A Canção de Morgana
64 O Retorno do Pequeno Rei
Notas iniciais
Sua aterrissagem no chão do corredor foi quase suave – o feitiço amortecedor funcionou para remover o impacto nos seus joelhos, mas ela tinha inferido mal a distância do chão e se desequilibrou quando os pés tocaram a superfície, caindo para frente e rolando contra uma das paredes com um baque seco.
Bervely gemeu com a dor lancinante no ombro que tinha se chocado contra a pedra.
— Malfoy? — Isabella chamou lá de cima.
Bervely olhou para cima. Ela via o pontinho da varinha de Isabella, e o vulto vago dela e dos outros, mas não muito mais do que isso. O labirinto era mais profundo do que parecera lá do alto – como raios ela ia voltar para a superfície?
Problemas para a Bervely do futuro, disse a si mesma, tentando relaxar. Pelo menos, nenhum lapso estava à vista. Ainda deviam estar todos ocupados roendo os ossos de Rosier.
— Melhor impossível — ela disse na voz de Draco, sem saber se podia ser ouvida. Pensou em acender a varinha que tinha se apagado na queda, mas achou melhor esperar os olhos se acostumarem com a escuridão. — Por enquanto.
Quando a dor em seu ombro recedeu, Bervely se ergueu e tentou reorientar as suas prioridades. A sua principal motivação para estar ali embaixo era recuperar o corpo de Rosier – ou talvez recuperá-la ainda viva, se ela tivesse conseguido se defender de alguma maneira.
De uma forma ou de outra, quando tudo fosse esclarecido, Draco seria o herói da situação. Ao contrário do que dissera lá em cima, ela não tinha a menor intenção de manter o que acontecera no vale em segredo – com ou sem voto de silêncio, ela ia dar um jeito de virar a situação a favor de Draco. Talvez um pouco de publicidade favorável na comunidade puro-sangue fosse o que o nome Malfoy precisava, e isso deixaria o Lorde das Trevas satisfeito o bastante para não enviá-la em outras missões de campo se passando por Draco, porque ela não estava se divertindo.
Ter pulado naquela vala cheia de mortos-vivos não tinha, é claro, nenhuma relação com a sua curiosidade em relação a Maeve Rosier, ou Sanguini, ou o que ela tinha querido com os lapsos. Nem um pouco, não era da sua conta.
Absolutamente não.
Bervely fez uma marca na parede, no ponto em que caíra, uma espécie de cruz luminosa para marcar a sua origem. A varinha de Lucius estava colaborando muito melhor do que esperava – talvez estivesse confusa, porque ela também estava usando Duas Serpentes? De toda forma, o feitiço funcionou, e Bervely elegeu a direção geral na qual os gritos tinham vindo e começou a andar, marcando a parede com o mesmo sinal a cada cinco ou seis passos.
Ela olhou para trás, verificando que eles ainda estavam lá depois de alguns minutos. A iluminação era evidente o bastante para guiá-la de onde viera, mas insuficiente para iluminar o caminho – ou, ela esperava, atrair lapsos em sua direção.
Aqui vamos nós, em mais uma missão suicida, ela cantarolou para si mesma, tateando seu caminho no escuro, se dando conta de que não estava com medo. Ao invés disso, uma estranha espécie de excitação se enrolava na base de seu estômago. Como se, depois de meses enterrada em um sótão cozinhando para o Lorde das Trevas, ela finalmente estivesse fazendo alguma coisa útil.
Alguma coisa boa.
Maldito complexo de heroína. De onde diabos isso tinha vindo, e como tinha se infestado nela tão profundamente que agora a fazia se sentir viva, e não estúpida?
A tentativa de lembrar fez a sua cabeça doer.
Apenas ache a maldita garota albina e traga ela de volta. Viva ou morta. Viva ou morta… Quem se importa?
Ela cantarolou as palavras sob a respiração, estranhamente eufórica, a varinha em punho pronta para mandar um incêndio nas fuças de qualquer lapso que cruzasse seu caminho. Onde estavam os monstros? Não, ela continuava andando, sozinha no escuro, virando um ou outro corredor, sem ideia de se estava indo no lugar certo. Os corredores pareciam todos os mesmos, cheiro de terra úmida, sustentados por raízes mortas, frios como túmulos…
Viva ou morta. Viva ou morta… Quem se importa?
Ela estava fazendo aquilo por Draco? Por Maeve Rosier? E se ela se perdesse ali embaixo? E se as luzes do feitiço se apagassem? E se os sonserinos a deixassem para trás, como tinham pretendido deixar Maeve? E se ela nunca conseguisse voltar à superfície? E se nunca mais visse Bellatrix, ou Blackburn Hall, ou aquele sótão úmido e todos os caldeirões de poções para o Lorde das Trevas?
Viva ou morta. Viva ou morta… Quem se importa?
E se eles dissessem que Draco tinha desaparecido lá no vale e todos acreditassem que ele estava morto? Ela teria feito o seu trabalho, protegido Draco, ele poderia começar de novo, viver como quisesse se todo mundo achasse que estava morto…
Viva ou morta. Viva ou morta… Quem…?
— Bervely?
Ela parou de andar. A primeira coisa de que se deu conta ao ouvir o som de seu nome foi que estivera usando a própria voz — e não a de Draco — para cantarolar sua canção sob a respiração. A segunda foi que reconhecia a voz que a chamara pelo nome pela segunda vez naquela noite.
Sanguini.
