A Canção de Morgana

56 Duas Serpentes (Parte 2)


Notas iniciais
Aviso de gatilho emocional: alusão à tentativa de suicídio. Se esse é um tópico sensível para você, leia com cautela (ou não leia – estou à disposição para enviar um resumo do capítulo, basta pedir nos comentários). No mais, para os que o lerão, Boa leitura!

Bervely seguiu Jinx na direção da casa de barcos, bordeando o lago negro onde ele se encontrava com as paredes mais externas de Hogwarts. Ela sacou a varinha do bolso, conjurando um lumus quando alcançaram a entrada exterior, cuidando para não tropeçar nos degraus obscurecidos pela sombra do castelo. Jinx chegou primeiro à rampa, a mesma em que os barcos dos primeiranistas atracavam em todo primeiro dia de setembro. Ele miou para Beverly, apressando-a.

Bervely o alcançou e encarou as águas escuras. Um estranho vapor pairava sobre a superfície, entre os dois pares de escada que levavam ao patamar de ancoragem.

— Ele está lá embaixo? — Bervely perguntou, ao mesmo tempo em que tirava o casaco e chutava os sapatos para longe. Lhe ocorreu que ela nunca tinha aprendido nadar. Ótima hora para ensinar a si mesma, supôs. — Jinx, o que exatamente…?

Antes que Bervely pudesse obter detalhes, o topo de uma cabeça partiu a superfície da água, acompanhando um chiado característico de calefação. O cabelo escurecido pela água cintilou, avermelhado sob o lumus de sua varinha. O rosto pálido e urgente de Gina Weasley se voltou para ela, a boca aberta sugando ar, os braços tentando puxar para cima alguma coisa grande e pálida.

— Me ajude!

Atrás dela, algo com vida própria se debatia — duas protuberâncias pontudas, a superfície coberta de couro brilhante em fogo vivo. Era o que estava queimando, transformando a água em vapor e chiando cada vez que se debatia.

— Ajud– ofegou a garota de novo, e submergiu de novo, como se puxada para o fundo do lago. Bervely derrapou para mais perto, tentando ver o quê estava tentando afogar Weasley. A cabeça ruiva surgiu de novo. Ao redor dela, água borbulhava e chiava. Dessa vez Bervely conseguiu ver os seus ombros, o uniforme da Grifinória colado ao corpo e a coisa inane e pálida que ela puxava para cima. Era Draco, preso à Weasley num abraço escorregadio, a cabeça pendendo para frente, inerte. Bervely teve um vislumbre melhor do que se debatia atrás de Weasley dessa vez; pareciam as asas de alguma criatura. — Me ajude! Eu não consig–

Ela sumiu de novo, em outra nuvem de vapor.

Bervely se ajoelhou na superfície da plataforma, o coração pulsando na garganta, a mão com a varinha apontada para onde Weasley e Draco tinham acabado de desaparecer, a outra espalmada na borda de pedra.

— Anda, Weasley! — Ela chamou entre os dentes. — Só mais uma vez…

A cabeça de Weasley voltou a aparecer, ofegante, puxando o corpo de Draco para cima com ela. Bervely mirou no par e exclamou:

— Serpentius Abraccio!

Uma corda espessa se materializou no ar e se enrolou em torno deles. Bervely conseguiu firmar a ponta na mão livre, impedindo-os de afundar de novo, os joelhos fincados no chão para impedir-se de ser arrastada com eles. — Finite Incantatem!

Ela apontou para a coisa atrás de Weasley, mas ela se moveu em sua luta para segurar Draco e o feitiço atingiu o garoto bem abaixo da garganta.

Antes que Bervely pudesse ajustar a mira e tentar de novo, o que quer que os estava puxando para o fundo relaxou o seu agarro. Weasley sugou o ar com alívio e dessa vez permaneceu acima da superfície. A corda relaxou na mão de Bervely. O par de asas às costas de Weasley começaram a abrir e fechar em sincronia, ainda silvando contra a água, e com a ajuda da corda Weasley se aproximou da beirada, Draco ainda em seus braços.

Bervely largou a varinha e usou as duas mãos para puxar Draco para cima, agarrando-o pelos ombros escorregadios. Weasley a ajudou, tossindo e ofegando, empurrando as pernas de Draco para a plataforma. Onde as mãos dela tinham segurado Draco — por todo o seu pescoço e sob a gola do uniforme esgarçado, Bervely viu marcas vermelhas, algumas com o formato dos dedos dela.

— Eu sinto muito–

Bervely deitou Draco de barriga para cima na plataforma. Ela bateu no rosto dele, tentando obter uma resposta.

— DRACO!

Atrás dela, Weasley começou a içar a si mesma para fora da água. A corda que Bervely conjurara em torno deles tinha se partido, carbonizada na parte em que tocara a garota. Bervely teve o primeiro vislumbre completo de suas… asas. Protuberâncias vermelho-escuras que se projetavam de suas omoplatas, cobertas por uma membrana que era mais couro do que pele, brilhante e acesa com uma fina, inexplicável camada de fogo-vivo a despeito de ela ter acabado de sair do lago.

Weasley engatinhou para Draco, sem fazer caso do par de asas ardentes em suas costas.

— Ele está respirando?

Ela estava prestes a tocá-lo, mas recolheu as mãos ao ver as queimaduras que espalhara por seu torso.

— Eu perdi a minha varinha, deve ter caído no lago–

Bervely recuperou a sua própria e a apontou para o peito de Draco:

Enervate!

O feitiço o atingiu no peito com a intensidade de um choque, sacudindo-o da cabeça aos pés. Depois de um segundo de irresponsividade, Draco girou para o lado e começou a tossir com violência, expelindo a água pelo nariz e boca.

Weasley caiu sentada ao lado dele, pálida e tremendo. A proximidade dela era como a de uma fogueira de acampamento; o mormaço ardia na pele descoberta de Bervely, em seu braço e no lado do rosto voltado para Weasley.

— Ele ia morrer — disse a garota num tom defensivo, com os dentes batendo. — Eu tive que tocar nele… eu não tive escolha.

As asas sacudiam nervosamente atrás dela, espalhando mais calor na direção de Bervely a cada batida.

— Ele vai viver — Bervely lhe garantiu. Draco parou de tossir e voltou à imobilidade, pálido como cera de vela, mas respirando. Bervely puxou a pálpebra direita dele para cima e apontou a varinha acesa. Ficou feliz em ver a pupila se contrair. Ela fez o mesmo para o olho esquerdo. — Ele vai ficar bem.

Ela caiu sentada sobre as pernas, permitindo-se respirar pela primeira vez desde que Jinx a encontrara sob o Salgueiro Lutador. A sua mão da varinha estava tremendo. Weasley a encarava, os olhos acesos como as asas atrás dela, as íris num âmbar em brasa, iridescente com faíscas de amarelo e vermelho. Bervely apontou a varinha para ela e a garota se encolheu.

