A Canção de Morgana
16 Claro Azul do Desengano
Notas iniciais
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés
(O Mundo é um Moinho — Cartola)
— M-minha… minha versão? — perguntou ela, seus olhos grandes de boneca repletos de desconfiança.
— Sim — suspirou Theodor, retirando a cartola e a colocando na mesa ao lado da varinha. Não tinha como ser levado à sério com aquela cartola. — Eu ouvi muito ao seu respeito, Charlotte, mas não sei o que é verdade e o que não é. Eu não a conheço — acrescentou, olhando nos olhos dela o tempo todo — Bervely me contou coisas, mas a essa altura não sei se acredito em uma palavra do que ela me disse. Tudo que ela falou sobre você…
— Não são verdade — disse a moça com afobação — Bervely nunca entendeu- ela nunca entendeu que o que tive que fazer foi para a minha própria proteção! Ela me culpa por erros do passado que eu nunca tive a intenção… — Charlotte interrompeu a si mesma, a desconfiança de que se esquecera por um momento retornando aos seus olhos — Mas porque você se importa com a minha versão? Pensei que encontrar a culpada pela fuga de Black já lhe bastava!
Ele negou com um movimento de cabeça. Charlotte se afastara uns milímetros do espelho e sua mão caíra ao longo do corpo, agora apertando uma porção de pano de sua saia longa. Nervosa, mas não mais em modo de fuga.
— Isso me satisfaz, mas não é tudo que importa. Ainda temos Thor Carmichael preso, mas ele se recusa a confessar os seus crimes. Se recusou até mesmo a ter um julgamento; enquanto os outros acham que isso é uma confissão velada de culpa, tenho a impressão que significa outra coisa. Pessoalmente acho que ele acredita que terá uma chance de escapar.
À menção de Carmichael, Charlotte quebrou contato visual com ele, seu rosto caindo para o chão, a torção de sua saia deixando os nós de seus dedos brancos. Theo manteve a voz calma, mas firme:
— O que você acha, Charlotte?
— Não entendo a sua pergunta — ela disse num fôlego, acuada.
— Você acha que Thor Carmichael não quer confessar porque tem uma carta na manga? Bervely pensa que sim, mas você conviveu com ele mais tempo do que ela. Pelo que eu entendi, você esteve com ele por alguns anos.
— É por isso que veio atrás de mim, para saber sobre o Sr. Carmichael?! Eu não sei nada que vá ajudar você, ele não me contava nenhum segredo! Eu disse a você no dia do solário e não menti: eu era uma serva! Não mais do que uma elfa doméstica, e foi assim por todo o tempo. Ele me obrigava a fazer coisas e nunca me dizia o porquê — ela estremeceu, passando um braço em frente ao corpo de forma protetora. — Eu não quero falar sobre isso. Sobre ele.
— Tudo bem — Theo umedeceu seu lábio inferior devagar, observando a linguagem corporal dela com atenção. Seus ombros contraídos, a cabeça baixa, o rosto inclinado para o lado, evitando contato visual. O cabelo vasto cor de trigo despejando-se por cima do ombro e cobrindo um lado do sua face. Ele sabia que precisava ir com calma se esperava conseguir qualquer coisa de Charlotte, porque apesar de ele ter sido levado ali pelo elfo, ela era o bichinho pego na armadilha.
— Sobre o que você quer falar, então? Você escolhe.
Ela lhe fitou com surpresa. Talvez fosse incomum que lhe fizessem aquele tipo de oferta.
— O que vai… — respirou fundo, tomando coragem para encará-lo de novo por um momento. — O que vai acontecer com Bervely agora que ela foi presa?
— Ela será julgada. A corte suprema dos bruxos vai decidir, com base nas provas apresentadas, se ela é culpada e quanto tempo ficará em Azkaban para pagar por seus crimes.
— Você tem raiva dela, não tem? Você deve querer que ela fique muitos anos lá dentro.
— Não, eu não tenho — ele disse com sinceridade. — Eu tive quando descobri a traição. Bervely mentiu para mim por anos, fingindo-se de amiga quando foi aquela que arruinou a minha carreira de auror. Agora eu só quero justiça.
Charlotte meneou seu rosto para ele, seus olhos azuis límpidos cintilando. Os lábios dela, cor-de-rosa vivo, estavam pressionados numa linha dura.
— Bervely é só uma criança — ela disse baixo. — Ela cometeu erros, é verdade, mas não merece…
— Ela tem idade suficiente para responder por eles — disse Theo com impaciência. Não queria falar sobre Bervely e não gostava de ver a piedade nos olhos de Charlotte ao se referir a ela. Especialmente porque do contrário, quando Bervely se referia à Charlotte todas as vezes que tinham conversado a respeito da garota, só vira rancor e raiva nos olhos da jovem Black.
Ele passou os olhos pelo ambiente de novo, parando no sofá de veludo cor de pêssego e fazendo um sinal em direção a ele.
— Se importa se eu sentar?
Charlotte balançou a cabeça em negação, as claras sobrancelhas franzidas. Theo tirou o sobretudo ridículo dos ombros e o pendurou no cabide onde ele apoiara a sua bengala, então atravessou a curta distância que o separava do sofá e se acomodou da melhor forma, suas calças coladas repuxando.
— Você pode se sentar também. Se quiser — disse, indicando o local ao seu lado. Charlotte deu mais uma olhada na direção da varinha dele sobre a mesa e depois de considerar por um momento veio se sentar ao seu lado, as costas tão retas como se sentara para tomar chá com Bervely no solário. Theodor sentiu um cheiro suave e adocicado de jasmim vindo dela quando Charlotte jogou os cachos para trás das costas, expondo o torso branco. Ela tinha quatro ou cinco pintinhas castanhas em seu ombro esquerdo, reparou ele. Bem como reparou a lenta pulsação do pingente que descansava sobre o seu decote, que podia ver daquele novo ângulo.
Quando voltou a olhar para o rosto dela, Charlotte mordia os lábios.
— Posso… posso lhe oferecer uma bebida, Sr. Shadowtamer? — lhe perguntou ela, a voz tremendo um pouco. — O elfo pode trazer algo não alcoólico se preferir.
— Você pode me chamar de Theo. Nós nos tratamos pelo primeiro nome em Azkaban, esse retrocesso aos sobrenomes me soa muito estranho.
— Não era eu — ela lhe lembrou desnecessariamente. Ele lhe lançou um olhar que só podia ser descrito como triste, a desconcertando. Charlotte piscou, ofegando um pouco — Então, hum, Theodor, você quer beber…
— Eu não quero beber nada, obrigado — negou ele com educação, em seguida imprimindo à sua pergunta um tom de curiosidade banal — Onde é que estamos?
