A Canção de Morgana

65 Caos no Palácio Grisaille


Notas iniciais
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— Regulus Black. Impossível. Você está morto.

Bervely sentiu as palavras reverberarem dentro dela e percebeu que as emoções de Bellatrix estavam vazando para ela através da rosa de novo. Medo, horror e incredulidade, misturados numa sopa ácida em sua garganta.

Ela assistiu, fascinada. Nunca tinha visto Bellatrix com medo antes.

— Correto — o vampiro assentiu, muito calmo, exceto pelo brilho de advertência que ainda estava cintilando em suas pupilas estreitas.

Eu matei você — disse Bellatrix.

— Hmm. Correto também.

— EU MATEI VOCÊ! — Bellatrix berrou. A estridência de sua voz sacudiu a vidraça da sala e os ossos de Bervely. O vampiro meramente fechou os olhos, parecendo um tanto contrariado com o exagero da reação. — EU. MATEI. VOCÊ! AVADA KEDAVRA!

A maldição explodiu em verde iridescente, atingindo Regulus Black no peito, lançando-o alguns metros para trás com violência. Ele caiu com um baque aos pés do sofá.

Bervely arfou, o ar em seus pulmões roubado pelo flash verde, a irrevogabilidade do ato deixando-a tonta.

Bellatrix observou o ponto em que a sua vítima caíra, arfando, o rosto exangue. O peito subindo e descendo com a respiração acelerada, apertado no corset do vestido.

Regulus Black tossiu, gemeu e se ergueu devagar, ajeitando os cachos negros que tinham caído sobre o rosto.

— Só funciona uma vez, Bella. Mas eu não vou julgar, no seu lugar, eu também teria ten–

— AVADA KEDRAVA! AVADA KEDRAVA! AVADA KEDRAVA!

Bervely fechou os olhos para a intensidade da luz verde queimando suas retinas a cada maldição da morte. Mas ela não podia fugir da intensidade dos sentimentos de Bellatrix borbulhando dentro dela, nublando toda a razão, toda a sua coerência… exceto que sim, ela podia.

Bervely apertou os punhos, achando dentro de si aquele ponto de contato com a rosa, aquele acordo que elas tinham desenvolvido ao longo do tempo, e delicadamente a convenceu a fechar-se para Bellatrix, afastar-se do que pertencia à comensal, manter distância de sua loucura, do seu descontrole…

Devagar, o frenesi de Bellatrix recuou de seu sistema, e Bervely foi deixada apenas com os seus sentimentos à flor da pele. Ela fez uma avaliação rápida da situação em que se encontravam.

Bellatrix chamara o vampiro de Regulus Black. Como em, o irmão de Sirius. Comensal da Morte supostamente morto há muitos anos. Eu matei você. Bervely procurou, mas não achou surpresa naquela constatação. Não, ela já sabia daquilo. De alguma forma ela sabia. Se esquecera, mas sabia…

— AVADA KEDRAVA! AVADA–

Cada feitiço atingia Regulus com a mesma intensidade, jogando-o para trás. Ele não estava tentando reagir, mas também não estava morrendo, como seria de se esperar.

Em sua fúria e terror, Bellatrix parecia incapaz de compreender que não podia matá-lo uma segunda vez. Os jatos de luz verde, no entanto, iam passando de raspão entre as cabeças paralisadas dos adolescentes. O último tinha cruzado o ar tão perto da indefesa Pansy Parkinson que fez uma mecha do cabelo escuro flutuar.

Bervely se levantou, avançando na direção de Bellatrix antes que ela de fato atingisse um deles.

— Bellatrix, já chega, ele não vai–

— QUIETA! — Bellatrix urrou, empurrando-a para longe. Surpresa, Bervely cambaleou e se apoiou numa mesa mais adiante, o quadril encontrando-se dolorosamente com uma quina.

— AVADA KEDRAVA!

Regulus caiu sobre os joelhos e mãos aos pés de uma tapeçaria, rolou, e se reergueu, cambaleando e sorrindo.

— AVADA KEDRAVA!

Os joelhos dele cederam, a cabeça batendo na quina de uma poltrona. Ele rolou no chão, fora do alcance de Bellatrix, gemendo.

Por que ele não reagia?

— AVADA–

— ELE JÁ ESTÁ MORTO, BELLATRIX! JÁ CHEGA!

Bellatrix a ignorou. Bervely enviou uma onda de irritação através da rosa e soube que a tinha atingido quando a Comensal estremeceu, virando-se em sua direção — os olhos rolando loucos nas órbitas, uma expressão alucinada e traída, como se Bervely a tivesse cutucado com uma vara pontuda.

— Já chega — Bervely repetiu, com a voz calma. — Nenhuma quantidade de Maldições da Morte pode matar o que já está morto.

Você não entende — Bellatrix sibilou para ela, os olhos insanos, os dentes à mostra. — Ele não pode estar aqui! Ele não pode— o Lorde das Trevas— se ele souber… se ele sequer desconfiar—

— Vai ficar muito chateado, verdade — Regulus disse, levantando-se com dificuldade. — Quando milorde descobrir que você deixou essa passar, prima, ele vai colocar você de castigo no cantinho da vergonha.

