A Caçadora

2 1 - Talvez não tão do começo


A manhã havia finalmente chegado. Pietra acordou um pouco mais tarde do que o comum, espreguiçando-se. Seu pequeno corpo parecia não estar totalmente coberto, talvez por conta de se mover tanto enquanto dormia. De qualquer jeito, enquanto recobrava parte da ciência, olhou em volta. Sua mãe não estava no quarto... Havia acordado antes? Ou seu pai tinha chegado? Aquela incerteza fora o suficiente para torna-la ansiosa.

Demorou alguns poucos segundos até que levantasse, seguindo em direção, com passos contidos e leves, ao quarto de seus pais. Ainda estava escuro ali, na verdade, em toda casa. Pietra, de fato, achava aquilo atípico, mas não havia pensamentos desvaneados, ou teorias para com aquilo. As vezes, sua mamãe fazia aquilo para que o papai pudesse dormir mais aconchegado. Como um guarda, ele geralmente fazia muitas patrulhas, algumas a noite.

Quando ela finalmente chegou ao quarto dos pais, andou devagar até os pés da cama. A escuridão parecia não deixa-la ter certeza de sua própria visão, então, decidiu engatinhar até o lado direito e, talvez, abraçar seus pais. Qual foi sua surpresa quando, ao perder o equilíbrio e cair para o lado, na cama, e perceber que não havia ninguém por ali? Pietra tinha muito medo de escuro e, para ela, aquilo era o cenário tão ruim quanto de qualquer pesadelo. Assustada e corada, levantou-se, visando altura suficiente para puxar as persianas daquela "janela" curta, acima da cama, e embora obtivesse sucesso, conseguiu ver com seus próprios olhos, algo nada interessante.

Com os grandes olhinhos elétricos, a garotinha observará o vilarejo do lado de fora da janela. Havia homens, muitos. Alguns deitados. Estavam com sono? Mas outros, pareciam levanta-los de maneira desorganizada, indo até onde ela não podia ver. Mas não era exatamente isto oque, de fato, assustou-a, mas sim, toda aquela destruição. Haviam cabanas destruídas, outras queimadas e algo rubro por todo lado.

— Mamãe?

A pequena chamou, inclinando seu pescoço novamente para a cama. Ela queria um abraço, talvez uma outra história, mas o silêncio que seguiu-se, fora aterrador. Ela correu desceu daquela cama, tropeçando ainda no começo, mas segurando-se suficientemente bem, para que não caísse com o rosto no chão, mas batendo fortemente o cotovelo. A dor parecia mínima, perto daquele crescente desespero.

— Mamãe? Onde você está?

Por entre o corredor, a garota corria. Seu cabelo estava amarrado, semelhante à um coque. No dia anterior, ela não havia lavado-o e, por isto, sua mãe, fizer aquele penteado para que, não a incomoda-se tanto. Ao chegar a porta de entrada, onde também era a cozinha daquela cabana, Pietra viu ao chão, a caneca branca quebrada. Lembrou-se de imediato do dia anterior. A mesma caneca que receberá chocolate quente.

Com os olhos fundos, segurando o choro, Pietra contornou os cacos visíveis, abrindo a porta com cuidado, e certa dificuldade. Sua altura geralmente não ajudava muito, mas pratica era tudo que tinha. Ela sempre fazia o mesmo percurso, embora não fosse sempre a necessidade de prestar tanto atenção no chão. Foi quando ela abriu a porta e toda luz parecia ilumina-la, oque fizera com que apertasse levemente os olhos, assim como, levar sua mão esquerda em direção ao rosto, protegendo instintivamente, sua visão.

— Mamãe?

Aos poucos, ela re-abrirá os olhos e, diferente do que se via anteriormente, o céu nada mais era do que um emaranhado de madeira sobre-posta, de coloração escura e, provavelmente, repleta de cupins. Pietra estava com a cabeça pesada, assim como uma dor aguda do lado direito, pouco acima do olho. Aquela maldita dor de cabeça que acompanhava-a ficava mais latente a cada pesadelo.

