A Caçada

4 O lança-mísseis


Acordei no dia seguinte no hotel miserável em que me refugiava, me sentindo deprimido mais uma vez, e com uma intensa vontade de sentir os efeitos do crack no meu organismo. Se continuasse assim acabaria me viciando. Mas o prazer de usar crack era grande demais, e eu tinha vontade de senti-lo de novo hoje, e todos os dias de minha vida. Fiquei um tempo na cama, tirando de cima de mim os percevejos, que logo se tornariam meus carniçais (HIAIHAIHA). Pensava na vida, quando me lembrei de uma coisa — antes de ontem, quando estava sob efeito das drogas, tinha saído do hotel para caminhar, e no caminho tinha sido abordado por policiais. Não lembrava bem o que tinha dito a eles, mas lembrava que isso tinha acontecido. Entretanto, tinha coisas mais importantes em que pensar e fazer hoje, então lutei contra minha depressão e me levantei da cama. Peguei o resto do crack que tinha comprado, o cachimbo e minhas armas, e bati na porta vizinha. Abriu a porta uma moça jovem, certamente com menos de trinta anos, vestida de calça jeans e uma blusa cinza com sutiã a mostra. Seus peitos bem desenvolvidos presos pelo sutiã certamente atrairiam a atenção de qualquer mortal, mas o que mais me atraia nela era seu cheiro, que sentia usando auspícios, e que era um sinal das delícias que escorreriam de dentro dela quando a mordesse com meus caninos mortíferos.

Tirei a arma da virilha e mostrei para ela, então disse:

— Não faça nada estúpido, doçura, e você sairá viva dessa. Entre no quarto.

Ela obedeceu, tremulamente, e eu entrei e fechei a porta, pondo a chave no bolso. Mostrei para ela o cachimbo e o crack e disse:

— Você vai fumar umas pedras, e depois vai me deixar beber seu sangue.

— Beber meu sangue?!

Não estava com paciência para dramas, então atenuei o que ela estava sentindo com minha disciplina. Ela imediatamente parou de tremer, e adquiriu uma expressão tranquila.

Entreguei para ela a latinha de alumínio, pus o crack sobre ela, e acendi com o isqueiro. Quando ela terminou a primeira pedra pus mais uma, e depois ainda outra.

— Muito bem, aposto que você está curtindo.

— É, estou. – disse ela, não muito confiante. Eu parecia detectar algo de errado com ela, e quando a mordi para beber seu sangue logo percebi o que era. Ela não tinha tragado o crack, tentando me enganar. Fiquei furioso com isso, larguei ela e dei um tapão em sua cara, fazendo com que ela caísse na cama atordoada. Apesar da dor, ela não parecia nem um pouco amedrontada. Esse era um efeito colateral da minha disciplina.

— Você vai tragar ou eu te mato, sua vadia. – disse eu, com os punhos cerrados. Entreguei o cachimbo de volta para ela, e logo pude ver que ela tinha tragado. Sua expressão mudou completamente, de neutralidade para êxtase. Fiz com que ela fumasse três pedras, e então a mordi de novo. De fato, dessa vez ela tinha tragado, pude sentir o barato.

Provavelmente seria considerado imoral expor uma pessoa inocente a um vício terrível como o crack, mas não havia risco de que ela se viciasse, pois não deixaria ela viva. Na verdade, ela teria uma ótima oportunidade de sentir um prazer intenso uma última vez em sua vida. Drenei-a até a última gota, e gastei o sangue extra aumentando meus atributos físicos. Fiquei tão chapado como no dia anterior, mas não se comparava ao efeito que tinha sentido no primeiro dia. De qualquer jeito, era suficiente para me livrar da depressão, e me por em ação. Deixei-a caída na cama, e dei no pé.

Primeiramente fui até o apartamento de Karina, e conversei com ela sobre como tinha seguido o príncipe, e como agora estava pronto para matá-lo, só precisava de um lança mísseis. Ela engasgou quando disse isso, e começou a rir de mim. Fiquei sério, e ela logo parou de rir.

— Você vai deixá-la rir da sua cara assim, seu molenga? – disse minha mãe.

