A Canção de Morgana
53 Mortes Programadas
Notas iniciais
— Ela não vai sentir nenhuma dor — prometeu Andrômeda, à medida em que injetava o líquido branco-leitoso na veia do braço de Amélia Loren, ou o que restara dela, após o beijo do dementador.
Ela tem sorte, Anne pensou. Ao lado dela, um braço em torno do seu ombro, Sophia lhe deu um pequeno apertão do que Anne supôs ser para apoio moral. O cheiro de hospital estava intensificando o embrulho em seu estômago, que tinha se instalado ali cedo naquela manhã. Ela não sabia por quanto tempo ia conseguir fingir que estava tudo bem, mas tinha a impressão de que não duraria.
Para a sua sorte, a eutanasia bruxa durava poucos minutos. Andrômeda ativou um feitiço que fez o coração de Amélia bater audivelmente nos limites acortinados da cama de hospital e elas esperaram, num silêncio desconfortável, as batidas ficarem mais e mais fracas.
Anne tentou se distrair dos seus pensamentos mais urgentes observando o rosto da avó. Amélia parecia mais relaxada em morte do que Anne podia se lembrar dela em vida – os vincos concêntricos de perpétua insatisfação em sua testa tinham sumido e os lábios, que Anne se acostumara a ver crispados em uma ou outra desaprovação, agora estavam frouxos e cinzentos.
Anne tentou achar a tristeza dentro dela, tentou sentir alguma coisa pela avó, mas descobriu que não havia nada. Ela havia enlutado Amélia meses atrás, ao saber sobre o ataque, e ela até tinha se sentido culpada pela morte da avó, por um tempo. Se não tivesse abandonado a avó anos antes, Amélia talvez não tivesse recebido o beijo do dementador… mas aquele curso de pensamento logo lhe parecera irracional. Mesmo se ela nunca tivesse deixado de passar os verões em St. Sensille, ainda estaria em Hogwarts no dia do ataque. Não havia nada que pudesse ter feito. A morte de Amélia não era culpa sua, de uma forma ou de outra.
A de Harry, no entanto.
Anne reprimiu aquele pensamento.
Harry está vivo, lembrou a si mesma com teimosia. Tinha-no deixando, adormecido na torre de Astronomia, há apenas um par de horas, a fim de encontrar a madrinha e viajar ao St. Mungus. Harry está vivo e respirando.
Por enquanto, completou a voz insistente de sua consciência, decidida a não lhe dar um minuto de alívio.
Anne percebeu com atraso que Sophia estava falando com ela.
— Desculpe, o quê?
— Eu perguntei se você vai ficar bem aqui com Andrômeda. Eu preciso ir ao quinto andar, autorizar a liberação do corpo para o enterro.
— Ah, é. Vou sim — Anne assentiu.
Amélia Loren estava morta. Era a primeira pessoa morta que Anne via tão perto.
Não, não é não. Você viu Harry. Logo depois de enfiar uma faca no coração dele. E você viu Hildegard Dumbledore, a surpresa perpétua congelada em seu rosto, depois que Voldemort quebrou o pescoço dela.
Sophia a olhou com preocupação, através dos olhos azuis-cristal que, naquele dia, estavam avermelhados. A ideia de que Sophia andara chorando era difícil de conceber.
— Eu vou ficar bem. Não se preocupe — Achou por bem completar, porque Sophia não parecia muito convencida.
Quando a madrinha desapareceu pelo corredor branco, as vestes prístinas de Alta Sacerdotiza ondulando no ritmo dos seus passos, foi a vez de Andrômeda colocar uma mão em seu ombro, com um apertãozinho de encorajamento.
— Eu sei que não é fácil se despedir de alguém que foi tão importante em sua vida, especialmente quando vocês não estavam nos melhores termos. Saiba que estou aqui, se quiser conversar.
Anne sabia que Andrômeda falava por experiência própria. Ela tinha perdido a irmã, com quem não estava em bons termos, há apenas poucos meses. Mas o que estava perturbando Anne não tinha nada a ver com Amélia, e Andrômeda nem podia começar a compreender (ou mais precisamente, Anne mal podia começar a explicar).
— Tudo bem se eu ficar um tempo sozinha? — Anne perguntou, de repente ansiosa para sair do raio de alcance da preocupação de Andrômeda. — Não vou muito longe, prometo. Só preciso respirar um pouco.
— Se é o que quer. Vou voltar para a minha sala, tenho uma papelada para preencher antes do meu próximo turno — Ela se interrompeu, como quem volta atrás em uma decisão. — Está tudo bem em Hogwarts, Anne?
— Uh, sim. Na medida do possível.
— E nenhuma novidade sobre o sumiço de Harry Potter, ainda?
Anne lembrou do calor do corpo de Harry contra o dela aquela manhã, antes de voltar ao seu dormitório, apressada, para se trocar antes de se encontrar com a madrinha. A respiração dele em seu ombro. O cheiro dele, impregnado em seu uniforme.
— Não. Nenhuma.
— E você por acaso tem visto Tonks? Ela não anda respondendo às minhas cartas, mas eu sei que ela anda por Hogsmeade, às vezes — Andrômeda admitiu, mal ocultando a preocupação por detrás do que devia ser uma tentativa de pergunta casual.
— Sei que ela e Bervely têm mantido contato. Você já viu com ela?
— A sua irmã também não tem respondido as minhas cartas.
— As coisas andam meio loucas em Hogwarts.
