A Canção de Morgana

50 A Terceira Lei de Golpallot (Parte 2)


Notas iniciais
Só sou eu emocionada que CDM chegou ao capítulo 50?? Boa Leitura!

Tamby pode recolher suas capas… mademoiselle Lestrange vai recebê-los no parloir em um instante. Os outros convidados já estão aguardando.

Os passos dos recém-chegados estalaram no hall. Bervely entreouviu comentários ríspidos na voz inconfundível de Bellatrix, o estalo de seus saltos altos acompanhando o som de mais dois pares de pés no assoalho oco da entrada.

— Isso deve ser interessante — ela murmurou, apertando a varinha com mais força debaixo da manga longa de suas vestes. Draco preocupou-se, virando-se para a porta.

— Eu não achei que a tia Bella viria — ele sussurrou de volta. — Sempre tive a impressão de que ela odiava Charlotte.

Bervely também se virou, prendendo a respiração pela segunda vez naquela noite.

***

“Se o Lord das Trevas estiver presente, nunca desvie os olhos dele de propósito” Severus lhe preveniu. “Ele saberá que está tentando esconder algo. Mas, também não o encare intencionalmente. Você não quer encorajar uma legilimência, se puder evitar.”

Severus andou até o seu acervo pessoal de poções e tirou de lá de dentro um frasquinho minúsculo de cristal, com um líquido cor de pérola dentro.

“Caso ele de fato apareça e use legilimência contra você, há informações às quais ele jamais deverá ter acesso. Essa poção ajudará. Beba-a e me envie uma mensagem pelo seu patrono na primeira oportunidade.”

***

Os três recém-chegados pararam à porta.

Bellatrix se interrompeu em meio à uma crítica que estivera sibilando no momento em que os seus olhos alcançaram Bervely. A comensal da morte piscou, como se o cérebro tivesse dificuldade de processar o que os seus olhos viam.

Bervely sentiu o braço esquerdo formigar e o apertou com a outra mão, antes que pudesse evitar.

Bellatrix ocultou a surpresa do rosto com rapidez, mas não antes que Bervely visse. Então ela não esperava que Bervely estaria ali. Interessante.

Foi o homem ao lado de Bellatrix – seu marido, Rodolphus, que se pronunciou primeiro. O olhar zombeteiro no rosto de Lestrange deixou claro que não considerava a presença de Bervely ali digna de preocupação.

— Bervely Black — ele estalou dos lábios finos. — Então essa era a surpresa de que Charlotte estava falando.

— Tia Bella — Draco cumprimentou, com um leve movimento de sua cabeça. — Tio Rodolphus.

Bellatrix desencravou os olhos de Bervely para se dirigir ao sobrinho.

— Draco. Eu devia ter imaginado que a abortada estava tramando alguma coisa. Vejo que se recuperou por completo do incidente em dezembro?

— Sim — Draco assentiu, visivelmente aliviado.

Mas Bervely não se atreveu a relaxar, analisando o terceiro convidado. Reconheceu o homem alto e magro com um cavanhaque, o irmão mais velho de Rodolphus, Rabastan. Ele pousou nela olhos pequenos e cruéis, quase que entediados, e fez um gesto para o elfo com os dedos ossudos.

— Sim, mestre Rabastan — apressou-se Tamby. — O de sempre? E a madame Lestrange e mestre Rodolphus, Tamby pode oferecer um aperitivo?

— O de sempre para mim, também — Rodolphus assentiu, caminhando até a sua poltrona favorita, do lado oposto ao que Draco e Bervely estavam.

O fato de que Bervely se lembrava de que aquela era a poltrona preferida de Rodolphus a deixou ligeiramente enjoada.

— Uísque para mim — disse Bellatrix, enfim desviando os olhos do par. — Sinto que vou precisar essa noite, se terei de suportar o teatro de Summers.

— Bella — Rodolphus a repreendeu, mas Bellatrix rolou seus olhos pesados para o marido, cheia de desdém.

— Você a ouviu. Só porque recebeu permissão de viver sob esse teto, ela acha que tem o direito de usar o sobrenome da família!

— Tecnicamente, ela é parte dessa família.

— Irrelevante — Bellatrix fez um aceno de descaso com a mão cheia de anéis e unhas longas. — Não vejo o nome dela estampado em nenhuma árvore genealógica desta casa.

— Coerente como sempre, cunhada — disse Rabastan com sarcasmo, recebendo do elfo o copo baixo cheio de uísque de fogo Blackburn, que cintilava sob a luz do lustre de mil velas acima do grupo.

Rodolphos também recebeu a sua bebida, girando os olhos para Bervely e Draco com preguiça.

— Vocês dois não estão bebendo? Onde estão os modos da minha sobrinha?

Bervely abriu a boca para responder, a língua seca, mas foi Draco quem se adiantou:

— Também vou querer uísque de fogo.

Rodolphus lhe deu um sorriso amplo e condescendente, do tipo “olha só quem está querendo brincar de ser adulto”.

— Bervely? — Bellatrix questionou, uma sobrancelha arqueando-se em direção ao cabelo escuro. Bervely se virou, seu nome na voz da mulher lhe causando um choque.

Não vou beber nada, obrigada.

— Rude — Rabastan estalou, sacudindo a cabeça, desaprovador. Ele estreitou os olhos para Bervely, e de relance para o irmão mais novo. — Rodolphus, eu não ouvi dizer que a sua enteada estava trabalhando para Dumbledore em Hogwarts?

Bervely apertou a varinha escondida sob sua manga com mais força. Bellatrix captou a contração do seu braço esquerdo e fez um movimento mínimo, desaprovador, com a cabeça.

