A Canção de Morgana
51 A Resposta Está no Sangue
Notas iniciais
A resposta estava num livro de poções que Bervely conhecia desde os dezessete anos, La Voix du Sang – A voz do Sangue. O livro já tinha literalmente salvo a sua vida no passado, mas sem a dica de Bellatrix, Bervely nunca teria conseguido achar a informação que precisava para adaptar a poção de Acônito para Nymphadora.
“Sangue é a resposta para todas as suas perguntas, sua garotinha tonta.”
Bervely leu uma nota de rodapé no capítulo sobre antídotos customizados:
“A combinação de uma gota do sangue daquele a quem a poção é destinada, e uma gota de extrato puro e concentrado de bezoar, se adicionada a uma poção venenosa, deverá neutralizar todos os efeitos nocivos da poção apenas para o seu destinatário.”
Uma solução elegante, mas com pouquíssimas aplicações práticas. Afinal, se sabia-se de antemão que uma poção era venenosa, bastava evitar bebê-la. O truque só era útil para bruxos que sabiam de antemão que teriam de beber uma poção venenosa e tinham a oportunidade de se preparar para a ocasião. Além do mais, por usar sangue humano, um ingrediente duvidoso na melhor das hipóteses, o truque não era ensinado em aulas de poções ou de alquimia, ao menos não até o nível que Bervely alcançara no Instituto Flamel.
Bervely testou a poção em si mesma de novo no dia seguinte usando o truque, dessa vez sob a supervisão de Madame Pomfrey, que tinha lhe feito prometer que ela não testaria mais nada em si mesma sem o seu acompanhamento. Daquela vez, o mundo não escureceu bem diante dos seus olhos, nem a sua garganta foi queimada por dentro. O único efeito foi uma ânsia de vômito intensa por conta do gosto terrível de Acônito.
— Funciona! — Bervely exclamou, abaixando o frasco de poção, o coração disparando ao constatar o fato. — Não estou morta.
— Você conseguiu neutralizar os elementos venenosos, isso é certo — A curandeira vibrou, sorrindo de orelha a orelha, e se aproximou para verificar os sinais vitais de Bervely com seus feitiços de detecção de sempre. Pareceu satisfeita com os resultados, mas franziu o cenho para ela. — Como descobriu a solução tão rápido? Até ontem você não tinha a menor ideia do que usar como ingrediente adicional.
Bervely não tinha mencionado que a solução viera da mais procurada comensal da morte do Lorde das Trevas. Ainda estava lidando, ela mesma, com aquele fato.
— Mas não vamos nos precipitar — continuou a curandeira, num tom sensato, sem esperar Bervely responder. — A toxicidade foi neutralizada, mas isso não significa que terá o efeito esperado durante a lua cheia ou que não afetará o feto de forma imprevisível. O ideal seria que a Srta. Tonks a tomasse sob supervisão, no hospital.
— Ela não vai ao hospital — Bervely suspirou. — Além do mais, não é como se ela pudesse aparecer no St. Mungus com a versão ilícita de Acônito neutralizada com uma liga de sangue.
— Sangue? — Madame Pomfrey ergueu uma sobrancelha. Bervely deu um sorriso pequeno.
— É melhor fingirmos que não sabe isso.
— Isso o quê? Não ouvi nada — Madame Pomfrey fez uma careta, então suspirou, parecendo tomar uma decisão. — Diga a Srta. Tonks que quero estar presente quando ela tomar a primeira dose. Ainda há um pouco que posso fazer para ajudar, caso haja algum imprevisto.
Bervely concordou, secretamente grata. Não mais carregar aquela responsabilidade sozinha era um grande alívio.
— Agora, deixe-me ver essa garganta sua — disse a curandeira, puxando o queixo de Bervely para baixo. — Severus disse que você se expôs ao sereno noite passada, o que eu lhe disse sobre noites ao ar livre, até se recuperar, Srta. Black? Honestamente, entra por um ouvido e sai pelo outro…
* * *
Ao retornar para o seu quarto, Bervely catou os cacos do espelho no canto onde o tinha jogado na noite anterior e o consertou com um reparo. Esperava que não o tivesse inutilizado em seu acesso de frustração na noite anterior. Ainda precisava explicar para Regulus porque não pudera pegar a carruagem.
— Ei, Bervely!
Quando Bervely chamou, foi o rosto de Yaz Darkmoon surgiu do outro lado do espelho. Bervely quase não a reconheceu; ela havia ganhado peso e uma aparência mais saudável desde da última vez que a vira, mal se assemelhando à jovem malnutrida que embarcara na carruagem com Sirius em janeiro.
— Por que você está com o espelho? — Bervely franziu.
— Regulus o deixou comigo ontem a noite, disse que era para eu atender se visse você chamar, é a primeira vez que tenta?
— Como assim, deixou com você? Para onde é que ele foi?
— Não sei… — Yaz hesitou, franzindo o rosto em aparente preocupação. — Tem alguma coisa errada?
— Eu só… — Bervely fez uma pausa para organizar os pensamentos. — Eu tive um imprevisto, não consegui pegar a carruagem.
— Carruagem pra cá? — Yaz piscou, surpresa. — Você estava vindo visitar?
— Sim… Sirius não comentou com você?
Yaz hesitou, pressionando os lábios.
— Não. Ele deve ter se esquecido.