Sanguini estava ali embaixo. O que ele estava fazendo ali? Teria vindo atrás dela? Que ideia absurda. Claro que não. Ele devia ter visto Maeve cair, devia estar procurando por ela — sua mestra, ou o que quer que ela fosse para ele…
Bervely o procurou no escuro, encontrando a silhueta alta à sua esquerda, em mais uma bifurcação do caminho. Ele ainda usava a máscara. Mas ela tinha a impressão de que havia um rosto bonito por trás dela. Bonito e familiar, como uma pintura vista há muito tempo num livro, ou talvez produzida em algum sonho. Pontadas dolorosas em suas têmporas a forçaram a abandonar esse curso de pensamento.
Quem se importa?
Ela piscou de volta ao presente com esforço e se voltou para o vampiro.
— Ouvimos gritos. Achamos que a sua garota caiu aqui embaixo.
— Maeve não é minha garota.
Bervely ignorou o comentário.
— Ela está morta? Achamos que ela está morta. Ouvimos os gritos.
— Por que não voltou ao palácio com os outros?
Eles voltaram ao palácio? Como ele sabe—?
Não, não. Eles iam esperar. Eles tinham que esperar por ela. Por ele. Por Draco…
Bervely tateou o rosto, de repente incerta se ainda usava a aparência de Draco. Encontrou, com alívio, o queixo ossudo do primo em lugar do seu próprio.
— E onde é que você estava esse tempo todo? — perguntou ao vampiro, lembrando-se de que ele havia sumido de vista quando Nott e Rowle começaram a torturar a lapso sequestrada na plataforma.
— Virei uma curva errada. Perdi vocês de vista.
Ela não deu a entender que acreditava que aquilo fora um acidente. Viva ou morta... — a música continuava em sua cabeça como uma segunda, irritante voz, distraindo-a do raciocínio lógico.
Algo estava errado. (Com ela? Com o labirinto?)
Sanguini, mergulhado na escuridão, não tinha expressão. E ela não conseguia ler o tom de suas palavras.
Amigo ou inimigo? Perigo ou salvação?
— Precisamos tirar você daqui — ele disse, se aproximando dela devagar, diminuindo a distância entre os dois.
Não ocorreu a Bervely recuar. Descobriu que queria que ele sentisse seu cheiro de novo — queria saber como e por quê ele a reconhecia pelo cheiro.
— Não é seguro aqui embaixo.
Não é seguro lá em cima.
Não é seguro aqui dentro.
Ela piscou com esforço, tentando se concentrar no curso da conversa.
— E quanto à Maeve?
— Não se preocupe com ela.
Coisa estranha de se dizer sobre uma garotinha doente que mal conseguia andar sobre as próprias pernas — e que podia estar em sério apuro.
Bervely recuou um passo, uma revelação tardia se descortinando em sua mente como se o vento tivesse soprado a confusão dentro da sua cabeça, revelando um pedaço de verdade escondido sob a névoa.
— Você a empurrou. Você a jogou para os lapsos!
Sanguini parou de avançar ao perceber que ela recuara.
— Não.
— Você a matou. Foi por isso que veio aqui? Por isso nos seguiu aqui embaixo?
— Bervely, ouça, não temos muito tempo, quando os lapsos…
— Fique longe de mim — ela o advertiu, erguendo a varinha de Lucius entre eles. Sob a fraca luz, conseguiu enfim ver a sua expressão. Não havia nada ameaçador na metade inferior de seu rosto que ela podia ver — só frustração, impaciência e uma nota de aborrecimento.
— Está bem. Eu vou ficar longe, apenas me deixe lhe mostrar o caminho? Se seguirmos de onde veio…
— Eu não preciso da sua ajuda, vampiro. Eu tenho um plano.
Ela não tinha um plano. Não sem ninguém lhe esperando lá em cima. Além do mais, quando se virou para trás, descobriu que todo o caminho que tinha marcado com luz havia se apagado. Seu coração despencou até o chão.
Sozinha no labirinto com um vampiro.
Viva ou morta? Quem se importa?
Exceto que ela se importava. De repente, ela se importava muito, todos os seus sentidos ativos e pulsando, os alarmes de perigo atingindo as notas mais altas, seu recém-despencado coração alçando voo a mil por hora.
Fogo, Isabella tinha dito.
Talvez colocar Sanguini em chamas fosse lhe ganhar algum tempo para escapar dele.
Ela estava prestes a lançar o feitiço (Incendio ou Fulgare?), quando alguma coisa farfalhou atrás deles. O vampiro se lançou sobre ela, rápido demais para Bervely reagir, colando-os ambos contra a parede fria do corredor, uma mão sobre a sua boca.
— Shiu. Alguém está vindo — ele disse baixo em seu ouvido.
Esquecendo-se de que estivera prestes a incendiá-lo, Bervely ficou quieta dentro do abraço forçado, tentando ouvir. Mas tudo que ela ouvia era o próprio coração desenfreado, seu sangue rugindo em seus ouvidos. Os seus lábios pulsando contra a palma fria da mão do vampiro. O jeito como ele a segurava, firme mas cuidadoso, uma mão entre sua cabeça e a parede, acolchoando o contato.
Ele mais do que a conhecia.
Ela fechou os olhos, a cabeça pulsando em desacordo com toda e qualquer pergunta daquela natureza.
Quando os abriu de novo, viu seis ou sete lapsos se arrastando ao redor deles. Eles pareciam hipnotizados, muito diferentes do vislumbre faminto e desesperado que ela tivera antes, lá de cima. As criaturas os rodearam, cheirando, grunhindo baixo, e Bervely desviou os olhos das suas figuras ressequidas para os de Sanguini, emoldurados pela máscara. As estreitas fendas negras que eram as pupilas dele estavam fixas nela.
Bervely sentiu o medo se agitar em ondas, misturado à excitação e ao — anseio? Seu coração tão barulhento que ela tinha certeza de que os lapsos podiam ouvir, que eles estavam salivando por uma mordida.
