homem fardado de cinza-grafite e Bervely entraram na sala de teto baixo e andaram até a mesa onde ele estava sentado. O Quarter prendeu as correntes que trazia em um gancho afixado à mesa de pedra; as duas coisas se fundiram como se tivessem sido forjadas de uma única peça.
— A visita dura meia hora — informou ele com uma voz dura, sem olhar diretamente para Remus — Nada de contato físico.
Ele retornou para a porta da sala, onde um dementador aguardava. Remus conseguia sentir a presença da criatura através de um arrepio que penetrava a sua pele; mas ele estava olhando para Bervely agora. Ela se sentara de cabeça baixa, mais interessada em encarar os grilhões em torno dos pulsos do que a ele. Alguém lhe dera vestes de Azkaban; um macacão grosseiro, cinza escuro com listras horizontais. O cabelo dela caia sobre o rosto, embaraçado. Tudo que ele conseguia ver era o peito dela subindo e descendo enquanto respirava como se tivesse sem fôlego.
Ninguém dera a ela um daqueles colares contra dementadores. Talvez isso explicasse porque as mãos dela, entrelaçadas sobre a mesa, estavam trêmulas.
— Como está você, Bervely? — perguntou ele por fim, quando ficou claro que ela não lhe daria a primeira palavra. Sua resposta foi um sopro incrédulo que ela deixou escapar pelo nariz.
— O que lhe parece?
Remus suspirou paciente. Não tinha qualquer ilusão de que aquela seria uma conversa fácil, mas viera preparado.
— Eu sei que eu não sou a primeira visita que você esperaria receber, mas trago notícias dos outros. Andrômeda está muitíssimo preocupada com você. Dora está fazendo o que pode para descobrir quem foi que fez a denúncia para os aurores. Eu falei pessoalmente com Dumbledore…
Bervely ergueu o rosto para ele; seus olhos estavam pesados, círculos roxos ao redor deles. Ela sempre lhe parecera pálida, mas agora seu aspecto era doente, sem qualquer sinal de uma cor saudável nos lábios ou nas bochechas.
— O que você está fazendo aqui, lobisomem? — enfatizou, irritada. —Depois da nossa última conversa, eu achei que você estaria feliz em me ver pelas costas!
— Feliz? Por que eu ficaria feliz com isso? — ele indicou o entorno deles com incredulidade.
Bervely rolou os olhos como se Remus falhasse de forma proposital em reconhecer o óbvio.
—Nós dois sabemos que você não gosta de mim, Lupin.
— Não significa que eu queria que você fosse presa! — Exclamou ele. Bervely lhe deu um olhar significativo e Remus bufou, impaciente — Eu não queria ver você pelas costas, Bervely. E eu certamente não desejo Azkaban à ninguém, muito menos à filha do meu melhor amigo!
Ela deu um sorrisinho sardônico.
— Difícil de acreditar. Mas ok, se você está dizendo.
Expirando o ar de seus pulmões, Remus colocou uma mão dentro do bolso da sua velha jaqueta de tweed, tirando lá de dentro algo que colocou sobre a mesa, na frente dela. Quando reconheceu a velha coleira de couro, os olhos de Bervely se arregalaram e ela ficou, se é que era possível, ainda mais pálida.
— Como… onde você conseguiu isso? — Seu tom era acusatório.
— Ele pediu que eu te entregasse. Disse que você entenderia.
Ele viu que os olhos dela se tornaram brilhantes, rasos de lágrima. Tentando a todo custo evitar que transbordassem, Bervely pegou a coleira com uma de suas mãos trêmulas e passou em torno do pulso, acima da corrente. Seus dedos se arrastaram pelo couro gasto; ela parecia ter dificuldade para respirar direito. Sua voz falhou quando conseguiu fazer a próxima pergunta.
— Então ele… ele sabe?
— É claro que ele sabe. Ele percebeu que havia algo errado, no segundo em que você saiu do hospital ele informou para Andrômeda. Ela pediu que Dora checasse você, então ela estava atenta quando um alarme de segurança disparou em St. Catchpole. Dora correu para o hospital logo depois que lhe trouxeram presa, para avisar Andrômeda… foi impossível esconder qualquer coisa de seu pai.
