A Canção de Morgana
55 Duas Serpentes (Parte 1)
Notas iniciais
— Beba até o fim — Bervely mandou, ao ver que ainda restava um pouco de poção no recipiente.
Potter fez uma careta e virou o resto da sua poção polissuco garganta abaixo.
— Não importa o quanto você “aperfeiçoe” essa coisa, continua com gosto de lama azeda — ele reclamou, a pele começando a borbulhar e escurecer. — O que você mudou dessa vez?
— Só fiz uma alteração na estabilidade da fórmula — Bervely disse, observando-o com atenção. — Se eu errei os cálculos, você vai ganhar um braço extra ou perder algumas costelas. Se eu acertei, só vai precisar tomar uma dose por dia.
— Ah. Ótimo — Harry murmurou, e eles esperaram a transformação se completar em silêncio. Harry olhou para baixo, já em completo formato de Dino Thomas, sete centímetros mais alto e a pele vários tons mais escura. — Ainda bem que você é boa em matemática.
— Entre outras coisas — Bervely suspirou, pegando o cachecol de cima da cadeira e jogando-o em torno do pescoço. — Então, pronto para o seu velório?
Potter torceu a boca de Dino Thomas em outra careta, essa mais amargurada.
— Tão pronto quanto qualquer um pode estar, eu suponho.
Eles tomaram o caminho para o exterior do castelo, se unindo ao restante dos habitantes do castelo, a maioria em roupas pretas. Hogwarts nunca estivera tão silenciosa, tão desprovida de esperança como hoje. O salão principal, pelo qual passaram sem se deter, estava mais uma vez coberto de bandeiras negras ao invés das coloridas simbolizando cada casa.
O velório simbólico de Harry havia sido anunciado durante o jantar, na noite anterior. As aulas foram suspensas, e uma tenda branca gigantesca erguida do lado de fora, à beira do lago, para protegê-los de uma chuva fina.
Harry, que nunca tinha comparecido a um velório bruxo, estava com dificuldade de processar que aquele era seu velório bruxo. Aquelas pessoas — muitas das quais conhecia durante anos – acreditavam que ele estava mesmo morto.
Até a Armada tinha parado de discutir a possibilidade de que a sua morte fosse uma artimanha do Ministério. O novo, principal assunto, era como eles poderiam ajudar Neville a ter uma chance contra Voldemort. Os treinos de contra-azarações e duelos tinham recomeçado, toda noite depois do jantar. Harry não os frequentava, preferia receber atualizações por Rony e Hermione, ocasionalmente.
Neville, por sua vez, andava quieto. Talvez ele tivesse caído em si e percebido que só estava desenhando um enorme alvo em sua testa, assim que Voldemort ouvisse as novidades.
Se já não tivesse ouvido.
Harry viu diversos rostos conhecidos já sob a tenda, esperando perto de um púlpito conjurado de alguma sala de aula. Remus, Hagrid, Tonks, em suas vestes de auror, a barriga enorme… todos eles pareciam miseráveis. Não pela primeira vez, Harry pensou que não fazia qualquer sentido não contar para eles que ele estava vivo. Afinal, ele confiava naqueles três com a sua vida.
Mas Hermione lhe recomendara o contrário. A sua localização precisa ser um segredo para o máximo de pessoas. Senão, todo esse tempo se escondendo terá sido a toa.
Harry estava começando a achar que se ficasse mais tempo se fingindo de Dino, ele ia acabar se esquecendo de quem ele realmente era.
— Você acha que Almofadinhas já está sabendo? — Ele perguntou baixo à Bervely, quando eles chegaram à tenda. Várias cadeiras que se pareciam exatamente com a que eles se sentavam nas salas de aula haviam sido organizadas em fileiras diante do púlpito. Alguém conjurara uma coroa de flores – lírios brancos – para decorá-lo. Minerva já estava lá na frente, e Hagrid foi até ela se arrastando. Os olhos inchados, o rosto inteiro vermelho e franzido de dor.
O professor Snape não estava à vista. Harry ouvira boatos de que ele tinha deixado o castelo logo após ouvir sobre a resignação de Dumbledore. Covarde.
— Eu já cuidei disso — murmurou Bervely, passando os olhos pelas cadeiras que ainda estavam vazias. — Mandei uma mensagem por Yaz. Se ele ouvir qualquer boato, ela vai dizer que é mentira.
— Acha que vai ser o suficiente?
— Não — admitiu Bervely, franzindo o cenho. — Se ele exigir prova de vida, talvez eu tenha que enviar um pedaço da sua orelha como garantia.
Harry foi se sentar com os demais Grifinórios na terceira fileira e Bervely continuou adiante até a primeira, onde estavam a maioria dos professores, todos vestidos de preto, de forma que pela primeira vez as suas vestes não destoavam das demais.
— Rose — chamou uma voz rouca atrás dela. Bervely se virou e encontrou Oliver, que indicou uma cadeira vazia ao seu lado.
Ele também tinha os olhos muito vermelhos. Potter era o garoto de ouro de muita gente, de diferentes maneiras.
— Sinto muito pela sua perda — ele murmurou quando Bervely se sentou.
— A minha perda?
— Harry era como um irmão para você, não era? Sendo afilhado de Sirius e tudo mais.
— Nunca fomos muito próximos.
Oliver deu um suspiro pesado ao lado dela, voltando os olhos para o púlpito.
— Eu ensinei ele a jogar quadribol. O apanhador mais jovem do século. Ele era um assombro.
— Eu me lembro — ela murmurou, virando-se para espiar a multidão de alunos atrás deles. Algumas fileiras para trás, entre outros setimanistas, estava Katie Holmes. A garota os observava, seu maxilar retesado, os olhos duros.
— Talvez você devesse guardar o assento para a sua noiva — Bervely começou a se mover, mas Oliver achou a mão enluvada dela e a cobriu, prendendo-a entre a dele e a sua coxa.
— Fique. Por favor.
Bervely voltou a relaxar na cadeira, fazendo uma nota mental para manter um olho nos cantos escuros de Hogwarts mais tarde, só para o caso de uma azaração vir voando nas suas fuças.
* * *
— Isso é tão esquisito — Harry murmurou por entre os dentes, de forma que só Rony e Hermione pudesse ouví-lo. Flitwick tinha acabado de conjurar uma foto enorme de seu rosto lá na frente, uma tirada por Colin, em que Harry estava sorrindo de orelha a orelha após ganhar a copa das casas no terceiro ano.
— Eu acho que ele parece bem — Hermione sorriu ao seu lado direito. Os olhos dela estavam marejados. — Oh, Merlin. Eu sinto a falta dele.
— Eu estou bem aqui — Harry rangeu por entre os dentes, mas ela balançou a cabeça com impaciência, fungando.
— Você sabe o que eu quero dizer. Não é a mesma coisa.