Mas eles seguiram em frente depois de alguns segundos, como se ela não valesse o trabalho. Sanguini não se moveu até ter certeza de que eles já não podiam ouvi-los, e então a soltou, devagar, hesitante.
Bervely formigava em todos os lugares que seus corpos tinham se tocado, e pulsava em todos os lugares que eles não tinham.
— Hm — Sanguini disse, um tipo de grunhido de constatação e desconforto que ecoou dentro dela num nó.
Bervely engoliu em seco. Seu peito explodiria a qualquer momento. Se sua cabeça não explodisse antes.
— Por que eles não atacaram? — ela perguntou, a voz rouca. A sua voz. A sua boca. Sua metamorfomagia estava falhando. Bervely corrigiu-se rápido, mas o esforço aumentou sua tontura.
— Porque eu clamei você primeiro.
— Ah. — A boca seca, ela achou perigoso continuar aquela linha de questionamento.
— Por favor, me deixe tirar você daqui — ele pediu, preocupação evidente na voz. — Eu vou atrás de Maeve depois. Eu prometo.
Bervely queria perguntar quem é você, por que você se importa, o que você fez com ela, o que você fez comigo, mas ela não podia, não sem ver estrelas cintilando em suas vistas, não sem evocar uma náusea tão forte que fazia parecer que iria virá-la pelo avesso.
Mas ela não podia apenas… ir. Alguma coisa a segurava ali embaixo. Alguma coisa maior e mais importante do que ela.
— Não. Eu não vou sair do labirinto sem ela.
Ele estreitou os olhos por trás da máscara, impaciente, frustrado.
— Por que você se importa? Você nem mesmo a conhecia antes dessa noite.
Bervely mordeu o lábio inferior. Porque ela estava tramando alguma coisa. Porque tem algo acontecendo aqui, que eu não consigo entender.
Porque ela importa para você.
— Porque é a coisa certa — ela disse por fim. Uma explicação estapafúrdia, mas que, de alguma forma, fez soar como se fosse a razão verdadeira.
O vampiro a observou longamente, esperando mais alguma coisa. Quando percebeu que aquilo era tudo que ela diria, ele suspirou, e assentiu.
— Muito bem. Fique atrás de mim.
Eles começaram a andar de novo, Bervely seguindo-o de perto, seus passos de novo o único som nos corredores do labirinto. Ele parecia saber exatamente onde ir. Ela pensou que ele poderia estar levando-a mais profundamente ao labirinto, para colocar um fim nela também. Ele poderia estar levando-a direto aos lapsos famintos que iam se deliciar em seu sangue.
Não. Se ele quisesse matá-la, poderia ter feito isso antes de se anunciar.
Eles cruzaram com lapsos outras três vezes, e em todas as três, Sanguini se colocou diante dela, agindo como um escudo. As criaturas não tentaram atacar – só seguiram adiante, sem parecerem tão famintos. Bervely achou que eles pareciam… saciados, de alguma forma. Apaziguados. À sua passagem, eles deixavam um cheiro metálico e amargo no ar.
Enfim, encontraram o ponto onde Maeve caíra. Mesmo supondo que era o que tinha acontecido, Bervely ainda sentiu uma onda de choque ao se deparar com o pequeno corpo estirado no chão, os membros em ângulos estranhos, o vestido branco imundo, como se ela tivesse sido revirada muitas vezes antes de ser deixada em paz.
O cheiro acre de sangue era mais forte ali. Bervely, após um segundo de hesitação, se aproximou o suficiente para constatar – sob a fraca luz da lua minguante – que os olhos opacos da garota fitavam o nada, a boca semiaberta, os lábios descoloridos. Cada centímetro de pele exposta coberto de mordidas profundas, várias lacerando a carne, mas nenhuma sangrando.
Os lapsos a tinham encontrado e bebido até a última gota.
Bervely recuou com uma exclamação baixa. Sanguini, logo atrás dela, se aproximou e se ajoelhou ao lado dela. Gentilmente tocou o rosto descolorido de Maeve, fechou seus olhos. Murmurou alguma coisa num tom apaziguador.
— Vamos sair daqui — Sanguini disse.
Não era uma sugestão. Bervely engoliu as dezenas de perguntas se acumulando na ponta de sua língua, e assistiu em silêncio Sanguini recolher o corpo quebrado nos braços como se fosse feito de porcelana.
Bervely só queria que aquela noite terminasse. Agora que vira o corpo, estava se importando muito menos com o desfecho, ou como tiraria proveito da situação para melhorar a reputação de Draco.
* * *
— Quando chegarmos ao jardim, você deve seguir em frente e voltar à festa — Sanguini a instruiu. — Eu vou ficar para trás e cuidar dela.
Bervely assentiu distraidamente. Eles estavam de volta à trilha – Sanguini tinha lhe indicado um ponto do labirinto onde havia uma escada, semioculta pelas raízes. Bervely o auxiliara a trazer o corpo de Maeve à superfície, sentindo-se dentro de um pesadelo do qual ela ia acordar em breve, porque como era possível que a sua noite, que tinha começado em um opulento baile puro-sangue em um palácio iluminado por candelabros encantados, terminaria com ela carregando o corpo de uma puro-sangue, com a ajuda de seu consorte vampiro, que podia ou não podia ser coadjuvante em sua morte por sanguessugas famintos?
— O que vai fazer com ela? — Bervely perguntou, os olhos tão acostumados com a escuridão a esse ponto que ela conseguia ver com perfeição as irregularidades do vale.
— Quanto menos você souber, melhor.
— Eu suponho — ela murmurou, cedendo ao argumento.