— Eu suponho — Andrômeda deu um sorriso pequeno, de não-se-preocupe-com-isso-querida, e beijou a testa de Anne. — Tem certeza que quer ficar sozinha? — Anne assentiu. — Bem, se precisar de mim, sabe onde me encontrar.
Quando Andrômeda a deixou, Anne deu uma última olhada para o corpo de sua avó, guardando-a na memória. Ela escorregou para além das cortinas, onde o corredor da Ala Janus Thickey para Casos Irrecuperáveis se estendia para um lado e outro, uma série de camas lado a lado, a maioria oculta por outras cortinas brancas. A ala fora ampliada desde a última vez que Anne estivera ali, a fim de acomodar todas as vítimas de dementadores. Agora, ela mal podia ver onde o corredor terminava.
Anne fez o caminho para a esquerda, na direção da porta da ala, com a intenção de se livrar do amplo cômodo com cheiro de decadência humana. Humanos esquecidos ou deixados para trás ou perdidos, além de toda esperança. Ela ainda se lembrava da época em que ficara internada ali após perder a sua visão, os pesadelos que vinham toda noite, a sensação de ser engolida pela escuridão...
Anne parou. Ela tinha acabado de passar em uma parte familiar da ala, perto da entrada. A plaquinha com o nome do paciente — os pacientes mais antigos ainda eram identificados com placas indicando seu sobrenome — dizia “Arty, J.”
— Sem chance — Anne murmurou para si mesma, chocada.
Ela hesitou diante das cortinas fechadas em torno da cama em questão, o coração dando uma guinada. João Arty fora o único amigo de Anne no hospital, e eles tinham trocado cartas por algum tempo. Anne até tivera uma quedinha um pouco embaraçosa pelo garoto mais velho. Mas aquilo fazia anos… A ideia de que enquanto a sua vida tinha seguido em frente e dado mil e uma reviravoltas, Arty ainda estava ali, no mesmo lugar, na mesma cama, era absurda.
É claro que ele está. A doença dele era incurável.
Anne hesitou, encarando a cortina, se perguntando se deveria. Não havia nenhum ruído vindo do outro lado. Talvez ele estivesse dormindo. E mesmo se estivesse acordado, quem garantia que ele ia se lembrar dela?
— Precisando de alguma coisa, querida? — Anne se virou e viu um dos curandeiros da ala – um homem baixo com a cabeça raspada e uma voz macia, lhe olhando com as sobrancelhas quase inexistentes franzidas.
— Ah, não, eu… uh… Eu só estava de passagem.
Ele não pareceu convencido.
— Veio visitar Arty? Ele não recebe muitas visitas. Só a mãe dele vem de vez em quando, coitadinha, e lê livros trouxas para ele. Já disse a ela que ele não pode ouvir nada, mas ela insiste.
— Ele está surdo? — Anne perguntou, mas o enfermeiro se apressou em negar.
— Oh, não, não, ele está… encalhado, por assim dizer.
Anne piscou, confusa. O curandeiro abriu a cortina e fez um sinal para ela entrar com ele.
— Pode vir, eu já ia checar os sinais vitais dele, faço isso a cada hora. Sabe, só para o caso…
Anne o seguiu, sem ter certeza de que queria ver o que tinha acontecido com Arty. Mas então, o garoto deitado na cama, sem nenhuma bolha de isolamento mágico ao redor dele para protegê-lo de sua alergia fatal à magia… não era João Arty. O que era irônico, porque Anne nunca tinha tinha visto Arty, ela ainda estava cega da última vez que tinham se falado pessoalmente, mas Anne tinha certeza de que aquele não era João Arty, porque ela conhecia o garoto negro e alto deitado bem diante dela.
Ela o via diariamente caminhando em Hogwarts, desde que Harry pegara a sua aparência emprestada.
— Dino — Anne murmurou. O enfermeiro, que tinha se adiantado para medir a pressão do garoto com um feitiço, se voltou para ela.
— Desculpe, o que disse?
— Esse não é João Arty, é Dino Thomas. Ele é… era… meu colega em Hogwarts.
— Você deve estar enganada — ele disse com gentileza, do tipo tem-um-parafuso-faltando-nessa-sua-cabecinha. — Eu tenho a ficha dele bem aqui. Vê? João Elliot Arty.
Anne se aproximou da cama e olhou para o rosto inconfundível de Dino Thomas, exatamente como ela tinha visto em Harry no dia anterior, quando ele ainda estava sob a poção polissuco.
— O que ele tem, exatamente? — Ela quis saber, reparando que ele não se parecia exatamente como a versão na qual Harry se tornava todos os dias. Aquele Dino estava mal-nutrido, as bochechas fundas e as maçãs do rosto pontudas, os olhos se movendo sem parar por debaixo das pálpebras.
— Uh… foi amaldiçoado. Azaração de Pesadelo Permanente. Comensais da morte, sabe? — O curandeiro murmurou, mais baixo, em tom de segredo. — O seu amigo aqui parece ter se metido com o tipo errado de problema. Sinto muito.
Anne tentou pensar além da sua perturbação com a visão de Dino naquela condição. Ela nunca fora próxima do Dino real, mas nos últimos meses ela tinha aprendido a gostar do garoto só porque ela era a embalagem que Harry vinha usando. Ela o beijara naquele corpo, por Merlin. E ali ele estava… em agonia, preso em uma maldição horrível, sem que nenhum deles soubesse.
Ela o espiou com mais atenção, o número de perguntas apenas aumentando.
