A Caçada
5 A caçada
Acordei no outro dia mais uma vez deprimido, mas sabia que era apenas por efeito do crack, porque no fundo estava ansioso para receber o lança mísseis. E ele logo chegou. Umas sete e meia o interfone tocou, e Karina atendeu. Então ela disse que ia descer, e me avisou que era o lança mísseis que tinha chegado. Fomos até o portão, e recebemos uma caixa comprida e estreita. Pedi que o entregador subisse para mostrar como usá-lo, e ele o fez. Ele mostrou onde eu deveria apertar, e como mirar usando a mira acoplada à arma. Era tudo muito simples, não teria dificuldade.
— Precisamos ir até o local do próximo homicídio dos satanistas. – disse Karina.
— Você ainda não desistiu disso?
— É claro que não. Vamos lá, agora vão ter mais policiais.
— Você acha mesmo que eles vão atacar hoje sabendo que os policiais já estão por dentro de seus planos?
— Talvez sim, se eles estiverem fazendo um ritual em que não podem deixar de matar todos os dias.
— É. Bom, se você vai eu vou com você.
— Perfeito.
Fomos no carro de Karina até o local do próximo assassinato, conforme poderia ser previsto pelo desenho do pentagrama no mapa da cidade. Invés de haverem múltiplos carros da polícia esperando, havia apenas um, o que achei muito estranho. Karina foi conversar com eles, e depois voltou, dizendo que só estavam eles ali porque assim que os assassinos chegassem eles chamariam reforços, que estavam esperando não muito distante dali.
Esperamos uma hora, e já estava achando que eles não viriam mais, quando os dois carros dos assassinos viraram a esquina e pararam há alguns metros de distância da casa. Então eles desceram do carro armados com fuzis de assalto, e começaram a atirar em direção a nosso carro e o carro dos policiais.
— Fuja! – disse eu. Então Karina deu partida e saiu com o carro. Os policiais fizeram o mesmo, deixando a casa livre para a ação dos vampiros. Mas os policiais tinham chamado reforços, e eles logo chegariam. Esperamos algum tempo no carro, então Karina disse:
— Vamos voltar lá.
— Desencana.
— Não, eu vou voltar.
Karina voltou com o carro, e lá nos deparamos com cinco carros da polícia militar, e dezenas de soldados armados. Eles estavam do lado de fora, escondidos atrás dos carros, esperando que os assassinos saíssem.
— Não tem ninguém na casa, os policiais tiraram os moradores. – disse Karina.
— Tanto faz. – disse eu. Essas mortes não significariam nada para mim e para minha jornada pelo poder.
Karina saiu do carro e abriu a porta, atrás de qual ficou com sua arma em punho. Os assassinos não tinham como sair, mas os policiais também não tinham como invadir a casa, de forma que suspeitava que aquela situação ainda levaria horas. Entretanto, algo aconteceu que mudou (e encurtou) o destino dos assassinos satânicos.
Um carro chegou no local, dirigido apenas por um homem forte de terno. Ele desceu do carro e abriu a porta do passageiro, como se para permitir que alguém saísse de lá. Alguns minutos se passaram, e ouvimos gritos vindo de dentro da casa. Depois os gritos cessaram, e o homem de terno voltou a abrir a porta do carro, e então foi embora.
Mais alguns minutos depois, os policiais invadiram a casa, e nenhum tiro foi disparado. Passamos alguns minutos sem saber o que estava acontecendo, então Karina foi até um dos policiais que tinha saído da casa para perguntar o que tinha acontecido. Ela depois me falou que eles tinham entrado e encontrado os seis assassinos esquartejados misteriosamente.
Estávamos prontos para partir, quando uma desventura ocorreu. Reparei que um dos policiais tinha me encarado fixamente, e achei que fosse simplesmente por eu ser um homem imponente. Entretanto ele foi falar com outros policiais, e apontou para mim. Então outros policiais me olharam, e finalmente eles se aproximaram, e sacaram suas armas.
— Parado aí.