Harry trocou um olhar com Rony; o amigo encolheu os ombros numa espécie de “vai entender?”, mas o pior é que Harry entendia.
Os professores começaram a tomar a frente do púlpito para falar algumas palavras sobre Harry. Minerva descreveu o dia de sua seleção (‘tão miúdo ele era, o chapéu mal cabia em sua cabeça). Flitwick descreveu a vez que Harry conseguiu produzir o seu primeiro feitiço-escudo. Hagrid, após várias tentativas, soluçou a história de quando tinha dito a Harry que ele era um bruxo e entregue a sua carta de Hogwarts.
— Eu vou dar uma volta — Harry anunciou, se levantando.
— Não chame atenção desnecessária — Hermione o advertiu, segurando-o pelo cotovelo, mas ele se desvencilhou da amiga e caminhou pelas fileiras de cadeiras até o fim da tenda e atravessou para dentro da chuva fina.
Mesmo andando rápido, ele ainda podia ouvir Hagrid uivar, incapaz de finalizar a sua história. Harry tomou o caminho contrário ao do castelo, em direção à floresta. Ninguém olhou duas vezes em sua direção.
Ninguém se importava se Dino Thomas fosse dar uma volta.
— Você devia estar aqui — ele murmurou para o tronco de uma árvore particularmente distorcida, quando estava longe o bastante da cerimônia. E então, porque a frustração em seu peito pressionou para fora como um balão que se inflava, ele explodiu — VOCÊ DEVIA ESTAR AQUI, DROGA!
Harry empurrou e socou o tronco da árvore até as mãos arderem, até os dedos queimarem, até a pele abrir em pequenos cortes dolorosos cheios de farpas. Então ele desabou no chão, arfando, os óculos embaçados. Para quem ele estava gritando? Dumbledore, que lhe prometera encontrar a última peça para derrotar Voldemort e ao invés disso tinha debandado, largando-o encalhado no corpo errado? Sirius, que tinha dado um jeito de perder a magia e o deixado de novo? Anne, depois de tudo pelo que eles tinham passado… depois da noite no observatório…
Ele pescou a pedra branca de dentro da camisa do uniforme, presa à longa corrente prateada. A única coisa que ela tinha deixado para ele, além de uma carta e da sua capa da invisibilidade. Não é real. Não gostamos de verdade um do outro. É tudo coisa da canção de Morgana.
— Você devia estar aqui — ele murmurou, a respiração cortada, segurando a orbe na altura dos olhos e encarando o ondular branco e irresponsivo do seu interior.
Mas Anne não estava. E Dumbledore não estava, ou Sirius, como seus pais também não tinham estado a sua vida inteira. No fim das contas, todo mundo ia embora e lá estava ele, mais uma vez, por si mesmo. Numa casa em ruínas, num armário sob a escada, ou num corpo que não lhe pertencia… no final, sempre sozinho.
Harry ergueu, pescando o barulho de passos sobre as folhas úmidas que cobriam o chão da floresta. Alguém tinha lhe seguido e estava se aproximando com cautela.
Harry pescou a varinha do bolso, guardou a orbe sob a roupa e apurou os ouvidos na direção dos passos.
— Harry?
* * *
Neville foi o primeiro a ver a comitiva ministerial chegar em sua carruagem púrpura. Ele os viu primeiro, porque estava esperando que aparecessem. Tinha sido avisado, na carta assinada pelo próprio Scrimgeour, que Neville não tinha tido coragem de responder.
Caro Sr. Longbottom, caso não entre em contato conosco através dessa coruja, seremos obrigados a encontrá-lo pessoalmente.
Ele tinha achado que eles iam, pelo menos, esperar passar o velório de Harry. Mas agora que os via ali – o Ministro e sua guarda composta de três aurores e seu assessor nervoso – ele supôs que aquela era a ocasião perfeita para interferirem, quando todo mundo estava vulnerável com a perda recente.
Mas Scrimgeour sequer olhou na sua direção ao se aproximar da tenda. Pensando bem, Neville não tinha certeza se o Ministro da Magia sabia como ele se parecia. Até alguns dias atrás, ele era só o garoto cujos pais tinham sido torturados na última guerra.
A comitiva ministerial caminhou até o púlpito, calando a “homenagem” de Sibila Trelawney, que consistia numa lista de todas as vezes que ela tinha previsto a morte de Harry e como todas as suas predileções levaram àquele momento. A professora McGonagall se ergueu abruptamente ao avistá-los.
— Professora McGonagall. Assim que eu soube que haveria uma cerimônia especial para o nosso caro Harry Potter, liberei a minha agenda para prestar a minha homenagem.
— Ministro — A voz da diretora era educada, mas os olhos amarelos queimaram com intensidade sobre o bruxo velho. — Não esperávamos a sua presença. Esse é apenas um evento interno, para dar a chance aos alunos de se despedirem…
— É claro, é claro — Scrimgeour tomou o lugar de Sibila no centro do púlpito e deu uma boa olhada na audiência, os olhos pequenos franzindo-se ainda mais. Estaria procurando por Neville? Ele tentou não se encolher. Ao seu lado, Astória achou e apertou a sua mão.
Eu estou bem aqui. Vai dar tudo certo.
— Eu gostaria de prestar os meus sentimentos pela desastrosa perda do nosso garoto. Ele foi, afinal, aquele que nos livrou d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado há tantos anos. É claro, ainda esperávamos grandes feitos de Potter no presente. Talvez feitos grandes demais, que terminaram por influenciar o seu fim precoce, mas o seu nome sempre será honrado em nossa história.
Os olhos de Minerva cintilaram perigosamente para o Ministro, mas ele continuou antes que ela pudesse interferir, a voz treinada para discursos se projetando até a última fileira de cadeiras, na parte de trás da tenda, onde cabeças curiosas se esticavam para ver melhor.
— Eu creio que essa é uma oportunidade propícia para dividir outras notícias com a comunidade desta escola, visto que estamos todos aqui. E eu receio que não sejam notícias boas.
— Ministro, certamente qualquer que seja o assunto, pode ser discutido em meu escritório uma vez que a cerimônia seja encerrada…
— Eu receio que não, professora McGonagall. Tenho outros compromissos para o resto do dia, não poderei ficar para o resto da cerimônia. Dorian — ele acenou para o assessor, que lhe trouxe um pergaminho enrolado, lacrado com o selo Ministerial. — Eu tenho aqui uma petição assinada pelos membros do Conselho, solicitando a suspensão imediata do ano letivo para preservar a segurança das nossas crianças.
O rosto da professora Minerva perdeu a cor, embora a sua postura continuasse rígida, e os seus olhos duros por detrás dos óculos quadrados. Ao seu lado, Flitwick soltou um ruído como o de um apito, e por toda a audiência, murmúrios surpresos ou incômodos começaram a emergir.