— O que aconteceu com o cabelo dele? — ela quis saber, tocando os dedos no cabelo crespo e desigual de Dino, do qual vários tufos faltando.
— Oh, eles recolhem um pouquinho toda semana, para fazer testes.
— “Eles” quem? — Anne se fez de desentendida, porque ela sabia exatamente para onde o cabelo de Dino Thomas estava indo. Bervely, responsável pela polissuco de Harry agora em tempo integral, recebia uma remessa semanal em um envelope, por correio coruja confidencial.
— Os medibruxos da ala, eu suponho.
— O que aconteceu com o… com o garoto que estava aqui, antes dele?
— Não faço ideia. Ele já estava aqui quando eu comecei. Só fui recrutado para essa ala em novembro, quando a loucura com os dementadores começou.
Isso explicava porque o curandeiro não se lembrava do verdadeiro João Arty – ele devia ter ido embora – ou coisa pior, mas Anne tentou não pensar nisso — antes que o curandeiro começasse a trabalhar em Janus Thickey.
Ela parou de fazer perguntas, observando o bruxo fazer o seu trabalho, anotando os sinais vitais de Dino Thomas numa prancheta flutuante que o seguia pelo espaço limitado pelas cortinas. Ela imaginou o que veria se tirasse a Orbe de Parlaisa do pescoço e tocasse Dino. Conseguiria ver em que pesadelo ele estava preso? Conseguiria ajudá-lo, ou só recolheria mais um horror para a sua coleção?
— Oh, não, meu bem, não se preocupe. Aqui — O curandeiro ofereceu a Anne um lencinho de seu bolso. Ela enxugou os olhos marejados. O homem lhe deu tapinhas de simpatia nas costas.
— Eu sei que parece ruim, mas estamos fazendo de tudo para deixá-lo confortável, enquanto ele resistir.
— C-Como assim, enquanto ele resistir? — Ela fungou, recuperando o controle de suas cordas vocais.
— Bem, sabe o que dizem… é possível morrer de medo, e no caso dele, é só uma questão de tempo.
* * *
— ‘dia, Rose.
— Wood — Bervely retorquiu, sem erguer o rosto de suas panquecas. Oliver passou às suas costas e se sentou na cadeira imediatamente ao seu lado. — Eu não faria isso se fosse você. Se Severus pega você aí, come o seu fígado na torrada dele.
— Sorte que o nosso morcego favorito raramente deixa a caverna para o café da manhã em fins de semana — Oliver retrucou sem abalo, se acomodando no lugar vazio do mestre de poções.
Mesmo sem olhar, Bervely sabia que tipo de sorriso ele ostentava. Ela podia ouvir a presunção na voz dele.
Infelizmente não tinha como discordar da afirmação. Severus tendia a evitar o Salão Principal a não ser quando absolutamente necessário, o que não incluía os fins de semana — especialmente quando tinha Bervely para fazer o seu trabalho de diretor de casa e manter um olho na mesa da Sonserina.
Pelo canto de olho, Bervely viu Oliver se servir de uma variedade de comidas do bufê de café da manhã, montando uma pilha instável em seu prato. Ela ainda não estava acostumada com a presença dele no castelo – volta e meia se esquecia que Oliver estava substituindo a professora Hooch, e era pega de surpresa ao vê-lo despontar de algum corredor e acenar para ela alegremente.
— Notícias de Nymphadora? — Oliver voltou a perguntar, de boca cheia. — Foi lua cheia essa noite, não foi?
— Sim — Bervely assentiu, o vinco entre as sobrancelhas se acentuando com a lembrança. — E não, não tenho notícias.
Como se seguisse a deixa, o correio coruja fluiu pelas janelas altas do teto do Salão Principal, num farfalhar de asas e piados. Sendo domingo de páscoa, muitos estudantes esperavam receber pacotes da família com ovos de chocolate e outros mimos. Bervely apertou os olhos para os pássaros, tentando perceber se algum vinha em direção à mesa dos professores.
A coruja amarelo-ouro de Remus, Aramis, se destacou do grupo e veio voando até ela. Aramis deixou um rolo de pergaminho pequeno ao lado do seu prato e beliscou a sua torrada em retorno. Bervely o deixou ter o que restava em seu prato, desenrolando o pergaminho com pressa para ler a caligrafia inclinada do lobisomem:
Ambos passaram bem a primeira noite. Pode passar aqui mais tarde? Eu gostaria de agradecer pessoalmente.
R.L.
Bervely voltou a enrolar o pergaminho, sentindo o nó perpétuo em seu peito folgar. A sua poção funcionar; um feito que alguns teriam dito impossível de se atingir no espaço de tempo tão pequeno. Um sorriso insuportável infectou seu rosto, o qual Bervely o disfarçou esticando a mão para alcançar a jarra de suco de laranja.
— Boas notícias? — Oliver quis saber, mastigando ao seu lado.
— Ela está bem — Bervely informou, servindo-se de suco no maior copo que conseguiu encontrar. — Ambos. O bebê também.
Oliver, que ainda estava lhe espiando com curiosidade, voltou a perguntar, dessa vez desconfiado:
— O que você fez?
— Como é? — Bervely perguntou com inocência, bebendo um gole do suco. Doce.
— Pela sua cara, dá pra ver que teve dedo seu nisso.
— Eu não controlo os efeitos da lua cheia, Wood.
— Rose.
— Ok, talvez eu tenha contribuído um pouco — ela admitiu, mordendo o sorriso.
— O que você fez?