A boca de Bervely se abriu, mas dela não saiu nenhum som. Sirius tinha se esquecido que ela ia visitar? Ou apenas de comentar o fato com Darkmoon? Em ambos os casos, parecia suspeito que ele deixasse algo assim passar… Darkmoon se apressou a preencher o silêncio.
— Vou avisar a Regulus, se ele aparecer aqui hoje.
Bervely ficou olhando para o espelho, as mãos dormentes, os pensamentos em revolução. Não podia ser uma coincidência que Regulus tinha devolvido o espelho a Darkmoon justamente depois que ela perdera a carruagem para Gomorra, podia?
— Eu pensei que você não podia usar artefatos mágicos nesse lugar em que está morando com Sirius.
Yaz assentiu.
— Eu não devia. Regulus pediu que eu fosse discreta, eu não sou suposta a carregar o espelho por aí. E Sirius não sabe que eu o tenho de volta — Ela acrescentou, dando outra olhada por cima do ombro, presumivelmente para garantir que Sirius não estava por perto. — Regulus pediu para que eu atualizasse você, mas talvez eu demore a responder, se ele estiver em casa.
Bervely sentiu o peito arder. Regulus tinha deliberadamente se livrado do espelho.
— Eu preciso ir. Diga a Sirius que eu sinto muito.
— Vou dizer — ela assentiu. Parecia que ia dizer mais alguma coisa, mas pensou melhor e desistiu. Bervely desconfiou.
— Está tudo bem por aí?
— Ah, sim. Tudo ótimo — ela se apressou em afirmar. — É só… talvez você devesse mesmo fazer uma visita, o quanto antes. Se der, quero dizer.
— Eu estou tentando, não estou? — Bervely bufou. Mas a sua irritação não era com Yaz, mas consigo mesmo. Ela refreou a urgência de quebrar coisas de novo. — Apenas passe a mensagem para Regulus, assim que puder.
Yaz concordou. Bervely ouviu algum barulho abafado ao fundo, o ranger de uma porta e a voz familiar de Sirius chamar, distante:
— Yaz? Tem mais alguém aí com você?
Darkmoon arregalou os olhos e se despediu de Bervely às pressas, em silêncio. No segundo seguinte tudo ficou escuro e Bervely, o coração em um nó ao ouvir a voz de Sirius depois de tanto tempo, teve a impressão de que tinha sido enfiada às pressas em uma gaveta de meias.
* * *
Remus estava sozinho, debruçado sobre uma infinidade de pergaminhos abertos – anotações, mapas, esquemas, e quatro ou cinco livros abertos em páginas diferentes. Quando viu Bervely à porta, se sobressaltou.
— Bervely! Não esperava a sua visita até amanhã. Está tudo bem em Hogwarts? — Ele quis saber, apressando-se a fechar os pergaminhos e os livros antes que ela pudesse ver os seus conteúdos. Bervely rolou os olhos para a reação desnecessariamente furtiva.
— Não estou interessada nos segredos da Ordem da Fênix, Lupin.
Ele deu um pequeno sorriso de desculpas, todo o material recolhido em uma pilha ordenada.
— Não é nada pessoal, você sabe.
Ela esperou que ele movesse a pilha para uma das extremidades da mesa, antes de colocar uma garrafinha arrolhada diante do lobisomem.
— Não entendo — Remus observou a poção com curiosidade. — Não sou suposto a começar a tomar acônito até amanhã.
— Não é para você.
Ela esperou, vendo a expressão dele passar de curiosidade para confusão, e então rapidamente para entendimento surpreso.
— Você adaptou a Poção de Acônito para Nymphadora?
Uma das coisas que Bervely apreciava sobre Lupin, se é que havia algo, era que ele tinha o pensamento rápido, e ela raramente precisava lhe explicar coisas óbvias, e mesmo as não tão óbvias assim.
— No melhor das minhas habilidades — ela confirmou. — Achei que poderíamos testar uma dose um dia antes, só para o caso de precisar de ajustes de última hora.
— Mas isso não… como? Espere aí — Remus, entre incrédulo e deslumbrado, desarrolhou a poção e a farejou. Parecia resistente em aceitar a possibilidade. — Mas cheira exatamente… não, espere aí,quase exatamente… — Remus se interrompeu de novo, voltando-se para Bervely. — Como fez isso em tão pouco tempo? Uma fórmula tão complexa como essa teria levado meses, senão anos para modificar a contento.
Bervely deu de ombros, um pequeno sorriso no rosto.
— Tive um tempo vago, aqui e ali, entre as aulas. E não está perfeita, só… eficaz. Se tivermos sorte.
Remus abaixou a poção e a analisou com mais atenção. Bervely sabia que os sentidos dele ficavam mais apurados com a proximidade da lua cheia, e teve a impressão de que Remus estava notando detalhes que alguém normal não poderia. A verdade é que o olfato apurado de lobisomem poderia ajudá-la bastante em projetos alquímicos… por que aquilo nunca tinha lhe ocorrido antes?
— Não devia ter feito isso — Remus disse por fim. Ela tomou a declaração como a aceitação de que a sua poção era legítima. — É controlada pelo Ministério… estou supondo que não tem uma permissão?
Ela fez um aceno com a cabeça, como se não fosse grande coisa.
— …e deve ter custado uma fortuna — Remus completou, a voz agravada.
— O que está feito está feito, Lupin. Não adianta ficar choramingando sobre a poção derramada. Ou nesse caso, ilicitamente modificada.