— Só vou secar você.

— J-já estou secando.

É claro que ela estava. Provavelmente estava mais próxima de queimar do que de uma hipotermia. Bervely secou Draco e o cobriu com o seu próprio casaco, embora fosse um bom sinal que ele estivesse tremendo.

— Você vai começar a pegar fogo? — Bervely olhou de relance para a garota.

— Não — Weasley murmurou, esfregando os braços com vigor, como se pudesse dispersar melhor o calor daquele jeito. — Só preciso de um segundo.

— O que aconteceu? — Bervely exigiu, sem vontade de dar à garota em chamas nenhum segundo extra. — Quem fez isso com ele?

— N-ninguém — Ela engoliu, os olhos enormes e acesos. — Eu o vi pular na água e nunca voltou à tona. Achei que alguma coisa estava errada. Achei que a lula gigante…

— Não foi a lula-gigante — Bervely murmurou. — Ele foi azarado. O feitiço foi interrompido quando eu lancei Finite Incantatem.

— Não tinha mais ninguém aqui quando eu cheguei. Ele estava sozinho.

— Tinha você — Bervely estreitou os olhos para ela. — O que você está fazendo fora da cama tão tarde?

Weasley empalideceu mais um tom, suas sardas se destacando no rosto como uma constelação, as perturbadoras asas vermelhas se recolhendo às suas costas. Ela olhou de Draco para Bervely, então de volta para Draco, em conflito interno. Bervely viu a mudança em seu rosto quando ela decidiu falar a verdade.

— Eu estava procurando por ele. Ouvi o que aconteceu com Lucius Malfoy, queria saber se ele estava bem.

— Se o que está dizendo é verdade, você o salvou — ela disse a Weasley, quase com aborrecimento. A garota encolheu os ombros, as asas acompanhando o movimento.

— Se você não tivesse aparecido, nós dois teríamos morrido.

Bervely mordeu o interior das bochechas, pensativa. Olhando ao redor, procurando algum indício de quem poderia ter azarado Draco. Ela pegou o vislumbre de uma varinha sobre o primeiro degrau da escadinha que descia em direção ao lago, à sua esquerda.

Accio — ela chamou, e a varinha veio flutuando até a sua mão. — Essa é a sua…?

— Não. É de Dra– uh, Malfoy — disse Weasley, na mesma hora que Bervely reconheceu a varinha do primo. Com um mal pressentimento, Bervely apontou a sua varinha para a de Draco e usou um feitiço que tinha visto Sirius usar há algum tempo:

Priori Incantatem.

Uma linha azul-pálida espiralou da ponta da varinha de Draco: o fantasma do último feitiço que ele tinha lançado. O feitiço se enrolou em torno dos tornozelos de Draco, formando uma corrente, e sua extremidade se expandiu no formato de uma âncora, que flutuou na direção do lago, submergindo sem perturbar a superfície.

Uma azaração de afogamento.

O peito de Bervely afundou. Weasley franziu, o vinco de preocupação somando-se ao seu estado geral de perturbação. Bervely colocou a varinha de Draco no bolso e se levantou.

— Me ajude a levá-lo de volta para as masmorras. Acha que pode se livrar das asas?

* * *

Weasley não fazia ideia de como se livrar de suas asas.

— É a primeira vez que isso acontece — Ela confessou, numa voz mortificada. — Eu venho tendo dores nas costas, mas achei que era só mais um efeito colateral do que aconteceu comigo no verão.

Bervely tinha uma vaga noção do que Weasley estava falando. Ela se lembrava de Weasley pegando fogo durante um jogo de quadribol e carbonizando o goleiro da Sonserina, mas com todas as suas preocupações ela tinha pouco espaço em sua mente para as de uma grifinória piromaníaca.

Mas, asas… isso era um pouco mais interessante.

Bervely deixou Weasley lhe ajudar a carregar Draco, depois de garantir que ela não estava mais quente a ponto de queimá-lo – embora ela ainda emanasse o calor febril de uma pira acesa. Por sorte, o corredor que ligava a casa de barcos até as masmorras – passando por uma câmara onde os barquinhos com a bagagem dos alunos era descarregada pelos elfos — ficava fora do caminho de alunos e professores, e eles não foram interceptados até a porta de seu laboratório.

Bervely nem queria saber como explicaria à Filch – ou à McGonagall – porque ela estava circulando pela escola no meio da noite acompanhada de um sonserino inconsciente coberto de queimaduras e uma grifinória de asas agitadas.

— Na minha cama — Ela indicou a segunda porta, que levava aos seus aposentos, quando eles passaram pela primeira, a do seu laboratório.

— Eu não queria queimar ele — Ela disse pela terceira vez, pousando a cabeça de Draco cuidadosamente sobre o travesseiro, enquanto Bervely erguia as pernas de Draco para o colchão e o liberava dos sapatos. Sob a iluminação da vela perpétua em sua cabeceira, as queimaduras no pescoço de Draco cintilavam, frescas e rosadas em sua pele de pergaminho. — Quando eu fico nervosa, não consigo controlar meu… uh, fogo.

— Espere aqui — Bervely foi ao laboratório, e voltou munida com três frasquinhos de poções sobre uma bandeja de latão. Ela pousou a bandeja ao lado da vela, pescando o movimento inquieto das asas de Weasley pelo canto de olho. Elas projetavam grandes sombras pontudas na parede do quarto.

Bervely escolheu o frasco com uma poção amarelo-urina e ofereceu para a garota:

— Essa é para você. O gosto é tão ruim quanto parece, mas deve ajudar você a se, hum, se acalmar.

Weasley pegou a poção, a proximidade de sua mão aquecendo os dedos de Bervely. Bervely se sentou ao lado de Draco na beirada da cama e abriu o segundo frasco, que tinha pomada de ditamno.

Ela apontou a varinha para o peito de Draco e murmurou evanesco, fazendo a parte superior do uniforme desaparecer. O peito nu do garoto subiu e desceu devagar sob a luz quente da vela, as costelas visíveis e as bordas das cicatrizes do sectumsempra de Lucius se destacando na pele, três rasgos violentos cruzando o seu peito. Pelo canto de olho, Bervely viu Weasley abaixar os olhos para as mãos. Mas, nenhuma surpresa ao ver as cicatrizes apareceu em seu rosto.

— Como você sabia onde ele estava? — Bervely perguntou, voltando ao trabalho. Com a ponta dos dedos, ela começou a espalhar pomada pelas queimaduras rosadas, desde a base do queixo de Draco até onde a gola de sua camisa tocara.

— Hum. Eu já o vi na casa de barco, antes. Acho que ele vai lá para pensar.