— Certamente essa decisão precisa ser revista, Ministro — Minerva recorreu, aceitando e passando os olhos pelo documento com rapidez. — Hogwarts tem cumprido as exigências da sua última visita. Eu assumi a diretoria da escola e reforcei todas as medidas de segurança…
— Receio não ser o bastante — Scrimgeour a dispensou, balançando a cabeça de cabeleira selvagem. — Essa é a vontade do Conselho, não minha, embora eu concorde com a decisão. Não posso continuar ignorando os incidentes que têm ocorrido na escola desde o início do ano, e quando a isso acrescentamos o falecimento do Sr. Potter…
— Harry Potter não faleceu dentro desta escola! — McGonagall estalou, contrariada. — Enquanto ele esteve aqui, esteve perfeitamente seguro!
— Ainda não compreendemos as circunstâncias exatas da morte de Potter — O Ministro se adiantou. — Mas a escola falhou em reportar o seu desaparecimento por mais de três meses. Uma ação mais imediata da sua parte teria nos ajudado a investigar a situação com prontidão, quem sabe até dar uma chance ao garoto–
— Ele foi uma vítima dos criminosos que o seu Ministério tem falhado em colocar em custódia, Sr. Ministro — disse Minerva com frieza, deliberadamente cortando-o dessa vez.
Os olhos do Ministro esfriaram como lascas de vidro.
— Como eu disse, as circunstâncias da morte de Potter ainda não estão todas esclarecidas. A isso se somam o ataque à Srta. Bell e o falecimento da Srta. Chang no ano passado, e de acordo com relatos, um atentado contra a vida de seis alunos em fevereiro, que nunca foi formalmente reportado ao Departamento de Execução das Leis da Magia?
— Não foi reportado porque foi resolvido internamente sem causalidades — Minerva retorquiu, os lábios muito brancos. Os burburinhos entre os alunos tinham revertido para um silêncio tão absoluto que cada gota de chuva caindo sobre a lona da tenda era audível. Ela respirou fundo, recuperou a compostura que parecia prestes a lhe escapar pelos dedos e voltou a falar: — Será que o senhor poderia esclarecer, Ministro, a necessidade de vir informar a decisão do Conselho em pessoa? Decerto o documento poderia ter sido enviado por coruja, se o senhor está com a agenda tão ocupada?
— Ah, eu não vim apenas para isso — Ele disse, se voltando para os alunos, o corpo pesado sustentado pela bengala em sua mão esquerda. — Tenho um assunto importante a tratar com um de seus alunos. Sr. Neville Longbottom?
Neville achou que seu coração ia parar de bater. Ao lado do Ministro, a professora Minerva atingiu um novo nível de ultraje, os lábios invisíveis, os olhos crispados.
— O que o senhor quer com o Sr. Longbottom? Certamente não está acreditando nos boatos absurdos que o Profeta Vespertino tem espalhado a respeito do pobre…
— O meu assunto com o Sr. Neville é confidencial, eu receio. Tenho nota de que o garoto já atingiu a maioridade? Portanto, a interferência da escola não será necessária.
— Se ele quiser falar com o senhor — McGonagall estalou. — Ele não será coagido–
— Tudo bem — Neville se levantou, um pouco trêmulo, muito pálido. Ele pigarreou, firmando a voz, como tinha praticado com Astória. — Eu vou falar.
— Sr. Longbottom, que fique bem claro que o senhor não precisa–
— Eu sei que eu não preciso, professora.
Foi a primeira vez que Scrimgeour produziu algo que parecia um sorriso em seu velho rosto crivado de vincos. Neville atravessou as fileiras de cadeira até a frente, onde a comitiva ministerial esperava. O Ministro apertou a sua mão e fez um gesto para além da tenda, na direção do lago. Neville assentiu, e o Ministro, o seu assessor e um dos aurores seguiu com ele na direção da carruagem que os trouxera, onde teriam mais privacidade.
* * *
Harry estava voltando para a tenda quando viu a comitiva do Ministro, acompanhada de Neville, se afastar na direção de uma carruagem que não estava ali quando ele saíra.
— O que eu perdi? — Ele perguntou, tomando o seu lugar entre Rony e Hermione.
Ela abriu a boca para contar, mas viu as calças sujas de terra de Harry e as suas mãos machucadas, e seus olhos cresceram com alarme:
— O que aconteceu com você?
— Nada. Hermione, eu estou bem. O que está acontecendo, porque o Ministro está em Hogwarts de novo?
Ela explicou os últimos acontecimentos aos sussurros. Como o resto deles, esperaram que Neville e o Ministro da Magia tivessem a sua audiência secreta, os murmúrios crescendo em ansiedade enquanto o tempo passava. Os professores estavam tendo sua própria conferência na primeira fileira, trocando sussurros e passando o papel com a decisão do conselho de mão em mão.
— Eu devia ir falar com McGonagall — Harry murmurou, inquieto. — Ou falar com o Ministro…
— Isso só causaria mais caos — Hermione o preveniu, segurando o seu braço como se estivesse pronta para segurá-lo se Harry decidisse interferir. Do seu outro lado, Rony assentiu em silenciosa concordância.
Harry cruzou os braços e tentou não se contorcer muito, o peito queimando de agonia.
Eles não precisaram esperar muito. O Ministro da Magia e o resto de sua comitiva retornou à tenda dali a alguns minutos, Neville com eles, ainda mais pálido do que quando fora. O rosto de Scrimgeour exibia contida vitória quando ele retornou ao púlpito.
— Hoje, eu vim até Hogwarts com a esperança de dar-lhes, e a todo mundo mágico, ao menos uma notícia positiva. Graças ao seu colega, isso será possível. O senhor Longbottom graciosamente aceitou tomar a poção da verdade e nos confirmar que ele é, de fato, o Segundo Escolhido, destinado a trazer o fim àquele que Não Deve Ser Nomeado.
McGonagall parecia prestes a soltar raios pelos olhos.
— Absurdo! Sr. Longbottom! Ministro, ele é só um garoto!
— Bem como o nosso Harry Potter era, professora — disse Scrimgeour, lançando um olhar longo e exageradamente saudoso para o retrato de Harry, flutuando atrás dele. — E não obstante, ele conseguiu sobreviver a diversos encontros com Aquele Que Não Se Deve Nomear, com mínimo treinamento. E talvez tivesse sobrevivido tempo o suficiente para ter uma chance de combatê-lo de igual para igual, não fosse pela interferência do professor Dumbledore, que insistiu em manter o garoto sob a sua custódia e oferecê-lo apenas o treinamento padrão de Hogwarts, quando Potter poderia ter se beneficiado de um treinamento avançado em defesa contra as artes das trevas desde tenra idade.