Enquanto ele contava a versão resumida da história, assistiu o tremor das mãos dela se espalhar até o resto do corpo. Apesar de a sala de visitas de pedra bruta estar mais gelada do que o lado de fora da prisão, Remus não achava que ela tremia de frio. Com a cabeça abaixada, Bervely esfregou o rosto nervosamente.
— Como ele está? O que ele disse? — ela quis saber, parecendo temer a resposta.
E ela devia, pensou ele. Mas não ia lhe dar a versão completa dos fatos; isso não faria qualquer bem à Bervely naquele momento, ela já tinha bastante com o que lidar com a sua quota de dementadores.
— Nós estamos cuidando dele.
— Você me prometeu… — ela começou a lhe lembrar, ao que Remus assentiu.
— Sei o que prometi, não vou deixar que ele faça nada estúpido.
Bervely assentiu, de novo encarando a coleira em torno dos seu braço como se Sirius fosse brotar de dentro da pedra da lua quebrada para envolvê-la num abraço e dizer que tudo ficaria bem. Ao menos, era isso que Remus achava que ela queria, se ele podia inferir qualquer coisa sobre Bervely Black. Sabia que ela não aceitaria qualquer consolo desse gênero vindo dele, e não tentou. Ao invés disso deu a ela o tempo que precisava, em silêncio, mesmo consciente de que a meia hora de visita estava correndo e logo acabaria.
— Eu ferrei com tudo — murmurou Bervely de repente, sua voz quebrando — Eu f-fui tão idiota. Eles nunca vão me deixar ir. Eu vou morrer aqui dentro.
— Não. Não, você não vai — lhe disse Remus com firmeza. Algo em sua voz a fez levantar o rosto; ele nunca a vira tão vulnerável. Os lábios dela tremiam, entreabertos, seus olhos estavam dilatados e perdidos. Pela primeira vez ela lhe pareceu o que era; uma garota, praticamente uma criança, que cometera erros terríveis com intenções muito boas e agora estava sendo chamada a pagar por eles.
— Você sabe que eu sou culpada pelo que eles estão me acusando — ela disse baixo — Eu nunca devia ter deixado que eles me pegassem. Agora que eles me tem, não tem mais nenhum jeito…
— Não, não. Me escute – escute – insistiu Remus, vendo-a se perder em seu próprio pânico ao invés de prestar atenção no que ele estava falando — Você vai ter um julgamento. Eles não podem sentenciar você sem um julgamento, precisam apresentar provas se querem suportar a sua condenação.
— Mas ele não teve um julgamento — ela negou com a cabeça, sem esperanças.
— Isso foi em outros tempos. Além do mais Almofadinhas não teve quem lutasse por ele do lado de fora — Admitiu com certa culpa — Mas você tem.
Ela o encarou com um olhar vago. Remus teve a impressão de que algo naqueles últimos dias, enclausurada naquele antro de horror, tinha feito com que ela estivesse com o raciocínio mais lento. Ele apostaria na falta de sono; não parecia que Bervely viesse dormindo muito, a julgar pelo estado de suas olheiras. Não devia estar se alimentando direito também; Sirius mencionara que demorava um tempo até que o estômago aceitasse o que eles serviam em Azkaban à guisa de comida.
— Ele não pode me defender, todo mundo pensa que ele está morto e se ele aparecer, vão trazer ele de volta pra cá, direto para ser beijado pelos dementadores.
— Eu não estou falando dele. Particularmente, vou garantir que ele não se envolva com nenhuma parte do processo — acrescentou com firmeza. — Mas ele não é a única pessoa que se importa com você, sabe.
Ela lhe deu um olhar perdido e ligeiramente impaciente. Remus suspirou pesado.
— Só me deixaram entrar como sua visita hoje porque me apresentei como o seu oficial da lei designado. Tecnicamente, só membros da família e seus representantes diante da suprema corte estão autorizados a lhe fazer uma visita.
Bervely franziu as sobrancelhas — Você mentiu para os aurores? Isso não é muito inteligente, vai por mim.
— Eu não menti. Pretendo defender você diante do Wizengamot no seu julgamento. É claro que para isso preciso da sua permissão, você deve assinar uma procuração me autorizando como o seu representante para assuntos legais, há uma série de passos que devem ser seguidos para que o processo tenha validade…
— Mas porque diabos você faria isso? — Ela o interrompeu, suas sobrancelhas apertadas, uma expressão de forte desconfiança no rosto branco. — Por que se dar ao trabalho?