— E você sabe disso porquê…? — Ela pressionou, colocando uma nota de sugestão em sua voz.

— Não é o que você está pensando — Weasley se empertigou, como se Bervely estivesse tentando ofendê-la.

— como sabe o que estou pensando? As suas asas vem com poderes legimentes? — Bervely zombou, inclinando a cabeça para a garota.

As bordas dos lábios contraídos de Weasley se torceram.

— Malfoy tem me ajudado a descobrir o que está acontecendo comigo. É só isso.

— Desde quando? — Bervely se lembrou que pegara uma breve troca de olhares entre os dois, na enfermaria, quando estivera lá tratando o seu pequeno caso de exaustão pós-produção da mata-cão para Nymphadora.

— Fevereiro. Temos nos encontrado na biblioteca. Exceto que hoje à noite, ele não apareceu.

— E o que, exatamente, acontece nesses encontros?

Podia ser imaginação de Bervely, mas ela achou que o ar estava esquentando de novo, na direção geral de onde a garota estava sentada.

— Pesquisa.

— Mais evasiva do que isso e você já pode seguir carreira na política.

Gina Weasley soprou com frustração, as asas envolvendo o seu ombro como uma capa protetora. Bervely teve receio de que o sopro de Weasley fosse virar fogo em contato com o ar.

— O que eu e Draco estamos fazendo não é da sua conta. Professora Black — ela completou, como se o uso do título fosse ajudar a remediar sua intransigência.

Um sorriso pequeno despontou na esquina da boca de Bervely. Draco. Mas o sorriso sumiu quando Weasley fez a sua próxima pergunta:

— Acha que ele fez isso consigo mesmo?

Bervely exalou devagar, pegando a terceira poção na bandeja – uma dose de elixir revigorante que ela mantinha para emergências – e desenroscou a tampa metálica.

— É o que vamos descobrir.

* * *

Bervely pretendia pedir a Weasley esperar no laboratório, mas antes que pudesse, a garota se levantou e deixou o quarto. Bervely a assistiu encostar a porta atrás dela, com o cenho franzido.

Então se voltou para o primo. Com uma mão, ela pressionou a parte macia das bochechas dele, fazendo os lábios muito brancos de Draco se separarem. Com a outra, despejou o elixir revigorante em sua boca — uma substância escura e aquosa que lembrava uma bebida trouxa feita à base de cola e açúcar e que, de acordo com alguns nascido-trouxas de sua turma do sétimo ano, também cheirava como uma.

Um tom pálido de rosa floresceu nas bochechas de Draco e ele abriu os olhos poucos segundos depois. Primeiro ele piscou, confuso sobre onde estava e como, então a expressão de seu rosto mudou para agitação, os olhos se alargando, os lábios se afastando, as mãos saltando do colchão para agarrar-se ao lençol embaixo dele para impulsioná-lo sentado.

— Você está a salvo — Ela o assegurou, colocando uma mão em seu peito, impedindo que ele se levantasse.

Draco não achou força para lutar contra a pressão de sua mão e caiu de volta sobre o travesseiro. O rosto contraído, ele esfregou a garganta, que devia estar ardendo depois do violento acesso de tosse para expulsar o restante de água do lago que tinha engolido.

— O que aconteceu?

Silêncio. Ele evitou o seu olhar, a expressão ainda contraída e incomodada em seu rosto.

— Quem azarou você?

Draco apertou os olhos, como se a pergunta espetasse as suas costelas.

— Ninguém — ele disse para o teto, a voz rouca, quase inaudível.

Bervely pegou a varinha dele e a suspendeu para a linha de visão do primo.

— O feitiço que o atingiu foi lançado da sua própria varinha.

Devagar, Draco se virou para ela, um desafio em seus olhos. Um desafio novo e afiado, que Bervely nunca tinha visto no rosto dele. Mas, um que ela já tinha visto no espelho.

Draco.

Draco voltou a fitar o teto com insistência ferrenha. Como se, caso ele desviasse os olhos da cobertura talhada em arcos ásperos de pedra escura acima deles, tudo fosse desabar. Nas bordas vermelhas dos olhos de Draco, acima de seus cílios quase brancos, Bervely viu uma fina camada de lágrimas se acumular. As mandíbulas dele estavam firmemente trancadas, e quando ele respondeu, a voz soou como o rosnado de um animal acuado.

— Você não tinha nada que se meter.

Bervely não disse nada – nenhuma recriminação, nenhuma discordância, nenhum argumento lhe ocorreu. Ele continuou, na mesma voz baixa e quebrada de antes. Como se não importasse que ela o tivesse puxado do fundo do lago – ele ainda estava lá, de alguma forma, o peso do mundo inteiro o pressionando para baixo.

— Ele vai vir por mim, Bervely. O Lorde das Trevas.

Ela fez um esforço para encontrar a própria voz. Para a sua surpresa, também soou submersa.

— O que o faz dizer isso?

Com os movimentos lentos, Draco enfiou a mão no bolso da calça e tirou lá de dentro algo pesado e prateado. Bervely reconheceu Duas Serpentes, o anel que Lucius usara o tempo inteiro, em vida.

O anel que Draco tinha jurado aos aurores que não sabia onde estava.

— Meu pai me mandou, há alguns dias. Devia saber… que algo estava prestes a acontecer com ele.

— Eu pensei que vocês não estavam em contato.

Draco encolheu os ombros um milímetro. O movimento fez o seu rosto se franzir.

— Não estávamos. Ele só mandou o anel, por Calíope. Mas, não precisava ter escrito nada, eu sei o que o anel quer dizer. É a minha vez.

— A sua vez…? — Bervely encorajou, a voz baixa. Ela afastou uma mecha de franja seca e rígida da testa dele com a ponta dos dedos. Draco não reagiu ao toque.

— Amanhã, quando eles fecharem a escola e eu for mandado de volta para casa, o Lorde das Trevas virá cobrar o meu serviço. Vou ter que receber a Marca. Continuar o que Lucius começou.

— Draco– ela chamou, apertando os olhos para o tom de finalidade do garoto. Draco balançou a cabeça em negativa, voltando a fechar a mão em torno de Duas Serpentes.

— Eu tentei escapar, mas parece que nem isso eu consigo fazer direito. Muito obrigado, à propósito.

Com um último olhar de ressentimento, Draco rolou sobre o ombro, se virando de costas para ela. Bervely assistiu as suas costelas se expandirem e contraírem com a respiração superficial. Afogamentos acidentais cobravam um preço alto para qualquer corpo. Afogamentos propositais por auto-azaração eram ainda mais caros. Em poucos segundos ele adormeceu de novo.

Adormecido, ele se parecia mais com o garotinho que ela vira crescer pelos corredores da Mansão; com o qual ela crescera. O pirralho que roubava a sua varinha e escondia nos recantos da casa, que insistia para Hector contar a mesma história de piratas um trilhão de vezes, que “esquecia” a sua coleção de escamas de dragão na cama dela de propósito para enlouquecê-la.