— Um lugar seguro — disse ela com economia. Theo estreitou os olhos, pensativo.
— Se você não é culpada de nenhum crime, Charlotte, porque sente a necessidade de um esconderijo?
A jovem se moveu desconfortável sob o olhar dele, desviando o seu próprio para um ponto de fuga na vaga direção da lareira.
— A minha consciência está limpa, mas há gente do lado de fora que não pensa da mesma maneira — disse ela por fim.
— É Bellatrix Lestrange? Ela está atrás de você?
A reação de Charlotte foi algo parecido com enfiar o dedo em uma tomada de eletricidade trouxa; ele até viu os pêlos de seu braço dela se arrepiarem, uma palidez tomando seu rosto onde antes havia um corado saudável.
— Por que você pensaria isso?
— Você invadiu a casa que por direito é dela e está usando os serviços dos elfos que deveriam servir à ela. Imagino que Lestrange não esteja muito feliz.
— Eu também sou uma Lestrange. De sangue, não por casamento como ela — disse Charlotte com um leve tremor, mas também uma nota de desafio na voz. Era como se um fogo tivesse se acendido atrás dos seus olhos — E ela não tem direitos sobre a casa, ela é uma fugitiva da justiça, uma partidária dele!
— Eu não quis dizer que ela tenha — ele explicou logo, antes que ela tivesse a impressão errada — Só que ela certamente acha que tem e não deve ficar satisfeita em ver você ocupando seu espaço, ainda que ela não possa, em sua situação atual, fazer o mesmo. Sem falar dos negócios da família que você está assumindo — acrescentou ele, dando uma olhada na direção do copo de uísque de fogo Blackburn que lhe fora oferecido pelo elfo.
— Os direitos do Blackburn são meus por herança. Meu tio não tinha outros herdeiros…
— Bellatrix Lestrange entrou em contato com você, Charlotte? Ela lhe ameaçou?
Theodor achou ter visto um esgar de medo nos olhos azuis. Charlotte voltara a se abraçar, agora com os dois braços em torno de seus ombros estreitos.
— Eu não tenho informações sobre ela. Se eu tivesse, eu diria ao Ministério. Quero que ela volte à prisão tanto quanto qualquer pessoa… ela é a partidária de Você-Sabe-Quem, não o meu tio! Ele não tem nada a ver com isso, nem mesmo sabia do que se tratava, mas aquela mulher… aquela mulher horrível o envolveu com as artes das trevas e agora ele está pagando a pena, enquanto ela está solta por aí!
Charlotte estremeceu, Theo não sabia se de raiva ou medo. Ele segurou o impulso de erguer uma mão e pousar no ombro dela, fosse qual fosse a razão de seus tremores. Ao invés disso, resolveu explorar mais o assunto.
— Você conviveu com ela por algum tempo, não foi? Logo que o seu tio a trouxe para Blackburn Hall, tirando-a dos seus pais adotivos. Bervely me contou uma parte da história, embora ela própria não se lembre de tudo, pois era muito pequena.
— Bellatrix matou meus pais adotivos — disse a moça com secura, os olhos perdidos num ponto do passado além de Theo.
— Eu sinto muito por isso — ele disse com sinceridade.
— Meu tio não sabia… eu não acho que ele sabia disso, pelo menos. Eu nunca lhe contei, não tive coragem. Ele me trouxe para morar com eles em Blackburn Hall e então eu tomei para mim os cuidados com Bervely. Eu cuidei dela por toda a sua infância, sabia? — Seus olhos azuis voltaram a encontrar os cinzentos de Theo; havia uma nota de orgulho quebrado em sua voz — Desde que ela tinha quatro anos.
— É mesmo? Eu adoraria ouvir mais sobre isso — ele sorriu de novo, enquanto se levantava e ia até a mesa na qual o elfo deixara a bandeja. Charlotte acompanhou seu movimento com crescente alarme.
— O que você está fazendo? — perguntou ela desconfiada.
— Só vou pegar o uísque, mudei de ideia sobre beber alguma coisa. — Ele pegou o copo e voltou para o sofá. Fingiu que tomava um gole e depois a ofereceu para ela — Me acompanha?
— Eu não deveria — hesitou, olhando para o líquido castanho-avermelhado como se fosse veneno — Não sou forte para bebidas.
— Vamos dividir, meio copo mal fará efeito a qualquer um de nós.
Ela tomou um gole, apertando os olhos quando a bebida escorregou pela sua língua e queimou sua garganta, descendo pelo esôfago como uma lagarta de fogo. Theo esperou que Charlotte lidasse com os efeitos imediatos da bebida, vendo como uma vermelhidão tingia a pele de seu colo e do pescoço e se alastrava até as bochechas magras.
— Então? Você estava dizendo que cuidou de Bervely desde que ela tinha quatro anos… que tipo de criança ela era?
Charlotte segurou o corpo com as duas mãos apoiando o fundo sobre o seu joelho, pensativa. Um sorriso hesitante modelou seus lábios e seus olhos vagaram para o passado mais uma vez.
— Uma bonequinha. Uma bonequinha teimosa, insolente e voluntariosa. Ela adorava ouvir minhas histórias, nunca estava satisfeita. Se não fosse eu naquela casa… Bellatrix a odiava, sabe. Ela nunca quis uma filha, nunca se importou. Torturava a criança usando aquela marca horrível todas as vezes que Bervely fazia uma travessura…
— Marca? — perguntou ele com curiosidade. Se inclinou para pegar o copo das mãos dela, seus dedos se roçaram, uma faísca correu entre eles, distraindo-a.
— Aquela rosa, aquela coisa… o próprio Você-Sabe-Quem fez aquilo, sabe? Para Bellatrix poder controlar a criança… machucá-la, quando queria. Se Bervely desobedecesse, ela a fazia sentir dor através da marca, dores horríveis para uma menininha.
Theodor percebeu que estava apertando o copo com força demais; as pontas de seus dedos estavam ficando insensíveis. Dessa vez ele acabou traindo a si mesmo e deixando um gole deslizar através dos lábios, queimando a superfície de sua língua e fazendo estrago caminho abaixo. Por um momento, seu cérebro ardeu. Ele sacudiu a sensação forte da bebida, buscando por foco.
— Mas vocês não ficaram lá por muito tempo, não foi? Bellatrix e o seu tio foram presos na altura do inverno seguinte…
— Isso foi no outro ano, mas sim, eles foram — Charlotte concordou, seus cachos aloirados sacudindo junto com sua afirmativa — E com isso nós fomos levadas para a Mansão Malfoy em Wiltshire.