— Mas você deve decidir o que vai dizer aos outros — disse Sanguini. — Os seus amigos vão querer saber o que aconteceu lá embaixo.
— Eu vou dizer que não consegui achá-la. Eles vão achar que me acovardei e voltei correndo com o rabo entre as pernas. É o que Draco faria — ela completou. — Descer ao labirinto foi uma ideia estúpida.
O vampiro não comentou. Por longos minutos que pareceram horas, eles caminharam em silêncio. Bervely conseguia ver a borda do vale agora, por onde eles tinham descido usando a escadaria. Atrás dela, os passos dele, o farfalhar suave do vestido arruinado de Maeve.
Ela evitava olhar para o par, a visão do corpo de Maeve por alguma razão fazendo-a se sentir fisicamente doente.
— Posso lhe fazer uma pergunta? — Sanguini perguntou.
Bervely assentiu, sem se virar, sem parar de andar.
— Por que vir disfarçada de Draco Malfoy esta noite? Por que deixar outra pessoa usar a sua identidade?
Outra pessoa. Ou ele não sabia que era Bellatrix usando a sua pele, ou queria que ela pensasse que ele não sabia. De uma forma ou de outra, ela não estava inclinada a delatar Bellatrix.
— Ossos do ofício.
Ele não a pressionou mais. Bervely se concentrou em subir a escadaria, um degrau após o outro, o corpo cada vez mais exausto, a energia focada em decidir o que ela faria quando chegasse lá em cima. Infiltrar-se de volta à festa, tentar não atrair atenção para Draco. Ia precisar de uma boa desculpa sobre sua ausência para Bellatrix, que certamente notara o seu desaparecimento.
Supunha que tinha falhado em conseguir pontos para a reputação de Draco — mas talvez fosse melhor assim, se significava que ninguém ia descobrir sobre Maeve. O vampiro ia lidar com o corpo, e Bervely e os outros adolescentes iam fingir que nada tinha acontecido. Talvez ela tivesse que dançar com Daphne Greengrass mais um par de vezes, mas eventualmente ela e Bellatrix iam voltar para Blackburn, e Bervely ia colocar aquela estranha, estranha noite para trás, dar um jeito naquela enxaqueca de uma vez por todas, e nunca mais aceitar uma missão de campo…
— Infernos — Sanguini disse ao seu lado.
Bervely parou, percebendo que tinham chegado ao topo das escadas — e entendendo o que tinha feito Sanguini xingar. Mais adiante, alguém os aguardava.
Bellatrix. Bellatrix, em seu volumoso vestido prateado, máscara e uma expressão impaciente no rosto roubado de Bervely.
A Comensal da Morte os avistara também, e começou a andar na direção deles a passos largos e urgentes.
* * *
Bervely assistiu à aproximação de Bellatrix com fascinação hipnotizada, parte dela entrando num pânico dormente, outra experimentando um improvável alívio. Bellatrix ia resolver aquela confusão — ou ia tornar tudo muito pior. De uma maneira ou de outra, em breve estaria fora de suas mãos.
Bellatrix — varinha de Bervely em punho, acesa com um lumos fraco — chegou perto o bastante para analisar a situação: Bervely coberta de terra, Sanguini com a garota inane nos braços, coberta de mordidas.
A extensão total de sua reação foi o erguer de uma sobrancelha.
— Essa é a garota Rosier?
— Ela está morta — Bervely contribuiu, provavelmente sem necessidade. Pela falta de surpresa no rosto de Bellatrix ao vê-los subindo do vale, Bervely intuiu que a comensal já sabia que algo tinha acontecido lá embaixo.
— Você a matou? — Bellatrix quis saber, espiando a condição de Maeve Rosier sob a luz da varinha.
— Quê? Não!
— O vampiro a matou?
Bervely hesitou.
— Foi um acidente. Ela caiu... Eles estão mantendo lapsos lá embaixo, centenas deles. Estavam famintos, ela não teve nenhuma chance—
Bervely se interrompeu sob o olhar impaciente de Bellatrix, exigindo que ela fosse direto ao ponto.
— O vampiro me ajudou a recuperar o corpo.
— Isso é inoportuno— disse Bellatrix. Em seu tom irritado, não havia nenhum espaço para piedade pela garota morta. Ela deu meia-volta, fazendo um gesto imperativo para que lhe seguissem, o vestido ondulando de forma dramática ao seu redor. — Vamos, antes que alguém mais apareça.
Bervely se apressou, alinhando seu passo ao dela. Draco tinha as pernas longas, mas Bellatrix andava rápido.
—O que está acontecendo? Você sabia sobre os lapsos lá embaixo? Isabella disse que os pais dela estão tentando adestrá-los…
— Para o Lorde das Trevas, sim — Bellatrix sibilou por entre os dentes. Bellatrix olhou para trás, viu que Sanguini não tinha se movido, e fez um gesto imperativo na direção dele. — Você vem conosco, criatura. Agora.
Sanguini se moveu, o rosto apático, os passos lentos. Bervely notou que ele tinha retornado ao seu personagem anterior: o suposto lapso bem adestrado à serviço de bruxos. Estava evitando contato visual com ela.
Bervely se voltou para Bellatrix.
— O que o Lorde das Trevas quer com lapsos?
Bellatrix não respondeu, mas Bervely se lembrou das palavras de Sanguini no labirinto — um exército. Um exército de mortos-vivos, é claro. Não seria a primeira vez — o Lorde das Trevas usara inferi ao seu serviço na Primeira Guerra… Pelas barbas de Salazar.
Bervely expirou, adiantando o passo para seguir Bellatrix, que os guiava de volta ao palácio, mas não na direção das portas pelas quais ela tinha saído mais cedo.