Ele exalou, ainda incerto. Caminhou, levando o frasquinho até a janela e observando o seu conteúdo contra a luz. Cheirou-a mais uma vez, depois se virou para Bervely, a incerteza substituída por precaução.
— Como sabe que funcionará?
— Não sei. A única coisa que sei é que não vai matá-la.
Ele assentiu, como sempre dando a impressão de estar dois passos adiante, analisando todas as possibilidades e consequências antes de tomar qualquer posição.
— Severus ajudou você?
— Não. Bem, não oficialmente.
— Eu vejo.
Bervely cruzou os braços, uma sensação esquisita de exposição tomando-a por conta do jeito com que o lobisomem a observava.
— Eu estou impressionado — Remus admitiu por fim, um assombro na voz. — Se realmente funcionar…
— Vai funcionar — Ela garantiu. — Suponho que Dora venha aqui hoje?
Ele assentiu.
— Mais tarde. Se quiser ficar e esperar…
— Não posso, preciso me organizar para a semana. Aulas — explicou, com um gesto vago, sabendo que ele entenderia. — Aqui, fiz um pergaminho com as instruções de administração. Madame Pomfrey se ofereceu para estar aqui quando ela tomar, para o caso de efeitos colaterais inesperados.
Remus assentiu, recebendo o pergaminho de instruções e passando os olhos pelas notas de Bervely.
— Ela precisa adicionar sangue à poção?
— Misturado ao extrato bezoar, imediatamente antes de tomar. Aqui — ela tirou um segundo frasquinho do bolso, contendo o extrato purificado de bezoar, um líquido amarelo escuro, e entregou para ele. Esperou que ele questionasse o ingrediente, mas Remus enfiou o pergaminho e os dois frascos de poção no bolso, ainda parecendo impressionado demais para argumentar.
* * *
— O que sabe sobre Gomorra?
Remus ergueu o bule de água fervente, considerando a pergunta. Ele a tinha convencido a ficar para um chá, ao menos, mas o que a persuadiu foi a menção de biscoitos de gengibre e mel recém feitos. Nunca admitiria em voz alta, mas os biscoitos de Lupin eram sem comparação.
— Provavelmente menos do que você. Sei que é uma comunidade vampírica reclusa que acolhe humanos sob algumas condições bem restritas. Por que pergunta?
— Só estava imaginando onde fica.
Remus se alarmou, olhando para ela.
— Algo errado com Sirius?
— Não. Sirius está bem… acho.
Ele relaxou e foi recolher xícaras e uma lata de chá no armário sobre a pia.
— Então, qual a urgência?
Sentada em uma das cadeiras bambas da mesa da cozinha, Bervely mordeu o lábio inferior. Não era seu costume dividir suas aflições com Lupin, entre todas as pessoas. Mas então… talvez ele entendesse melhor do que a maioria, supôs.
— Regulus me convidou para passar a páscoa em Gomorra.
— Oh?
— Ele mandou uma carruagem ontem, mas eu não pude embarcar. Agora, tenho a impressão de que ele está evitando falar comigo.
Remus voltou com a parafernalha para o chá, a observando com vivo interesse.
— Vocês vinham se falando com frequência?
Bervely sentiu o rosto esquentar.
— Quase toda noite.
— Percebo.
— Então? — Ela pressionou. — Onde eu acho o endereço de Gomorra?
Remus colocou uma xícara e um pires diante dela, e um pratinho de biscoitos recém-assados que cheiravam deliciosamente bem.
— Mesmo se fosse possível, Bervely… — ele hesitou, escolhendo bem as palavras. — Regulus sendo um vampiro… acha mesmo que seja a escolha mais sensata?
Bervely percebeu-se aliviada e surpresa de que Remus tinha omitido a parte sobre o seu parentesco com Regulus. Mesmo assim, ela fez uma careta para o comentário.
— Eu poderia perguntar o mesmo a Tonks. — Se envolver com um lobisomem…
— Tenho certeza de que ela vê agora que não foi a escolha mais sábia — disse Remus com sobriedade, e Bervely se arrependeu do comentário.
As coisas já deviam estar instáveis o bastante entre ele e Nymphadora sem as suas alfinetadas. Ela pegou um biscoito, mordendo a cobertura crocante e sentindo-o derreter em sua língua.
— Sirius sabe sobre isso? — Remus perguntou, trazendo o bule fumegante para colocar água em cada xícara lascada sobre a mesa.
— Ele soube… — Ela estremeceu, lembrando-se da discussão horrível que tivera com Sirius em Grimmauld Place, que se iniciara com o assunto. — Mas se esqueceu, depois da coisa com os dementadores.
Remus assentiu, como se compreendesse mais do que ela estava dizendo.
— Como ele reagiu?
— Como você acha? Do pior jeito possível — ela disse, devorando o fim do biscoito e pegando mais um, tentando ignorar o nó em seu estômago, que emergia sempre que se lembrava.
— Não estou surpreso. As relações que Sirius presenciou dentro da família Black deixaram uma marca nele.
— Hipócrita, é isso que é — ela resmungou.
Parte dela ainda guardava rancor de Sirius pela reação dele naquela noite. Tinha sido a sua pior discussão, ele tinha lhe dito coisas realmente horríveis … e agora ele sequer se lembrava do acontecido. Era só mais uma das coisas que Sirius tinha tido o luxo de esquecer, mas que ela nunca poderia apagar da sua memória.
