A Canção de Morgana

63 Entre Lapsos e Labirintos


Notas iniciais
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Inclinada sobre a balaustrada de um dos mezaninos que circundavam o salão, Bervely acompanhava com os olhos o borrão negro e prateado que era a Bellatrix, circulando pela pista de dança de braço em braço, aparentemente numa missão de dançar com todos os bruxos bem-nascidos presentes naquela noite.

Então, esse era o objetivo de Bellatrix usando o seu corpo naquela noite – ser notada. Ou ainda, garantir que Bervely era vista o suficiente para que o mundo mágico inteiro soubesse o quão orgulhosa de seu status de pureza ela estava.

Que se dane.

Era melhor assim – Bellatrix entretida em alguma missão estúpida, longe de problemas maiores do que exposição pública enquanto estivesse usando a sua identidade. Bervely podia lidar com a exposição forçada da sua pessoa – não era como se ela pudesse escapar da fofoca depois do show que Bellatrix dera ao puxar a varinha e ameaçar um convidado.

Antes puro-sangue orgulhosa do que comensal da morte confirmada… ao menos com as luvas longas que Bellatrix estava usando, ninguém podia ver a marca negra no braço esquerdo da comensal – que Bervely sabia ser inocultável com poção Polissuco.

Bervely também tentara achar o tal vampiro – Sanguini – e Maeve Rosier entre os convidados, mas eles não estavam à vista entre as cabeças rodopiantes, nem entre as que conversavam em pequenos grupos em torno do salão de dança ou das mesas bem servidas de bebidas exóticas e hors d’oeuvre.

O jeito com que Sanguini a encarara após confrontar Bellatrix ainda estava lhe incomodando – ela tinha a impressão de que o vampiro desconfiara de algo sobre os seus disfarces. Mas, que importância isso teria para ele? Se ele comentasse algo com Maeve, e essa decidisse investigar, ela é que se colocaria em perigo, ao se colocar no caminho de Bellatrix.

Bervely empurrou a cabeça nas mãos – as têmporas não tinham parado de latejar um segundo desde a legilimência forçada de Bellatrix.

— Cansado de exibir suas impressionantes habilidades no salão de baile? — Uma voz afetada a alcançou de algum ponto às suas costas. Bervely se virou e viu Pansy Parkinson, em um vestido de gala negro com rendas transparentes sobre os braços e colo, lembrando-a de um corvo mal-humorado.

Ela se voltou para a vista, com proposital desinteresse, uma retribuição ao tratamento frio que Parkinson lhe oferecera durante a valsa. Era óbvio que ela e Draco não deviam estar em bons termos.

Pansy se aproximou o suficiente para que sua voz fosse ouvida através da música.

— Daphne estava procurando por você feito louca lá embaixo.

— Uma ótima razão para estar aqui em cima.

Parkinson exalou uma risada curta de desdém.

— O que a alta-sociedade bruxa diria se o ouvisse falando assim da futura senhora Malfoy?

Então essa fofoca também estava se espalhando. Maravilha.

— Eu quero que a alta-sociedade bruxa lamba as solas dos meus sapatos — Bervely disse, só porque soava como algo que Draco diria.

— Continua o mesmo fedelho desaforado, então — disse Pansy, dessa vez com um certo calor em seu comentário.

Bervely se voltou para ela, estreitando os olhos.

— O que você quer, Parkinson?

Pansy inclinou a cabeça, considerando.

— Um pedido de desculpas seria o mínimo requerido para redimir sua alma albina.

Ah, outra mal-amada convencida de que Draco precisava se retratar. Bervely, que preferia Parkinson como companhia para troca de insultos do que Daphne, decidiu prosseguir com parcimônia.

— Do que exatamente eu estaria me desculpando?

— Me esqueci, Draco Malfoy nunca faz nada de errado.

Os dois ficaram em silêncio por um longo tempo, observando o salão de baile girar lá embaixo, até a música suspirar suas últimas notas.

— Eu sinto muito pelo seu pai — Pansy disse baixo, encarando as mãos ossudas. Ela pintara as unhas de preto para a ocasião, lembrando as garras de uma ave de rapina.

— Não se dê ao trabalho. Lucius teria odiado qualquer sentimento de pena atribuído à sua pessoa.

Pansy usou as mãos para se afastar da borda do mezanino, como quem toma uma decisão de última hora.

— Isabella e os outros estão fumando na capela, interessado?

— Que outros?

— Greengrass não está inclusa.

Bervely deu um pequeno sorriso ao comentário afiado. Em resposta, os olhos negros de Pansy faíscaram com humor. Ocorreu a Bervely que Pansy estava ali em uma missão, e ela estava dando à garota exatamente o que viera buscar.

Não que Bervely se importasse. Estava irritada com Bellatrix o suficiente pelo seu ataque legilimente público para mandar as supostas obrigações de Draco com Daphne Greengrass ao inferno.

Ela fez um gesto galante na direção da escadaria semioculta atrás deles, a mão pálida de Draco floreando no ar.

— Depois de você.


* * *

Bervely seguiu Parkinson por corredores secundários do Palácio Grisaille. O restante do palácio era feito do mesmo granito cinza-claro, opulento e pretensioso como requerido de um símbolo do status puro-sangue.

Ocorreu a Bervely que ela encontraria problemas com Bellatrix se sumisse por muito tempo do salão – mas então, a sua missão naquela noite não era vigiar Bellatrix – por mais que fosse a sua inclinação. Ela estava mais interessada no que os adolescentes estavam fumando – se fosse, como ela desconfiava, espiracéia, iria dar um jeito na sua enxaqueca, e aumentar as suas chances de sobreviver àquela noite.

Pansy as conduziu até portas duplas que levavam a uma plataforma nos flancos do palácio. Era outro jardim, mas diferente do frontal, fora feito para emoldurar a vista dos vales nevoentos mais adiante. O centro do jardim era preenchido por uma piscina retangular de águas escuras, sobre a qual uma plataforma dava acesso ao outro lado. A piscina refletia o céu estrelado, e alguma coisa brilhante se movia lá embaixo. Peixes-elétricos, talvez?

Alguns metros adiante, Pansy apontou uma construção pequena de teto redondo, cujo interior cintilava com a iluminação amarelo-tremulante de velas. Elas atravessaram a plataforma e os metros até a construção em silêncio. Uma vez próximas da estrutura, ela se deu conta de que estava em ruínas. Embora a parte da estrutura voltada para o palácio parecesse intacta, o outro lado – voltado para o vale – perdera grande parte da parede e do teto, propiciando o que devia ser uma vista espetacular durante o dia.

O chão da capela, talhado em granito cinza como o palácio, mas decorado com filigranas azuis, era feito de degraus concêntricos como o de um anfiteatro, terminando em uma piscina circular de água negra. Como as paredes e o teto, as escadarias do anfiteatro estavam semi-destruídas do lado voltado para o vale, fazendo com que os degraus restantes funcionassem como uma arquibancada para o vazio.

Espalhados pelo que restava dos degraus, Bervely identificou a silhueta de três adolescentes, o contraste de suas vestes opulentas contra as ruínas fazendo-os parecer figuras trágicas posicionadas para uma pintura vitoriana.

Isabella, a filha de Madame Selwyn, era a mais próxima da entrada. Ela fez uma careta quando viu Pansy, e o que ela reconheceu como Draco, se aproximar do grupo. A garota segurava a extremidade de um longo tubo flexível, que terminava em algo parecido com um bico. Da ponta do artefato fluía uma fumaça branca, que ondulava na frente do seu rosto e para cima, se dissolvendo na escuridão.

O tubo estava ligado a uma torre de vidro apoiada no degrau ao lado dela – uma chama cintilava lá dentro, queimando alguma coisa herbal que produzia a fumaça. Outros três tubos longos com extremidades terminando em bicos se conectavam à torre.