Detestava admitir, mas minha mãe tinha razão, não podia deixar ela rir de mim assim impunemente, e hoje mais uma vez dei um tapão em uma mulher. Ela caiu no sofá com a força de meu tapa, e pude ver meus cinco dedos gravados em sua face. Ela tinha uma expressão de choque no rosto, não podia esperar ser agredida dessa forma por alguém que praticamente amava (exclusivamente por efeito do sangue, mas isso é apenas um detalhe). Ela ficou no sofá chorando, e me aproximei, mordi meu pulso e pus na boca dela. Ela bebeu meu sangue, agora pela terceira vez, de forma que o laço de sangue estava completo.

— Te puni porque não podia deixar você rir da minha cara. Não faça isso de novo e não voltarei a agredi-la. – disse eu.

Ela concordou, e levantou do sofá, ainda chorando. Fiquei com dó dela, e diminui o que ela estava sentindo. Ela parou de chorar, e enxugou as lagrimas. Pronto, era como se nada tivesse acontecido, exceto pela marca em sua face. De repente seu celular tocou, e ela atendeu. Ela conversou por alguns instantes, e depois me disse:

— É do trabalho, acharam outro corpo marcado com um pentagrama.

Tive uma ideia distante, que não podia enxergar com clareza, e pedi o endereço desse terceiro homicídio. Me concentrei nos endereços dos três homicídios e usei os Olhos do Caos, então vi claramente um triangulo, que depois se transformava em um pentagrama. Era isso! Os assassinatos estavam sendo realizados na forma de um pentagrama. Falei para Karina, e ela correu para seu laptop, e abriu um site de localização, onde marcou os lugares dos assassinatos. Eles formavam um triangulo, mas com mais dois formariam um pentagrama. Os assassinatos podiam, portanto, serem impedidos, mas esse não era o trabalho de Karina.

— Já sei, você pode impedir os assassinatos. – disse Karina.

— Eu não. Não posso ajudar a ninguém a não ser que seja de meu interesse.

— Por que?

— Porque sigo uma trilha de sabedoria, é uma moral que substitui a humana.

— Então eu vou, e será de seu interesse ir também, para me proteger.

— É, por esse lado você tem razão.

— Então passe aqui amanhã à noite, logo que anoitecer, pois os assassinatos têm ocorrido cedo.

— Tudo bem, agora vou embora atrás do lança mísseis.

Saí do apartamento de Karina e entrei no meu possante. Saí andando pelas ruas e avenidas de São Paulo. Esse horário da noite as ruas ainda estavam bem movimentadas, e até mesmo engarrafadas em algumas vias principais. Mas para onde ia não teria problemas com trânsito, estava rumando para a favela mais próxima, onde iniciaria minha busca por um lança mísseis.

Chegando lá, deixei meu carro estacionado na entrada, e continuei a pé. Perguntei para um transeunte onde ficava a boca, e antes que ele pudesse mentir dizendo que não sabia, atenuei o receio que ele podia ter de compartilhar a informação, então ele contou que só precisava subir mais uns quinhentos metros em linha reta e entrar num bar a esquerda. Agradeci, e fui até lá. A favela era muito populosa, haviam várias pessoas na rua, e crianças brincando. Com toda a minha altura e minha aparência selvagem chamava a atenção das mulheres, que olhavam para mim com luxúria ou pelo menos atração. Em alguns momentos elas falavam entre si cobrindo a boca e rindo.

— Elas só estão te olhando porque acham sua capa de chuva ridícula, seu paspalho. – disse minha mãe.

Eu não respondi, pois sabia que não era verdade. Eu era um verdadeiro garanhão, apesar de que isso tinha pouco uso agora que estava morto.

Cheguei finalmente a um bar, que só poderia ser o que o que o transeunte tinha me informado. Não era um bar muito sofisticado, muito pelo contrário, era um bar do tipo mais miserável, com mesas de comercial de cerveja e salsicha em conserva sobre o balcão. Entrei e perguntei para o atendente:

— É aqui que vendem drogas?

Ele apontou para um homem sentado em uma mesa, com uma mochila ao lado. Não hesitei, como era de se esperar para um predador como eu, saquei meu revolver e apontei para a cara do cidadão. Ele nem teve tempo de reagir, e pegar a arma que certamente tinha oculta em baixo da camiseta.

— Fiquei bem quietinho se não quer morrer. Eu quero comprar um lança-misseis, e você vai me ajudar.

— Eu não vendo armas, só drogas mesmo, senhor.

— É claro, mas quero que você me apresente seu fornecedor de armas.

— Isso só com o chefe.