SEU VERME DESPREZÍVEL! — Bellatrix avançou para ele. — EU VOU DESTRUIR VOCÊ EM PEDAÇOS. SE ACHA QUE EU NÃO VOU ACHAR UM JEITO—

— Tenho certeza de que vai encontrar uma forma bem criativa de me fatiar, quando recuperar a compostura — respondeu ele, com um assentir condescendente e irritante. Bervely nunca vira ninguém mais despreocupado diante da varinha e da fúria de Bellatrix — o que por si só já era de se admirar. Ela própria estava tremendo, mas então, ela ainda podia morrer, se Bellatrix errasse a mira.

Imperius! — Bellatrix urrou na direção dele, como se já não tivesse tentado aquilo duas vezes.

Regulus recebeu o feitiço no peito, esticou o corpo como se sacudido por ar frio, e deixou escapar um suspiro pesado.

— Não vai funcionar, Bella.

CRUCIO!

O raio vermelho quase o atingiu, mas dessa vez Regulus se inclinou para o lado, e o feitiço se dissipou nas pesadas cortinas.

Bervely teve a impressão de que ele estava brincando com Bellatrix. Ganhando tempo. Aquilo era tudo parte de algum plano louco para mantê-la ocupada? Para salvar a própria pele, não ser implicado na morte de Maeve Rosier? Se esse era o caso, ele poderia ter feito isso sem se revelar… se ele fosse mesmo Regulus Black. Naquela noite, ninguém parecia ser quem dizia ser.

Ela estreitou os olhos na direção dele, desconfiada.

— Milorde vai ficar furioso quando souber que você me deixou andando por aí todos esses anos, Bella. Talvez ele reavalie a sua posição como braço direito…

INCENDIARE! LOCUSUS!

Uma língua de fogo se alastrou pelo sofá atrás de Regulus. O que parecia uma lâmina conjurada cravou-se no chão a centímetros dele, com um ruído de trituração de ranger os dentes.

— Faz tempo que eu queria bater um papo com você, pra falar a verdade, prima — Regulus disse, em tom casual, desviando de mais uma labareda, que atingiu as portas fechadas e deixou uma feia queimadura na superfície de madeira. — Fiquei sabendo que você curtiu Azkaban um bocado.

Ele se abaixou no último instante de um SECTUMSEMPRA que, uma vez errando seu alvo, abriu rasgos profundos no painel de madeira, expondo a parede de granito por trás.

— Ideia de mau gosto usar a pele da sua filha essa noite, a propósito. Mas suponho que você quis reviver a glória dos velhos tempos?

Bellatrix mirou, explodindo em mil pedaços o sofá no qual Regulus se escondera — farpas de madeira e estofado voaram por todo lado.

Bervely se encolheu dos estilhaços, lançando um olhar preocupado na direção dos quatro adolescentes obliviados e ainda paralisados. Silenciosamente, ergueu um feitiço escudo ao redor deles.

Regulus deslizou para trás de outro móvel, ágil, rindo.

— Preciso dizer que estou bastante feliz em saber que ela não se parece nem um pouco com você. Muito mais esperta e muito mais bonita. Deve ter saído ao pai… deu sorte. Tem notícias de Sirius, a propósito?

Sirius Black está morto! — Bellatrix rosnou, explodindo uma mesa tão perto de Regulus que ele teve de rolar para se livrar dos pedaços afiados de madeira.

— Tem certeza? — A voz dele soou de algum ponto indeterminado por trás da fumaça e da poeira. — Quero dizer, você também achou que eu estava, e aqui estamos…

Silêncio. Bellatrix parou de lançar feitiços, e a suspensão do ataque foi tão súbita que, em vez de aliviar Bervely, causou uma nova tensão em seu corpo. Ela percebeu que ainda estava prendendo a respiração e a soltou devagar, tentando não chamar atenção para si mesma.

Um farfalhar às suas costas. A ponta da varinha de Bellatrix tocou a sua nuca. Bervely se enrijeceu, pega de surpresa.

— Você parece estranhamente interessado em minha filha, vampiro — Bellatrix considerou, a voz afetada pela respiração acelerada. — Mas ela não se lembra de você. Acabei de perceber que eu nunca lhe perguntei de onde você a conhece.

— Eu não a conheço — disse o vampiro, se erguendo devagar do meio da sala semidestruída, uma camada de poeira em suas vestes escuras, e nos cachos bagunçados sobre o rosto. — Não antes de hoje à noite.

— Tem certeza? Você parecia decidido do contrário, quando tentou me convencer a acompanhá-lo ao salão de baile.

Regulus percebeu para onde a varinha de Bellatrix apontava. O sorriso em seu rosto se dissolveu rápido.

— Foi um engano. Eu a confundi com outra pessoa.

— Eu não acho que tenha sido. Se eu não posso matar você essa noite, ao menos posso conseguir algumas respostas, o que acha?

— Bellatrix, não–

Crucio.