— Parkinson, você não era suposta a trazer extras para a nossa reunião. Especialmente do tipo que não sabe manter a boca fechada.

Bervely ergueu as sobrancelhas pálidas de Draco para Selwyn, mas foi Pansy quem respondeu:

— Não enche, Isa. Ele vai ficar de bico fechado. Não vai, Malfoy?

Bervely deu de ombros, sem se comprometer.

— Se me convier.

Isabella soltou um bufo contrariado e estendeu o tubo para Parkinson, decidindo ignorar Draco por hora. O cheiro amargo e herbal de espiracéia alcançou o nariz de Bervely, e ela sentiu um misto de alívio e desgosto. Tinha deixado Bellatrix à solta no seu corpo para vir ficar doidona com um bando de adolescentes puro-sangue bancando rebeldes… por outro lado, talvez isso fosse exatamente o que ela precisava naquele momento.

Bervely manejou as pernas longas de Draco para se sentar num ponto mais alto dos degraus, mais perto de Pansy do que de Isabella. Atrás dela estavam o loiro e largo Edward Rowle Jr. e o franzino e irritante Theodore Nott, ambos sem as suas máscaras de baile. Rowle se inclinou, pegou um dos tubos livres e colocou na boca, sugando fumaça branca, depois soltando-a em sopros consecutivos, encarando Draco com os olhos miúdos.

— Malfoy faz bem em se esconder embaixo da saia da prima, depois do que fez com Daphne — disse o garoto, como se estivesse pensando em voz alta, um sorrisinho afetado no rosto.

— Quem se importa com Daphne? Colocar cobras nas masmorras foi o cúmulo da idiotice, nos forçou a evacuar as masmorras por semanas — Pansy disse, soprando a própria fumaça.

Metade veio para o rosto de Bervely, que tentou não tossir. O cheiro da maldita espiracéia ia ficar impregnado em seu cabelo por eras.

— Só foi idiotice porque ela foi pega — Nott riu, cruel. — E porque não deu jeito em nenhum sangue-ruim no processo. Maior desperdício de recurso, se me perguntarem.

— Não que ninguém esteja perguntando — Pansy alfinetou. Nott rolou os olhos para ela.

— Eu teria fechado a festinha deles e causado um alagamento — Edward Rowle Jr. contribuiu, inclinando-se nos degraus com o relaxamento de quem tinha a melhor solução para o problema e nenhuma intenção de implementá-lo. — É o que a gente faz quando precisa se livrar de escória em grande quantidade de uma só vez, sem muito drama.

— Isso, ou fogo — sugeriu Nott, prestativo, inclinando a cabeça de rato. — A sua tia gosta de tocar fogo em escória, não é, Draco?

Isabella pigarreou, tossindo momentaneamente fumaça branca, e se inclinou para Draco:

— É verdade o que estão dizendo que aconteceu no Natal, Malfoy?

— O que estão dizendo que aconteceu no Natal? — Bervely quis saber, um frio de mau presságio se espalhando pelo seu estômago.

— Isa, Cristo — Rowle caçoou. — A sutileza de um erumpente.

— O quê? É o que todo mundo quer saber, não é?

Pansy e Nott se voltaram com interesse para o novo tópico.

— O que todo mundo quer saber? — Bervely repetiu, na voz arrastada de Draco.

— Se você recebeu mesmo a marca negra no Natal — Pansy enfim declarou ao lado dele, num ar de quem, pessoalmente, não dá muita bola. — E se é por isso que tem agido tão estranho.

Draco tem agido estranho porque perdeu ambos os pais, idiota, pensou Bervely, irritada. Ela se inclinou e cruzou os braços, sentindo o puxão das mangas das vestes justas, e uma reação aborrecida da rosa no interior do seu braço.

— Se isso fosse algo que eu pretendesse compartilhar, vocês já saberiam — ela resmungou. Rowle produziu um dramático rolar de olhos.

— Eu disse a vocês, ele não recebeu merda nenhuma. Se Malfoy tivesse a marca negra, já teria posado com o braço na frente da testa na capa do Profeta Diário.

— Isso, ou já estaria choramingando num canto com o peso da responsabilidade — Nott caçoou em resposta.

Nott e Rowle insistiam em adicionar à resposta do outro, numa competição de quem dizia a coisa mais cruel ou ofensiva. Bervely achava Nott especialmente irritante, com aquela mania de se referir a Draco na terceira pessoa, mas ao mesmo tempo tinha a sensação de que nem ele, nem Rowle, tinham uma razão pessoal para antagonizar Draco. Eles só estavam usando o que julgavam ser o membro mais vulnerável presente como saco de pancadas para estabelecer uma posição alfa no grupinho. E, a julgar por como Isabella se inclinava na direção de Rowle toda vez que ele falava alguma coisa, os olhos cintilando, parecia que a estratégia estava funcionando.

— Olga Greengrass parece miserável com a dela — Isabella comentou, brincando com o tubo de espiracéia que acabara de sugar. — Ouvi dizer que ela recebeu uma esse verão.

Bervely franziu para a informação. Isso poderia explicar por que Olga lhe parecera tão – bem, miserável, em sua rápida interação durante o baile. E por que ela tinha se esgueirado para fora da festa e permanecido fora de vista… estaria em alguma missão para o Lorde das Trevas n aquela noite? O frio de mau presságio no estômago de Bervely se expandiu… a ideia de que outros comensais da morte estavam à solta no salão, cuidando de suas próprias agendas para o lorde, era bastante perturbadora. Ela fez uma nota mental para investigar o que Bellatrix sabia sobre as atividades de Olga, e se era mesmo verdade que ela tinha uma marca negra. Bervely não conseguia imaginar a garota rígida, minuciosa e seguidora das regras que ela conhecera na escola agindo para Voldemort, mas como sabia por experiência própria, as coisas já não eram as mesmas desde a escola.

— Você já viu? — Pansy perguntou a Isabella com curiosidade mal disfarçada.

— Não é o tipo de coisa que ela vai ficar mostrando por aí, é? A maioria dos comensais da morte prefere manter a marca em segredo… talvez o próprio Lorde das Trevas prefira desse jeito.

— Se eu tivesse uma, ia deixar à mostra o tempo inteiro — Nott declarou, expondo o braço esquerdo com o interior para fora como para demonstração. Bervely rolou os olhos.

— É isso que seu pai faz, Theo? — Pansy incitou com um sorrisinho.

Nott sorriu de lado, dando uma piscadela para a garota.

Bervely virou o rosto, enojada, bem a tempo de ver que não estavam sozinhos. Um par se aproximava, recortado na escuridão dos jardins de onde eles tinham vindo. Um deles era alto, o outro anormalmente pequeno, e parecia deslizar numa espécie de cadeira móvel empurrada pelo primeiro.

— Tem gente vindo — ela avisou aos outros, tentando não parecer preocupada.

Se evadir da festa para fumar uma erva ilícita para menores nos fundos da propriedade provavelmente não era a melhor demonstração de decoro puro-sangue, e a última coisa que ela queria era explicar para algum adulto porque estavam ali fora papeando sobre marcas negras.

Você é uma adulta, Bervely, ela precisou lembrar a si mesma. Tantas horas no corpo de um adolescente, mais a fumaça densa da espiracéia, estavam começando a desorientá-la.

Isabella se virou para espiar, com a arrogância preguiçosa de quem sabia estar acima da lei por ser filha da dona da festa:

— É Rosier, eu a convidei a se juntar à gente.

— Ela trouxe o vampiro, ugh — disse Pansy com uma careta de desgosto.

— Não se preocupem com ele — disse Maeve Rosier, aparentemente próxima o bastante para ouvi-los, embora ainda estivesse há muitos metros. Era ela quem vinha sentada na cadeira de rodas, uma versão vitoriana da que Bervely vira trouxas usarem. Por que ela precisava de uma cadeira de rodas agora, quando tinha sido perfeitamente capaz de usar as pernas durante o baile debutante, era um mistério. A voz fina de Maeve viajou até eles sem problemas. — Sanguini é inofensivo.