— Ministro, sinceramente–
— Felizmente, temos uma segunda chance de fazer a coisa certa. O Sr. Longbottom aceitou a minha oferta para ser treinado pela Academia de Aurores. Ele será preparado pelos melhores aurores desse país e terá todo o apoio que o Ministério possa oferecer no cumprimento do seu destino.
Minerva se voltou para Neville, os olhos largos e intensos, o mais próximo de uma súplica que Harry já vira no rosto da professora:
— Sr. Longbottom, eles não podem lhe forçar a deixar essa escola se não o deseja. Não podem obrigá-lo…
— Ninguém está me obrigando — Disse Neville. — Eu quero ir. Eu quero fazer isso, professora. É o que a minha avó ia querer que eu fizesse. — Ele completou, mais baixo, os olhos se desviando rapidamente até a foto de Harry, e então para o chão.
— Uma sábia decisão, meu garoto — Scrimgeour colocou uma mão calosa no ombro de Neville. — O Sr. Longbottom também intercedeu pela escola. Embora eu não pretenda contrariar a decisão do Conselho, o Ministério não se oporá se Hogwarts quiser continuar abrigando qualquer um que se sinta mais seguro dentro do castelo do que fora. É claro, isso inclui apenas aqueles que atingiram a maior idade, e os menores cujos pais expressarem autorização para sua permanência. Neville, queira fazer as suas malas e se despedir dos seus colegas, sim? Não vejo razão para adiarmos o início do seu treinamento nem mais um dia. Eu o aguardarei em minha carruagem. Ao resto dos senhores… meus profundos sentimentos por sua perda. Potter sempre será um símbolo dos erros que cometemos, e principalmente daqueles que não queremos repetir no futuro.
* * *
— Draco! Espere– Draco!
Bervely apertou o passo para alcançar o garoto, mas os seus pulmões, impregnados dos vapores do seu laboratório nas masmorras, já não eram mais os mesmos. Draco, com as pernas longas e uma expressão de pânico sublime no rosto, estava abrindo mais distância a cada passo que o afastava da tenda.
— DRACO!
Draco enfim parou, atrás de uma das grandes pedras que bordeavam o lago naquela área. Quando Bervely o alcançou, ele estava com o rosto enfiado entre as mãos, o corpo sacudindo em espasmos.
Ela achou que ele estava chorando, mas quando tocou o seu braço Draco ergueu o rosto e seus olhos estavam secos, muito vermelhos mais secos, a não ser pelo pânico que os inundava.
— Qual é o problema? — Bervely exigiu, o seu próprio coração batendo como um tambor contra as suas costelas. Na balburdia que tinha se seguido a visita do Ministro da Magia, ela vira Draco deixar a tenda como o seu mundo estivesse acabando.
— Você os ouviu! — Draco disse, a voz apertada, os olhos largos e assombrados. — A escola vai fechar! Vão mandar todo mundo para casa!
— Não todo mundo. Quem quiser ficar vai poder…
— Não vão me deixar ficar, Bervely! Eu sou filho de um comensal da morte!
— Deixaram você ficar até agora — Ela disse, tentando fazer com que ele raciocinasse antes de sucumbir ao que ela estava achando que era o início de um ataque de pânico. — Ninguém culpa você…
— Eu ainda sou menor de idade. Não tem ninguém para me dar autorização para ficar. Vão me mandar para casa–
— Draco.
— Você sabe o que tem em casa — ele arfou, o peito magro subindo e descendo em grandes arquejos, qualquer vestígio de sangue em seu rosto há muito ausente. — Você sabe o que está me esperando–
— Lucius não está na Mansão –– Ela sussurrou, se aproximando dele, tentando travar contato visual. — Ouça, eu não acho–
— Não Lucius! Eu nunca lhe contei… aquela noite, a noite em que tia Bella quis falar a sós comigo, o que ela queria–
— Sr. Malfoy!
Bervely se virou, reconhecendo duas silhuetas em uniformes roxos de auror. Seu sangue gelou — aurores nunca eram bom sinal — antes que pudesse reconhecer um deles. Era Nymphadora, uma mão na barriga proeminente ao se aproximar caminhando rápido, o rosto muito sério.
Mas quem tinha chamado Draco e estava se aproximando a passos largos, fora o segundo auror. Bervely o reconheceu quando ele chegou mais perto, o rosto longo e cruel, a barba escura aparada com navalha – Howles. O mesmo que tinha lhe dado voz de prisão em setembro.
Ela sacou a varinha, se colocando entre ele e Draco, mas Nymphadora fez um gesto para que ela se acalmasse.
— Só queremos dar uma palavra com Draco — Ela disse, tomando a frente do seu parceiro, que ao ver Bervely estreitou os olhos, talvez tentando descobrir de onde a conhecia. — É importante.
— Se isso for sobre Chang, tudo já foi esclarecido–
— Não é sobre Chang — Tonks garantiu. — É sobre Lucius Malfoy.
* * *
— Você não pode estar planejando mesmo deixar a escola desse jeito! — Harry exclamou para Neville, que enfiava os seus pertences freneticamente no malão, aparentemente esquecido de que podia usar magia.
— Qual é o seu problema? — Neville resmungou por entre os dentes apertados. — Essa é a minha melhor chance de me preparar, você ouviu Scrimgeour!
— Se você for mesmo o “Segundo Escolhido” — Harry rebateu, tentando colocar alguma centelha de dúvida naquela ideia.
Não que Neville não fosse. Ele provavelmente era, ao menos na interpretação ao pé da letra da profecia. Mas essa não era a questão, pensou Harry. A questão era saltar de cabeça naquela ideia, sem entender que era um salto suicida.
— Eu sou — Neville rosnou. — O próprio Harry me disse!
— Bem, talvez ele estivesse errado!
— Dino, cara — Rony, a terceira presença no quarto do dormitório, chamou com um vinco entre as sobrancelhas ruivas. — Melhor a gente se acalmar, se o Neville quer ir…
— Fácil falar que ele estava errado, agora que ele está morto! — Neville cortou Rony, ao mesmo tempo em que tentava fazer a sua coleção de revistas em quadrinhos caber no malão já lotado. — Mas se o Harry tivesse tido a mesma chance, talvez ele estivesse aqui agora!
Harry abriu a boca e então fechou, como um peixe fora de um oceano de argumentos válidos. Havia um, no entanto, que deveria ser óbvio para Neville, mas por alguma razão não era:
— O Ministério quer usar você! Eles vão usar você para mostrar que estão fazendo alguma coisa, que estão tomando providência contra Voldemort.
— E daí? Me oferecer treinamento é alguma coisa!
Neville desistiu de tentar fazer as revistas caberem no malão e as atirou no chão, como se quisesse fazer o mesmo com ele. As páginas se espalharam, algumas se desprendendo da lombada e deslizando para baixo da cama do garoto.
— Eles não podem treinar você para enfrentar Voldemort, Neville. Se eles soubessem como enfrentar Voldemort, Voldemort já estaria morto.