Talvez não fosse tão ruim assim, perder a carruagem para Gomorra… Como poderia olhar para Sirius e fingir que era aquela Bervely de que ele se lembrava, a que conhecera antes de cair no véu? E se ela não pudesse fingir, e tivesse que ver aquele olhar de desprezo no rosto dele de novo, quando redescobrisse todas as coisas sobre ela que ele desaprovava?
— Mas veja bem, Sirius nunca foi famoso pela sua consistência — Remus comentou, pensativo. — Eu nunca pensei que ele poderia perdoar Regulus pelo que fez, mas aqui estamos. Creme?
Bervely o sondou, dando-se conta de algo que nunca tinha lhe ocorrido antes.
— Você sabe um bocado sobre criaturas das trevas, não sabe?
— Por que eu sou uma delas? — Remus retorquiu, servindo a si mesmo com creme e açúcar.
— Não, porque ensinou DECAT em Hogwarts.
— Ah — Ele disse, sem graça. — É. Eu suponho que sim.
— O que sabe sobre vampiros?
O lobisomem ergueu ambas as sobrancelhas.
— Vai ter que ser mais específica se não quiser passar as próximas quatro horas me ouvindo dar aula. As linhas de pensamento sobre a natureza vampírica divergem, e a espécie em si varia bastante entre um clã e outro, não só culturalmente mas nas capacidades…
Bervely deu um sorriso pequeno, provando o seu chá sem açúcar ou creme. Remus se interrompeu, corando.
— Como eu disse, várias horas. O que quer saber, exatamente?
— É só que, em todos os livros que encontrei, vampiros são descritos como criaturas. Os livros falam do que eles se alimentam, hábitos noturnos, anatomia e fisiologia, mas nunca do fundamental. E nem me deixe começar a falar de “Se Divertindo com Vampiros”, aquele lixo completo. Lockhart era um lunático que claramente nunca encontrou um vampiro de verdade na vida.
Remus estava sorrindo por cima da sua xícara.
— E qual é o “fundamental” que os livros não estão dizendo?
Ela bufou, abaixando a xícara.
— Se eles podem sentir coisas, como quando eram humanos. Se ainda têm ou não uma alma. E se só veem os humanos como comida, como os livros dizem, porquê é que se incomodam em agir civilizadamente, ao invés de só beber o sangue e cair fora?
Remus sorria tanto que seus olhos cintilavam. Bervely não tinha a mais vaga ideia do quê naquele assunto o divertia tanto.
— E o que é que você acha?
Ela cruzou os braços, irritada com a retórica. Odiava professores dando uma de espertinhos.
— Não posso falar sobre todos os vampiros, mas eu sei que Regulus se importa. Quero dizer, você o viu. Ele quis fazer as pazes com Sirius, quis se redimir dos erros do passado. Mas talvez ele seja uma exceção.
Ou talvez ele estivesse fingindo, por algum outro motivo que não tem nada a ver com Sirius, ou comigo.
— Todo monstro é uma aberração até nos afeiçoarmos à sua imagem — Remus disse num tom pensativo. Bervely o olhou com irritação.
— Não estou com humor para filosofia hoje, caso não tenha percebido.
— Só estou dizendo que não acho que Regulus seja uma exceção — Ele explicou. — É você quem está abrindo uma exceção para Regulus, porque está afeiçoada a ele.
Afeiçoada era um jeito de colocar as coisas. Tão afeiçoada que queria viajar à Gomorra, de vassoura se fosse preciso, só porque achava que Regulus estava chateado com ela por perder a carruagem que ele enviara.
— Eu gostaria de poder ajudar, Bervely, mas a localização de Gomorra permanece um dos segredos mais bem guardados da comunidade vampírica europeia, provavelmente para o seu próprio benefício. Por que não dá a Regulus um tempo? Se estavam se falando com tanta frequência, é provável que ele logo irá sentir a sua falta.
O estômago dela se enrolou em apreensão. E se ele não sentisse? E se ele percebesse, ao invés disso, que não falar com ela não fazia a menor diferença em sua vida?
E se decidisse que ela simplesmente não valia o esforço?
Talvez fosse melhor assim, uma vozinha traidora sussurrou em sua cabeça. Desse jeito ninguém se machuca.
— Eu preciso voltar ao castelo — ela anunciou, se levantando. — Mande uma mensagem para Madame Pomfrey quando chegar a hora, ela virá supervisionar a administração da primeira dose, só para o caso. Ah, quase ia me esquecendo. — Bervely hesitou, escolhendo as suas próximas palavras. — Diga a Dora para tomar cuidado. Tem gente do outro lado que sabe sobre a gravidez.
— Gente do outro lado? — Ele sondou, estreitando os olhos.
— Bellatrix — Bervely pigarreou. Não havia razão para rodeios. — Bellatrix sabe sobre a gravidez.
A sobriedade retornou ao rosto dele, acompanhada de uma nota de alarme.
— Como…?
— É tudo que sei. Sinto muito.
Remus soltou um pesado suspiro, pinçando a ponte do nariz.
— Suponho que fosse só uma questão de tempo. Talvez isso encoraje Nymphadora a parar de ir a campo, em missões para o Esquadrão.
Bervely sentiu alívio por ter passado a informação. Dora não estava menos em perigo, mas ao menos ela não seria pega de surpresa.
— Me avise como ela reagiu à poção. Se tudo der certo, trago a segunda dose dela e sua primeira amanhã, nesse mesmo horário.
Remus assentiu, levantando-se também.
