A Cada Despedida

2 O Meio do Caminho


Demorou alguns meses até que ela ligasse. E o diálogo foi bastante simples.

– Devo me preocupar? – Ele questionou, ao fim de tudo, e ouviu a voz do outro lado da linha suspirar.

– Só se você quiser. – E desligou.

Não desligou para deixá-lo com o silêncio, ou porque não tinha mais nada a dizer. Desligou porque era tortura ouvir aquela voz. Aquela pergunta. Receber o sarcasmo ao invés das palavras açucaradas de outrora. Sentiu-se mal imediatamente e correu até o banheiro, para vomitar.

Ele desligou o telefone e foi até o seu sofá. Deitou-se, acendeu um cigarro e ligou numa música qualquer. Tudo menos o silêncio. Silêncio o fazia pensar. E pensar era calcular o quão estúpido tem sido, e as coisas que perdeu. Era fácil perceber quando estava triste. Sempre deixava a barba por fazer, os cabelos crescerem além da conta, usava roupas velhas e às vezes sequer tinha vontade de borrifar um pouco de perfume antes de sair de casa. Não conseguia evitar. Não era simplesmente porque foi abandonado por ela, mas porque abandonou a si mesmo. Encontrava-se, no auge da madrugada, puxando o ar com o nariz colado ao travesseiro, como se ainda pudesse sentir um resquício da presença dela ali. Mas tudo se foi. Se foi fazia tempo. Ao menos não bebeu depois do dia que se conheceram. Achou que pelo menos aquilo era uma vitória. Mas não consideraria uma conquista completa quando era fruto de uma derrota.

Não muito distante daquele apartamento solitário, ela estava tendo que confrontar os mesmos demônios. Chorou por mais ou menos duas semanas inteiras, e brigou com o marido por toda essa extensão de tempo, quando só o que ele queria era a razão do choro. Para melhor ou para pior, encontrou uma razão definitiva para o seu humor. O resto do tempo foram de preparos, visitas e irritaçõezinhas que se acumulavam com o passar dos dias. Quando percebeu, quase nem teve tempo para se deprimir. Não sabia exatamente porque tinha ligado. Provavelmente a ideia surgiu ao ver o nome dele em uma das salas daqueles corredores brancos que frequentou nos últimos meses. Sabia que não deveria. Sabia que seria melhor deixar a pontuação daquela história como um ponto final, e não transforma-la em uma vírgula. Mas foi fraca. E mesmo com o resultado desastroso da ligação, faria de novo e de novo e de novo, só para ouvi-lo sussurrar o seu nome com aquela surpresa.

Já era tarde quando finalmente encontrou a peça de roupa que queria, da cor que queria e do seu tamanho. Estava chovendo e demorou para encontrar o seu carro. Molhou-se por inteira e por fim acabou jogando a sacola com as compras no lixo. Pensou em se sentar e chorar, mas percebeu que um guarda a observava. Não como quem acredita que há um potencial de crime ou algo parecido, mas com a piedade nos olhos. Aquilo foi o fim. Correu para fora do pátio do estacionamento, e foi para o único lugar que conhecia.

Chovia e tudo de si estava molhado, mas eram os seus olhos os únicos que se afogavam.

Não tinha certeza se ele estaria em casa naquele horário, mas o porteiro a reconheceu quase de imediato e a deixou entrar. Disse que ele não saía do apartamento fazia uma semana.

Ouviu o bater na porta e se irritou. Ou era algum vizinho para reclamar de qualquer coisa que não teria a paciência para lidar naquele instante, ou era alguém que foi deixado entrar sem seu aceite. As duas possibilidades o deixou de extremo mau humor, e caminhava de punhos fechados em direção a entrada. Girou a maçaneta sem sequer tentar olhar e encontrou o mundo.

