A Canção de Morgana

49 A Terceira Lei de Golpallot (Parte 1)


Notas iniciais
Olá, amorinhas! Primeiro post de 2021 :) Esse capítulo foi dividido em duas partes. A outra já está pronta e betada, posso postar tão logo esse aqui for devidamente processado (me avisem nos comentários). Feliz ano novo e Boa Leitura!

— Beba, Srta. Black. Não, não tente falar ainda, não vai lhe fazer nenhum bem. Isso… até o fim, boa garota.

Bervely engoliu a poção doce demais e a dor excruciante em sua garganta diminuiu o suficiente para que ela conseguisse abrir os olhos. O rosto preocupado de Madame Pomfrey, e o teto em arcos por detrás dela, informaram a Bervely que estava na enfermaria de Hogwarts.

Então, a sua poção de Acônito não tinha funcionado. Falhara com Nymphadora.

— O professor Snape a trouxe para cá há algumas horas, caso esteja se perguntando.

— Foi ele… — ela tentou perguntar se tinha sido ele a encontrá-la. Se fosse o caso, era melhor ela tomar outra dose de poção venenosa, antes que precisasse admitir para que continuara a trabalhar na poção sem a permissão dele. Mas não foi capaz de terminar a pergunta, pois a sua garganta queimou e as lágrimas retornaram aos seus olhos.

— Não tente falar — Madame Pomfrey recomendou. — A poção causou danos à sua traqueia, ainda levará algumas horas até que se recupere totalmente.

Bervely afundou de volta no travesseiro, apertando os olhos. Tempo era algo que ela não tinha. A próxima lua cheia seria em menos de duas semanas…

— Eu sei o que estava tentando fazer — disse a curandeira, num tom conspiratório. — Isso é sobre Nymphadora Tonks, não é? Aquela poção de Acônito era para o bebê que ela está carregando.

Bervely assentiu. Tentou engolir, mas havia um nó apertado em sua garganta que não tinha nada a ver com o dano à sua traqueia. Prometera a Nymphadora que faria tudo ao seu alcance, mas não pudera… não fora competente o suficiente.

Sentiu a mão de Madame Pomfrey tocar o seu rosto, afastando o cabelo que caía em seus olhos.

— Menina, menina — a curandeira lamentou —, não pode decidir carregar o mundo nas costas sozinha e esperar que ele não a esmague. Você teve sorte, se fosse encontrada um pouco mais tarde, estaria morta. Severus estava fora de si quando a trouxe.

Bervely rolou para o lado oposto e enterrou o rosto em uma mão, exausta, dolorida e humilhada. Papoula deu um tapinha afetuoso na lateral da sua cabeça e a deixou sozinha, fechando as cortinas ao redor da cama.

Bervely adormeceu e em seu sonho, ela fervia no fundo de um caldeirão vagabundo de estanho.

* * *

— Eu deveria suspender você. Demitir você. Raios subterrâneos, eu deveria mandar interná-la na ala de danos irrecuperáveis do St. Mungus!

Bervely não estava reagindo às ameaças de Severus do jeito que ele teria apreciado. Ele aparecera no fim do dia, num ponto em que ela se achou mergulhada em uma estranha apatia que não sabia ser efeito colateral das poções para reconstruir a sua garganta, ou da constatação de que, por causa da sua incompetência, Nymphadora ia morrer na próxima lua cheia. Ou pior, seria transformada em um monstro…

— Absolutamente irresponsável! Inescrupulosa. Fora de si de tanta–

— Severus — Bervely o interrompeu. Recuperara um pouco da voz, embora soasse como se uma lixa grossa estivesse alojada em suas cordas vocais. — Só me diga o que vai ser e termine logo com isso.

O que vai ser? — Ele repetiu, acidez perigosa na voz.

— Suspensão, demissão, ou internamento compulsório. Não são essas as suas opções?

— Você acha isso engraçado, Bervely? Acha que sua insolência vai ajudá-la agora?

— Muito pelo contrário — ela resmungou, virando-se para encará-lo com os olhos pesados. — Já perdeu a graça faz tempo, eu estou cansada.

— Do que você está cansada, exatamente? De atentar contra a própria vida? De desdenhar das minhas ordens, de me desobedecer bem debaixo do meu nariz? Porque honestamente, também não está sendo um passeio no parque para mim!

Cansada de falhar, ela pensou, sem energia para dizer aquilo em voz alta. Falhara com Anne, e ela quase acabara morta por Voldemort. Com Draco, e agora ele não só estava órfão, mas a odiava. Com Sirius, deixando-o perder a sua magia… e agora com Nymphadora. Não importa o quanto ela tentasse, sempre acabava falhando com quem mais importava. Era tudo inútil. Tão inútil.

Bervely desviou os olhos para o teto em arcos da enfermaria, imaginando como seria bom se aquela cama a engolisse e ela nunca mais tivesse que sentir coisas. Parar de existir, uma ideia que se instalara no fundo da sua cabeça desde a sua estada em Azkaban, voltou a atormentá-la, convincente e plausível.

— Já ocorreu a você — Snape recomeçou, o tom de voz mais baixo, embora ainda irritado — que poderia ter pedido ajuda?

Bervely franziu. Do que é que ele estava falando?

— Você me proibiu de pedir os ingredientes para a poção — disse ela, com aspereza metafórica e literal, a garganta protestando com o esforço.

— Eu não sabia que estava tentando salvar a sua prima. Pensei que estava apenas tentando fazer a vida de Lupin mais confortável– diabos, Bervely, que tipo de monstro você acha que eu– eu sou professor de poções, não de adivinhação!

Bervely achou um pouco de graça. Nunca tinha visto Snape interromper a si mesmo. Mas então as circunstâncias voltaram a pesar em sua consciência e ela se esqueceu do que tinha achado engraçado.

— É tarde demais — ela disse. Teria completado que Nymphadora deveria começar a tomar a poção em três dias para que fizesse efeito, mas a sua voz falhou, se recusou a ir tão longe.

Snape a encarou com seu olhar de pedra. Bervely continuou encarando o teto, os olhos ardendo, sem se atrever a piscar.

— Pensaremos a respeito quando você estiver recuperada.

— Mas então vai ser– tarde demais, completou mentalmente, frustrada, a voz sumindo do seu alcance mais uma vez.

— Você percebe que quase morreu essa noite?! — Severus explodiu. — Não é a primeira vez que acontece por conta de excessos em poções. Papoula me disse que você estava tão desidratada, exausta e malnutrida que até uma dose de Poção da Paz a teria intoxicado!