Suspirando, ela abaixou a voz para um tom que os outros professores na mesa – Flitwick e Trelawney, a algumas cadeiras de distância, não pudessem ouvir:
— Talvez eu tenha adaptado uma poção ilícita para acalmar o bebê durante a lua cheia. E talvez a minha poção tenha dado certo e eu não tenha matado Nymphadora no processo.
— Você é um espanto — ele disse com reverência, o que a fez sorrir de novo, contra a sua vontade. — Continue assim, e eu vou ter que abrir um fã clube em seu nome.
— Talvez alguém precise mesmo — Ela disse, rolando os olhos de volta para a mesa das casas. A maioria das corujas tinham cumprido sua missão e estavam voando salão afora, deixando o ar decorado com penas flutuantes. Na mesa da Sonserina, Bervely identificou o topo da cabeça loiro-platinada de Draco, sentado sozinho na extremidade mais distante, olhando para cima com uma expressão estranha no rosto. Ele não tinha recebido nenhuma encomenda. A costumeira cesta de doces de Narcissa não ia vir esse ano.
O sorriso de Bervely esmoreceu, assistindo Draco abaixar os olhos para o próprio prato, como quem cai em si e tenta disfarçar um momento de distração. Draco empurrou o prato intocado para longe, levantando da mesa num gesto mecânico.
— Preciso ir — Bervely anunciou, empurrando a cadeira com o corpo para se levantar.
Oliver franziu, olhando para a panqueca meio comida e o suco intocado que ela estava deixando para trás.
— Rose, o que-
Mas Bervely já estava fora do alcance da voz dele, falhando em uma despedida apropriada, como de costume.
* * *
— Você quer me contar o que Viu?
Anne se voltou para a madrinha, por um momento pensando que Sophia se referia ao que ela vira na Ala Janus Thickey em sua ausência. Mas então percebeu, pelo jeito que a madrinha a olhava (como se pudesse ver através de sua alma), o que ela queria dizer.
As duas retornavam ao castelo, sentadas em bancos opostos de uma carruagem encantada cedida por Hogwarts para aquela visita à Londres.
— Como sabe eu eu vi alguma coisa? — Anne perguntou, retornando o olhar ao céu nublado do lado de fora da janelinha. Os testrálios voavam acima das nuvens, a carruagem encantada com feitiço de desilusão para não ser vista pelos trouxas.
— Eu já estive em seu lugar, Anne. Eu sei como é ser atormentada por uma Visão não requisitada, uma vez que a sua mente se abre para esse tipo de coisa.
Exceto que essa foi requisitada, Anne pensou com amargura. Não era como se fosse admitir isso para Sophia – afinal, tinha prometido à madrinha que não ia usar a Visão de forma deliberada enquanto estivesse em Hogwarts.
— Eu não quero falar a respeito — ela murmurou.
Não antes de falar com Harry, pelo menos.
— Está bem — Sophia aquiesceu, muito mais leniente do que teria estado num dia normal, um em que Anne não tivesse assistido a avó morrer. — Tem pensado sobre a minha oferta? Seria fácil aprender a controlar visões acidentais em Avalon. E você não teria que usar a Orbe, eu sei o quanto pode ser incômodo tamponar os seus sentidos dessa maneira.
À menção do objeto, Anne o capturou entre os dedos, o calor da esfera de sensile aquecendo a sua palma. Estivera tão quente pela manhã que ela fora forçada a passá-lo por cima das roupas para não se queimar.
— Sim. Eu tenho pensado no assunto.
* * *
— Isso é algum tipo de piada? — Draco quis saber, o nariz torcido para o cheiro de bacon frito, ovos, pão que algum elfo devia ter queimado mais cedo. — Você perdeu o juízo de vez? Esse lugar é fora dos limites para alunos!
— Sente-se — Bervely indicou para ele um banquinho alto, o único tipo de assento disponível na pequena estação individual da qual ela tinha se apossado há um par de minutos. — Dobby não pode se ausentar da estação de trabalho dele por muito tempo sem precisar se punir.
Draco deu uma boa olhada ao redor da cozinha da escola, o topo do nariz franzido, como ele fazia quando achava que algum lugar não estava à altura de sua Malfoynificência. Bervely conhecia bem a expressão, tendo-a visto em variações diversas nos rostos da família ao longo dos anos de sua infância.
— Você disse Dobby? — Ele se voltou para ela, espantado. — O antigo elfo de meu pai? O que ele está fazendo aqui?
— Ele trabalha aqui. Faz anos, desde que Lucius o libertou.
Draco piscou atordoado, repetindo a palavra “trabalha” para si mesmo como se pudesse extrair dela um sentido oculto que se aplicasse a elfos domésticos.
Bervely deu a ele algum tempo para processar, enquanto reunia alguns ingredientes em cima da bancada apertada. Tinha sido fácil conseguir aquele favor do elfo — quando ela explicara a Dobby o que pretendia, o elfo tinha praticamente quicado de empolgação. A parte difícil tinha sido convencê-lo de que ele não precisava ficar e fazer o trabalho por ela — o elfo ficara um pouco escandalizado ao perceber que Bervely tinha a intenção de colocar a mão na massa ela mesma.
— Isso é algum tipo de punição? — Draco perguntou, desconfiado. Ele ainda não tinha se sentado nem parecia disposto a fazê-lo, as mãos enfiadas nos bolsos com a resolução de quem queria evitar qualquer contato com superfícies corrosivas. — Por que eu estuporei você ontem à noite?
Bervely olhou para ele por cima de um pacote gigante de farinha de trigo.