— Obrigado, Bervely. Nunca vou conseguir lhe agradecer o suficiente pelo que está fazendo, mas se houver algo – qualquer coisa – que eu possa fazer por você em retorno, não hesite em pedir.
Ela deu um sorriso pequeno. Não tinha dormido quase nada naquela noite, ajustando a poção para Nymphadora após a dica de Bellatrix, e agora mal conseguia manter os olhos abertos.
—Apenas continue tomando conta dela. E do filhote.
Ele devolveu com um aceno afirmativo muito sério.
— Sabe que farei tudo ao meu alcance.
* * *
Apesar da exaustão, Bervely se viu incapaz de pegar no sono. Pouco antes das oito, a mensagem de Remus chegou via patrono, a coruja prateada de Lupin lhe dizendo que Nymphadora tinha reagido bem, sem efeitos colaterais inesperados para ela ou o bebê.
Um problema a menos, pensou Bervely com alívio. Mas ela tinha outros. O maior de todos, a sua recente conversa com Bellatrix na estufa, não parava de retornar para assombrar os seus pensamentos, agora que a poção estava fora do caminho.
Milord prefere que os seus servos venham até ele em boa vontade.
Bervely saltou da cama, jogando as vestes negras sobre o pijama, e cruzou a distância pequena do corredor até a sala de Severus, supondo que ele ainda estava acordado.
Ele estava. Sentado diante da sua mesa sob uma luz conjurada da varinha, fazia notas em um livro grosso que ela sabia ser o seu grimório de poções.
Ele fez um sinal para que ela entrasse quando a viu ali parada.
— Algum sucesso com Draco?
— Ainda não tive tempo de falar com ele — ela admitiu, ocupando a cadeira em frente à mesa dele. Nem tinha tentado falar com o primo, a atenção focada em Nymphadora. Além do mais, ainda estava um pouco irritada com Draco pela sua traição, e não podia garantir que não ia enfeitiçar as fuças dele quando o encontrasse.
— Eu mesmo posso pressioná-lo, se tiver mudado de ideia.
— Não mudei. Só preciso de algum tempo.
Severus a olhou com atenção e Bervely teve a impressão de que ele sabia. Sabia que ela estava em agonia, por trás da aparência calma. Sabia das partes gritando dentro dela, das que queriam se jogar de lugares altos só para que aquela constante enxurrada de pensamentos desse um tempo. Ela se perguntou se Severus também se sentia daquele jeito, às vezes. Um caos caótico e barulhento por debaixo de um semblante plácido.
— Alguma coisa lhe perturbando, Bervely?
Tantas. Por onde começar?
Bervely enfiou a mão no bolso das vestes e tirou a poção que ele lhe dera no dia anterior, só para o caso de que Voldemort aparecesse em Blackburn Hall na noite de Ostara. Ela não a tomara, mas ficara bastante curiosa após ouvir as instruções que ele lhe dera. A poção era suposta a ocultar temporariamente memórias a que Voldemort não podia ter acesso.
— De quem é a fórmula?
— Minha — Snape disse com economia.
— Como se chama?
— Amnésia.
— E como funciona, exatamente? Apaga as memórias por um tempo, ou só as esconde fora de alcance?
Ele voltou a encará-la com gravidade.
— Você faz muitas perguntas para o pouco que compartilha em retorno.
Ela repuxou os lábios para a reprimenda. De novo, aquela sensação de inquietação ardente em seu peito. Bervely sacudiu uma perna, impaciente.
— Muito bem. O que quer saber?
Ele não despregou os olhos dela, nem mesmo quando ela fixou o olhar num ponto sobre o ombro dele. Bervely sabia que o padrinho era bom em legilimência e não queria lhe dar a chance de arrancar os pensamentos caóticos para fora da sua cabeça antes que tivesse a chance de organizá-los.
— Que tal começar pelo que está tirando o seu sono?
Bervely tamborilou os dedos no apoio de madeira maciça, colocando os pensamentos em ordem. Severus aguardou sem pressioná-la e quando seu silêncio se estendeu, ele voltou o olhar ao livro em que estava anotando e escreveu mais uma linha em sua caligrafia quase ilegível de tão inclinada.
Bervely pigarreou, tomando coragem.
— Bellatrix parece achar que eu devo me apresentar aos serviços do Lorde das Trevas sem mais delongas.
Severus estreitou os olhos para a informação.
— Ela disse isso a você?
— Entre outras coisas.
— Estou surpreso que sua mãe tenha esperado tanto para cobrar o seu posicionamento — Ele disse, pressionando a ponta da pena ao final da frase e fazendo um ponto cuidadoso.
Bervely batucou os dedos no apoio da cadeira, agitada.
— Ela também disse que o Lorde das Trevas prefere que os seus servos se apresentem para ele de bom grado. Isso é… isso é verdade?
— Lealdade voluntária rende um servo melhor do que lealdade forçada, no que concerne ao Lorde das Trevas.
— Mas ele usa o Imperius nas pessoas o tempo todo.
— Não… raramente em seus comensais da morte, e apenas como último recurso.
Ela apertou os braços da cadeira e olhou com intensidade para a quina da mesa, que logo saiu de foco.
— Não creio que o Lorde das Trevas pretenda usar Imperius em você, se é o que está temendo.
— Não é o que estou temendo — Ela exalou impaciente. — Eu só– por que ela está tão certa de que eu cogitaria trabalhar… oferecer minha lealdade… o que eu ganharia com isso?
Severus inclinou a cabeça, observando-a com curiosidade.
