A Canção de Morgana

48 A Sentença de Nymphadora


Notas iniciais
Mais uma atualização antes do ano virar! Boa Leitura ;*

A lua cheia se destacava no céu cada vez mais escuro quando os telhados salpicados de neve de Hogsmeade apareceram ao longe.

— Para onde? — Oliver perguntou. Bervely voltou a apertar os olhos, o estômago dando voltas e as pernas fraquejando ao verificar a que altura estavam.

— Casa dos Gritos — disse, a voz embargada.

Oliver desviou o curso ligeiramente para a direita contrariando um vento gelado que não tinha existido ao nível do chão, e dirigiu a vassoura até a pequena elevação em que o velho casebre ficava, os pousando em segurança.

Bervely cambaleou um pouco ao passar a perna para fora do cabo da vassoura. Oliver teve a gentileza de colocar a mão em seu ombro para estabilizá-la. A pele dela ardeu no ponto de contato.

— Aqui, tem certeza? Está abandonada há anos.

— É claro que está — ela disse irônica, sacando a varinha só para o caso. Não achou, no entanto, nenhum sinal de que uma fera mortífera estava tomando o corpo de um humano do lado de dentro da casa. As janelas barradas com tábuas não davam indício de luz acesa, e nenhum ruído vinha do seu interior.

— Tem alguém lá dentro esperando por você?

— Oliver — ela o interrompeu, antes que ele começasse a fazer muitas perguntas que não podia responder. — Obrigada pela carona, mas é melhor eu seguir sozinha a partir daqui. Você pode retornar para o castelo.

Bervely esperava que sua voz tivesse soado convincente. Caso algo estivesse errado com a poção de Acônito que enviara para Lupin mais cedo, o que estava lhe esperando dentro era um lobisomem adulto e faminto.

— Não sei não, Rose.

A silhueta prateada de Jinx despontou na estradinha que ligava a Casa dos Gritos ao vilarejo, se aproximando deles com a mesma urgência com que tinha feito nos terrenos de Hogwarts.

— Como ele chegou aqui tão rápido? — Oliver perguntou, ao avistar o gato também. — Ele aparatou?

Não seja bobo — ela disse por cima da respiração, agachando com a mão estendida para o gato. — Não se pode desaparatar dos terrenos da escola…

Oliver tentou retrucar a sua resposta, mas, do chão, Bervely cravou nele um olhar sério.

— Você precisa ir embora agora. Não pode entrar comigo.

— Ou vou me meter no mesmo tipo de problema que você está metida?

— Você aprendeu rápido — Bervely lhe deu um sorrisinho tenso.

Oliver exalou com impaciência.

— Por que é sempre assim com você?

Bervely não lhe deu atenção, não tinha tempo para trocar farpas. Jinx, que acabara de alcançar sua mão, continuava lhe enviando sinais de que a situação dentro da casa exigia atenção urgente.

— Eu vou ficar bem — ela o garantiu. — Tenho tudo sob controle. Sério.

Ele hesitou, o vinco teimoso entre as sobrancelhas que ela bem conhecia.

— Vou esperar aqui fora, então. Só por garantia.

Bervely não deixou transparecer, mas ficou aliviada de que ele não pretendia lhe deixar ali sozinha.

— Certo. Se eu precisar de ajuda, mando Jinx.

— Se ele não voltar em dez minutos, vou atrás de você — Oliver avisou. Bervely assentiu. Jinx deu outra cabeçada impaciente em sua mão. Anda logo.

Sem outro olhar para Oliver, Bervely atravessou a distância até a casa e deu a volta na construção, buscando a porta dos fundos. Jinx a acompanhou de perto, e logo ambos estavam fora das vistas de Oliver. Por mais grata que ela estivesse que ele insistira em esperar, sabia melhor do que revelar para Oliver que o local vinha sendo usado como sede de uma organização secreta contra Voldemort da qual ele não era um membro. Remus, lobisomem ou não, ficaria feliz em comer seu fígado se ela o fizesse.

O mais silenciosamente que pôde, ela usou a série de senhas mágicas que Sirius tinha lhe ensinado para destravar a porta da cozinha e a empurrou uns centímetros, pronta para fechar de novo ao menor sinal de movimento do lado de dentro.

Mas tudo estava quieto.

— Você vai na frente — ela sussurrou ao gato. Se bem se lembrava, lobisomens não ofereciam perigo para animais. — Me mostre o que está acontecendo.

Jinx deslizou pelo vão e ela fechou a porta rapidamente atrás dele. Acatando o pedido, o gato compartilhou os sentidos com ela. Bervely se apoiou na parede áspera quando a sua perspectiva foi substituída pela de Jinx, perto ao nível do chão. A cozinha pelos olhos do gato era desbotada em tons esverdeados e azuis. Bervely agachou-se colada à parede, cuidando para não perder o equilíbrio, e assistiu a cozinha virar a sala, na mesma penumbra monocromática e ligeiramente desfocada nas bordas que a visão do gato reproduzia.

Um grito rasgou os ouvidos de Jinx, e os de Bervely por consequência. Ela se enrijeceu, apertando a varinha com força na mão esquerda. Não tinha esperado pegar Lupin no meio da sua transformação. Ele já devia estar transformado àquela altura, com a lua cheia no céu há quase uma hora….

Outro grito, mais longo e torturado, veio do andar superior. Bervely prendeu a respiração. Não era Lupin. Aquele grito fora definitivamente feminino.

Jinx seguiu o som, mas parou para farejar uma capa de viagem largada de qualquer jeito em um dos braços do sofá puído da sala.

Tonks.

— Vá até ela! — Bervely mandou, num sussurro urgente.

Jinx subiu as escadas em um par de segundos, seus movimentos felinos hábeis vencendo dois degraus de cada vez. Não precisou ir muito longe– Tonks tinha caído a meio caminho do corredor, joelhos no chão, o rosto branco, os olhos injetados de dor.

Ela gritou mais uma vez, apertando a barriga como se pegasse fogo.

Bervely se levantou, tateando às cegas atrás da maçaneta, e fez seu caminho para dentro da cozinha aos esbarrões.

— Dora! — chamou, alcançando a sala e tropeçando o seu caminho escada acima. A visão compartilhada com Jinx desvaneceu, deixando a casa no breu para os seus olhos humanos. — Lumus! Dora! Sou eu, o que acontec–

Ela foi interrompida por outro gemido alto. Sob a luz de sua varinha, Bervely viu a prima de joelhos no chão, apertando a barriga com uma mão, a outra sustentando o corpo que tremia. Bervely procurou por sinais de que ela estivesse ferida, mas não achou nenhum sangue ou sinal de batalha.

O cabelo da metamorfomaga, completamente branco, refletia a luz da varinha de Beverly, colando-se ao seu rosto suado e escondendo parcialmente a expressão contorcida em seu rosto.

— Foi Remus quem mandou você aqui? — Ela perguntou por entre os dentes travados quando Bervely se agachou ao seu lado, tentando erguê-la pelos ombros.

— Sim! Onde é que ele está?

— Eu sei lá onde diabos ele– AHHH!

Dora cobriu a mão de Bervely com a sua e apertou. Bervely travou os lábios, tentando não gritar junto com ela.

— É o bebê? Tem alguma coisa errada com ele?

— Não tem nada de eerrado com ele — A prima arfou, conseguindo soar irritada por entre os gemidos. — É só a droga da lua cheia.

Bervely arregalou os olhos.

— Isso já aconteceu antes? Mês passado?

Nymphadora assentiu, apertando os dentes para abafar um novo gemido, o rosto se tingindo de vermelho, as veias em sua têmpora pulsando altas e bem azuis.

— Apenas me ajude a- argh- a voltar para a cama? Sair não foi uma boa ideia…

Bervely ajudou-a a se levantar e foi sustentando-a com dificuldade até o quarto que de Lupin, no fim do corredor, à direita. Era pequeno, escuro e tinha cheiro de madeira apodrecida, como os demais. Nymphadora desabou na cama com outro gemido e se enrolou em torno da barriga, os olhos apertados.

— Eu estava tentando ir até a cozinha para fazer um pouco de chá — ela disse entre respirações pesadas. — Às vezes o ac-calma.

Bervely se sentou ao lado dela, afastando o cabelo suado da testa da prima e apontando a varinha para a sua têmpora.

— O que é que você está fazendo? — Ela abriu os olhos para espiar. Estavam cor de âmbar, quase amarelos, como os de Lupin ficavam perto da lua cheia.

— Medindo a sua temperatura — disse Bervely, se concentrando. — Sua pele está pegando fogo.

— Não sou eu — Dora murmurou, fechando os olhos de novo. — É o bebê…

Bervely realizou o feitiço Termostatus, um dos muitos que tinha aprendido na época em que precisara se fingir de curandeira em Azkaban. A esfera produzida pelo feitiço pairou sobre a testa de Nymphadora e se tornou um vermelho vibrante.

— Isso não é bom. Você precisa ir para o hospital. Vou mandar uma mensagem para Andrômeda…

A mão de Nymphadora se cravou em seu braço num aperto de ferro antes que ela pudesse se mover.

Não chame mamãe — ela rosnou, o vermelho injetado em seus olhos amarelos fazendo o pedido parecer uma ameaça. Bervely erguendo as sobrancelhas em incredulidade.

— Você está a poucos graus da hipertermia. Se acha que eu não vou chamar a única medibruxa da família…

— Nós não estamos em bom t-termos. Se eu for até o St. Mungus, ela não vai me deixar sair. Vai me internar contra a minha vontade.

— Bem, eu estou começando a achar que ela deveria!

A discussão foi interrompida por mais uma sessão de gemidos excruciantes de Nymphadora, que voltou a se enrolar em torno da barriga. Dessa vez, lágrimas de dor escaparam dos seus olhos apertados. Bervely se ergueu da cama antes que a prima pudesse segurá-la de novo.

— Eu preciso chamar alguém, Nymphadora! Onde diabos está Lupin? Eu pensei que ele era suposto ficar aqui dentro durante as luas cheias!

