A Canção de Morgana
54 O Outro Escolhido
Notas iniciais
Abril, 1997
— Mione… você viu isso?
Hermione se curvou para ver o que Rony estava apontando no jornal, mas Harry não se deu ao trabalho de juntar cabeças com os amigos. Ele não estava com energia para o Profeta Diário.
— Ah, não. Isso é ruim. Muito ruim — Hermione murmurou, naquele tom de que alguém que eles conheciam tinha morrido.
Harry ergueu a cabeça do seu omelete de presunto de má vontade.
— O que foi agora?
— Os aurores capturaram um comensal da morte— Hermione disse, com uma reticência estranha na voz. — Depois de uma, uh, denúncia anônima entregue ao DELM por coruja.
— Que comensal? — Harry quis saber, esperando que fosse Bellatrix Lestrange. Ou Lucius Malfoy.
— Austin Neveu — disse Hermione. Ela fez uma pausa, na qual Harry franziu.
— Onde eu ouvi esse sobrenome antes?
— Sophia Neveu. A sua… digo, a ex-professora de Adivinhação Avançada.
Harry franziu. A madrinha de Anne era a última pessoa que ele ia imaginar envolvida com comensais da morte. Mas então, famílias bruxas podiam ser esquisitas desse jeito.
— Eles são parentes?
— Casados e divorciados. Mas pelo visto ela escolheu manter o sobrenome.
— Como sabe disso tudo? — Harry perguntou, mas Hermione não lhe respondeu, os olhos voltando a escanear a reportagem. As conversas entre os colegas na mesa da Grifinória estava se tornando mais agitada. As demais mesas pareciam espiar na direção deles, ou melhor, na de Rony e Hermione. — Por que você disse que isso não é bom?
— O quê? — Hermione perguntou, distraída, virando uma página.
— Você disse que a matéria não era boa. Por quê?
— Bem… leia você mesmo.
Harry pegou o jornal e o virou de cabeça para cima para poder ler.
“O ESCOLHIDO ESTÁ MORTO?”
Abaixo da manchete havia um foto de Harry, tirada sem a sua permissão no Ministério da Magia, durante o seu julgamento por usar o seu Patrono na frente de trouxas, no ano anterior. Ao lado, uma de Austin Neveu — um homem de rosto anguloso, olhos saltados e um ar de vagueza familiar, mas que decididamente não parecia perigoso. Com uma sensação ruim pinçando o estômago, Harry passou para a reportagem:
O ESCOLHIDO ESTÁ MORTO?
Comensal da morte detido pelo DELM confirma: Harry Potter teria falecido em confronto com comensais da morte em dezembro.
Na última quinta-feira, o Esquadrão de Aurores do Ministério da Magia anunciou a captura de Austin Neveu, após uma denúncia anônima da localização do seu esconderijo. Segundo a denúncia, que foi entregue por uma corja não-identificada, Neveu seria um comensal da morte agindo a mando de Você-Sabe-Quem desde agosto passado. Neveu, que tem formação em história da magia e especialização em História das Artes das Trevas, confessou a sua participação nos últimos ataques envolvendo dementadores, incluindo o levante de Azkaban e os ataques à St. Sensille em outubro, e a Godric’s Hollow em dezembro, presumidamente orquestrados por Você-Sabe-Quem e seus acólitos.
Em interrogatório, Neveu revelou informações cruciais sobre as atividades recentes dos comensais da morte, incluindo detalhes sobre o ataque do grupo à cidade Glastonbury, também em dezembro. De acordo com Neveu, Potter teria estado no local e sido uma das vítimas fatais de um confronto com comensais. Neveu também afirma que Hildegard Dumbledore, sobrinha de Alvo Dumbledore (Ordem de Merlin, primeira classe), teria sido assassinada por Você-Sabe-Quem na ocasião. Apesar das alegações de Neveu, nenhum corpo foi encontrado na cena do confronto. A ausência de provas, e o fato de que Você-Sabe-Quem não reivindicou o assassinato do Escolhido, trazem dúvida quanto à veracidade da informação.
Albus Dumbledore, diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts na qual Potter não é visto desde o recesso de natal, não foi encontrado para comentar. O Departamento de Execução das Leis da Magia emitiu uma nota oficial requisitando que qualquer um com informações sobre o paradeiro de Potter, ou provas de que o Escolhido esteja vivo, contacte o Departamento via correio-coruja imediatamente. Indivíduos que possuam informações sobre a atual localidade do Escolhido e falharem em informá-la ao Ministério poderão ser indiciados por obstrução à justiça, de acordo com o subsecretário sênior do Departamento de Execução das Leis Mágicas, Filius Exeter.
Harry Potter é famoso por ter sobrevivido a uma maldição da morte e derrotado o Lorde das Trevas quando tinha um ano de idade…
Harry abaixou o jornal, olhando para a mesa dos professores. A cadeira de Dumbledore, sem surpresa, continuava vazia. Ao lado desta, uma Minerva McGonagall já se levantava, um exemplar do jornal em uma mão e uma xícara de chá tremendo na outra. Harry teve a impressão de que ela estivera olhando na sua direção, mas a professora logo sumiu pelos fundos do púlpito, onde Harry sabia ficar a sala dos professores. Flitwick e Hagrid a seguiram com urgência, o último derrubando a sua cadeira com um estrondo.
— Mas que droga. Isso é tudo culpa minha — Hermione murmurou, ainda escaneando a notícia, que mais adiante detalhava as circunstâncias da prisão de Austin Neveu.
— Como isso pode ser culpa sua? — Harry perguntou, mas naquele momento uma coruja branca entrou pelo salão e, num voo rasante, se interpelou entre eles, pousando em cima do jornal aberto.
Por um segundo Harry achou que fosse Edwiges, mas então percebeu que a coruja não era branca; era prateada, embora opaca o suficiente para ser confundida com uma coruja sólida à distância. De perto, ele reconheceu o patrono de Remus.