— Eu entendo porque os Malfoy teriam levado Bervely com eles, eram os padrinhos dela afinal, mas e quanto a você? Você não tinha qualquer laço com os Malfoy, ou tinha?
Charlotte dessa vez se deteve em responder. Ela considerou, olhando Theodor com atenção, e ele esperou paciente, firme no contato visual, praticamente sem se mover. Charlotte se inclinou, tirando o corpo das mãos dele para tomar mais um gole. Só depois ela voltou a falar, após lamber o resquício da bebida do lábio inferior.
— Eu fiz um acordo com Narcissa Malfoy. Ela tinha um filho pequeno, não podia cuidar das duas crianças sem ajuda nem queria confiar a criação deles aos elfos, então ela me ofereceu um quarto na casa e tudo que eu precisasse, comida e roupas, até mesmo um salário que ela depositaria para mim em uma conta, e que eu poderia usar quando fosse maior de idade. Em troca disso, eu a ajudaria com Bervely e o pequeno Draco. Eu aceitei, é claro. Eu não tinha outro lugar para ir e Narcissa Malfoy me pareceu decente.
Theo fez alguns cálculos mentais, erguendo então sua sobrancelha.
— Quantos anos você tinha então?
— Dez. Quase onze — ela deu um sorriso amargo — Sei o que está pensando. Idade suficiente para iniciar os meus estudos em magia.
— Sim… mas isso não aconteceu, não é? Não existe nenhum registro seu em Hogwarts ou outra escola da Europa. É claro que eu procurei saber, eu estava caçando você — ele deu de ombros em tom de desculpas. — O que houve? A carta não chegou para você, ou…
— Oh, a carta chegou para mim, sim senhor — disse ela com amargura, suas delicadas narinas se inflando. Theo achou que atingira um ponto sensível e esperou, lhe lançando nada mais que um olhar curioso. Charlotte bufou. — Bervely a queimou antes que eu pudesse alcançá-la e lhes dar a minha resposta.
— Ela a queimou? Como em uma travessura, certo, ela não tinha como saber a importância da carta…?
— Não, ela sabia muito bem a importância da carta! Ela a queimou porque não queria que eu fosse para Hogwarts. Bervely me queria só para ela, ela era, sempre foi, sempre, desde o primeiro momento, movida por um egoísmo maior do que tudo!
— Imagino que isso tenha lhe deixado muitíssimo chateada — comentou Theodor, estendendo a mão na direção do copo. Dessa vez seus dedos se tocaram e ele deixou que a ponta do indicador deslizasse pela lateral macia do dedão dela. Charlotte não retraiu sua mão até que ele tivesse segurado o copo; Theo viu os lábios dela se separarem ligeiramente, absorvendo ar.
— Eu fiquei, à princípio — confessou Charlotte quando recuperou-se e voltou ao raciocínio — Muito, muito chateada. Mas depois eu compreendi. A pobre garota, eu era a única pessoa que a amava, entende? A Sra. Malfoy a queria bem, é certo, mas havia Draco, então sua atenção era sempre dividida. Ela também não era muito afetuosa. Bervely sempre foi terrivelmente carente de atenção, embora fosse orgulhosa demais para admitir.
— Isso é estranho, Charlie — ele disse devagar, usando o apelido dela de propósito pela primeira vez naquela conversa — Você me diz que recebeu a carta de Hogwarts… mas Bervely me jurou que você é um aborto. No entanto, é fato que só crianças mágicas recebem a carta…
Uma sombra perpassou os olhos da moça, seu belo rosto se fechando numa expressão de quase dor.
— Bervely convenceu a si mesma de que eu era um aborto, era mais fácil para ela pensar assim, diminuía a sua culpa, eu acho. A mãe dela gostava de dizer o mesmo, embora também soubesse que era mentira.
— Então você pode usar magia? — Ele tentou esclarecer, mas sentiu que Charlotte estava se retraindo de novo para longe.
— Eu nunca fui treinada, fui? — disse ela com mágoa, virando o rosto — E eu nunca tive uma varinha.
— Eu sinto muito. Eu realmente sinto muito, Charlie — repetiu Theodor, sua voz macia, esperando que ela acreditasse.
E ela acreditou. Seus ombros relaxaram, sua expressão se suavizou.
— Isso não importa agora. Faz muito tempo, é passado.
O tremor leve de sua mão quando ela pegou o corpo dele passou a mensagem contrária. Apesar de estarem dando goles muito pequenos, o copo de uísque Blackburn já ia pela metade. Theodor sentia a cabeça leve, não muito mais do que isso. Ele não conseguia ver qualquer efeito em Charlotte, no entanto.
— Então vocês viveram com os Malfoy por alguns anos — retomou ele, num tom encorajador — O que aconteceu nesse tempo? Narcisa Malfoy cumpriu sua promessa? Bervely foi para Hogwarts…?
— A Sra. Malfoy cumpriu sua promessa, nada nunca me faltou na Mansão Malfoy. Além de Bervely, eu passei a amar Draco como um irmãozinho. Ao contrário de Bervely, ele era uma criança adorável, carinhosa, de coração puro. Por alguns anos eu me iludi de que fazia parte daquela família… embora Bervely sempre fizesse questão de me lembrar que eu não passava de uma empregada — suspirou ela, torcendo os lábios — Eu sabia que sua implicância era em parte por ciúmes de Draco, ela morria de ciúmes dele, pobre garoto. E então quando veio Hector…
Charlotte parou de falar, pois sua voz falhara. Ela olhou para Theodor alarmada, como se tivesse estado em transe e só agora se desse conta do quanto tinha lhe contado.
— Eu estou surpreso com essa bebida — disse ele num tom descontraído, balançando o copo. — Nunca fui muito afeito à uísque de fogo, mas Blackburn tem um diferencial, não é a toa que você está vendendo cada garrafa por uma fortuna.
Charlotte piscou várias vezes, lançando um olhar vago até o corpo de depois a ele.
— Ahh, sim. É uma receita secreta da família, meu tio herdou da avó ou coisa assim. Não há nada igual no mercado de bebidas mágicas, eu particularmente não gosto muito, acho forte… mas eu não deveria estar falando isso, sou suposta a elogiar o produto que estou vendendo — completou, corando um pouco.
Theo sorriu para ela de forma tranquilizadora.
— Eu não sou um cliente, lembra-se? Eu não ligo, pode falar o que quiser sobre o uísque. Ou sobre qualquer coisa — acrescentou mais uma vez olhando-a no fundo dos olhos cristalinos como um lago de magnésio.
Charlotte sorriu de volta. Foi um movimento tímido, quase inexistente dos seus lábios, mas mesmo assim provocou em Theo uma espécie de agitação na altura do diafragma.