Ele teve de parar por um momento para se dar conta de que a pergunta de Bervely era séria. Ela realmente não entendia; de forma incomum, não havia nenhum traço de ironia em sua atitude. Ele sentiu-se desconfortável com a pontada de culpa que o atingiu, ao perceber que ela não fazia a menor ideia do porque ele “se daria ao trabalho”.
— Você é filha de Almofadinhas — ele lhe disse de forma pausada. Ela piscou.
— Certo, e?
— Bervely, você é família. Você goste ou não de mim, eu realmente não me importo, sua atitude não muda esse fato.
A boca dela se abriu uns dois centímetros. Por um instante pareceu que era a primeira vez que ela o via, realmente o via. Após uma sombra conturbada atravessar seu rosto, Bervely deixou a cabeça pender de novo, passando a girar a coleira em torno do seu pulso magro.
— Você ao menos tem um diploma de oficial de leis bruxas? De nada adiantaria que a minha defesa fosse feita por um charlatão.
— Legislação bruxa foi o primeiro dos meus diplomas — ele lhe informou com um pouco de orgulho ferido devido à alfinetada. Depois rolou os olhos para si mesmo, irritado por se deixar afetar pelas provocações de uma garota insolente que tinha a metade da sua idade — Mas como eu disse, não depende só de mim. Preciso não só da sua autorização como da sua ajuda. Teremos várias reuniões até o seu julgamento, vou precisar saber de toda informação que possa ser útil para lhe defender. Você precisa me contar toda a verdade e ser completamente sincera comigo se queremos ter alguma chance.
Ele ainda estava esperando que ela se recusasse, que exigisse alguém “competente de verdade” para defendê-la. Mas Bervely ficou em silêncio por um longo tempo, encarando a velha coleira de Sirius, antes de voltar a levantar os olhos.
— Acha mesmo que há uma chance? — perguntou ela, a voz fraca. Remus assentiu com muito mais confiança do que ele sentia, só porque os olhos dela, que sempre lhe pareceram uma lembrança viva dos olhos irônicos de Bellatrix, agora só lhe lembravam os de um animalzinho acuado.
— Farei tudo ao meu alcance — prometeu, da mesma forma que prometera à Sirius há vinte e quatro horas, para que ele parasse de destruir sua casa.
Ela assentiu, seus lábios apertados.
— Nesse caso você está contratado. Retorne quando tiver os papéis que preciso assinar e todo o resto.
Ela se levantou em seguida, fazendo um sinal para o guarda à porta. O Quarter entrou e veio remover o encantamento que a prendia à mesa. Bervely deu-lhe a entender que estava pronta a contar à sua cela, então eles se afastaram na direção à porta. Remus viu quando o dementador ondulou na direção de Bervely e ela se encolheu como se tivesse levado uma carga de eletricidade nos nervos. Antes de sair, a garota se voltou para ele mais uma vez.
— Diga a ele… diga a ele que eu estou bem — pediu, a voz abafada como se cada palavra exigisse um esforço enorme.
Remus assentiu, lhe dando um sorriso fraco. Bervely estava o mais longe possível de “bem”; de fato, ele entendia que a única razão pela qual ela estava indo embora antes que a meia hora de visita chegasse ao fim é porque não queria que ele estivesse lhe olhando quando ela desabasse, o que não podia segurar por mais outro segundo.
— BD —
Dias mais tarde, norte de Lancaster
O conjunto caro de vestes bruxas pinicava seus braços como o inferno. Repuxando para longe da pele as mangas justas, o rapaz olhou mais uma vez na direção da porta do estabelecimento, esperando ver entrar a pessoa com a qual marcara o encontro. Ele não tinha certeza de como ela chegaria; podia muito bem aparecer pela lareira, que ele sabia ser conectada à rede de flú. O Chifre do Bicórnio, o misto de pub e restaurante em que estava, possuía uma fachada trouxa ordinária, mas o ambiente mais afastado da entrada era frequentado apenas por membros da comunidade bruxa; naquela hora da manhã estava relativamente vazio. Os dois ou três grupos de ocupantes, em mesas esparsas, não lhe deram olhares demorados quando ele se sentou numa mesa perto da porta, apesar de suas roupas incomuns. Ele, entretanto, reconheceu pelo menos dois deles; um estava na lista de procurados do Ministério por contrabando ilegal de criaturas mágicas e o outro era um dos bruxos mais ricos da Escócia.