A coruja-patrono deu um pio longo e ciscou um pouco sobre as folhas de jornal, se comportando exatamente como um animal teria, a não ser pelo fato de que não trazia nenhuma carta.
Hermione cutucou Rony, ela mesma já estava se levantando.
— Precisamos ir!
— Quê? Onde? — Rony estivera olhando para o fim da mesa, de onde uma tempestade de cabelos ruivos tinha se levantado e agora estava deixando o salão com pressa.
Hermione deu um olhar significativo para o namorado, que até Harry compreendeu.
— Ver Aluado, não é?
— Ah! — Rony finalmente identificou a coruja-patrono de Remus e se levantou, dando uma última mordida na torrada, espalhando farelo para todo lado. — Desculpe, cara. Se Aluado está chamando, deve ter algo que a gente possa fazer para ajudar.
— Vão logo — Harry resmungou, vendo a coruja voar até a mesa dos professores e atravessar a porta da sala sem cerimônias, provavelmente para transmitir o aviso aos membros da Ordem em seu interior. — Eu vou ficar aqui, fingindo que estou… vocês sabem.
Ele assistiu os amigos irem embora sem menor hesitação e sentiu de novo aquela sensação de inutilidade borbulhando em seu peito. Estava prestes a se levantar para fazer alguma coisa que não fosse ouvir os burburinhos de choque, à medida que mais e mais colegas liam a respeito de sua suposta morte. Harry evitou olhar na direção da mesa da Corvinal, sabendo quem ele não ia ver sentada em seu costumeiro lugar ao lado de Luna Lovegood, esperando para trocar um olhar de alarmado com ele. Se Anne estivesse ali…
Mas ela não está, ele se recriminou com teimosia, abaixando o rosto para o prato quase intocado. Minerva voltou ao Salão Principal e interrompeu a crescente comoção ao redor de Harry com um um pigarro magicamente amplificado:
— Muito bem, hora de irem para suas aulas! Está para chegar o dia em que eu vou deixar a especulação irresponsável desse tablóide de quinta interferir em sua educação mágica, senhoras e senhores!
* * *
O Ministro da Magia em pessoa apareceu em Hogwarts no fim daquela tarde.
Harry viu Rufus Scrimgeour mancar para fora da carruagem dourada com o símbolo do Ministério — as duas varinhas cruzadas sobre uma balança — que tinha pousado no gramado em frente ao castelo à tardinha, quando estavam voltando da última aula do dia nas estufas.
O Ministro, acompanhado por um grupo de quatro aurores e dois assessores ministeriais em vestes roxas pomposas, entrou na escola escoltado por Filch e se reuniu com a professora McGonagall por um longo par de horas.
O boato — espalhado por Nick-Quase-Sem-Cabeça, que ouvira uma parte da conversa antes de ser flagrado e educadamente enxotado por Minerva das imediações de sua sala — era de que o Ministro viera atrás de Dumbledore, para confirmar ou refutar as revelações do comensal da morte recém-capturado. Não encontrando o diretor ou qualquer indício de Harry, ele deixou Hogwarts com um semblante de fúria silenciosa no rosto de leão velho, mancando rápido de volta a sua carruagem, os assessores correndo para lhe alcançar.
“Ele ameaçou fechar a escola se o professor Dumbledore não aparecer até o fim da semana.” Harry ouviu alguém dizer no salão comunal, mais tarde naquela noite.
Harry não estava participando das conversas sussurradas pelo salão, que se espalhavam como rastro de pólvora. Hermione e Rony ainda não tinham voltado da convocação de Remus, e Harry não confiava em sua habilidade de interagir com pessoas que não sabiam da sua verdadeira identidade no momento.
“Ele não pode fazer isso, pode? E mandar todo mundo para casa?” Alguém perguntou com a voz trêmula. Harry se enterrou mais fundo no livro que tentava ler para DECAT, Seres Mágicos e Histórias Sombrias¹.
“Ele é o Ministro da Magia, pode fazer o que quiser. E Dumbledore é o responsável por Hogwarts. Se ele nunca está aqui, não é muito bom para a imagem da escola, é? Ou do Ministério, que precisa descobrir se o que Neveu está dizendo é verdade.”
“É claro que não é verdade! Harry não está morto, que idiotice.”
Harry tentou parar de ouvir a conversa alheia, repetindo um mantra a si mesmo. Fique calado. Fique quieto. Não faça nada estúpido. Obedeça a Dumbledore, como você prometeu.
— Você precisa colocar um fim nisso — disse alguém no ponto cego de Harry, fazendo o garoto pular. Astória Greengrass, silenciosa como uma sombra, deslizou por detrás dele e ocupou o assento ao seu lado.
Harry fingiu que não tinha ouvido, voltando ao seu livro com afinco. Ele não estava com humor para socializar.
— Me ignore o quanto quiser, isso não vai mudar o fato de que eu sei do seu segredinho sujo.
— O que você acha que sabe não é da minha conta — Harry resmungou, esperando que, se fingisse que a achava uma lunática, ela iria ao menos duvidar de sua própria teoria.
— Oh, sim, vamos jogar o jogo do morto desentendido. Faça-me o favor, Pot–
Harry ergueu um olhar de aviso. Astória expandiu uma expressão de triunfo insuportável no rosto miúdo.
—Esse sobrenome incomoda você? Potter, Potter, Pooootter — Ela cantarolou, colocando fogo nos nervos de Harry. Mas, ela estava sussurrando, sem querer chamar atenção dos outros. Por enquanto.
— O que é que você quer de mim?
— Que você se entregue, antes que o Ministério faça o que está ameaçando. Acha mesmo que a sua covardia justifica o fechamento de Hogwarts? Mandar todo mundo de volta para casa só porque você decidiu brincar de Dino Thomas? Se acha mesmo que essas suas férias do seu posto de Escolhido não tem consequências…
— Fique fora disso, Astória. Você não quer se meter em problemas.
A ameaça era vazia. Tudo que Harry tinha eram os seus maxilares travados e expressão irritada, mas a garota não precisava saber disso.