— Bervely lhe falou sobre Hector? — sondou ela, seu rosto se inclinando ligeiramente de forma especulativa.
— Ela o mencionou uma vez, sim. Mas não era um assunto que ela gostava de falar.
— Não me surpreende. Se não fosse por ela… — Charlotte mordeu seu lábio e suspirou. — Essa foi só mais uma vez em que o egoísmo de Bervely entrou no caminho e arruinou tudo… Ela não só tirou Hector de todos nós, mas com isso perdeu a família dela, porque Narcissa não confiava mais nela e o Sr. Malfoy ficou destruído… Hector era afilhado dele, entende, como um filho… ele não quis mais ver Bervely em sua frente depois disso, então ela teve que ir embora da Mansão Malfoy. Toda a coisa com Hector, eu acho que a deixou meio louca… os meses que ela passou no hospital e tudo. Ah, todo mundo ficou meio louco naquele tempo. Pobre Draco, pobre Sr. Malfoy… A família nunca se recuperou, se você me perguntar.
Ela disse tudo aquilo muito rápido, despejando palavras, levando o copo de Blackburn aos lábios e sorvendo um gole maior do que os outros. Dessa vez, Theodor sabia que as lágrimas nos olhos dela não eram por causa do queimor da bebida, mas de uma dor muito mais antiga. Ele estendeu a mão para tocá-la sobre os dedos que estrangulavam o vidro, afagando-os de leve.
— E quanto a você? Se recuperou?
Ela negou, incapaz de evitar uma lágrima de escorrer pela sua bochecha rosada e sumir na curva de seu queixo. Ela era linda chorando, ele pensou, ainda mais do que era com medo. O que era não só um pensamento perturbador, mas mostrava que afinal o uísque estava fazendo efeito nele.
— Eu nunca, nunca vou. Hector era o amor da minha vida, sempre vai ser. D-desculpe — soluçou Charlotte, inclinando o rosto e o enxugando de forma delicada com a manga do seu vestido. — Ainda hoje eu não consigo falar sobre ele sem sentir minha garganta doer e o meu peito pesar, é horrível.
— Tudo bem — Theo lhe assegurou. Não lhe passou despercebido que ela usara a outra mão para enxugar o rosto, de forma a não quebrar o contato do toque dele. — Eu sinto muito, Charlie. Realmente sinto. Como você lidou com isso na época? A quem você recorreu? Pelo que me conta, eu não penso que os Malfoy lhe deram o apoio de que precisava, não é, eles próprios arrasados…
— Você sabe a quem recorri! Não sabe, não imagina mesmo? Ah, você deve saber… — ela o encarou num misto de receio e desamparo — O Sr. Carmichael… ele me procurou. Me procurou muito antes de tudo acontecer na verdade, querendo reencontrar Hector, estreitar de novo os laços com o filho. Hector o culpava pela morte da mãe dele, então o Sr. Carmichael sabia que não seria fácil se reaproximar do filho, foi por isso que ele pediu a minha ajuda… Nós tínhamos um plano, mas deu tudo errado e no fim Hector acabou…
Ela soluçava largamente agora, suas palavras quase incompreensíveis. Theodor foi tomado por uma onda de piedade que o pegou desprevenido; fora treinado para ser indiferente ao choro a certa altura da sua formação de auror, no entanto... era Charlotte chorando; embora sua consciência soubesse que aquela não era a sua Charlotte, seu coração pouco se importava e estava apertado do tamanho de uma noz. A próxima coisa que ele soube foi que se aproximava dela; tirando o copo quase vazio de uísque Blackburn do caminho, ele a puxou para seu peito, passando um braço em torno dos seus ombros que se sacudiam.
Charlotte não resistiu; era como se o contato fosse tudo que ela precisasse. Ele se perguntou se alguém teria lhe oferecido um abraço a alguma altura; ele conhecera Thor Carmichael na prisão e aquele homem indiferente como uma placa de aço jamais poderia ter sido capaz de um gesto terno.
Seu coração — que tinha disparado desde que ela começara a chorar — foi se acalmando à medida que a respiração dela também voltava ao compasso. Ele não se importava se a camisa de linho estava ficando ensopada na altura do ombro; se encontrava mais interessado no aroma adocicado que se desprendia do cabelo dela direto para o seu nariz, um perfume como ele nunca tinha sentido antes.
Charlotte se afastou depois de alguns minutos. Não muito, só o suficiente para olhá-lo. O nariz dela estava bem vermelho, as bordas dos olhos também; ainda parecia adorável. Os lábios agora tinham um tom muito intenso de rosa, mais inchados do que antes. Ela parecia constrangida e mal conseguia encará-lo.
— Desculpe, estou sendo idiota. Chorando no ombro de um completo estranho que há alguns dias queria me levar para apodrecer em Azkaban pelo resto dos meus dias.
— As coisas eram bem diferentes há alguns dias — ele lhe disse calorosamente. — E eu posso ser um completo estranho para você, mas o oposto não é verdade. Você não sai da minha cabeça há muito tempo.
— Só porque você queria se vingar de mim por causa da sua carreira — ela disse quietamente, abaixando os olhos. Theodor assentiu.
— Uma parte de mim, sim. No entanto a outra…
Charlotte esperou em expectativa, mas ele não foi capaz de completar o pensamento. A outra o que, Theodor?
— Bervely alguma vez lhe contou porque eu e Hector decidimos fugir da Mansão Malfoy? — perguntou ela suavemente. Theodor negou; Bervely nunca fora tão longe nos detalhes.
— Eu estava grávida — ela murmurou, seus olhos azuis cintilando com fragilidade — Íamos ser uma família. Por uma noite eu acreditei que eu seria feliz, que eu teria tudo. Quando eu contei a Hector pensei que ele ficaria chateado, mas na verdade ele ficou radiante. Ele me amava também — ela disse com um sorriso muito triste, o mais triste que Theodor já vira em algum rosto.
— Eu sinto muito, Charlotte — ele suspirou, sentindo-se pesado e de coração partido por ela. — O que foi que aconteceu com o bebê?
Os olhos de Charlotte vagaram para baixo e mais uma vez, seus dedos correram distraidamente para o colar pulsante em seu pescoço.
— Eu quase o perdi. Bervely… — ela umedeceu os lábios com a língua, falando devagar e num tom distante. — Na noite em que tudo aconteceu, Bervely descobriu que íamos fugir e provocou um acidente… mas ela não sabia que eu estava grávida. Pelo menos eu gosto de acreditar que não — suspirou. — Quando eu me vi sem Hector, eu estava fraca e com medo de perder meu bebê. Eu precisei ir até o pai dele, entende, ele era o único… o único que se importaria. Era o avô do meu bebê e tinha acabado de perder o filho. Eu me convenci de que se alguém iria cuidar de mim e do filho de Hector seria Thor.