Bervely teve meio segundo para se preparar, antes que a dor do primeiro choque dobrasse os seus joelhos. Ela caiu no chão tomada da familiar, mas ainda horrível agonia do Cruciatus de Bellatrix, perdendo os sentidos por um momento, todos os seus pontos de contato com o mundo inundados pelo feitiço.

Muito longe, quase fora do alcance dos seus ouvidos, Regulus Black falava. Difícil saber o que ele dizia, seus ouvidos cheios de lava, seu cérebro uma sopa fervente.

Bellatrix suspendeu o feitiço tão subitamente quanto o lançara, a ausência da dor tão desorientadora quanto a sua chegada tinha sido. Bervely ficou quieta, entregue ao chão, se concentrando em respirar em grandes arquejos que faziam seus pulmões arder. Era de se supor que depois de tanta exposição ao Cruciatus ele fosse se tornar mais suportável, mas não parecia ser o caso.

Bellatrix e Regulus estavam conversando, mas as palavras soavam como se debaixo d’água. Seu corpo parecia pequeno, as roupas de Draco folgadas. Ela percebeu que tinha perdido o controle da sua metamorfomagia, sob a maldição. Estava de volta ao próprio corpo. Provavelmente devia retornar ao corpo de Draco – tentou, mas não conseguiu achar energia para a transformação.

— Eu a vi em Hogwarts uma vez, é só — Regulus Black estava dizendo, quando Bervely conseguiu compreender palavras novamente. — Durante uma festa. Eu fui ao castelo numa tentativa de encontrar alguém, e cruzei com Bervely.

Bervely não se lembrava de nada daquilo. Ela tinha memórias vagas de uma festa em Hogwarts, a festa em que Cho Chang tinha desaparecido – e Draco quase fora implicado em sua subsequente morte – mas o vampiro não figurava naquelas memórias. A tentativa de lembrar fez a sua cabeça doer, e Bervely, pela milésima vez naquela noite, recuou para um canto seguro e longe de perguntas.

— Ela se lembraria de você — Bellatrix contestou. Agora que ela estava no controle de novo, não parecia mais tão propensa a gritos e explosões. Ainda estava parada sobre onde Bervely caíra, ainda apontando a varinha para ela, de forma que agora haviam duas Bervelys na sala, uma torturando, a outra se contorcendo. — Bervely se lembraria de ter visto um Black supostamente morto caminhando por Hogwarts!

— Eu não me apresentei na ocasião — Regulus disse, a voz baixa, o tom ilegível.

— Mentiroso! Crucio!

Bervely dessa vez respirou fundo, se preparando para a onda de agonia. A maldição ainda revirou a sua carne, ainda derreteu a medula dos seus ossos, mas ao menos ela sabia o que esperar, como se desenrolava, que haveria um fim. Ela cavalgou a dor como tinha aprendido dentro do círculo de pedras, os dentes travados com firmeza, se agarrando ao fato de que enquanto Bellatrix estivesse ocupada com Regulus Black, não ia tentar obter respostas dentro dela, não ia cavar seu caminho pelas memórias de Bervely, o que era um tipo muito mais diferente, incapacitante e humilhante de tortura.

JÁ CHEGA! Está bem, é mentira — Regulus rosnou. Ele tinha feito menção de se aproximar para interromper Bellatrix, mas se deteve, cruzando os braços ao invés disso. — Eu mexi na memória dela, não queria que ela se lembrasse até me ver de novo. Mas aparentemente – bem, a memória se perdeu por completo.

— Como? Como poderia manipular a memória dela, sem uma varinha? Seu tipo não pode usar magia, vampiro, ao menos disso eu estou bem informada! — Eu pedi a um amigo — Regulus disse, sem titubear. Um aliado em Hogwarts, alguém próximo a ela.

Bellatrix fez um ruído de ceticismo e Bervely se tensionou, esperando outro Cruciatus. Mas a comensal, ao invés disso, soltou uma exclamação furiosa, como se tivesse chegado a uma conclusão de quem seria o aliado de Black:

Snape! Severus Snape, aquele traidor imundo ajudou você! Eu preveni milorde… Preveni diversas vezes, eu sabia que ele não era confiável!

— Então o que vai ser, Bella? A garota não tem nada a ver com o nosso assunto pendente. Deixe-a fora disso e nós podemos–

Gritos. O som coletivo de gritos fluiu por uma das janelas que Bellatrix explodira em sua fúria parecendo vir lá de baixo, do baile. Alguma coisa horrível estava acontecendo no baile. Bellatrix se voltou para Regulus com renovada desconfiança.

— O que você fez, vampiro?

Regulus piscou com inocência. Mesmo Bervely não compreendeu a acusação por inteiro — como Regulus poderia ter qualquer coisa a ver com uma comoção lá embaixo? A sua primeira reação foi um ataque — comensais da morte? — Mas o que eles teriam a ganhar atacando um baile puro-sangue? Além do mais, se os comensais estivessem atacando, Bellatrix estaria envolvida, não pega de surpresa como no momento.

— Eu acho que você vai ter mais a explicar para o seu mestre do que a minha presença essa noite, Bella.