— Então me leve até seu chefe, gênio.

— Tudo bem.

Saímos caminhando pela favela, comigo atrás dele, o revólver encostado em suas costas, até um sobrado sem reboco, com vários furos de tiros visíveis na parte externa. Ele bateu na porta e um adolescente negro abriu a porta, segurando um fuzil de assalto ak-47. Esse certamente era o lugar certo para encontrar meu lança-misseis.

— O que você quer? – perguntou o adolescente.

Então o homem que tinha me trazido até ali tentou correr para dentro da casa, mas meus reflexos foram mais rápidos, e esburaquei suas costas com meu três-oitão. O homem caiu no chão, e o adolescente mirou seu fuzil de assalto para mim. Antes que ele pudesse atirar, segurei a arma com a mão esquerda e virei ela em outra direção. Com sua arma inutilizada ele foi um alvo fácil para meu revolver, que usei para atirar em seu estômago. Entrei pela porta para dentro da sala do imóvel, e me deparei com dois outros jovens armados com fuzis de assalto. Eles dispararam rajadas de tiros em mim, e eu me joguei no chão. Não resistira a muitos outros tiros com aqueles fuzis poderosos, então preferi me fazer de morto. Fui curando meus ferimentos na surdina, enquanto um deles mediu minha pulsação, e me declarou morto. Logo ouvi os passos e a voz de outro homem, que veio do andar superior:

— O que aconteceu?

— Esse cara apareceu aqui, atirou no Fabrício e no Bruno, e nós o matamos.

— Tudo bem, enterrem todos no matagal.

— Tudo bem.

Os dois adolescentes agarraram o jovem morto e o levaram para fora. Assim que eles saíram me levantei, e dei de cara com o homem que tinha descido para ver o que tinha acontecido. Apontei para ele meu revolver e disse:

— Parado aí. Me entregue sua arma lentamente. Sem movimentos bruscos.

Ele pegou sua arma pelo cabo com as pontas dos dedos e me entregou. Então eu disse que queria conversar com ele em particular, para não ser incomodado pelos capangas quando eles voltassem. Ele me levou até um escritório no andar superior.

— Como você está vivo, não foi baleado?

Procurei os orifícios de tiro na minha camiseta, e ao encontra-las mostrei as para o homem. Felizmente minha capa protetora estava intacta. Então disse:

— Pois é, tenho um metabolismo rápido. O negócio é o seguinte: quero comprar uma lança-misseis. Preciso que você me apresente ao seu fornecedor de armas.

— Tudo bem, não precisa ficar nervoso. Vou ligar para ele.

Ele abriu uma agenda em péssimo estado, toda rabiscada, e leu lá o número do fornecedor. Então ligou para ele, e usei auspícios para poder ouvir o que a pessoa do outro lado da linha dizia.

— Alô, César? Aqui é o Denílson. Tem um cara aqui dizendo que quer comprar um lança mísseis, você tem para arranjar?

— Pagando bem eu posso conseguir.

— Quanto custa?

— Posso fazer por cem mil reais. – Puta merda, cem mil reais? Seria complicado arrumar esse dinheiro.

— Tudo bem, vou falar para ele. – e desligou o telefone.

Antes que ele pudesse me contar o que tinha conversado no telefone, disse que não precisava, pois tinha ouvido tudo. Ele provavelmente não entendeu como isso era possível, pela sua cara de espanto, mas não falou nada.

— Preciso conseguir os cem mil reais para comprar o lança misseis, e quero que você me ajude. Você precisa de um mercenário? Posso matar qualquer pessoa que você quiser, por um pagamento justo.

— Não preciso matar ninguém, mas talvez possa ajudar. Deixe-me fazer um telefonema à sós.

Saí do escritório, e fiquei no corredor ouvindo a conversa no interior da sala.

— Alô, Melissa? É o Denílson. Tem um cara aqui se oferecendo para trabalhar como mercenário. Talvez interesse a você. Ele se levantou depois de ser baleado por duas ak-47, só pode ser do seu tipo.

—... – não conseguia ouvir o que o interlocutor dizia através da porta.

— Tudo bem, vou falar para ele.