Bervely pensou em Narcissa, que não queria que o seu filho virasse um servo do lorde das trevas. Narcissa, que tinha dado a vida tentando evitar que aquilo acontecesse.

* * *

Weasley ainda estava em seu laboratório quando Bervely retornou; ela pegou a garota espiando para dentro de um caldeirão em fervura lenta sobre a bancada, as asas ondulando suavemente atrás dela.

— Isso é… o que é isso?

— Se eu lhe contar, terei que lhe obliviar — Bervely bateu os olhos na outra ponta da bancada e achou o frasco da poção que dera a Weasley intocado. — Você devia beber isso.

Weasley se afastou do caldeirão, olhando em direção à porta do quarto de Bervely.

— Como ele está?

— Dormindo.

Bervely foi até o seu armário de poções para uso pessoal, o destrancou usando o feitiço-contra senha e começou a procurar entre os fracos.

— Foi mesmo ele que se… — Weasley começou, mas pensou melhor e se interrompeu. — Eu não quero me intrometer. Só estou preocupada.

Bervely achou o que estava procurando – um frasquinho de cristal arrolhado, com poção branca-perolada que Severus lhe deixara. O guardou no bolso e olhou para Weasley por cima do ombro.

— Draco sempre foi fascinado por dragões.

A informação devolveu um pouco da coloração avermelhada às bochechas da garota, mas de novo, ela não pareceu surpresa.

Bervely abriu uma das suas muitas gavetas de instrumentos de alquimia e pegou três tubos longos e finos, feitos de cristal. Cristal era o tipo de material apropriado para guardar componentes reativos, e ela não queria arriscar nenhuma corrupção do que pretendia guardar ali dentro.

— Quando a sua transmutação começou? — Ela se virou para Weasley, que ainda estava circulando pelo laboratório, espiando entre os seus projetos em andamento, livros abertos sobre a bancada, e anotações que Bervely não se importava se fossem lidas, a maioria relativas ao seu trabalho na escola.

— A minha… o quê?

— Não é possível que vocês dois ainda não tenham chegado à essa conclusão, se estão fazendo tanta “pesquisa”. Você foi mordida por um dragão e agora está soltando fogo pelas ventas e criando asas de aparência bastante draconídea.

— Isso não– não há nenhuma evidência que eu–

— Tem alguma relação com o ciclo lunar? — Bervely quis saber, guardando os frascos de cristal no outro bolso das vestes.

— O quê? Não! Não estou virando lobisomem.

— Mas transmutações bestiais seguem padrões semelhantes, não seguem? — Bervely franziu, dando de ombros. — De toda forma, é melhor você voltar ao seu dormitório. Não tenho tempo para a papelada, se algum professor encontrar você aqui.

— voltar assim? — Ela fez uma indicação às asas ainda pregadas às suas costas. — Além do mais… estava querendo… — Ela sacudiu a cabeça, como quem quer se livrar de uma ideia absurda. — Não, é claro que não. Tem razão, é melhor eu ir…

— Espere — Bervely acabara de ter uma ideia. Ela se voltou para o seu arsenal de poções e achou outro frasco – esse azul iridescente, com partículas brilhantes flutuando em seu interior. Ela entregou a poção para Weasley. — Fique com Draco até eu voltar. Se ele acordar de novo, pode oferecer um gole dessa poção.

— O que é? — A garota observou com fascinação desconfiada o líquido luminoso, o brilho refletido em seus olhos, que enfim tinham parado de arder e retrocedido a um tom castanho bem mais humano.

— Se chama Neverland. Vai levá-lo a qualquer lugar que ele quiser. Como um sonho, só que intencional — Ela hesitou, então acrescentou — Se você beber um gole logo em seguida, pode ir com ele. Se ele quiser companhia.

Ela piscou, dando-se conta do resto do que Bervely tinha dito:

— E para onde é que você vai?

— Resolver isso — ela indicou o rosto na direção de Draco, dentro do seu quarto.

* * *

Bervely inspirou três vezes do frasquinho de Amnésia, seguindo as instruções que Severus lhe deixara junto com a poção. Uma inspiração para Potter, uma para Sirius, uma para Regulus. Três lembranças que poderiam gerar resultados catastróficos se caíssem em mãos erradas. Uma vez exaladas dentro dos tubos de cristal, arrolhados com magia, elas foram parar em seu porta-joias, trancado com um feitiço de reconhecimento sanguíneo.

A poção deixou uma sensação pungente de ardor no fundo dos seus olhos, como se ela tivesse tomado sorvete rápido demais. Bervely apertou os olhos, tentando afastar a sensação e se lembrar do seu próximo passo.

Ah, isso.

Ela foi até Draco, ainda dormindo pesado em sua cama. Bervely imaginou se Remus consideraria o que ela estava prestes a fazer como algo impensado. Provavelmente. Mas para Bervely, não havia o que pensar. Certas coisas precisavam ser consideradas com cuidado, outras eram óbvias desde o princípio.

Bervely abriu os dedos gelados de Draco e recuperou Duas Serpentes, alojando-o no bolso das suas vestes. Esperou que o anel protestasse ao ser afastado do seu dono– não ficaria surpresa se as duas cobras entrelaçadas criassem vida e tentassem lhe picar– mas nada aconteceu. Draco ainda não o clamara como seu mestre, ela supôs. Pequenas vitórias.

Ela deixou os seus aposentos sob o olhar desconfiado de Weasley, e cruzou a curta distância de corredor até os de Severus, cruzando a sala de aula escura, os seus passos ecoando alto no vazio. Ela tentou ignorar os resquícios do cheiro dele impregnados no aposento– um cheiro que ela sentira recentemente mas não sabia exatamente onde. Bervely usou uma das paredes do quarto de Severus para abrir a porta da estufa, espetando a maçaneta de rosa na superfície fria.

A estufa estava como Bervely a deixara da última vez – paredes espessas de sujeira, vinhas retorcidas escalando as estruturas metálicas de sustentação, chão batido de terra escura, revolvido por uma ou outra raiz morta. A mesa na qual Bervely passara noites a fio debruçada sobre um caldeirão, tentando adaptar mata-cão para Nymphadora no mês anterior, também estava coberta de poeira espessa. Um ou outro inseto rastejante circulava por entre os vasos de plantas secas, e uma série de teias peroladas pendiam do teto, lembrando fios de seda à luz da lua.

Bervely puxou a barra da manga esquerda de suas vestes até o cotovelo, revelando a rosa negra em seu braço. A tocou com a ponta do dedo, acariciando as pétalas fechadas. Elas responderam se abrindo, preguiçosas.