— Ele foi se transformar na floresta — ela arfou, chorando. — Não quis… se transformar comigo aqui dentro.

— Mas eu mandei a poção de Acônito. Ele não seria perigoso!

— É mais complicado que is– Dora se interrompeu, voltando a abafar os gemidos de dor com o travesseiro. Bervely observou o feitiço de temperatura flutuando ao lado da têmpora dela escurecer e começar a pulsar.

— Dora, eu n– DORA!

O corpo de Nymphadora começou a se sacudir em movimentos espasmódicos, os olhos rolando para dentro das órbitas. Bervely avançou, agarrando-a pelos ombros a tempo de impedir que a dela encontrasse a cabeceira da cama. Enquanto o fazia, ela lutou para ignorar uma debilitante sensação de déjà-vu. Narcisa convulsionando no chão, há poucos meses, direto para a sua morte…

— JINX!

* * *

— Você fez bem em enviar o Sr. Wood até mim, Srta. Black. Mais alguns minutos e ela poderia ter sofrido danos irreversíveis — disse Madame Pomfrey por sobre o ombro, fazendo uma série de movimentos rápidos com a varinha por sobre Nymphadora. Feitiços diagnósticos cujos resultados amarelos pálidos e brancos pareciam menos alarmantes agora do que tinham sido da primeira vez, logo quando a curandeira chegara à Casa dos Gritos — Creio que no momento ela esteja fora de perigo.

Nymphadora desfrutava do que parecia um sono calmo, a respiração estável, sua cor retornando ao normal. Bervely desconfiava, no entanto, que algumas das poções intravenosas que a curandeira de Hogwarts administrara em sua prima eram poderosos sedativos tirados da sua maleta de primeiros socorros.

Pedir a Jinx para mandar Oliver até Hogwarts atrás de Madame Pomfrey tinha sido uma aposta arriscada, já que Oliver não tinha informação o suficiente para explicar à mulher porque ela precisava vir com ele. Agora, Bervely desconfiava que não era a primeira vez que a curandeira era chamada às pressas até a Casa dos Gritos. Lupin, afinal, usara o local para se transformar em sua época de estudos em Hogwarts.

Bervely repassou o que a curandeira lhe dissera. Agora que o nível de adrenalina em seu sangue diminuía, ela estava tendo dificuldade em manter os pensamentos em ordem.

— No momento? — Repetiu, a voz falha.

— Até a próxima lua cheia — explicou a bruxa, olhando-a com curiosidade. — Sabe que a Srta. Tonks está gerando um licantropo, não sabe?

— A notícia tem corrido na família — Bervely suspirou. — Quero dizer, era mais uma suspeita, já que foi gerado durante a lua cheia.

— Imagino que o Sr. Lupin seja o responsável?— a curandeira perguntou, olhando rapidamente ao redor, como se Lupin fosse surgir de um canto escuro e admitir o crime com o rabo entre as pernas.

— Metade da culpa é dele, sim — Bervely concordou. — Não dá pra dizer que Nymphadora não foi cúmplice. Por mais que eu queira — ela completou, mais para si mesma.

— Não é sobre apontar culpados — Madame Pomfrey passou a mão pela testa de Nymphadora, afastando o cabelo grudado em sua pele. — É sobre procurar uma solução, antes que seja tarde demais para ela.

— Ela não quer tirar o bebê — Bervely disse, surpresa com o tom defensivo em sua voz.

A curandeira se virou para ela, os olhos azuis intrigados.

— E o que pensa disso?

Bervely deu de ombros. Estava exausta demais para uma resposta elaborada.

— É o corpo dela.

Madame Pomfrey anuiu, parecendo entender muito mais do que a própria Bervely entendia naquele momento.

— Essa decisão acabará por matá-la. Se não nessa lua… na próxima. O corpo de uma humana não foi feito para gerar uma criança com licantropia. — Não havia julgamento em sua voz, apenas tristeza conformada. Bervely supunha que Madame Pomfrey deveria ter muitas memórias de Nymphadora em Hogwarts. Desastrada como era, a prima devia ter ido parar com frequência na enfermaria. — Sabe com quantos meses ela está?

Bervely fez os cálculos. Os primeiros sintomas de Nymphadora – as perturbações em sua metamorfomagia — tinham começado em novembro, então Bervely supôs que a concepção deveria ter acontecido na lua cheia de outubro.

— Cinco, eu acho.

Madame Pomfrey franziu o cenho, olhando com preocupação para Nymphadora.

— Por quê?

— Porque até o mês que vem, esse pequeno lobisomem terá formado unhas… e dentes.

* * *

Madame Pomfrey ficou até ter certeza de que a temperatura de Nymphadora se estabilizara, então orientou Bervely a repetir o feitiço termostatus a cada meia hora até que o dia amanhecesse. Ela devia administrar mais da poção azul-gelo, caso a febre retornasse. A poção amarela-turva era um tranquilizante, e a roxa, como Bervely desconfiava, era um sedativo. Após confirmar que Bervely entendera suas instruções, Madame Pomfrey recolheu o restante de suas coisas e se despediu.

— Você pode usar a passagem da sala para voltar ao castelo — Bervely disse, rouca, sem desviar os olhos em Nymphadora. Tinha certeza de que a curandeira conhecia a passagem, tendo sido responsável por conduzir um jovem Remus Lupin até ela a cada lua cheia, segundo Sirius lhe contara.

— Na verdade, creio que vou voltar com o senhor Wood. Não tenho a chance de voar de vassoura com frequência, e ele sempre foi um piloto excelente…

Bervely piscou.

— Oliver ainda está aqui?

— Ele fez questão de esperar — disse Madame Pomfrey, reagindo à surpresa de Bervely com um pequeno sorriso. — Eu disse que não tinha necessidade, mas o rapaz insistiu, então pedi que esperasse lá embaixo. Espero que não tenha problema.

Quando os dois foram embora, Bervely lutou para ficar acordada a fim de verificar a temperatura de Nymphadora a cada meia hora. Aquilo lhe lembrou de outra época — uma na qual Sirius estava tão frágil após a sua fuga de Azkaban que ela acordava à noite para verificar se o coração dele ainda estava batendo. A memória lhe provocou uma pontada de saudade cruel, que veio se juntar ao seu estado já seriamente deprimido.

Jinx veio se enroscar entre ela e Nymphadora e passou a noite ronronando alto. Bervely agradeceu silenciosamente pela companhia do gato. Não fosse pelo chamado dele, ela não teria chegado a tempo de ajudar Nymphadora…

As primeiras luzes da manhã invadiram o quarto através das tábuas apregoadas às janelas, mas foi o rangido das escadas que a sobressaltou. Bervely já estava de olhos bem abertos e varinha em punho quando Lupin apareceu no portal.

Bervely tinha pensado exatamente no que o diria quando o visse de novo. Como ele ousara deixar Tonks sozinha naquele estado, o filho de uma cadela? Mas as palavras ficaram entaladas no fundo de sua garganta quando ela olhou para ele.

Lupin parecia ter sido engolido por um lobo, não se transformado em um, durante a noite. Sangue e novos machucados manchavam as áreas de pele expostas. Seus olhos dele perfuravam Bervely com ansiedade e assombro.

— Dora…? — A voz dele tremeu, denunciando o medo evidente da resposta.

— Viva — ela respondeu baixo. Não graças a você.

Remus assentiu com vagareza. Alívio varreu seus olhos escuros. Ele respirou fundo, cada movimento parecia custar lhe enorme esforço.

— Bervely, eu…

Ela cravou os olhos nos dele com raiva. Não se atreva a se desculpar.

Remus deixou os olhos caírem até o chão.

— Obrigado por ter vindo — ele murmurou num fiapo de voz.

— É claro que eu vim.

Remus ficou lá parado, respirando com uma vagareza dolorosa. Bervely achou que viu o peito dele vibrando. Suas mãos arranhadas agarravam-se ao portal como se ele tivesse medo que o corpo fosse falhar a qualquer momento.

— Eu não sei mais o que eu–

— Pare — ela disse, levantando-se. O seu corpo protestou ao se mover após tanta tensão acumulada, mas Bervely ignorou as pontadas.

Remus ergueu o rosto, confuso.

— Vou preparar o café da manhã — ela disse, indicando Nymphadora com o queixo. — Fique aqui com ela. Vê se descansa.

* * *

— Tinha algo de errado com a poção?

Remus a olhou por cima das torradas com ovos mexidos. Bervely fizera o seu melhor com o que achara na cozinha, e também trouxera uns biscoitos endurecidos, café solúvel, leite e chá de camomila para Nymphadora.

Sua prima continuava ferrada no sono, provavelmente por conta das poções ainda em seu sistema. Remus comia avidamente e em silêncio, evitando o seu olhar.

— A poção estava perfeita. Como sempre — ele garantiu com uma voz baixa, antes de tomar um gole de café morno atolado com açúcar.

— Então, porque a deixou sozinha? — ela perguntou, tentando não soar como uma acusação. Era uma acusação, mas parte dela tinha receio de que, se pressionasse Lupin demais, ele quebraria em pedaços bem diante dos seus olhos.

— Eu não a deixei sozinha. Pedi a Jinx para buscar você, não pedi?

— Sim, mas… você sabe o que quero dizer. Não é como se eu pudesse fazer grande coisa por ela, naquele estado.

— Até onde eu sei, você salvou a vida dela essa noite.

Bervely apertou os lábios, ignorando o olhar breve, porém intenso, que Remus lhe lançou junto ao comentário.

Ela tinha resumido os acontecimentos da noite para ele, mas Lupin não pareceu surpreso em saber que o bebê estava torturando Tonks durante a lua cheia. Se muito, a expressão torturada em seu rosto apenas se intensificou. Quando Bervely mencionou que Nymphadora tivera uma convulsão, ela achou ter visto um vislumbre de raiva passar pelo rosto de Lupin, mas sumiu tão rápido quanto surgira.