— Ele é um lapso adestrado, não é? — Isabella acrescentou, meio-pergunta, meio-afirmação, como quem sabe do que está falando.

— Uma puro-sangue com um lapso de estimação? — Rowle soprou, desdenhoso. — Eu morro e não vejo tudo.

Maeve franziu o cenho pálido, como se ligeiramente ofendida com o comentário. Atrás dela, o vampiro – lapso – não esboçou qualquer reação aos comentários. Ele parecia desconectado da conversa, os olhos desfocados em alguma coisa além deles, alguma coisa perdida na névoa do vale, quase como se não estivesse realmente ali.

Exceto que ela tinha bastante certeza de que ele estava, porque ele tinha parecido qualquer coisa, menos desconectado da realidade, quando cravara os olhos em Bellatrix, e depois nela, no salão de baile.

Bervely tentou se lembrar o que ela sabia sobre lapsos – era assim que os jornais estavam chamando os vampiros que vinham atacando bruxos desde o ano anterior. Vampiros cuja transformação falhara, tornando-os cascas vazias que funcionavam apenas num nível muito básico, não muito diferente de trolls ou carniçais.

Exceto que quando Sanguini tentara dançar com Bellatrix na festa, achando que ela era Bervely, não houvera nada de básico em seu funcionamento. O que significava que ele estava fingindo, e Maeve estava mentindo para os adolescentes.

Bervely se aprumou. Aquela reuniãozinha tinha acabado de se tornar muito mais interessante.

— Nós estávamos discutindo o que faríamos com uma marca negra, se tivéssemos uma — Rowle disse à guisa de acolhimento para Maeve Rosier. — Nott aqui a deixaria à mostra.

— Jeito fácil de atrair os aurores — Maeve sorriu docemente para o garoto, enquanto cuidadosamente se erguia da sua cadeira para tomar um lugar entre os demais, usando passos cuidadosos.

Era difícil dizer se ela estava sendo irônica ou amigável, seu rosto muito jovem e branco não traía nada.

Nott deu de ombros.

— Talvez essa seja a minha intenção. Alguém tem que colocar eles na linha, não é?

— E Pansy acha que Malfoy tem uma, mas ele não quer nos deixar dar uma espiada — Rowle provocou, apontando maldosamente para Bervely com a ponta fumegante do tubo de espiracéia.

— Se está tão interessado em ver uma marca negra, por que não pede ao seu pai, Edward? — Bervely devolveu, um desafio silencioso em suas palavras, encarando o garoto. Algo na presença de Maeve Rosier e do seu vampiro de estimação encorajou-a a colocar Rowle Jr. no lugar dele. — Ou então eu posso avisar a minha tia que você está desesperado para ver uma, e ela vai fazer uma visitinha à sua casa.

Bervely ficou feliz em notar que Rowle empalidecia sob a luz bruxuleante da torre de espiracéia. O inuendo de que Rowle Sênior era um comensal da morte fora baseado no que Bervely entreouvira em conversas entre Rodolphus e Bellatrix em Blackburn – mas se era verdade, os Rowle não iam querer aquela informação vazando, porque Rowle Sênior tinha uma posição prestigiosa no Ministério.

Rowle Jr. recuou, farpas nos olhos, e dali em diante a conversa se desviou para assuntos mais triviais do que quem tinha ou não uma marca negra; quem estava no baile e não devia estar, ou quem não estava no baile, mas deveria, ou o que eles estavam fazendo desde que as aulas tinham sido suspensas (matando tempo em suas mansões espalhadas pelo país, ao que parecia, sem nenhum contato direto com o desenrolar da guerra).

Bervely supôs que Maeve Rosier não conhecia os demais antes daquela noite, pois ela acompanhou a conversa em silêncio, respondendo só quando era diretamente questionada. A certo ponto, Isabella Selwyn se aproximou de Maeve e lhe ofereceu o seu tubo de espiracéia.

— Ah, não, obrigada. É melhor eu me manter sóbria… já tenho pouca energia como é. Por causa da minha condição, sabe — ela indicou a si mesma, fazendo uma alusão à cadeira de rodas atrás delas.

Sanguini se mantivera nas sombras, parado atrás da cadeira, perfeitamente imóvel como quem espera as próximas ordens. Mas Bervely tinha a sensação de que ele estava muito atento, ouvindo cada palavra da conversa dos adolescentes. Ela tinha a constante impressão de estar sendo observada, como um estranho frio em sua nuca.

— O seu lapso está com fome? Posso pedir ao elfo para trazer alguma coisa da cozinha do palácio — Isabella ofereceu a Maeve a certo ponto, num aparte à conversa dos adolescentes sobre seus planos para o verão.

— Sanguini já se alimentou essa noite — disse Maeve. — Mas é bastante gentil da sua parte oferecer.

— Sem problemas. Ele é muito obediente. Você disse que o seu pai o adestrou?

Maeve assentiu, produzindo uma garrafinha prateada das dobras do vestido e sorvendo um gole pequeno. O líquido, que poderia ser vinho, tingiu seus lábios muito brancos de carmim. Ela parecia jovem demais para beber, mas, a despeito da voz suave e dos modos juvenis, falava e se portava como um adulto.

Isabella, cuja língua parecia se soltar mais a cada trago de espiracéia, continuou interrogando Maeve, e Bervely se distraiu da conversa paralela de Pansy, Edward e Nott para prestar atenção nas duas.

— Você não tem receio que ele saia do controle e ataque você, como está acontecendo com os outros pelo país?

— Sam jamais me atacaria — Maeve garantiu, um olhar afetuoso na direção do lapso. Bervely estreitou os olhos, fingindo tragar fumaça do tubo de espiracéia mais próximo dela, como forma de se manter ocupada.

— Meu pai tem tentado adestrar alguns lapsos, sem muito sucesso — disse Isabella em tom de confissão. — Talvez o seu pai pudesse ajudar.

— Talvez — Maeve assentiu, vaga.

Bervely se lembrou que Maeve mencionara sobre ambos os pais estarem mortos, mas ela não pareceu inclinada a informar o fato para Isabella. De fato, Maeve estava deixando Isabella preencher seus silêncios desinteressados.

— Você não saberia o método que ele usou em seu vampiro?

— Lapso — Maeve corrigiu com gentileza, lambendo o vinho do lábio inferior com a ponta da língua. — Que tipo de lapso ele está tentando adestrar?

— Existem tipos?

— É claro.

Outro silêncio longo, pontilhado pela conversa dos outros garotos ao lado delas, que agora se tornara pano de fundo. Bervely olhou discretamente para trás, e pegou Sanguini lhe observando. Ela sentiu um estranho frio na barriga e desviou o olhar por reflexo.

Sanguini já se alimentou essa noite, Maeve tinha dito a Isabella. Mas será que ele tinha tido o suficiente? O vampiro, ou lapso, ou o que fosse, lhe parecera faminto por um segundo, antes de varrer a expressão do rosto e voltar a fingir-se desinteressado.

— Eu poderia ajudar. Aprendi uma ou outra coisa observando papai — disse Maeve, dando a impressão de que não era grande coisa. — Mas eu teria que vê-los primeiro.

Isabella encarou Maeve, conflito em seu rosto anguloso e mal iluminado. Maeve bebeu mais um gole da sua garrafa com os olhos presos na névoa ondulando no vale mais adiante.

Bervely assistiu à resolução se solidificar no rosto de Isabella. A garota se levantou, ajeitou a saia volumosa do vestido azul meia-noite e se dirigiu para os demais, num tom animado de quem acabara de ter a melhor das ideias para fechar a noite com chave de ouro:

— Quem tem coragem de ir ao vale lá embaixo?

Pansy virou-se para ela, cética:

— Ficou louca, fazer o quê lá embaixo?