— Você nunca considerou a possibilidade, mesmo sabendo que é o que a sua mãe espera de você desde que nasceu?
Bervely engoliu em seco, o nó de raiva travado na garganta.
— Ela diz que eu poderia pedir pela proteção de algumas pessoas em troca dos meus “serviços”.
— Isso é verdade — Severus assentiu.
Bervely procurou os olhos dele, desconfiada.
— Foi o que você pediu, em troca dos seus serviços?
Os olhos de Severus escureceram, mas ele não recuou da pergunta.
— Sim, foi o que eu pedi.
— Mas ela morreu mesmo assim.
Bervely tinha visto uma vez a foto da mulher ruiva entre os pertences de Severus, quando procurava um volume particular na estante de livros dele. Só mais tarde compreendera que se tratava de Lily Potter, a mãe de Potter, e isso porque encontrara o livro de poções dela na casa de Severus, no último verão, e ligara os pontos.
— Ela escolheu assim. O Lorde ofereceu-lhe a chance de ficar viva e ela recusou.
— Como tem tanta certeza? — Bervely pressionou, incisiva. — Talvez ele a matou sem hesitar assim que teve a chance e depois mentiu para você a respeito.
Severus meneou a cabeça.
— O Lorde das Trevas é um homem de palavra, não um mentiroso. Como acha que ele consegue tantos aliados?
— Você fala como se o admirasse.
— E admiro. Ele é um grande bruxo.
Bervely hesitou, olhando-o nos olhos e tentando achar a verdade por trás das palavras que pareciam ensaiadas. Desde que descobrira que Severus era um agente duplo, estava confusa sobre a quem ele de fato devia a sua lealdade. Se é que ele fosse leal a um dos dois bruxos, e não estivesse, como tinha lhe dito uma voz, agindo por benefício próprio.
— Mas não o maior de todos — ela sondou, perscrutando-o com atenção.
Severus deu um sorriso mínimo e empurrou o frasquinho de Amnésia de volta para ela.
— Você deve ficar com isso. Só para o caso.
* * *
Harry parou na esquina do corredor do terceiro andar e viu o momento exato em que Rony e Hermione desapareceram pela passagem da Bruxa de um Olho Só. No Mapa do Maroto aberto em suas mãos, os pontinhos que identificavam os amigos desapareceram.
Harry esperou um par de minutos antes de seguir ele mesmo pelo corredor e abrir a passagem. O que Rony e Hermione estavam fazendo, escapando para Hogsmeade uma vez por semana, tão sorrateiros depois do jantar? Harry duvidava que fosse algum assunto de monitoria, e duvidava mais ainda que fosse o que Anne supunha, uma tentativa de passar momentos à sós como um casal. Para isso, havia no mínimo uns mil lugares em Hogwarts melhores do que aquele túnel apertado e malcheiroso…
Harry desceu pela passagem e avançou à frente, com cuidado para continuar coberto pela capa da invisibilidade enquanto caminhava. Os amigos não estavam mais à vista, pois o túnel fazia uma curva acentuada para a esquerda e depois para direita, mas ele podia ver a luz de uma varinha mais adiante…
“Ouch!”
O pé de Harry ficou preso em alguma coisa e ele foi parar de cara no chão. Ele olhou para trás, mas não viu nada no chão irregular que pudesse ter segurado seu tornozelo. Confuso, Harry olhou para cima… e encontrou Hermione bem diante dele, com a varinha apontada para a sua testa.
“Como um ratinho na ratoeira”, ela disse em tom vivaz. Rony, logo atrás dela, parecia divertido e ao mesmo tempo, culpado.
“Sai pra lá, Hermione”, Harry resmungou, afastando a varinha do rosto e se levantando. “Como fez isso? Não tem nada no chão.”
“Azaração do Calcanhar de Aquiles”, ela explicou, ajudando-o a catar o mapa e a capa do chão. “Você o teria aprendido se tivesse ido à última reunião da AD. Estamos aumentando o nosso repertório de feitiços-armadilha… só para o caso.”
“Bem, que ótimo, fico feliz que estejam ficando mais inteligentes”, ele disse, ainda irritado por ter sido pego no flagra. “Mas para onde é que vocês dois estão escapando no meio da noite?”
Hermione parou de sorrir e Rony, atrás dela, agora estava mais culpado que divertido.
“Não podemos contar”, disse Hermione.
Harry piscou, surpreso.
“Como assim?”
“Como em: prometemos que não diríamos, e não podemos dizer, e você não devia ter vindo atrás da gente.”
“Mas você sabia que eu viria”, ele acusou. Afinal, ela estivera preparada para ele.
“É, eu imaginei que ia acontecer uma hora ou outra. Você já estava desconfiado, e esse bendito mapa… desculpe, Harry, mas é um segredo.”
“Desde quando temos segredos um com o outro?”, ele perguntou, espantado. Olhou para Rony, que não teve coragem de lhe encarar de volta. Ele estava fixado em um ponto à esquerda do rosto de Harry, mais perto da sua orelha, e mesmo com a escuridão do túnel Harry desconfiava que o amigo estava corando.
“Então não vão me dizer?”, Harry perguntou com aborrecimento. “É assim que funciona, então?”
“Não podemos dizer” Hermione salientou, com um olhar grave para ele. “O que não significa que, com um pouco de esforço, você não possa deduzir sozinho.”