Denílson abriu a porta, e entrei, quando de repente vi encostado na parede um monstro horrível, marrom, coberto de pelos, com garras compridas como de um tamanduá e grandes olhos assustadores. Segurei no encosto da cadeira para não cair com o susto, e comecei a tremer. Que bicho horrível era aquele, e como ele tinha vindo parar ali? Não era a primeira vez que via um monstro parado num canto de uma sala, e até hoje eles nunca tinham representando qualquer perigo, mas mesmo assim eles sempre me aterrorizavam. Tentei ignorar sua presença, e conversar normalmente com Denílson, esperando que ele logo sumisse.

— Falei com minha chefe, e ela concordou em vir até aqui conversar com você.

Fui esperar na sala, sentado no sofá, assistindo televisão. Logo os adolescentes que tinham ido enterrar os corpos voltaram, e ficaram assustadíssimos ao não me ver onde tinham me deixado. Então pegaram na mão seus fuzis de assalto, e os apontaram para mim.

— O que foi, tem alguma coisa errada? – perguntei. – não se preocupem, já conversei com o chefe de vocês, não precisamos mais nos matar.

Eles não pareciam acreditar muito no que eu estava dizendo, então sugeri que conversassem com ele pessoalmente. Eles o fizeram, e depois que voltaram foram levar o outro corpo para enterrá-lo. Fiquei sentado tranquilamente, com os pés sobre a mesinha de centro, até que tocaram a campainha. Denilson foi atender, e entrou acompanhado de uma bonita mulher negra, com rastafári, usando um vestido vermelho. Denilson a levou até mim, e nos apresentou, ela se chamava Melissa. Então saiu para que conversássemos a sós.

— Então você está procurando emprego como mercenário?

— Estou.

— O que te levou a procurar um emprego desses?

— Preciso comprar um lança-mísseis.

— Hahahaha, um lança-misseis.

Fiquei tentado a lhe dar um tapa, como tinha feito com Karina, mas imaginei que aquela não seria uma boa ideia. Em resposta minha mãe me chamou de bundão.

Tinha notado usando auspícios que ela não respirava, então fui direto.

— Preciso de um para matar o príncipe.

— Matar o príncipe? Você é do Sabá?

— Sou.

— Por que ao invés de tentar matar o príncipe você não se junta a nós? Faço parte de um círculo, e estamos trabalhando para dominar a cidade gradativamente. É uma estratégia mais prática do que tentar matar o príncipe, afinal ele pode ser substituído.

— Meu caminho já está decidido, vou matar o príncipe e diablerizá-lo, e nada vai me impedir. Mas para isso preciso de um lança mísseis. Então estou disposto a trabalhar para juntar dinheiro e comprá-lo. Depois que concretizar meu objetivo, posso me aliar a vocês.

— Tudo bem, estou pensando em comprar o lança-mísseis para você. Afinal a morte do príncipe nos seria útil. Mas preciso conversar com meu grupo sobre isso primeiro. Me passe seu telefone que eu te ligo depois de falar com eles.

Nos despedimos e fui para o hotel miserável. Aparentemente o corpo da moça que matei ainda não tinha sido descoberto, ou já tinha sido descoberto, a perícia já tinha vindo e ido embora. Não poderia perguntar para a recepcionista porque se ainda não tivesse sido descoberta me denunciaria. Passei o dia lá, dormindo pesadamente, mesmo com os percevejos bebendo meu sangue.

No dia seguinte acordei deprimido, como nos dias anteriores. Fiquei pensando na cama, e me lembrei que quando tinha sido abordado pela polícia há dois dias, tinha falado para eles que eu era vampiro. Não lembrava exatamente porque tinha dito isso, e não fazia muito sentido, mas me lembrava disso. Além disso, tinha dito que era amigo de Karina. Isso poderia prejudica-la, além de ser obviamente uma quebra da máscara, que podia levar o príncipe a me caçar, se é que eu já não estava sendo procurado pela morte dos dois vampiros na cracolândia.

Estava acordando todo dia deprimido, a droga estava tendo um efeito deletério sobre mim, e precisava me livrar dela. Mas deixaria isso para outro dia, porque hoje tinha que impedir que Karina fosse morta pelos homicidas satânicos. Então fui rapidamente até a outra porta vizinha, e forcei a pessoa que estava lá a usar crack, e então bebi todo seu sangue, como tinha feito no dia anterior. Então subi no meu carrão e fui até a casa de Karina. Ela estava pronta pra sair, vestindo calças jeans e uma camiseta preta, e um colete balístico por cima. Sua arma estava presa em sua cintura, ostensivamente.