Bervely virou o rosto para o outro lado, recusando-se a ouvir mais sermão. Ela não tinha comido, descansado ou bebido toneladas de água nos últimos dias porque não tinha tempo para gastar com aquilo, não quando a integridade de Nymphadora – e do bebê em sua barriga – dependiam dela.

Sua cabeça começou a doer e Bervely levou uma mão até a têmpora, apertando. Snape suspirou audivelmente ao seu lado. Era impressão dela, ou ele desaprovava a sua dor de cabeça também?

* * *

— Severus está certo, você sabe. Poderia ter pedido ajuda com a poção que estava tentando modificar.

Bervely lançou um olhar cansado para Madame Pomfrey. Sua voz melhorara bastante depois de uma noite de sono, auxiliada por uma boa dose de poção para dor, então ela arriscou uma resposta arranhada:

— Mesmo se ele pudesse, isso iria colocá-lo em problemas com o Ministério, o que poderia lhe custar o emprego.

— Bem, tem isso. Mas Severus não é o único com conhecimento de poções nesta escola, é?

Bervely demorou a entender a quem a curandeira estava se referindo.

Você?

A bruxa empinou o queixo, ofendida pela incredulidade na voz dela.

— Não lhe pareceu uma ideia tão impensável pedir ajuda na noite em que a sua prima precisou dos meus cuidados.

Bervely abriu a boca para se defender, mas Madame Pomfrey colocou uma mão em seu ombro, a meio caminho do processo de verificar o interior das suas pálpebras.

— Não precisa ficar toda alvoroçada, Srta. Black. Só estou dizendo que, embora eu não seja uma pocionista excepcional como o seu padrinho, conheço o meu caminho em um laboratório.

Bervely mordeu o interior das bochechas, incerta.

— Ainda estou trabalhando nisso. Pedir ajuda — completou, diante do olhar questionador da mulher. A curandeira sorriu.

— Percebo.

A bruxa lhe ofereceu um frasquinho cheio da preparação reparadora de mucosa que Bervely precisava tomar de hora em hora. Insistira em lhe manter em observação até o fim do dia para eventuais efeitos secundários desconhecidos da poção de Acônito, para a irritação de Bervely, que queria voltar ao laboratório o mais rápido possível.

— Você não tem outros pacientes para cuidar? — Ela resmungou, quando a curandeira recebeu de volta o frasquinho vazio e veio medir os seus sinais vitais pela terceira vez na última hora.

— Minha outra paciente ainda está dormindo — A curandeira apontou a outra cama ocupada, mais adiante. As cortinas estavam puxadas, mas Bervely ouvira a paciente gemer de dor durante a noite.

— Quem é?

— A Weasley caçula — A bruxa suspirou, balançando a cabeça. — Ainda tem sequelas terríveis da mordida de dragão, a pobrezinha, mas não me deixa chamar os pais para levá-la de volta ao St. Mungus.

— Que tipo de sequelas? — Bervely perguntou, ansiosa por uma distração da dor de cabeça constante e da garganta dolorida. Lembrava-se de ter visto Weasley no último jogo de quadribol e parecia bem, até incendiara o goleiro da Sonserina.

Madame Pomfrey hesitou, mas por fim pareceu lembrar que Bervely era parte do corpo docente, e não mais uma aluna, e confidenciou em voz baixa:

— São as combustões espontâneas. Vem quando ela menos espera. E desde a última, ela começou a descamar.

— Então ela não pegou fogo de propósito, no último jogo?

— É claro que não! Por que ela faria isso? O garoto da sonserina vai ficar com algumas daquelas cicatrizes para sempre.

— Mesmo? Pensei que só ferimentos feitos por magia negra não podiam ser completamente curados.

A curandeira pressionou os lábios, olhando na direção da cama da caçula Weasley e meneando a cabeça.

— Algumas criaturas mágicas também deixam cicatrizes que são indeléveis, mesmo com magia.

— Só que Weasley não é uma criatura mágica…

Papoula ia responder, mas alguém empurrou uma das portas duplas da enfermaria. Uma cabeça loira platinada apareceu pelo vão da porta e espiou para dentro.

Só um minuto, querida — disse ela a Bervely, e foi deslizando na direção de Draco com vivacidade. — Senhor Malfoy, espere aqui um instante, já vou pegar.

Bervely assistiu com o cenho franzido o primo dar um passo para dentro. Papoula sumiu pela porta de vaivém que separa o que Bervely sabia ser um pequeno laboratório de unguentos adjacente à enfermaria. Draco finalmente ergueu o rosto, correndo os olhos pela enfermaria, e a viu.

— O que você está fazendo aqui?

Bervely ia responder algo irônico, mas foi acometida por um acesso de tosse. Quando conseguiu superá-lo, Draco se aproximara o bastante para ver as gotículas de sangue que ela tinha espalhado pelo cobertor.

— Você por acaso está morrendo? — Por debaixo do desdém na voz dele, Bervely detectou apreensão.

— Bem que você queria — ela disse num sussurro arranhado, se recompondo.

— Bem, já que está aqui — Draco trocou o peso de pé, sem parecer convencido. — Eu queria mesmo lhe perguntar uma coisa.

Draco a estava ignorando desde a sua última interação na casa de barcos, mas Bervely não trouxe o assunto à tona. Se o primo tinha decidido superar o seu pequeno lapso de memória sobre ele não ser o assassino de Chang, não seria ela a ressuscitá-lo.

— Pergunte, enquanto eu ainda estou viva.

— Há-há — Ele rolou os olhos, sem humor. — Você vai… Você tem planos para a páscoa?

— Se eu tenho… — Então ela se lembrou. Gomorra. — Sim, na verdade eu tenho. Por quê?

— Fora da escola?

— Sim — Bervely assentiu, desconfiada. — Por quê?

Eu só achei… — Ele balançou a cabeça, espiando o resto da enfermaria com suspeita. — Deixa pra lá, suponho que não devemos discutir isso aqui.

— O que é que não devemos discutir aqui?

Mas Draco devia estar certo, porque eles foram interrompidos por uma aparição ruiva, bocejante e enrolada em bandagens que surgiu por detrás das cortinas da outra cama ocupada. Os dois se viraram a tempo de ver Weasley cambalear em seus pijamas, descabelada e confusa, e congelar ao ver que tinha audiência.

— Malfoy? — Os olhos da ruiva se alagaram ao ver Draco parado ali.

Draco se empertigou, a mão indo, inconsciente, alinhar o cabelo loiro.