— É mais complicado do que pensa — Remus disse, pousando a xícara vazia na bandeja para afagar o cabelo de Nymphadora, ainda branco. Ela estava deitada ao lado dele na cama, com o rosto perto das pernas dobradas de Lupin. Bervely tinha se sentado à beira da cama para beliscar um pouco de torradas enquanto o atualizava dos acontecimentos da noite. — Não é porque a poção faz com que o lobo não seja violento, que ele não continue perigoso.

— Explique — ela disse, bebendo um gole do próprio café. Sem leite, sem açúcar e quase quente o bastante pra queimar a sua língua.

Ele hesitou, os olhos em Nymphadora. Bervely conhecia aquele olhar, o de alguém que sabia estar prestes a perder a coisa mais preciosa que tinha, sem que pudesse fazer qualquer coisa a respeito.

— O lobo também ama Nymphadora — ele disse, a voz baixa e constrangida.

Bervely esperou que ele desenvolvesse o raciocínio, mas Remus só ficou olhando para Nymphadora com aquela expressão torturada de quem tinha feito a ela algo terrível.

— Bem, e daí? Quero dizer, o lobo é você, não é? É de se esperar que sinta por ela o que você sente.

Remus deu um sorriso mínimo, improvável, mais amargo do que feliz.

— Você soa como Sirius. “Vocês são um e o mesmo”, “pare de falar de si mesmo na terceira pessoa”. Ele achava que ser um lobisomem era como ter um animago que só aparecia na lua cheia.

Bervely ignorou o fato de que Remus estava falando de Sirius no passado, como se ele já estivesse morto. Não tinha estômago para aquilo no momento.

— Você está divagando, Lupin — ela o advertiu. — O lobo gosta dela, por que isso é um problema? Só quer dizer que ele não irá machucá-la…

— É um problema porque ele sabe ao que ela está se submetendo. Sabe o que essa gravidez está fazendo com ela. E ele sabe como resolver, também.

— O lobo quer fazer mal ao bebê? — Bervely se espantou.

Remus negou, o sorriso sardônico destoando do seu rosto exausto.

— Não, muito pelo contrário. O lobo quer que sua prole sobreviva a qualquer custo, o que não vai acontecer se Dora morrer durante a gravidez. Ele quer garantir que ela sobreviva, e consequentemente, o filhote.

— Não é o que todos queremos? — Bervely retrucou. — Se “o lobo” sabe como fazer isso, mande ele me enviar uma coruja com a solução mais rápido possível!

— A “solução” é bem simples, na verdade. — As narinas se Remus inflaram, o sorriso sumindo do rosto e a sua expressão ganhando tons sombrios. — Se Dora for transformada, se ela também se transformar durante luas cheias, tem uma boa chance de sobreviver à gravidez.

Desculpe?

Remus assentiu, amargo.

— O corpo licantropo pode se recuperar de um sem número de abusos. A transformação de outro licantropo em seu interior durante a lua cheia não seria um grande problema.

— Nem aqui nem no inferno você vai transformar minha prima em um lobisomem, Lupin! — Bervely rosnou, enfurecida com a mera sugestão. Como ele ousava?

Remus riu tristemente.

— Agora você vê por que não quero ficar perto dela durante a lua cheia. A sua poção pode amansar o lobo, mas não me dá nenhum controle sobre ele. O lobo vai fazer com ela o que acha que é certo, estejamos ou não de acordo com o seu julgamento.

Bervely terminou o seu café em silêncio, apesar da mão ligeiramente trêmula. Remus fez o mesmo, ambos contemplando a sentença de Nymphadora.

Morrer… ou se transformar num monstro.

* * *

— Tem que haver outro jeito — Bervely murmurou para si mesma, sem perceber que estava falando em voz alta até outra voz lhe responder.

Outro jeito de quê?

Ela demorou um segundo inteiro para entender que a voz viera do espelhinho jogado ao lado da sua pilha de roupas descartada no chão do banheiro. Ela se esticou por cima da borda da banheira, alcançou a varinha e usou um Accio para trazer o espelho ao seu alcance.

— Eu achei que você já tinha ido para a cama — Ela disse, secretamente feliz em ver o rosto pálido de Regulus do outro lado do espelho. — O sol já está alto no céu, caso não tenha percebido.

— Olha só quem está policiando meu sono — ele retrucou com sarcasmo. — Senhorita passei-a-noite-fora-da-cama.

Bervely lhe deu um sorriso pequeno, saboreando a satisfação de saber que Regulus tinha notado o fato. Ela o deixou em suspense por mais alguns segundos, enquanto encantava o espelho para flutuar na altura do seu rosto e recuperava o sabonete no fundo da banheira.

— Bervely — Ele chamou de novo, com uma nota de impaciência. — Está tudo bem?

— Problemas de família — ela disse por fim. — Nymphadora. Lua cheia.

— Ah — Ele disse, compreendendo. — Pelo que eu andei pesquisando, uma gravidez lupina não é algo pelo ao que fêmeas humanas costumam sobreviver.

Ela franziu para “fêmeas humanas” e soltou um bufo de impaciência.

— É o que todo mundo fica repetindo. Mas, tem que haver outro jeito!

Bem — ele começou com cautela. — Eu suponho que, se ela for transformada…

— Minha prima não será transformada em uma fera sanguinária para o resto da vida só para gerar um bebê, Regulus — Bervely retrucou com aspereza, se arrependendo diante do erguer de sobrancelhas dele. — Desculpe. Já tive essa conversa hoje, suponho que a segunda vez não seja muito melhor do que a primeira.

— Sendo eu mesmo uma fera sanguinária, preciso dizer que estou ligeiramente ofendido com essa reação.

Ela rolou os olhos para o vampiro, que obviamente não estava apreciando a seriedade da situação. Mas quando olhou de volta, achou ter visto uma nota de sinceridade no comentário.

— Você não está falando sério. Vampiros e lobisomens são coisas totalmente diferentes.

— A classificação de criaturas das trevas do seu Ministério da Magia discorda fortemente.

Bervely meneou a cabeça, esfregando espuma nos ombros doloridos. Toda a coisa de encontrar Nymphadora morrendo e ter que monitorar seus sinais vitais pelo resto da noite estava cobrando o seu preço em cada músculo que ela tinha mantido tensionado durante a noite.

— Bervely, você está tomando banho enquanto fala comigo?

Ela se voltou para ele. Sem se dar conta, tinha deslizado as costas pela borda da banheira e fechado os olhos. Estava mais cansada do que imaginara.

— Sim. Por que, algum problema?

Longa pausa. Ela achou ter visto uma ligeira nota de perigo faiscar nos olhos claros.

— Não. Nenhum problema.

— Bom, porque foi você quem me chamou enquanto eu estava tomando banho.

— Porque eu achei que você estava falando comigo. Porque você me levou para tomar banho com você.

Ela mordeu um sorriso para o comentário ambíguo. Ele estreitou os olhos para a reação dela.

— Você sabe o que eu quis dizer.

— Eu sei o que eu gostaria que você dissesse.

Ela mordeu o lábio, o cansaço enfraquecendo os filtros que usava com Regulus. Estava ficando cada vez mais difícil manter um tom civilizado e as segundas intenções na segurança das entrelinhas, à medida que aquelas conversas pelo espelho se tornavam mais frequentes.

A intensidade ardente com que ele a olhava não estava ajudando.

— Bervely–

— Esqueça o que eu disse — Ela o interrompeu, mais de um lugar em seu corpo queimando, a despeito de estar submersa em água até o pescoço. — Como está… como está Sirius?

Ele recuou, a expressão se tornando cuidadosa de novo.

— Sendo Sirius. Não sei o que quer que eu diga quando faz essa pergunta. Estou mantendo Sirius seguro e saudável, como eu disse que faria. O que mais você quer?

Ela o tinha aborrecido. Por que não conseguia ficar calada quando devia?

— Desculpe. Eu sinto falta dele, é só.

Eu sinto a sua falta.

Eu quero estar aí com você.

Quero você aqui comigo.

Bervely mordeu o interior das bochechas, fechando os olhos e cruzando os braços em frente ao corpo, ao mesmo tempo que apertava uma coxa contra a outra. Quando olhou de novo, Regulus a encarava com aquela expressão inescrutável que a fazia querer quebrar o espelho em um milhão de pedaços.

— Ele também sente a sua falta.

Eu sei o que eu gostaria que você dissesse.

Ela respirou fundo, a intensidade azul dos olhos de Regulus fazendo as suas entranhas arderem.

— Tem certeza que não tem como… — colocá-lo para falar no espelho, ela ia completar, mas então ele disse:

— Você devia nos visitar na Páscoa.

Bervely se calou. Ela repetiu o que ouvira mentalmente, para ter certeza que não tinha imaginado.

— Como é? Como assim?

— No feriado da Páscoa. Eu mando uma carruagem na noite de sexta, você vem até Gomorra e passa o dia com Sirius.

— Eu não sabia que a possibilidade existia.

Um sorrisinho afetado se insinuou no canto da boca de Regulus.

— Você nunca perguntou.

Bervely se refreou. Chamá-lo de idiota não ia ajudar a controlar o seu coração disparado.

— Ou eu poderia simplesmente aparatar aí — ela sugeriu ao invés disso, se segurando para não acrescentar agora mesmo.

Você não pode. Existem procedimentos para autorizar um estranho em Gomorra, e eu não poderia informar a nossa localização. Mas o feriado não está tão longe assim — completou ele com um ar divertido. — Não acha que consegue aguentar até lá?

Bervely teve a impressão de que ele sabia porque ela não queria “aguentar” até lá.

— Certo — suspirou, frustração e antecipação disputando lugar em seu peito. Ela deixou a cabeça pender contra o ladrilho. — Páscoa.

— Será uma boa oportunidade para conversarmos, aliás — Ele continuou, naquela voz de “à propósito” que usava com a finalidade única de enlouquecê-la.

— Conversar sobre o quê?

A hesitação dele não ajudou a acalmar os seus nervos.

— Nós, suponho.

— Nós… como em você e eu?

— Geralmente é isso que “nós” significa.