Theodor assentiu, embora um arrepio tivesse perpassado a sua coluna. Algo no jeito que ela dissera o primeiro nome do homem, e aquela expectativa tão ingênua e improvável de que Carmichael teria se importado…
— O que aconteceu com o bebê? — perguntou de novo, mais preocupado. Charlotte não lhe respondeu; estava distraída brincando com as mangas bufantes da sua camisa, seus pensamentos muito distantes.
— Eu perdi tudo. Thor não era bom para mim, mas de certa forma era tudo que eu tinha. Tudo que eu fiz por ele foi em nome da memória de Hector. Eu nunca quis machucar ninguém, entende… nem mesmo a Bervely.
Theodor assentiu; Charlotte parecia esgotada e ainda tentava lhe convencer de que não desejava nenhum mal à garota que ajudara a criar. À garota que fizera todas aquelas coisas horríveis para ela, de acordo com a sua história. A cabeça dela tombou de novo em seu ombro, como se estivesse cansada demais para resistir ao impulso.
— Eu sei porque você está aqui — ela falou, sua voz meio abafada pela gola volumosa da sua camisa vitoriana, onde seu rosto estava enfiado.
— Por que acha que estou aqui?
—Você quer informações para incriminar Bervely. Qualquer coisa que possa usar contra ela no julgamento… não é isso?
Ele se enrijeceu, não pode evitar. Para contrapor sua reação, pousou uma mão no ombro dela. Se surpreendeu em como era estreito, ossos pontudos sob a pele e pano do vestido.
— Você testemunharia contra ela? — perguntou com suavidade, sabendo que assumia um risco. Toda a confiança que conquistara até ali poderia ir por água abaixo naquele momento a depender de como ela encarasse o pedido.
— Não. Não, Theodor, sinto muito, mas eu não poderia. Apesar de tudo que aconteceu entre nós, eu não quero que Bervely fique em Azkaban por Merlin sabe quantos anos.
— Foi por isso que você mentiu para mim, dizendo que tinha sido você a colaborar com a fuga de Black? Estava tentando protegê-la?
Charlotte assentiu; ele sentiu o movimento do rosto dela contra seu peito, mas ela logo se afastou e sentou-se direito, olhando para ele.
— Desculpe por isso. Eu achei que se você soubesse que tinha sido ela, isso pioraria o caso dela porque, junto com a outra acusação, faria parecer que ela é partidária de Você-Sabe-Quem. E para isso ela receberia a prisão perpétua, não é?
— Então Bervely realmente tentou sequestrar Harry Potter no verão? — Theodor quis saber, sendo aquela parte ainda confusa para ele.
— Quem mais teria sido? — Charlotte suspirou e deu de ombros, passando as mãos sobre o rosto para limpar os resquícios de lágrimas.
— No solário naquele dia você insinuou que ela estava agindo em conjunto com a mãe, Bellatrix Lestrange — ele lembrou. Ela assentiu, embora sem muita segurança.
— Foi apenas um palpite. Bervely sempre teve uma certa… obsessão por Bellatrix, desde pequenininha. Quando ela tinha sete anos, colocou na cabeça que ia invadir Azkaban e resgatar Bellatrix lá de dentro custe o que custasse. Ela tentou fugir de casa para fazer isso, foi preciso Lucius arrastá-la de volta antes que algo pior acontecesse. Acho que a fixação dela por Sirius Black a distraiu por um tempo, mas agora ele está morto, não é, eu penso que Bervely se sentiu desamparada e inclinada a retornar à essa ideia do passado. Ah, Theo, é horrível dizer isso, mas elas são muito parecidas. Não só fisicamente — acrescentou com conhecimento de causa. — Me lembro bem da Bellatrix que eu conheci quando cheguei a Blackburn Hall. Jovem mas implacável, capaz de qualquer coisa, literalmente qualquer coisa para chegar onde queria. Nada ficava em seu caminho e com Bervely é a mesma coisa… ela quis tirar o pai da prisão e passou por cima de tudo, até mesmo da sua carreira e dos seus sentimentos… se durante o verão ela decidiu que queria cair nas graças de Bellatrix novamente, porque é que se incomodaria de sacrificar Harry Potter para conseguir isso?
Theodor ficou pensativo, sua cabeça rodando com a quantidade de coisas que tentava processar ao mesmo tempo.
— Mas eu não deveria estar falando tanto. Sabe, são só especulações, não tenho como saber a verdade, só me baseio no quanto conheço a respeito das duas — suspirou ela. — Posso estar completamente errada e sendo injusta…
— Eu não acho que você esteja, Charlotte — ele lhe interrompeu, sombrio e muito sério — Não ouço algo que faça tanto sentido há algum tempo. Bervely passou por cima de mim e de muitas outras pessoas como um furação para chegar em Black, e isso parece com o tipo de ação extrema que ocorreu esse verão no caso de Potter, estivesse ela ou não trabalhando junto a Bellatrix. Eu acho que por pouco, muito pouco, algo ainda mais terrível não aconteceu naquela noite.
Charlotte assentiu, pressionando seus lábios e depois, quase sem pensar, alcançando o copo e tomando mais um gole de Blackburn. Ela não estava mais fazendo careta quando a bebida descia pela sua garganta; como acontecera com ele, o uísque de fogo já devia ter anestesiado todo o caminho até o seu estômago.
— No final das contas ela é só a mesma garotinha de sempre, carente, numa busca desesperada por atenção e afeto — disse Charlotte, sentida, dando uma risada fraca — Não é o que todo mundo procura?
Theo achou os olhos dela de novo, sentindo-se abstêmio de todo aquele azul. Sentindo-se tonto.
— Eu acho que sim. Acho que é o que todo mundo procura.
Foi quando ele procurou, mas não achou nenhuma razão — absolutamente nenhuma — para não se inclinar e beijar aquele par de lábios cor de rosa meio inchados pelo choro. Então o fez; se inclinou e beijou Charlotte, sem grandes pretensões a não ser sentir a textura do que julgava ser uma boca extremamente macia.
Já os tinha experimentado, é verdade. Há muito tempo em Azkaban ele a beijara; ou ainda, ele beijara Charlotte com recheio de Bervely, inconsciente do fato. Beijar Charlotte com recheio de Charlotte era bem diferente; ela era doce, apesar de estar bebendo fogo. Doce como um gole de hidromel e ainda havia aquele cheiro de que ele gostava muito. Cheiro de flor e de mulher, sem maldade, sem nenhuma nota de amargor.