— Garota estúpida, aquela filha de Selwyn — Bellatrix sibilou, mais para si mesma do que para eles. — Se o Lorde das Trevas sequer ouvir o que ela fez esta noite, o quão perto chegou de interferir nos planos de milorde...
O quão perto? Bervely achava que ela tinha chegado mais do que “perto”, expondo os lapsos para os amigos e sendo, mesmo que indiretamente, responsável pela morte de uma sangue-puro.
Bellatrix escancarou uma porta insuspeita na traseira do palácio. Bervely espiou Sanguini e sua carga, tentando contato visual, mas ele continuava afixado em seu ato de apatia.
Ela estreitou os olhos. Por que ele estava fingindo obedecer Bellatrix?
Ele podia ter dado meia-volta, ao menos tentado escapar — Bellatrix não estava exatamente prestando atenção nele. Será que ele não percebia que estava se atrelando cada vez mais a uma situação que interessava ao Lorde das Trevas e, portanto, não podia terminar muito bem para ele? O quanto ele sequer sabia – ou se importava– com o Lorde das Trevas, sendo um vampiro?
Bervely olhou ao redor, ansiosa, mas os corredores estavam vazios, desprovidos de convidados. Todos deviam estar ainda no baile — com comida, bebida e boa música, e nenhuma necessidade de lidar com mortes acidentais em vales obscuros.
— E quanto ao corpo? — Bervely sussurrou para Bellatrix, ansiosa com a possibilidade de se encontrarem com alguém numa virada de corredor. — Se nos verem…
— O corpo é o menor dos nossos problemas — a comensal disse, indicando uma escadaria mais adiante. — Por aqui.
A escadaria as levou para o segundo patamar. Bervely achava que estavam mais ou menos no meio do palácio, onde ficava a torre central que ela avistara do lado de fora ao entrarem. Elas subiram e subiram, a saia volumosa do vestido de Bellatrix deslizando pelos degraus de mármore como líquido prateado, até chegarem ao topo da torre. As portas duplas, de madeira opulenta, estavam fechadas, vozes agitadas vazando do outro lado.
Antes que Bervely pudesse dizer que não tinha qualquer pretensão de interferir, Bellatrix escancarou as portas da sala, revelando um salão de reuniões circular, recoberto de painéis de madeira escura e cortinas pesadas de veludo, que combinavam com o estofado de sofás e poltronas antiquados. Bervely mal teve tempo de registrar o ambiente, pois foi distraída pelos seus ocupantes, cuja discussão foi interrompida pela entrada de Bellatrix.
— Eu achei a garota — anunciou Bellatrix, com uma eficiência arrogante, sem se dirigir a ninguém em especial, indicando o corpo de Rosier nos braços de Sanguini. Seu semblante mudara de indiferente para engajado, e Bervely percebeu que ela também estava incorporando sua personagem — no caso, sua própria versão de Bervely.
Madame Selwyn se virou em seu vestido dourado; a ausência de sua máscara revelando um rosto ansioso. Ao redor dela, sentados em poltronas ou no sofá amarelo-mostarda de veludo, encontravam-se, em variados estados de tensão e nervosismo, os desertores: Rowle Jr., Pansy Parkinson, Theodore Nott e Isabella Selwyn. Pansy pareceu aliviada ao ver quem acreditava ser Draco atrás de Bellatrix, mas seu alívio durou apenas até bater os olhos no corpo de Maeve. A cor sumiu de seu rosto.
Isabella ergueu o queixo e tapou um suspiro de horror com ambas as mãos. Nott e Rowle franziram a testa e desviaram o olhar. Madame Selwyn se adiantou na direção de Sanguini e Maeve, um vinco marcando seu rosto bonito.
— Então há de fato uma vítima? Ela está mesmo morta? Céus... — A bruxa estremeceu ao ver o estado de Maeve: as mordidas abertas nos braços e pernas, a brancura de seu rosto exangue.
Madame Selwyn as puxou para dentro da sala, murmurando maldições sob a respiração, e fechou a porta novamente. Bellatrix a ignorou, fazendo um gesto a Sanguini para que colocasse sua carga em um sofá vazio.
— Estive tentando fazê-los falar o que aconteceu lá embaixo, mas nenhum deles parece capaz de abrir a boca — disse Selwyn, contrariada.
— Draco já me contou tudo — informou Bellatrix, naquele tom irritante de boa garota, voltando-se para a bruxa mais velha. — Foi um acidente. A garota Rosier caiu na vala e encontrou criaturas famintas à sua espera.
— Mas por que ela estava lá embaixo? Por que qualquer um deles estaria? Não compreendo o que poderiam estar fazendo no vale... e por que estão agindo como se estivessem enfeitiçados!
Bervely observou Sanguini depositar Maeve no sofá com cuidado — a cabeça sobre uma almofada, os braços cuidadosamente cruzados sobre o corpo — e então se pôr de pé ao lado dela. Por um segundo, seus olhos se cruzaram, mas ele rapidamente os desviou para um ponto na parede atrás dela. A máscara lhe ocultava a expressão, se é que havia alguma.
Estaria ele de luto por Rosier? Eles tinham parecido próximos, no breve momento em que os vira interagir. Ela sentiu as têmporas queimarem de novo.
Com deliberação, afastou qualquer empatia pelo vampiro, ocupando-se em manter a mente o mais clara possível. Voltou-se para os quatro adolescentes, tentando adivinhar o que tinha acontecido depois que a deixaram sozinha no vale, uma crescente irritação se enroscando dentro dela. Ela poderia ter morrido lá embaixo. Se não fosse por Sanguini...
— Está óbvio o que aconteceu, Selwyn. A sua filha — Bellatrix fez um gesto amplo em direção a Isabella, que se encolheu como se temesse ser atingida — desafiou os amigos a um passeio no escuro, numa tentativa imatura de impressioná-los, ou talvez de aumentar sua própria importância, sem qualquer preocupação com as consequências.