Rowle já estava levantando, como se tivesse esperado por aquele momento a noite toda.

— Desbravar o desconhecido, Parkinson. A não ser que um pouco de escuro seja demais para a sua sensibilidade.

— Essa é uma área de preservação mágica, Rowle. Ir lá embaixo é idiotice.

— É seguro se ficarmos na trilha — Isabella prometeu, dando um sorriso que, de onde Bervely observava, pareceu forçado.

— Ficar na trilha é coisa de Lufa-Lufa, Selwyn — Nott caçoou, também se levantando, e espreguiçando-se como uma hiena em hora de caça. — O que tem lá embaixo mesmo? Alguma coisa que a gente possa caçar?

— Você é um bárbaro, Nott — Isabella disse, ignorando a pergunta. — Fiquem aqui então, se estão com medo. Maeve, e e– ela olhou para o garoto loiro, como que confirmando — Rowle e eu estamos indo.

Pansy deu um suspiro pesado, mas se virou ao ver que Bervely estava se voluntariando.

— Me diga que você não está caindo nessa.

Bervely deu de ombros, usando o melhor tom pouco impressionado de Draco:

— Eu não me importaria em esticar as pernas. O que pode ser tão ruim lá embaixo? Nós temos varinhas.

Pansy estreitou os olhos para ele, como quem pergunta quem diabos é você e o que fez com Draco Malfoy? Bervely desviou o olhar dela, esperando que não tivesse ido longe demais. Pansy e Draco deviam ser amigos por tempo o suficiente para que ela estranhasse qualquer desvio de comportamento do garoto.

Bervely sabia que o melhor curso de ação naquele momento era voltar ao baile. Àquela altura, Bellatrix já notara sua ausência, e talvez soubesse que ela não tinha sumido com Daphne para fortalecer qualquer laço pré-matrimonial, visto que a caçula Greengrass ainda devia estar no salão de baile.

Mas a ideia de não saber o que Maeve Rosier estava tentando obter de Isabella Selwyn fazia as suas entranhas comicharem. E por que infernos o diretório puro-sangue estaria escondendo lapsos no vale detrás do Palácio Grisaille?

* * *

— Onde exatamente nós estamos indo? — Pansy insistiu para Isabella, igualando o seu passo com o da garota, que ia à frente, a ponta da varinha acesa para iluminar o caminho.

Isabella não respondeu, contribuindo para o suspense da incursão, já incentivado pela escuridão dos jardins e os ecos de música e vozes distantes, vindos do palácio. A saia longa de Isabella farfalhava a cada passo contra a grama fresca, à medida que o grupo descia uma inclinação suave e gramada à esquerda da catedral, guiados pela luz da varinha de Isabella, na direção do que parecia a borda de uma floresta densa mais adiante, onde o vale se aprofundava.

Rowle tomara o lado de Isabella, com um sorriso cruel de antecipação no rosto do qual Bervely não gostava nem um pouco. Nott e Pansy iam logo atrás – a garota tendo decidido se juntar ao grupo ao perceber que seria a única deixada para trás –, e Maeve, que voltara à sua cadeira de rodas, deslizava pela grama sob a propulsão de um apático Sanguini. Bervely, fechando o cortejo, deu uma última olhada ao palácio, que desaparecia de vista à medida que eles desciam a inclinação, se perguntando quanto estrago à sua reputação Bellatrix já teria providenciado àquela altura, sem a sua supervisão.

Ela suspirou pesado, com a absoluta certeza de que aquela pequena incursão dos adolescentes ia lhe trazer problemas. Justificou a si mesma que estava seguindo-os numa tentativa de recuperar a reputação de Draco entre os pares – afinal, que imagem ia passar se “ele” se acovardasse agora? Ia parecer que Draco estava com medo das criaturas (o que ela suspeitava que ele de fato estaria; o primo nunca tinha sido dos mais corajosos e, desde o seu evento na Floresta Proibida no primeiro ano em Hogwarts, odiava a ideia de se embrenhar no mato no escuro).

Eles chegaram à borda do vale, uma inclinação muito mais íngreme do que poderiam fazer a pé, e na qual a vegetação crescia sem o mesmo cuidado do espaço detrás do palácio, numa mistura de arbustos, pedras e, mais adiante, um emaranhado de copas de árvores. Isabella indicou o início de uma escadaria de pedra de aparência antiga, os primeiros degraus há alguns metros deles, o restante se enroscando vale abaixo e sumindo na névoa.

— A partir desse ponto, vocês têm que jurar que não vão dizer nada do que virem lá embaixo para mais ninguém — Isabella disse num tom muito sério. — Vocês devem saber que o vale é amaldiçoado. Coisas horríveis podem acontecer com quem não guardar o segredo.

— Se o vale é amaldiçoado, não precisamos jurar, não é mesmo? — Bervely caçoou. Isabella rolou os olhos para ela.

— Isso é sério, Malfoy. Se abrir a sua boca como fez em Hogwarts, as consequências vão ser bem piores do que uma suspensão.

— E a sua priminha não vai estar aqui para salvar o seu traseiro branquelo dessa vez — Rowle completou, com um sorriso desagradável. — Todo mundo sabe que ela convenceu McGonagall a não punir você pelo que fez com Chang.

— Eu não fiz merda nenhuma com Chang — Bervely retrucou, sentindo o peito apertar por Draco. Graças a Salazar, não era ele quem estava ali, aturando aquele bando de idiotas.

— Talvez a gente devesse fazer um pacto de segredo? — Maeve sugeriu, sua voz infantil destoando na noite.

— Um Fidelius? Ficou maluca? Gente morre o tempo todo por causa dessas coisas — Nott resmungou.

— Não precisa ser um Fidelius, um simples Voto de Silêncio é suficiente — Maeve explicou com paciência. — O pacto faz um link entre nós cinco, e quem quebrar o pacto – que nesse caso, significa contar o que vimos – fica com a língua presa e não consegue passar a informação adiante.

Isabella assentiu, parecendo satisfeita com a solução da sua nova amiga, mas Rowle olhou para Maeve com desconfiança:

— Nós seis, você quer dizer. O seu lapso também vai ter que jurar, se ele está descendo conosco.

Maeve assentiu.

— É claro. Isabella, você deve ser aquela a conjurar o pacto.

Isabella assentiu, com um senso de autoimportância, disfarçando sua confusão. Bervely tinha certeza de que ela nunca antes tinha conjurado um voto de silêncio.

— Precisamos dar as mãos — Maeve estendeu a mão que segurava a varinha, apanhando a de Isabella, e voltando a outra para Nott.

— Quanta idiotice — Nott resmungou.

Enquanto eles se organizavam num círculo de mãos dadas, Bervely considerou as suas chances. Ela estava curiosa o suficiente para seguir o grupo, e o voto de silêncio era um encantamento inocente o suficiente. Além do mais, suspeitava que um voto de silêncio conjurado por adolescentes chapados no meio da noite poderia ser quebrado por um bruxo competente, caso fosse necessário.

— Malfoy — Rowle resmungou, e Bervely percebeu que ele estivera esperando, com uma expressão claramente desgostosa, por sua mão para que ela fechasse o círculo. Bervely deu um sorrisinho cínico e agarrou a mão dele, segurando firme, curtindo o desconforto do garoto em segurar a mão de “Draco”.

Seu sorriso se dissolveu quando percebeu quem estava do seu outro lado. Sanguini estendeu a mão para ela, a outra segurando a pequena mão branca de Maeve. De novo seus olhares se cruzaram, e de novo ele parecia faminto, ou em alguma espécie de agonia silenciosa.

Ela prendeu a respiração e deslizou a mão de Draco sobre a mão do vampiro. Fria. Um arrepio se alastrou do ponto de contato e através do seu braço. Bervely tentou não morder o interior da boca, não demonstrar sua inquietação, mas ela tinha certeza de que o vampiro estava ciente dos seus batimentos cardíacos acelerando.