— Agora, Rabastan — disse a mulher, a voz suave, para o cunhado. — Sem perguntas espinhosas para a minha filha antes que o prato principal seja servido. Onde estão os seus modos?

Charlotte escolheu aquele minuto para retornar ao salão, ligeiramente sem fôlego. Ela passou os olhos entre os seus convidados como se esperasse ver sangue derramado, e pareceu aliviada de não achar nenhum.

— Podemos nos reunir na sala de jantar, se estiverem prontos.

Bervely viu Bellatrix girar os olhos com pungente desdém.

— Quanto mais cedo começarmos com essa tortura, mais cedo termina, suponho — murmurou, girando nos saltos e partindo na frente do grupo, ignorando Charlotte ao passar.

Os dois adultos a seguiram. Charlotte se atrasou um momento.

— Vocês vêm…?

— Em um minuto — Draco prometeu. — Só vou terminar minha bebida.

— É claro — Charlotte assentiu agitada e sumiu de vista. — Não demorem muito.

Bervely não notou o tom suplicante de Charlotte. Seus ouvidos tinham começado a zumbir alto depois do “minha filha”.

Parece que ela não está esperando mais ninguém — Draco comentou, baixo.

Bervely deu de ombros, guardando a varinha no bolso, onde tocou de leve a poção que Severus tinha lhe dado, só para o caso.

Ela pensou na carruagem de Gomorra, lhe aguardando nos terrenos escuros do castelo.

Pensou nos olhos vermelhos do Lord das Trevas e nas palavras de Bellatrix em Azkaban.

Preparada para a sua missão?

Acho que descobriremos em breve — murmurou. — Vamos.

* * *

A mesa tinha sido posta para seis pessoas. Como mandava a tradição de Ostara, fora decorada com enormes bandejas de frutas, ramos, flores, ervas frescas e ovos decorados em motivos intrincados, simbolizando a fertilidade e renovação. Mas, o que atraiu os olhos de Bervely foi o exuberante buquê de narcisos brancos no centro da mesa. O cheiro das flores levou-a de volta ao dia do velório de Narcissa, meses antes.

Ela desviou os olhos das flores, encontrando os de Bellatrix a observá-la. A comensal não estava muito diferente da última vez que Bervely a vira. A não ser pelo fato de que no sonho, Bellatrix estivera coberta de sangue de Lucius Malfoy, convidando-a a participar da sua tortura. Uma visão bem diferente da dama de alta sociedade em vestes formais cor de malva.

— Sente-se — Rodolphus ofereceu, fazendo uma cadeira se afastar para Bervely com um estalar dos dedos.

Bervely obedeceu, fazendo um sinal para que Draco tomasse o assento ao seu lado, o que o primo fez, tenso como uma mola.

Charlotte fez menção de sentar-se numa das extremidades da mesa, mas Bellatrix lhe lançou um olhar maligno.

— Eu ainda sou a senhora desta casa, Summers — ela disse, usando o sobrenome trouxa de Charlotte. Charlotte procurou o olhar de Rodolphus, chateada, mas ele anuiu em concordância e tomou a outra extremidade da mesa.

Charlotte sentou-se do outro lado, na direção oposta à Bervely. Restara uma cadeira vazia ao seu lado, que Rabastan ocupou. Ele parecia tão desinteressado daquele jantar quanto Charlotte estava nervosa.

— Podemos começar a servir, mademoiselle? — Tamby murmurou para Charlotte.

— É claro que não — ela lhe disse. — Precisamos fazer o nosso anúncio primeiro!

Charlotte lançou um olhar ansioso para Rabastan, ao seu lado. O bruxo deu um longo suspiro entediado e descruzou os braços.

— Eu suponho. Após cuidadosa deliberação — Ele olhou para o irmão, as narinas se inflando ligeiramente. — Charlotte e eu decidimos nos unir em matrimônio.

O silêncio que se instalou à mesa poderia ser cortado com uma faca cega. Bervely ergueu o rosto, olhando da aparentemente doente Charlotte até o apático e sinceramente, macabro Rabastan, e ficou esperando alguém anunciar que era uma piada.

Bellatrix começou a rir histericamente.

Charlotte cruzou os braços, o rosto se avermelhando. Ela olhou para Rodolphus num pedido mudo para que ele intercedesse, mas havia um brilho de diversão nos olhos do homem e ele não fez qualquer menção de interferir.

Essa é a sua solução para salvar o nome Lestrange? Casar o seu irmão com uma abortada? — Bellatrix caçoou através da histeria.

Charlotte abaixou o rosto corado, os punhos cerrados em cima da mesa. Bervely olhou para Rabastan, que mal parecia estar presente à mesa, tal era o vazio em sua expressão.

— Já chega, Bella — disse Rodolphus com calma, os olhos em Charlotte. — A casa Lestrange precisa de um herdeiro e Charlotte está feliz em oferecer a sua contribuição para a família.

O sorriso de Bellatrix esmoreceu diante da palavra “herdeiro”.

— Ele não é tio dela? — Draco perguntou à Bervely, baixinho. — E tipo, uns dez anos mais velho?

Bervely encolheu os ombros. Já lera sobre arranjos matrimonias mais estranhos nas páginas do Signo Negro, o velho livro de códigos de conduta da família Black.

— Bem — Bellatrix voltou a dizer, o brilho sarcástico em seus olhos escuros agora manchados de frieza letal. — Um brinde aos noivos, eu suponho.