— Sei que vou arranjar mais problemas se eu ficar calada — ela disse, os olhos duas foices negras. — Você não leu no jornal? O Ministro vai considerar traidor quem souber de alguma coisa sobre o seu desaparecimento e não contar para eles.
Harry percebeu que ela ainda estava sussurrando.
— Vá em frente, então. Conte ao Ministério o que acha que sabe e veja o que eles vão lhe dizer — ele açoitou, passando uma página do livro que fingia ler, com descaso calculado.
Astória hesitou. Harry percebeu que estava certo: Astória não tinha pretensão nenhuma de lhe dedurar. Não demorou para que o tom dela mudasse de ameaçador para suplicante.
— Você precisa contar que está vivo. Vão fechar Hogwarts! Para muita gente que está aqui, não é seguro voltar para casa.
O desespero na voz dela o fez hesitar. Astória tinha, afinal, desafiado a vontade da própria família para voltar a Hogwarts naquele ano. E ela também tinha dado uma rasteira em sua antiga casa, em prol da Grifinória, no último jogo. Estavam do mesmo lado. Harry parou de fingir que não se importava e fechou o livro.
— Não vou deixar que chegue a isso.
A expressão da garota suavizou. Embora ainda inquieta, ela pareceu acreditar nele.
— Ainda acho que deve se entregar. Eles podem proteger você! É do Ministério da Magia de que estamos falando, pelo amor de Slyt– Merlin. Pelo amor de Merlin.
— O Ministério não é a resposta, acredite em mim.
Mas Harry não teve tempo de explicar porquê, pois Neville se aproximava com um ar agitado.
— Tori, está quase na hora, você vem?
Astória deslizou do braço do sofá, dando um último olhar longo para Harry.
— Sim, já estou indo.
— Você não quer vir para a reunião da AD, Dino? Não vamos treinar, só tentar juntar tudo o que sabemos sobre o… o sumiço de Harry.
— Não, eu preciso terminar esse livro para DECAT — Harry disse, sentindo-se um traidor miserável.
Neville franziu, mas acabou indo embora, uma mão no ombro de Astória. Harry sentiu uma pontada de desespero surdo ao ver os dois se afastarem para discutir a sua possível morte. Como as coisas tinham chegado tão longe?
E onde raios estava Dumbledore?
* * *
No café da manhã da primeira sexta-feira de abril, o Ministro confirmou que “a possibilidade de fechamento de Hogwarts não seria descartada, se ficasse decidido que aquela era a melhor decisão para a segurança dos seus estudantes, visto a lacuna na administração atual”, em uma entrevista para o Profeta Diário. Ele tomaria uma decisão caso Dumbledore não se pronunciasse nos próximos dias.
Harry não dormiu, assombrado por Dejà vus do seu segundo ano. Embora ele quase estivesse com saudade das petrificações do basilisco. Eram melhores do que os ataques histéricos que estavam pipocando pelo castelo sem aviso – três, só naquela sexta, pelo que tinha ouvido dizer.
Ele mal percebeu quando Rony e Hermione chegaram no Salão Principal para o jantar, de um de seus desaparecimentos. Seja lá o que estivessem fazendo para a Ordem, parecia exigir todo o seu tempo livre entre as aulas. Os dois travavam uma discussão acalorada aos sussurros ao seu lado, mas Harry não achou energia para se importar. Estava prestes a anunciar alguma desculpa esfarrapada para deixar a mesa quando a professora McGonagall se ergueu de sua cadeira e pigarreou para chamar atenção de todos.
O silêncio caiu sobre o salão como uma mortalha, intensificado pela expressão grave da bruxa.
— Eu sei que a ausência do diretor tem sido sentida nos últimos meses. Eu asseguro a vocês que o professor Dumbledore tem motivos que justificam a sua ausência prolongada da escola, e que ele tomou todas as precauções para que Hogwarts continue perfeitamente segura em sua ausência. No entanto, diante das declarações recentes do Ministério que ameaçam a continuidade do nosso ano letivo, o professor Dumbledore acredita que a melhor decisão é o seu afastamento oficial da diretoria da escola.
“Essa parece ser a decisão mais segura para que a escola possa continuar funcionando sem a interferência do Ministério que, como alguns dos senhores vão lembrar, se provou desastrosa no passado. Recebi uma carta do diretor informando a sua resignação, acompanhada de um pedido formal de desculpas por deixá-los em um momento tão vulnerável.”
“O diretor também manifestou o seu desejo de que eu assuma o seu lugar como diretora. Eu aceito essa designação e farei tudo ao meu alcance para garantir que Hogwarts continue sendo um lugar de conhecimento, segurança e refúgio para aqueles que dela necessitam. Nada deve, nem precisa mudar na nossa rotina nesse momento. Qualquer um com preocupações específicas pode me procurar em minha sala durante o dia. Tentarei atendê-los no melhor das minhas habilidades."
A balbúrdia explodiu quando McGonagall se calou, mas virou barulho de fundo para Harry, dando lugar a um zumbido de atordoamento em seus ouvidos. Dumbledore tinha feito contato? E tinha resignado do seu cargo?
E o que raios aquilo significava para o plano de Harry continuar se fingindo de morto?
* * *
— Professora?
Minerva não ergueu os olhos para Harry imediatamente. Ela estava debruçada sobre um pergaminho longo sobre a sua mesa, fazendo anotações com tanta rapidez que magia devia estar envolvida. Os traços de sua caligrafia eram borrões, e se ajeitavam pela folha à medida que ela os adicionava, se comprimindo e rearranjando para abrir espaço.
— Sr. Thomas — a professora enfim ergueu o rosto, e havia um inegável peso de exaustão por detrás dos óculos quadrados. Harry não estava surpreso — ele tinha esperado para falar com ela em uma interminável fila de estudantes ansiosos com as últimas notícias. — Em que posso ajudá-lo?
— O professor Dumbledore… na carta que ele enviou, ele mencionou algo… ao meu respeito?