— Se importa em elaborar? Se não for pedir muito — completou numa nota de sarcasmo. Regulus estava sendo misterioso de propósito e a última coisa que precisava era do sadismo desnecessário.

— Nada que eu queira falar a respeito através de um espelho.

O tom era de questão encerrada. Bervely sabia que a expectativa daquela conversa lhe torturaria pelas próximas três semanas.

Pensando bem, Regulus era uma besta sanguinária e sem coração. Nunca deveria ter se deixado convencer do contrário.

* * *

— Entre, Thomas. — A voz de Bervely soou abafada do outro lado da porta espessa que separava o corredor das masmorras dos seus aposentos. Harry girou a maçaneta e pisou para dentro, tossindo ao respirar o vapor que pesava o ar do pequeno laboratório. Tentando enxergar através dele, achou Bervely do outro lado do balcão de trabalho, de costas, escrevendo na parede. Parede esta que fora transfigurada em um quadro negro já coberto de rabiscos, fórmulas, esquemas complicados e símbolos vagamente familiares dos seus livros de poções. As escrituras no quadro se moviam, se apertando e se reorganizando para abrir espaço enquanto Bervely continuava anotando.

— Em cima do balcão — ela disse, sem se virar. — Beba e me diga que gosto tem.

Harry franziu para o tubo de ensaio longo que repousava sobre a superfície de mármore, fumegando uma espiral de fumaça comprida até o teto baixo. Não ajudou nada que a superfície do balcão estava se movendo. Ele se aproximou e percebeu que o movimento vinha de centenas de aranhas minúsculas, cor de laranja-vivo, caminhando nervosas umas sobre as outras, contidas por alguma forma de feitiço para não se despencarem pelas bordas.

— São relativamente inofensivas — disse Bervely, sem parar de escrever em seu quadro negro improvisado. — Só não respire em cima delas, já foram desinfetadas para o ichoramento.

Com cuidado para que sua mão ficasse o mais longe possível das aranhas – alguma coisa lhe dizia que elas não tinham aquele tom de laranja vivo por nada – ele agarrou o tubo de ensaio pela borda e cheirou a poção lá dentro.

— Isso é Polissuco? Eu já bebi uma dose, não faz nem meia hora.

— Estive trabalhando em modificações na fórmula. Beba e me diga que gosto tem, Potter.

Harry fez uma careta mas obedeceu, sabendo que o caminho mais rápido para recuperar a sua liberdade era não contrariá-la. Para a sua surpresa a poção não tinha o gosto amargo costumeiro.

— Tem gosto de milk-shake de morango– como você fez isso?

— Nada muito complicado. Também trabalhei na estabilização da poção, não precisa mais tomá-la a cada hora, um gole a cada seis horas deve bastar.

— Você ‘tá brincando — Harry disse, impressionado. Apesar de achar mais fácil agora do que no início, beber um gole de polissuco a cada hora sem fazer careta ainda lhe exigia certo esforço.

— Vou substituir a fórmula em sua garrafa da próxima vez que ficar vazia — ela disse, pausando para apagar uma fórmula perto do seu joelho. Harry estava prestes a perguntar o que eram todas aquelas notas quando Anne surgiu pela porta do quarto adjacente, os braços metidos em luvas de couro grosso até os cotovelos e um avental igualmente encourado sobre o uniforme da escola.

— Estou pronta para o ichor– Harry — ela o viu ali, e sua expressão se abriu em surpresa.

— Anne? — Harry franziu. — Achei que você estava estudando com Colin essa noite.

Anne olhou rápido para Bervely e de volta para ele, sem graça.

— Fui interceptada para um ichoramento de urgência.

— Menos conversa e mais trabalho, Johanne — disse Bervely, do outro lado do laboratório. — Essas aranhas não vão se ichorar sozinhas.

— Vocês continuam repetindo essa palavra, mas eu não faço a mínima ideia do que significa.

Anne fez uma careta e se aproximou do balcão, consequentemente de Harry e das pequenas aranhas alaranjadas. Ela tirou óculos engraçados do bolso do avental, cujos olhos se estendiam para fora como minúsculos binóculos, e o encaixou entre as orelhas.

— “Ichorar” significa extrair o ichor de insetos para uso em poções — Anne explicou num tom baixo, numa tentativa de que Bervely não a ouvisse por cima do caldeirão borbulhante. — Dessas aranhas de cenoura, nesse caso.

— Ichor?

— É o fluído visceral. Algo equivalente ao sangue para animais que têm um sistema circulatório.

Ah.

— Aqui, me ajude. — Ela estendeu para Harry outras coisas que foi tirando do bolso do avental: uma seringa de vidro com a ponta longa e fina, uma pinça com as extremidades achatadas, uma balança minúscula. — Essas aqui Bervely encomendou com Hagrid, ele as trouxe hoje mais cedo.

— Ele sabe que eram para… ichoramento? — Harry quis saber, duvidando que Hagrid aprovasse qualquer procedimento em aranhas que envolvesse uma agulha daquele tamanho.

— Não, Bervely disse que era para testar uma poção de engurgitamento. Ele pareceu bem empolgado com a ideia de aranhas do tamanho de pôneis.

— É, isso faz mais sentido — Harry podia imaginar.

— Não vai ser bonito — Anne o advertiu, ao mesmo tempo em que estendia a pinça em uma mão, a varinha na outra e, com um feitiço não verbal, fez uma aranha se mover em câmera lenta, em seguida a capturou com a pinça. Ela colocou a varinha no bolso do avental e pegou a seringa da mão estendida de Harry.

Anne virou a aranha de barriga para baixo e, com os lábios se torcendo ligeiramente em concentração, enfiou meio centímetro da seringa na parte macia da barriga da criatura, liberou o êmbolo e começou a absorver o líquido, que lembrava um espesso suco de cenoura.

A aranha soltou um ruído agudo terrível, como unhas raspando num quadro negro. Harry se encolheu, horrorizado. Anne tirou a seringa em alguns segundos e colocou a aranha – agora cinzenta e molenga, de volta ao balcão.

— Ela vai se recuperar em alguns dias — prometeu a Harry. — Não tirei o suficiente para matá-la.

Onde você aprendeu a fazer isso?

— Instituto Flamel. Bervely teve um semestre inteiro em extração de ingredientes a partir de fontes vivas.

Enquanto explicava, Anne lentificou outra aranha e a capturou com a pinça.

— Eu pensei que você não podia ver, nessa época.

— Isso nunca me impediu de ajudar Bervely com o dever de casa.

— Precisamos de meio litro ainda hoje, Johanne — Bervely emergiu do outro lado para dizer, como se a menção do seu nome a despertasse para a existência do mundo além da sua anotação frenética no quadro negro.

— Eu sei, relaxe — ela bufou, e para Harry: — Ela fica intragável quando começa um novo projeto.

— Então é isso que está acontecendo? — Ele perguntou, espiando curioso as anotações de Bervely. — Em que é que ela está trabalhando?

— Uma nova versão da poção de Acônito, que não seja tóxica para humanos não infectados.

— Quê? Por que alguém que não é lobisomem ia querer tomar a poção de Acônito?

Johanne — Bervely rosnou em advertência. — O que foi que eu disse a você?

— Não seja ridícula, Harry é família — A garota retrucou e se voltou para Harry, ao mesmo tempo que espetava a barriga da segunda aranha com a seringa. — É a Tonks. O feto está se transformando durante a lua cheia, ela quase morreu esse fim de semana. A próxima lua vai ser pior. Bervely acha que, se puder acalmar o bebê com Acônito durante as transformações, ela tem uma chance. Só que o único jeito da poção chegar ao bebê é pela corrente sanguínea de Dora, mas a poção a mataria em poucos segundos, na fórmula convencional.

Harry olhou com renovado respeito para a quantidade de anotações que cobria a parede do laboratório.

— E ela acha que pode fazer uma versão segura até a próxima lua cheia?

— Por quê, Potter — Bervely resmungou do outro lado. — Você tem alguma ideia melhor?

Anne lhe ofereceu um olhar de desculpas, mas Harry nem tinha ficado ofendido daquela vez.

— Não, eu acho que é uma ótima ideia. Posso ajudar?

— É claro que você pode — disse Anne, empolgada, ao mesmo tempo que Bervely parou e se virou para olhar para ele. Só então Harry percebeu como ela estava descabelada, com a aparência de que não vinha dormindo muito.

— Por quê?

— Por que o quê? — Ele repetiu, sem entender.

— Por que você quer ajudar num projeto ilícito, provavelmente fadado ao fracasso, num laboratório abafado nas masmorras, quando podia estar fazendo qualquer outra coisa da sua vida?

Harry deu de ombros.

— Eu gosto da Tonks. Remus e ela me salvaram de uma casa em chamas, julho passado.

Bervely rolou os olhos, resmungou alguma coisa que soou bastante como “maldito complexo de herói” e voltou ao seu quadro negro.

— É mesmo ilícito? — ele perguntou a Anne, que assentiu com um pequeno sorriso cúmplice.

— Produzir poção do Acônito sem uma licença do Ministério é proibido, mas é claro que ela já vinha fazendo isso há meses para Remus. Modificar a fórmula da poção sem uma sanção pelo Ministério é infração grave classe dois. Dois anos em Azkaban… bem, quando Azkaban existia, pelo menos. Não sei o que eles estão fazendo, agora que os dementadores debandaram.

— Então porque é que ela não pede uma sanção?

— Não é tão simples. Ela precisaria da supervisão de um Alquimista sênior e uma boa justificativa para estar tentando modificar a poção, o que significa que ia ter que delatar a gravidez de Tonks ao Ministério. Tonks perderia o emprego, muito provavelmente. Ah, e Remus seria preso.

Quê? Por quê?

— Porque a reprodução entre um humano e um licantropo é infração grave classe cinco.

— Isso é ridículo!

— É a lei. Estúpida, retrógrada e desprezível, mas é o jeito como as coisas funcionam no momento.