* * *

O prato principal do jantar foi servido, coelho assado com legumes e ervas finas. Bervely encarou o corpo decapitado do animal em seu prato, sem fome nenhuma. Não conseguia afastar a sensação de que estava vivendo um sonho bizarro. Uma hora atrás, estivera em seu laboratório nas masmorras de Hogwarts, discutindo os pormenores de sua fórmula de Acônito com Snape. Agora, estava jantando com três comensais da morte e, bem… Charlotte.

E ainda havia aquele senso de urgência na boca do seu estômago. Não conseguia parar de pensar na carruagem de Gomorra esperando em Hogwarts. Se ainda estaria lá, ou já teria partido vazia àquela altura.

— Ugh — Bervely deixou escapar um lamento baixo, quando uma pontada atingiu sua têmpora esquerda. Ainda sentia uma dor de cabeça remanescente, cortesia da poção de Acônito. Aqueles efeitos colaterais não iam passar nunca?

— Que foi? — Draco perguntou, o único perto o bastante para ouvi-la.

— Nada. Coma logo para podermos ir embora.

— Vocês certamente vão ficar para a cerimônia do altar — perguntou Charlotte com suavidade, por sobre o buquê de narcisos.

Bervely olhou para ela com irritação. Ainda não sabia o que Charlotte pretendia colocando-a sob o mesmo teto que Bellatrix naquela noite, especialmente agora que sabia que a reunião não tinha sido arquitetada pela comensal da morte.

Desde que tinham começado o jantar, Bellatrix a estava ignorando. Bervely se via incapaz de fazer o mesmo. Seus olhos sempre achavam a direção de Bellatrix por mais que tentasse desviá-los. A comensal era, afinal, a pessoa mais perigosa naquela mesa.

Mas, o que é que estava temendo? Bellatrix salvara a sua vida em Azkaban, não uma, mas duas vezes. Deixara-a escapar impune, sem precisar escolher entre perder sua alma ou se juntar às fileiras de Voldemort. Lhe enviara de presente a cabeça do homem que fizera da sua vida um inferno, como prova de boa vontade– ou assim Bervely supunha. Lhe oferecera a estufa, um lugar no qual pudera trabalhar na poção para Nymphadora em segredo, mesmo que isso tivesse se provado um fracasso…

Pronta para a sua primeira missão?

Bervely ignorou o calafrio.

— Draco, querido — Bellatrix baixou o garfo no prato, voltando-se para o sobrinho. — Como vão as coisas na escola?

Draco sabia que aquela não era uma pergunta inocente, pelo jeito que seus lábios se pressionaram por um segundo antes de responder.

— Sem grandes novidades, tia Bella.

Bellatrix observou o garoto com atenção rapina, as pálpebras pesadas cobertas de delineador preto e desconfiança.

— Então ainda está trabalhando com afinco nos seus deveres de casa?

Os dedos de Draco ficaram brancos em torno do garfo de prata.

— Sim, tia Bella.

— Ótimo. Sabe que são mais importantes do que nunca, não é?

Draco vacilou, um estremecimento minúsculo delatando o seu desconforto. Bellatrix escolheu ignorá-lo, seus olhos vagando preguiçosos para Bervely.

Bervely esvaziou a expressão em seu rosto, esperando.

Inspire. Expire.

Não pense em nada importante.

— Como vai Severus, Bervely? Faz tempo que não tenho a infelicidade de topar com ele.

Bervely estranhou o comentário. Severus vinha se ausentando frequentemente da escola para o que, ela supunha, eram ao menos em parte tarefas para Voldemort. Mas então, talvez ele não cruzasse com Bellatrix com muita frequência. Ela não via como duas pessoas com personalidades tão opostas poderiam trabalhar bem juntos.

— Ele mandou lembranças — ela disse num tom neutro. Bellatrix sorriu com malícia.

— Estou surpresa que não tenha vindo ele mesmo, garantir que ninguém toque em seu protegido— ela zombou, indicando Draco com o queixo.

Bervely forçou um sorriso tranquilo no rosto.

— Eu vim no lugar dele, não vim?

— Oh, eu vejo — Bella recuou, parecendo maravilhada de um jeito especialmente cínico. — Isso explica muito.

* * *

Ostara era uma celebração cercada de tradições cujas explicações tinham se perdido no tempo. O rito mágico para celebrar a chegada da primavera exigia, por exemplo, uma caminhada ao ar livre à procura de ovos mágicos, os quais os guiariam até o altar principal da celebração. Era o tipo de coisa que crianças bruxas faziam por diversão, e adultos por consignação a tradição, ou para preencher o tédio.

Naquela noite, sem crianças e em território inimigo, Bervely achou a ideia de vagar nos terrenos escuros de Blackburn uma péssima ideia. Especialmente ao notar que outra das tradições da festividade – um labirinto mágico – fora conjurado nos fundos da propriedade, se perdendo dentro da plantação de trigo-de-fogo.

— Nos encontramos no altar! — disse Charlotte com um sorriso que só podia ser classificado como lunático, indicando à Bervely e Draco uma das entradas do labirinto.

Ela ia abrir a boca para dizer a Charlotte que só por cima do seu cadáver ela ia entrar em um labirinto mágico dentro de uma plantação de trigo-de-fogo – e será que ela não sabia que Bervely jamais a perdoara por armar para que ela fosse à Azkaban no seu lugar? Mas então, Draco a pegou pelo braço.

— Vamos — ele disse num tom animado, e mais baixo, para que só Bervely ouvisse — Embora daqui, anda.

Esse não é o caminho da saída — ela o advertiu.

— Talvez dê para desaparatar se ficarmos fora de vista.

Bervely o seguiu para a entrada do labirinto, achando que era a primeira coisa inteligente que Draco dizia naquela noite. Bellatrix, no entanto, os esperava na entrada. Seus olhos cintilavam, empolgados e ligeiramente insanos na penumbra da noite.