Harry não tinha a menor ideia do quanto a professora McGonagall sabia sobre o seu disfarce. O olhar vago que ela lhe lançou não ajudou a esclarecer a questão. Harry se apressou a explicar, tentando ser o mais insuspeito possível:
— O professor Dumbledore me pediu um… favor, antes de partir. Eu estava imaginando se ele tinha novas ordens. Ou se eu, uh, devo continuar seguindo as antigas.
— O que quer o professor Dumbledore lhe pediu para fazer antes de partir, eu sugiro que continue fazendo — Minerva suspirou, se inclinando e adicionando algo ao papel. A nota se encolheu e foi se juntar a outras na lateral esquerda. Ela franziu, soando como se falasse consigo mesma. — Esse é certamente o curso de ação que eu estou seguindo.
— Desculpe, professora?
A diretora ergueu-se novamente e o considerou por detrás dos oclinhos. Harry sentiu como se ela estivesse decidindo se ele precisava de um biscoito. Os lábios já finos da professora se pressionaram até sumir:
— O que eu irei lhe dizer são os seus ouvidos apenas, Sr. Thomas.
— É claro, professora. —Harry assentiu com avidez. Ela piscou uma vez, as pálpebras pesadas.
— O professor Dumbledore não me enviou nenhuma comunicação recente. Antes de deixar a escola ele me recomendou tomar a diretoria oficialmente, caso houvesse necessidade, e me deixou uma resignação assinada. — Ela indicou um pergaminho branco em sua mesa, que pela sua aparência fora aberto e re-enrolado. — Estava esperando que algo do gênero acontecesse, eu suponho.
O coração de Harry despencou no chão atapetado da sala de Minerva.
— De forma que, como eu disse, qualquer que tenha sido o pedido inicial do diretor, não se desvie. Esse não é um bom momento para a nossa fé em Alvo fraquejar. Compreende?
Harry tentou ignorar o aperto de culpa. Ele não queria duvidar de Dumbledore. Era só…
— Mesmo que uma mudança de planos possa ajudar a escola a ficar aberta? — Ele pressionou. Os lábios de Minerva empalideceram, seu olhar se intensificando. Harry achou que ela estava tentando lhe dizer muito mais do que as palavras permitiam:
— O seu trabalho é sobreviver, Sr. Thomas. Deixe que eu me preocupo com a escola.
* * *
Bervely não estranhou quando Severus pediu que ela passasse em sua sala após o jantar. A exaltação generalizada que vinha infectando o castelo desde a notícia da suposta morte de Potter atingira o ápice com a notícia do afastamento do diretor. Era como se Voldemort tivesse recebido carta branca para atravessar os portões do castelo e assassinar todos os nascidos trouxas só porque a diretoria da escola tinha mudado de mãos.
A verdade é que Dumbledore já tinha abandonado o castelo desde janeiro, e a sua ausência não tinha ocasionado nenhum ataque em massa de estudantes de sangue impuro… A não ser por aquele colar amaldiçoado que quase tinha matado Katie Bell. E o suicídio de Cho Chang... E então tinha havido as serpentes multiplicadoras em fevereiro, Bervely supunha. Mas, aquilo mal contava, certo? Intriga entre casas dificilmente poderia ser confundido como terrorismo de guerra.
Severus não estava à vista. Bervely suspirou ao ver uma nesga de luz aos fundos e à esquerda da sala, indicando que ele devia estar em seus aposentos privados.
Via de regra, ela preferia não ir até lá. Severus era extremamente territorialista com seus aposentos.
— Severus? Eu estou aqu– Bervely parou sob o portal. Objetos voavam pelos ares, encontrando o caminho de uma maleta sem fundo sobre a cama. Artefatos de poções, livros, pergaminhos, vestes negras idênticas de gola alta e botões. — O senhor está indo para algum lugar?
— Bervely — Ele surgiu em meio ao redemoinho bem orquestrado dos seus pertences. Ela não gostou nem um pouco da gravidade que viu em seu rosto. — Recebi ordens para deixar o castelo.
— Ordens de quem? — Ela perguntou, o sangue deixando o rosto. Não, não, não, não. — Do professor Dumbledore?
Severus fez voar uma balança de prata e um livro de antídotos para dentro da mala, sem lhe dignar resposta.
— Do Lorde das Trevas?
Um par de meias e um monóculo flutuaram até a mala, se acomodando nos espaços vagos como se fizessem parte de um quebra-cabeça.
— O senhor não pode simplesmente–
— Me escute — ele a interrompeu com brusquidão. Numa situação normal, era difícil desobedecer aquele tom de voz. Nas atuais circunstâncias, Bervely achou que era fisicamente impossível. — Eu preciso deixar a escola. Você deve assumir as minhas turmas até os exames finais. Apenas mantenha em andamento o programa de aulas que eu fiz, eu deixei minhas instruções na segunda gaveta da escrivaninha.
— Não! — Bervely protestou, sentindo a garganta apertar de ansiedade. — Eu não posso assumir todas as suas turmas–
— Sim, você pode. Sei que tem a capacidade, estive treinando-a para isso.
— O senhor sabia que ia ter que deixar o castelo?
— Era uma possibilidade — Severus admitiu, sem revelar nada em sua expressão ao fazer diversos frascos de poções voarem do seu acervo pessoal para a mala, que continuava engolindo seus pertences como se não tivesse fundo.
Bervely tentou impedir o pânico de emergir. Ela precisava ser racional com Severus. Fazê-lo entender o absurdo da sua retirada num momento como aquele.
— Hogwarts precisa de você aqui — ela disse, a língua muito seca.
— Hogwarts precisa de normalidade, estabilidade e segurança. Dificilmente a minha presença afeta qualquer um desses fatores.
O seu padrinho continuou empacotando coisas aleatórias por cima da cabeça dela, sem nem mesmo olhar em seu rosto enquanto despejava suas instruções que Bervely estava tendo dificuldade em acompanhar.
— …não se preocupe com Defesa Contra as Artes das Trevas, Minerva providenciará alguém para assumir o meu lugar, se for conveniente.