— Weasley, mas o que é–

— Cadê Madame Pomfrey? — A ruiva perguntou, desviando o rosto muito corado. A caçula Weasley tinha ataduras enroladas em cada parte exposta de pele, endurecidas com pomada de ditamno. Ela estava a um passo da mumificação completa.

— Volta já — Bervely franziu. Não dava para dizer se o tom vermelho vivo no rosto da garota era só constrangimento, ou ela estava tendo algum tipo de ataque. — Algum problema, Weasley?

— Não, eu só– os olhos dela vagaram até Draco de novo. A piadinha sobre as bandagens, que Bervely ainda estava esperando sair dos lábios do primo acompanhada de veneno sonserino, nunca veio. — Eu vou– com licença — disse a garota, e sumiu de volta para trás de suas cortinas o mais rápido que pôde.

Bervely procurou os olhos de Draco para um questionamento, mas o garoto recusou contato visual, olhando fixamente para onde Madame Pomfrey tinha ido. As bochechas dele também estavam tingidas de rosa, um rosa pálido muitos tons abaixo do rubor Weasley, mas ainda assim

Madame Pomfrey voltou com um frasquinho pequeno para Draco. A poção dentro dele era azul escura, salpicada de espéculos brilhantes, lembrando uma noite estrelada. Bervely a reconheceu de imediato: Poção do Sono Sem Sonhos.

— Mesma prescrição, senhor Malfoy, um pequeno gole antes de ir para a cama, e não abuse. Lembre-se que doses grandes dessa poção podem causar alucinações diurnas perigosas.

Bervely ficou surpresa em perceber que Draco tinha seguido a sua sugestão e procurado ajuda… então ele ouvia o que saia da sua boca? Por essa ela não esperava.

— Estou ciente — disse Draco, dando uma espiadela na direção de Bervely. Mas ela o olhou de volta, com uma intensidade sugestiva pelo que acabara de ver “acontecendo” entre ele e a Weasley. Draco desviou o olhar bem rápido. — Não vou abusar.

Draco foi embora sem se despedir. Papoula balançou a cabeça quando ele estava fora de alcance.

— Não tem sido nada fácil para ele ultimamente. Com tantas atribulações dentro e fora da escola, quem pode dormir bem nesses tempos?

— Por falar em atribulações, a sua criatura mágica acordou — Bervely indicou a cama de Weasley. Papoula deu um pulinho rápido.

— Ah, ótimo! Preciso mesmo trocar aquelas ataduras.

* * *

Bervely foi liberada no fim da noite de quinta-feira, em tempo de substituir Snape nas aulas do sétimo ano, no primeiro horário da sexta-feira.

O sétimo ano era a sua turma preferida, mas também era a que lhe dava o maior trabalho. As poções que os setimanistas precisavam dominar para os N.I.E.M.s eram complexas, cheias de detalhes minuciosos, e os poucos estudantes interessados em prestar N.I.E.M.s em poções tendiam a ser os que almejavam carreiras complexas como medibruxaria, auroria e alquimia, as quais exigiam ao menos cinco outros N.I.E.M.s, o suficiente para deixar qualquer um sobrecarregado.

— Elixir da Mordida Voraz — Bervely anunciou com esforço, a voz mal se projetando para além do púlpito, até os doze pares de estudantes espalhados pela sala de Severus nas masmorras. — Alguém pode me dizer o que faz?

Uma mão se ergueu no ar. Bervely assentiu na direção do setimanista orgulhoso da Corvinal que desde o início daquele ano, e por razões inexplicáveis, adotara costeletas que estaria mais na moda no século XIX.

— Belby?

— É uma fórmula energética e regenerante criada por Otelo Pepper em 1942.

— E quais são as diferenças entre esse Elixir e a Poção da Euforia? — Aquela questão sempre caia nos N.I.E.M.s, então precisava estar na ponta da língua.

— A produção é mais longa, e os ingredientes são mais difíceis de achar. O efeito também dura mais tempo, com menos efeitos secundários, se for feita corretamente.

— Muito bem, Belby, cinco pontos para a Corvinal. As instruções estão na página 460, recolham o que vão precisar no armário de mantimentos, todos os ingredientes foram colocados nas prateleiras sete e oito.

Ela se virou para escrever no quadro, mas parou quando pontos negros dançaram em suas vistas. Bervely apoiou uma mão na mesa para se firmar, de costas para a sala, respirando fundo.

— Uh, professora Black?

— Sim, Belby? — Ela se voltou para o garoto, que parara a meio caminho do armário de ingredientes.

— Está tudo bem com a senhora?

— Tudo ótimo, continue o seu caminho — Ela disse com rispidez. Não estava acostumada com estudantes fazendo perguntas pessoais durante as aulas. Geralmente seu olhar seco era o bastante para desencorajá-los.

— Certo, é só que ouvimos… deixa pra lá — ele acrescentou rápido, ao ver a expressão perigosa no rosto dela.

— O que foi que ouviram? — Bervely pressionou, suas têmporas voltando a pulsar.

— Que a senhora foi envenenada nas masmorras, anteontem — disse Susanna Bones, a dupla de Belby em poções, se aproximando também. — Estávamos nos perguntando se foi algum… sabe, ataque das trevas.

Bervely percebeu o que estava colocando aqueles olhares perturbados no rosto dos dois setimanistas. Eles achavam que ela tinha sofrido um atentado, como tinha acontecido antes com Katie Bell, em Hogsmeade, ou nas masmorras, com as cobras multiplicadoras.

— Não, não foi nada do tipo — Bervely se apressou a negar, vendo que a própria Bell, algumas mesas adiante, ouvia a conversa com interesse. Bell baixou o rosto quando Bervely a pegou espiando, e fingiu que estava conferindo a sua lista de ingredientes. Bervely se voltou para Belby e Bones. — Foi só um acidente infortuno com ingredientes. Agora, se já acabaram com o escrutínio, o Elixir da Mordida Voraz não vai se cozinhar sozinho. Quem conseguir produzi-lo corretamente até o fim da aula poderá ficar com a sua amostra — ela acrescentou, projetando a voz para que o restante dos alunos ouvisse. Setimanistas exaustos nunca perdiam a chance de conseguir uma dose de poção estimulante.

A promessa agitou a turma. Eles se envolveram com o trabalho e Bervely voltou para trás da mesa de Severus, sentando-se na cadeira que ele costumava ocupar. Ainda estava enjoada, a dor de cabeça persistia e a garganta incomodava– engolir era quase impossível, e por isso tinha pulado o café da manhã. Além disso, estava ansiosa. Precisava retornar às suas anotações se queria tentar corrigir a Poção de Acônito até domingo, mas ao invés disso, estava ali dando aulas e tendo que responder sobre o seu estado físico para adolescentes curiosos.