— Eu avisei a polícia, eles vão estar lá de campana.

— Bom, eles vão dar conta de tudo. Não precisamos ir.

— Mas eu quero ir.

— Tem certeza?

— Sim.

— Então vamos.

— Vamos no meu carro ou no seu?

Não era particularmente envergonhado de meu carro, apesar de reconhecer sua baixa qualidade. Mas ele servia bem para o que se propunha.

— Você que sabe.

— Vamos no meu então.

Saímos do prédio, entramos no carro dela e fomos até o endereço que correspondia a uma das pontas do pentagrama. Tratava-se de uma casa pequena um bairro de classe baixa. Haviam outros dois carros com ocupantes estacionados na rua, provavelmente os policiais disfarçados. Haviam duas pontas ainda, então tínhamos cinquenta por cento de chance de acertar, mas tivemos sorte (ou azar, pelo menos para os policiais) e acertamos de primeira. Esperamos no carro na frente da casa que seria o próximo alvo, e logo dois carros chegaram. Um grupo de seis homens pálidos saíram de dentro deles, usando sobretudos e pentagramas pendurados no pescoço. Só podiam ser os assassinos satânicos. Agora entendia o que significava o dragão com seis cabeças. Eles foram até o portão da casa, e arrombaram o cadeado usando ferramentas especializadas. Então entraram.

— Vamos lá? – disse Karina.

— Vamos.

Saímos do carro, e os ocupantes dos dois outros fizeram o mesmo. Eles usavam também coletes, por cima de roupas comuns, e tinham armas em punho.

— Fiquem aqui fora, podem deixar com a gente. – disseram eles.

— Por mim tudo bem. – disse eu. – Karina, vamos ficar aqui.

— Não, eu quero entrar.

— Aff, vamos então.

Lembrei então que há alguns dias tinha diminuído o medo de Karina, e ela certamente ainda estava sob efeito da minha disciplina. No entanto, não havia nada que eu pudesse fazer, porque com a disciplina só podia alterar os sentimentos que já estivessem presentes, e o medo tinha sido eliminado.

Os policiais entraram na casa na frente, e os seguimos. Saquei minha faca e aumentei meus atributos com sangue, me preparando para o que ocorreria a seguir. Os satanistas tinham entrado na sala, e estavam lá, segurando um homem, e prontos para cortar sua garganta com uma adaga. Então os policiais gritaram:

— Parado, polícia!

Subitamente os homens, que pude supor se tratarem de vampiros, começaram a lançar chamas na direção dos policiais, e esses começaram a atirar. Logo percebi que nós não teríamos chance contra seis vampiros, então puxei Karina, que queria também atirar neles, e a levei para a frente da casa.

— Vamos embora!

— Não, quero prender eles!

— Eles vão nos matar. – peguei ela pelo braço e a puxei para o carro. Sua resistência era mínima em comparação com minha força. Joguei ela dentro do porta-malas e o fechei. Ela ficou batendo lá dentro, mas mesmo assim fui embora para o apartamento dela. Nem me importei com os outros policiais, que certamente tinham encontrado a morte. O que me deixou intrigado foi o clã daqueles vampiros. Sabia que Tremere podem lançar chamas, mas eles não são satânicos. Com certeza iam ser necessários muito mais policiais para prender aqueles vampiros.

Quando cheguei no prédio de Karina, abri o porta-malas e a tirei de lá. Ela estava furiosa por eu não ter a deixado se matar, mas a acalmei usando demência. Voltamos tranquilamente para o apartamento, e então falei para Karina:

— Sabe, acho que não é uma boa ideia nós dois sermos vistos juntos. Eu sou um assassino e você é uma perita.

— Você é um assassino?

— Sim, você não sabia que tinha matado aquelas duas pessoas no posto de gasolina? E eles não são os únicos. Além disso, alguns dias atrás fui abordado pela polícia enquanto estava doidão com pedra, e disse que eu era um vampiro, e que te conhecia. Isso pode te causar problemas.

— Você disse que era um vampiro? Mas eles com certeza não acreditaram.

Pesei bem no assunto, e então lembrei que tinha demonstrado minha força sobrenatural para os policiais, levantando o carro. Disse isso para Karina, e ela disse:

— Por que você faria uma coisa dessas?

— Não sei porque, mas foi o que fiz.