— Não posso lhe dar detenção por algo que aconteceu fora da escola.
— Mas você ainda está irritada comigo.
— Furiosa — ela confirmou, selecionando alguns ovos de uma cesta de vime.
Ela abriu a pequena dispensa acima da pia e começou a chamar os ingredientes, que apareceram das profundezas dos depósitos de Hogwarts um a um. Manteiga, leite, canela em pó. Elas o depositou no balcão de trabalho, que era apropriado para elfos, e portanto um tanto baixo para ela.
— Para a sua informação, se eu não tivesse… se eu não estuporasse você, tia Bella ia fazer muito pior.
Um arrepio levantou os pelos dos braços de Bervely. Ela ignorou a reação, alcançando uma tábua de madeira e uma faca do chefe bem afiada pendurada em um gancho sobre a pia.
— Foi isso que ela disse a você?
— Não é como se ela precisasse, é? — Draco fez um ruído entre um suspiro contrariado e um bufo que lembrou a Bervely um gato acuado. — Sério, Bervely… o que você pensa que está fazendo aqui? Você nem sabe cozinhar. Cozinha é lugar de elfos, não de gente.
Ela o olhou por cima do ombro, tentando uma expressão neutra para a inquieta dele:
— Narcissa cozinhava.
A expressão de Draco se fechou à menção da mãe. As narinas brancas inflaram e ele olhou para outra direção, como se o olhar de Bervely de repente queimasse.
— E daí? Não é a mesma coisa. Era a casa dela, ela podia cozinhar, se quisesse.
Bervely deu um sorriso pequeno para as maçãs que era suposta a descascar, lembrando que esse era o argumento de Narcissa quando Lucius a pegava na cozinha. Ela protegia aquela receita com afinco e jamais a teria passado a um elfo. Ao invés disso, ela expulsava as criaturas da cozinha em ocasiões especiais — aniversários, crianças doentes — e fazia a sua torta secreta.
— É só uma cozinha, Draco. Relaxa.
Bervely usou a varinha para descascar as maçãs. As suas cascas não se desenrolaram em fitas perfeitas quanto as de Narcissa, mas supunha que era uma questão de prática. Cozinhar não era tão diferente de fazer poções, no fim das contas.
— Você está fazendo a receita dela — Draco murmurou, enfim dando-se conta.
— Achei a data propícia — Bervely disse, sem se virar. Pelo canto do olho, viu Draco puxar o banquinho alto e se sentar. Ele ficou observando Bervely trabalhar por um tempo, em silêncio. Bervely cortou a maçã em fatias finas em formato de crescente e misturou a massa com os dedos.
— Quando foi que ela lhe ensinou?
— Não ensinou. Quando ela mandava os elfos para fora da cozinha para poder cozinhar em paz, ela me deixava assistir.
— Eu não sabia disso.
Bervely sorriu, os dedos grudentos. Algumas etapas podiam ser complicadas com magia, mas não aquela. Nem toda magia vem de uma varinha, Narcissa tinha lhe dito uma vez, quando Bervely perguntou porque ela tinha que sujar as mão na massa. Para Draco, ela disse:
— Você tinha medo dos elfos. Não chegava nem perto da cozinha.
— Eu não tinha– Draco começou, efusivo, mas Bervely lhe deu um olhar enfático e ele teve a decência de corar e recalcular o curso. — Eles eram assustadores. Ainda são, honestamente.
— Você é três vezes maior que um elfo, Draco.
— Não é sobre tamanho, ok? São os olhos esbugalhados e os dedos retorcidos, e os dentinhos… — Ela ergueu as sobrancelhas para ele, divertindo-se. Draco resmungou — Deixa pra lá.
— Seu segredo está seguro comigo.
Num mundo sem magia a massa precisaria descansar por duas horas, mas com um feitiço Fermentum, a bola amarela e brilhante quase dobrou de tamanho em poucos minutos. Bervely a colocou na frente de Draco, junto com uma forma redonda de porcelana temperada.
— Aqui, forre a forma enquanto eu preparo o recheio.
Draco encarou a forma e a massa como se esperasse que ambos estivessem em complô para arrancar os seus dedos fora.
— Eu não sei–
— Se você sabe lançar um estupore bem nas minhas fuças, certamente é capaz de esticar uma massa de torta.
Draco estreitou os olhos para ela.
— Sabia que você ia jogar isso na minha cara eventualmente.
— Só a primeira de muitas vezes — Bervely garantiu, voltando ao balcão para a segunda etapa.
Ela preparou o recheio usando o método especial de Narcissa. O segredo era uma pitada de noz moscada e outra de cabelo de fada. Até então, toda vez que uma lembrança de Narcissa emergia, Bervely tinha se apressado a empurrá-la para os confins da consciência bem rápido, antes que os sentimentos associados — a culpa por nunca ter se desculpado, o arrependimento pelo tempo perdido — viessem cobrar pedágio. Daquela vez, fazendo a receita da torta de maçã da tia, Bervely se sentiu grata. Grata por ter algo de Narcissa para levar com ela. Algo que ela podia compartilhar com Draco. Algo que, com sorte, o faria se sentir um pouquinho menos miserável naquela páscoa.
Bervely montou a torta usando a base que Draco esticara na forma, e usou o resto da massa para cobri-la. Fez o corte de assinatura da tia no topo – um “M” elaborado para “Malfoy” (quando Narcissa fazia a torta para o aniversário de Beverly, ela colocava um “B” no lugar do “M”). Pensando melhor, Bervely cobriu o M e começou de novo, colocando um “D” no lugar. Ela colocou a torta no forno.