Preocupados, uma voz no fundo da sua cabeça corrigiu. Estavam preocupados com ela. Nunca tinha esperado aquilo de alunos. Às vezes ela se esquecia que eles eram… bem, gente.

Bervely acompanhou a produção do Elixir dali mesmo, logo notando que nenhuma das duplas se aproximaria de uma versão satisfatória até o fim daquela aula. Ela decidiu que os mandaria analisar seus próprios erros num relatório durante o fim de semana, para que pudessem tentar de novo na próxima sexta-feira. Tinha notado que eles tendiam a aprender mais quando eram dados a chance de corrigir a si mesmos, e aquela turma tinha uma boa capacidade de autocorreção, desenvolvida à duras penas pelos seus erros nos seis anos anteriores. Passar aquele dever de casa também lhe pouparia tempo, pois não precisaria avaliar as poções ela mesma.

Tempo. O tempo estava correndo. Aquela seria mais uma noite em claro. Bervely suspirou, deixando que Jinx circulasse pelas masmorras ao invés dela, compartilhando dos seus sentidos para que Bervely pudesse ver e ouvir o que os estudantes estavam fazendo sem precisar se levantar.

— Blac– uh, professora Black?

Bervely se sobressaltou. Ela tinha cochilado? Os setimanistas estavam se levantando, conversando entre si, alguns deixando amostras para ela em cima da mesa, como de costume. Bervely olhou para a estudante que a falava– Katie Bell. A garota a olhava com uma expressão mista de incerteza e inquietação.

— Sim, Bell? — Bervely pigarreou, alinhando a coluna.

— Só queríamos saber se tem dever de casa — ela explicou, hesitante.

Bervely olhou para o resto da turma. Não pareciam terrivelmente incomodados que ela tivesse caído no sono no meio da própria aula, ou então, estavam propositalmente ignorando o fato. Isso não a impediu de queimar de constrangimento, que ela se apressou a ocultar.

— Na verdade, quero que levem a poção consigo e escrevam uma análise do que fizeram de errado durante o fim de semana, para que possam tentar de novo da próxima aula.

Houve um murmúrio geral de desânimo para o dever de casa no feriado, mas os setimanistas que tinham deixado amostras em sua mesa retornaram para recolher seus frascos, alguns parando para se despedir. Belby lhe deu um sorriso de encorajamento antes de enfiar o seu frasquinho de poção no bolso do uniforme.

— Aguenta firme, professora. O trimestre está quase terminando.

Bervely não o dignou resposta, mas um sorriso mínimo despontou no canto de sua boca. Belby não era nem de longe um pocionista genial como o seu tio, que ironicamente era o inventor da poção que ela estava tentando modificar no seu tempo livre — mas era um aluno competente, e educado à moda antiga.

Bervely percebeu que Bell ainda estava por ali, matando tempo.

— Mais alguma coisa, Bell? — Bervely perguntou com certa aspereza, ainda sem graça por ter sido pega cochilando.

— Eu só queria… — Bell se empertigou, encarando-a nos olhos, o que a forçou a erguer a cabeça, uma vez que Bervely estava em cima do púlpito. — Percebi que nunca agradeci por ter salvo a minha vida com o seu antídoto, naquela noite das cobras loucas.

— Ah — Bervely não tinha esperado por aquilo. — Bem, não precisa. Não foi nada pessoal.

Katie vacilou.

— É, eu imaginei. Mas essa é mais uma razão para agradecer, eu suponho.

— O que eu quis dizer é que eu teria feito o antídoto para qualquer estudante — Bervely explicou, para o caso de ela ter entendido errado.

A setimanista não pareceu convencida, mas se voltou para o material escolar que estava enfiando na mochila. Bervely começou a recolher suas próprias coisas, julgando a conversa por terminada, ansiosa por encontrar a sua banheira cheia de água quente, que lhe esperava em seus aposentos, e talvez pedir um chocolate quente da cozinha antes de ir até a estufa de Bellatrix…

— Eu sei que vocês passaram a noite juntos — Katie disse de repente. — Você e Oliver.

A têmpora de Bervely deu outra pontada. É claro que aquela conversa ia degringolar para terrenos Woodianos. Devia ter insistido com Severus que não era uma boa ideia ser a professora da turma na qual a atual namorada do seu ex-namorado estava. Mas então, essa conversa com Severus teria sido outro tipo de dor de cabeça.

— Nós não… — Só que, tecnicamente, eles tinham passado a noite juntos. No sentido de que ela e Oliver tinham passado algumas horas da noite na mesma casa, ela no andar de cima, tentando manter Nymphadora viva, e Oliver no andar de baixo esperando por Madame Pomfrey. — Não foi o que você está imaginando.

Você não deve satisfações para Katie Bell, lembrou-lhe a voz razoável, porém atrasada, da sua consciência.

— Ah, eu sei. Oliver me contou o que aconteceu… bem, mais ou menos. Ele me disse que alguém da sua família precisou de ajuda médica. Enfim — ela fez um aceno com a mão, como se os detalhes não fossem importantes. — Ele também me disse que vocês conversaram um tanto. Tiveram a chance de, sabe, colocar algumas coisas em perspectiva.

— Bell, qual o propósito dessa conversa? — Bervely perguntou, sua paciência se esgotando à medida que a dor de cabeça crescia. — Eu e Wood conversamos. E daí?

— Não, veja, isso é bom — a garota enfatizou, como se tentasse convencer a Bervely e a si mesma. — Acho que vocês precisavam! Oliver precisava, ao menos. Sabe, eu acho que ele ainda gosta um tanto de você.

Então aquilo era sobre as inseguranças juvenis de Bell? Ela achava que seu namorado ainda tinha sentimentos por Bervely? Era tudo que lhe faltava.

— Não acho que seja o caso — Bervely disse. Não que precisasse esclarecer nada com Bell, mas achou que devia, para o bem de sua paz mental. — Wood gosta de você.

— Eu sei — Katie Bell assentiu, um brilho estranho nos olhos castanhos. — Também sei que ele jamais faria qualquer coisa para me magoar, porque, bem, ele é Oliver. Mas não sou idiota, sei que tem uma parte dele que sempre vai te colocar em um pedestal, um com o qual nem eu nem ninguém pode competir. — Ela suspirou, erguendo o rosto para Bervely, suspeitosa. — Mas, e quanto a você?

— E quanto a mim, o quê? — Bervely perguntou, achando que tudo naquela conversa era surreal e inapropriado.