Harry compreendeu. Hermione e Rony deviam estar sob algum feitiço… como o Fidelius. Então ele juntou o óbvio com o evidente e percebeu:
— A Ordem! Vocês estão indo para as reuniões da Ordem!
Rony suspirou, parecendo aliviado. Hermione deu um sorriso pequeno.
— O que você achou que estávamos fazendo? Escapando da escola para dar uns amassos?
— Era uma das possibilidades — Harry admitiu com um pequeno dar de ombros. — Isso, ou metidos em algum problema, ou sob o Imperius de algum comensal. De toda forma… por que não me disseram? Eu podia estar indo com vocês!
Foi a vez de Hermione parecer culpada.
— Justamente por isso… você não pode ir.
— Como assim eu não posso?
— Você não é maior de idade, cara — Rony se apressou a explicar. — Sabe que Dumbledore não deixa ninguém se alistar antes da maioridade. Só achamos que seria melhor não comentar sobre o assunto. Você já tem tanta coisa com o que lidar, ultimamente–
— Dumbledore tem aparecido nas reuniões? — Harry perguntou, chocado, mas Hermione se apressou a negar.
— Não, Remus está na liderança desde que ele viajou. Mas, as ordens continuam as mesmas.
Harry tentou, mas não conseguia afastar a sensação de traição que começava a borbulhar em suas entranhas.
— Precisamos ir, Harry — Hermione disse, apologética, mas taxativa. — Estamos em cima da hora… mas não fique aborrecido, está bem?
— Suponho que vocês vão me contar o que está acontecendo quando voltarem? — Ele perguntou, mas não ficou surpreso quando os lábios dela se apertaram.
— Não podemos… prometemos…
— Inacreditável — Harry estalou, enfurecendo-se.
— É para o seu próprio bem! — Hermione sibilou de volta, mas Harry não estava mais ouvindo. Ele pegou a capa e o mapa e deu meia volta, tomando o caminho do castelo. — Harry!
Harry exalou aborrecidamente para a escuridão da noite, vendo o seu hálito se condensar no ar e desaparecer. Ele ainda não podia acreditar que Rony e Hermione estavam indo às reuniões da Ordem da Fênix pelas suas costas. E daí que ele não era maior de idade? Isso nunca tinha impedido Voldemort de tentar matá-lo. Que diferença fazia mais ou menos alguns meses, de toda forma? E se dali a alguns meses Voldemort já tivesse descoberto que ele ainda estava vivo e conseguisse terminar o serviço?
— “É para o seu próprio bem, Harry” — ele repetiu em voz alta, num falsete aborrecido da voz de Hermione.
Quando foi a última vez que alguém tinha acertado o que era para o seu “próprio bem?”, de toda maneira?
— Dino? — Uma voz perguntou, vinda da entrada da Torre de Astronomia. Harry se virou e viu Anne parada sob o amplo portal circular, o cabelo solto sacudindo com o vento frio.
— Como você me achou aqui? — Harry perguntou de mau humor.
Ele vinha tendo o maior trabalho para cruzar com ela pelo castelo, mas Anne não tinha nenhuma dificuldade em encontrá-lo num canto escuro de uma torre, depois do toque de recolher, ao que parecia.
— Eu estava voltando do corujal, e uh… você sabe — Ela apontou para a têmpora, como se tivesse um mapa do maroto mental cujo único pontinho era aquele etiquetado “Harry Potter”. — Está aqui sozinho?
Ele assentiu, cruzando os braços e se voltando pelo arco através do qual estivera observando os terrenos de Hogwarts, parte dele torcendo para que, só pela força da sua irritação, Dumbledore fosse aparecer de sua viagem e acabar com aquela agonia sem fim que era se disfarçar de Dino Thomas, e lhe dar permissão para assistir às reuniões da Ordem.
— Vou deixar você em paz, então — Anne disse baixo, começando a se virar, e Harry sentiu uma pontada de culpa. Vinha pedindo por tempo sozinho com Anne há semanas, e agora que por acaso se encontravam sem ninguém ao redor, a afastava com a sua rabugice.
— Você pode ficar — ele suspirou. — Se quiser.
Anne hesitou, então cruzou a distância que os separava. A Torre de Astronomia era um lugar sombrio aquela hora da noite, sem as tochas que os elfos acendiam em dia de aula. Também acontecia de ser um dos lugares favoritos de Anne no castelo.
Ela reparou no Mapa do Maroto, aberto no parapeito da janela, ainda mostrando os contornos dos corredores do castelo. A capa da invisibilidade que ela devolvera à Harry mais cedo naquele dia, num intervalo entre as aulas, estava ao lado do mapa, em um montinho desleixado.
— Você os seguiu, então? Rony e Hermione?
Harry assentiu, quieto.
— Descobriu o que queria?
— Não quero falar sobre isso — Ele resmungou, mas completou: — Não é nada perigoso. Não imediatamente, pelo menos.
— Menos mal — Anne murmurou. Ela espiou o mapa, constatando que o corredor que dava acesso à escadaria até a torre, continuava vazio. Filch e Madame Norra, no entanto, logo estariam fazendo a ronda após o toque de recolher. Além do mais, Bervely não estava no castelo – Anne tinha passado para falar com ela mais cedo e encontrara a porta fechada – o que significava que Jinx estava a solta pelo castelo, provavelmente fazendo as suas próprias rondas a mando de Bervely.
— Harry, eu não acho que deveríamos ficar… — ela começou, mas Harry fez que não com a cabeça.