Demorou para recobrar totalmente os sentidos, enquanto mantivera-se sentada naquela cama de estalagem. Ela tossia algo que parecia sangue, enquanto buscava com as mãos, seu óculos na escrivaninha do lugar.

— Não está muito cedo, criança?

— Isso é da sua conta?

Na cama ao lado, um homem apoiava suas costas nas paredes velhas do lugar. Estava sem camisa e, mesmo no escuro, forçando um pouco os olhos, Pietra conseguiu ver o grande corte na altura de seu estômago. Embora tudo que passara, nunca havia visto sem aquele chapéu maltrapilho. Um chapéu estranho, semelhante à de fazendeiros.

— Você desmaiou lá, não deveria estar se mexendo... Tem que parar de fazer as coisas desse jeito, Pietra.

Pietra calou-se inicialmente. Sabia que, não podia fazer aquilo, mas de qualquer forma, era mais fácil. Goblins eram criaturas burras, tentar argumentar ou criar um plano mirabolante, apenas para que a covardia das criaturas fosse sobreposta, era burrice e, de qualquer forma, enquanto estivesse junto ao caçador, tudo estava bem, certo?

— Oque aconteceu com você? — Perguntou Pietra, ainda sem tirar os olhos daquele corte. Não era normal para ela, ver o homem a sua frente, machucado.

— Foi aquele maldito grandalhão. Era bem mais forte do que eu imaginava. Depois que desmaiou.

— Me... Me desculpa...

Embora Pietra fosse extremamente ríspida, sabia quando fazia coisas erradas e, aquele era o caso e, da mesma forma que conseguia ser mal-encarada, conseguia fazer o coração de qualquer homem palpitar devido à sua incrível beleza. Embora sua altura não tivesse ultrapassado os 1,70, mesmo quase completando dezoito anos.

— Não foi culpa sua. Eu estava em vantagem e pensei que podia enfiar a minha adaga no crânio dele. O desgraçado usou um filhote pra se proteger, você acredita?

Ela riu, imaginando a cena. Era incomum a goblins, ter pensamentos como aquele, mas ao menos parte deles, tinha certa inteligência e, outros, até magia podiam usar. Eram criaturas ardilosas e estranhas. Mas, sem dúvidas, estavam abaixo de qualquer cadeia alimentar daquele mundo idiota.

— Quando nós vamos caçar ?

Impaciente, Pietra peguntou ao homem, enquanto já levantava-se. Seu corpo estava mais dolorido do que imaginava-se e, inclusive, fizera-a reclinar de imediato, embora a garota já estivesse bem acostumada com aquilo.

— Nós precisamos mata-los, cada um deles

— Espere criança. Eu te avisei, certo? Precisamos ir até o reino de Bethka... Eu fui requisitado.

— E dai? Apenas ignore-os. Sempre fazemos isto.

— Eu não posso.

— Porque?

— Porque sim, Pietra.

Embora não gostasse de ser contrariada, Pietra acatou as ordens daquele homem. De fato, ela devia muito mais a ele do que sua própria vida. Não podia simplesmente ir contra uma de suas ordens tão facilmente, não enquanto sua divida chegasse ao fim com ele. Com a face levemente mais irritada, ela levantou-se, caminhando em direção ao banheiro. Na verdade, buscava algum, oque fizera passar dentre alguns outros lugares, como uma espécie de cozinha, recheado de mesas e alguns poucos homens, uma típica entrada de hospedagem, com porta de madeira e alguns chaveiros, logo na entrada, assim como uma moça tão jovem quanto ela e, em seguida, próximo a outros quartos, o banheiro.

O homem, ainda no quarto dos dois, suspirou, enquanto simplesmente ergueu-se da cama com dificuldades, vestindo uma camisa com manchas e mal lavada.