— Você ainda tem sentimentos pelo Oliver?

Bell segurou o seu olhar e não piscou. Ela não ia, Bervely percebeu, sair dali sem a sua resposta. Malditos Grifinórios e sua maldita assertividade.

— Eu não tenho sentimentos românticos pelo seu namorado, se é o que está perguntando — disse ela com secura. Bell pareceu aliviada.

— Ótimo — ela disse, relaxando. — Uma coisa é competir com a Bervely da cabeça de Oliver, a outra é competir com a de carne e osso. Mais osso do que carne, ultimamente — ela arriscou, mordendo um sorriso. Bervely não sorriu.

— Não tem competição nenhuma, Bell. Oliver está com você.

A garota assentiu, rápido e resoluta.

— Eu sei. Eu sei.

Não cometa o mesmo erro que eu, Bervely completou em pensamento. Bell pescou a mochila pesada em cima da mesa e a jogou por cima de um ombro com facilidade. Ela olhou nos olhos de Beverly, séria novamente.

— Oliver estava certo. Você não é uma pessoa terrível.

— Bem, se Oliver acha isso, então deve ser verdade — ela zombou. Bell ia retrucar, mas percebeu o brilho de humor irônico nos olhos de Bervely e deu um sorriso pequeno.

— Até mais, professora Black.

* * *

Bervely voltou para os seus aposentos no fim do dia, só para descobrir que tinha companhia. Severus estava sentado em sua escrivaninha, lendo um dos seus grimórios de notação alquímica, um vinco profundo entre as espessas sobrancelhas negras.

Severus não frequentava o seu laboratório regularmente. A última vez que ele estivera ali fora há mais de um mês, à procura da poção para os danos que os sucessivos Cruciatus do Lorde das Trevas lhe causara.

Ele não parecia com dor no momento, a não ser se fosse considerar a dor do esforço para entender o que ela escrevera em suas notas.

— A sua formulação é astuciosa, mas a sua caligrafia é sofrível. Como consegue entender o que escreve?

Bervely percebeu qual dos seus grimórios de notação alquímica ele tinha em mãos – aquele em que ela vinha anotando os passos da nova formulação para a poção de Acônito.

— O senhor não devia estar olhando isso! — Ela disse, irritada. — O que está fazendo aqui, de toda maneira?

— Ajudando — ele resmungou, sem se perturbar. — Vejo que ajustou a dose de lunária para a idade da Sra. Tonks, mas o acônito para o peso esperado do feto. Acha que é a decisão mais acertada?

— Sim, é claro que é a decisão mais acertada.

Bervely desistiu de tentar tirar o livro das mãos do mestre de poções, e puxou um dos bancos altos para se sentar, esperando o restante do veredicto dele. Parte dela estava nervosa em ter o seu trabalho incansável das últimas semanas sob o escrutínio do padrinho, a outra parte desesperada por qualquer opinião que a ajudasse a descobrir o que tinha feito de errado. Mesmo que isso significasse ter os seus erros apontados por Severus.

— Como obteve ichor fresco para a fermentação da mirra? — Ele perguntou, chegando na parte em que Bervely anotara as suas tentativas de evitar que a acidez típica das conservas de mirra compradas prontas. Severus balançou a cabeça, pensando melhor. — Não responda. Provavelmente é melhor se eu não souber.

Bervely cruzou os braços. Ele dizia aquilo, mas ainda estava ali, lendo suas notas.

— Pensei que não queria se envolver em qualquer coisa que o pusesse “sob escrutínio ministerial desnecessário”.

— Não é o que estou fazendo. Estou apenas aconselhando um projeto teórico e hipotético, portanto totalmente lícito, de um dos meus subordinados.

Bervely não disse nada, mas o calor de gratidão por Snape aqueceu seu peito. Ela esperou, em quieta expectativa, que ele terminasse de passar os olhos pelas suas muitas páginas de notas detalhadas.

— Vejo que decidiu usar a semente, ao invés da raiz do acônito — ele pontuou, intrigado.

— A concentração de aconitina na semente é menor do que na raiz — Bervely justificou.

— Mas as sementes são menos reativas do que a raiz.

— Por isso adicionei o pó de fogarina à segunda fase de cozimento.

— Ah, eu vejo. Mas ainda assim, as sementes têm um teor venenoso considerável.

— Por isso adicionei a beladona.

Severus voltou algumas folhas, franzindo para ler as notas maiúsculas de Bervely na borda da página.

— Usou Beladona para neutralizar o acônito? Um veneno contra o outro?

Bervely encolheu os ombros.

— Foi a solução mais viável. A Beladona só reage com o Acônito, não interfere com os demais ingredientes.

— E quanto ao efeito da Beladona?

— Neutralizado pela fogarina na primeira fase de cozimento.

— Ah — ele murmurou, impressionado. — Uma solução elegante.

Um elogio, enfim, ela pensou com um sorriso.

Mas o seu sorriso morreu rápido. Por mais elegantes que as suas soluções pudessem ter sido, a poção ainda era tóxica e Bervely não sabia onde estava o problema. Bem, ela sabia qual era o problema – errara no ingrediente adicional, aquele que faria com que a poção fosse mais do que a soma dos venenos e dos seus respectivos antídotos, uma exigência para que o antídoto incluído na fórmula fosse efetivo. Severus chegou à mesma conclusão, eventualmente.

— Pó de chifre de bicórnio?

— Achei que fosse funcionar — ela suspirou, frustrada. — Funcionou com outros antídotos. Com aquele que fiz para o veneno da serpente multiplicadora, por exemplo.

— A poção de Acônito não é uma fórmula qualquer, que você pode resolver com ingredientes medíocres — ele disse, pensativo.

Bervely tomou o comentário como uma ofensa pessoal. Ela sabia disso, e não tinha tentado subestimar a complexidade da Poção de Acônito. Só achara… que estava sendo esperta. Que tinha feito os cálculos corretamente, entendido a interação dos ingredientes por completo. Mas, se enganara.

— Provavelmente o pó de bicórnio foi o que danificou a sua garganta — ele acrescentou, como se ela já não soubesse. — A mistura de mercúrio pulverizado e bicórnio resulta em uma liga extremamente corrosiva.

— Eu supus que o mercúrio estaria neutralizado na altura que adicionei o pó de bicórnio — Bervely o informou.

Ela tinha suposto muita coisa. Tivera pouco tempo para fazer os testes individuais de cada interação, para verificar cada combinação entre os ingredientes que estava adicionando, com os que já faziam parte da fórmula. Se fosse seguir o procedimento padrão para aquele tipo de modificação, precisaria de meses, não semanas.