Qual era o seu problema?

— Todos prontos? — Isabella perguntou.

O pequeno círculo assentiu, a metade deles rolando os olhos com impaciência. Na outra metade estava Maeve, que emulava a postura solene de Isabella, Sanguini, de olhos fixos no nada de novo, a mandíbula travada por detrás da máscara negra, e Bervely, ocupada em manter uma expressão neutra e entediada.

— Adjuro ut… ugh. Alguém sabe como é silêncio em latim? — Isabella bufou.

— Silentium — Maeve e Bervely disseram ao mesmo tempo.

— Certo! Adjuro ut silentium de acta nocte…

— Seria ut taceam, nesse caso — Bervely corrigiu, impaciente.

Maeve deu um sorriso pequeno para ela. Isabella fez uma careta de concentração.

— Não precisa ser em latim, por Salazar! Anda logo com isso, Isa, está frio demais pra ficarmos parados aqui — Pansy reclamou, entre Nott e Rowle. — Só o feitiço já está bom!

— Certo, certo — Isabella fechou os olhos, o rosto iluminado de baixo pela varinha acesa acentuando suas feições de um jeito macabro. — Repitam comigo. Sufragium Silentii!

Sufragium Silentii — eles repetiram no escuro, já que Isabella tinha apagado o Lumos para realizar o feitiço.

Uma pequena carga de energia mágica circulou pelo grupo, através de suas mãos unidas, erguendo os pelos de seus braços, acendendo uma luz tênue no círculo. Bervely a sentiu em seu braço esquerdo, vindo de Rowle até ela, mas não em seu braço direito, que a ligava a Sanguini. Talvez porque aquele lado do seu corpo já estivesse eletrizado desde que tinham dado as mãos.

O voto, uma vez lançado, trouxe uma espécie de sobriedade ao grupo. Isabella pigarreou, acendeu a ponta da varinha de novo e indicou a escadinha.

— A descida é traiçoeira. Ah, Maeve, acho que a sua cadeira…

Mas a garota albina já estava se levantando da cadeira de rodas de novo, com movimentos lentos e custosos.

— Não tem problema. Se eu precisar, Sanguini pode me ajudar mais adiante.

Eles começaram a descida íngreme na mesma ordem que haviam descido a inclinação — Isabella na dianteira, seguida de perto por Maeve e Rowle, então Nott e Pansy sussurrando alguma coisa um para o outro, as cabeças juntas, e Bervely na traseira.

Sanguini se atrasou, ocupado em travar a cadeira de rodas de Maeve — o artefato parecia desprovido de qualquer feitiço para ajudar em seu funcionamento — e acompanhou o grupo a certa distância, como se preferisse, ou tivesse sido treinado, a prosseguir dessa maneira.

* * *

A descida era íngreme e traiçoeira, os degraus desnivelados e difíceis de ver no escuro. Os demais tinham acendido as varinhas numa luz baixa sob a recomendação de Isabella, exceto por Sanguini, que seguia no escuro absoluto, muito atrás de Bervely. A floresta se adensava ao redor deles à medida que desciam, fazendo Bervely considerar se aquela não era, afinal de contas, uma ideia muito estúpida que resultaria em sua morte.

O degrau seguinte, coberto de vegetação escorregadia, fugiu de sob os seus pés, e Bervely perdeu o chão por um momento.

— Merd–

Antes que ela caísse de bunda sobre as pedras desiguais, uma mão firme a segurou pelo cotovelo, facilmente equilibrando seu corpo de volta à vertical.

— Cuidado, criança — a voz morna de Sanguini disse atrás dela.

As entranhas de Bervely responderam à proximidade. Por um segundo, ela tinha esquecido que ele estava bem atrás dela. Que ele a conhecia, que ele tinha olhado faminto e perturbado para Bellatrix e então para ela, que ele queria dançar com Bellatrix enquanto pensava que ela era Bervely, mas todas essas memórias recentes voltaram de uma vez, e com isso a pontada de dor inclemente em suas têmporas, fazendo Bervely vacilar de novo e quase perder outro degrau.

Felizmente, a mão de Sanguini não tinha deixado o seu antebraço, e ele a estabilizou de novo.

Com a pausa, eles tinham colocado alguma distância do resto do grupo. Tudo que Bervely via mais adiante era a luz vacilante das outras varinhas, fazendo o percurso para baixo, como fadinhas cintilando no escuro.

— Você pode me soltar agora — ela murmurou, não por orgulho, mas porque o toque da criatura em seu braço estava a distraindo mais do que a dificuldade do caminho.

O vampiro soltou um suspiro longo atrás dela. Uma vez longe dos demais, ele parecia ter recuperado a sua eloquência.

— Você não faz mesmo ideia de quem eu sou?

Bervely respirou fundo. Um passo depois do outro. O que era tão difícil? Seu coração palpitava nas orelhas, tornando os ruídos ao seu redor abafados.

— Por que eu deveria? Quem é você?

— Não é importante — ele disse, mas havia uma chateação mal disfarçada em sua voz.

— Você obviamente não é um lapso — ela acusou, a voz baixa sob a respiração, sem querer ser ouvida pelos outros. — Por que Rosier está mentindo para todo mundo?

Ele guardou silêncio por um ou dois degraus.

— Bruxos se sentem menos ameaçados pela minha presença quando acreditam que eu sou inofensivo.

— Mas você não é? — ela perguntou.

O vislumbre dos caninos pontudos dele, que no salão de baile fora só um detalhe, ali no escuro, sob a luz tênue de sua varinha, lhe pareceu muito mais inquietante.

— Ninguém é inofensivo, Bervely.

O som de seu nome deslizou fácil dos lábios dele, tanto que ela demorou um par de segundos para perceber, e quando se deu conta, quase derrapou de novo.

Então ele sabia, não desconfiava, mas sabia quem ela era, e que estava se passando por Draco Malfoy.

Ela parou de andar, firmando a varinha em sua mão, incomodada com a sensação pouco familiar do objeto que não era o seu.

Sanguini parou atrás dela como se já esperasse o seu movimento. Bervely tentou se orientar. Sua cabeça pulsava sem parar, ela precisava dar um jeito naquelas enxaquecas, em nome de Salazar. Piscou algumas vezes, tentando pensar. Vampiro. Perigoso, dentes afiados, potencialmente faminto, e aprontando alguma com a garota Rosier. E plenamente ciente da sua identidade real.

— Como você sabe–?

— Seu cheiro — ele respondeu antes que ela terminasse, como se pudesse ler sua mente. Talvez pudesse. Vampiros podiam fazer legilimência? Seu peito estava gelado, os pelos de sua nuca arrepiados, suas têmporas pulsando como um segundo coração. — Eu devia ter percebido antes, mas ficou claro quando você se colocou entre mim e a falsa Bervely.

Ela expirou devagar. A falsa Bervely. Talvez ele não soubesse que Bellatrix era Bellatrix, então. Menos mal, ela supunha.

Mas ainda assim, péssimas notícias para o seu disfarce.

— Você vai me delatar para os outros? — ela perguntou, através da garganta trancada.

Sanguini demorou outro segundo inteiro para responder, como se realmente estivesse considerando a questão. Um segundo parada na semi-escuridão com uma criatura sugadora de sangue que ela não sabia se estava ou não do seu lado era uma eternidade. A presença sólida dele a centímetros dela fazia as suas costas e nuca arderem.

— Eu guardarei o seu segredo, se você guardar o meu — ele disse por fim.

Pelo tom de voz dele, Sanguini parecia achar que ela ia.

Mas ela precisava saber. De onde eles se conheciam, como ele poderia lhe reconhecer pelo cheiro, e por que ela não se lembrava —

— Hmm — sua cabeça deu outra ferroada, dessa vez tão intensa que duplicou as luzes das varinhas lá embaixo. Bervely pressionou a têmpora, lutando contra uma onda de náusea que se desenrolava no topo da garganta.