— Nem a pau! – me ofusquei e corri para o carro de Karina. Dei partida nele e fui embora, deixando Karina na companhia dos policiais. Eles lhe dariam uma carona, mas ela com certeza ia ter problemas para explicar o que estava fazendo com um assassino procurado. Fui de carro até o prédio de Karina, entreguei a chave do carro dela para o porteiro, e saí no meu carro.
Fui até a cracolândia, procurar os vampiros que tinha criado. Tive um pouco de dificuldade de encontrá-los, pois estavam entre os outros usuários de drogas, e não lembrava bem de suas fisionomias, mas por fim conheci reunir todos, com a ajuda daqueles que ia encontrando.
— Vocês já se alimentaram hoje?
Alguns disseram que sim, e outros que não. Pedi que os que ainda não tinham se alimentado o fizessem, e eles atraíram outros usuários para locais menos movimentados e beberam seu sangue. Ainda não tinha usado crack naquele dia, e aproveitei para atrair um dos usuários com o crack que tinha comprado até um hotel, e lá bebi todo seu sangue, depois de ele ter se esbaldado com as minhas drogas. Fiquei eufórico, mas não tanto quanto tinha ficado nos dias anteriores. Talvez já estivesse ficando resistente a droga, e logo teria que aumentar a dose para ter a mesma sensação. Isso era um sinal de que estava me viciando, e decidi parar de usar crack imediatamente (ou assim que acabasse com a droga que já tinha, não podia desperdiçar, né?).
Me reuni com os neófitos, e pedi que me seguissem, levando as armas que tinha conseguido no dia anterior. Então fomos de ônibus até próximo da rota que o príncipe tinha usado para ir para casa no dia em que o segui. Nós certamente formávamos um grupo ameaçador no ônibus, e as pessoas preferiam ficar em pé a sentar com um de nós. Principalmente pois os neófitos usavam roupas esfarrapadas, e levavam facas nem sempre bem ocultas. Andamos até a rota do príncipe, e então disse:
— Vocês precisam se esconder em algum lugar por aqui. Vamos invadir uma casa e vocês entram nela.
Fomos até a casa mais próxima, que era relativamente grande e tinha um belo design, com alguns coqueiros na frente. Pulamos todos juntos o portão da casa, e eu usei sangue para aumentar minha força e arrombei a porta da frente. Então os neófitos entraram todos na casa, esfaquearam todos que encontraram e beberam seu sangue. Eu apenas estalava meus dedos, satisfeito com as crias que tinha feito. Eles certamente tinham saído da fábrica já com níveis baixíssimos de humanidade, pois fariam qualquer coisa por um pouco de pedra. Se alguns deles sobrevivessem poderia me oferecer para guiá-los na Trilha do Poder e da Voz Interior. Me perguntava se apresentariam loucuras, como era comum entre os vampiros do meu clã, ou se seriam sãos como eu. Mas o sangue deles provavelmente era fraco demais para ter fraquezas de clã.
Deixei eles na casa e fui para a casa de Karina, buscar o lança mísseis. Ela já tinha chegado, e me falou sobre as dificuldades que tinha passado por minha causa. Eu estava sendo procurado pois tinha sido feito um retrato falado meu, a partir do frentista do posto de gasolina que tinha assaltado. Então os policiais tinham me reconhecido. Ela foi levada para prestar depoimento, e disse que não era minha conhecida, apenas tinha me dado uma carona. O delegado acreditou nela, pois ela não mostrava nenhum sinal de que estava mentido, certamente por eu ter eliminado seu medo. O problema tinha sido menor do que eu imaginava, mas e se os policiais que tinham me abordado viessem a comunicar o que tinha falado para eles, será que a situação mudaria de aspecto?
Mas agora tinha outras coisas em que pensar. Ainda nessa noite levaria a cabo meu plano de diablerizar o príncipe. Ele provavelmente estava nesse momento sentado tranquilamente em sua cadeira macia no Elísio, pensando em que delícias experimentaria no dia seguinte, sem nem imaginar que havia um míssil com seu nome escrito em um lugar distante daquela grande cidade.