— Rodolphus preferiu seguir sozinho — ela anunciou num tom alegre. — Parece que seremos só nós três desse lado, crianças.

Bervely girou a cabeça para trás a ponto de ver Charlotte sumindo numa esquina do exterior do labirinto com o seu noivo, e fez uma nota final para usá-la como oferta sacrificial de Ostara quando chegassem ao altar cerimonial.

O labirinto era feito do próprio trio-de-fogo, encantado para tomar as formas de paredes e esquinas por um trabalho de transfiguração habilidoso. Quando Bervely, Draco e Bellatrix se adiantaram pelo corredor de entrada, o trigo se moveu por detrás deles e selou a passagem.

Apesar da ausência de telhado, Bervely sentiu como se estivesse entrando em um forno. O trigo emanava um calor iridescente e estalava baixo como lenha de lareira, perto demais para deixá-la confortável.

— Fique longe das paredes, Draco — ela o advertiu.

— Engraçado. Eu tive a impressão de que Draco não podia suportar o som do seu nome até pouco tempo, Bervely — Bellatrix zombou, atrás dela.

— Não sei do que está falando — Bervely disse baixo, concentrando-se à frente. Voltara a empunhar a sua varinha, dessa vez para se proteger do labirinto. Não era ingênua de pensar que aquele seria tão inocente quanto os que Narcissa costumava encantar para ela, Draco, Hector e Charlotte desbravarem dos terrenos da mansão Malfoy, quando eram crianças. — Draco e eu sempre fomos como mão e varinha.

— Você se esquece que por muitos anos eu estive acompanhando o que ocorria nessa sua cabecinha dramática — Bellatrix começou a cantarolar, numa voz irritante: — Por que Draco não acredita em minha inocência? Por que acha que eu fui a culpada da morte de Hector? Blá, blá, blá, minha vida é tão injusta!

Bervely respirou fundo e fez um esforço consciente para não se deixar afetar. Bellatrix estava tentando distraí-la, afetar as suas defesas. Para quê, não tinha certeza.

— As coisas mudaram — disse Bervely, olhando brevemente para a comensal antes de voltar a sua atenção para o corredor.

As coisas tinham mudado, e Draco não a odiava mais. As coisas tinham mudado, e Bellatrix não tinha mais livre acesso aos seus pensamentos. Ponto para Bervely.

Eu vejo — disse Bellatrix, ainda com a nota de zombaria irritante na voz. — E por falar em mudanças, eu ouvi um boato de que a filha da traidora do sangue está grávida daquela escória em forma de lobisomem?

Dessa vez, Bervely não conseguiu disfarçar a sua surpresa. Como Bellatrix poderia saber da gravidez de Nymphadora?

— Não pareça tão chocada — Bellatrix zombou. — Desgraça se espalha rápido pelos anais desta família. Precisa ser assim, se queremos separar o podre do digno.

— Pensei que Dora já estivesse “separada” por tabela — Bervely comentou. — Filha de uma traidora de sangue e de um nascido trouxa–

Bervely parou de falar. Alguma coisa surgiu saltando em sua direção, de uma curva mais adiante. Antes que ela pudesse reagir, um relâmpago verde explodiu da varinha de Bellatrix. A coisa soltou um guincho miúdo e caiu imóvel no chão.

Assombrada com a rapidez da reação da comensal da morte, Bervely avançou para investigar. Era um coelho – felpudo, marrom e agora bem morto. Draco também se inclinou ao seu lado, mas se afastou com uma careta.

— Procurem dentro — disse Bellatrix com tédio.

Dentro…?

— Oh, pela graça de Circe — A bruxa fez outro movimento da varinha, um corte austero no ar, e virou o coelho do avesso. Bervely se afastou, mas não antes que sangue ainda quente espirrasse em seu rosto.

— Se importa, Bervely? Não gosto de sujar minhas mãos.

As narinas de Bervely se inflaram para a hipocrisia do comentário. Ela se agachou e, com a respiração suspensa, investigou dentro das entranhas do animal até achar o brilho de um pequeno ovo de cobre, entreouviu Bellatrix murmurar algum comentário em tom depreciativo para Draco, mas não conseguiu entender o quê por conta do estalo do trio-de-fogo em seus ouvidos.

— Previsível — Bellatrix suspirou, quando ela voltou com o ovo manchado nas mãos.

— Quem fez esse labirinto? — perguntou Draco, enojado.

— Rabastan, é claro — disse a comensal. — Ele sempre teve uma inclinação para… entranhas.

Bervely usou a varinha para limpar o sangue do ovo e leu as inscrições talhadas na superfície bem polida.

— “O caminho mais rápido é por debaixo”.

É claro que é, seu filho de uma rata — Bellatrix resmungou, apontando a varinha para o chão, bem onde o coelho surgira. — Aperture!

O chão cedeu, revelando uma abertura grande o bastante para um adulto. Ela fez um sinal para Draco e Bervely.

— Vocês ouviram o ovo do meu cunhado. O caminho mais rápido é por debaixo, por onde as coisas nojentas rastejam.

Draco lançou um olhar incerto para a tia. Bervely também não estava ansiosa para rastejar por debaixo da terra. Bellatrix percebeu a resistência e suspirou com dramaticidade.

— É só um túnel, crianças. Por acaso estão com medo do escuro?

Bervely hesitou. Alguma coisa estava errada.

Por que está participando desse ‘teatro’? — Ela perguntou a Bellatrix, fazendo um gesto para o labirinto. — Tive a impressão de que odiava Charlotte.