Os aurores conheciam aquele local há muito tempo e estavam cientes de que toda sorte de negociação; lícita e ilícita, acontecia entre aquelas paredes, mas não se preocupavam em fechá-lo; era o tipo de lugar de que precisavam continuar existindo como um meio para o fim.
Ele também estava ali como um meio para um fim aquele dia. Não ficou tão surpreso quando, ao invés da pessoa com quem tinha se correspondido nos últimos dias, quem apareceu e andou até a sua mesa foi uma criaturinha orelhuda usando um avental encardido.
— Monsieur Laconteur — a elfa que ele já conhecera antes fez uma reverência até o chão, sem reconhecê-lo — Minha senhora o aguarda, se o senhor não se importar em seguir Aikia.
— Vous suivre? Pensei que eu a encontrarria aqui, foi onde marcamos — ele argumentou, usando um sotaque francês muito insuspeito. Havia treinado uma série de sotaques na academia mas o francês nunca fora o seu forte. Felizmente, a criatura não parecia ter conhecimento desses pormenores, porque não se incomodou.
— Devido à natureza sigilosa da negociação minha senhora acha que vocês devem se encontrar num lugar mais privado. O senhor pode vir comigo, não há perigo, minha senhora dá sua palavra de Lestrange.
Ele assentiu, impressionado que ela tomasse aquela precaução extra. E oferecer sua palavra usando o nome daquela família? Era bastante ousado (mas a essa altura, poderia mesmo se surpreender com a ousadia dela? Já não tivera provas o bastante?)
— Muite ben — se levantou, dando batidinhas nas vestes afrescalhadas, dignas um lorde bruxo francês. Ele pegou a bengala encostada à mesa e encaixou a cartola sobre os cabelos negros — Me leve à sua senhora, elfo.
A criatura o aparatou num cômodo que parecia subterrâneo; era abafado, com o ar pesado e sem nenhuma janela. Todas as paredes eram cobertas com um painel de madeira intrincado, bem conservado mas que levava o estilo do século passado. Parecia a ante-sala de uma suíte, com um sofá feito para ser elegante ao invés de confortável, um lustre de cristais arranhados e pesadas cortinas de veludo separando o que devia ser um segundo cômodo. Havia um longo espelho na parede atrás dele, no qual viu seu reflexo (ridículo com aquelas calças coladas e um colete de veludo por baixo do paletó de botões de madrepérola), e uma lareira desligada à sua esquerda. Nenhuma porta à vista, nenhum ocupante a não ser o elfo, que vinha até ele com uma bandeja que tirara Merlin sabia de onde.
— O senhor aceita uma degustação enquanto a espera?
Ele agradeceu ao elfo e pegou o corpo oferecido, levando a bebida até perto dos lábios. O cheiro queimava o nariz, rico e prometedor, trazendo saliva à sua boca. Não bebeu, no entanto; jamais beber em serviço, essa era a regra (Mas você não está em serviço, não exatamente, lembrou-se um pouco resignado).
O elfo se retirou com um estalo e ele ficou sozinho. Seus olhos treinados passaram a estudar o ambiente em que estava, colecionando pistas. Não achava que se tratasse de um cômodo de Blackburn Hall; havia algo no estilo da decoração que não se encaixava. Não era oco pelo abandono de seus ocupantes, apenas parecera ter ficado fechado e à espera por um longo tempo.
Estava notando os vários objetos sobre o console da lareira (um relógio de bolso com treze ponteiros, um porta retratos vazio, o bibelô de um pequeno dragão montanhês com a ponta da asa quebrada) quando ouviu um rangido e se virou para o centro da ante-sala. O espelho se afastara da parede, revelando uma passagem pela qual a senhora de Aikia agora entrava.
Mesmo então ele se surpreendeu com a reação de seu corpo quando a via. Era estúpido: suas mãos ficavam frias, seu estômago oco. Queria ter raiva dela, porque se habituara a pensar dessa maneira ao seu respeito, mas ao invés disso era atraído pelo azul limpo dos seus olhos e se distraía. Toda maldita vez.
