A Cada Despedida

1 À Primeira Vista


Tornou-se desnecessária a apresentação.

Ela sabia que ele a estava traindo. E sentia um ódio tão vívido e destruidor correndo pelas suas veias que achava ser capaz de pagar na mesma moeda. Não era como se estivesse procurando pelo adultério naquele restaurante bem meia boca, mas era quase como quisesse que algum idiota lhe desse uma cantada, e então teria uma desculpa. Não sabia que podia odiar tanto assim alguém que amava. E isso não se tratava da ausência do amor de outrora. Amava. E amava tanto que doía. Era um sentimento que não gostava de sentir no começo. Parecia não caber dentro de si. Aquela sensação nunca deixou de existir, mas só agora voltou a lhe assombrar. Puxou um maço antigo de cigarro de dentro da bolsa, e acendeu um, mesmo com o aviso da proibição do ato estampada nas paredes. Tragou devagar, aproveitando o vapor e o seu momento em paz. Ninguém lhe importunou por isso. Aliás, ninguém lhe importunou por nada naquele dia. Costumava a receber olhares, assobios e sorrisos para onde quer que fosse, mas, justo naquele dia, não recebeu nada. Sentiu-se a mulher mais deplorável da face da terra, incapaz de receber um sequer olhar. Talvez fosse só o diabo cuidando dos seus filhos, impedindo-a de fazer algo que no fundo queria, mas repetia a si mesmo que não. Imediatamente foi atingida pelo sentimento de que poderia chorar, mas limitou-se a fechar os olhos e terminar o seu cigarro.

Ele finalmente assumiu o seu compromisso sério com as más decisões. Escolheu, em algum ponto da vida, que não beberia. Mas fumava um maço inteiro em uma semana, talvez menos. E isso era só começar. Sentia falta de sua ex. Havia deixado para trás sua família. Queria se reinventar, espremer o pouco do que tinha de “estrangeiro e interessante” e esquecer as origens simples do resto. Parecia uma boa ideia, mas agora sentia falta de sua mãe lhe dizendo para não esquecer do casaco ou para não ser tão sarcástico. Todos os seus amigos haviam seguido em frente. Estavam se casando, tendo filhos. Encontrando uma vida cujo espaço para ele era muito pequeno ou não existente. Os únicos que ainda o ligava, fazia questão de ignorar. E os que queria estar perto, pediam distância. Sentiu estar no ponto mais baixo de sua vida, e então pensou que se dane suas convicções de não se tornar um bêbado estúpido como a maioria dos homens de sua família. Só por hoje. Pediu uma bebida, e só quando chegou percebeu que não sabia como beber. Havia tomado um gole ou outro de cerveja quando mais jovem e achou amargo demais para o seu gosto. Tomava um ou dois dedos de vinho em cerimônias e feriados, mas nunca além disso. Nem sequer sabia pronunciar o nome correto do líquido no copo à sua frente. Riu sozinho com isso. Foi necessária coragem para pegar o copo, e olhou por cima do drinque uma figura solitária com o seu cigarro. Seu semblante era como um poema escrito com o coração partido. Ao mesmo tempo que era perfeitamente doce, também era triste. E ele sempre teve uma queda pelo que era quebrado, vazio ou simplesmente melancólico. Esticou o braço para a garota, e piscou. No segundo seguinte se chamava de idiota mentalmente. Que tipo de estúpido ainda piscava para alguém? Usou deste questionamento como impulso para virar o copo, e o líquido desceu em sua garganta como a saliva de um dragão.

Ele piscou. Seu coração parou por um segundo quando abriu os olhos e viu um sujeito apontando um copo e piscando. Quase sorriu de volta, mas se sentiu nervosa demais até mesmo para isso. De repente, sentiu-se de volta ao colegial. Flertes desajeitados e reações confusas. Esperou terminar o cigarro para ver se ele não sairia dali, ou ao menos era o que dizia para si mesma. Na sua cabeça, pensava que deveria dar um tempo antes de se aproximar, só para não parecer muito entregue.

Ela se levantou, e ele se sentiu brevemente decepcionado. Ainda não estava bêbado o suficiente para se aproximar, mas esperava que pudesse chegar naquele nível, mesmo que só o primeiro copo já tivera sido uma experiência horrível. Chamou atenção do garçom que estava bastante desatento enquanto conversava com uma colega de profissão e sinalizou por outra dose. Quando virou-se para encarar o copo vazio, ela estava próximo. Próximo o suficiente para sentir o seu perfume. Não teve coragem, entretanto, de levantar os olhos e encará-la. Mas a voz o surpreendeu a ponto de fazê-lo tremer, e mudar de ideia quanto a olhar nos olhos.

– Posso sentar? – Questionou, como quem não queria nada, e ele abriu um sorriso nervoso que sempre precedia à uma resposta sarcástica.

– Somos os únicos idiotas num restaurante desses fora do horário do almoço. – Não foi uma resposta, mas ela não esperou pela permissão para se sentar. Na altura dos olhos dele, a boca riu com a frase, mas não emitiu som nenhum.

– Provavelmente estamos sendo xingados. Querem fechar o lugar, e nós aqui. – Ele devolveu o riso, mas com um evidente nervosismo.