Bervely tentou visualizar Bellatrix do outro lado daquele laço. Dormindo? Torturando inimigos? Se ajoelhando aos pés do lorde das trevas e lambendo os seus sapatos?

Precisamos conversar.

Bervely esperou, invadida de uma estranha calma. Talvez ela só estivesse cansada demais para se sentir apreensiva. Talvez a sua calma fosse a consequência de saber que estava fazendo a coisa certa. A única coisa que ela podia – e precisava fazer – naquelas circunstâncias. Resgatar Draco do fundo do lago, tentando dar um fim à própria vida, tinha que ser a gota d’água. Por que se não fosse, o que vinha depois?

Bellatrix estalou para existência dentro das masmorras com tanta prontidão que Bervely pensou que talvez a mãe fosse um produto de sua mente (afinal, já acontecera antes). Mas quando ela pousou seus olhos sobre a comensal da morte mal-iluminada pela lua crescente, soube que aquela tinha que ser a Bellatrix real. Encharcada da cabeça aos pés de sangue espesso e escuro, cujo cheiro ardeu nas narinas de Bervely em dois segundos da sua chegada. Sangue fresco. Um corte fresco do lado direito do rosto, da sua têmpora ao queixo, também não poderia ter sido uma criação da sua imaginação. O cabelo revolvido se agarrava ao pescoço e rosto em grumos espessos de sangue. Bellatrix arfava, os olhos arregalados, o peito subindo e descendo rápido, a varinha empunhada na mão esquerda como uma faca, apontando para o chão.

Bervely abriu a boca, formulando a pergunta… e percebeu que não sabia o quê perguntar.

— Em que posso ser útil, criança? O seu chamado me pegou em meio a algo importante.

Apesar do corte em seu rosto, que não parecia ser a fonte de todo aquele sangue, e da interrupção, ela parecia estar em ótimo humor. Ao menos, era o que o brilho homicida em seus olhos indicava.

— Eu percebo — Bervely engoliu uma onda de náusea, tentando respirar pela boca. O cheiro metálico e pungente impregnando a estufa levou-a de volta à noite em que ela tivera de produzir um caldeirão de poção repositora de sangue para salvar a vida de Draco, e de todo o sangue que ele deixara impregnado nos carpetes de Grimmauld Place antes que Severus consertar os rasgos em seu peito.

A lembrança a firmou em seu propósito.

— Eu desejo uma audiência com o Lorde das Trevas.

Um sorriso infectuoso se alastrou no rosto de Bellatrix, retorcendo o corte em seu rosto.

— Já não era sem tempo.

* * *

Bellatrix se afastou para o ponto mais distante da estufa e desvelou o próprio braço, tocando o que Bervely supunha ser a Marca Negra com a ponta da varinha. Bervely assistiu a mãe sussurrar para a marca, e embora as respostas do Lorde das Trevas fossem inaudíveis, Bervely podia sentir a presença dele através de sua ligação com Bellatrix, como uma vibração perversa em seus nervos.

Parte dela ficou surpresa por Bellatrix não perguntar o que ela queria discutir com o lorde das trevas – a outra parte, muito grata. Bellatrix provavelmente estava assumindo coisas, e Bervely não estava ansiosa para contradizê-la. Uma parte substancial dela não queria estragar o bom humor da comensal da morte ao lhe informar que seu sobrinho acabara de tentar tirar a própria vida, por medo de ser recrutado pelo seu amado mestre.

Bellatrix voltou. Ela estava mancando ligeiramente, embora não demonstrasse nenhuma dor. Mesmo na terra escura, o rastro de sangue que ela deixava era evidente. Bervely tinha achado que todo o sangue não era dela, mas agora não tinha tanta certeza.

— Milorde nos aguarda. Eu nos aparatarei até ele — Bellatrix a informou, oferecendo o braço esquerdo. Bervely hesitou, erguendo o cenho para a manga das vestes empapadas. A comensal rolou os olhos com indulgência — É apenas um pouco de sangue de um gigante, Beverly. Não vai lhe arrancar nenhum pedaço.

Certo, Bervely pensou, um aperto de repulsa na base da garganta. Lutando contra o sentimento, ela fechou a mão no antebraço da mãe e tentou ignorar a sensação do líquido escorregadio, ainda quente, sob os dedos.

A última — e única — vez que tinha feito aparatação conjunta com Bellatrix, fora antes da comensal ser levada para Azkaban, no curto período em que vivera com Bellatrix em Blackburn Hall. A lembrança clicou no fundo de sua mente e Bervely a deixou morrer, percebendo que não conseguia se lembrar do resto. Onde elas tinham ido? O que tinha acontecido?

— Pronta? Ao contrário do que possa pensar, não tenho a noite toda.

Bervely pensou em perguntar se Bellatrix estava em condições de liderar uma aparatação conjunta, mas percebeu que preferia estrunchar do que levantar a questão.

Ela apertou os lábios e assentiu, o cheiro do gigante que parecia ter explodido sobre Bellatrix enrolando o seu estômago. Sua mãe se virou para ela com um sorriso sangrento e com um pop suave, as duas desaparataram.

* * *

Ressurgiram no interior de massivos portões de ferro, tão enferrujados e enrolados com hera que não deviam ser abertos há muitas décadas. Ao firmar os pés e se virar para dar uma olhada neles, Bervely ficou chocada ao perceber que se lembrava deles.

— Eu já estive aqui antes. Foi aqui que você me trouxe quando… — Ela se calou ao perceber que duas sombras escuras se aproximaram delas pelo único caminho visível, no meio de um emaranhado de mato espesso que um dia deveria ter sido um jardim. Bervely pescou o cintilar de suas máscaras idênticas, metálicas e decoradas para se parecerem com caveiras estilizadas, as bocas costuradas e rasgos estreitos no lugar dos olhos.

— Suba o seu capuz — Bellatrix mandou, a varinha já em punho.

Com um vislumbre do canto de olho, ela viu que Bellatrix tinha conjurado a sua própria máscara de comensal. Mas antes que absorvesse qualquer detalhe, Bellatrix deu um passo à frente para ficar entre ela e o par que se aproximava.

— O lorde das trevas está nos aguardando.

— Não recebemos nenhum aviso — Uma voz feminina crocitou do interior da máscara à esquerda. — Você deverá esperar aqui para ser anunciada.

— E uma parasita como você vai me anunciar— Bellatrix retorquiu com desprezo. Com um aceno de sua mão, a máscara se dissolveu para revelar seu rosto.

— Lestrange — a comensal encapuzada recuou, se retirando rápido do caminho. — Eu não a reconheci pela voz. O que aconteceu com seu rosto?

— Nada que eu pretenda compartilhar com a sua laia. Vamos — ela fez um aceno para Bervely, que a seguiu em passos rápidos, passando pelos dois comensais com a cabeça baixa. Bellatrix voltou a resmungar quando estavam longe do alcance. — Gêmeos insuportáveis. Carregando a marca negra, como se prestassem para algo mais do que cães de guarda.