O forno da cozinha de Hogwarts, como o de toda casa bruxa, sabia exatamente o que fazer com uma torta; Bervely só precisou especificar que queria a sua “crocrante nas beiradas”.
Ela voltou a se sentar com Draco, conjurando um segundo banquinho alto de uma estação desocupada. Draco tamborilava os dedos brancos de massa em uma mesinha flutuante, que tinha se materializado quando ele precisara apoiar a travessa de porcelana. Bervely sabia que tinha algo o perturbando, mas ao invés de perguntar, ela deixou o silêncio se esticar como um elástico tensionado.
— Como você sabia que eu estava pensando nela? — Ele quis saber, os olhos presos nas mãos inquietas, depois de suportar o silêncio por quase dois minutos.
— Porque eu também estava — Bervely disse, a garganta arranhando um pouco— Ela também me mandava uma cesta de doces toda páscoa. Para a Durmstrang.
Draco a espiou, surpreso com aquela informação.
— Sério? Com sapos de chocolate, bolos de caldeirão e ovinhos de caramelo?
— Sem ovinhos de caramelo, eu odeio aquela coisa. Mas ela colocava diabinhos de pimenta no lugar.
Draco fez uma careta.
— Não sei como aquilo não abre um buraco em seu estômago.
Bervely deu de ombros. Diabinhos de pimenta tinha sido o seu doce preferido desde que ela se lembrava.
Draco continuou tamborilando. Bervely reprimiu um impulso de pedir para que ele parasse com aquilo. Ela se lembrou que também tamborilava quando estava agitada.
— Às vezes é difícil acreditar que ela não está na Mansão, esperando.
Ele voltou a cruzar os braços, virando o rosto para longe. O forno apitou, avisando que a torta estava pronta. Bervely foi recolhê-la, dando a chance de Draco enxugar os olhos em paz, os seus próprios pinicando.
O aroma da torta de maçã caramelizada com nozes e canela se alastrou pela estação de trabalho de Dobby. A saudade de Narcissa ficou, ao mesmo tempo, maior e mais suportável do que antes. Ela estava ali com eles, de certa forma. Bervely desejou por pratos, os olhos embaçados. Os pratos surgiram na mesinha flutuante, acompanhados de talheres, guardanapos de linho e copos de leite fresco.
Ela serviu fatias generosas para si mesma e para Draco. Nunca tinha sido especialmente atraída por doces, mas a torta de Narcissa era uma exceção.
Draco experimentou a primeira garfada, mastigando com uma vagareza torturante.
— Então? — Bervely perguntou, depois do que pareceram quatro mil anos de silêncio.
— Comível — ele declarou, pousando o grafo.
— Comível?
Draco deu um sorrisinho pequeno de provocação.
— É bastante decente, Beverly, satisfeita? Agora pare de me encarar, não consigo comer com você me vigiando.
Eles comeram num silêncio de contemplação profunda aos efeitos curativos do açúcar e da manteiga. Bervely fez uma nota mental para deixar um pedaço de torta em agradecimento ao elfo doméstico, isso se Draco não devorasse a coisa toda de uma vez. Deixar um pedaço de torta não seria ofensivo para um elfo, seria? Certamente não era o mesmo que oferecer peças de roupa...
— Você não vai me perguntar o que ela queria comigo? — Draco perguntou entre o segundo e o terceiro pedaço de torta. — Tia Bella…
Bervely negou.
— Hoje não. Outro dia.
* * *
Anne usou o truque que tinha aprendido com Coreen em Avalon para achar Harry, tentando usar os olhos dele e ver o que ele estava vendo. O que ela viu foi o campo de quadribol do alto, em movimento, mas quando Anne foi ao campo de Hogwarts ela achou a Sonserina treinando e nem sinal do garoto.
Só havia mais um lugar capaz de abrigar um campo de quadribol em Hogwarts.
Ela correu até o sétimo andar e passou diante da parede vazia três vezes, pensando “me mostre o campo de quadribol de Harry”. Da terceira vez uma porta surgiu; do outro lado um gramado aveludado, um céu azul-cerúleo sem nuvens e um campo de quadribol completo, incluindo traves e quatro arquibancadas — todas as quatro levando as cores da Grifinória. Isso a fez sorrir, apesar do nó de tensão apertado na base do seu estômago.
Harry perseguia um pomo — livre e irascível como um pássaro de fogo, suas veste de quadribol e o cabelo voando numa brisa morna de verão produzida pela sala – o clima estava ventoso e terrível do lado de fora do castelo.
Harry a viu lá embaixo e desviou o curso, inclinando a Firebolt para baixo num ângulo oblíquo. Ele deslizou na horizontal no último segundo, planando diante de Anne com um woosh. O deslocamento de ar fez o cabelo dela ondular para o rosto.
Anne achou que ele, talvez, estivesse se exibindo um pouco.
— Hey, você — Harry disse. O rosto estava sério, mas os olhos sorriam, cheios de luz. Harry Potter em cima de uma vassoura era um Harry Potter feliz, mesmo quando estava fazendo um esforço extra para não parecer muito, vez que ele sabia de onde Anne estava vindo. — Como foi… uh, tudo?
— Como previsto.
— Sinto muito.
Harry pingava de suor, o uniforme ensopado, o cabelo grudado nas têmporas, o rosto corado, a respiração acelerada. Vê-lo assim fez Anne se lembrar da noite anterior. A lembrança aqueceu seu rosto, e instalou um peso de nostalgia antecipada em seu peito.