A velha história de “garotas como ela não se importam com garotos como eu” repetia-se em sua mente. Tinha crescido acreditando naquilo. Não era, exatamente feio, mas não via nenhum atrativo em si. Principalmente agora. A bebida chegou, e ele a engoliu com voracidade. Não deixou o garçom se afastar para pedir a terceira dose, mesmo sem saber se iria aguentar.

– Bebendo por algo? – Perguntou, reparando em seu estranho desespero em virar o copo com a bebida alcoólica.

– Só por mim. – Respondeu desta vez, livre de sarcasmo. Sempre o criticavam por responder com ironia o tempo todo, mas não eram raras as vezes em que dava uma resposta sincera e íntima como aquela e fosse interpretada normalmente como mais de seu humor ácido.

– E não vai me pagar um? – Mostrou um sorriso ao perguntar, e riu baixinho quando o homem do outro lado da mesa fez o pedido de maneira desajeitada ao garçom. Esperaram em silêncio pelo copo, e ela bebericou o seu drinque.

Conversaram, então. De uma maneira que nenhum dos dois tinha feito havia muito. Ele ainda mantinha o seu melhor amigo desde o ensino médio por perto, continuava com a amizade da ex-namorada e fazia ligações esporádicas para sua mãe. Ela tinha o seu marido, sua mãe que nem o seu casamento a fez desgrudar, e a sua irmã mais nova. Mas nenhum deles se sentia conectado com alguém daquela forma desde muito tempo. Talvez fosse só o álcool, sugeriam mentalmente, mas não era. Apesar da estrada diferente, tinham uma idade bastante parecida e descobriram que foram aos mesmos shows quando crianças, gostavam das mesmas bandas, dos mesmos filmes. Discutiram sobre o Beatle favorito, e sobre qual achavam ser o melhor filme de Woody Allen. Em algum ponto crítico, alguém falou sobre família, e foi então que encontraram ainda mais semelhança. Estavam quase sendo expulsos do restaurante quando se tocaram pela primeira vez, um “acidente” dele ao encostar no copo e acabou por segurar a sua mão. E, num piscar de olhos, sentiram-se plenos.

Se encararam, estáticos, por alguns segundos em silêncio. Ela sentia uma atração tão grande que quase se esqueceu do motivo de estar ali. Mas quando se lembrou, procurou por instigar ainda mais aquele sentimento. Ele pensava que ela poderia ser mais um de seus maus hábitos que tentava acumular para se esquecer do vazio que se encontrava dentro de sua alma. Não pôde deixar de notar a aliança em seu dedo. Podia uma paixão ser tão egoísta?

Não importava.

Saíram rindo do restaurante, abraçados como amantes mas nunca se beijaram. Ele tentava a guiar, mas ela o puxou até o seu carro e se amaram.

Não souberam dizer quantas vezes confortaram um ao outro naquela semana. Mas o relacionamento se construía na contramão. Procuravam se preencher individualmente ao invés de construir uma ponte. O sexo era bom. Desesperado, voraz, apaixonado. Mas a companhia do outro era ainda melhor. Dividiam um cigarro na cama do apartamento bagunçado dele, e contavam histórias um ao outro, ou simplesmente se abraçavam ao ouvir uma música que marcou a sua juventude.

Mas mesmo o início de algo chega ao fim. E uma pergunta ecoou pelas quatro paredes do quarto esfumaçado:

– E o seu marido? – Questionou, meio sussurrando, meio fumando. Quando as palavras terminaram de ser formadas e escaparam pelo ar já havia se arrependido. Decidiu não demonstrar, terminando de fumar com indiferença.

– Não vamos fazer isso. – Ela pegou o cigarro dos dedos dele, e tragou com raiva. Não gostava de pensar naquilo. Quando chegava em casa e chorava com a cabeça afundada no travesseiro, pesada de culpa, era a hora de fazer aquela pergunta. Não ali, quando tinha algo próximo ao seu paraíso particular.

– Não é certo com ele. – De repente, se viu repetindo velhos passos. Era um daqueles momentos em que se via diante de algo belo, que tinha para si, e no segundo seguinte estava destruído. Tinha o costume de fazer isso, mesmo que nunca fosse por querer.

– Nós temos algo bom. – Ela sussurrou, apagando o cigarro. Naquele tom, não havia deixado claro se se referia àquilo ou ao seu casamento. Beijou o pescoço dele com carinho, e pediu com ternura: — Não faça isso

– O que? Continuar mentindo? – Fechou os olhos assim que disse isso. Podia prever o que viria em seguida. Burro, burro, burro. Por que tinha de ser assim? Sentiu falta do calor dela ao seu lado no segundo seguinte, e quando abriu os olhos já estava de sutiã e abotoava sua blusa.

– Por que você tem que estragar tudo? – Questionou, enquanto esticava as pernas, vestindo a calça. Sentia as lágrimas lentamente se formarem, mas não queria chorar. Não ali. Não na frente dele. No final das contas, sabia que aquele ponto chegaria. Mas pensava que seria mais tarde. Sempre era mais tarde. Engoliu toda a tristeza e a raiva daquele momento e se levantou.

– Eu sou complicado. – Ironizou, deixando-a ir, enquanto acendia o seu último cigarro. Era aquele o seu jeito pessoal de sofrer.

O bater da porta fez parar dois corações.

Notas finais
Continua(?).