Harry ficou quieto, observando Anne extrair ichor de mais uma aranha miúda cuidadosamente segura pela pinça. Bervely, os ombros tensos e o cabelo escapando do coque malfeito no topo da cabeça, continuava a revisar e recalcular e reescrever as suas formulações no quadro negro, pausando de vez enquanto para esfregar o pulso dolorido.

Estúpido complexo de herói… quem ela pensava que era, para falar isso para ele?

* * *

— …o senhor se esqueceu de aprovar a requisição de ingredientes desse mês. — Bervely avisou Snape na manhã seguinte, quando veio lhe trazer a pilha de redações corrigidas dos alunos do quinto ano sobre o Elixir da Miséria.

O mestre de poções, que preparava suas anotações no quadro negro para a aula daquela terça-feira, respondeu sem se virar.

— Eu não me esqueci. Não aprovei a sua requisição.

Bervely sentiu um ligeiro calafrio de alarme se alastrar pela espinha.

— Algum problema?

Severus terminou de escrever os últimos dois ingredientes da lista – casca de aruviária e raspas de limocarino – sem se apressar. Então ele se virou com uma expressão dura no rosto.

— Eu tenho sido tolerante com os ingredientes adicionais que você tem escorregado para a lista, mas cinco ramos frescos de Acônito licotônico? Para quantos lobisomens você está fazendo Poção do Acônito esse mês, uma alcateia inteira?

Bervely cruzou os braços em frente ao corpo, aprumando-se nos saltos das botas, imitando a expressão dura no rosto dele.

— Só estou fazendo experimentos. Acho que a poção pode ser melhorada.

Melhorada — ele repetiu, grave e desdenhoso. — A poção lendária de Damocles Belby, que lhe garantiu uma Ordem de Merlin segunda classe, o trabalho de uma vida inteira de um dos alquimistas mais proeminentes deste século, e você acha que ela pode ser melhorada?

— Só estou dizendo– não é uma fórmula ruim–

Não. Não! — Severus fez um gesto imperativo com a mão, impedindo um novo protesto de Bervely. — Hogwarts não é o seu playground de alquimia, Bervely. Existe um limite do quanto você pode brincar de produzir e modificar poções controladas, destinadas a criaturas das trevas, sem se meter – e a mim— sob escrutínio ministerial! — Ele fez uma pausa, na qual respirou fundo e recuperou o tom gelado de sua voz. — Eu preciso lembrá-la de que os lobisomens estão aliados à causa do Lorde das Trevas, e de que qualquer tentativa de os ajudar não será vista com bons olhos pelo Ministério?

— Não estou tentando ajudar os lobisomens do Lorde das Trevas, como o senhor sabe muito bem — ela disse por entre os dentes.

Eu sei disso. Você sabe disso. O Ministério não anda muito interessado na opinião das pessoas. Eles estão atrás de culpados, não bons samaritanos. Dumbledore… — Severus soprou, como se a mera menção do nome do diretor o irritasse. — Enquanto o professor Dumbledore estiver ausente da escola, precisamos tomar cuidado redobrado para não atrair atenção indesejada para Hogwarts, seja do Ministério ou de outras partes interessadas — completou, incisivo.

Ela exalou uma vez, o rosto quente, as orelhas pulsando.

— Então o senhor não vai aprovar a minha requisição.

— Não enquanto você não remover todos os ingredientes de Acônito da lista. Isso termina agora.

Ela apertou os lábios numa linha fina.

— Muito bem, então.

— E Bervely? Tente não chamar atenção para si mesma, sim? Há limite no que eu posso fazer para protegê-la, mesmo entre as paredes de Hogwarts.

* * *

— Monstro!

O decrépito elfo da família Black apareceu com um estalo em suas imediações.

— Minha estimada senhorita Black — O elfo feioso fez uma reverência profunda para Bervely, deixando manchas de pó de chaminé no tapete do seu quarto —, em que Monstro pode ser útil?

— Preciso que encomende os ingredientes nessa lista para mim. E… retire o dinheiro da minha conta em Gringotes para cobrir os gastos. Discretamente. — Ela tirou uma pequena chave dourada da caixa de jóias sobre a cômoda e entregou ao elfo, junto com uma lista. — Pode fazer isso?

— Monstro pode fazer saques com a sua autorização, sim, senhorita — ele assentiu, mas espiou a lista e franziu o sobrolho enrugado. — Mas aqui diz que a solicitante é uma Tara Holmes, minha senhorita.

— Você deve usar esse nome, caso precise assinar qualquer coisa no boticário.

Bervely não amava ter que usar o nome falso de sua antiga colega de escola, mas não era como se estivesse com tempo para ser mais criativa.

O elfo assentiu, guardando a chavinha e a lista num bolso da toalha de chá manchada que vestia. — Monstro pode fazer mais algo pela senhorita? Talvez uma nova visita ao jovem senhor Black, para entregar outra mensagem? — Perguntou o elfo, esperançoso.

— Sem mensagens para o seu jovem senhor Black, dessa vez — ela disse de mau humor. Desde a sua conversa com o vampiro na banheira, eles não tinham se falado novamente. Bervely tinha uma pequena crise de nervos toda vez que pensava no feriado de páscoa. — E Monstro… seja rápido. Preciso dos ingredientes o quanto antes. Pague extra por entrega imediata, se precisar.

— Monstro será rápido e indefectível. — Ele fez uma nova reverência, então hesitou nas perninhas finas. — Minha senhorita por acaso teria notícias do jovem senhor Black e do jovem senhor Malfoy para dar a Monstro?

Bervely se surpreendeu com a pergunta.

— Os dois estão… bem.

— Monstro aprecia saber disso — o elfo guinchou e desapareceu noutra nuvem de fumaça escura de chaminé.

Bervely ficou no rombo que aquela lista de ingredientes em sua conta de Gringotes. Não era como se Hogwarts estivesse lhe pagando uma fortuna, e ela não teria fundos para tentar uma segunda vez, mesmo se a lua cheia fosse lhe dar uma chance.

* * *

— Acônito é uma das poções mais complexas já inventadas — disse Anne a Harry na tarde de quinta-feira, a pena castanha de águia deslizando habilmente pelo pergaminho enquanto falava.

Os dois estavam de volta ao laboratório de Bervely. Ela incumbira Anne de compilar as notas do quadro negro em um livro de notas grosso, e Harry viera lhe dar apoio moral, já que não havia muito a fazer até que os ingredientes chegassem. Já tinha ajudado Anne a ichorar todas as aranhas e a esterilizar praticamente todos tubos de ensaio e instrumentos de poções do arsenal de Bervely, mais cedo naquela semana. Agora, sentado na cadeira que Bervely usava para corrigir trabalhos, ele observava Anne trabalhar de um dos bancos altos do balcão, um olho nas notas e outro no quadro negro.

— Bervely a aprendeu no seu sétimo ano — Anne disse, fazendo uma pausa para molhar a ponta da pena no tinteiro —, para ajudar Snape a fazê-la para Remus, quando ele estava ensinando em Hogwarts.

— Eu me lembro de ver Remus tomando a poção uma vez, mas não me lembro da sua irmã em Hogwarts nessa época — Harry comentou, pensativo.

— Você estava bem ocupado com os seus próprios assuntos, não estava? Dementadores e tudo — Anne sorriu com empatia. Ela tinha ouvido de Rony sobre como os dementadores tinham afetado Harry durante o terceiro ano, muito à contragosto do próprio Harry, que preferia não revisitar aquelas histórias. — E Bervely tinha os dela… duvido que seus caminhos tenham se cruzado muitas vezes. Mas, como eu ia dizendo… havia um livro de instruções, enviado pelo Ministério, mas pegou fogo, ou algo assim. Então Bervely fez a poção de cabeça uma última vez, para que Lupin a tivesse em seu último mês na escola. Isso, e porque ela queria provar a Snape que podia.

— Soa como algo que sua irmã faria — Harry disse, sem maldade. Anne assentiu, se concentrando em anotar mais algumas linhas, mordendo o lábio inferior em concentração.

— Ela ainda faz a poção de cabeça, até hoje. Diz que é como uma música, quando você aprende a letra uma vez não se esquece mais, basta lembrar do primeiro verso.

— Acho que eu não sou muito musical, então — ele zombou. Anne riu, afastando para trás da orelha uma mecha do cabelo escuro que insistia em cair sobre o rosto. Harry sentiu uma coisa que parecia cócegas, na base do estômago. Gostava de fazer Anne sorrir. Gostava quando ela sorria para ele.

— Poções também não é o meu estilo musical preferido, preciso admitir.

Harry se levantou, cobrindo os três passos que os separavam. A parte boa sobre aquela noite era que estavam sozinhos no laboratório – Bervely estava fazendo qualquer outra coisa relacionada com a poção, que envolvia uma viagem a qualquer outra parte do castelo. Não que ele se importasse, desde que isso o deixasse sozinho com Anne.

A não ser é claro pelo gato prateado, que devia estar em algum lugar por ali, espionando-os.

— Eu gosto da sua caligrafia. É tão certinha — ele disse por sobre o ombro dela.

— Melhorou muito desde que comecei a ver de novo. Não era muito diferente do que runas, depois que fiquei cega. Só dava pra ler com… bem, magia — ela deu uma risadinha.

Harry se inclinou mais e encostou o nariz na bochecha dela, aspirando o cheiro do seu cabelo solto. Anne se inclinou de leve para o lado.

Harry, o gato…

O gato está dormindo — ele sussurrou.

— Isso é o que ele quer que você pense que ele está fazendo.

— Eu sinto a sua falta — ele disse baixinho, sem vontade nenhuma de falar sobre o gato de Bervely. Anne mordiscou o lábio inferior, movimento que ele captou pelo canto do olho e que provocou outro aperto em seu baixo ventre.

— Eu também sinto a sua.

— Você diz isso, mas tem sido bem difícil achar você pelo castelo.

Anne pousou a pena com cuidado no balcão, ao lado do livro, e ergueu a mão para afagar o pescoço dele, na altura em que o cabelo de Dino terminava.