— Oh, eu odeio — Bellatrix confirmou com intensidade perfurante. — Mas isso não é sobre a abortada. É sobre nós três, compartilhando um momento agradável em família. Honrando as tradições — O sorriso em seu rosto era positivamente maligno. Os pelos da nuca de Bervely se arrepiaram.

Bellatrix cansou de esperar e, com um pulo habilidoso, sumiu pelo buraco no chão. Draco, ao lado de Bervely, soltou uma longa respiração.

— Acho que podemos tentar desaparatar daqui — disse Bervely baixinho. — Se desaparatarmos até um ponto mais próximo da saída, mas ainda dentro da propriedade, talvez os feitiços não nos detectem. Então podemos atravessar o limite e desapartar de novo, até Hogsmeade.

— É só um labirinto — disse Draco. Bervely percebeu que algo tinha mudado, pois ele não parecia mais decidido a ir embora. — Eu vou descer. Se quiser ir embora, vá em frente.

Draco!

Mas Draco a ignorou, saltando para dentro do buraco escuro. Bervely xingou alto e após um segundo de deliberação, o seguiu.

* * *

As raízes do trigo-de-fogo eram como fornalhas, enraizando-se em torno do túnel, provendo uma luz cor de laranja tremulante ao seu redor. Bervely e Draco avançaram, vendo poucos metros adiante. Bellatrix esperava mais à frente. Bervely teve a impressão de que a comensal estava se divertindo.

— Devo dizer que fiquei surpresa ao saber que você aceitou o convite da abortada, Bervely — ela comentou quando Bervely chegou perto. — Não foi por causa dela que você foi passar aquela temporada agradável em Azkaban?

Sim, porque ela estava em conluio com você, pensou Bervely, sem o entanto deixar o pensamento aparecer em sua expressão.

— Ela assinou a carta em nome da “casa Lestrange”.

— Eu vejo. E você pensou que eu a estava convidando?

Bervely não disse nada. Bellatrix pareceu muito satisfeita com o seu silêncio.

— Ouch! — Draco soltou uma exclamação de dor, se dobrando sobre o corpo. Bervely desviou o olhar de Bellatrix, avançando até ele.

— Draco, o que foi…?

— Desculpe — ele sussurrou. Quando ela viu a varinha dele apontando na direção do seu peito, foi tarde demais.

Escuro.

* * *

— Bervely… acorde!

Bervely ergueu a mão e afastou a mão que estalava vários tapinhas em sua bochecha esquerda. Abriu os olhos com esforço; o rosto preocupado de Charlotte pairava acima do seu. Por detrás dela, um céu cheio de estrelas e nenhuma lua.

Uma coisa gelada encostou na têmpora de Bervely. Ela se levantou de uma vez ao reconhecer o bafo do cachorro mortífero de Charlotte.

— Tire esse animal de perto de mim! — guinchou, procurando pela própria varinha.

Bien, Dragão, ça sufit.

O cão sentou, obediente. Charlotte lhe devolveu a sua varinha, que devia ter rolado para longe quando Bervely caíra.

— Se não fosse por Dragão, poderíamos levar séculos para encontrar você desmaiada naquele túnel.

Bervely piscou, tentando se orientar. Não, não tinha desmaiado, tinha sido estuporada.

— Draco — Bervely disse, lembrando-se. — Onde é que ele está?

— Voltou para a escola, acho. Desaparatou logo depois do ritual cerimonial.

Bervely inclinou a cabeça entre os joelhos, tentando se livrar da tontura que seguia um feitiço estuporante. Ela tentou colocar os pensamentos em ordem.

— Onde está Bellatrix?

— Não sei. Sinto muito, Bervely. Eu tinha esperado–

— O quê? O que você tinha esperando, exatamente, Charlotte? — Ela pressionou, irritada. — Qual era o seu plano, chamando Draco e a mim aqui, para esse seu… noivado?

Charlotte engoliu em seco, os olhos largos.

— Tive esperanças de que a sua presença deixaria Bellatrix menos intratável. Ela tem esperado por tanto tempo o seu–

— Eu preciso ir — Bervely decidiu. A voz de Charlotte a enervava, e ela queria voltar ao castelo o mais rápido possível, se ainda houvesse uma esperança de pegar a carruagem. Tentou se levantar, quase se apoiando em uma das paredes ardentes do labirinto, mas retirou a mão no último momento, se desequilibrando. Charlotte a amparou e elas quase caíram juntas.

A pele de Charlotte era gelada sob o toque, o corpo mais leve do que deveria ser. Bervely se afastou dela e se levantou sozinha.

— Eu acompanho você — Charlotte se ofereceu, a voz ansiosa. — Vai ser mais fácil achar a saída se seguirmos Dragão.

Bervely não contestou. Dragão parecia tão ansioso para encontrar a saída quanto ela estava, e começou a marchar quando Charlotte lhe fez um sinal e disse algo em francês que devia significar “vamos”.

— Sei o que está pensando — disse Charlotte, ligeiramente sem fôlego ao manter o ritmo do cão. — Ficar noiva do meu próprio tio deve lhe parecer uma abominação. Eu também pensei isso no começo, mas…

— Não é o que eu estou pensando — Bervely disse, sem conseguir evitar que seus pensamentos fossem parar em Regulus. — É só… por que está se sujeitando a isso?

— Isso o quê? — A respiração dela estava entrecortada pelo esforço de acompanhar Dragão. Não que ele estivesse indo tão rápido; mesmo em seu estado exausto, Bervely conseguia seguir o ritmo acelerado sem problemas.

