A Caçadora Da Rainha
1 O lobo
Astérea deveria estar aguardando horas. Suas roupas encharcadas descansavam em um tronco musguento e úmido, com os galhos retorcidos e bons de subir, aonde era impossível achar um ponto sem gotículas de orvalho. Seus dedos já estavam em carne viva de tanto que brincava com as pontas afiadas das flechas. Um vento fresco soprava em seus cabelos castanhos e fazia com que as folhas farfalhassem. Por alguns segundos a garota teve a leve sensação que poderia se deitar ali e ficar o resto da vida respirando aquele ar fresco sem mexer os lábios e fazer nenhum esforço além do necessário, mas sua vida não funcionava assim. Ninguém escolhia fazer parte dos Caçadores. Ela nunca pensou que acabaria em uma floresta, caçando cervos necessitando alimentar um homem doente e uma criança. Caçadores se tornaram uma parte da população excluída. Excluída por muito tempo atrás por terem sido os revoltos e rebeldes. A rainha simplesmente os exilou esperando com o tempo, que essa raça morresse e deixasse apenas as memórias da revolta inútil para trás. Agora todos os temem. Os temem porque eles são os Caçadores.
Milagrosamente, algo se mexeu entre os arbustos e seu coração disparou pelo inesperado. O pelo era negro como carvão. Olhos vermelhos e dentes brilhantes como a ponta de uma espada nunca usada. Astérea ajeitou a flecha no lugar aonde pretendia mirar e observou o lobo escuro se movimentar, mas hesitou em atirar. Sempre escutou que se encontrasse algum Lobo deveria correr aos três passos:
1. Matar
2. Sair do caminho.
3. Em caso de fome, matar.
Ele se movia com imponência, como se tudo em volta não fizesse questão de um grande monstro negro, mas para a garota, a floresta estava viva. O Lobo estava sozinho e a garota sabia que nunca deveria esperar que ele estivesse sozinho.
Seus dedos estavam a ponto de relaxar e deixar a ponta da flecha rasgar a carne do animal, mas de repente, tudo ao meu redor parou. O vento não brincava com as folhas e a água que descansava sobre o tronco viscoso não eram mais importantes. Os olhos vermelhos encaravam diretamente a garota, mas ela não deveria ser visível, ela não poderia ser visível no meio dos galhos retorcidos. Astérea não tinha feito barulho. Ela nunca fazia barulho, mas ele a fuzilava com o olhar e disso ela não tinha dúvida.
Os músculos se contraíram e seu rosto empalideceu. O animal revirou o corpo e entrou dentro dos arbustos. Esperou seu coração se desacelerar, como se fosse possível suas batidas ecoarem pela floresta. Ela desceu da árvore e correu para o povoado. Astérea sabia a quem aquele lobo pertencia. Apenas uma palavra foi capaz de cortar seus pensamentos. Rainha.
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