— Eu vou ficar — ele teimou. O resto estava implícito: vá embora, se quiser. Anne suspirou. Também estava cansada de agir como se o que tinham fosse errado, por mais que fizesse isso para a proteção dele.
— Tudo bem — Ela cedeu. — Só mais um pouco. Se alguém vier nessa direção, a gente coloca a capa da invisibilidade.
A torre de astronomia, composta de arcos amplos sem janelas, dava a sensação de que estavam do lado de fora. Era uma noite fresca de primavera, e Anne se apertou em suas vestes ao passar por Harry. Ela sentou-se em um batente diante de um dos arcos, o corpo voltado para o lado de fora. Um minuto depois, Harry veio se sentar ao seu lado, colocando o mapa do maroto no chão ao lado deles. O garoto pousou uma mão sobre a sua, que estava apoiada no batente, de forma tentativa. Anne girou a mão e entrelaçou os dedos no dele. Harry relaxou ao seu lado, deixando um pouco de lado aquela tensão que era parte dele desde que ela o conhecia, e mais ainda desde a sua “morte” de mentira.
— Estava escrevendo para Remus? — Harry perguntou, puxando conversa.
— Não… fui responder a uma carta de Sophia.
— Hum. O que ela queria?
— Vai passar amanhã para me buscar. Vamos até o hospital nos despedir da minha avó. Ela vai ser… colocada para dormir, ou sei lá como chamam isso.
— Sinto muito — Harry murmurou, sem saber o que mais dizer para consolá-la. A eutanásia programada tinha se tornado procedimento padrão do ministério para as vítimas do beijo do dementador, que ocupavam cada vez mais leitos no St. Mungus.
— Eu sei… é estranho. Eu sinto como se ela tivesse morrido naquele ataque, mas agora vamos ter que vê-la morrer de verdade.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, Anne observando o céu agradavelmente limpo de lua crescente, Harry distraído entre desfrutar da proximidade dela e vigiar o mapa do maroto para ter certeza de que continuariam sozinhos.
— O efeito da sua poção está passando — Anne comentou. — Você devia tomar logo outro gole.
— Como sabe? — Harry se surpreendeu. Já vinha sentindo o formigamento característico nas extremidades que indicavam que a Polissuco em seu corpo estava quase no fim, mas não achava que era visível, especialmente considerando-se que Anne não estava olhando para ele.
— Só uma intuição — Ela indicou um ponto em seu peito onde Harry sabia que, por debaixo das vestes, ela estava usando a orbe de Parlaisa. — Essa coisa bloqueia quase toda a minha Visão, mas quando se trata de você, um monte vaza pelas beiradas. Especialmente quando estamos próximos.
— Então você deve saber porque eu estou deixando passar o efeito da poção — Harry disse, com um sorrisinho. Logo em seguida ele apertou os dentes para o fim da polissuco em seu sistema, o corpo se encolhendo e se reformulando de volta ao formato original. A sensação era esquisita, mas de forma alguma dolorosa, e quando passava, sempre trazia um sopro de alívio. Mas Harry estava passando tanto tempo sob a polissuco agora que temia o dia em que, ao voltar para o próprio corpo, ele se sentisse estranho e fora de lugar, ao invés de aliviado.
— Não preciso de Visão para isso. É no que você sempre está pensando, quando estamos sozinhos — Anne caçoou. Ele soube pela voz dela que Anne sorria.
Harry girou o corpo, se posicionando de forma a ter acesso aos lábios dela. Anne não ofereceu resistência e quando os seus lábios se encontraram, ela passou os braços em torno do pescoço dele e se ancorou em seu corpo para manter o equilíbrio, meio torta, o tronco virado para ele e as pernas voltadas para frente.
Harry tinha a vaga consciência de que não devia se distrair, pois precisava continuar vigiando o mapa, mas isso perdeu a importância à medida que as suas línguas deslizaram uma na outra, aprofundando o contato.
Então Harry sentiu. Como naquela noite no seu dormitório, um arrepio prazeroso se alastrou pelos seus nervos, seguido de uma presença adicional em sua consciência, e ele soube que estavam na mente um do outro. Em um segundo ele saberia o que ela estava sentindo, o quanto ela gostava do que faziam. Na verdade, estava ansioso por repetir aquela experiência de novo...
Mas Anne quebrou o beijo, uma mão empurrando-o suavemente pelo ombro, afastando-o. Ofegante, ela levou a outra mão até o lábio superior.
— Você está sangrando — Harry notou, alarmado, notando o líquido escuro que ela tocava com a ponta dos dedos.
Anne negou, usando a manga do uniforme para estancar o sangramento do nariz. Ela parecia ao mesmo tempo constrangida e irritada.
— Eu sei. É só… essa orbe estúpida — justificou, indicando o colar. — Vou ficar bem, vai parar num instante.
Harry assentiu, inquieto. Anne forçou um sorriso, abaixando a mão que ainda o mantinha afastado dela.
— Desculpe. Mas, Harry… nós precisamos conversar.
Um aperto de alarme se instalou na boca do seu estômago. Aquilo não podia ser bom, não naquele tom sombrio que ela estava usando.
— Nós temos?
Anne olhou com seriedade para ele, as estrelas refletidas nos olhos escuros.
— Sabe que sim. Você tem me perguntando há séculos o que está errado.
— E você disse que me diria se tivesse algo errado.
— Eu sei — Anne umedeceu os lábios, sua expressão se tencionando. — Mas eu não estava pronta.
(Continua…)
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