— Quer dar uma volta? — Ele indicou a vassoura, a Firebolt que Harry não podia mais usar do lado de fora sem chamar a atenção da escola para o seu disfarce.
— Não, obrigada.
— Vou capturar o pomo para você, então. Isso vai fazer você se sentir melhor.
— Obviamente — ela rolou os olhos.
— Volto num instante!
Ele estava no ar antes que ela pudesse dizer “boa sorte”. Anne o observou deslizar, confortável em seu próprio corpo, em suas próprias roupas, em sua própria vassoura. Para escapar do efeito da poção polissuco, Harry vinha passando muito mais tempo sozinho do que Anne julgava saudável. Se esgueirando em partes desabitadas do castelo, indo para a cama mais cedo, coisas do tipo. O isolamento dele a preocupava.
Ela se deitou de costas no chão para esperar, sentindo a grama macia fazer cócegas na parte descoberta de pele entre as meias três quartos e a saia do uniforme.
A Sala Precisa tinha conjurado um dia perfeito para Harry. Anne se perguntou o quanto daquilo vinha da magia da sala, e o quanto vinha do próprio estado de espírito do garoto. Uma combinação de ambos, ela supôs. Anne não ficaria surpresa se a sala usasse energia do estado de espírito dos bruxos requisitores para empoderar as suas transformações. Ela nunca tinha achado informação sobre aquela sala na biblioteca de Hogwarts. Havia tanta coisa que ela nunca tinha achado na biblioteca...
Ela fechou os olhos, sentindo o calor gentil do sol falso aquecer o seu rosto. Fazia uma eternidade desde que tinha estado quente de verdade, do lado de fora. Graças a Merlin que eles podiam contar com mágica durante o inverno.
Ela devia ter cochilado, porque se sobressaltou quando alguma coisa úmida e morna se colou à sua bochecha.
— Harry, ugh! Você está pingando de suor! — Anne tentou se esquivar do garoto fazendo sombra em cima dela, a preciosa Firebolt largada ao seu lado de qualquer jeito.
— Nesse caso, talvez você prefira um abraço.
— Harry!
Mas ela o abraçou de volta mesmo com o suor, sem se importar nem um pouco. Ele a beijou, lábios queimando contra os seus, as mãos lhe segurando com uma firmeza autorizada pela sua nova intimidade. Ou talvez fosse a adrenalina do voo, Anne não tinha voado, mas de repente todo o seu corpo estava pulsando e quente também, respondendo ao dele.
— Aqui — Harry quebrou o beijo para colocar o pomo na mão dela. A bolinha, trazendo o calor da mão dele, se debatia sem muito afinco. — Venci o jogo pra você. Cento e cinquenta pontos para Johanne Black.
— Estou muito honrada, mas não acho que a minha casa esteja representada nessa partida — Anne indicou as arquibancadas, todas vermelhas-e-douradas. Harry riu.
— Não faço ideia de como isso aconteceu. Deve ser alguma piada interna da Sala Precisa.
Ou isso, ou ela está puxando o saco do Escolhido.
Harry desabou ao seu lado, ainda ofegante, irradiando tanto calor quanto o sol acima deles. Num movimento natural, Harry estendeu a mão e entrelaçou os dedos na mão livre de Anne. Ela fechou os olhos, sentindo que poderia flutuar, se Harry não a segurasse firme. Ela se apegou àquela sensação, sabendo que não ia durar para sempre. Sabendo que ia querer se lembrar dela quando aquele dia acabasse.
— Eu fiquei preocupado. Quando eu acordei você não estava mais lá e tinha sangue no meu suéter.
— Desculpe — ela pediu, constrangida, inclinando a cabeça para olhá-lo, franzindo os olhos contra o sol. — Achei que tinha limpado tudo. Foi um daqueles sangramentos, por conta da Visão.
— Achei que você tinha dito que não ia acontecer — ele franziu.
— Eu coloquei a Orbe de volta depois que você pegou no sono.
Harry se ergueu sentado, sacou a varinha do bolso do uniforme e conjurou a mochila, largada na borda do campo. Lá de dentro, tirou um embrulho em papel pardo e o colocou sobre a barriga de Anne.
— Remus mandou isso para você. Chegou no café da manhã, mas você não estava lá para receber.
— Obrigada — Anne abriu o pacote com a mão livre e despejou o conteúdo na grama. Um monte de barras de chocolate e outros doces feitos em casa: coelhinhos de marshmallow, codornas de chocolate branco e pasta de amendoim, violetas caramelizadas crocantes.
Com tudo mais acontecendo, ela quase tinha se esquecido que era domingo de páscoa.
— Engraçado como tanto bruxos como trouxas celebram a páscoa com ovos de chocolate — Harry comentou.
— Nem todos. Bruxos tradicionais preferem ovos encantados com feitiços complicados que você precisa desvendar para encontrar o próximo, até chegar ao altar de Ostara, onde você deve fazer uma oferenda mágica. Só então você tem acesso aos doces. Às vezes, labirintos estão envolvidos.
— Não sou um grande fã de labirintos — Harry disse, roubando um dos chocolates dela.
— Nem todos terminam com uma chave de portal para o Lorde das Trevas —
O rosto dele se franziu, uma sombra cobrindo o brilho de seus olhos por um momento.