— Pare de repetir o nome dele! — E mais baixo, o rosto vermelho-tomate. — Eu sei que não devemos ter medo do nome, mas traz má sorte. E por que você se importa? Você nem mesmo vai às reuniões da Armada, mais! Você sequer nos contou a verdade sobre o que aconteceu com você no verão!
— Que verdade? — Harry piscou, um gelo de aviso seu estômago.
— Astória me contou que viu você no Hospital Sr. Mungus no verão, quando foi visitar a tia de Susana. Você estava no quarto andar, o de danos por magia, não no primeiro, que cuida de acidentes com criaturas mágicas.
— Neville — Rony intercedeu, o que claramente era um rumo perigoso para aquela conversa. Harry tinha dividido com Rony e Hermione o que Anne lhe contara sobre o verdadeiro Dino Thomas, e o amigo sabia que Dino ainda estava no hospital, nas mesmas condições em que fora admitido em algum ponto do verão. — Só estamos preocupados com você.
— Bem, vocês não precisam. Só me façam um favor, sim? Não parem com a Armada. — Ele lançou um olhar ressentido para Harry e deixou o quarto, arrastando o malão lotado, tropeçando em suas revistas espalhadas pelo chão do dormitório.
— Idiota — Harry rosnou contra o travesseiro.
— Talvez seja melhor desse jeito — Rony murmurou, olhando com dó para as revistinhas espalhadas pelo chão. — Você não estava preocupado que ele ia se tornar um alvo? Ao menos lá ele vai estar rodeado de aurores, agora. Vai ser mais difícil para Voldemort chegar nele desse jeito
Harry rolou de barriga para cima, sangue pulsando nas orelhas. Mas a verdade é que só uma parte dele estava irritada com Neville. E se fosse investigar bem, aquela irritação também se parecia muito com… inveja? Ele estava com inveja de Neville? Neville ia receber o treinamento dos melhores aurores do Ministério… mesmo que no fundo Harry soubesse que nenhum deles era páreo para Voldemort.
Só Dumbledore era páreo para Voldemort, mas Dumbledore nunca tinha lhe ensinando nenhum feitiço defensivo que fosse. Só o tinha mantido trancafiado, desinformado, longe do alcance… e como isso o tinha ajudado, até agora? Ele estava vivo, mas e daí? Ele nem mesmo era mais o Escolhido. Ele só era um falso Dino Thomas, cambaleando pelo castelo enquanto o mundo se explodia. E agora Hogwarts ia fechar…
— Harry — Rony chamou, baixo. — Eu posso ver as suas caraminholas pegando fogo. É melhor relaxar, cara.
Harry bufou. Fácil para Rony falar. Ele tinha tudo que queria – uma cadeira na ordem, a namorada ao seu lado, uma família que o apoiava, o próprio corpo… e o que Harry tinha?
* * *
— Infelizmente não foi possível interrogá-lo — explicou o auror Howles, de cara fechada. — Ele foi encontrado por um dementador antes que chegássemos a ele.
— Desculpe? — Bervely interpelou, olhando para Tonks, muito pasma. — Malfoy foi beijado?
A prima assentiu. Os quatro – ela, Draco e os dois aurores, tinham pegado a sala dos professores emprestada, enquanto a professora McGonagall estava ocupada em acalmar os ânimos do resto da escola. Tonks acabara de informá-los que Lucius Malfoy tinha sido capturado pelo esquadrão de aurores na noite anterior.
— Nós achamos que não foi um acidente. É possível que quando ele se deu conta de que seria capturado, tenha feito arranjos para tal.
Ela se deteve ao ver a expressão no rosto de Draco. O garoto parecia prestes a vomitar, a cor do seu rosto tendo evoluído de branco-de-pânico para cinza-de-náusea durante a conversa.
Nymphadora deu um suspiro e foi até ele, se abaixando para ficar da altura de Draco, que estava sentado em uma das cadeira desencontradas da sala, agarrado aos braços de madeira como se esperasse que o chão fosse ser arrancado de sob os seus pés a qualquer momento.
— Meus pêsames, Draco. Mas eu preciso perguntar… você vinha se comunicando com o seu pai ultimamente?
Draco olhou para ela, os olhos pálidos cintilando perigosamente.
— O que está insinuando? Que eu estive colaborando com ele de alguma maneira?
— Você esteve?
— Não! — Draco cuspiu. — Eu não falo com ele desde que ele matou a minha mãe em dezembro.
Tonks se aprumou, engolindo em seco. Bervely deu dois passos para mais perto e colocou as duas mãos nos ombros de Draco.
— Seu pai registrou uma herança para você no Ministério, como é costume entre as famílias bruxas. Infelizmente, esses bens só serão liberados quando você atingir a maior idade, e apenas se forem julgados seguros — Tonks continuou, numa voz mais via-de-fatos.
Draco travou os maxilares e olhou para longe. Bervely franziu, com a impressão de que Tonks estava chegando na razão pela qual eles tinham ido a Hogwarts pessoalmente para coagir um menor de idade sob o disfarce de informá-lo de um falecimento na família.
— Um desses bens não foi encontrado no cofre da família, nem em posse de Lucius. É um anel, listado como Duas Serpentes. Sabe onde podemos encontrá-lo?
Draco se enrijeceu sob os dedos de Bervely.
— Eu não faço a menor ideia.
— Para que vocês precisam do anel? — Bervely quis saber. Tonks ergueu o rosto para ela. Parecia cansada, o que não era nenhuma surpresa, entre uma gravidez licantrópica e uma guerra.
— Ele pode ser perigoso. Só queríamos ter certeza de que não vai cair nas mãos erradas.
— Bem, Draco não está com ele. Mais alguma coisa? — Bervely interferiu, a voz impaciente.
Nymphadora olhou longamente para Draco, que encarava o vazio através dela.
— Não, isso é tudo por enquanto. Eu receio que o corpo de Malfoy ficará sob custódia por algum tempo. Então, a família poderá clamá-lo para um… enterro, eu suponho.
Ela fitou Draco uma última vez, esperando que ele dissesse alguma coisa. O garoto, sem olhá-la, engoliu em seco.
— Eu posso ir agora?
Tonks trocou um olhar com Howles, que deu de ombro, a mesma expressão insatisfeita no rosto de quando chegara.
— Sim, eu suponho que pode–
Draco se levantou, desvencilhando-se das mãos de Bervely, e saiu a passos largos da sala. Não correndo, mas decididamente andando o mais rápido que suas pernas permitiam. Ele bateu a pesada porta de mogno atrás deles, e por um segundo houve silêncio.