— Monsieur Laconteur, Il est un plaisir de faire des affaires avec vous. Je suppose que vous avez apprécié un petit échantillon du produit qui est sur le point d'acquérir ... — disse ela num francês muito melhor que o dele, lhe estendendo uma mão fina e branca. Usava um vestido longo, azul denim, rente a cintura e com dois grandes laços de cada lado do decote. O cabelo estava solto em cachos ao redor do rosto ao invés de atado em tranças intrincadas, como da última vez que a vira. O colar cor de carne enfeitava seu pescoço, o pingente, que ele se lembrava de ser vermelho, perdido sob o decote.
— Eu não cheguei a provar, mas tenho certeza de que a qualidade é superior a qualquer coisa que eu já tenha bebido, Srta. Summers.
Ela a viu se retesar, reconhecendo sua voz instantaneamente. Os olhos dela — aqueles enormes olhos azuis de boneca — se levantaram assustados e reconheceram seu rosto; ele não se dera ao trabalho de enfeitiçar a sua aparência. Charlotte deu um passo para trás, horrorizada, levando a mão ao peito.
— Auror Shadowtamer! Como você me achou? Onde está Monsieur Lacont–
— Eu sou Monsieur Laconteur. Eu o inventei — disse Theodor com tranquilidade, feliz em poder se livrar do sotaque. Viu que ela recuava na direção do espelho/passagem secreta e não fez movimento para impedi-la. — É comigo que tem se correspondido nos últimos dias.
— Mas eu enviei Aikia para checar as suas credenciais! Ela me garantiu que era confiável…
— Sua elfa – ou melhor, a elfa da família Lestrange, que você está pegando emprestada – teve a sua memória adulterada para pensar desta forma. Sinto muito, foi um golpe um baixo e eu não o usaria se estivesse agindo por meios oficiais, mas como sabe isso entre nós é… pessoal. Na falta de uma palavra melhor.
Charlotte tateou atrás de si, colocando uma mão sobre o espelho ao mesmo tempo em que procurava não virar as costas para ele.
— V-você não pode me levar presa — ofegou, incerta de suas próprias palavras — V-você não tem provas contra mim, nenhuma prova…
— Você confessou tudo da última vez que nos encontramos — ele lhe lembrou prestativo. — No solário, lembra?
— Mas v-você levou Bervely, eu pensei… — ela arfou, indecisa entre correr ou prosseguir na argumentação. O fato de que ele permanecia parado e calmo parecia desorientá-la. — Eu juro que eu n-não…
— Tudo bem, fique tranquila. Eu não vim aqui levar você — informou, vendo o olhar dela crescer em incredulidade. — Eu sei que foi Bervely, e não você, quem ajudou na fuga de Sirius Black. O que eu não sei é porque você mentiu à respeito naquele dia.
— Eu não… eu… — ela arfou, perdida sobre o que dizer tanto quanto sobre o que fazer. — Você não acreditaria. Você não entenderia. Por favor, Sr. Shadowtamer, eu não quero ir para Azkaban. Eu não quero perder minha alma!
Mesmo que sua fachada fosse impassível, Theodor sentiu seu coração pesar ao ver a garota sucumbir ao desespero; ela parecia a ponto de se ajoelhar e implorar. Quando ele fez menção de pegar algo em seu bolso, Charlotte se encolheu.
— Eu só vou pegar a minha varinha — ele lhe disse, enquanto fazia lentamente o movimento de capturar a varinha no bolso interno e retirá-la diante dos olhos dela — e colocá-la aqui em cima da mesa. Eu estarei desarmado, de forma que você pode acreditar que não farei nada contra você.
Ela o assistiu fazer exatamente o que dissera. Uma vez que estava desarmado, Theodor ergueu as palmas das mãos para ela, lhe mostrando que era inofensivo.
— Que tal agora? Pode ir embora quando quiser. Não vou tentar sequer lhe impedir, mas peço que considere ficar. Por favor.
Ela o olhou como se ele fosse um completo louco.
— O que você quer de mim? — perguntou num fio de voz, olhando dele para a varinha abandonara em cima da mesa e de volta para ele.
— Uma coisa bem simples — Theo arriscou um sorriso. Uma vez alguém havia lhe dito que seu sorriso transmitia confiança, algo relacionado aos seus dentes alinhados e a forma como seus olhos se franziam nos cantos, ou o que fosse. Pareceu-lhe uma boa hora para se aproveitar do fato. — Só quero ouvir a sua versão da história. Toda a história. Você me contaria?
(Continua…)
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