— Você supôs — Severus ergueu o rosto, os olhos zangados. — E apostou que estava certa às custas da sua própria vida?

— Eu nunca estive correndo risco de vida — ela retrucou, desviando o olhar dele. — O senhor conseguiu me achar e me salvar, não foi? Obviamente eu tinha tudo sob controle.

Bervely teve a impressão de que Severus ia pular sobre o balcão para sacudi-la. Ao invés disso, aquela veia na têmpora esquerda dele começou a pulsar.

— O que a leva a encarar a sua própria vida de forma tão leviana?

Ela o encarou. Apesar de sua irritação, a pergunta não fora acusatória. Tinha um tom… decepcionado?

Um vulto prateado pulou sobre o balcão, os interrompendo, miando alto.

— Esse gato…! — Snape praguejou, mas Bervely conhecia bem aquele miado.

— O que foi agora? — Ela perguntou, esticando a mão para ver o que o gato queria lhe mostrar. Ela o tocou e foi invadida por uma imagem do dormitório da Sonserina. Draco de novo, dessa vez sentado em sua cama, usando vestes bruxas tradicionais e segurando uma carta nas mãos pálidas. Ele tocou o selo da carta e desapareceu num redemoinho.

Bervely xingou, piscando de volta para o laboratório e para Severus.

— Draco acabou de deixar a escola usando uma chave de portal — ela contou, alarmada.

— Impossível. Nenhuma chave de portal poderia entrar em Hogwarts sem ser detectada.

— Pois essa entrou — Bervely o informou. — Era o selo da casa Lestrange. Bellatrix…

Os olhos já escuros de Severus se tornaram sombrios e preocupados.

— Tem certeza? — ele perguntou, a voz grave. Bervely assentiu, os olhos se arregalando ao perceber que era sexta-feira. — Hoje não é noite de, uh, reunião?

Snape demorou um segundo para perceber que ela se referia à reunião de comensais da morte.

— Não, foi cancelada. Páscoa.

— O Lorde das Trevas celebra a páscoa? — Ela piscou, surpresa.

— Não, Bervely, mas muitas famílias bruxas o fazem. Se de repente certas pessoas estivessem ausentes às celebrações com suas famílias, isso poderia levantar suspeitas indesejadas.

Severus se levantou, movendo-se para caminho da porta. Bervely foi atrás dele.

— Acha que Draco pode estar em perigo?

— Se eu acho– a carta era da sua mãe, você disse? Como tem tanta certeza? Bellatrix não é a única integrante da casa Lestrange.

Bervely hesitou, um bolo em sua garganta ao se lembrar da visita do elfo Tamby.

— Recebi uma carta similar de um elfo da família, há uma semana. Me convidava para celebrar Ostara com a, uh, família.

Snape parou para observá-la com um olhar peculiar.

— É convidada para os eventos da sua família com frequência?

Não — Bervely negou, com uma careta. — É claro que não.

Ele ainda parecia refletir sobre o assunto com intensidade, os olhos negros de besouro a perscrutando.

— Eu estaria arriscando a minha posição se tentasse interferir, caso esse seja um plano do Lorde das Trevas.

— Acha que ele mandou Bellatrix convidar Draco para Ostara? — Ela arfou. Snape lhe deu um olhar sério.

— A possibilidade não pode ser descartada. Eu não devia lhe dizer isso, mas o Lorde das trevas esteve usando Draco em alguns dos seus planos em Hogwarts, no início do ano.

— Eu sei. Ele queria que Draco matasse Dumbledore — ela disse sem pestanejar.

Se ele ficou surpreso que Bervely soubesse da informação, disfarçou rapidamente.

— Bem, então sabe que Draco falhou miseravelmente e que agora Dumbledore está fora de alcance. Suponho que o Lord queira redirecionar Draco, mas tem sido difícil contatá-lo, desde que Draco e Lucius não estão mais em contato.

— Não acho que Draco ainda esteja interessado em prestar serviços para o Lorde — Bervely disse, lembrando-se do olhar no rosto do primo toda vez que o assunto vinha à tona.

— Não importa o que Draco quer. Especialmente agora que Lucius está… — ele se interrompeu. — Como eu disse, não sou o mais indicado a ir, nem seria bem vindo na Mansão Lestrange sem um convite. Mas, você recebeu um.

Ela gelou, demorando a processar o que ele estava sugerindo.

— Você quer que eu vá atrás de Draco?

— Você é esperada.

— Não acho que eu seja. Eu o queimei, o convite — acrescentou, só pra ver se ele entendia, mas Severus não pareceu ouvi-la. Bervely vacilou. — O que aconteceu com o seu discurso sobre não colocar a minha vida em risco de forma leviana?

— A sua vida não estaria em risco, caso essa seja apenas uma reunião familiar. Pelo que me lembro, você e a sua mãe estão em bons termos, não? Ela não a salvou de Azkaban e lhe enviou a cabeça de Thor Carmichael em uma caixa?

Bervely ficou encarando Severus com a boca semiaberta. Supunha que estivessem. Isso ainda não mudava o fato…

— E se o Lorde das trevas estiver lá? — perguntou baixo, o redemoinho de um medo antigo ressuscitando em suas entranhas.

— Se for o caso, você não estará indefesa. Venha comigo.

* * *

Bervely retornou para o seu quarto depois de uma visita breve ao laboratório particular de Severus. Ela enfiou a garrafinha de poção que ele lhe dera no bolso e começou a se preparar, tentando não pensar naquilo muito a fundo.

Reunião de família.

Em Blackburn hall.

Ostara…

Ela desenterrou do fundo da gaveta um jogo de vestes tradicionais que não usava há muito tempo e se enfiou nelas o mais rapidamente que podia, tentando ignorar a pedra de gelo crescendo no fundo do estômago.

Jinx estava por ali, desaprovando a decisão em miados altos que Bervely também fingiu não ouvir. Suas mãos suavam quando ela arrancou as botas de viagem do closet.

O pop inesperado de aparatação atrás dela a fez soltar um grito e um palavrão.

— Winky se desculpa, Srta. Black! Winky não quis causar sobressalto!

Bervely soltou a respiração. Era só um dos elfos de Hogwarts, uma elfa magrela e usando uma boina vermelha desbotada.

— O que você quer? — perguntou sem olhá-la, correndo para trocar os sapatos.

— Winky só veio avisar que há uma carruagem esperando pela senhorita nos terrenos da escola.