— Eu vou ver se ele está bem — Bervely suspirou, lembrando-se do estado de nervos do primo antes mesmo de receber a notícia. Ela também estava ansiosa para deixar a presença do outro auror, que ainda a encarava como se procurasse em seu rosto um motivo para mandá-la de volta a Azkaban. Ele não parava de olhar para ela como se achasse que ela estava no lugar errado, e havia um comichão em sua mão direta, como se ele estivesse ansioso para sacar a varinha e colocá-la em seu devido lugar.
— Espere — Tonks pediu, se levantando com vagareza, a mão na barriga e a outra usando a cadeira em que Draco estivera para se equilibrar. — Dê um segundo a ele. Draco acabou de descobrir que a alma do pai foi devorada por um dementador. Não que Malfoy tivesse muita alma, é claro. Ugh, desculpe. Sei que você morou com ele por alguns anos.
— Nada do que se desculpar — Bervely a garantiu. — Ele não tinha mesmo.
— Eu vou ver se Scrimgeour já está pronto — Howle avisou para Tonks, parecendo ter perdido a guerra que estava travando consigo mesmo para enquadrar Bervely em algum crime. — Encontro você na entrada em quinze?
— Faça dezessete, é o meu número favorito — Tonks brincou, mas o auror não sorriu. Quando ele saiu, ela rolou os olhos:
— Nenhum senso de humor, coitado.
Bervely não podia se importar menos com a falta de senso de humor de Howles. Ela estava curiosa, no entanto…
— Lucius estava… ele parecia… inteiro, quando vocês os encontraram?
— Com exceção da alma faltando? Bem… — Ela deu uma breve olhada para a porta, que Howles deixara aberta, antes de responder. — Não, na verdade. Ele parecia ter sido torturado. Tinha pedaços faltando.
— Pedaços?
— Nos braços e pernas, como se arrancado por mordidas. Obra de Bellatrix, se você me perguntar. Normalmente ela tortura com Crucius, mas se é bastante pesssoal… — Tonks se calou, vendo a expressão no rosto de Bervely. — Eu não devia estar lhe dizendo isso. Escute, acha que pode vir jantar com a gente hoje, na Casa dos Gritos? Eu e Remus queremos lhe agradecer — Tonks tocou a barriga. — Se sobrevivemos a mais uma lua cheia, é só por causa da sua poção milagrosa.
— Não tem nada milagroso em… — Tonks ameaçou um rolar de olhos teatral. Bervely suspirou. — Sim. Tudo bem.
— Vejo você mais tarde, então. Remus vai cozinhar sopa de abóbora, a sua preferida.
— Por que não fazem logo uma sopa de veneno, se querem tanto me torturar?
Dora deu um sorriso fraco. Por mais ferrenhas que fossem as suas tentativas de humor, as bandeiras negras ainda estavam à vista no salão principal além da porta, e os olhos dela não estavam brilhando como de costume.
— Eu amo você, priminha — Tonks se aproximou e abraçou Bervely, a barriga proeminente pressionada contra a dela. — Mesmo que você tenha o senso de humor de uma barata pisoteada na feira.
— Velórios sem corpos me deixam desse jeito — ela retorquiu, esperando o abraço terminar. Aprendera na marra que aquela era a melhor maneira de lidar com os surtos de um Tonks sentimental.
Não satisfeita, Tonks estalou um beijo em sua bochecha, antes de ir embora.
* * *
— Como Draco ficou? — Remus quis saber, um vinco de preocupação característico em seu cenho, ao ouvir as últimas notícias sobre a captura de Lucius Malfoy.
— Não sei bem. Não consegui achá-lo depois que Tonks foi embora.
— Suponho que ele vai aparecer quando estiver pronto.
Bervely assentiu. Estava acostumada com os espécimes escorregadios da família, ela sendo um deles. Ela tinha, afinal, reagido à notícia da suposta morte de Sirius se retirando de vista por semanas. Esperava que Draco não fizesse o mesmo, para o bem da sua sanidade.
— Mandei Jinx atrás dele. Não tem um canto daquela escola que ele não conheça, vai achá-lo eventualmente.
Ela olhou para a lareira pela sétima vez, mas não achou nenhuma iminência de flú nas chamas alaranjadas.
— Os turnos estão cada vez mais longos no DELM — Disse Remus, ao ver a direção do olhar de Bervely. — Já pedi para ela pegar leve um milhão de vezes, mas depois de cada lua cheia ela trabalha extra. Para recuperar o tempo perdido, suponho.
— Soa como Nymphadora — Bervely se ajeitou no sofá cheio de molas, bebericando o vinho de elfos que Remus tinha lhe servido em uma taça com a borda lascada. — Na verdade, tem algo que eu ando querendo lhe perguntar.
— Oh? — Remus se ajeitou, pousando a própria taça na mesinha bamba de centro.
— Severus. Não recebo notícias dele desde que deixou Hogwarts, na semana passada. Ele está em alguma missão para a Ordem?
Os olhos castanhos do lobisomem escureceram.
— Sabe que não posso falar sobre isso com você.
Bervely controlou a onda de frustração que acompanhou a resposta dele. Resposta a qual ela inclusive já esperava. Mantenha a compostura. Perder a paciência tende a não funcionar com Lupin.
— Eu só quero saber se ele está bem. Ele deixou Hogwarts um tanto abruptamente.
— Já tentou contactá-lo por coruja?
— Ele me proibiu de escrever — ela admitiu à contragosto.
— Bem — Remus relaxou ligeiramente no sofá. — Se Severus quisesse que você soubesse onde ele está, já teria entrado em contato.
— Ele pode ser um pouco desatento no que tange a dar satisfações de sua vida para quem se importa — ela insistiu, apertando a base da taça entre os dedos, mas mantendo o rosto cuidadosamente inexpressivo.
— Sinto muito, Bervely. Nada que eu possa fazer, eu receio.
Bervely pretendia continuar insistindo, mas naquele momento as chamas da lareira brilharam verde-esmeraldas e no segundo seguinte Dora as atravessava para dentro da sala da Casa dos Gritos. Ainda usava o uniforme roxo, agora amarrotado, e parecia ainda mais cansada do que aquela manhã, olheiras sob os olhos cinza-grafite daquele dia.
— Ah, você já está aqui — Ela deu um sorriso fraco para Bervely, mas parou primeiro nos braços de Remus. Ele beijou o topo de sua cabeça, e então a sua barriga, sobre os botões do uniforme. Bervely desviou o olhar para a sua taça de vinho. — Desculpem a demora, precisei assumir a minha nova “missão” antes do fim do turno.
— Que nova missão? — Remus se preocupou, mas Tonks sorriu para tranquilizá-lo.
— Consegui convencer Thicknesse de que eu devo ser aquela a ficar de olho no garoto Longbottom — Ela deu uma piscadela conspiratória para Remus, que pareceu três toneladas mais leve ao receber a notícia. — Ele vai receber “treinamento” de outros instrutores na Academia, mas eu serei a sua tutora.