Harry se mantinha sob polissuco enquanto trabalhava no laboratório de Bervely. Nunca se sabia quando um professor ou algum estudante ia aparecer procurando-a.

— Eu disse a você. As revisões para os N.O.M.s tem me mantido ocupada, eu passo quase o tempo todo com Colin e Luna na biblioteca.

— Mas os N.O.M.s só são em maio — ele resmungou, fechando os olhos para o toque dos dedos dela em sua pele. — Isso é daqui a uma eternidade.

— Não sei como passou nos seus, com essa atitude desprendida.

— Sorte — ele disse, conseguindo fazê-la rir de novo.

— Se tratando de você, não duvido nada.

Harry aproveitou a oportunidade e plantou um beijo no canto dos lábios de Anne, apesar do puxão de repreensão na boca do estômago. Sempre se sentia errado quando pensava em beijá-la no corpo de Dino. Com a boca de Dino.

Anne se tencionou sob o seu beijo. Harry se afastou e teve a impressão de vê-la relaxar.

— E quanto aos meus sonhos? — Ele perguntou, depois de um momento, tentando lutar contra a sensação de que ela o estava desprezando. Sabia que não era sobre ele. Era só aquele maldito disfarce...

— Ainda estou cuidando do seu sono, bem como da sua mente desperta, é óbvio.

— Não é o que eu estou perguntando.

Ele não queria que soasse como uma acusação, mas soou mesmo assim. Anne abaixou a mão que ainda descansava em seu pescoço, e fez um movimento tentativo para pegar a pena.

— Oniromância não é tão simples quanto parece. Envolve muitas horas de sono perdido, o que realmente prejudica o processo de aprendizado, você sabe.

O que Harry realmente sabia é que aquele não era o motivo verdadeiro. Ou ao menos, era o que ele desconfiava.

— Você me diria se tivesse algo errado, não é?

Anne não respondeu imediatamente. Demorou alguns segundos acariciando a pena castanha entre os dedos.

— É claro. Só tenho muita coisa na cabeça, no momento.

— Você pode falar sobre “coisas” comigo. Se quiser — acrescentou. Não queria parecer insistente demais.

Anne assentiu, colocando um sorriso nos lábios, que não era o tipo de sorriso que ele gostava de provocar nela. Esse não alcançava os seus bonitos olhos escuros.

— Vou manter isso em mente. Agora anda, me deixa terminar de anotar ao menos a primeira parte antes que Bervely volte. Ela anda num humor de crupe desenganado desde que Snape barrou a requisição dos ingredientes…

* * *

Bervely não estava em algum lugar aleatório do castelo. Ela não estava no castelo em absoluto, mas ao mesmo tempo, estava mais perto do casal do que eles poderiam ter imaginado.

Bervely tinha visitado a estufa de Bellatrix três vezes no passado. Duas quando tinha cinco anos – a primeira pouco depois de se mudar para viver com Bellatrix, aos quatro anos. A segunda, no dia em que os aurores que tinham vindo procurar Bellatrix e Rodolphus, após a queda do Lorde das Trevas. Passara horas escondida naquela estufa, com Charlotte, até Narcisa aparecer para resgatá-las.

A terceira visita, Bervely supunha que acontecera nos seus sonhos. A noite em que ela chamara Bellatrix para avisá-la que a sua irmã estava morta.

A estufa de Bellatrix parecia exatamente com o que Bervely se lembrava do seu último sonho. Os detalhes eram tão precisos que Bervely começava a temer que tivesse mesmo usando a maçaneta da rosa naquela noite, em algum estado de sonambulismo.

A estrutura da estufa tinha o formato de um T, com um longo corredor central longo e o outro, perpendicular, mais curto. Na ponta de cada corredor havia uma porta diferente. Ao colocar a maçaneta de rosa na parede do seu quarto nas masmorras de Hogwarts, a porta que se abrira para ela era uma na extremidade da esquerda do corredor mais curto. As outras duas portas estavam seladas. A que ficava na extremidade do corredor longo, Bervely supunha que tinha um dia dado acesso ao pomar dos seus tios em St. Catchpole. Ted Tonks a selara magicamente pelo lado de fora, após Bellatrix desertar para o lado das trevas, levando a maçaneta sumidoura consigo.

A outra porta, na extremidade oposta do corredor mais curto, devia levar até os terrenos de Blackburn Hall, a mansão dos Lestrange em Lancaster. Apesar de parecer bloqueada por anos de heras e ferrugem, Bervely a selou pelo lado de dentro com todos os feitiços que Sirius lhe ensinara, incluindo um que só responderia ao som da sua voz, e outro que só se abriria com uma gota do seu sangue.

As paredes e o teto da estufa eram feitos de vidro grosso, cobertas por uma crosta suja de poeira. Apesar disso, ela ainda podia ver partes do céu e uma fatia da lua minguante bem acima da sua cabeça.

Cadáveres de plantas, com seus longos ramos ressecados em vasos ou canteiros, ou serpenteando pelas vigas de ferro que sustentavam a estrutura de vidro, se espalhavam ao longo dos dois corredores. Onde os corredores se cruzavam, ainda havia um vaso alto de cristal que um dia abrigara a roseira branca de Bellatrix. Não havia nenhum sinal dela – nem os galhos ressecados – mas Bervely se lembrava bem da planta impressionante, no dia em que recebera o seu sermão do purismo absoluto, há quase dezesseis anos antes.

O seu sangue é puro. Isso faz de você especial e poderosa.

Etc. Etc.

Bellatrix espetara seu dedo em um espinho da roseira branca e as pétalas tinham se tornando negras.

Bervely se pegou imaginando se a rosa marcada em seu braço tinha alguma relação com aquela rosa, ou se fora apenas uma coincidência, ou licença artística de Voldemort.

Foco, Bervely Black — exigiu para si mesma, a voz ecoando sombria no pé direito alto da estufa. — Essa poção não vai se cozinhar com a força da sua nostalgia.

Trabalhando com diligência, Bervely limpou uma das longas mesas de trabalho coberta de sujeira acumulada, restos de plantas mortas e vasos partidos. Então, depositou a sacola encantada que trouxera do seu laboratório, com o material que usaria nas próximas semanas para adaptar a poção de Acônito em segredo de Severus. Dispôs cuidadosamente os caldeirões, tubos, balanças, conchas e as demais miniaturas ao longo da mesa comprida e começou a encantá-los de volta ao tamanho original, dispondo-os da maneira que preferia. Queria estar pronta para começar assim que Monstro retornasse com os ingredientes.

Como que conjurado com a força dos seus pensamentos, o elfo estalou ao seu lado num clique anormalmente agudo, quase fazendo Bervely derrubar um caldeirão minúsculo de cristal aos seus pés.

— Diabos, elfo, você quase me matou–

Só que não era Monstro. O elfo cor de mostarda, com longas orelhas caídas e um focinho curto como o de um porquinho era familiar, mas Bervely demorou a lembrar de onde o conhecia.

— Tamby pede desculpas por chegar abruptamente e assustar a senhorita Bervely Black! — O elfo, que tinha uma voz tamborilante, guinchou e puxou as orelhas para se castigar.

Tamby? — Ela arfou. — Você é o elfo de Narcisa!

— Eu era, minha senhorita, antes de ser mandado para a casa Lestrange. Tamby fica honrado que a senhorita se lembre.

— É claro que eu me lembro — ela disse, alcançando discretamente a varinha no bolso das vestes. Malfoy ou Lestrange, aquela visita não podia ser um bom sinal, justo no dia em que Bervely resolvera usar a antiga estufa de Bellatrix. — O que está fazendo aqui?

— Tamby foi mandado para entregar um convite — o elfo explicou, os olhos grandes ansiosos, correndo do rosto de Bervely para a sua mão esquerda. — Tamby não quer nenhum problema, só veio entregar a mensagem.

— E de quem é o convite?

— Da casa Lestrange, é claro. Para as celebrações de Ostara.

Ostara. Não ouvia aquele termo desde que deixara de viver com os Malfoy.

— Como me encontrou aqui? Por que não me procurou em… outro lugar?

— Tamby não entende a pergunta. — O elfo balançou para um lado e para o outro, ansioso. — Tamby procura a senhorita Black onde ela está. Por que ir em outro lugar, se é aqui que pode encontrá-la? — O elfo fez uma pausa tensa, olhando ao redor. — Há algo errado em procurar a senhorita Black aqui? Tamby não está detectando nenhum feitiço anti-elfo, mas Tamby se desculpa mesmo assim…

— Não, não, tudo bem, pare com isso — Bervely pediu, vendo que o elfo recomeçara a puxar as orelhas. — Sobre esse convite… da casa Lestrange. Quem o enviou, exatamente?

— A dona da casa, é claro — ele disse, piscando os grandes olhos confusos.

— Minha… mãe? — A palavra tinha gosto de ácido sulfúrico em sua língua. O elfo sacudiu a cabeça.

— Tamby não acha que a dona da casa Lestrange tem herdeiros legítimos.

Bervely estreitou os olhos. O elfo estava tentando lhe dizer que, como filha bastarda, não tinha direitos de herdeira? E quem foi que disse que ela queria ter algum?

— Pode deixar o convite em cima da mesa, elfo. Está dispensado.

O elfo depositou um envelope em pergaminho impecável sobre a mesa de trabalho suja, então fez uma reverência e sumiu com um pop desafinado.

Bervely espiou o envelope, a visão do brasão da casa Lestrange fazendo o seu estômago dar voltas.

Ela ignorou o envelope o quanto pôde, terminando de desencantar os seus objetos de trabalho até que todos estavam de volta ao seu tamanho original, dispostos ao longo da mesa de trabalho. Mas fingir que aquela coisa não estava espreitando, como uma fera faminta pronta para devorar a sua alma no minuto em que quebrasse o selo, só a deixou mais enjoada.

Prezada senhorita Bervely Black,

A sua presença é esperada em Blackburn Hall na ocasião do último domingo de março, para comunhão em ritos cerimoniais de Ostara. Os seus trajes devem obedecer a tradição, em cor e corte. Convidados extras não serão acomodados.