— Eu não estou preocupada com Defesa Contra as Artes das Trevas!
— … e se algo acontecer comigo-
— Se algo acontecer? — Ela repetiu, a voz atingindo um pico de ironia. — Por favor, seja mais específico, não queremos deixar espaço para interpretações aqui!
Ele lhe lançou um olhar mordaz por cima de um par de botas pretas.
— Se algo acontecer comigo e você for levada a acreditar que eu estou morto, deixei instruções para o que deve ser feito.
— Com o seu corpo? — Ela devolveu, sarcástica.
— Não, não acho que restará um corpo com que se ocupar. Eu quis dizer, com o meu espólio. Os meus assuntos remanescentes, por assim dizer. Procure na última prateleira, no meu arquivo de documentos. A senha é… — Ele suspirou, contrafeito. — O nome dela.
— Não me diga essas coisas. Eu não quero saber dessas coisas — Ela estava ciente de que soava como uma criança pequena. Não ligava. Nem ligava para o olhar de pânico que devia existir em seu rosto. Uma coisa era Dumbledore abandonar Hogwarts, mas Severus? O que ela ia fazer ali sem ele? Fora ele a insistir que ela viesse a Hogwarts, para início de conversa!
— Bervely, eu não tenho tempo para consolá-la. — Severus fechou sua maleta e a travou com um estalo seco. — Deixarei Benzoar sob a sua responsabilidade, mas não o envie até mim. Não tente se comunicar comigo, ou pode comprometer a minha segurança. Entendido?
Ele colocou a pesada capa de viagem negra sobre os ombros. Aquela que tinha uma perturbadora semelhança com uma capa de comensal da morte.
— Me deixe ir com você — Bervely pediu, a sua voz quebrando daquele jeito patético e vulnerável — Eu não quero ficar aqui em Hogwarts, sozinha.
Severus parou diante dela, encarando-a por fim. Bervely nunca vira aquela expressão em particular no rosto do padrinho: as sobrancelhas negras franzidas, os olhos pesados em algo que podia ser pena, ou culpa, ou dor.
— A vida raramente nos provê o luxo de estarmos ‘prontos’ para as adversidades que joga em nossos ombros — Severus pousou uma mão no ombro dela e lhe deu um pequeno apertão. — Eu sinto muito. Não planejei que fosse desse jeito.
E como foi que você planejou?, ela quis perguntar, mas não encontrou as palavras em sua boca muito seca, e então ele estava indo embora. Bervely, as pernas tremendo demais para seguí-lo, nunca conseguiu uma resposta satisfatória.
* * *
Dois dias mais tarde, Harry abaixou o jornal e encarou o rosto de Hermione por detrás dele. A amiga lhe olhava com comoção preocupada.
— Vai ficar tudo bem, Harry. Sério. Aqui, pegue um chocolate.
Hermione produziu uma barra de chocolate ao leite na frente de Harry – embalado em papel em tons berrantes de dourado e azul, do tipo que Remus gostava de distribuir para sacudir os ânimos na época que os dementadores estavam rondando Hogwarts. A barra obscureceu parcialmente a manchete do jornal daquela manhã:
“AVALON APRESENTA CORPO DE POTTER ÀS AUTORIDADES”
Harry tinha se perguntado, com pouco interesse, o que havia acontecido com o corpo do Reflexo. Bem, agora ele sabia.
A manchete era a razão pela qual Harry tinha se arrastado para um canto isolado da Ala Restrita com a pretensão de desaparecer. Ele não sentia que podia encarar o dia em que Hogwarts tinha a confirmação de sua “morte”.
Mas Rony e Hermione tinham-no encontrado, porque Harry cometera a idiotice de deixar o Mapa do Maroto no dormitório. Os três repartiram a barra de chocolate em silêncio, Harry com a sensação esquisita de que estava em seu próprio velório.
* * *
A entrada dos três na Sala Precisa, mais tarde naquela noite — Harry sob efeito da polissuco, usando a aparência de Dino, como de costume — interrompeu uma discussão fervorosa entre Susana Bones e Gina Weasley.
“…o corpo dele foi encontrado, pelo amor de Merlin!” — Bradava Susana para uma Gina que, vermelha em cada parte de pele exposta, sacudia a cabeça com vigor, o cabelo vermelho se agitando em ondas espasmódicas ao redor do rosto.
— Isso é o que o jornal quer que você acredite, mas todo mundo sabe que o Ministério está controlando o que o jornal diz!
— Controlar é uma coisa, mas inventar uma morte– que benefício eles teriam nisso– ah, olá, Hermione — Susana se interrompeu, a voz tremendo, quando Hermione entrou no seu campo de visão.
Gina se deu conta da presença de “Dino” ao lado de Susana e sua fúria vacilou. Harry, que tinha resistido o quanto pôde à ideia de Rony para que ele comparecesse à reunião da AD aquela noite “para se distrair um pouco”, sentiu a pedra de autocomiseração no fundo do seu estômago afundar mais alguns centímetros.
Ele e Gina não vinham se falando desde a festa de São Valentim – em que “Dino” a tinha convidado e então a ignorado a noite inteira para dançar com Anne — e agora Harry se dava conta de que mal tinha visto a garota no último mês.
Ela parecia prestes a chorar – ou entrar em uma de suas combustões espontâneas, era difícil saber. O ar parecia definitivamente mais quente nas imediações dela.
— Dane-se, isso tudo é ridículo e inútil — Gina anunciou furiosa, deu meia volta e deixou a sala, trombando em Harry ao passar. Ele sentiu o calor emanar da garota como se ela fosse feita de brasas. Combustão, então.
— Eu vou atrás dela — Rony anunciou, dando meia volta, agitado.
— Cuidado — Harry murmurou.
— Dino! — Susana exclamou, tão de repente que fez pular. — Não vai me dizer que você também acha que os jornais estão inventando a morte de Harry?
Harry, que estivera olhando na direção em que Gina e Rony tinham ido, se virou tenso, tentando formular uma resposta que não o comprometesse.
