A Caçadora
1 A penumbra, por vezes, é rubra
Os ventos gélidos ressonavam como assovios naquele vilarejo no meio do nada. Era estranho uma noite como aquela, sem estrelas ou lua, e embora a penumbra fosse arrebatadora e, misticamente ruim, o fogo parecia ser suficientemente forte para manter qualquer coisa indesejável para fora das entradas vigiadas. Numa das cabanas de madeira, uma garotinha estava em pé, caminhando sorrateiramente até o quarto ao lado, onde sua mãe, parecia preparar algo a ela e, embora atípico, a criança decidiu interrompe-la.
— Mamãe, eu tive um pesadelo.
— Oque foi querida? Com oque sonhou? — Com um caneca em mãos, ofereceu oque parecia ser chocolate quente à garota. Enquanto a guiava em direção à seu quarto. De alguma forma, a mãe sabia que aquela noite seria longa e, já havia se preparado anteriormente.
— Sonhei com o papai deitado e com um grande lobo, lá fora
— Tudo bem, anjinho, é só um sonho ruim.
A garota bebeu pacientemente, enquanto, com as mãos dadas à sua mãe, sentaram-se lado a lado naquele amontoado de tecidos. Alguns cobertores grossos pareciam estar a espera da garota, que acabou por tomar totalmente o líquido no recipiente. Ela sorriu, corando levemente sua bochecha, entregando a sua mãe em seguida.
— O papai já chegou?
— Não, ele vai ficar de guarda o resto da noite, minha querida
— Então você pode dormir aqui, certo?
— Sim, meu anjinho, mas precisa deitar e se esquentar primeiro, tá?
Sorridente e com os olhos elétricos, a garota fizera alguns movimentos bruscos, inicialmente abraçando sua mãe e, em seguida, puxando os cobertores para perto, simplesmente esticando seu pequeno corpo por toda a "cama". Em seguida, seus olhinhos seguiram em direção à mulher sentava a sua frente. Ela tinha uma aparência extremamente bem cuidada. Cabelos longos e louros, olhos azulados, e um corpo levemente acima do peso.
— Mamãe, pode me contar uma história?
— Sim, querida...
— Huum, vou te contar sobre a pequena princesa...
— Sou eu mamãe?
— Sim, minha princesa Pietra. Era este o nome, Pietra. De cabelos louros e olhos tão azuis quanto o oceano. — Sorriu, enquanto aproximou-se da criança, acariciando levemente seus cabelos.
— A princesa Pietra nasceu numa família pobre, mas conseguiu, chegar a realeza depois de ser salva por um lindo príncipe, que pediu sua mão à sua família
— Mamãe, mas a Pietra que salvou o príncipe, não o contrário!
— Isso, meu amor! A Pietra salvou o príncipe das garras de um grande Orc
— Feio e rabugento, mamãe
— Feio e rabugento! — Acrescentou a mulher, enquanto sorrirá, descendo levemente suas mãos para a bochecha de Pietra, apertando-na.
— Mas como ela conseguiu fazer isto, Mamãe?
— Com magia! A princesa Pietra era uma grande maga e, então, transformou o Orc em cinzas, ajudando o lindo príncipe a se levantar — Ela continuou, enquanto beijou a testa de Pietra.
— patet somnia— Sussurrou a mulher, enquanto a garota bocejou, ficando com uma aparência bem mais cansada do que anteriormente. Parecia que, toda sua energia, se esvaia.
— E então mamãe?
— Eles viveram felizes para sempre.
— Com você e com o papai também, né?
— Sim, minha princesa, para todo o sempre, eu, você e seu pai.
Com a última frase e o término da "história", Pietra dormirá profundamente. Sua mãe, preocupada, levantou-se, cobrindo-na de maneira mais correta possível.
— Está tudo bem querida, nós sempre estaremos contigo
Uma batida na porta estendeu-se por alguns segundos enquanto a mulher parecia dar início a lágrimas, que secará antes que pudesse chegar a porta. Ela não tinha certeza se queria abrir aquela porta, mas sabia que não podia deixar nada acontecer a Pietra. Com uma das mãos esticadas, enquanto a outra parecia mais retraída, segurando aquela caneca, finalmente pôde abrir a porta e visualizar com seus próprios olhos oque acontecia naquele vilarejo.
— Senhora Berryann, seu marido...
— Oque aconteceu com ele?
— Ele está morto
— Oque?
Com a mão tremendo, acabou por soltar a caneca, que espatifou-se, embora não fosse feita exatamente de vidro. O homem do lado da porta parecia ter urgência e, não era para menos, todas as outras cabanas e, grande parte do vilarejo estava coberto por chamas. Uivos baixos eram as únicas coisas ainda presentes por ali, mas de alguma forma, abafavam-se totalmente ao chegar próximo aquela residência.
— Nós precisamos de você, se não...
— Mas Pietra...
— Ela não vai sobreviver se estas coisas continuarem aqui.
E então, como qualquer mãe, ela segurou suas próprias lágrimas e, fechando a porta atrás de ti, fora em direção à incertezas. Aquela noite atípica aos poucos ficava cada vez mais rubra, com o sangue de inocentes para apaziguar um clã quase extinto, uma matilha. Lobisomens não eram comuns por aquele lado, afinal, um Vilarejo no meio do nada, ao sudeste do grande reino... Oque poderia oferecer a tais criaturas? Talvez vidas inocentes... Mas era somente isto que queriam?
Fale com o autor