— Qual o problema? — Sanguini perguntou, soando genuinamente preocupado.

— Vamos continuar descendo — ela declarou, dando as costas para ele — e imediatamente se sentiu melhor. Estranho. — Estamos quase perdendo os outros de vista.

* * *

A escadaria terminou em uma trilha na base do vale. Àquela altura, estavam tão longe do palácio que nenhuma luz ou som os alcançava, a não ser o farfalhar das folhas, o assobio do vento e os estalos e zumbidos da floresta na qual tinham se embrenhado tão profundamente. Bervely, que tinha adiantado o passo para alcançar os outros, encontrou o grupo numa plataforma circular mais adiante, uma espécie de clareira conectada à trilha.

— Apaguem as suas varinhas. Eu vou deixar a minha acesa. O que quer que vocês façam, não saiam da trilha — Isabella advertiu. — Vocês não vão querer alvoroçá-los.

— Alvoroçar o quê? — Pansy rosnou com irritação, e uma nota inquestionável de preocupação na voz.

— Shiu — Isabella disse, colocando um dedo nos lábios. — Luzes!

Bervely apagou a ponta da varinha de Lucius a contragosto, e esperou os olhos se acostumarem sob a luz azulada da varinha de Isabella. Foi então que ela viu, ao redor da plataforma, que profundas valas faziam as vezes de corredores cavados no chão do vale. Elas pareciam se estender mais adiante, as bordas visíveis, mas o chão mergulhado em escuridão; dali, era difícil saber o quão profundas eram.

— Esse é o maior labirinto da Europa — Isabella se vangloriou, ao vê-los contemplar como os corredores se perdiam na escuridão.

— É aqui que a sua família esconde o seu irmão meio-monstro, Isa? — Pansy sugeriu, com um risinho. Isabella a ignorou.

— Vamos. Lembrem-se do que eu disse. Não façam barulho…

Bervely, com um mau pressentimento crescente, seguiu as silhuetas de Isabella e Maeve em seus vestidos de baile — Isabella, um borrão volumoso escuro; o vestido branco da Rosier se tornando azulado na pouca luz. Sanguini, que lhe dera algum espaço no restante da descida, alinhou-se ao seu lado mais uma vez.

Bervely não tentou falar com ele de novo; a dor em sua cabeça estava cedendo, e ela pretendia manter assim. A varinha de Lucius estava segura em sua mão – muito embora ela tivesse preferido um milhão de vezes ter a sua – e a rosa formigava em aviso em sua pele, pressentindo perigo.

À medida que avançavam pela trilha, o ar foi se tornando mais frio, e a sua respiração começou a condensar na frente do seu rosto. Ela apertou os olhos para as valas de um lado e outro da trilha, mas não conseguia ver nada se movendo lá embaixo — só densa escuridão.

Nott e Rowle, que tinham tomado a dianteira de Isabella e Maeve, pareciam incapazes de se manter calados em sua excitação, dando risadinhas e provocando um ao outro em sussurros.

— Não estou vendo nada — Pansy resmungou, alinhando-se com Bervely. — E estou morrendo de frio, isso é estúpido. Devíamos voltar ao palácio…

— Espere — Bervely disse, a interrompendo. — Acho que ouvi alguma coisa.

Pansy seguiu a sugestão e se calou, com um bufo de irritação.

O que ela ouvira foi o farfalhar de passos num chão de folhas, de raízes talvez, vindo lá de baixo, distante e abafado.

E grunhidos baixos.

Ela parou e Sanguini parou também, de novo prevendo o seu movimento um segundo antes que ela o fizesse. Bervely se voltou para a vala, com cuidado para não chegar perto demais da borda, olhando para baixo. Ela não podia ver nada — a escuridão era densa demais —, mas o ruído… definitivamente vinha lá de baixo.

O arrastar errático de passos. Os murmúrios e grunhidos de alguma criatura.

Isabella, Maeve e os garotos também tinham parado, mais adiante. Sob o facho de luz da varinha da garota Selwyn, Bervely enfim os viu. Se arrastando no fundo do corredor, esquálidos e lentos, pele e ossos e trapos, pele descolorida e ossos evidentes… e dentes afiados à mostra nos rostos retorcidos virados para cima, na direção da luz azul. Ela tinha esperado um ou dois, mas haviam dezenas deles. E todos parecendo famintos — se era isso que significava o olhar torturado em seus olhos fendados, as mãos ossudas estendidas na direção da luz. Na direção de Isabella, de sua carne e de seu sangue quente e apetitoso.

Bervely se afastou da borda da trilha, nauseada.

— O que diabos eles estão fazendo com esses… com tantos…

— Escravos — sussurrou Sanguini, em algum ponto ao seu lado. Ela não podia vê-lo, só sentir a sua presença; desde que não tentasse pensar muito a respeito, estava conseguindo manter a sua enxaqueca sob controle.

Bervely olhou na direção das garotas — Maeve fazia perguntas num tom baixo para Isabella; Isabella parecia ansiosa por respondê-las, de forma que pudesse conseguir as suas próprias respostas da garota Rosier.

Isabella pensava que Maeve Rosier lhe daria o segredo para controlar os lapsos acumulados nos labirintos do vale, mas Bervely teve a impressão de que essa não era a agenda de Maeve.

Ela deu uma olhada na direção de Pansy — a garota, os braços ao redor dos ombros, tinha se afastado na direção de Nott, parecendo irritada com Draco por alguma razão que Bervely, no momento, não se importava em desvendar.

Ela se virou para Sanguini:

— Por que vocês estão aqui hoje à noite? — perguntou, baixo o suficiente para que só o vampiro ouvisse.

— Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa — ele disse num tom neutro, mas com o peso de seu acordo mais cedo: Eu guardarei o seu segredo, se você guardar o meu.

Bervely mordeu o lábio, sem lhe dignar resposta, sabendo que não podia confiar nele — não tinha como saber de que lado ele e Maeve estavam, e mesmo se soubesse…

Um clarão amarelo mais adiante — seguido de um estouro — arrancou Bervely de sua divagação. Gritos excitados e uma risadinha cruel, que Bervely identificou como de Nott, lhe indicaram que os adolescentes estavam fazendo algo estúpido.

Isabella se voltou na direção deles, a expressão grave e urgente.

— Idiotas, eu disse para não fazer barulho!

Lá embaixo, nos corredores escuros do labirinto, o farfalhar se tornou um trotar intenso de pés e gemidos urgentes. Os lapsos pareciam se mover seguindo a direção do barulho.

— Eles certamente não podem subir…? — Bervely perguntou, mas Isabella já estava correndo na direção do clarão.

— Seus imbecis, o que foi que eu disse–

Ela avançou pela trilha onde os garotos tinham ido, levando consigo a única luz. Bervely piscou no escuro e tentou fazer a varinha de Lucius acender de novo. Conseguiu alguma colaboração na terceira tentativa.

Bervely avançou na direção da comoção, que se revelou uma segunda plataforma redonda, de novo uma espécie de clareira, exceto que, ao invés de árvores, era rodeada pelas valas do labirinto. Da clareira se estendiam três trilhas em direções diferentes, mas ela não se demorou imaginando ao que levavam, mais ocupada em entender o que tinha acontecido, em meio às exclamações excitadas de Nott e Rowle, e os sibilos irritados de Isabella, falando algo sobre virarem comida de sanguessugas.

— Relaxa, Isa. Só estamos nos divertindo um pouco — Rowle rolou os olhos para ela por detrás da máscara, que ele tinha recolocado. Mas não era a mesma máscara de antes, ele a tinha transfigurado para outro formato, lisa e cavernosa, mais parecida com uma máscara de Comensal da Morte. Nott tinha feito o mesmo.