Depois de um momento em que Charlotte não reagiu (e que ele achou que ela estava procurando coragem para afastá-lo), os braços dela deslizaram tímidos em torno do seu pescoço. Afastando os lábios, ela deu espaço para sua língua entrar. Theodor explorou dentro de sua boca, seus dentes, sua língua e lábios macios com muito cuidado, ao mesmo tempo em que a puxava para perto dele, as mãos em torno da cintura estreita, sentindo que a coluna dela se arqueava a fim de que a parte superior dos seus corpos se encostassem.
Qualquer pessoa mais sã atribuiria o queimor debaixo de sua pele ao uísque de fogo dos Lestrange, mas Theodor não se iludia; era ela, seu cheiro, sua textura, sua respiração acelerada correndo debaixo dele, o calor quase febril de seu corpo. Ele a puxou para o seu colo, pouco pensando nos movimentos que fazia, atribuindo essa impulsividade ao uísque, achando que talvez fosse mais cuidadoso se estivesse completamente sóbrio.
Mas não dava para dizer que estavam embriagados. Ele sabia perfeitamente o que fazia – o que queria, sobretudo, e Charlotte respondia seus avanços com suspiros que eram muito conscientes. Quando a mão dele apertou seu quadril, ela soltou um suspiro dentro de seus lábios, quase um choramingo, que mandou um arrepio de sua coluna direto para a ereção entre suas pernas. Ajudava pouco que esse era o lugar onde agora as coxas dela faziam atrito.
Theodor quebrou o beijo por uma questão de praticidade. Encontrou-a ofegante e corada, percebendo que estava enganado, ela podia sim ser mais adorável quando não estava chorando.
— Eu estou certo em supor que atrás dessa cortina há uma cama? — perguntou ele sem rodeios. Ela girou o pescoço para encarar a cortina de que ele falava; também estava sem ar e muito distraída pelas reações do seu corpo para que pudesse responder rápido.
— Sim, há uma cama. Mas…
— Charlotte, eu quero você — Theodor lhe disse, seu sangue quente falando por ele — Se você sente o mesmo, por favor não resista. Eu quero você há muito tempo.
— Mas eu não sou ela — a jovem lhe lembrou, sem fôlego. Theodor sacudiu a cabeça, apertando seus olhos, sem querer pensar nela naquele momento.
— Não, você não é. Você é a Charlotte verdadeira. Eu sei disso.
Ela abriu um sorriso amplo, voltando a passar os braços em torno do seu pescoço. Encostou a boca perto do seu ouvido e sussurrou baixinho:
— Sim, eu sou a verdadeira, Theo.
Ele a ergueu nos braços sem dificuldade; Charlotte não devia pesar muito mais do que cinquenta quilos. Ela beijou o espaço entre a sua orelha e a borda da gola alta de sua camisa, lhe causando arrepios no curto espaço de tempo até atravessar o aposento e puxar a pesada cortina para fora do caminho.
Uma cama de mogno espaçosa se revelou para ele, coberta de lençóis de veludo antiquados, repuxados tão retos como só um elfo conseguia fazer. Essa foi a totalidade de pensamentos a respeito do segundo cômodo; como a cama parecia confortável e caberia os dois com folga. Ele a sentou em cima do colchão e Charlotte ficou assistindo ele tirar as botas, seu peito subindo e descendo com a amplitude de sua respiração.
— Eu não acredito que vamos fazer isso — ela ofegou meio ansiosa, vendo ele se desfazer das botas e então começar a abrir a complicada camisa. Theo se deteve no meio do movimento, hesitante.
— Você quer, não é?
Ela assentiu com pressa. Ele sorriu e começou a lutar com os botões, mas a moça saltou da cama e veio ao seu auxílio.
— Me deixe fazer isso — pediu com um sutil atrevimento. Ele achou graça e deixou as mãos caírem ao longo do corpo. Ela abriu cada um dos botões com os dedos hábeis, como se lidasse com camisas vitorianas o tempo inteiro. Quando escorregou a peça de roupa pelos seus ombros e revelou o torso dele, seu queixo caiu levemente.
— Não se preocupe com as runas — ele pediu. Sabia que a série de runas azuis pintadas em seu corpo podiam causar um estranhamento quando vistas pela primeira vez e não queria que isso a desencorajasse. Charlotte levantou os olhos para ele, envergonhada.
— Eu não estava reparando nas runas.
— O que foi então? — quis saber, achando graça. Charlotte abriu e fechou a boca, sem saber exatamente como por aquilo em palavras sem parecer boba.
— Você é… bastante forte — ela passou os olhos pelos contornos bem delineados da musculatura dele como se fosse um pecado reparar, como se seus olhos pudessem queimar. Ele riu.
— Você gosta?
Ela inclinou o rosto, contrariada e tímida.
— Que pergunta mais sem sentido — disse, mas depois murmurou baixo — Sim, eu gosto bastante.
Sentindo outro arrepio forte de atração, ele pegou suas mãos e as beijou, depois colocou espalmadas sobre seu peito.
— Continue o que estava fazendo — pediu, sorrindo. Charlotte terminou de deslizar sua camisa para fora, deixando-a cuidadosamente sobre a cômoda ao seu lado antes de voltar e olhar tentativamente para cinto que ele usava. Theodor lhe fez um sinal de encorajamento e com isso ela desengatou a fivela, depois puxou lentamente o cinto para fora da calça.
Ela enrolou o cinco em torno de sua mão sem pressa, o colocando ao lado da camisa. Theodor podia jurar que ela estava tendo prazer com aquilo – despí-lo lentamente. Não que ele se importasse, a não ser pela pulsação quase dolorosa de seu pênis dentro daquelas calças coladas, o que não contribuía para a sua paciência.
— Talvez você precise de ajuda com as calças, elas são meio apertadas — ele se adiantou, mas Charlotte afastou suas mãos de perto dos botões de forma bem deliberada e lhe lançou um olhar zangado.
— Eu disse que eu faria — reclamou. Com um sorriso, ele ergueu as mãos em rendição e deixou que ela terminasse. A jovem puxou suas calças para baixo com bastante destreza, rindo um pouco quando elas ofereceram resistência em torno de suas coxas musculosas. Ele saiu para fora da peça, desvencilhando os pés quando já estava no chão e em torno dos seus tornozelos, então só sobraram os culotes, afinal o seu disfarce incluía fantasia completa; mas ela ainda estava completamente vestida.
— Posso retribuir o favor? — perguntou ele, muito pronto a arrancar aquele vestido antiquado que ela usava e ter acesso à pele leitosa e macia de que se lembrava.