— Uma car… – O coração de Bervely caiu no chão, entre as botas. Gomorra. Regulus lhe prometera enviar uma carruagem para que pudesse visitá-los. Com toda a confusão, ela se esquecera de que a carruagem chegaria aquela noite, e não no dia seguinte.

A carruagem que a levaria até Sirius– até Regulus – a estava aguardando.

— Senhorita… o que Winky diz para a carruagem?

Bervely parou no meio do quarto, tentando decidir, atormentada.

* * *

Se Bervely um dia precisasse explicar a alguém como chegar até a propriedade dos Lestrange em Lancaster, não seria capaz de oferecer direções. Não poderia apontá-la num mapa. Mas, fosse como fosse, ela era capaz de direcionar, deliberar e destinar-se para a mansão em que passara os poucos e mais traumáticos meses da sua infância.

A visão de Blackburn Hall naquela noite clara de início de primavera fez o estômago de Bervely se apertar num nó. Da última vez que estivera ali, fora para confrontar Charlotte Summers sobre a sua tentativa de sequestrar Potter. Theodor a seguira, o que acabou rendendo a Bervely uma estadia em Azkaban…

Foco, ela exigiu a si mesma. Segurar as rédeas de sua mente aquela noite era mais importante do que nunca. Prometera a Severus um resgate rápido de Draco. Achá-lo e convencê-lo a voltar ao castelo. De preferência, sem ser vista pelos anfitriões…

Latidos altos interromperam os pensamentos de Bervely. Ela esperara feitiços de detecção – e estava preparada para eles – mas não para o enorme vulto branco que galopava em sua direção, atravessando o terreno entre ela e a mansão em velocidade alarmante. Bervely ergueu a varinha, a mão estremecendo. O cão tinha uma mandíbula enorme, as presas compridas cintilando na escuridão a cada latido. As patas que levantavam terra seca eram do tamanho da cabeça dela. A cauda eriçada atrás do animal era bifurcada, exatamente como o dos cães que faziam a segunda linha de defesa de Azkaban. Os cães que tinham devorado Theodor…

— Dragão, arrête! — Exclamou uma vozinha estridente atrás do animal, sua fonte invisível na penumbra.

O cão obedeceu, derrapando a poucos metros de Bervely, rosnando baixo, os olhos cravados nela.

— Tamby pede perdão pelo sobressalto, senhorita Black — disse o elfo, surgindo no campo de visão de Bervely. Ele fez um círculo amplo em torno do cão, que era três vezes maior que ele. Sua carinha enrugada estava aborrecida. — Dragão tem sido muito mal criado com as visitas!

— Tamby — Bervely se aprumou, abaixando a varinha sem tirar os olhos do cão, a respiração ainda alterada. — De quem é essa coisa?

— A senhorita é esperada no parloir para o aperitivo — disse o elfo com prontidão, se posicionando em frente ao cão como se o seu corpo miúdo pudesse escondê-lo. — A casa Lestrange apresenta as suas boas vindas esta noite.

— Não, eu… preciso falar com o Sr. Malfoy, primeiro. Draco — ela especificou, só para a possibilidade de haver outro Malfoy dentro da casa. — É urgente.

— O jovem Sr. Malfoy está socializando no parloir — disse o elfo com eficiência, esticando o braço para o caminho que Bervely devia seguir, parecendo ansioso de tirá-la da mira do enorme cão que continuava a rosnar atrás dele.

Bervely também estava ansiosa para se ver livre do monstro branco, mas ela não tinha certeza se socializar com Bellatrix dentro da casa era uma opção muito melhor.

— Eu… — hesitou, as entranhas geladas. Seu hálito condensou ao escapar da sua boca para a noite fria. — Certo.

Sem opção, Bervely seguiu o elfo, enfiando as mãos geladas nos bolsos das vestes. O cão – Dragão— fechou o cortejo, acompanhando-os com desconfiança. Bervely tentou caminhar com dignidade, apesar do medo de que ele começasse a devorar seus calcanhares.

Mademoiselle vai ficar tão satisfeita — tagarelou o elfo, guiando-a através do caminho que levava até a porta de entrada da Mansão. — Ela não estava certa de que a senhorita Black aceitaria o seu convite.

— Satisfeita — Bervely repetiu, a palavra apertando o nó em seu estômago. — Nem posso imaginar.

— Tamby sabe que não estiveram nos melhores termos nos últimos anos — O elfo lhe deu uma olhada breve, como se recriminasse Bervely pelo fato. — Mas ela ficará feliz de que pôde colocar suas diferenças para trás e aceitar o convite.

Ou o elfo estava delirando, ou não estavam falando da mesma Bellatrix. Satisfeita? Diferenças? E por que o elfo a chamara de mademoiselle? Não que ela esperasse um francês perfeito de um elfo doméstico, mas será que o elfo não sabia que aquele não era o pronome apropriado para uma bruxa casada?

Bervely subiu a escadaria principal que levava até a porta de entrada, o resfolegar de Dragão logo atrás dela. O elfo fez um sinal com os dedos ossudos e as portas duplas se abriram o suficiente para deixá-los passar. O cheiro da casa assaltou o nariz de Bervely como um soco. Amargo e familiar, inóspito e acolhedor, uma contradição feita de ossos secos e correntes de ar frio. Casa. Ela fechou os olhos, combatendo o pensamento. Blackburn Hall nunca fora a sua casa. Ela só queria muito que fosse, certa época. Quando era uma Bervely muito diferente.

— Tamby pode recolher sua capa de viagem — O elfo ofereceu, trazendo Bervely de volta ao mundo real. Ela deslizou a capa dos ombros, revelando as vestes bruxas tradicionais por baixo. Feitas de veludo verde-escuro, bordadas no peito e ombros com constelações douradas. A capa se alongava até os seus tornozelos, com mangas justas até os cotovelos e então amplas até os pulsos. Uma das poucas vestes que guardara da sua adolescência– Narcisa a encomendara sob medida para que ela usasse em eventos como aquele. Era enfeitiçada para se adaptar ao seu corpo, feita para durar muitos anos.

— Tamby vai mostrar o caminho até o parloir.

— Eu sei o caminho, elfo — ela se adiantou. — Não sou uma estranha nessa casa.

— Tamby se desculpa — O elfo fez uma reverência pequena e constrangida, beliscando as próprias orelhas em autopunição. — A srta. Black era apenas uma menina, Tamby não achou…

Bervely deixou o elfo falando sozinho e seguiu o som das vozes e o calor das luzes até o salão de acolhimento da mansão. Blackburn Hall não mudara nem um pouco – continuava mais fria do que uma casa deveria ser, com rangidos misteriosos ecoando feito gemidos enquanto ela caminhava.