Antes que a sua afirmação pudesse fazer sentido, a vidraça da janela atrás de Regulus explodiu com enorme barulho. Bervely se encolheu, Bellatrix gritou — um segundo e a comensal estava em posição de defesa, um escudo gigantesco barrando os detritos, e por um segundo Bervely achou que um enorme pássaro branco tinha se chocado contra o vidro, caindo numa confusão de asas aos pés de Regulus.

Mas quando o pássaro se desenrolou e ficou de pé, ela percebeu que não era um pássaro, mas sim uma garota em um vestido branco imundo, pés descalços, pele albina e cabelos brancos emaranhados. Maeve Rosier, os olhos violeta estreitos e um sorriso na boca fina, definitivamente viva. Ou ao menos, não morta.

Ela se virou para Regulus com a doçura de quem absolutamente não tinha invadido a sala voando depois de ser levada embora presumida morta.

— Os lapsos estão lá embaixo. Desculpe a demora, mas nós definitivamente temos que ir. Espero que não tenha ficado entediado.

Bervely olhou de relance para Bellatrix, lendo a confusão em sua expressão também. Regulus hesitou, olhando na direção de Bervely, e de volta à Maeve Rosier:

— Você vai na frente, eu vou ficar e ajudar–

— Não — disse Maeve, sem deixá-lo terminar. — Esse não foi o nosso acordo.

— Eu não posso simplesmente deixá-la para trás, Mae.

— Ela está aqui por vontade própria! — Maeve guinchou. — Você queria ver com os próprios olhos e agora você viu! O que mais você quer?

Bellatrix, acima de Bervely, começou a se mover discretamente, tentando encontrar um ângulo melhor de ataque. Ela claramente não pretendia deixar Maeve e Regulus escaparem da sala. Aos gritos lá embaixo, se uniram ruídos de coisas se quebrando, exclamações de feitiços lançados. De vidro explodindo, de desespero.

Os lapsos estão lá embaixo, Maeve tinha dito. Bervely imaginou aquelas criaturas desorientadas, enraivecidas, famintas, invadindo a opulenta festa do Sagrado Vinte e Oito, e o horror da realização foi crescendo em suas entranhas. Era para isso que eles — ou ao menos Maeve — tinham estado ali? Aquele tinha sido o plano desde o início, soltar os lapsos na festa? Causar caos e destruição entre os puro-sangue?

Como ela tinha se fingido de morta para isso era um mistério, mas definitivamente tinha sido fingimento, e Regulus Black era seu parceiro em crime–

— Sam, eu disse vamos. AGORA — Maeve exigiu, irritada.

Regulus olhou na direção de Bervely. De onde ele estava, não poderia ver Bellatrix se preparando para o ataque. Ela talvez não pudesse matá-los, mas com alguma sorte podia capturá-los. E Bervely, muito provavelmente, devia estar ajudando-a. Exceto que ela não se sentia muito disposta a ajudar– não depois do banho de Cruciatus de Bellatrix.

Três coisas aconteceram muito rápido. Bellatrix atacou — seu feitiço transfigurando o candelabro acima de Regulus e Maeve numa pesada gaiola de ferro, que ela tentou fazer cair sobre eles. Bervely girou, mais instinto do que decisão racional, se chocando contra Bellatrix no último segundo, desviando o feitiço o suficiente para errar o alvo — Bellatrix tropeçou, Maeve ergueu o olhar e empurrou Regulus para fora do caminho, ela mesma rolando com velocidade sobre-humana na direção da vidraça pela qual entrara. A gaiola de ferro caiu sobre uma mesa, estraçalhando-a no meio com um baque violento.

— O que você fez! – Bellatrix urrou, enfurecida pela interrupção, embolando-se com Bervely no chão, tentando se desvencilhar da garota.

— Nós temos que sair daqui! — Bervely gritou, fingindo-se em pânico. Bom, nem tanto assim. — Os lapsos estão vindo! Os lapsos vão nos devorar.

— Bervely, eu não vou–

Bellatrix a empurrou, tentou azará-la, um feitiço passando de raspão sobre o seu cabelo, mas Bervely tinha ganhado tempo o suficiente; ela viu uma última hesitação de Regulus, então Maeve o arrastou para a queda livre através da vidraça, e os dois sumiram pelo buraco.

— Garota burra e imbecil! — Bellatrix gritou, empurrando e chutando Bervely de seu caminho. Ela se encolheu de novo, esperando a punição pela sua interrupção, mas o terceiro Cruciatus não veio. Bellatrix estava se levantando, a saia do vestido impedindo seus movimentos.

— Me espere aqui. Não importa o que aconteça, não importa o que você ouvir — não deixe essa maldita sala até eu voltar, e não deixe os adolescentes saírem.

E ela se foi pelo buraco da vidraça, deslizando como um pássaro de rapina furioso, o vestido ondulando atrás dela e inflando-se como um balão. Bervely assistiu Bellatrix saltar no vazio como se tivesse asas, e por um segundo ela observou, chocada, esperando um grito ou o barulho de ossos quebrando. Quando não aconteceu, Bervely correu para a beirada e espiou lá embaixo, a tempo de ter um vislumbre da saia volumosa do vestido amortecendo magicamente a queda de Bellatrix, cinco ou seis andares mais abaixo.