Bervely olhou de relance para o colar de carne em torno do pescoço de Charlotte. Sabia que o pingente ainda estava lá, oculto no interior do vestido. O pingente onde ela, se Bervely tinha compreendido bem, mantinha o filho de Hector num estado suspenso entre a vida e a morte. Bervely já tivera mais pesadelos com aquele pingente do que gostaria de admitir, e a visão da coisa em si enrolava o seu estômago num nó.

— Rabastan é um monstro — disse ela, ignorando os pensamentos sobre o artefato macabro. — E isso tudo para carregar o sobrenome Lestrange?

O silêncio se estendeu e quando Bervely espiou de novo, viu que Charlotte tinha um sorriso amargo nos lábios.

— De uma forma ou de outra somos todos monstros, Bervely. Só estou fazendo o que preciso.

— Você não precisa se sujeitar a nada disso — Bervely disse, irritada. — Pode ir embora dessa casa quando quiser. Você não pertence a esse lugar– não pertence a eles.

— Eles são minha família — Charlotte arfou, o rosto azulado pelo esforço. — Do mesmo jeito que são a sua.

Bervely ficou aliviada de ver o fim do labirinto. Ao atravessarem uma das saídas e acharem campo aberto e fresco, ela tomou uma lufada generosa de ar e balançou a cabeça para Charlotte.

— Você finalmente perdeu o juízo.

* * *

Snape a aguardava nos portões da escola, um olhar grave no rosto.

— Draco? — Ela perguntou tão logo ele abriu o portão e fez um sinal incisivo para que entrasse, garantindo que não fora seguida.

— Chegou há uma hora. O que aconteceu? Ele disse algo sobre um labirinto, e que se perdeu de você?

— Não exatamente. — Bervely resumiu rapidamente os eventos da noite para ele, e completou: — Acho que ele me estuporou a mando de Bellatrix, vi ela sussurrando alguma coisa para ele quando eu estava checando o coelho morto.

— Provavelmente ela queria discutir as próximas instruções do Lorde para ele, sem a sua audiência — Snape disse num tom grave. — Terei de pressioná-lo mais tarde.

— Eu posso fazer isso.

Snape a fitou com surpresa. Bervely deu de ombros.

— Vou fazê-lo se sentir culpado por ter me estuporado, aquele pequeno verme traiçoeiro e infeliz.

— Talvez funcione. Ele pareceu preocupado com você, quando retornou.

Muito pouco e muito tarde, ela pensou, mal-humorada.

Draco tinha se mostrado muito mais vulnerável às manipulações da “família” do que Bervely esperara. Mas então, o mesmo podia dizer de si mesma. Se aquela visita tivesse sido uma armadilha, estaria dentro do seu caixão naquele momento.

Ao passarem pela borda do lago, Bervely olhou para a vastidão escura dos terrenos sem encontrar a silhueta de qualquer carruagem puxada por pássaros voadores, o que confirmou as suas suspeitas. Tinha demorado demais…

— Foi embora há algum tempo — Snape disse, adivinhando os seus pensamentos. — O elfo me informou que aguardava por você. Para onde estava indo?

— Não importa mais — ela suspirou com pesar. — Preciso voltar a trabalhar em Acônito, de qualquer maneira.

Não, você precisa descansar. A resposta que procura não vai surgir da sua mente exausta, não importa quanto vapor de acônito você insista em respirar.

* * *

Bervely decidiu que espremer de Draco o que ele tinha conversado com Bellatrix podia esperar até o dia seguinte. Ao invés disso, foi direto para o seu quarto e correu para o espelho redondo, um queimor ansioso na boca do estômago. Talvez ainda desse tempo. Talvez pudessem mandar a carruagem de volta…

— Regulus!

O espelho refletiu seu rosto, cansado, desesperado e sujo de sangue seco de coelho.

— Regulus! Anda, aparece!

Mas nenhum palavrão ou súplica o fez aparecer. Irritada, Bervely jogou o espelho do outro lado do quarto. Ela se encolheu ao ouvir um crack e teve uma vontade imensa de gritar. Foi exatamente o que fez, enfiando a cabeça no travesseiro para abafar o som.

Então se levantou, respirou fundo e foi lavar o sangue seco do rosto. A poção de Acônito não ia se cozinhar com a força dos seus gritos, e suas lágrimas certamente não eram o ingrediente que faltava.

* * *

Estava debruçada sobre o caldeirão, tentando uma nova combinação de ingredientes e fazendo notas das reações, quando o ar mudou à sua volta. Não sabia como explicar, o ar apenas… se abriu, como uma mudança de pressão quando alguém abria uma janela.

Bervely parou a concha no ar, olhando ao redor. Bellatrix estava parada na bifurcação dos dois corredores, ainda em suas elegantes vestes malvas, o cabelo num penteado alto e as pálpebras pesadas ao lhe observar.

Bervely não se surpreendeu. Uma parte dela sabia que Bellatrix ainda não tinha terminado com ela naquela noite.

Mesmo assim, olhou de relance para a porta que se abria para os seus aposentos de Hogwarts. Tinha-na selado, como sempre fazia, só por garantia. A maçaneta estava em seu bolso, e precisaria dela para abrir uma passagem de volta.

Bellatrix sorriu, como se soubesse exatamente o que passara pela sua cabeça.

— Não se preocupe, não estou interessada em Hogwarts, no momento.

Bervely não disse palavra. Já tinham se encontrado ali antes, num sonho. Ela convidara Bellatrix ao seu sonho na noite seguinte à morte de Narcissa, mas fora a comensal a oferecer a estufa como ponto de encontro.

Bellatrix tinha planejado encontrar Bervely ali aquele tempo todo, percebeu. Estivera esperando.

— A sua poção não vai funcionar — disse Bellatrix, indicando o caldeirão com o queixo. — Você errou no seu ingrediente adicional.