Se perguntava se Bervely teria conseguido copiar tão bem o corpo de Charlotte como copiara o seu rosto; não estava certo de como a metamorfomagia funcionava naquele sentido. Sua memória do breve vislumbre que tivera do corpo da Charlotte-Bervely há anos era bem vivido; aquela lembrança lhe acompanhara por muitas noites solitárias e muitas sessões de prazer auto-infligido.
— No que está pensando? — Charlotte quis saber, percebendo que a mente dele vagava longe.
Theodor não viu a necessidade de mentir.
— Estou curioso para ver você nua. Queria saber se Bervely acertou também nessa parte.
— Oh. Eu não sabia que vocês tinham ido tão longe — disse ela um pouco aturdida.
— Não! Não chegamos — ele se apressou em corrigir. — Eu a vi nua uma vez apenas, quando pintei nela algumas runas. Mas nada aconteceu, realmente. — Não por falta de vontade, ele pensou. Tinha se perguntado um milhão de vezes como as coisas teriam se desenrolado se, ao invés de Bervely enganá-lo e ir libertar Sirius Black, tivesse ficado com ele naquela noite.
Bem, ele não estaria ali com Charlotte agora, isso era certo. Só seu deu conta do que ela fazia quando viu que a moça subira na cama e estava puxando o vestido pela cabeça. Ela jogou a peça para trás de qualquer jeito, revelando seu corpo nu para ele; não usava mais nada por baixo, sequer uma calcinha. O colar estranho pendia entre os seios, a única coisa que restara. Theo falhou em fazer as comparações, encantado com o que tinha diante dos seus olhos.
Para ser sincero, ela parecia frágil. Poderia machucá-la se segurasse forte como tinha a intenção, como seu corpo e sua vontade pediam. Ele podia ver os ossos saltados dos quadris dela e também o contorno suave de suas costelas. Os seios eram pequenos, com mamilos tão cor de rosa quanto seus lábios e já duros, apontando para frente. O tipo de pintinha que ele vira mais cedo, em grupo espalhadas sobre seu ombro esquerdo, também acontecia em outras partes do seu corpo; uma perto do seu umbigo e umas três em formação abaixo da segunda costela. Lhe lembravam gotas de caramelo em creme branco; ele sentiu vontade de lambê-las para saber se a pele dela podia ser doce como sua boca se provara.
— Theodor — Charlotte chamou quase com agonia. Ele percebeu que tinha passado muito tempo ali a admirando e que ela estava insegura — Então?
— Você é linda — ele disse sem pestanejar, lhe oferecendo seu sorriso sincero — De um jeito que Bervely jamais conseguiria copiar, nem em mil anos.
Ela deu um sorriso condescendente, esticando os braços e entranhando seus dedos no cabelo curto dele, puxando-o para perto. Theo aproveitou o convite para beijar e em seguida lamber os mamilos eriçados. Sentiu que ela vibrava de contentamento, segurando-o com mais força. Suas mãos se arrastaram pelas costas dela, contornando sua coluna e o vale de sua bunda pequena e macia. Os lábios dele desceram numa trilha até seu umbigo. Charlotte suspirou quando a língua dele se enrolou ali, ao mesmo tempo que as mãos grandes acariciam o interior de suas coxas pela parte de trás. As pernas dela se afastaram para lhe dar espaço; Theo pode sentir o cheiro convidativo da excitação feminina vindo dela. Ele sentiu ao mesmo tempo sua ereção pulsar e sua boca se encher de água.
O auror olhou para cima, procurando os olhos de Charlotte; encontrou sua expressão enlevada, perdida nas sensações que as mãos dele, quentes e ásperas, ascendiam na pele sensível entre as suas pernas, acariciando ao redor de seus grandes lábios.
— Eu quero sentir você em torno de mim — disse ele, intercalando beijos sobre o montinho de pêlos claros em seu púbis — Eu quero estar dentro de você mais do que qualquer coisa que eu já quis antes, Charlotte. Prometo que faremos tudo o que quiser antes que o dia acabe, mas agora o que eu quero é sentir você encaixada em mim. Você me deixa…?
Ela assentiu, ajoelhando-se na cama. Sem demora Theo puxou para fora as roupas de baixo do seu disfarce (jurando para si mesmo que da próxima vez estaria usando algo mais apresentável) e sentou-se na cama, puxando-a para seu colo. Charlotte voltou a beijá-lo sem demora, encaixando cada perna de um lado do seu corpo, depois descendo devagar sobre seu pênis, se encaixando ali sem pressa, mas também sem hesitação. Ele sentiu que viajava da terra até a lua no tempo que demorou para ser acolhido por inteiro no seu interior apertado e muito quente. Ele soltou um gemido rouco de pura satisfação, segurando-a firme pela cintura por um momento para que ela não se movesse. Só porque ele estava há um bom tempo sem sexo, temia estragar tudo se ela se movimentasse e gerasse o mínimo de atrito.
— Apenas… devagar — ele pediu em seu ouvido. Ela assentiu, ondulando o quadril em seu colo só um pouquinho.
Mesmo isso era o bastante para que ele quase explodisse. Tanto que esperara por aquele momento sem que pudesse sequer admitir para si mesmo, todos aqueles anos em que estivera ocupado odiando-a. Odiando-a abertamente e desejando-a em segredo.
Theo desceu suas mãos, segurando-a pelos quadris a fim de controlar o ritmo. Ele a puxou para cima e abaixo deslizando sobre seu pênis. Ela gemeu e amoleceu, agarrando mais o cabelo dele, murmurando seu nome. Ela era dele, não podia haver nada em sua mente que não fosse a sensação do seu membro a preenchendo.
Theodor enterrou os dedos na pele branca da bunda dela, aumentando a cadência com que a puxava pra cima e para baixo, esticando a tensão em si mesmo e as reações que ela lhe oferecia. Gemidos, suspiros, o tremor de seu corpo quente, cada vez mais quente e escorregadio contra o dele. Theodor alcançou um dos seios pequenos com a boca e arriscou mordiscá-lo. Recebeu em troca o choramingo mais delicioso, uma mistura de apelo e do som do seu nome.
Theo a puxou para cima e para baixo em torno dele mais rápido, ajudado pelo movimento sincronizado dos quadris dela. Charlotte se apoiava em seus ombros para manter o impulso, os dedos puxando seu cabelo pela nuca, os lábios beijando e sugando sua boca, pescoço, o lóbulo de sua orelha, depois sua boca de novo, as línguas se enrolando tão molhadas quanto seus sexos lá embaixo.