A mansão mais adiante estava caindo aos pedaços — quase toda superfície estrangulada por hera escura e ressecada, profundas rachaduras nas estruturas visíveis. Bervely tinha uma vaga lembrança do lugar, quando o visitou em sua infância, mas em sua lembrança não lhe parecia que a construção estava prestes a desabar ou ser devorada por uma infestação de heras perniciosas. Sem falar na diversidade de vidraças quebradas e no mato na altura da sua cintura, a cada lado do caminho.

Um par de ratazanas do tamanho de esquilos cruzaram o pavimento, seus corpos roliços surgindo rapidamente sob a luz da varinha de Bellatrix antes de se embrenharem de volta à vegetação. Bellatrix apontou a varinha e explodiu uma delas com impaciência, a meio caminho da porta. Bervely franziu para o guincho agudo e o ruído aquoso que seguiu o feitiço.

— Eu ouvi sobre a captura de Lucius — Bervely disse por sobre o estalar dos seus passos e o raspar das patinhas dos ratos perdidos no escuro, agitados pelo assassinato de um dos seus. — Ao que parece, os dementadores o encontraram antes dos aurores.

— Tenho pena do dementador que precisou deglutir a alma daquele verme — bellatrix retorquiu em tom de escárnio.

Bervely teria concordado, mas algo entre Bellatrix coberta de sangue e o seu iminente encontro com o lorde das trevas estava azedando o seu humor.

A comensal a espiou pelo canto do olho quando alcançaram a porta do casarão. Não estava guardada com comensais, mas havia uma perceptível camada de magia impedindo a sua aproximação.

— Afaste-se.

Bervely obedeceu, recuando alguns passos, e observou Bellatrix puxar as mangas grudentas de sangue das vestes e revelar os antebraços pálidos, igualmente rajados de vermelho. O direito decorado com a rosa negra, o esquerdo com a marca da caveira de Voldemort. Ela fez movimentos complexos com as mãos, a direita segurando a varinha, a esquerda estendida no ar, a palma virada para a porta. Magia amarela-quente reluziu da ponta da varinha e foi absorvida pela maçaneta. Do ângulo em que estava, Bervely viu a serpente deslizar para fora da caveira e dar uma volta completa em torno do braço de Bellatrix, abrindo a boca e estendendo a língua bifurcada.

Bellatrix tocou a fechadura. A cobra escura de tinta deslizou pela sua mão, se enrolou na maçaneta e a destrancou com uma série de cliques agudos que lembravam o chocalho de uma cascavel. Ocorreu à Bervely que a Ordem da Fênix teria adorado obter aquele tipo de informação. Bem, eles tinham perdido a sua chance, não tinham? Se não a queriam em seu clube…

A porta soltou um clique final e se abriu, pesada e rangendo com a dor de anos de ferrugem. A cobra se retraiu para o antebraço de Bellatrix e voltou a se enrolar na caveira.

Bervely acompanhou Bellatrix para dentro da casa. Um corredor longo e escuro depois do outro, seus passos ecoando no vazio, como se o lugar não tivesse paredes. Ou ainda, como se as paredes fossem todas ocas.

O cheiro de umidade e decadência, de decomposição lenta e abandono, se misturou ao cheiro metálico amargo que emanava de Bellatrix. Havia menos ratos do lado de dentro que fora, mas as aranhas… Bervely inclinou a cabeça e teve dificuldade de ver o teto através do emaranhado espesso de teias que o adornava, até onde a vista podia alcançar.

— Adoro o que ele fez com a decoração.

Bellatrix lhe ofereceu um olhar atravessado por cima do ombro, com uma nota de irritação que Bervely não achou que fosse dirigida à ela.

— Milorde não pode modificar a aparência da casa.

— Não pode, ou não quer?

— É uma longa história.

— Adoraria ouvir a versão longa qualquer dia desses.

Bellatrix a ignorou enquanto subiam as escadas. Bervely usou de cautela para escalar os degraus, sem confiar que um deles não ia ceder sob o seu peso e absorvê-la para as profundezas ocas daquela construção horrorosa. Quando chegou ao primeiro patamar, Bellatrix a deteve.

— Me dê a sua varinha — Ela estendeu a mão branca, rajada de sangue seco, na direção de Bervely, que franziu.

— Para quê?

— Como um sinal de boa vontade, Bervely.

— Eu estou aqui, isso não é sinal de boa vontade suficiente?

Mas Bellatrix manteve a mão estendida e Bervely entregou a sua varinha a contragosto.

— Espere aqui.

Bellatrix sumiu pela única porta da qual vinha alguma luz, no fim de mais um longo corredor decorado com guirlandas de teias de aranha no teto. O chão estava coberto de pedaços de branco e quebradiço que, em uma inspeção mais cuidadosa, Bervely percebeu que eram ossos de ratos.

Ao menos, ela esperava que fossem ratos.

Uma vez na casa do Lorde das Trevas, sozinha e desarmada, ocorreu a Bervely que ela deveria ter pensando em um plano B para sair dali viva, caso o Lorde das Trevas ficasse ofendido com a sua oferta.

Então ela se lembrou de que aquele era o Lorde das Trevas. Qualquer plano B seria arrancado de sua cabeça antes que ela pudesse dizer virgardium leviosa, e talvez o próprio atrevimento de visitá-lo com um plano de fuga na manga lhe pareceria ofensivo.

Para se acalmar, Bervely colocou a mão no bolso das vestes e fechou os dedos em torno de Duas Serpentes. O metal do anel continuava gelado – não importava o quanto ela o esquentasse com o seu toque. Draco estava certo sobre uma coisa — Lucius tinha enviado o anel para Draco por um motivo óbvio. Quem controlava Duas Serpentes, controlava o espólio Malfoy. Não só o cofre do banco, mas o restante – a parte que importava.

Bellatrix voltou ao corredor, uma serpente da largura de um tronco de árvore ondulando no chão ao seu lado.

— Nagini vai acompanhá-la — Bellatrix anunciou, uma dureza em seu queixo que não tinha estado lá antes. Bervely hesitou. Nagini era grande o suficiente para esmagar todos os ossos do seu corpo, se decidisse lhe confundir com o lanche da madrugada.

— Você não vem?

— O Lorde deseja falar com você a sós — Não havia nenhuma inflexão em sua voz, mas um aviso queimava em seus olhos negros. Era uma pena que Bervely não soubesse que tipo de aviso. Se comporte? Não me decepcione? Não comente nada sobre as teias de aranha?