— Como sabe disso?

Bella sorriu, não o sorriso irônico-corrosivo-zombador costumeiro, mas um cheio de condescendência.

— Eu a tenho observado. Trabalhando sem pausa para salvar a traidora de sangue e o filhote na barriga dela. Lamentável, realmente.

Bervely apertou os lábios. Bellatrix sabia demais sobre o assunto para que fosse seguro para Tonks. Precisaria avisar a Remus assim que voltasse a Hogwarts.

— Oh, não faça essa cara — Bellatrix zombou, divertindo-se. — Você age como se não fosse óbvio para qualquer um com um cérebro. Tão leal — ela cuspiu a palavra fosse uma ofensa. — Se ao menos estivesse direcionando essa lealdade a quem realmente importa, criança.

Diante do silêncio de Bervely, Bellatrix começou a se aproximar.

Bervely pensou na sua varinha em seu bolso, mas no fundo ela sabia que não teria chance em um duelo com Bellatrix, nem tinha intenção nenhuma em duelar com a bruxa.

A verdade era que parte dela estava aliviada de que Bellatrix estivesse ali. No fundo soubera que aquele momento chegaria desde que a comensal a salvara de Azkaban, e a antecipação do encontro estivera lá o tempo inteiro, uma âncora em algum canto escuro de sua inconsciência.

— Quem realmente importa — Bervely repetiu as palavras dela, ao mesmo tempo em que pendurava a concha, com cuidado, na borda do caldeirão. — Eu suponho que se refira ao Lorde das Trevas.

— Naturalmente.

Bervely ergueu o rosto para encará-la abertamente, algo que não se permitira em Blackburn Hall. Agora, Bellatrix encarou de volta. Elas se mediram e Bervely sentiu aquele gelo familiar de reconhecimento no estômago. Eram tão parecidas, mesmo com os anos de vida e as provações que as separavam.

Era desconcertante.

— Foi isso que cobrou de Draco, depois que fez ele me estuporar? — Ela disse, a acusação vazando em suas palavras.

— Os meus assuntos com o meu sobrinho não lhe dizem respeito — Bellatrix disse com tranquilidade. — Foi preciso remover você da conversa, é claro, já que deixou claro que não ia nos dar privacidade.

— Você contou a ele o que fez com Lucius? — Ela provocou.

Bella sorriu, intrigada.

— O que é que você acha que eu fiz com Lucius?

Bervely abriu a boca para responder, mas a fechou em seguida. Não sabia. Talvez aquele sonho não tivesse sido real, no fim das contas. Achara que tinha sido, mas agora não estava mais tão certa. Se Bellatrix tivesse tomado controle da rosa, mesmo que por um momento, poderia ter implantado aquele sonho em sua cabeça, como uma memória falsa. Não é como se já não tivesse feito antes. Em Azkaban, fizera-a acreditar que jogavam xadrez, numa tentativa de manter sua mente afiada…

Bellatrix viu a dúvida no rosto da filha e gargalhou.

— Você e Draco não precisam mais se preocupar com Lucius, isso posso garantir.

— Você o matou — ela disse, desejando intimamente que fosse o caso. Uma nota de raiva lúcida cintilou nos olhos de Bellatrix e de repente ela pareceu perigosa de novo.

— Bem que eu queria. Mas, Milorde tinha outros planos.

— “Milorde” — Bervely repetiu com impaciência. Para uma assassina sem escrúpulos, Bellatrix certamente se deixava subjugar às vontades do Lorde das Trevas um pouco demais. Bervely viu a expressão da comensal endurecer, os olhos escuros se cravando em Bervely como se fossem facas. Bervely sentiu o impulso de recuar e teve que cravar os pés no chão para não fazê-lo.

Milorde — repetiu Bellatrix, com ênfase na voz de repente muito cáustica. — Está se cansando de esperar por você.

— Eu não sabia que tínhamos um encontro marcado — Bervely disse com descaso, apesar do frio que tomou a sua espinha.

Bellatrix chegou em cima dela em meio segundo, a varinha apertada contra o seu pescoço antes que Bervely pudesse pensar “Protego”.

— Você não vai desdenhar do Lord das Trevas em minha presença!

— Eu não estou– ela ofegou. Por um segundo tinha se esquecido que Bellatrix era completamente louca. — …desdenhando!

Bellatrix cheirava a uísque de fogo, cinzas e beladona. Porque sua mãe cheirava a uma erva venenosa, Bervely nunca ia entender.

A comensal afastou a varinha de sua carótida. Bervely recuperou o fôlego, se afastando um passo. Bellatrix não se moveu, olhando-a intensamente, como se esperasse algum pedido formal de desculpas. Ao invés disso, Bervely desviou os olhos, tentando manter um pouco da sua dignidade apesar do coração aos saltos.

— A minha primeira missão, não é? — Ela perguntou, baixinho. A rouquidão tinha voltado à sua voz, com a constrição em sua garganta. — Voltar para casa e oferecer meus serviços a ele.

— A primeira missão de todo servo para a causa do Lorde das Trevas — Anuiu Bellatrix com uma nota de orgulho. Bervely sentiu o nó em suas entranhas se apertar com mais força.

— Até onde me lembro, Milorde já tem o meu contrato de servidão assinado em sangue. Você não me deu para ele quando eu tinha o quê, quatro anos de idade?

— Eu ofereci os seus serviços para o Lorde das Trevas quando você ainda estava em minha barriga — Bellatrix a corrigiu, tão perto dela que Bervely sentia as palavras embebidas em uísque de fogo queimarem os seus ouvidos. — Foi preciso esperar que aprendesse a assinar seu nome, no entanto. Uma mera formalidade mágica.