— Eu, uh–
— Papai acha que o corpo que eles acharam é de um Trocador. Que os comensais o plantaram para fazer todo mundo achar que Harry morreu — disse Luna, brotando atrás de Susana como se estivesse lá o tempo inteiro.
— Um o quê? — Hermione piscou para a garota.
— Um Trocador. Uma criatura capaz de imitar a aparência de qualquer outro ser vivo, desde que coma um pedacinho deles. Foi de onde tiraram a ideia para a Poção Polissuco.
— Nunca ouvi falar — disse Hermione, embora num tom mais parcimonioso do que teria usado com Luna num passado pré-Armada.
— Você teria, se tivesse lido a edição de fevereiro do Pasquim. Papai fez uma cobertura completa deles nas páginas oito e nove. Ele acha que os comensais se inspiraram nessa reportagem, pelo que papai está se sentindo bastante culpado. — Luna deu de ombros, seus olhos pousando em Harry como se ele fosse uma nova produção curiosa da Sala Precisa — Oi, Dino. Você veio hoje.
— Oi, Luna — Harry disse, sentindo um calor afetuoso pela garota, junto a uma inesperada vontade de sorrir com a ideia de comensais da morte tirando ideias de terrorismo do Pasquim.
— Sinto muito por Anne — Luna disse, piscando devagar.
— Por… Anne?
— Você estavam tendo um rolo, não estavam? Antes de ela ir embora.
— Ah, é. Bem lembrado — ele disse, pateticamente. Ele tinha se esquecido que Luna os tinha visto juntos no mês anterior, no aniversário de Rony, que parecia ter acontecido uma eternidade atrás. Com receio de que Luna fosse puxar assunto sobre Anne — o seu assunto menos preferido ultimamente — ele se afastou de Luna, indo espiar o outro canto da sala.
Outros membros da AD foram chegando: Katie Bell, Antônio Goldstein, Theo Boot... Em pequenos grupos, eles continuaram especulando a suposta confirmação da morte de Harry.
Harry, que tinha esperado um clima de luto desesperançado como o que sucedera a morte de Cho, ficou surpreso em ouvir uma resistência quase unânime diante do que lhe parecia fato incontestável. O seu corpo tinha, afinal, sido “apresentado” ao Ministério. A maioria deles parecia convencida de que, onde quer que Dumbledore estivesse, Harry estava com ele. “Aprendendo como enfrentar Voldemort”, alguém sugeriu.
Antes fosse. Harry se afastou dos murmúrios, indo gravitar perto dos espelhos que cobriam a parede oposta à entrada. A área do espelho que a Armada usava como um painel para notas, avisos e memorabília tinha se expandido desde a última vez que ele comparecera a uma reunião. As fotos dos colegas perdidos ainda estavam lá – Cedrico e Cho, e algumas das outras vítimas de Voldemort, incluindo os pais de Susana Bones.
Ao lado da galeria alguém compilara uma lista de feitiços defensivos, muitos dos quais Harry não conhecia (o “Calcanhar de Aquiles”, que Hermione usara quando Harry tentou seguí-los para a reunião da Ordem, entre eles), e alguns recortes de jornais recentes, incluindo aquele sob a captura de Austin Neveu uma semana atrás, tinham sido recortados e colados no espelho com feitiços. Outros recortes eram mais antigos, fotos de comensais da morte acompanhadas de anotações em caligrafias diferentes, a mais frequente um rabisco espichado que ele achou que poderia ser de Neville. Cada um dos comensais conhecidos – Bellatrix, Lucius, Rodolphus, Rabastan, McNair — fora devidamente classificado em termos de habilidades, origens, e atual status: “em liberdade”, ou “preso” ou “desconhecido”.
Harry passou os olhos pelas notas e recortes, tentando encontrar qualquer informação que ele já não soubesse, até alguém emparelhar com ele.
— O que veio fazer aqui hoje?
Harry olhou para o lado e então para baixo, encontrando o rosto contraído de Astória Greengrass.
— Da última vez que eu xequei, meu nome ainda estava naquela lista — Harry indicou a lista de membros da Armada criada há um ano no Cabeça de Javali, e que, encantada por Hermione, ainda era o documento oficial para aceitar novos membros.
— Sabe o que quero dizer — Astória sibilou. — Você veio para contar a verdade, ou só para presenciar o estrago que está causando em primeira mão?
Ele sentiu uma irritação familiar morder suas estranhas.
— Não tenho nada para confessar.
Astória olhou para ele sob suas pálpebras espessas, em desafio.
— Essa é a sua palavra final?
Harry franziu, tentando compreender que tom era aquele na voz dela, do qual ele não gostou nem um pouco.
— Sim.
Astória suspirou e avançou para o espelho. Harry percebeu que ela trazia um recorte do jornal daquela manhã – o que anunciava a confirmação da morte dele para o mundo. Ela o afixou no espelho, logo abaixo do recorte sobre a prisão de Austin Neveu. Então, se virou evitando o olhar dele de propósito e deu meia volta para se juntar ao resto do grupo.
Hermione fez um pequeno aceno para que ele se juntasse a ela e Rony – que tinha retornado sem Gina — no círculo perto da lareira.
Neville foi o último a se sentar. Harry viu que todos olharam para o garoto, como se esperassem alguma declaração. Hermione tinha mencionado que Neville tomara a frente da Armada nos últimos meses, mas vê-lo em ação era bem diferente de ouvir a respeito. Neville se aprumou, o rosto sério e solene. Astória, à direita do namorado, colocou uma mão em seu ombro para encorajamento. Neville assentiu para si mesmo, como quem entra num consenso em um diálogo mental, antes de começar a falar.
— Nos últimos meses, nós agimos sob a suposição de que Harry poderia retornar a qualquer momento. Fosse qual fosse o motivo do sumiço dele, nós decidimos acreditar que tinha a ver com a guerra e com Vol–uh-
Astória deu um pequeno apertão no ombro dele, como se com o gesto pudesse ajudar a espremer a palavra para fora do garoto.