— Bem. Eu não saberia — ele deu de ombros, mordendo a ponta do chocolate. — No meu mundo quase tudo termina com um portal para “o Lorde das Trevas”.
O comentário varreu o sorriso do rosto de Anne. Ela se lembrou daquela manhã – das imagens na água, das respostas à sua pergunta, e de como longe de tranquilizá-la, elas tinham revolvido tudo. De novo.
— O que foi? — Harry quis saber, percebendo a mudança em sua expressão. — Ainda é aquela história sobre a Canção de Morgana manipulando a gente? Por que eu disse a você, eu não me importo. Eu quero que Morgana e a Canção se danem–
— Não é isso — Anne se sentou, e deliberadamente mudou de assunto — Eu vi Dino Thomas no hospital, hoje.
Ela contou a Harry sobre a atual condição de Dino e o fato de que alguém – Dumbledore, ela suspeitava — tinha usado a identidade de João Arty para esconder a de Dino. Talvez para a proteção do garoto, talvez para a de Harry. Ela sabia que a notícia não iria levantar a moral de Harry, mas talvez ajudasse a renovar a sua força de vontade para continuar firme no plano de Dumbledore. Ela evitou mencionar a opinião do curandeiro, que Dino talvez morresse de medo num futuro próximo.
O olhar assombrado no rosto de Harry confirmou o que Anne suspeitava: Harry não sabia em que circunstâncias Dino tinha “concordado” com aquele seu disfarce. Mais uma coisa que ele precisaria esclarecer com o diretor quando (se) o professor Dumbledore voltasse.
Anne e Harry passaram o resto da tarde de domingo dentro da Sala Precisa. Devoraram os doces enviados por Remus, disputaram algumas partidas de quadribol em busca do pomo de ouro e Harry até deixou Anne vencer uma vez, pelo que ela o encheu de cascudos. A sua luta pela grama logo se tornou um emaranhado de braços e pernas, suor e terra e lábios e línguas.
Dentro da Sala Precisa, o dia de verão perfeito de Harry nunca esmoreceu, mas, do lado de fora, Anne sabia que o tempo não tinha parado. Antes de deixarem a Sala, ela tirou do bolso o pomo que Harry tinha deixado ela capturar na última partida, e que desde então se debatia no bolso de sua saia do uniforme.
— Posso ficar com ele?
— O que você quer o meu pomo de ouro? — Ele perguntou maldoso, os lábios colados em seu pescoço.
— Só vou guardar, abestalhado. Para me lembrar de você.
— Mas eu estou bem aqui — ele beijou, e depois mordeu, a pele quente atrás da orelha dela. Anne suspirou. Harry estava fazendo aquilo imensamente difícil.
— Você sabe o que eu quero dizer. Para quando não estivermos no mesmo cômodo, ou quando você estiver usando o seu disfarce.
— Se faz tanta questão — ele suspirou, afastando o cabelo dela para beijar a sua orelha. Anne fechou os olhos. Merlin, ela ia sentir falta dele. Dias perfeitos como aquele só aconteciam uma vez na vida. — Cuide bem do meu pomo.
— Prometo — ela disse, a voz fraca, colocando-o de volta no bolso da saia.
Harry lhe roubou um último beijo antes de retornarem ao ‘mundo real’, do outro lado do corredor do sétimo andar. Um beijo salgado de suor e doce de chocolate, línguas tão enroladas quanto as suas mentes.
E tudo que Anne conseguia pensar era Morgana, como você pode fazer isso com a gente?
* * *
Harry só descobriu depois do jantar. Estranhando a ausência de Anne na mesa da Corvinal, ele tomou coragem de perguntar para Bervely, passando em sua sala nas masmorras.
— Anne voltou para Avalon — disse Bervely, sem tirar os olhos da garrafa em sua mão, que ela segurava pelo gargalo. — Sophia voltou para buscá-la há um par de horas.
— Como é? — Por um segundo Harry achou que Bervely estava tirando uma com a cara dele. Mas Bervely não parecia num estado de humor propício para brincadeiras de mau gosto; Harry a tinha achado sentada no fundo do seu laboratório, enrolada em um cachecol grosso, bebendo de uma garrafa e em meio à uma fumaça de caldeirão tão densa que era de se espantar que ela conseguisse respirar ali dentro.
— Ela foi embora, Potter. O que é tão difícil de entender?
Harry sentiu o coração disparar. Ele era tão, tão estúpido. Como se uns beijos e uns voos de vassoura fossem apagar as preocupações e os medos que Anne tinha lhe confessado nos últimos dias. Como se uma noite com ele fosse convencê-la a ignorar o que ela achava ser, como ela tinha dito? A manipulação mágica do seu livre-arbítrio.
Só vou guardar, abestalhado. Para me lembrar de você.
Idiota. Idiota.
Bervely ergueu os olhos pesados para ele. Às vezes ela se parecia muito com Bellatrix, na memória que Harry tinha visto na penseira de Dumbledore em seu quarto ano. Aquele era um daqueles momentos. Era de gelar o sangue.
Exceto que Bervely não parecia arrogante quanto a mãe, só… exausta. Ela levantou a garrafa para ele:
— Uísque de fogo?
— Eu sou menor de idade — ele a lembrou, ainda tentando digerir a notícia. Anne tinha ido embora. Tinha deixado Hogwarts. Tinha deixado… ele.
Bervely deu de ombros.
— Se você não contar, eu também não conto.
Harry nunca tinha bebido uísque de fogo, mas ele achou que aquela oportunidade era tão propícia quanto possível.
(Continua…)
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