— Então — disse Bervely, tentando controlar o desdém em sua voz novamente, pois a varinha de Bellatrix ainda bem próxima aos seus órgãos vitais. Não se esquecera de como a comensal tinha virado o coelho do avesso no labirinto, e não tinha dúvida de que Bellatrix treinara o mesmo feitiço em humanos —, o que é que ele está esperando para reivindicar esse contrato?

— Milorde prefere que os seus servos venham até ele em boa vontade.

Não era a resposta que Bervely esperava. Não combinava nem um pouco com a imagem que ela tinha de Voldemort, seus olhos vermelhos malignos, seu rosto esticado e impiedoso quando queimara aquela rosa negra em seu braço, a ligando para sempre à Bellatrix através de magia negra.

— Nesse caso, acho que vou educadamente declinar do convite. O seu Lorde não tem sido muito gentil com pessoas com as quais me importo bastante.

O tempo parou. Ou assim pareceu à Bervely, porque ela não se moveu, nem Bellatrix, e nenhuma das duas respirou por uma eternidade.

Bellatrix se afastou e Bervely descobriu que seus pulmões podiam funcionar de novo.

— Essas pessoas com as quais você se importa disse Bellatrix, com profundo desprezo na voz. — Elas estão condenadas. Sabe disso, não sabe? Viu o que aconteceu com o seu papaizinho vira-lata.

Uma raiva inesperada se alastrou pela pele de Bervely, eletrizando-a sem aviso. Como ele se atrevia? Sirius não estava morto — e ela achava que Bellatrix ainda não sabia daquele detalhe — mas ele não teria sofrido danos irreversíveis ao cerne se não fosse por causa dela.

— O que você fez com ele, você quer dizer — Bervely corrigiu por entre os dentes apertados. Bellatrix pousou uma mão de garras negras sobre o peito, fingindo-se de ofendida com a acusação.

— Você guarda rancor de mim por isso? Ele foi apenas efeito colateral, eu nem mesma estava tentando matá-lo!

Bervely olhou no rosto dela com suspeita. Bellatrix tinha acabado de confessar que não pretendera matar Sirius? Mas então, a comensal abriu um sorriso branco e cruel.

— Não naquele momento específico, pelo menos.

Bervely notou que sangue começava a brotar através da manga da veste de Bellatrix, do braço que ela acabara de erguer. A comensal não parecesse sentir, ou escolhera ignorar aquilo propósito. A própria Bervely percebeu, com atraso, a dor pulsante em seu braço esquerdo.

Ela fez força para ignorar o fato. Não podia permitir que a rosa despertasse.

— Mas, se você pedir ao Lorde com gentileza — disse Bellatrix, com inesperada suavidade — talvez ele conceda a proteção para alguns desses seus amigos, desde que eles não fiquem no caminho.

Bervely ignorou-a, voltando-se para o caldeirão, tentando ignorar a dor em seu braço, que uma vez reconhecida, só fazia aumentar. Ela pegou a concha para evitar que a poção embolotasse antes de entrar na segunda fase de cozimento, a mão tremendo.

Ela se pegou desejando que Bellatrix fizesse logo o que tinha vindo fazer – fosse arrastá-la para as fileiras de Voldemort pelos cabelos ou virá-la do avesso como tinha feito com o coelho, ou então que a deixasse em paz com a sua raiva e impotência e confusão, que ebuliam dentro dela naquele momento de um jeito muito similar à poção fervendo diante dela.

Bellatrix se aproximou, parando a centímetros do caldeirão e olhando para a substância borbulhante, perolada, da cor errada para aquela fase de cozimento.

— Você está desperdiçando o seu tempo, Bervely. Eu odiaria vê-la do lado errado da minha varinha quando o tempo se esgotar. Com o seu potencial, seria um verdadeiro desperdício.

A rosa se rebelou, perfurando sua carne mais fundo em sua vontade de despertar e se comunicar com a de Bellatrix. Bervely apertou o maxilar, reprimindo um gemido de dor, os olhos se inundando de lágrimas de agonia.

A mão de Bellatrix agarrou o seu braço e ergueu a manga negra de suas vestes até o cotovelo, revelando a marca em seu braço. Os ramos da rosa eram muitos, retorcidos, a pele recém-perturbada vermelha, com gotas minúsculas de sangue brotando onde os espinhos perfuravam. A rosa negra em si continuava fechada em um botão, resistindo.

— Creio que está se esquecendo da lição mais importante de todas.

Bellatrix arrastou o indicador no antebraço de Bervely, fazendo uma trilha de sangue fresco em sua pele irritada.

— Sangue é a resposta para todas as suas perguntas, sua garota tonta.

(Continua…)



Notas finais
Eia! MUITO obrigada a você que chegou até aqui. Ainda temos um bom caminho pela frente e a minha resolução de ano novo é tentar postar com mais frequência, para vermos o fim dessa história ainda em 2021. Seu comentário ajuda muito a me manter motivada a escrever. Basicamente, cada comentário é como um cutucão na minha consciência, me mandando de volta para a cadeira da fanfic :) Então, se quiser comentar mas não souber bem o quê, pode tentar responder uma ou várias das perguntas seguintes: 1. Qual foi a sua parte favorita do capítulo? Por quê? 2. Quem é o seu personagem favorito de CDM? Isso mudou, desde o começo da história? 3. Qual personagem você não suporta/rola os olhos sempre que entra em cena? 4. Me conte ao menos uma coisa que você gostaria que acontecesse, e uma que tem certeza que vai acontecer no próximo capítulo (quem adivinhar ganha um doce :)