Isso, e um exército de mortos-vivos se arrastando para dentro do palácio, vindo do vale, seus corpos brancos uma onda contínua, seus grunhidos audíveis na noite, se misturando com os gritos dos puro-sangue lá embaixo.

Bervely se afastou da beirada devagar, cada osso do corpo formigando.

Merda, merda, merda.

*

Pânico só vai fazer você morrer mais rápido.

Bervely respirou fundo um par de vezes, encarando o teto da sala de reuniões, e fez um inventário da própria situação. Seu corpo ardia com a reverberação dos dois Cruciatus, o equivalente a ter corrido uma maratona ou ter sido atropelada por um dragão de porte médio. Um ponto quente em seu rosto indicava onde Bellatrix a havia arranhado quando elas se engalfinharam no chão — Bervely desconfiava que a Comensal tinha lacerado seu rosto com aquelas unhas pontudas, embora o ponto estivesse mais dormente e pulsando do que doendo.

Bervely se sentou com esforço — o coração se debatendo em algum ponto entre a garganta e as orelhas — e forçou-se a reverter a própria aparência para a de Draco. O esforço a deixou tonta e enjoada. Respirou fundo mais algumas vezes.

Mais alarido. Mais luta. Mais confusão lá embaixo. Os estalos e a fumaça pela janela sugeriam que algo estava pegando fogo. Bervely pensou nas longas cortinas negras ao redor do palco. Nos instrumentos encantados. E percebeu, com incredulidade, que — por alguma razão absurda — a música ainda estava tocando. Beethoven.

Eles vão chegar aqui em cima eventualmente. Ela precisava de uma rota de fuga que não passasse pelo salão de baile — mas não conhecia o palácio o suficiente para navegá-lo sozinha, em meio ao caos.

Seus olhos rolaram na direção de Isabella Selwyn. Tanto ela quanto os outros adolescentes ainda estavam inconscientes onde tinham sido enfeitiçados em seus assentos, e vitimados com o feitiço da memória de Bellatrix. O feitiço escudo de Bervely os tinha protegido dos debris e das explosões, mas ele se dissolvera no primeiro Cruciatus que ela recebera.

Uma camada de cacos de vidro cintilava sobre o vestido de baile de Isabella, como gotas de gelo congeladas. Havia um corte longo, mas pouco profundo, no pescoço de Pansy. Tanto Nott quanto Rowle tinham escapado da maioria do estrago, por estarem mais distantes do ponto onde Regulus Black saltara e dançara sob as maldições de Bellatrix.

Regulus Black. Vivo.

Eu a conheci em Hogwarts. Eu a fiz se esquecer de mim. Contei com a ajuda de alguém próximo a ela.

A tentativa de se lembrar de qualquer coisa a respeito quase fez Bervely vomitar. Ela tossiu, apertando a cabeça dolorida. Havia alguma coisa terrivelmente errada com ela, mas não havia tempo para desvendar esse mistério.

Ela achou a própria varinha embaixo do sofá e começou a tarefa de despertar os adolescentes.


* * *

Em retrospecto, Bervely supunha que devia ter deixado Pansy, Isabella, Nott e Rowle para trás. Não era como se qualquer um deles tivesse uma inclinação para retribuir o seu favor — o que fora provado mais cedo pelo covarde abandono a “Draco” no labirinto. Mas ela decidiu que não queria ter pesando na consciência a morte de quatro merdinhas puro-sangue — e talvez, quem sabe, Draco ainda pudesse ganhar alguns pontos por heroísmo quando aquilo tudo terminasse.

— O palácio está sob ataque. Precisamos sair por uma rota segura até as carruagens, longe do salão de baile.

— Atacados pelo quê? — guinchou Pansy, piscando confusa, olhando ao redor com o ar de quem não fazia ideia de como tinha chegado ali. — O que aconteceu? Eu me lembro que estávamos nos jardins, e então…

Mas Bervely tinha se dirigido a Isabella. Mesmo sem a sua memória do acontecido no vale, a garota compreenderia a gravidade da situação:

— Não dá tempo de explicar tudo. Os lapsos que os seus pais têm escondido nos fundos da propriedade acharam um jeito de subir e estão devorando todo mundo lá embaixo. Se você sabe um jeito de escapar, essa é a sua chance de brilhar, Selwyn.

Isabella assentiu, atordoada. Ao som crescente da confusão entrando pelas janelas, era impossível negar que alguma coisa horrível estava acontecendo no palácio.

— Existe uma saída alternativa — ela balbuciou. — Mas... os meus pais…

— Eles vão encontrar a gente lá fora — garantiu Bervely. — A sua mãe esteve aqui agora mesmo. Ela disse que você saberia como nos guiar para fora em segurança.