Selwyn se virou para a filha, os olhos largos:
— Isabella jamais faria algo do tipo! Ela jamais — Madame Selwyn grunhiu, o rosto se arroxeando ligeiramente — faria algo tão irresponsável e pernicioso para a nossa família!
Bellatrix, com um sorriso pequeno e maldoso que Madame Selwyn não podia ver de sua posição, deu alguns passos à frente, parando ao lado da outra bruxa, a varinha apontada na direção de Isabella.
— Isabella naturalmente precisará ser punida com severidade, mas se você tem a necessidade de saber suas razões, com um pouco de persuasão ela soltará a língua... C—
— Espere! — disse Bervely, em voz baixa mas firme. Ela não gostava de Isabella, mas ainda preferia não vê-la torturada sob a mira de sua própria varinha. Não quando Bellatrix estava usando a sua aparência. — Isabella não pode dizer o que aconteceu lá embaixo. Nenhum deles pode. Nós fizemos um voto de silêncio antes de descer.
— Um voto de silêncio — repetiu Madame Selwyn, mesmerizada.
— A ideia foi minha — Bervely mentiu. Isabella arregalou os olhos para ela, mas Bervely continuou, ignorando-a. — Eu quis ir lá embaixo. Ela tentou me impedir, mas eu convenci os outros. Eu tinha ouvido boatos sobre o que estava escondido no vale.
Bellatrix, por detrás de Selwyn, lançou a Bervely um olhar de advertência. Bervely a ignorou, o coração pulsando rápido.
— O voto de silêncio não funcionou comigo porque eu estava do lado do vampiro. A corrente mágica não deve ter passado através de mim como deveria.
Nenhum dos adolescentes tentou desmentir Draco — talvez porque não pudessem, por conta do voto, ou, mais provavelmente, porque preferiam que ele levasse a culpa. Bervely podia sentir a onda de irritação de Bellatrix crescendo atrás dela, como uma corrente elétrica formigando através da rosa, e teve a impressão de que ia pagar por aquilo. No momento, não se importou. Não queria Bellatrix usando sua aparência e amaldiçoado em adolescentes em público — lidaria com as consequências mais tarde.
— Bem, senhor Malfoy, isso foi extremamente estúpido da sua parte. E veja no que resultou — Madame Selwyn fez um gesto na direção de Maeve, como se a morte da garota fosse tão inconviniente quanto um dano à sua propriedade. — Obviamente, medidas precisam ser tomadas para proteger as outras crianças. Quanto a você—
— Draco será punido de acordo, é claro — Bellatrix a interrompeu. Madame Selwyn ergueu uma sobrancelha para ela, questionando sua falta de finesse ao interromper um membro da alta sociedade bruxa. Mas Bellatrix não recuou em seu tom. — Draco será punido pela estupidez, mas ele não será culpabilizado pelo acidente com a garota Rosier. Isso seria um desastre para o nome Malfoy.
— E o que você sugere, Srta. Black? A ausência de Rosier será percebida e ligada ao baile, onde ela foi vista pela última vez por dezenas de bruxos! Haverá uma investigação, e se não tivermos uma história convincente... sem falar no estado do corpo — saberão que algo a atacou!
— Simples. Colocamos a culpa no vampiro — disse Bellatrix, indicando Sanguini. — Diremos que ele se voltou contra Rosier, levou-a à força para os jardins e a sugou até a última gota. Ninguém vai achar estranho, a revolta dos lapsos está acontecendo por todo o país. E, é claro, teremos cinco testemunhas para corroborar — completou, indicando os adolescentes. — As crianças estavam nos jardins, de onde testemunharam o ocorrido. O vale nunca será mencionado, e nenhuma família bruxa será implicada. E mais importante — ela se voltou para Madame Selwyn, num tom sugestivo —, nenhuma palavra sobre os lapsos do vale sairá desta sala. Portanto, nenhum aborrecimento recairá sobre o nosso amigo.
— E como pretende fazer o vampiro concordar com tal plano? — Selwyn perguntou, voltando-se para Sanguini, que continuava apático, sem dar sinal de ter ouvido o complô contra ele se desenrolar bem à sua frente.
— Com um pouco de persuasão mágica — Bellatrix ergueu a varinha de Bervely na direção de Sanguini, dessa vez agindo antes que Bervely pudesse interferir: — Imperius.
O feitiço dourado envelopou o peito e a cabeça de Sanguini, a luz se chocando contra ele e se dissipando em ondas ao seu redor. Bervely se achou prendendo a respiração — não ia funcionar. Mas, após um segundo em que a sala inteira pareceu em suspenso, a expressão dele relaxou por detrás da máscara, seus olhos se tornando vítreos e desfocados.
Nos rostos de Rowle e Nott, uma nova nota de admiração pelo que eles achavam ser Bervely Black surgiu. Madame Selwyn, por sua vez, observava Bellatrix com uma espécie de gratitude horrorizada. Era óbvio que ela estivera secretamente em pânico pelas consequências que a história teria, não só para o nome Selwyn, mas para os planos secretos do seu “amigo em comum”.
Bervely olhou de uma para a outra, percebendo que, sutilmente, Bellatrix não só reclamara para si o controle da situação, como estabelecera — muito mais claramente do que Bervely teria preferido — que elas estavam servindo ao mesmo mestre. Se havia alguma dúvida de que lado Bervely estava, Bellatrix fizera questão de esclarecer isso, para ninguém menos do que a chefe do diretório puro-sangue, ao mesmo tempo em que a ajudava em uma crise política.