— Isso é fantástico — Remus suspirou contra a barriga dela, ainda sentado e com os braços em torno de sua cintura cada dia mais larga.
— Você só está feliz porque isso me coloca fora de campo.
— Entre outras coisas, sim. Mas eu também estou preocupado com o garoto.
— Eu vou garantir que ele não sofrerá muito nas mãos de Thicknesse, pode deixar. Aquela ave de rapina carniceira queria colocar Neville na arena em seu primeiro dia, o garoto mal tinha desfeito as malas!
— Quem é Thicknesse? — Bervely perguntou, sem familiaridade com o nome.
— Pius Thicknesse, o novo chefe do departamento de Execução das Leis da Magia desde o falecimento de Amelia Bones no verão — Tonks suspirou infeliz, e se voltou para Remus — Você fez o guisado?
— Sim, mestra — Remus murmurou contra a barriga dela. — Elfo Lupin fez o guisado, como ordenado.
— Bem, vamos nessa então, eu e o lobinho estamos mortos de fome.
O guisado em questão, Bervely ficou feliz em descobrir, não era de abóbora, mas de carneiro. Eles jantaram na mesa de três pernas no canto da sala, Bervely prestando apenas meia atenção enquanto Remus e Tonks discutiam o desfecho dos acontecimentos de mais cedo. As aulas em Hogwarts seriam suspensas no dia seguinte, e os pais tinham sido solicitados a buscar seus filhos ou autorizá-los a ficar no castelo até o fim do ano letivo.
— E você, B? Vai ficar em Hogwarts? Não precisa mais, não é, agora que não tem que dar aulas? — Tonks perguntou, tirando Bervely do fundo-sem-fundo dos seus pensamentos.
— Eu não sei. Ainda não pensei nisso.
— Sabe que sempre pode ficar aqui conosco, não é? É sua casa tanto quanto a nossa.
Ela não disse a Tonks que a mera ideia de voltar para a Casa dos Gritos fazia as suas entranhas se retorcerem.
— Na verdade, queríamos mesmo falar com você sobre… família, eu suponho — Tonks anunciou, um indício do costumeiro brilho cintilando em seus olhos claros.
— Ao menos espere pela sobremesa — Remus sugeriu ao lado dela, numa tentativa falha de humor.
Bervely franziu.
— Qual o problema?
— Não! Nenhum problema. Só estamos muito, muito gratos pelo que tem feito pelo Rommy.
— Quem diabos é Rommy?
— É como estamos chamando o bebê por enquanto — Um sorriso bobo se alastrou pelo rosto cansado de Tonks. Ela acarinhou a barriga. — É apelido para Romulus, como no conto dos dois irmãos, Romulus e Remus.
— No conto em que Romulus mata Remus para ficar com Roma?
— Detalhes, detalhes — Tonks fez um aceno de ‘bobagem’ no ar, com a mão que não estava acarinhando seu filhote de dentes afiados. Bervely franziu o cenho para Remus que, ao lado dela, deu de ombros e rolou os olhos, com uma expressão de “Quem se atreve a discutir?”
— Enfim — Tonks continuou, tentando manter a voz num tom animado. — Pensamos que você seria a pessoa perfeita para batizar o nosso Rommy.
Bervely demorou vários, longos segundos para entender do que Tonks estava falando.
— Você quer que eu seja a madrinha do seu filho?
— É claro! Se você nos der a honra. Você já é como uma irmã para mim. Nada seria mais natural! E você salvou a vida dele nas últimas luas cheias, e a minha…
Bervely ergueu os olhos, junto com as sobrancelhas, para Remus.
— E você está de acordo com isso?
— Eu acho que Dora tem bons argumentos.
— Por favor, diga sim — Dora pediu, os olhos brilhando para ela feito duas estrelas flamejantes de persuasão. — Você já é a maior protetora de Rommy, e ele nem nasceu ainda. E você também é a pessoa que quero que cuide dele, se algo acontecer conosco. Eu não confiaria em mais ninguém, Bervely.
Um caroço duro tinha se alojado na garganta de Bervely durante o discurso lacrimoso de Nymphadora. Será que a prima não podia pensar em uma pessoa pior para ser a guardiã de um bebê lobisomem? Será que Nymphadora tinha perdido o juízo?
— Eu preciso… pensar.
— Pensar no quê?
— Dora — Remus colocou uma mão no braço dela. — Foi um dia difícil para todo mundo. Esse pedido é uma grande responsabilidade, não deve ser assumido por impulso.
— É, certo. Tem razão! — Dora piscou, abrindo outro sorriso cansado. — Melhor partimos para a sobremesa! Torta de abóbora, eu ouvi dizer? Em sua homenagem, B.
— Você é ridícula — Bervely suspirou, esfregando o rosto, enquanto Dora saltava, toda redonda e duas vezes mais estabanada do que normal, para buscar a sobremesa na cozinha. Quando Bervely abaixou as mãos, Remus a olhava atentamente.
* * *
Mal tinham terminado a sobremesa, Bervely anunciou que estava cansada e era hora de voltar para Hogwarts.
— Melhor usar a passagem — Remus indicou o alçapão que levava até os terrenos do castelo. — Não é seguro atravessar Hogsmeade à noite, nos últimos tempos.
— Nunca foi — ela murmurou, deixando que ele a ajudasse a enfiar o braço em uma manga do seu pesado casaco de lã verde escuro.
Nymphadora roncava no sofá, a boca aberta, o cabelo cor de lavanda caindo pelo rosto e para todo lado. Ela tinha desabado logo depois do chá, como uma vela soprada pelo vento.
— É a gravidez — Remus explicou a Bervely, ajeitando Dora numa posição melhor entre algumas almofadas puídas — O bebê toma quase toda a energia dela, e o que resta o DELM faz questão de sugar.
— Vou ver se consigo adicionar algum componente enérgico na poção, mês que vem — tinha sido a resposta de Bervely.
Mas agora, o pensamento dela estava em outro assunto. Um que ela vinha remoendo já fazia alguns dias – desde o anúncio da “morte” de Potter, mas que só tinha se solidificado durante a sua conversa com Remus mais cedo.
— Eu quero entrar para a Ordem.
— Perdão? — Remus perguntou, no meio de um bocejo.
— Eu quero entrar para a Ordem. Quero me alistar.
Remus a olhou por um longo tempo, mas quando respondeu, soou como uma resposta pronta.
— Não.
— Como é? — Essa era uma resposta que ela não tinha previsto. — Como assim “não“?
— Você está pedindo pelos motivos errados.
— MOT– Motivos errados? — Ela corrigiu a voz para um sibilo, para não acordar Nymphadora. — E você sabe lá quais são os meus motivos?
— Você quer saber sobre Severus. Acha que se entrar na Ordem, vai conseguir informação sobre o paradeiro dele, que eu não estou lhe dando.