— Muito bem, então — Bervely pigarreou, ajeitando um vinco invisível em suas vestes e dando um passo adiante, bem consciente da cobra lhe aguardando. Bellatrix cravou as garras em seu braço quando ela passou e sussurrou em seu ouvido:

— O lorde das trevas só oferece uma chance. Não a desperdice.

* * *

A porta dava para uma sala ampla, híbrida de biblioteca e escritório e esparsamente mobiliada com peças sóbrias que se perdiam na escuridão. Um carpete que se desfazia em pó sobre um assoalho em estado avançado de abandono, e mais das pequenas pilhas de ossos se acumulavam nos cantos em que os olhos podiam alcançar. A única fonte de luz era uma lareira à esquerda, acesa apesar da temperatura amena do lado de fora. Perto do fogo, uma massiva poltrona esculpida em madeira e revestida em couro luzidio e brocados. Era lá que o lorde esperava, obscurecido pelo halo de fogo crepitando às suas costas.

A cobra passou por Bervely e foi se enrolar aos pés de Voldemort, a cabeça hexagonal se erguendo à altura de seus joelhos. Voldemort esticou uma mão e acariciou o focinho do seu anfíbio monstruoso, os olhos cintilando na direção de Bervely, um par de brasas tão vermelhas quanto as chamas.

— Bervely Black… Bella duvidou que você viria. Queria forçá-la, arrastá-la à minha presença — Ele sibilou, a voz serpentina machucando os ouvidos de Bervely. Ele fez um aceno com a mão na direção dela, um sorriso sem lábios no rosto branco. — Eu disse a ela que não havia necessidade. Aqui está você, nem um minuto mais tarde do que previ.

Aqui estou eu, Bervely ecoou, a mente vazia para além daquele pensamento. Ela entendia porque as pessoas tinham medo de Voldemort. Ele emanava uma aura sufocante de poder, dos olhos ardentes até o sorriso maníaco, que mais parecia uma maldição se abrindo em seu rosto semi-humano. Mas quando ela procurou medo em si mesma, não encontrou nenhum medo dele. Suas mãos estavam geladas e seu coração estava disparado, mas não porque achava que ele ia machucá-la. Ela estava com mais medo do que aconteceria se ele não conseguisse convencê-lo.

A coisa no rosto do Lorde das Trevas, que não era um sorriso mas algo pior, se alargou mais diante da hesitação dela.

— Me parece que você tem algo a dizer? Não se acanhe — Ele sibilou, e Bervely perguntou se ele já estava lendo a sua mente. Ela virou o rosto para o fogo, evitando contato visual.

— Eu vim negociar a liberdade do meu primo — disse Bervely, sem necessidade para rodeios. Agora que ela estava ali, se achou ansiosa para ir embora. Os olhos de Voldemort cravados em seu rosto, sua expressão de suave divertimento, o calor opressivo da lareira acesa… tudo isso resultava em muito pouco ar respirável no cômodo. — Draco não tem mais interesse em ser um comensal da morte.

— Ele não tem mais interesse — O Lorde estalou, admirado.

Não, pretensamente admirado. A entonação de sua voz, os movimentos lentos e deliberados de Voldemort, tudo parecia calculado, executado para alguma plateia imaginária. Até o jeito com que ele pronunciava cada palavra, saboreando as letras e chiando os sons, passava a impressão de que queria ser compreendido todo o caminho até a última fileira de um anfiteatro imaginário.

— Eu receio, Srta. Black, que as coisas não funcionem desse jeito.

Bervely umedeceu os lábios, a mão se apertando em torno de Duas Serpentes. Voldemort captou o movimento e baixou os seus olhos vermelhos para a mão oculta dela.

— E o que temos aqui? Você me trouxe um presente, Bervely?

Ela não gostava do som do seu nome na voz dele. E como ele fez a palavra presente soar obscena, como se esperasse que o presente em questão fosse o coração sangrento de algum inimigo, ainda pulsando.

Bervely retirou o objeto do bolso e mostrou sobre a palma aberta, cada pêlo do seu braço se arrepiando quando os dedos se abriram.

— É o anel de Lucius. Ele lhe dará acesso ao espólio Malfoy. A Mansão, a casa da Normandia, o cofre secreto–

— Sim. Um artefato valioso — Voldemort anuiu, os olhos cintilando com brando interesse, a mão voltando a acariciar a cabeça da cobra, que tinha pousado o queixo em seus joelhos e observava Bervely maliciosamente, fome nos olhos miúdos. — Mas que não substitui o serviço de um servo fiel e bem disposto.

Ela tinha esperado que o lorde das trevas trouxesse o assunto à tona.

— Draco não é como o pai. Ele não é — Ela pressionou os lábios, procurando as palavras certas — capacitado para serví-lo, como Lucius era.

— Oh, nisso precisamos concordar — Voldemort sibilou, os olhos ofídicos se estreitando com calculada irritação. — Draco tem feito um péssimo serviço. Quase me convenceu de que está agindo contra mim, tamanha a sua incompetência. Se Bella não tivesse intercedido tantas vezes pelo garoto, eu já o teria entregado para Nagini. Ela se contenta com roedores, você vê, mas o seu tipo de refeição preferida é gente incompetente e obtusa.

Bervely tentou não demonstrar surpresa. Bellatrix tinha intercedido por Draco? (Ela escolheu ignorar o adendo sobre a cobra, antes que uma imagem mental se formasse).

— Oh, sim, ela intercedeu — Voldemort suspirou, assentindo, os olhos de volta para ela, uma nota de tédio em sua voz. Ele estava lendo a sua mente? — Bella está convencida que Draco ainda pode se erguer à altura, dada a oportunidade.

— Ela está errada — Bervely disse, os maxilares apertados. — Ele é só um garoto. Ele é covarde, fraco e sem ambição. Se insistir em forçá-lo ao seu serviço ele fará um servo medíocre, na melhor das hipóteses.

Dessa vez, quando Voldemort sorriu, Bervely teve um vislumbre dos seus dentes pequenos, amarelados e afiados, nas profundezas profanas de sua boca sem lábios. Ela resistiu a expressar em seu rosto a sua repulsa.

— E quanto à você, minha cara? Que tipo de serva se mostraria, dada a oportunidade?

Bervely apertou mais os seus dentes, encarando o fogo com firmeza.

— Eu vim aqui para negociar a liberdade de Draco. Isso não tem nada a ver comigo.

Voldemort a observou longamente. Bervely tentou blindar a sua mente contra a invasão dele o melhor que podia. Legilimência era suposta a exigir contato visual, mas ela estava bem ciente de que Voldemort era um legimente poderoso – talvez o mais poderoso que existia. Ela podia sentir a presença dele suspensa no ar e em seus nervos, algo como eletricidade estática, se eletricidade causasse aquela sensação lenta de sufocamento.