Cheque-mate, mamãe, pensou Bervely, impressionada e desgostosa em partes iguais.
Também não lhe escapou o quão rápido Bellatrix tinha divisado aquele plano, provavelmente numa questão de segundos, ao avistar Sanguini com o corpo da garota nos braços. Já saberia que ia usá-lo como bode expiatório no momento em que o chamara para acompanhá-los ao castelo, carregando o corpo? O calculismo da comensal lhe esfriava a espinha.
— Agora, obviamente, teremos que remodelar algumas memórias. Não dá para confiar em crianças traumatizadas para recontar a história com a consistência necessária — continuou Bellatrix, indicando os quatro adolescentes.
Madame Selwyn, um tanto pálida, assentiu devagar, sem encarar a filha.
— Mãe! — Isabella protestou. — Você não pode apagar nossa memória!
— Quieta, Isabella. Eu farei o que for necessário e você e seus amigos vão colaborar. Somos afortunadas de ter a Srta. Black aqui esta noite para nos ajudar a lidar com a questão com tamanha graciosidade.
— Precisamos agir rápido — Bellatrix disse a Selwyn, uma impaciência reverberando em seu corpo, como se já fizesse muito tempo desde que ela tinha amaldiçoado alguém, e seus ossos estivessem comichando. — Cuidar da memória dos adolescentes, retornar o corpo de Rosier aos jardins, capturar o vampiro no ato, e então, você notificará os aurores do trágico acontecimento antes que o baile chegue ao fim.
— Sim, sim — a bruxa mais velha assentiu, aprumando-se com a nova resolução. — Eu cuidarei do corpo, posso me mover pelo palácio sem ser vista com mais facilidade. Acha que pode lidar com as memórias…?
Bellatrix assentiu, o mesmo sorriso frio no rosto, mas em suas entranhas, Bervely sabia — sentia — sua ansiedade maligna pulsando.
Selwyn se aproximou do sofá em que o corpo de Maeve fora depositado — olhando de relance para o vampiro, como se esperasse um ataque. Sanguini não fez qualquer menção de impedi-la, e ela, com um movimento da varinha produzida de suas vestes, fez levitar a garota, os braços moles pendendo no ar, a cabeça pesando num ângulo exagerado, o cabelo quase branco cobrindo seu rosto inane.
Bervely assistiu à bruxa deixar a sala com a sua carga flutuante levitando diante dela, e teve a impressão de que aquela não era a primeira vez que Madame Selwyn cuidava de um corpo para o benefício do Lorde das Trevas.
Para cada comensal da morte carregando a Marca Negra orgulhosamente em seu braço, havia uma dezena de bruxos e bruxas como Selwyn, fazendo o seu trabalho sujo às sombras, com suas peles imaculadas, deixando um caminho livre para a sua negabilidade, caso precisassem. Esses eram talvez piores do que os comensais assumidos — sua lealdade oportunista, seus serviços prestados por coerção ou por interesse próprio, sem que precisassem responder pelas consequências dos seus atos.
Então Bervely se deu conta de que era exatamente o que ela estivera fazendo nos últimos meses, e bile amarga subiu pela sua garganta.
— Draco? — Bellatrix chamou, eficiente. — Se importa em me ajudar com os obliviates?
Bervely piscou, voltando a atenção para a sala, e percebeu que havia alguma coisa estranha. Pansy, Nott, Rowle e Isabella não estavam se mexendo. Isabella estava congelada, olhando em direção à saída por onde sua mãe tinha ido, a boca aberta em meio a uma reclamação pela sua atenção. Nott estivera discretamente tateando pela varinha, a mão parada à meio caminho do bolso, e Rowle estava com a sua própria discretamente segura ao lado do corpo, a ponta faiscando. Pansy, inclinada na direção de Isabella, parecia prestes a dizer que ela se calasse.
Embora nenhum deles se movesse, não pareciam petrificados.
— O que você fez com eles?
— Aresto Momentum. Mais fácil apagar memórias coletivamente — Bellatrix estreitou os olhos para Bervely, desconfiada. — Você foi treinada em manipulação coletiva de lembranças, eu espero?
— Sim, é óbvio, é a primeira coisa que aprendemos na aula de nível básico de comensal da morte.
— Se apenas a sua educação mágica fosse tão avançada quanto o seu senso de humor é sofrível — Bellatrix suspirou, dando-lhe as costas. — Não importa, tudo que precisa fazer é seguir a minha liderança. Vamos manipular a memória dos quatro de uma vez; dessa forma, não haverá variação na lembrança. Você aprendeu amplificação mágica em Hogwarts?
— Sim — Bervely bufou, alinhando-se com Bellatrix apesar da sua resistência em manipular a memória dos adolescentes. — Mas não vou conseguir com essa varinha. Não tem me obedecido muito bem.
Sem comentários, Bervely lhe devolveu a própria varinha e produziu a sua do coldre oculto na dobra da saia do vestido. Se ela estivera com a própria varinha aquele tempo todo, por que raios tinha usado a sua para amaldiçoar o vampiro? Mas Bervely imaginava a resposta — Bellatrix queria implicá-la. Se Bervely não corroborasse a história daquela noite, seria ela que estaria em problemas, com um Imperius gravado em sua varinha, e Merlin sabia o que mais.
— Pronta? — Bellatrix perguntou. Bervely assentiu.
Talvez fosse melhor se os adolescentes não lembrassem do que tinha acontecido no vale. Quanto menos todos eles tivessem a ver com os negócios de Voldemort, melhor, certo? E quanto à culpabilização de Sanguini… ela espiou na direção do vampiro, que continuava apático, fitando o vazio, sob o feitiço Imperius de Bellatrix.