Ela se empertigou, alinhando o casaco nos ombros.
— E se for por isso? Eu ainda posso ajudar.
— Você já está ajudando. O seu antídoto salvou todos aqueles estudantes em fevereiro. A sua poção tem mantido Dora e o bebê vivos, sem falar na minha sanidade durante as luas cheias, pelo que agradeço imensamente–
— Exato! Imagine o que eu posso fazer se eu tiver mais informação! Se eu souber como–
— Não. Desculpe, Bervely, essa é a minha palavra final sobre o assunto. Por favor, não insista.
O aborrecimento – a frustração, a irritação que Bervely vinha domando ao longo do dia borbulhou perigosamente nas beiradas de sua paciência, corroendo qualquer esforço que ela poderia fazer para impedi-las de transbordar.
— Então eu sou boa o suficiente para ser a madrinha do seu filhote, mas não sou de confiança para entrar no seu clubinho exclusivo?
— Bervely, por favor.
— Exceto que você não quer que eu seja a madrinha do seu filho. Não de verdade.
— De onde tirou isso? — Remus perguntou, com aquela paciência forçada que só a empurrou mais para a borda da sua própria exasperação.
— “Dora tem bons argumentos” — Bervely fez aspas sarcásticas no ar. — Isso não é um sim, Lupin. Isso sequer é um “eu corcordo”, é mais um “eu estou indulgindo para evitar uma discussão com uma auror grávida e exausta”.
— Eu concordo que Dora tem bons argumentos. Mas, tem razão. Se eu pudesse escolher, você não seria a madrinha do meu primeiro filho. Lily Potter seria a madrinha do meu primeiro filho. E ironicamente, hoje eu precisei comparecer ao velório do filho dela. Então me desculpe se eu não estou exultante com as minhas opções, no momento.
— O “velório” de Potter — Bervely rolou os olhos. — Não me venha com essa desculpa, quando você sabe muito bem que ele está vivo.
— Perdão? — Os olhos de Remus cresceram com alarme. — O que você quer–
— Oh, não negue, eu o vi indo atrás dele, quando ele deixou a tenda no meio da choradeira de Hagrid. A questão é, o seu prezado Dumbledore confiou essa informação a você do mesmo jeito que Severus a confiou a mim. Sou eu quem tem feito a poção Polissuco de Potter esse tempo todo, e aguentando o choramingo dele por não poder usar o próprio corpo para saracotear por aí e se meter em problemas.
O rosto de Remus estava muito grave e perigoso agora.
— Severus não devia ter lhe contado nada disso.
— Meu ponto é, — Ela continuou, raivosa. — Ele confiou em mim! O suficiente para dividir um dos maiores segredos do seu clube, inclusive! E o guardei. Tenho guardado. O que mais eu preciso fazer para provar que eu sou–?
Ela parou de falar, as palavras ficando presas naquele caroço ainda entalado em sua garganta. Bervely esfregou o rosto de novo, os olhos pinicando, aquele sentimento ardente de agonia lhe roubando o ar.
— Eu confio em você — Remus disse, num tom carregado de pesar. — Não é por isso que não a quero na Ordem.
— Então o quê?
Ele considerou por outro longo momento se devia mesmo respondê-la. Algo no rosto dela o convenceu, por fim, por que Remus soltou um suspiro exasperado, as pálpebras caindo ao responder:
— Sirius me fez prometer.
— Sirius? — Ela arfou. Remus assentiu, os olhos apertados.
— Ele me implorou para não deixar você se envolver… não desse jeito. Você é a garotinha dele, Bervely. Ele não queria–
Ela soltou um sopro de incredulidade teimosa, os olhos ardendo.
— Isso é a coisa mais idiota– ele ia querer– ia querer que eu lutasse–
— Ele tinha medo de como você seria usada pelo nosso lado. Pelas suas habilidades, pela sua proximidade com Severus. Pela sua conexão com a sua mãe.
Bervely tocou o pulso esquerdo por reflexo. A rosa estava dormente nos últimos tempos. Mas é claro, ela sempre poderia chamá-la. Do outro lado, o outro extremo daquela conexão existia, esperando.
— Ele estava com medo de que eu fosse usada para espionar? — Bervely riu com acidez incrédula, uma mistura ácida em seu estômago.
— Ele achava que Severus estava lhe treinando com esse fim. Se juntar a ele ou… substituí-lo.
Não foi assim que eu planejei.
— Bem, Sirius estava errado. Severus nunca me treinou para nada do tipo. Ele me ensinou o que eu queria aprender. Poções. Alquimia. Comedimento.
— Talvez você esteja certa, mas eu não pretendo quebrar a minha promessa. Volte ao castelo, Bervely. Fique segura. Não se envolva, não faça nada impensado.
* * *
Bervely chegou ao castelo através da passagem e quando subiu pela entrada do Salgueiro Lutador, ainda estava espumando de raiva.
Fique segura. Não se envolva. Não faça nada impensado.
Como se ela pudesse! Como se isso fosse uma possibilidade! Como se houvesse um mundo em que ela já não estivesse envolvida, onde tudo estava quebrando, todo mundo sofrend–
— Ouch! — Ela ofegou quando alguma coisa dura bateu contra o seu rosto, a empurrando alguns passos erráticos para trás. Antes que ela pudesse reagir, outra a atingiu entre as suas costelas, fazendo-a cair de quatro no gramado. — O qu–?
Um galho do tamanho de um punho de gigante se aproximava, pegando impulso e velocidade para esmagá-la. Em sua enfurecida distração, ela tinha se esquecido de apertar o nó do Salgueiro Lutador com um feitiço para paralisá-lo, antes de emergir pela passagem.
Bervely só teve tempo de rolar para o lado e se encolher, o rosto entre os braços, e se preparar para o impacto.
O impacto não veio. Ela abriu os olhos, incerta, para o silêncio súbito. O salgueiro estava paralisado, o galho do tamanho da sua cabeça pairando há menos de um metro dela.
Um miado irritado anunciou a presença de Jinx, saltando do galho em questão e vindo até ela, a cauda prateada erguida no ar.
— Abençoados sejam os familiares — ela suspirou, se levantando para avaliar o estrago. O seu queixo estava dolorido, mas não sangrando. Havia um rasgo em seu casaco, mas nada que um reparo não desse conta… Jinx miou de novo, agudo, os olhos amarelos cintilando de urgência.
Alguma coisa estava errada.
— O que foi agora? — Ela perguntou, se levantando e vencendo o caminho até ele, as suas costas recém atingidas reclamando do movimento. No minuto em que tocou a cabeça prateada do gato, ele lhe mostrou Draco.
O rosto retorcido, agoniado, como estivera pela manhã. O corpo saltando, e então desaparecendo, nas águas do lago negro.
— Merda.
(Continua…)
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