Vítimas recentes de Obliviate eram notoriamente fáceis de manipular — sua confusão pós-feitiço deixando-os numa condição sugestionável, o que se confirmou pelo fato de que, sem maiores protestos, os cinco logo estavam correndo pelos corredores secundários da mansão. Pegavam, aqui e ali, ruídos de luta, mas conseguiam evitar encontros com convidados ou mortos-vivos na maior parte do caminho.

Pansy Parkinson tropeçou na frente de Bervely, que por reflexo segurou a garota antes que ela caísse do último degrau de uma escadaria.

— Obrigada — disse ela, a voz rouca, trêmula.

— Vai ficar tudo bem — murmurou Bervely, ouvindo a voz de Draco num tom gentil que ela raramente escutava desde que ele perdera a maior parte do seu afeto por ela.

Pansy a olhou com surpresa — a expressão se endurecendo rápido.

— Eu sei. É óbvio — disse, se aprumando e apressando o passo.

Sonserinos, Bervely resmungou para si mesma, fazendo as pernas longas de Draco se moverem através do corredor.

O fim do corredor os levou até a lateral do palácio. Leste, Bervely julgou, pela posição relativa dos sons e pelo vislumbre dos portões de entrada ao longe, à sua direita. Os cinco emergiram sob o céu amplo, sob a noite fresca — e ela finalmente encontrou ar. Os sons de luta ainda às suas costas, os gritos e as explosões — soavam irreais, inatingíveis.

Alguma coisa a atingiu pela direita — um baque inexorável, sólido e cheirando à podridão, que a lançou no chão gramado, sobre as costelas doloridas. Bervely soltou um gemido de dor, mas puxou a varinha e apontou para a coisa que a atacara.

IMPEDIMENTA!

A coisa — um lapso, de pele cinza-escura, caninos afiados e amarelos, olhos desvairados, mãos fortes agarrando-a pelos cabelos.

ESTUPEFAÇA! PROTEGO!

Ela não estava errando os feitiços. Eles apenas não funcionavam contra a criatura.

CRUCIO!

O lapso pareceu tomar a tentativa como ofensa, e cravou unhas afiadas no ombro de Bervely. Ela grunhiu, usando as mãos em vez da varinha, rolando pela grama com a criatura, lutando para proteger o pescoço dos dentes que o procuravam.

Que morte mais estúpida. Comida por um sanguessuga, pensou, exasperada.

O lapso era mais forte do que ela — mais forte do que ela seria em tempos normais, nos quais se alimentava e dormia em quantidades saudáveis, e não tinha sofrido um par de Cruciatus.

Protego! — gritou Pansy ao seu lado. Outro lapso, esse um velho quase sem cabelos e de olhos esbugalhados, tentava mordê-la, as mãos em torno do seu pescoço.

Bervely teve um rápido vislumbre da área e percebeu que estavam cercados. Nott lutava contra duas das criaturas à sua direita, e Rowle e Isabella se revezavam contra um enorme lapso à esquerda.

Estamos mortos, ela pensou, quase aliviada. Ela teria que se render à criatura.

E então tudo estaria acabado.

BOMBARDA MAXIMUM!

O chão se acendeu em chamas ao redor deles, num círculo ardoroso que lambeu os braços de Bervely, mas atingiu o lapso que a atacava bem no peito. A criatura rugiu, gemeu e se afastou, cambaleando. Os demais conseguiram empurrar os outros três lapsos, desorientados pelo fogo, para fora do círculo com algum esforço, e Isabella berrou ao ver a própria saia do vestido pegando fogo.

Bervely se virou para ver quem os tinha salvado — e encontrou, para sua enorme surpresa, Olga Greengrass brandindo habilmente a varinha. Ela fez o fogo se retrair, abrir ao redor deles e, em seguida, se fechar novamente, encerrando os três lapsos num círculo flamejante.

— Fogo é a maneira mais efetiva contra eles no momento — disse, admirando o próprio trabalho. — Também os deixa muito putos da vida.

— Greengrass — Bervely arfou, derrotada demais para elaborar mais do que o nome da garota.

Olga se voltou para Bervely e os demais, avaliando-os com um olhar crítico.

— Onde vocês estavam? O mundo está se acabando lá dentro.

— Nós percebemos! — Pansy resmungou, tendo acabado de ajudar Isabella a apagar o fogo em seu vestido.

— E o que estão esperando? Vão embora! Os pontos de aparatação estão desativados. O caminho mais seguro é em direção às carruagens.

— Você viu meus pais? Minha mãe ainda está lá dentro? — Isabella quis saber, olhando na direção do palácio. Daquele ângulo, não conseguiam ver a entrada, mas a fumaça, os gritos e as explosões ainda vinham de lá.

— Não faço ideia de quem seja sua mãe — disse Olga bruscamente. — Mas eu não arriscaria voltar lá para dar uma espiada. Andem logo! Para as carruagens!

Nott, Rowle e Pansy não precisaram de um segundo incentivo para correr na direção onde os convidados tinham estacionado. Isabella hesitou, percebendo que “Draco” ainda não se movera.

— Malfoy?

— Em um minuto — Bervely respondeu, surpresa com a súbita preocupação de Selwyn. — Não se preocupe comigo, vá em frente!