— A sua tia, Narcissa… meus pêsames, à propósito — ele disse, ao ver a contração no rosto de Bervely. — Narcissa também veio à minha presença, interceder por Draco. Mas, ao invés de me fazer uma contra-oferta interessante, ela intercedeu pela minha piedade. A minha piedade, acredita? Ah, Narcissa.

Bervely fez força para não pensar em Narcissa, sem querer ser inundada pela miríade de sentimentos que atrapalhariam a sua negociação com o Lorde das Trevas. Ela voltou a apertar Duas Serpentes na palma, as caudas e cabeças de prata fazendo pressão em sua pele até o limite da perfuração, a dor afiada ajudando-a a manter o foco.

Ela já tinha negociado com demônios antes. No fim, tudo era uma questão de preço. Bervely se aprumou, suas narinas inflando ligeiramente quando respirou fundo o ar pernicioso do recinto.

— Se Duas Serpentes não basta, o que mais você quer para deixar Draco em paz?

O Lorde das Trevas voltou a sorrir. Ela gostaria que ele parasse com isso. Fazia as suas entranhas se enrolarem em nós apertados de repulsa.

— Eu já disse a você. Para mim, a lealdade de um servo é muito mais valiosa do que as suas propriedades. Além disso, sem um Malfoy para gerir o próprio espólio, o anel que me oferece é mais uma dor de cabeça do que uma ferramenta útil.

— Draco não vai receber a sua marca. Na verdade, eu suspeito que ele prefere morrer do que ocupar o lugar de Lucius.

A verdade amarga vibrou em sua voz e acendeu um novo interesse no rosto de Voldemort. O Lorde das Trevas se levantou, Nagini deslizando do seu colo como água e se enrolando aos seus pés. Ele veio até Bervely, que se descobriu com dificuldade de se mover. Não que ela não pudesse, estava só… impelida a ficar parada. Como se o seu corpo não soubesse como reagir à aproximação de algo como ele.

Quando chegou perto o suficiente, Voldemort fez um aceno vago em direção ao seu braço esquerdo.

— Se importa? — E sem esperar que ela respondesse, agarrou o seu pulso entre os dedos longos e o suspendeu à altura dos olhos, deslizando a manga de suas vestes para baixo. A rosa se enrolou e se contorceu sob o toque gelado e inesperadamente suave de Voldemort.

Ele estudou com interesse a marca que havia feito há tanto tempo em seu braço, atando-a magicamente à Bellatrix.

— Coisinhas instáveis, não são? Eu estava quase certo de que essa aqui a mataria, dada sua pouca idade quando a conjurei em seu braço. Chegou perto, não foi? Bellatrix me contou. Cinco dias de cama, em delírios de febre e agonia.

Bervely tentou puxar o braço do seu aperto e descobriu que, apesar de sua suavidade, era como um grilhão de ferro ao redor do seu pulso.

— Você pensa que está aqui por causa de Draco — Disse Voldemort, a proximidade eriçando todos os alarmes primordiais do sistema nervoso de Bervely. — Mas você está aqui porque me pertence, Bervely. Eu nunca me dei ao trabalho de trazê-la até mim, porque eu sabia que viria quando estivesse pronta. Severus me manteve atualizado sobre os seus avanços. O seu controle sobre a sua metamorfomagia, os seus feitos em alquimia. Habilidades que se desenvolveram mesmo sem a intervenção de um de nós, e apesar da influência da gente imunda com a qual tem se relacionado. O potencial que eu senti emanar de você, quando estava no útero da sua mãe, se provou verdadeiro, a despeito do pouco controle que ela teve em sua criação. Tudo isso é prova de que eu estava certo– você voltou para mim e continuará voltando, porque foi para isso que veio ao mundo. Para o meu serviço — Ele sibilou em seu ouvido, o hálito ácido beijando a sua pele.

Bervely achou que a sua pele ia virar pelo avesso.

— Você não pode me obrigar–

— Eu não pretendo obrigá-la — Ele informou, se aprumando, muitos centímetros mais alto do que ela, uma sombra opressiva sobre a sua existência. — Você o fará de bom grado, com a desculpa de que está salvando a preciosa vida do seu primo, o que me convém perfeitamente. Ao contrário do que podem ter lhe dito, eu prefiro quando a satisfação contempla ambos os lados de um acordo.

Bervely demorou alguns segundos para perceber que o Lorde das Trevas tinha retornado à sua poltrona. Ela se encontrou dormente, com a sensação de que fora ao mesmo tempo invadida e removida de si mesma. Mas, ela estava de volta ao controle. A evidência disso foi uma nova onda de náusea perfurando o seu estômago, a qual ela lutou para resistir, os olhos se enchendo de lágrimas com o esforço. Pior hora para vomitar, no meio de uma negociação com o Lorde das Trevas.

— Você deixará Draco em paz? — Ela perguntou, tentando manter o mínimo de dignidade na voz apertada. — Dará a sua palavra?

— A minha palavra — Voldemort repetiu, deliciado. — Sim, Beverly, você terá a minha palavra.

— Eu não vou matar para você.

— Eu tenho assassinos. Uma quantidade espantosa, você ficaria surpresa.

— Eu também não… torturo — ela disse, pensando em Bellatrix e no gigante que tinha sido vítima de suas atividades naquela noite.

Voldemort inclinou ligeiramente a cabeça, analisando-a como se considerasse aquele pequeno inconveniente.

— Estou certo que Bella ficará feliz em treiná-la para tal, se assim desejar.

Bervely o ignorou, tentando impedir o rosto de se retorcer.

— E você deixará em paz… as pessoas… com as quais eu me importo.

Voldemort soprou um ruído entre impaciência e desdém da sua boca sem lábios.

— Não, Srta. Black. Eu não deixarei em paz as pessoas com quem se importa. Eu não as protegerei, e eu não hesitaria em esmagá-las caso se coloquem em meu caminho. E para que não reste qualquer dúvida, fique informada de que caso você decida se colocar em meu caminho, eu não hesitarei em esmagá-la também.

Bervely pensou em Nymphadora, em Andrômeda, no bebê Rommy… não pense, ela lembrou a si mesma, temendo dar ao Lorde das Trevas mais munição do que ele precisava. Mas se Voldemort estava usando legilimência, ele parecia entediado com o curso dos seus pensamentos.

— Eu recomendo cortar laços com a parcela traidora da sua família o quanto antes — Ele disse com tranquilidade — Será mais fácil para todos os envolvidos, quando Bella fizer a limpeza que está me devendo.

Bervely exalou, devagar. Apertou os punhos e os relaxou de novo.

Por Narcissa. Por Draco.

— Está bem — ela murmurou por entre os lábios dormentes, o gosto de fel ardendo sobre a língua. — Temos um acordo.

Voldemort lhe deu outro dos seus sorrisos, que mais pareciam o prenúncio do fim do mundo.

(Continua…)