Cumprimentos respeitosos,

Casa Lestrange.

Bervely queimou o pergaminho, as mãos ainda trêmulas quando a última cinza flutuou até o chão de terra batida da estufa.

* * *

Na altura em que o fim de semana seguinte chegou, Bervely estava afundada em sua adaptação da Poção de Acônito, literalmente, até os cotovelos. Ela nem mesmo precisou dar uma desculpa a Snape pelo seu sumiço, já que o padrinho deixara a escola na sexta-feira à noite, deixando-a sozinha para cuidar das masmorras.

Bervely ocupava a mente com balanceamentos para os ingredientes da poção, usando como base um velho livro de Libatius Borage, Alchemia Adaptatoria. Um longo e exaustivo compêndio para balanceamento de ingredientes mágicos que tinha a propriedade adicional de causar uma sonolência quase irresistível em seus leitores.

O maior problema de Bervely era que não um, mas três dos ingredientes da Poção de Acônito eram tóxicos para seres humanos. Altas doses do mercúrio em pó extraído das águas dos lagos de fluxo viscídico causavam atrofia muscular, redução das funções cognitivas e problemas de circulação sanguínea. O ichor de aranha-cenoura, indispensável para a maturação da mirra, uma vez ingerido coagulava todo sangue da vítima em poucos minutos. Sem falar no próprio acônito, que podia parar um coração adulto em quatro segundos.

Obviamente ela conhecia os antídotos para três componentes. O difícil era conseguir incorporá-los na poção de modo que combatessem os efeitos tóxicos do mercúrio, do ichor e do acônito sem reagir com os outros ingredientes que, apesar de não serem tóxicos, eram extremamente sensíveis a interações.

E não podia se esquecer da terceira lei de Golpalott… o antídoto para uma poção era mais do que a combinação dos seus antídotos individuais. Haveria um ingrediente – ou vários – que precisariam ser adicionados à poção para que a mistura dos elementos tóxicos fosse efetivamente combatida.

— Você é uma gracinha quando está concentrada zombou uma voz grave, de algum ponto da sua mesa de trabalho.

Bervely pescou o espelho jogado entre os muitos frascos de ingredientes contrabandeados e o fez flutuar na altura do seu rosto. Apesar de interromper a sua linha de pensamento, estava aliviada que aparecera. Regulus não tinha dado as caras a semana inteira e ela começava a temer que ele tinha se arrependido de convidá-la para passar a páscoa em Gomorra.

— Você só diz isso porque quer fazer o seu caminho sob a gola das minhas vestes.

Regulus franziu o cenho, do outro lado do espelho.

— Espere um minuto... isso foi uma piada de vampiro?

Ela rolou os olhos, calçando as luvas longas de couro para manejar as flores de acônito dispostas na bancada.

— Perde a graça se você pede explicação.

— Não dá pra se perder algo que nunca teve, dá?

Ela meneou a cabeça, um sorriso escapando dos lábios apertados.

— Fique sabendo que se eu tivesse alguma pretensão de lhe morder, não seria em seu pescoço.

Bervely tentou manter a expressão neutra, embora a conversa lhe fizesse pensar na única e agora longínqua ocasião em que sentira os dentes de Regulus em sua pele. Um calafrio ainda acompanhava aquela lembrança, não importava quanto tempo se passara.

— Mesmo? E onde é que você morderia? Hipoteticamente — ela perguntou em tom conversa, alcançando uma faca de ponta bifurcada pra extrair as sementes de acônito do interior das grandes flores roxas.

O silêncio se estendeu até a terceira flor. Bervely ergueu os olhos para o espelho e encontrou o olhar sério de Regulus do outro lado.

— Você não devia levar esse assunto na brincadeira.

— Eu levo mordidas de criaturas das trevas muito a sério.

Bervely.

Ela teve a impressão de que ele ainda estava aborrecido, só que Bervely não fazia ideia do porquê. Ela exalou, seu momentâneo bom humor se dissolvendo na seriedade dele. Talvez Regulus estivesse mesmo se arrependendo do convite.

— Eu tenho bastante coisa para fazer hoje, Regulus — disse, o tom de voz seco de propósito. Se ele ia tratá-la com frieza, ela podia fazer isso antes e melhor ainda. — Não tenho tempo para bate-papo.

Regulus assentiu, sem dar qualquer sinal de que a mudança em seu tom o tinha afetado.

— Eu vou deixá-la em paz em um minuto. Só vim avisar que eu contei a Sirius que você está vindo para a Páscoa.

— Você não devia ter feito isso — Bervely o reprimiu, ficando tensa. — O quê… o que ele disse?

— Como assim, o que ele disse? Ele ficou feliz, Bervely. Por que eu não devia ter dito? Você mudou de ideia?

Ela depositou cuidadosamente mais uma semente minúscula de acônito no frasco de coleta antes de responder.

— Não. Só não quero criar ansiedade desnecessária. Sirius não é das pessoas mais pacientes do mundo.

— Sirius é bem grandinho, pode lidar com ansiedade. Além do mais, alguma expectativa deve mantê-lo com a mente ocupada. Acho que ele anda um pouco entediado.

É claro que anda. Eu o mandei para uma vila cheia de ovelhas e mortos-vivos.

— É. Certo — ela disse, sem levantar a cabeça do trabalho. Mesmo assim podia sentir Regulus estava lhe observando através do espelho. A sensação do seu olhar fixo era agoniante.

— Boa noite, Bervely. Ah, e só para você saber, se eu fosse morder você… lembro que a pulsação da sua femoral sob a minha língua foi bem interessante.

* * *

Quando se ofereceu para ajudar Bervely com a poção de Acônito, Harry não esperava que a sua ajuda estaria muito menos relacionada com a poção em si, e mais com todas as atividades que Bervely fazia como professora auxiliar para que Snape.

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Naquela noite, por exemplo, Harry e Anne tinham passado a primeira hora após o jantar classificando as poções de engurgitamento do terceiro ano em “aceitáveis”, “inúteis” e “nem um trasgo beberia”, de acordo com a as instruções detalhadas em quatro páginas frente e verso que Bervely deixara.

— Eu acho que Rony e Hermione estão me escondendo alguma coisa — Harry comentou, colando uma etiqueta de “nem um trasgo beberia” em uma poção que, ao invés de verde clara, tinha se tornado uma massa preta endurecida no fundo do frasco.

— Tipo o quê?

— Eu não sei. Eles estão cheios de cochichos e trocas de olhares secretos, mais do que o normal. E reparei que eles têm desaparecido nas noites de sexta-feira. Sexta passada, Hermione disse que tinha reunião de monitoria, mas eu perguntei ao Rony e ele disse que eles iam estudar na biblioteca. E eu sei que as reuniões de monitores acontecem em noites de terça, não de sexta…

— Já te ocorreu que eles podem estar passando algum tempo sozinhos, e não querem te contar para não te deixar sem graça? Eles são um casal, afinal de contas.

Não, não tinha ocorrido a Harry. E agora que Anne fizera ocorrer, ele lutou para afastar a imagem de seus dois melhores amigos passando um tempo sozinhos como um casal em algum lugar do castelo.

— Não sei, não — Harry teimou. — Acho que eles estão saindo do castelo, não consegui achá-los em nenhum lugar do Mapa do Maroto.

— Talvez você devesse parar de espionar os seus melhores amigos pelo mapa — ela sugeriu gentilmente. Harry fez uma careta.

— Só quero ter certeza de que eles não estão metidos em problemas.

— Pensei que se meter em problemas fosse o seu trabalhoAnne brincou, mas Harry não achou graça.

— Você soa exatamente como a sua irmã, às vezes.

— Ouch — Anne parou de rir. — Sinto que isso não foi um elogio.

Harry fez cara feia e continuou rotulando as poções sofríveis do terceiro ano, até ouvir Anne suspirar alto.

— Desculpe. Eu só quis dizer… Rony e Hermione são adultos, donos dos próprios narizes, não são? Se eles querem sair um pouco do seu radar e escapar do resto do mundo, quem pode culpá-los?

Harry se surpreendeu com a afirmação – não tinha se dado conta, mas era verdade. Hermione era maior de idade nos termos bruxos desde setembro, e Rony completara dezessete no começo daquele mês. Os seus dois amigos eram adultos, algo que ele só seria em julho, se conseguisse sobreviver até lá.

— Talvez eles estejam usando a Sala Precisa — Harry insistiu. — Nunca foi inserida no mapa…

— Não acho que estejam. Neville tem usado a Sala Precisa para práticas extras da AD quase todas as noites. Ele está levando a coisa toda realmente a sério. E é claro, Astória sempre pode ser encontrada em suas imediações, auxiliando.

Harry não fez comentários. Ele estava mantendo uma distância segura da sua nova colega de casa, desde que Astória insinuara suspeitar da sua verdadeira identidade.

A possibilidade de Rony e Hermione estarem escapando para encontros de natureza romântica, no entanto, fez Harry se dar conta de uma coisa.

— Nós devíamos fazer o mesmo — ele comentou. Anne franziu, erguendo o rosto.

— Prática extra na Sala Precisa? Você nem mesmo anda indo às reuniões, quem dirá…

— Não. Passar algum tempo… sozinhos. Juntos. Se você quiser.

— Ah — ela pressionou os lábios um no outro. — Pensei que era isso que estávamos fazendo aqui nesse laboratório úmido, fedorento e extremamente romântico quase toda noite das últimas duas semanas.

Harry riu, só que o som pareceu mais com uma tosse nervosa.

— Acho que podemos fazer melhor do que isso.

Anne continuou etiquetando outra série de poções, essas do primeiro ano. Pareciam melhores do que as de Harry, se ele fosse julgar pela quantidade de etiquetas de “Passável” que Anne estava distribuindo pelas garrafinhas.

— Eu não sei, Harry — ela disse por fim. — Se lembra do que aconteceu da última vez que tentamos, no dia dos namorados?