Pansy, que tinha chegado um par de segundos antes de Bervely, estava no ponto mais distante possível da amurada, uma expressão de profundo desgosto, olhando para algo atrás dos garotos.

— O que foi que vocês fizeram?

— Nada demais — Nott disse, os olhos cintilando de prazer através das aberturas de sua máscara de caveira estilizada. Ele fez um gesto com o queixo, indicando o espaço às suas costas. — Só estamos praticando… uh, Defesa Contra as Artes das Trevas.

Bervely viu — no chão, mais adiante no corredor atrás deles — uma forma humana agachada sobre os joelhos e as mãos. Esquálida, a loucura da fome e mais nada em seus olhos claros, de pupilas fendadas em dois riscos finos. Os trapos imundos que envolviam seu corpo poderiam ter sido vestes bruxas, mas agora não passavam de um pano imundo de cor indiscernível. O cabelo embaraçado teria sido loiro e macio ao redor do seu rosto, mas estava imundo e retorcido em nós. Ela parecia jovem o suficiente para ser um deles — exceto, é claro, que ela estava morta.

Ou tinha morrido, e tinha voltado errado.

A lapso rosnou na direção deles, avançando sobre as mãos e pernas, mas uma força invisível a impediu de alcançar os tornozelos de Rowle. Um feitiço escudo. Rowle o estava mantendo, a varinha suspensa, apontada na direção da criatura.

— Ela tentou morder Rowle — Nott explicou. — Precisa ser punida.

— Coloquem ela de volta! — Isabella guinchou. — Coloquem ela de volta agora mesmo!

— Num minuto — Rowle fez um sinal vago na direção de Isabella, sem olhar para ela. Ele parecia transfixado na criatura que se arrastava e grunhia no chão, tentando chegar até ele, os dentes expostos, o olhar feral.

Bervely também estava. Ela nunca tinha visto nada mais vulnerável e digno de pena.

— Imperius não funciona em gente morta, mas quem sabe um Crucio para deixar ela boazinha? — Rowle considerou em voz alta, como que para uma audiência interessada.

— Acho que vale a pena tentar — Nott deu de ombros, erguendo a varinha. — Como é mesmo que se diz? Ah, é, Crucio!

Bervely se contraiu ao som da maldição, o seu corpo evocando a sensação de ser eletrificado por Cruciatus, de se perder em uma sopa fervente de agonia que envelopava cada terminação nervosa que possuía.

A criatura se contraiu quando o raio púrpura a atingiu, mas não deu sinal de estar sofrendo — só de ficar mais irritada, as mãos agora arranhando contra o feitiço escudo, tentando alcançar os seus torturadores com mais afinco do que antes.

— Parem com isso — Isabella pediu, mais implorando do que ordenando. — Não é engraçado! Se os meus pais descobrirem…

— Pensei que você tinha trazido a gente aqui para se divertir, Isa — disse Rowle, sorrindo, a série de dentes brancos e alinhados expostos para a garota. — Ou não me diga que foi para nos assustar? Você não achou seriamente que um bando de mortos-vivos ia nos incomodar? Nott, quer tentar sua sorte de novo?

Bervely desviou o rosto da cena deplorável, e percebeu Pansy Parkinson lhe encarando. Ela estava estudando a expressão no suposto rosto de Draco com bastante atenção. Bervely fez um esforço extra para manter-se neutra, o maxilar de Draco travado, os olhos estreitos.

— Onde estão Rosier e o vampiro? — Isabella quis saber, também voltando a sua atenção para ela, percebendo que Bervely tinha chegado à plataforma sozinha.

Bervely deu de ombros.

— Pensei que Rosier estava com você.

Isabella franziu mais, como se a sua preocupação com a catástrofe social que aquela escapada estava se tornando tivesse acabado de se tornar mais dolorosa. Ela fez um movimento incerto de vai e volta, como se pretendesse ir atrás de Rosier mas não fosse capaz de deixar os demais sozinhos com a lapso.

— Crucio! Crucio! — Nott tentou de novo.

Bervely se encolheu, o seu corpo irracionalmente esperando o impacto e a dor. Ela não conseguia evitar, mesmo sabendo que provavelmente o Cruciatus de Nott não teria nem um centésimo da potência do que o de Bellatrix tinha, e que ela não era o alvo da maldição. Não importava — ela podia sentir o formigamento e o coração disparado e o coquetel de medo e raiva borbulhando dentro dela, o desafio à Bellatrix, a vontade de causar dor igual à que ela lhe infligia…

— Hey, Draco, quer dar uma força? Mostra pra gente o que aprendeu com aquela sua tia maluca — Nott virou para ela, um sorriso torto no rosto.

Pansy não tirou os olhos de Bervely. Isabella também se voltou, mas com uma nota adicional de ansiedade, como se temesse que Draco fosse agravar a situação.

Bervely ajeitou a expressão de indiferença.

— Não, obrigado. Não vejo ponto em desperdiçar magia para me provar superior a uma morta-viva.

— Cagão — Nott resmungou.

Ele andou até a lapso, atravessando facilmente a barreira de Rowle — que só devia funcionar em uma direção — e a chutou com a ponta do sapato. A lapso se contraiu, grunhiu e tentou mordê-lo, mas Nott puxou a perna com agilidade e Rowle manteve o feitiço escudo, contra o qual ela se chocou de novo, rosnando com ferocidade renovada.

Bervely já tinha visto lapsos antes — pacíficos, infestando habitações bruxas abandonadas. Eles tendiam a se alimentar de ratos e pequenos animais, tinham um forte senso de território e raramente atacavam humanos, a não ser quando provocados.

Nada como aquela. Aqueles lapsos deviam estar sendo mantidos famintos de propósito. Talvez para ficarem mais agressivos, ou então, para ficarem mais fracos, enquanto não pudessem ser propriamente controlados.

Escravos, Sanguini tinha dito. Escravos para quê? Que interesse tinha a família Selwyn em escravizar um bando de mortos-vivos?

Nott deu outra gargalhada quando a lapso bateu de cara contra a barreira de Rowle e caiu para trás, desorientada, quase escorregando pela borda da trilha.

A revolta se enrolando nas entranhas de Bervely era quase grande demais para ser contida. Ela respirou fundo, fechando os olhos e lembrando a si mesma que jogar adolescentes, mesmo os cruéis e covardes que mereciam — num labirinto cheio de mortos-vivos famintos — ainda poderia lhe mandar de volta à Azkaban, um lugar que ela preferia evitar se pudesse.

— O que você acha que acontece se ela receber uma maldição da morte, Nott? — Rowle perguntou em voz alta, novamente para sua audiência imaginária, projetando a voz como se quisesse garantir que até as fileiras mais distantes pudessem ouvi-lo.

— Nott, já chega! Para com isso agora mesmo — Isabella gritou, ao mesmo tempo em que Pansy rosnou para eles:

— Vocês não podem ser tão idiotas a ponto de achar que isso vai terminar bem.

Nott ignorou Isabella como se ela não estivesse ali.

— Qual é, Pansy. Vai criar consciência agora, depois de todos esses anos? Além disso, não podemos fazer nenhum dano a essa coisa, podemos? Ela já está extra morta.

— Tem aurores naquela festa! — Pansy argumentou, apontando na direção geral do palácio Grisaille — do qual não podiam ouvir ou ver qualquer indício dali de baixo, e que podia muito bem estar em outra dimensão.

— Nott... Rowle... sério... — Isabella murmurou, mas sua resolução se desgastava rapidamente. Parecia incapaz de confrontar os dois garotos, mesmo que as consequências fossem catastróficas para a imagem dos Selwyn caso fossem descobertos ali embaixo, torturando um morto-vivo no meio de uma festa sangue-puro.

Bervely, porém, decidiu que não tinha o mesmo problema. Apontou a varinha para a cabeça do brutamontes loiro, que estava distraído, mirando a própria varinha na direção do peito da lapso.

— Isabella disse já chega, Rowle.