No banheiro, Pietra estava olhando fixamente para aquele espelho. Algumas caretas eram feitas, a maioria para ter plena certeza de que aqueles goblins malditos não fizeram nada com ela. Alguns, até mesmo aplicavam veneno para vender o corpo morto para outras raças. Criaturas ardilosas. E, em seguida, bebeu a água do lugar, de maneira veroz. Qual foi sua surpresa ao perceber um gosto semelhante à ferro em sua boca, cuspindo parte do líquido, avermelhado.

— Eu preciso daquele remédio, se não...

Um pouco preocupada com sua própria saúde, Pietra abriu a porta do banheiro, andando calmamente até os aposentos aonde dormirá. De uma espécie de mochilas, retirou um recipiente pequeno, tomando dois comprimidos pequenos. Não era ela que fazia aquilo, mas sim, um amigo do caçador. Ele mexia com magia, natureza e toda essa merda. Digamos que era um especialista em salvar vidas e a garota precisava daquilo.

A dor que sentia, aos poucos, passará. Não por completo, mas suficiente para que pudesse sentir o restante de seu corpo. Ela estava cansada, mentalmente e fisicamente. Então, por que continuar a caçar? De qualquer forma, o próximo passo, fora, perceber que o homem não estava mais ali.

Ela procurou com os seus olhos nas extremidades do quarto, sem sucesso e, com a bolsa em mãos, guardando o medicamento, caminhou em direção ao atendimento do lugar.

— Você vi —

Antes que pudesse completar sua frase, percebeu, na cozinha, o homem sentado com uma grande caneca de cerveja em mãos, chamando-a.

— Obrigada

A garota andou até ele, com certa irritação, sentando-se em sua frente.

— Nós precisamos ir, certo?

— Não, precisamos comer e descansar um pouco. Não fazemos nada mortos e eu peguei café para você. Café e pão. Coma e largue um pouco essa coisa, vive grudada nisso. — Resmungou o homem, comentando quanto a bolsa velha da garota.

A garota soltou-a no chão, sentando-se direito e, pegando o pão para que pudesse dar boas mordidas. Sim, ela morria de fome. E, acredite se quiser, até carne de diabo servia naquele tipo de momento. Uma fome de quem não comia a mais de dois dias.

— Nós vamos partir no final da tarde. Aparentemente, o Rei decidiu que quer meu serviço... de novo.

— Você já trabalhou com ele? — Perguntou, enquanto abocanhava mais um pedaço de pão. Era difícil para o homem entender totalmente oque a garota falará, mas com um pouco de pensamento lógico, seguiu a resposta.

— Para ele.

— Meu primeiro trabalho, caçar uma seita de bruxas.

— Bruxas? Como são?

— Algumas são mulheres normais, com poderes mágicos. Estas não matamos, mas entregamos a justiça. Não se pode usar magia por aqui, sabe? É um tabo da igreja e qualquer um entregaria a própria Mãe se visse usar magia.

— Mas as outras, algumas delas, fizeram pactos com entidades malignas. Estas, nós caçamos.

— Tá, mas como são?

— Você vai ver quando chegar a hora.

Com o fim da conversa, Pietra continuou comendo, com certa ansiedade. Bruxas? Nunca tinha caçado uma e, de qualquer jeito, seria uma experiência nova. As horas passaram brevemente. O caçador havia saído para comprar algumas coisas, bebidas, poções e, talvez, algumas flechas e veneno. De qualquer forma, era normal a eles se separarem brevemente e, para a garota, bastou aproveitar o máximo que pudesse daquele lugar.

Próximo ao fim da tarde, uma multidão se encontrou na cozinha do lugar. Um homem belo, alto e de cabelos grisalhos, talvez não da idade, apresentou-se como um Bardo, tocando aquele instrumento estranho, com uma superfície maior do que a outra. Pietra nunca tivera interesse naquele tipo de coisa, no entanto, o som parecia atraí-la. Lendo a página 237 de um livro de capa preta, ela fora até onde conseguiu, fechando em seguida, oque tinha em mãos, para dar um pouco de sua concentração à música.

Não havia muita cantiga do homem, apenas o som claro e solitário do instrumento. Aquilo fazia-a lembrar de dias calmos de sua infância.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.