Ele não conseguia mais respirar direito, só sugar o ar em fortes arquejos, mas não se importava. Seu corpo inteiro queimava, cada vez mais perto da liberação. A vontade só aumentava com os gemidinhos involuntários que arrancava da garganta dela toda vez que Charlotte caía com força em seu colo, as coxas batendo sobre as pernas duras dele, seu pênis se enterrando fundo dentro dela. As palavras que ela dizia não faziam muito sentido, nem as dele, mas ainda havia uma coisa que Theodor queria saber antes de irem muito mais longe.
— C-Charlotte, você é… ahhh… você é minha? Você é minha garota, Charlie?
— Sim — ela ofegou apressada contra seu ouvido, a voz rouca recortada de prazer e perdição, arrancando arrepios dele enquanto prometia — S-sim Theo, eu sou sua. É claro que eu sou sua.
— BD —
— Veja só quem se saiu melhor do que a encomenda, a rainha da sonsidão, Charlotte Summers.
Sentindo o corpo pesado e ao mesmo tempo muito relaxado, Charlotte ignorou a voz num primeiro momento. Ela havia caído no sono sem perceber; sentia-se usada, dolorida em alguns pontos, de um jeito não de todo ruim. No entanto, o reconhecimento tardio da voz soando muito perto do seu ouvido enfim a trouxe à consciência e ela abriu os olhos, girando de lado.
Bellatrix Lestrange estava sentada à borda da cama, lhe fitando irônica através dos seus pesados olhos de demônio. A jovem se sentou de uma vez, olhando ao redor. Theodor não estava mais à vista, nem as roupas dele que ela organizara sobre a penteadeira enquanto o despia.
— Seu príncipe encantado desaparatou há alguns minutos — informou-lhe Bellatrix com maldosa diversão. — Ele até mesmo plantou um beijo em sua testa, como se não tivesse lhe fodido à exaustão uma hora antes. Um verdadeiro romântico.
Sentindo o rosto queimar de vergonha, Charlotte puxou o lençol de veludo para esconder o tronco nu. Seus seios estavam sensíveis com todas as mordidas e os arranhões da barba áspera de Theodor. Fodida à exaustão descrevia bem o que ele lhe fizera, mas saído dos lábios de Bellatrix parecia obsceno e errado. Seu estômago embrulhou.
— Você esteve assistindo? — perguntou ela, perturbada.
— Cada segundo da atração — Bella confirmou com prazer, os lábios se curvando para cima — Quem diria que você podia ser uma coisinha tão sorrateira, Summers? E eu pensando que não havia nada que se salvasse em você, mas toda aquela cena… minha nossa. Lágrimas e soluços. Então eu sou a mulher horrível que envolveu seu pobre tio com artes das trevas, aquele pobre inocente? Há! — ela deu uma gargalhada sonora e macabra. Charlotte encolheu os ombros e virou o rosto, dividida entre asco e um pouco de temor, mas Bellatrix parecia mais do que satisfeita. — Eu quase acreditei em algumas partes da sua choradeira, se eu já não conhecesse você…
— Você não me conhece nada — ela rosnou baixo, sendo ignorada.
— Sabe o que eu vejo quando olho para você, Summers? — Charlotte não tinha certeza se queria saber, mas a Comensal continuou mesmo assim, traçando uma unha pontuda pelo seu ombro, afastando seu cabelo para trás, provocando-lhe um arrepio desagradável em sua coluna — Uma aranha latrodectus… uma viúva-negra — esclareceu com um sussurro provocador. — Você tece sua teia firme e atrai sua pobre vítima sem que ela se dê conta, então você a ilude com esses olhos doces e com essa pose de coitadinha, para enfim devorá-la lentamente quando conseguiu o que queria. Foi o que você fez com Hector, Charlie? Você fez isso com Thor Carmichael também, foi como o convenceu…
As garras de Bellatrix alcançaram seu colar e deslizaram por ele até alcançar o pingente, mas Charlotte se afastou rápido.
— Não toque nisso — rosnou irritada. A mulher deu uma risadinha aguda e girou os olhos.
— Seu pequeno príncipe estava tão distraído que nem questionou essa coisa horrenda em seu pescoço. Não se treinam mais aurores como antigamente.
— O que você quer, Bellatrix? — Charlotte perguntou com exasperação. Estava nua, vulnerável e humilhada em saber que a Comensal escutara cada momento do seu encontro com Theodor, embora pensando bem isso não fosse nenhuma surpresa. A própria Bellatrix lhe proporcionara aquele esconderijo, uma das muitas propriedades secretas dos Lestrange espalhadas na Inglaterra, para que pudesse ficar longe do alcance dos aurores ao mesmo tempo em que recebia clientes e dava continuidade à venda de Blackburn.
— Não seja ingrata, garota, estou elogiando você. Agora que temos a confiança de Shadowtamer você deve garantir que continuem se encontrando. — Um sorriso maldoso se alastrou pelo rosto dela — Pelo jeito que você gemeu e miou em cima dele, isso não será nenhum grande sacrifício, estou certa?
Retorcendo o rosto diante das insinuações obscenas da Comensal, Charlotte se levantou da cama. A desculpa era de vestir-se, mas na verdade queria colocar o máximo de distância entre ela e Bellatrix. Seu estômago se retorcia com a proximidade excessiva da mulher, o que Bellatrix não só tinha consciência mas parecia diverti-la. Charlotte se virou de costas para deslizar o vestido de volta ao corpo, ajeitar os laços azuis volumosos nos ombros e arrumar os cabelos revirados. Alinhou cuidadosamente o colar, sob o escrutínio peçonhento da bruxa.
— É verdade então o que disse a ele sobre Bervely?
Charlotte se virou, uma sobrancelha erguida — Qual parte? Eu disse muitas coisas sobre a sua filha.
— Sobre ela ter querido ir à Azkaban me resgatar quando era pequena? — seu olhar era um enigma. As pálpebras pesadas e o tom zombeteiro de Bellatrix sempre passavam a impressão de que ela tinha um profundo desinteresse por qualquer coisa que não fosse ela mesma, mas dessa vez Charlotte não estava tão convencida.
— Por quê? Isso aquece seu coração de mãe, lhe traz esperança de uma reparação entre vocês duas?
Os olhos negros da mulher cintilaram perigosamente; sua resposta foi carregada de divertimento sarcástico.
— Talvez, quem sabe?
Charlotte deu um sorrisinho incrédulo pelo nariz.
— Nesse caso, talvez você deva se entregar aos aurores e encontrá-la na prisão, porque ao que tudo indica Bervely vai permanecer em Azkaban ainda por um longo tempo. Theodor está convencido a incriminá-la e garantir que ela pague tudo que lhe deve.
A expressão de Bellatrix se intensificou e ela lambeu o lábio com a ponta da língua, que na imaginação de Charlotte era bifurcada.
— Quanto à isso, veremos.
(Continua…)
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