Ele seria culpabilizado pela morte de Maeve, e Bervely duvidava que havia muito que ela pudesse fazer a respeito. Então por que havia aquela sensação horrível de culpa e responsabilidade pesando em seu estômago? Como se ela tivesse que resistir, interferir…
— Bervely?
O som do seu nome na sua própria voz a sacudiu daquela ideia insana. Não, ela precisava se lembrar com o que estava lidando aqui. Draco. A reputação de Draco, a segurança de Draco. A versão dos acontecimentos que precisava ser a verdadeira naquela noite era aquela em que Draco não ia ser envolvido em outra morte suspeita de uma bruxa adolescente. Draco era família, e Sanguini era nada mais do que um estranho que tinha se envolvido com algo que não devia. Ele nunca devia ter se aproximado de Bellatrix, convidado-a para dançar. Ele devia ter instintos de autopreservação melhores… como ela.
Aquilo era sobre sobreviver. Não sobre fazer “a coisa certa”.
Bervely assentiu, arrancando os olhos dele, decidida a ignorá-lo dali por diante. Sanguini não era problema seu. Rosier não era problema seu.
— Pronta.
Bellatrix iniciou o feitiço — uma densa nuvem prateada se desenrolando da ponta da sua varinha. Bervely usou a própria mágica para potencializar a nuvem, como aprendera em Feitiços, como praticara diversas vezes com Tonks quando tinha ajudado a prima a estudar para os exames da Academia de Aurores. Ela sentiu sua magia se combinar com a de Bellatrix, se expandir, a nuvem prateada crescendo e adensando diante delas, como uma tempestade em miniatura.
Bellatrix a lançou, com um movimento suave do pulso, sobre os adolescentes paralisados, englobando e então engolfando o espaço entre suas cabeças, entrando pelos ouvidos e penetrando em seus cérebros. A comensal da morte fechou os olhos, surrupiando as memórias que eles tinham daquela noite, e sussurrando o que ela queria que eles lembrassem em vez disso. Bebendo e conversando nos jardins. Assistiram ao lapso trazer Maeve Rosier. Aterrorizados demais para interferir. Ele a calou e a devorou até a última gota. A pobre garota, sem poder andar, sem poder escapar, não teve chance…
Bervely sabia que a mente deles preencheria as lacunas, em sua tentativa de fazer sentido às memórias — era como Obliviate funcionava. Obliviates bem lançados eram praticamente indiscerníveis de memórias verdadeiras — o segredo era fazê-las vagas o suficiente para que a mente do receptor tivesse a chance de criar em cima e ao redor delas, mas específicas o bastante para que não fossem distorcidas por imaginação ou opiniões pré-concebidas.
Bellatrix parecia plenamente capaz de alcançar o balanço necessário. Bervely desconfiava que sua participação, potencializando o feitiço — fosse dispensável. Mas o fato de que ela tinha unido sua magia à de Bellatrix a faria mais estável, mais durável, mais impermeável, do que sem as suas magias misturadas.
— Muito bem — disse Bellatrix, quando a nuvem se dissipou, e com ela, as memórias verdadeiras.
Bervely percebeu que a comensal se dirigia à ela, e sentiu um estranho calor se espalhar pelo peito. Ela se deu conta de que era a primeira vez que ela e Bellatrix trabalhavam juntas num feitiço — e por acaso aquilo tinha sido um cumprimento?
Bellatrix se voltou para ela, sem dar mostras em seu rosto de que a tinha de fato cumprimentado pela sua habilidade mágica.
— Agora, não que eu não confie em você para guardar a nossa história… mas os lapsos são um segredo que milorde não está pronto a dividir.
Bellatrix encostou a ponta ainda quente da varinha na têmpora da filha.
Bervely sentiu o coração congelar no peito, seguido de uma onda de humilhação. Ela tinha mesmo cogitado que Bellatrix ia confiar nela? Que elas estavam agindo juntas? Idiota. Idiota, iludida, idiota.
E ela tinha talvez segundos antes que Bellatrix apagasse sua memória, e então o quê? Como se ela tivesse qualquer chance contra—
— Deixa a cabeça dela em paz, Bellatrix.
A Comensal da Morte se virou, devagar e ultrajada, na direção do vampiro, sem tirar a varinha da têmpora de Bervely.
Sanguini caminhava em sua direção, todo o fingimento deixado de lado. Bervely prendeu a respiração.
O que diabos ele estava fazendo? O que tinha acontecido com o Imperius? Ela vira os olhos dele perderem o foco… E ele tinha dito — ele tinha chamado Bellatrix pelo nome?
— Infernos me devorem — Bellatrix rosnou, enfurecida. — Você pensa — você ousa — Imperius!
O feitiço dourado o envelopou como da primeira vez. E, como da primeira vez, se dissipou, exceto que dessa vez Sanguini não fingiu estar sob o efeito do Imperius. Ele continuou se aproximando devagar.
— Eu disse: deixe. A cabeça dela. Em paz.
Bellatrix rosnou de novo, um som mais feral do que humano, frustração e ultraje revolvendo-se em seu semblante lívido.
— E quem você pensa que é para me dar ordens — Evanesco!
O feitiço dissolveu a máscara negra, enfim revelando o rosto de Sanguini. Bervely absorveu as feições do vampiro com o efeito de um soco no estômago. Ela o conhecia, o reconhecia — com a medula dos seus ossos, com os nervos sob a pele — mas o nome dele, o significado dele, lhe escapava, dolorosamente, impossivelmente…
Bellatrix não estava sofrendo da mesma amnésia angustiante. Sua expressão mudara, de ultraje e frustração para choque, reconhecimento, e então horrorizada incredulidade.
— Regulus Black — ela sibilou. — Impossível.
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