— …Voldemort — Neville tossiu, os maxilares se endurecendo. — Mas continuar assumindo que seja o caso seria ingênuo da nossa parte, diante das notícias dessa manhã.
— E quanto ao que Gina disse? E se essa ideia de dar Harry como morto for alguma manobra política do Ministério? — Perguntou Theo Boot, esperançoso.
— Por que o Ministério ia querer mentir sobre isso? — Devolveu Astória, os olhos pequenos se estreitando mais ainda. — Revelar que eles deixaram Voldemort matar o Escolhido só enfraquece a imagem deles, que já não está nada boa com todos os ataques e os dementadores à solta.
— Harry morto é… ruim. — Neville completou — Muita gente vem contando com ele para parar Voldemort uma segunda vez.
Luna se pronunciou sobre a sua teoria com os Trocadores, que foi recebida com a habitual atitude de melhor-não-contrariar.
— Mione? — Neville se virou para a amiga. — O que você acha?
Hermione sugou uma respiração, o rosto tenso.
— Eu não sei. Não consigo conceber que Harry esteja morto. Há uma possibilidade de ser um mal entendido.
Harry sentiu uma pontada mista de gratidão culpada pela amiga. Ele sabia bem que Hermione odiava cada minuto daquela mentira, tanto quanto ele.
— Certo, mas… ele não tem entrado em contato, tem? Todo esse tempo e nem mesmo escreveu para vocês, os melhores amigos dele — Astória pressionou, se dirigindo a Rony e Hermione. Neville ecoou sua pergunta com uma nota tardia de esperança no rosto redondo.
Rony encolheu os ombros, as orelhas queimando. Para os demais parecia um gesto resistente de concordância.
— Então é isso — recomeçou Neville, em voz de vias de fato. — Para todos os efeitos, precisamos aceitar que Harry está mesmo… morto. Partindo desse princípio, tem algo que eu preciso contar a vocês. Enquanto Harry estava– enquanto ainda havia uma chance de ele voltar, eu não achei que estava no meu direito de falar nada, mas agora, eu acho que tenho a obrigação. E vocês têm o direito de saber.
Harry franziu. Do que é que Neville estava falando? Os demais também pareceram mais atentos, ou no caso de Rony e Hermione, alarmados. Só Astória, ainda esfregando o ombro dele, não parecia surpresa. O que quer que fosse que Neville se sentia na obrigação de contar para os outros, já tinha dito para ela.
— É sobre a Profecia — Neville continuou, parecendo ao mesmo tempo exausto e estóico. — Aquela que quebrou na Batalha do Ministério, sem que ninguém pudesse ouvir o que dizia. Exceto que Harry a ouviu de Dumbledore mais tarde, e me contou pouco antes do feriado. Eu sei sobre quem ela falava, e acontece que a profecia não era só sobre Harry e Voldemort. Existe mais de uma pessoa que poderia ter sido o Escolhido, além de Harry. E essa outra pessoa… essa outra pessoa sou eu.
* * *
PROFECIA DESTRUÍDA MENCIONAVA UM SEGUNDO ESCOLHIDO
Fontes confiáveis dentro da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts revelaram o conteúdo completo da Profecia envolvendo Harry Potter e Você-Sabe-Quem, destruída na batalha do Ministério em junho passado...os critérios da profecia parecem servir para duas crianças nascidas no fim de julho, uma das quais até então permaneceu na obscuridade…
Neville Longbottom, cujos pais foram torturados até a loucura por comensais da morte durante a primeira guerra, e cuja avó e única parente viva faleceu recentemente, vítima de dementadores… Longbottom não respondeu às tentativas de contato deste jornal, mas uma fonte próxima ao garoto que prefere não se identificar confirma conteúdo da profecia, que Longbottom teria ouvido do próprio Harry Potter antes do seu desaparecimento misterioso.
Harry leu a reportagem pulando partes, o seu peito pulando junto a cada linha. A última linha, que e ele leu duas vezes, só para ter certeza se não estava alucinando, dizia: “se os boatos se confirmarem, podemos estar presenciando o surgimento de um segundo Escolhido, quem sabe este à altura de Você-Sabe-Quem”.
* * *
Harry achou Astória a caminho do castelo, caminhando sozinha e com a cabeça baixa, depois da sua última aula do dia nas estufas número quatro.
— Greengrass! — Ele chamou, indo contra a corrente de quartanistas sonserinos e grifinórios que olharam para a sua explosão com pouco interesse. Entre tudo que vinha acontecendo na escola e fora dela, ninguém parecia ligar para as idas e vindas de Dino Thomas.
Astória no entanto congelou ao som do seu nome, erguendo o rosto com um sobressalto.
— O que você quer? — Ela perguntou de cara fechada ao detectá-lo, o que Harry achou particularmente desaforado, considerando as circunstâncias.
— Você fez isso! — Ele sacudiu o jornal daquela manhã no rosto dela. — “Uma fonte próxima de Longbottom”! Você vazou a profecia para os jornais!
Ela arrancou o jornal da mão dele com impaciência e correu os olhos miúdos pela matéria. Seu rosto endureceu e ela lhe devolveu o jornal, voltando a andar na direção do castelo a passos largos. Harry a seguiu, ainda mais furioso com a falta de reação dela.
— Eu disse a você para ficar fora disso! Não entende o que acabou de fazer?
— Não vejo qual o problema. Ao contrário de certas correntes de pensamento, quem fez isso é da opinião que as pessoas merecem ter a versão total dos fatos.
— Não! Quem fez isso acabou de declarar a morte de Neville!
Astória se virando para ele, o rosto pálido sob as luzes do castelo.
— Eu nunca colocaria Neville em perigo de propósito.
— Como pode fazer algo assim pelas costas dele? — Harry acusou, espumando. — Ele confiou em você! Todos nós confiamos em você–
— … uns mais que os outros — ela murmurou, por sob a respiração, apertando os olhos.