Ela assentiu e correu atrás dos outros.

— Usem fogo! — Olga os lembrou, sua voz se espalhando na noite. — Eles não vão durar um segundo.

Ela deu meia-volta, preparando-se para voltar ao palácio.

— O que você está fazendo? — Bervely perguntou, ainda estirada na grama fria, achando mais seguro manter-se perto do chão. Olga se voltou, as sobrancelhas franzidas.

— Tem gente morrendo lá dentro, Malfoy! O que acha que eu estou fazendo?

Bervely a observou correr em direção ao centro da confusão sem hesitação. Lembrou-se dos boatos de que a garota agora era uma Comensal da Morte — mas a imagem que fazia de Comensais não combinava com aquela atitude heróica e destemida. Desde quando Olga tinha qualquer instinto de heroísmo que não fosse direcionado à própria reputação e conforto?

Bervely fez uma anotação mental para investigar melhor a questão quando seu pescoço não estivesse literalmente em perigo. Ela se ergueu com dificuldade e deu meia-volta na direção das carruagens, se perguntando se Bellatrix teria conseguido capturar Regulus Black a essa altura, ou se tinha sido devorada no meio do caminho.

Apesar de sua tentativa de hiperatenção, Bervely não viu o lapso surgir da sebe até que ele estivesse em cima dela. Bervely rolou, protegendo a garganta e o rosto do ataque, tentando posicionar a varinha para lançar um incêndio — e descobriu que não precisava, porque ela não estava mais lá.

— Não vai, não — disse uma voz grave em algum ponto acima de sua cabeça e à esquerda.

Bervely piscou.

Regulus Black segurava a lapso pelos cabelos. A criatura tentava se libertar dele, voltar para o ponto onde o coração de Bervely pulsava em sua clavícula, mas nenhum sucesso. Regulus sussurrou alguma coisa no ouvido da criatura. A lapso parou de se debater, mansa e dócil de repente. Regulus a soltou, virou-a na direção da entrada do palácio Grisaille e lhe deu um tapinha nas costas. A lapso começou a andar naquela direção, se afastando deles como se estivesse atrasada para um compromisso.

Regulus a assistiu por alguns segundos, depois se voltou para Bervely e estendeu uma mão grande e branca na direção dela.

Bervely, após um segundo de hesitação, a aceitou. As palmas deslizaram uma na outra e sua pele estalou, eletrizada. A pele de Regulus era fria, mas o contato fez calor se espalhar pelas veias dela. Alguma coisa estava errada. Muito errada.

— Eu tinha tudo sob controle — ela comunicou, espanando as vestes de Draco da nova camada de sujeira na qual rolara, lutando pelo próprio pescoço.

— Nunca duvidei disso — disse o vampiro, aquele sorriso pontudo erguendo o lado esquerdo dos lábios.

Bervely o observou, espantada com o fato de que ele tinha aparecido no exato momento em que ela pensara nele. O que diabos estava acontecendo ali? Recuperando a compostura, ela olhou na direção da lapso, que tropeçava em seu caminho de volta ao palácio.

— O que você disse a ela?

O sorriso dele se alargou, infectando os olhos fendados.

— Que você é o meu lanche, não o dela — ele disse, como se isso explicasse qualquer coisa.

Bervely olhou de novo para o palácio. Daquele novo ângulo, ela podia ver as portas de entrada. Tinha certeza de que via corpos caídos na escadaria. Vultos de bruxos e lapsos lutavam.

Ela se voltou para Regulus Black.

— Você fez isso. Você e Maeve Rosier vieram aqui para libertar os lapsos.

— Eu ajudei Maeve, sim. Mas não foi por isso que vim — disse com calma, observando-a.

— Tem gente morrendo lá dentro.

— Estamos em guerra. Tem gente morrendo o tempo inteiro.

Bervely recuperou o bom senso, ergueu a varinha e apontou na direção dele.

O vampiro olhou para a ponta da varinha dela, o sorriso se desfazendo numa expressão chateada de lá vamos nós de novo.

— Você é mesmo Regulus Black? O Regulus Black? — Irmão de Sirius Black, ela quis completar, mas não teve coragem. Não sabia o quanto doeria dizer o nome de Sirius em voz alta.

— Você não se lembra mesmo de nada — ele murmurou, como se isso pudesse ter mudado na última hora.

— Eu fui para o seu enterro. Eu tinha cinco anos.

— Já cobrimos essa parte, Bervely. Ouça...

— Você apagou mesmo a minha memória? É verdade o que disse para Bellatrix, sobre o Severus ter ajudado você?

— Não! Eu só estava tentando desviar a atenção dela. Eu nunca mexeria na sua cabeça desse jeito.

Bervely olhou de novo para o palácio, por cima do ombro dele. Os gritos, o horror. Os inocentes que seriam vitimados naquela noite.

— Você veio até aqui por... — Ela se sentiu ridícula, mas precisava saber. — Por minha causa?