Bervely voltou a tirar a varinha do bolso e a escondeu na manga das vestes. O massivo cão se adiantou aos seus passos e alcançou o parloir antes dela.

O elfo também se apressou e passou derrapando por Bervely no último segundo, a tempo de anunciá-la.

Mademoiselle Lestrange, a Srta. Bervely Black, está aqui.

Bervely respirou fundo e atravessou o segundo par de portas duplas, preparando-se para encarar Bellatrix.

Mas quem a esperava na sala, uma mão sobre o ombro de Draco, um sorriso de expectativa no rosto, era Charlotte Summers.

O rosto de Charlotte estava ainda mais fundo e pálido do que Bervely se lembrava. Se da última vez que vira Charlotte há quase cinco meses ela lhe parecera convalescente, agora ela parecia… como alguém que estava doente novamente.

— Você veio — ela disse, os olhos largos e impressionados. Ainda eram os mesmos olhos brilhantes, do azul mais puro e enganador, os olhos de boneca que tinham conquistado Hector. E Theodor, depois dele.

O cão foi até Charlotte, o rabo bifurcado abanando com excitação. Ela ergueu uma mão pálida e acariciou a cabeça enorme com afeição.

Bon chien — disse ela para o cão, e então brevemente para Draco. — Esse é Dragão, sobre o qual eu estava lhe falando. Foi nomeado em sua homenagem, sabia?

Draco lançou um olhar para Bervely, em muda confusão. Bervely ficou feliz em saber que não era a única perdida ali.

Você é a "mademoiselle Lestrange” a que o elfo se refere? — Ela inquiriu, contrariada. — Desde quando tem direito de usar esse sobrenome?

Charlotte corou, um grande feito, visto que o sangue em geral parecia ter desistido de colorir as suas feições.

— Tamby está antecipando a ordem das coisas um pouquinho, para o meu benefício — ela disse com um sorriso vacilante. — Mas na verdade, é só uma questão de tempo. Você entenderá em breve.

Bervely franziu para o comentário emblemático.

— Eu não pretendo ficar — disse, num tom que deixava claro o seu desinteresse no assunto. — Só vim buscar Draco. Vamos, precisamos voltar ao castelo.

A mão de Charlotte ainda estava pousada no ombro de Draco, que não fez nenhum movimento para segui-la.

— Eu vou ficar, Charlotte me convidou para o jantar.

Bervely aspirou fundo, buscando um autocontrole que não sabia se tinha. Parte dela estava aliviada ao dar-se conta de que Bellatrix não estava ali, mas ainda não gostava de estar sob território inimigo.

Território inimigo. Nunca tinha pensado assim sobre Blackburn Hall, antes.

— Draco, Charlotte provavelmente tem razões para querer você aqui. Razões que ela não está lhe contando — acrescentou, incisiva.

Porque Draco insistia em sua cegueira no que dizia respeito a Charlotte, ela nunca entenderia. Não fora clara o bastante quando lhe dissera que Charlotte tinha sido a verdadeira culpada pela morte de Theodor? De Hector?

— Nem tudo é uma conspiração, Bervely. Além do mais, é você quem não me conta as coisas que me dizem respeito, se lembra? — disse Draco acidamente.

Bervely cerrou os olhos para a alfinetada. Então Draco ainda não tinha superado seu lapso sobre a morte de Chang.

— Draco, sei que está aborrecido comigo…

— Agora, agora, vocês dois — interrompeu Charlotte numa voz efusiva, juntando as palmas das mãos em frente ao corpo. Bervely viu um anel grosso de ouro cintilar em seu anelar direito. — Não os chamei aqui para discutirem! Bervely, posso oferecê-la algo para beber, enquanto aguardamos os demais?

As entranhas de Bervely se enrolaram de novo.

— Quem mais você convidou?

— O resto da família, é claro — disse Charlotte como se a pergunta fosse óbvia e ridícula. — Ostara deve ser comemorada em família, afinal de contas.

— “Família” — Bervely repetiu, cínica.

— É claroCharlotte completou, um brilho instável nos olhos aquosos. — Agora, se me dão licença um minuto, vou colocar Dragão para fora antes que cheguem. Tamby, veja o que a Srta. Black vai querer beber, está bem?

Charlotte saiu deslizando pelo salão, o cão branco em seus calcanhares. Bervely notou que ela se movia de um jeito estranho, rígido. O cheiro do perfume de Charlotte, uma mistura enjoativa de jasmim e baunilha que ela usava desde sempre, a alcançou quando a mulher passou por ela, e ajudou com o aperto na base de sua garganta.

— Vamos. Agora — Bervely rosnou a Draco por entre os dentes, se aproximando para agarrá-lo. — Antes que alguém mais chegue.

— Você pode ir — Draco resistiu, cruzando os braços para que Bervely não o puxasse. — Eu vou ficar. Charlotte disse que tem coisas que eu preciso saber.

— “Coisas” — Bervely zombou, incrédula. — Ela foi mais específica, ou essa isca vaga bastou para lhe trazer até aqui?

— Isca? — Draco torceu o rosto. — Isso não é uma armadilha, Bervely. Charlotte não é uma partidária de… Você sabe quem. Ela é como nós!

— Exceto que ela estava de conluio com Bellatrix! — Bervely grunhiu, querendo enganá-lo por ser tão tonto. — E ela colocou o uísque Blackburn no mercado novamente, o que está financiando a causa d’Ele!

— Porque ela foi obrigada — Draco disse com irritação. — Não é a primeira vez que um de nós é obrigado a fazer algo por Ele, é? Você deveria saber como é, entre todas as pessoas!

Bervely nem sabia por onde começar a entender aquilo, mas não havia tempo para discutir com Draco o mérito da questão.

— Ela disse que tem mais gente vindo — Bervely rosnou baixo. —Sabe o que isso significa, não sabe?

Draco franziu para Bervely.

— Não me diga que está com medo de tia Bella e tio Rodolphus?

— Bem, e se o Lorde das Trevas estiver vindo com eles? Quer mesmo explicar para ele por que fugiu da sua cerimônia de seleção, e porque ainda não matou o professor Dumbledore?

Draco hesitou, empalidecendo.

— Ele não vai… ele não tem por que vir aqui hoje. Você ouviu o que Charlotte disse, ela só convidou a família! Ele não é da família!

Mas Bervely percebeu que era tarde demais quando ouviu novos estalos de aparatação do lado de fora da casa.

(Continua…)