— …deixamos você participar das reuniões da Armada, acolhemos você na Grifinória! O maior segredo da vida dele, a razão pela qual os pais delem foram torturados até a loucura, e você entrega tudo desse jeito, e para o quê? Para Voldemort ser informado e vir atrás dele? Neville nunca vai perdoar você — Harry disse, suas entranhas ardendo, porque não era só a Neville que Astória tinha traído, ao revelar o conteúdo completo da profecia. — Nenhum de nós vai.
— O que faz você tão confiante de que eu fiz isso pelas costas dele? — Ela perguntou, na mesma voz afiada. — O que faz você assumir que só porque eu sou– Astória limpou a garganta com violência. — Por que eu vim da Sonserina, eu automaticamente tenho que estar agindo pelas costas dele?
— Eu não estou achando nada, você acabou de provar — Harry sacudiu o jornal na cara dela de novo. — Você arruinou a vida dele–
— Tori!
Os dois se viraram. Neville se aproximava de onde estavam gritando um com o outro, o passo apertado. — O que é que está acontecendo?
Neville olhou de um para o outro, esperando uma explicação. Harry, decidindo que Neville saberia cedo ou tarde, estendeu o jornal, agora bastante amarrotado, para o amigo ler.
Neville o fez, o cenho franzido sob a pouca luz do jardim. Só os três tinham ficado para trás, os demais alunos já no interior do castelo aquecido, se preparando para o jantar.
Neville terminou de ler e ergueu o rosto, o cenho franzido:
— Eles se enganaram em algumas coisas, não foi? Vovó não foi vítima de um dementador… mas então, suponho que isso não faça grande diferença para o conjunto da obra. — E então, para Astória: — Achei que não sairia no mínimo até amanhã.
Astória fungou, se empertigando.
— O Profeta Vespertino anda desesperado por visibilidade, desde que o Profeta Diário está pegando todas as notícias quentes. Eles não iam deixar passar a oportunidade de publicar isso o mais rápido possível.
— Suponho que tenha sido uma boa ideia enviar para eles primeiro, então.
Harry sentiu o queixo cair até os sapatos.
— Você sabia? — Ele perguntou a Neville. — Sabia que ela ia–
— Nós escrevemos a carta juntos — Neville admitiu, corando um pouco sob a luz tênue das janelas do castelo. — Mas Tori achou melhor que ninguém soubesse que eu estou envolvido, para não parecer que eu estou querendo chamar atenção ou algo do tipo. Afinal, sem Harry ou o professor Dumbledore para confirmar não temos nenhuma prova, só temos a minha palavra.
Neville enrolou o jornal e devolveu para Harry, então olhou para Astória com preocupação.
— Você andou chorando?
Astória se apressou em negar.
— Não, isso foi só… alergia àquelas pacifloras horrorosas. Estão cuspindo pólem em todo mundo na estufa quatro.
— Coitadinhas, é difícil pra elas, essa época do ano — Neville disse, como se o vazamento da Profecia não fosse mais importante do que um acontecimento da aula de Herbologia de Astória.
Harry, ainda horrorizado, se obrigou a achar a própria voz.
— Por quê você faria uma coisa dessas?
Neville o olhou, considerando a questão.
— Ah, bem. Eu não quero tomar o lugar de Harry, nem quero dizer que ele foi egoísta por guardar a verdade para si mesmo. Eu tenho certeza que ele tinha os motivos dele, mas eu fiquei pensando… e se eu tivesse sido o Escolhido? E se Voldemort tivesse decidido que seria eu, ao invés de Harry? Eu provavelmente seria uma pessoa totalmente diferente, agora.
Ou totalmente morta, Harry não pôde evitar pensar.
Neville mordeu o lábio inferior, considerando as próprias palavras. Ele abaixou a voz para um tom secretivo. Havia um brilho em seus olhos de que Harry não gostou nem um pouco.
— Então eu pensei… e se eu ainda pudesse ser essa pessoa, a pessoa da profecia, agora que Harry não está mais…?
— Você quer ser o Escolhido? — Harry perguntou, incrédulo.
Neville encolheu os ombros, o rosto corado. E por mais que ele estivesse tentando fazer parecer que não era grande coisa, Harry reconheceu o que era aquele brilho em seus olhos – esperança.
— Não é questão de escolha, é? — Neville se apressou em completar. — Harry não escolheu, porque é que eu deveria poder?
— É literalmente o que você está fazendo, anunciando para o mundo que poderia ter sido você.
Neville deu de ombros, uma expressão de perturbadora tranquilidade no rosto redondo.
— Só estou aceitando o meu destino. Era o que Harry teria feito, se ele ainda estivesse aqui. Mas olhe, Dino… não conte para ninguém que eu estive envolvido, está bem? — Ele pediu, devolvendo o jornal para Harry. — Como eu disse, não queremos passar a impressão de que eu estou querendo chamar atenção, ou coisa do tipo.
Harry estava engasgado demais para formar palavras. Especialmente, palavras que não denunciaram a sua identidade para Neville, nem a confirmariam para Astória. Neville tomou o seu silêncio como uma confirmação. Ele se voltou para Astória com aquele mesmo olhar embotado que Harry já tinha visto no rosto do garoto sempre que olhava para ela; como se Astória exalasse Amortentia pelos poros.
— Vamos jantar? Eles estão servindo guisado de legumes hoje.
— Ah, que ótimo, meu favorito — Astória vibrou, deixando transparecer mais empolgação na voz do que Harry achou que ela poderia estar sentindo depois daquela discussão.
— Você vem para o jantar, Dino?
— Não, eu acho que eu vou dar uma volta.
— Cuidado, Filch anda louco para pegar alguém quebrando regras, para poder escalpelar.
Harry deu um sorriso pequeno que devia ter parecido uma careta e assistiu o casal se afastar, entrelaçando as mãos alguns metros mais adiante.
Harry se debateu contra a vontade de sacudir os dois pela ideia mais idiota de todos os tempos. A última coisa que qualquer um precisava era dar a Voldemort outra criança para perseguir, o que ele não hesitaria em fazer se achasse que Neville poderia ser uma ameaça.
(Continua…)
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