O garoto se virou devagar, e, ao ver-se sob a mira da varinha de Draco, uma expressão de prazer e zombaria se espalhou por seu rosto largo.

— Você não quer fazer isso, Malfoy.

— Oh, eu quero.

— Draco — Pansy o advertiu. Era mais um aviso do que uma admoestação. Não piore as coisas, ela parecia pedir.

— Se está assim tão ansioso para praticar suas maldições da morte, por que não pratica em alguém do seu tamanho?

— Você quer que eu pratique a Maldição da Morte em você? — Rowle riu. — Não vai ricochetear, sabia? Você vai cair tão duro quanto sua mãe, quando ela decidiu se colocar no caminho do Lorde das Trevas.

Como ele chegara àquela conclusão era um mistério — mas então, Bervely supôs que esse devia ser o boato entre os Comensais da Morte: que Narcissa se colocara entre Draco e a Marca Negra e, consequentemente, entre Draco e Voldemort, morrendo por isso.

— Se quer manter essa sua língua imunda na boca, é melhor nunca mais mencionar Narcissa Malfoy na minha frente.

Algo na expressão dela fez o rosto de Rowle brilhar, vitorioso.

— Eu não perderia meu tempo com nenhum membro da sua família, Malfoy. Pelo que ouvi, estão caindo como moscas. E parece que você é o próximo.

Rowle estufou o peito, varinha erguida em sua direção, e ocorreu a Bervely que ela não fazia ideia de quão habilidoso em duelos o garoto era. Estava relativamente confiante de que ele não tinha competência para lançar um Avada Kedavra — não era um feitiço fácil, como Bellatrix fizera questão de informá-la —, mas havia vários outros feitiços que podiam ferir ou incapacitar, e ela nem mesmo estava com a própria varinha para ter uma chance real contra ele. Era muito provável que a varinha de Lucius se recusasse a defendê-la, e se ela precisara de três tentativas para acender um Lumos, o que isso significava para suas chances de conjurar um Feitiço Escudo?

Mas ela precisava tentar, porque a honra de Draco estava em jogo — e não era exatamente para defendê-la que ela tinha vindo para a festa?

— Avad–

— Elect–

Um grito eletrizante cortou a escuridão do vale, congelando os feitiços de ambos a meio caminho de suas línguas. Isabella, que estivera encarando com horror o desenrolar do duelo, se voltou na direção de onde vinha — de trás dela, da trilha do meio.

— Quem…?

Outro grito, como de alguém em profunda agonia. Ou histeria.

— É Rosier! — Pansy murmurou. — É Rosier, não é? Ela deve ter se perdido e…

— Caído no labirinto — Isabella concluiu, horrorizada.

Eles avançaram na direção geral dos gritos, deixando para trás o duelo e a lapso. Bervely decidiu que poderia dar uma lição em Rowle mais tarde. Isabella estava certa — soava como Rosier, e soava exatamente como se ela tivesse caído lá embaixo e se encontrado com as criaturas famintas.

Avançando às escuras pela trilha, logo ficou evidente que dali de cima não seria possível encontrar o local onde Rosier presumivelmente tinha caído. Seus gritos viraram gemidos, depois se calaram por completo, e agora tudo o que eles podiam ouvir era um farfalhar de pernas e a agitação lá embaixo, como se os lapsos estivessem todos convergindo para um só lugar. Sob a luz da varinha, o que Bervely conseguia ver eram apenas vultos ocasionais lá embaixo, mas com as voltas e reviravoltas das valas do labirinto, era impossível seguir para onde estavam indo.

— Garota idiota — Nott resmungou. — Quem mandou ir perambular sozinha com aquelas pernas defeituosas?

— Não tem nada que a gente possa fazer. É melhor voltarmos para a festa — Pansy sugeriu, a voz esfriando.

— E fingir que nada aconteceu? Ela é a herdeira da casa Rosier, Pansy! Uma hora alguém vai perceber que ela desapareceu! — Isabella guinchou, claramente à beira de um ataque de nervos, a julgar pelo tom trêmulo de sua voz.

— E quando alguém perceber, vamos estar bem longe — Pansy completou, resoluta. Ela olhou para os outros, buscando consenso. Rowle deu de ombros. Nott sorriu torto.

— Por mim, tudo bem. Não é como se um de nós fosse abrir o bico, com o pacto de silêncio…

— Ela pode estar morta! — Isabella interpelou. Não parecia especialmente sentida pelo fato, mas sim preocupada com o que sua mãe diria quando descobrisse que ela tinha colocado uma convidada da festa em perigo mortal.

— Outra razão para voltarmos o quanto antes! — Pansy exclamou. — Se acharem que temos qualquer coisa a ver com isso... — Draco, o que é que você está fazendo?

Bervely ignorou a pergunta. Ela estava inclinada sobre a beirada da trilha, os joelhos das calças enfiados na terra, observando a lateral do paredão em busca de indícios de algum padrão que facilitasse a descida.

— Como faz para ir lá embaixo? — Bervely perguntou, ao perceber que tinha a atenção de Selwyn.

— Quê? Ninguém vai lá embaixo, esse é todo o ponto!

— Como eles são alimentados?

A garota hesitou, escandalizada.

— Como eles são colocados lá dentro?

Isabella mordeu o lábio inferior. Bervely bufou.

— Alguém precisa ir lá embaixo recuperar Rosier, Selwyn, mesmo se ela estiver morta. Se descobrirem ela lá embaixo, vão deduzir que você a trouxe aqui, porque quem mais teria dito a ela sobre os lapsos e o labirinto? Alguém pode ter visto a gente sair da festa, e então não vai fazer diferença nenhuma o voto de silêncio, porque vão saber que estamos envolvidos e vão arrancar a verdade da gente de um jeito ou de outro.

Pansy arregalou os olhos, compreendendo as implicações. Se eles fossem todos associados à morte de uma herdeira puro-sangue, as consequências políticas para as suas respectivas famílias podiam ser mais do que desastrosas. Uma coisa era abafar a morte de um mestiço ou nascido trouxa, mas a de uma herdeira puro-sangue…

— O que você está sugerindo? Recuperar o corpo dela e… o quê?

— Deixar num lugar menos suspeito — Pansy completou, rápida no gatilho. — Talvez num lugar onde ela pudesse ter caído por si mesma e quebrado o pescoço?

— A gente pode fazer parecer que ela caiu da cadeira de rodas no precipício, enquanto passeava pelo jardim — sugeriu Nott.

— Ou então colocar a culpa naquele vampiro dela, já que ela vai estar cheia de marcas de mordida — Rowle contribuiu.

Bervely estava muito feliz em fazer parte daquele grupo de psicopatas.

— Vou confiar nas suas mentes geniais para pensar nos detalhes — ela informou, sarcástica, jogando as pernas para dentro da vala. Apontou a varinha para baixo, tentando ver o quão longa era a queda ou se havia algum lapso aguardando por ela, mas só podia ver as paredes de um lado e de outro, e o longo corredor se estendendo no escuro. — Quem me acompanha na recuperação do corpo?

Os quatro pares de olhos lhe encararam de volta, em estágios variados de evitação. Bervely não esperava nada diferente, mas a covardia flagrante ainda a fez girar os olhos.

— Fantástico. Esperem aqui, então. Não façam nada estúpido enquanto eu estou ocupada em salvar seus traseiros covardes.

— Os lapsos têm medo de fogo — Isabella ofereceu, a voz baixa.

— Você vai morrer lá embaixo — Pansy murmurou com frieza, mas os olhos mal disfarçavam uma genuína preocupação.

— Agradeço o voto de confiança.

Bervely lançou um feitiço de amortecimento nos pés, encheu os pulmões de ar e prendeu a respiração, deixando a gravidade puxá-la para as entranhas do labirinto.


Notas finais
Ansiosa pelas suas impressões, me conta nos comentários!