— Não importa, não vamos ter problemas com isso. – disse Karina, ela estava ainda sob efeito da minha disciplina, e não podia sentir medo. Isso explicava sua reação.

Ela ligou a televisão, e então me lembrei que na noite anterior, enquanto assistia televisão na casa dos traficantes, o apresentador tinha me dito que eu não tinha futuro, e que seria melhor me matar. Como seria possível o homem da televisão falar comigo diretamente dessa forma? Não sabia, mas lembrava disso.

Então Melissa me telefonou, e atendi.

— Alô, Murilo?

— Sim.

— Conversei com meus companheiros, e eles concordaram em comprar o lança mísseis para você matar o príncipe.

Fiquei eufórico com essa notícia, mesmo sem usar crack. Finalmente poderia realizar meu objetivo.

— Já falamos com o vendedor e efetuamos o pagamento. Ele será entregue na sua casa amanhã à noite. Você precisa me passar seu endereço.

Passei o endereço de Karina, emocionado pela perspectiva de receber o armamento que tanto esperava.

— Muito obrigado, vocês não vão se arrepender. O entregador vai saber me explicar como usar?

— Vai.

— Tudo bom.

— Era só isso mesmo. Boa sorte.

— Obrigado.

Desliguei o telefone, e relaxei no sofá. Logo teria tudo o que precisava para matar o príncipe.

— Murilo?

— Sim, mestre.

— Você precisa fazer crias para te ajudar a matar o príncipe.

— É mesmo, não tinha pensado nisso.

— Com quem você está falando? – perguntou Karina.

— Com meu mestre. Preciso fazer algo agora.

— O que?

— Vou fazer novos vampiros para me ajudar a matar o príncipe.

— Por que você não me transforma?

— Não, você é mais útil para mim como uma mortal. Esqueça isso.

— Ah...

Saí do apartamento de Karina e fui no meu carro até a cracolândia. Comprei mais cem reais de crack do traficante e fui escolhendo os drogados mais fortes e atléticos que conseguia achar, e os chamando para vir comigo usar drogas. Logo os reuni num quarto de hotel das redondezas, e peguei um balde emprestado. O quarto ficou lotado, mas couberam todos. Então expliquei para eles que era um vampiro, e que tinha escolhido eles para se tornarem vampiros também. A princípio eles não me levaram a sério, só estavam interessados nas drogas que eu tinha. Distribui parte das drogas, então disse que ia começar, mordi um deles na jugular, e usei o balde para coletar seu sangue. Os outros ficaram espantados com o que eu estava fazendo, e tentaram sair, mas eu me posicionei na frente da porta e mostrei meu revolver. Assim que o sangue do homem tinha se esgotado, lhe dei um pouco de meu sangue, e passei para o próximo. Depois, conforme eles iam acordando eu ia mandando que bebessem do sangue no balde. Eu mesmo também bebi um pouco, aproveitando que tinha crack misturado. O efeito foi fraco, mas deu para sentir um pouco de barato.

Logo todos tinham sido convertidos em vampiros, então expliquei para eles que eles o básico da vida vampírica, o Sabá e a Camarila, e os clãs. Expliquei para eles que iriam me ajudar a matar o príncipe. Provavelmente foi muita informação para os cérebros corroídos pelo crack. Mas era indiferente, a maioria deles não viveria mais que um dia. Precisava que eles obtivessem armas, então mandei que eles invadissem casas e roubassem as maiores facas que conseguissem, e depois se reunissem na cracolândia. Esperei lá por umas três horas, sentado entre os drogados, até que todos voltassem, agora armados com facas de tamanhos e modelos diversos. Disse que eles podiam fazer o que quisessem, mas que ficassem próximos a cracolândia, para que no dia seguinte eu viesse buscá-los. Disse que eles poderiam beber sangue dos drogados, e que quando o sol chegasse deveriam se reunir no quarto de hotel para passar o dia.

— Murilo, você precisa de dinheiro. Vá assaltar alguma loja. – disse meu mestre.

— Tudo bem. – disse eu, e fui assaltar uma farmácia 24h. Novamente não deixei testemunhas, matei até mesma a velinha que tinha ido lá comprar fraudas geriátricas, e que já não tinha muito mais o que viver, de qualquer forma.

Então fui para o apartamento de Karina, onde passei o dia, ansioso para no dia seguinte receber o lança mísseis.