Sentimentos conflitantes cruzaram o rosto do vampiro. Emoção em seu rosto pálido o fazia parecer vulnerável, e jovem — jovem como quando tinha morrido. Dezenove ou vinte anos, se Bervely se lembrava corretamente.

— Eu temi que a encontraria aqui.

Ela franziu para a resposta enigmática. Por que ele temeria...?

Um vulto volumoso e prateado apareceu no gramado. Bellatrix. Ela não vinha sozinha — flutuava um corpo inconsciente ao seu lado — Maeve? — e, ao mesmo tempo, lutava com três lapsos que tentavam devorar a garota desacordada. Ainda não os tinha visto.

Bervely apertou a varinha, o coração acelerado, a agonia da certeza pulsando.

— Ela está vindo. Bellatrix. Acho que ela conseguiu capturar sua comparsa.

Regulus Black olhou por cima do ombro, então voltou-se para ela, com uma expressão de dor velada no rosto.

— Venha comigo. Posso nos tirar daqui em segurança.

Bervely negou, o peito ardendo.

— Ela vai caçar você até o fim do mundo.

— Ela o fará de uma forma ou de outra — Regulus deu um sorriso pequeno, como se aquilo tudo fosse parte do jogo. — Eu posso manter você segura, Bervely. Comigo. Com Sirius.

Uma punhalada nos confins de sua cabeça a levou a apertar os olhos, o mundo borrando. Mais adiante, Bellatrix tinha derrubado dois dos lapsos, e agora lutava com o último.

— Do que você está falando? Sirius está morto.

A expressão no rosto de Regulus se agravou, seus lábios se afastando com a sombra de um choque mal-contido.

— Vá — Bervely rosnou para ele. — Vá, antes que ela veja você.

— Não — ele teimou, a perturbação evidente no rosto. — Venha comigo. O que quer que você tenha esquecido, nós vamos recuperar. Eu prometo.

— Vá. Se você não for, ela vai tentar lhe capturar de novo!

Mas era tarde; Bellatrix os vira.

Bervely fechou os olhos por reflexo quando o vampiro avançou na direção dela — ele a envolveu com os braços, num abraço apertado que, do ponto de vista de Bellatrix, teria parecido um ataque. O rosto no pescoço dela, mas em vez de presas, só os lábios tocaram sua pele.

O feitiço de Bellatrix o atingiu pelas costas. Bervely sentiu quando os ossos do vampiro se partiram um a um, em estalos impossivelmente altos que reverberaram pelo corpo dele e, através do contato, também pelo dela.

— Bom trabalho — disse Bellatrix, triunfante. Bervely percebeu que a mãe acreditava que ela tinha distraído Regulus Black de propósito, usado a si mesma como isca. — Como sabia que eu estava vindo?

Bervely não disse nada. Regulus estava aos seus pés, incapaz de se mover, os ossos do corpo quebrados em ângulos estranhos. Ele não emitia qualquer som, mas parecia estar em imensa dor.

— Alguém notificou os aurores, eles estão a caminho. Temos que ir — continuou Bellatrix com brusquidão, arrastando Bervely por um braço na direção oposta às carruagens.

Bervely ergueu o rosto e percebeu que a figura inconsciente que Bellatrix trouxera flutuando ao seu lado não era Maeve Rosier. Bervely reconheceu o rosto relaxado de —

— Essa é Olga Greengrass? — ela perguntou, confusa.

— Essa vadiazinha nos traiu essa noite. Longa história. Ande!

Após algumas tentativas de fazer o corpo quebrado de Regulus levitar, sem sucesso, Bellatrix conjurou pesadas correntes em torno dos tornozelos dele e as usou para puxá-lo atrás de si. Bervely acompanhou o cortejo, sem saber o que mais poderia fazer. Tudo o que ela tinha tentado aquela noite falhara. Ela já não sabia em quem confiar. O barulho dos ossos de Regulus se quebrando ainda ecoava em seus ouvidos. Tudo o que ela queria era se enfiar em um buraco e desaparecer.

Elas caminharam até um ponto próximo à sebe. Bellatrix se voltou para ela, a face de novo impassível, como se aquela fosse uma caminhada matinal perfeitamente planejada.

— Você deve aparatar até a Mansão Malfoy e usar Duas Serpentes para autorizar nosso acesso — disse a Comensal, indicando um arco brilhando discretamente na sebe. Um ponto de aparatação.

Bervely resistiu, mas ao olhar na direção de onde tinham vindo, viu mais lapsos surgirem — uma dúzia deles, rosnando e correndo, as presas expostas, aparentemente vindo em sua direção.

As narinas de Bellatrix se inflaram. Ela entregou a Bervely as correntes de Regulus, e ergueu a própria varinha, posicionando-se de costas para Bervely. Na direção dos lapsos.

— Vá!

Bervely agarrou as correntes e atravessou o portal, desaparatando na direção que lhe fora ordenada. Não importava o que acontecesse dali em diante, uma coisa era certa — os crimes cometidos por Bellatrix naquela noite seriam de sua responsabilidade, e ela tinha oficialmente cruzado uma linha da qual não havia mais retorno.

Notas finais
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