Ela sempre se esforçava para manter a maquiagem impecável, e odiava quando os outros a viam sem, se sentia desprotegida. Entretanto, não teve escolha, mesmo que ele nunca a tivesse achado mais bonita do que quando ela apareceu em sua porta com a maquiagem borrada, os olhos vermelhos de chorar e encharcada, ela sabia que não era o seu melhor. Aceitou uma ducha, e ficou satisfeita em não tornar aquilo complicado. Era o papel dele fazer isso, e esperava que ele esquecesse dessa parte.

Deitaram-se em silêncio, e ela agradeceu pelo calor e roupas secas, mesmo tendo que se contentar com uma calcinha sua esquecida naquele apartamento, um moletom velho e uma camiseta estúpida com uma estampa de quadrinhos. Não se tocavam, mas encaravam um ao outro. Contemplando o que poderia ser. Ela queria que ele falasse. Qualquer coisa. Mas ele se limitou a estudar cada centímetro de seu corpo com os olhos, e então acariciar ternamente a sua barriga grande pela gravidez. O silêncio imperou e, depois de algum tempo, com todos aqueles elementos juntos, se deu por satisfeita.

– Eu nunca achei que poderia me gabar de uma garota de cento e cinquenta quilos na minha cama. – Sorriu enquanto enrolava o cabelo dela em seu dedo, algo que fazia desde criança com a sua avó, depois a sua mãe, e então agora ela. Passava a outra mão sobre a barriga, tanto acariciando a sua mulher quanto se dizendo: Talvez...

– Você é ridículo. – Replicou, rindo. Fazia tempo que não ouvia o som de sua própria risada. Tanto tempo. Talvez desde que o deixou, naquela mesma cama, naquele mesmo quarto. Parecia fazer uma eternidade. – Eu não tenho cento e cinquenta quilos.

– Mas quase? – Provocou, e ela retornou a rir. Gostava do som da risada dela. Sempre o fazia sorrir também, mesmo quando sua piada era péssima e ela ria só para agradá-lo. Tocou-a o rosto, e quis a beijar. Tê-la ali, agora. Mas se conteve.

– O que você queria ser quando crescer? – Ela perguntou, brincando com o seu cabelo, depois de um bom tempo em silêncio. Aquela pergunta não soou nada espontânea, mas sabia a razão desta.

– O Batman. – Era uma daquelas vezes em que ele resolvia ser sincero, e a maioria das pessoas iriam rir ou simplesmente ignorar. Mas não ela. Ela percebeu o quão íntimo aquela resposta absurda foi, e ele pôde ver isso em seus olhos. Sorriu, bela como um quadro renascentista.

– Eu queria isso, sabia? – Respondeu, ainda sorrindo e abraçou a própria barriga, com a mão dele ali. Sentiu-se perfeitamente confortável, e, como poucas vezes na vida, completa. – Ser mãe.

– Eu sei. – É claro que sabia. Sempre foi bom em interpretar as pessoas, e era exatamente o tipo de coisa que ela mais tinha medo: ser vista. Ao mesmo tempo em que era vaidosa e gostava de atenção, morria de medo de ser vista por dentro. De ser entendida. Tinha medo de mostrar sua alma porque estava quebrada. Inteiramente.

– Sabe? – Só tinha sido lida daquela maneira por uma única pessoa em toda a sua vida. E nunca mais quis sentir-se tão vulnerável quanto daquela vez. Mas ali, com ele, o sentimento de estar exposta não parecia tão ruim. Aproveitou para se aproximar, e a respiração do dois se tocava, sussurrando pedidos de um beijo.

– Você quer fazer certo. Quer ser o que seu pai não foi. E o que a sua mãe faltou. Quer ser uma boa mãe. – E então o beijo foi selado. Lento, pois não tinham pressa, e íntimo, pois nunca amaram outra pessoa mais do que se amavam agora. Ela não nutria a ilusão, entretanto, de ele ser o único em seu coração. Ela queria que fosse simples, mas não era. E, pelo menos desta vez, não poderia culpá-lo.

– Você também quer. – Percebeu, depois do beijo. E então se perguntou pela primeira vez. Era totalmente possível. E talvez ainda mais provável. Ele sorriu enquanto ela acariciava o seu rosto.

– Só por hoje.

Notas finais
Continua.