— Aquilo não teve nada a ver com a gente! — Ele se defendeu. Não via nenhuma relação entre o ataque das cobras multiplicadoras e eles dois – o ataque nem tinha sido culpa dele, para variar um pouco.

— Eu sei, mas… você quase foi descoberto naquela noite. Bem, você foi, não foi, se contarmos Rony e Hermione. Se sairmos zanzando pelo castelo e fomos vistos, e começarem com as perguntas… o seu segredo já está por um fio, e nem notícia de quando o professor Dumbledore volta, não é mesmo?

Harry fez uma careta. Tinha lhe custado muito autocontrole, nos últimos dias, para não mandar Edwiges com um berrador para Dumbledore. Quanto tempo demorava para se achar um esconderijo de… o que quer que fosse que Voldemort estava escondendo? Harry afastou a bandeja e esfregou as palmas das mãos no cabelo áspero de Dino, exalando ar com frustração.

— Podemos usar a capa da invisibilidade…

— Você se fia muito nessa capa — ela comentou, num tom crítico. — Sabe que ela não é à prova de detecção, não sabe? Você não pode ser visto, mas visão não é tudo na vida, não se alguém realmente estiver te procurando…

— Tá, que seja, então. Esqueça que eu disse qualquer coisa — ele bufou, mal humorado. Anne ergueu as sobrancelhas para ele.

— Não seja imaturo. É da sua segurança que estamos falando.

Pro inferno com a droga da minha segurança!

Harry!

— Pare de ouvir meus pensamentos! — ele reclamou, abaixando as mãos. Uma delas esbarrou em uma poção que “nem um trasgo beberia” e o frasquinho se espatifou no chão com um estalo e muitos cacos.

Reparo! — Anne refez o frasquinho e o fez flutuar de volta para a bandeja de Harry, muito embora a maior parte da gosma que continha estava agora grudada no chão do laboratório. — Vou pensar em alguma coisa, está bem? Mas não se não melhorar essa atitude.

— Tanto faz — ele disse de má vontade, puxando um novo rolo de etiquetas para perto sem olhar para ela, o rosto queimando.

Pelo canto de olho, viu Anne se levantar do banco e andar até ele.

— Eu não queria ter que fazer isso, mas você não me deixa outra escolha — Ela sentenciou, colando a etiqueta vermelha que trazia entre os dedos, “nem um trago beberia”, bem no meio da sua testa.

* * *

Bervely tentava incorporar o mercúrio pulverizado sem causar bolhas na poção aquecida quando alguma coisa macia roçou em seu tornozelo.

— Agora não, Jinx — ela rosnou por entre os dentes. O gato insistiu, forçando uma imagem para dentro dos seus olhos, cegando-a da poção em sua frente.

Era Draco, na casa de barcos. Sentado no deque, o garoto tinha os braços em torno dos joelhos e parecia absorvido em contemplação às águas escuras do lago. A cena veio acompanhada por uma onda de alerta do gato.

Bervely se deu por vencida, pousando o vaso de mercúrio sobre a mesa de trabalho.

— Qual é o problema com ele?

Jinx lhe deu outra cabeçada suave. Dor.

Bervely franziu. Draco não parecia com dor na imagem que o gato estava lhe transmitindo, mas então, ela sabia melhor do que julgar um Malfoy pela capa.

Além do mais, Jinx não viria até ela se Draco não estivesse em algum tipo de perigo.

— Certo, certo, estou indo… — Bervely pegou a varinha no bolso das vestes e a usou para diminuir a intensidade da chama sob o caldeirão, se perguntando quando é que tinha se alistado para o esquadrão de resgate físico e emocional da sua família estendida.

* * *

— Eu ouvi dizer que se você pedir com jeitinho, a lula-gigante aparece e lhe concede oito desejos.

Draco deu um saltinho quando ouviu Bervely. Estivera tão absorvido nos próprios pensamentos que ela poderia tê-lo azarado pelas costas e o primo nunca saberia o que tinha lhe atingido.

— Ah, é você — ele resmungou, logo dando as costas de novo. — Não tente ser engraçada, nunca foi seu forte. O que está fazendo aqui?

— Falhando em ser engraçada, ao que parece — Bervely cobriu a distância que os separava e se sentou ao lado de Draco na plataforma. Draco se virou e a olhou como se esperasse que ela realmente o azarasse.

Ele tinha olheiras azuis profundas sob os olhos pálidos. Bervely as vira surgir ali após a morte de Narcisa e elas nunca tinham desaparecido.

— Você devia tomar alguma coisa se está tendo problemas para dormir.

O primo a fitou com desconfiança.

— Você pode dar esse tipo de conselho? Não foi você que quase se jogou da Torre de Astronomia por causa de uma overdose de poção para dormir?

Bervely devolveu seu olhar com surpresa.

— Eu não sabia que você sabia disso.

— Todo mundo na Sonserina soube. Só fingiram que não, porque Snape avisou que quem trouxesse o assunto à tona na sua frente ia ficar em detenção pelo resto do ano.

— Sim, é claro. Soa bem como algo que ele faria — Bervely zombou.

Draco sustentou o olhar de Bervely, depois soltou um muxoxo e balançou a cabeça.

— Você não faz ideia, faz?

Ela resolveu não remexer o assunto; suas experiências de quase-morte na adolescência não eram o que a tinha trazido até a casa de barcos aquela noite.

— Você vem aqui com frequência? — perguntou, depois de oferecê-lo o benefício de algum silêncio. Esperou outra resposta atravessada, afinal Draco parecia um poço sem fundo delas, mas dessa vez o adolescente deu de ombros.

— Às vezes.

— Foi aqui que encontraram o corpo de Chang, não foi?

— É. Estou ciente. — Draco retesou, olhando para longe dela.

A reação confirmou a teoria de Bervely.

— Você está tendo sonhos com Chang?

Draco não respondeu. Bervely suspirou, apertando as mãos no colo. Vamos lá, você pode fazer isso.

— Eu sonhava um bocado com Hector, depois que ele morreu.

Draco estremeceu. Ele fingiu que era frio, abraçando a si mesmo e esfregando os antebraços. Ela apertou os lábios, um nó firme em sua garganta. Esperou.

— Não é a mesma coisa — Draco disse. Ele hesitou, então, com um suspiro irritado, se corrigiu. — Eu sei que foi um acidente, racionalmente eu sei disso, nunca quis que fosse aquela idiota a terminar com um dos doces, mas ainda assim tem essa voz imbecil em minha cabeça que fica repetindo…

— Não foi um acidente — Bervely o interrompeu. Draco parou, confuso.

— Como é?

— A morte de Chang não foi um acidente. Ou pelo menos, ela não se envenenou por acidente. Chang morreu afogada. O papel de bala foi achado no bolso dela, mas a bala em si foi achada mais tarde, no fundo do lago. Ela nunca a engoliu.

— Como você sabe disso?

— McGonagall me contou.

Draco ficou em silêncio, digerindo a informação.

— Então eu não sou… eu não fui… eu não a matei?

Não.

— Quanto… há quanto tempo sabe disso?

Bervely franziu, tentando se lembrar. Aquela conversa com McGonagall acontecera logo depois do incidente com as cobras multiplicadoras nas masmorras.

— Não sei, há um par de semanas? É, por aí.

— E não te ocorreu mencionar esse detalhe pra mim antes?

Bervely olhou para ele, surpresa com a intensidade do aborrecimento estampada no rosto do primo.

— Eu não… Eu estive ocupada.

Draco se levantou num movimento único e enfurecido, sua mão raspando tão perto do rosto de Bervely que ela precisou se esquivar para não ter um olho atingido.

— Inacreditável! Eu odeio… eu odeio ter que concordar com ele, mas meu pa– Lucius estava certo. Seu mundo gira em torno do seu umbigo, não é? Você não faz nada que não seja diretamente relacionado aos seus interesses! O que pode te manter tão ocupada a ponto de se esquecer de me avisar que eu não sou a droga de um assassino por duas semanas?

— Eu–

Mas Draco não lhe deu chance de responder antes de ir, nem Bervely achava que tinha uma resposta boa o suficiente.

* * *

Bervely sabia que tinha feito tudo certo. A poção alcançara um azul mais pálido e turvo do que o da poção original, provavelmente por conta do pó de bicórnio que ela usara para estabilizar a fórmula. O cheiro e o vapor pareciam certos.

O cheiro da poção de Acônito era acídico e corrosivo, e ela imaginava que o gosto não seria muito melhor. A poção era famosa por ter um gosto terrível.

Bervely fez um favor a si mesma e levou o copo com a poção para o laboratório, ao invés de experimentá-la na estufa. Mesmo se tudo corresse, ela ainda sentiria efeitos secundários fortes pelo resto do dia. Para isso, deixou um chá de bezoar bem forte em cima da bancada.

Bervely se metamorfomagiciou numa cópia de Nymphadora Tonks, como ela se parecera na Casa dos Gritos. Desde o rosto magro até o cabelo branco-neve e os olhos castanho-amarelados. Havia ajustado a poção para o metabolismo, peso e altura da prima, então seria apropriado testá-la usando o modelo mais próximo que tinha dela.

Sua metamorfomagia resistiu, emperrada por falta de uso, mas Bervely chegou ao resultado desejado após algumas tentativas. Confirmou sua aparência no feitiço refletor conjurado no ar , em frente ao seu rosto.

Jinx miou aos seus pés, impaciente, quando Bervely pegou o tubo de ensaio.

— Chame a cavalaria se algo der errado — ela disse em tom de brincadeira. Certamente precisaria ajustar um ou outro efeito indesejado da fórmula, mas sabia que Jinx estava fazendo tempestade em caldeirão raso.

Sem mais enrolação, Bervely prendeu a respiração e tomou um gole generoso da sua versão da poção de Acônito. Tinha gosto de fluído de bateria, se ela alguma vez tivesse provado algo assim.

Dizia-se que Acônito matava em quatro segundos.

Bervely contou três, antes do mundo ficar escuro.

(Continua...)

Notas finais
Feliz 2021, e que ele se comporte melhor do que 2020! Te vejo nos comentarios ;*