Guardei o lança-misseis na caixa, abaixei o banco dos passageiros do carro, e o pus sobre ele. Parti então para o local em que meus companheiros neófitos me esperavam, ansiosos para sentir o gosto do sangue do ancião. Realmente, uma oportunidade única para vampiros recém-criados, pela qual valeria a pena pagar com a vida, como provavelmente seria o caso para muitos deles.
Entrei na casa onde os neófitos estavam ocultos, e me sentei no sofá (um dos neófitos me deu o lugar). Alguns momentos depois me lembrei de uma coisa, precisava encontrar a chave do portão, para deixa-lo aberto para que os neófitos saíssem com facilidade. Procurei na casa e encontrei o controle do portão automático para carros. Aquilo seria perfeito, quando chegasse mais próximo da hora do príncipe passar deixaria o portão aberto, e então em segundos os neófitos estariam na rua, prontos para lutar. Voltei para o sofá e fiquei lá assistindo televisão, mal conseguindo segurar minha ansiedade. Fiquei lá até as quatro e meia, quando decidi que já estava tarde o suficiente, então falei para que os neófitos saíssem para a rua prontos para matar quando ouvissem uma explosão, usando sangue para aumentar seus atributos físicos o máximo possível. Deixei o portão aberto, fui para fora e fiquei lá segurando o lança mísseis, pronto para atirar a qualquer momento. Esperava que a polícia não passasse por ali antes, e me visse armado dessa forma.
Perto das cinco horas, o carro do príncipe se aproximou, recheado de brutamontes, além do príncipe, que ia sentado no meio no banco de trás. Usei sangue para amplificar minha destreza, mirei com a mira telescópica bem na testa do príncipe, e acionei o gatilho. O míssil foi lançando, liberando fogo e fumaça por sua traseira, atingiu o carro e uma grande explosão se ouviu. O carro se elevou a metros de altura, e então caiu em chamas. Larguei o lança misseis no chão, saquei minha faca e comecei a aumentar minha força e meu vigor com sangue. Os neófitos imediatamente vieram correndo, e de dentro do carro saíram cinco homens em chamas. Um deles subitamente desapareceu, enquanto os outros correram em direção aos neófitos, desembainhando espadas. Os neófitos não eram inimigos dignos para aqueles brutamontes, que desferiam múltiplos golpes enquanto os neófitos mal podiam se defender. Entretanto, os brutamontes estavam em chamas, o que concedia uma vantagem substancial para os neófitos. O príncipe, por sua vez, não tentou lutar, apenas correu para longe, numa velocidade desapontadora em comparação com seus seguranças. Entretanto, apesar de em chamas, ele era o que parecia menos ferido. Corri atrás dele e estava prestes a alcança-lo, quando ele subitamente aumentou de velocidade, mas não o suficiente para evitar a facada que desferi em suas costas. O couro do príncipe era certamente mais grosso do que aparentava, minha faca não chegou a atingir nenhum órgão. Ele parou de correr e virou para trás. Então deu um soco em meu rosto, mas consegui desviar nos últimos milésimos de segundo, graças a minha destreza elevada. Precisava manter a calma, ele podia ser mais forte e rápido, mas eu tinha a vantagem de estar armado e de ele estar em chamas. Esfaqueei-o no abdome mas ele desviou, encolhendo a barriga, então ele me deu um soco no rosto, que acertou de raspão, mas pude sentir o impacto de sua força monstruosa. Então fingi que ia esfaqueá-lo no rosto, para que quando ele recuasse colocasse a perna para ele tropeçar, e funcionou. Ele se estatelou no chão. Eu me aproximei e aproveitei que ele estava momentaneamente atordoado e o chutei na cabeça, com toda a força. Ele tentou abraçar minhas pernas para me derrubar, mas o cortei superficialmente no braço, pois era o máximo que conseguia com sua pele anormalmente resistente, e ele me soltou. Ele aproveitou que estava caído e saiu rolando no chão, tentando apagar seu fogo. Eu fui atrás dele, o chutando, mas ele mal parecia sentir. Então seu fogo apagou, e ele se prepara para levantar, de quatro no chão, quando eu me joguei nas costas dele, o mordi no pescoço e comecei a sugar seu sangue. Conforme sugava ia gastando sangue para aumentar minha força, e para liberar espaço, mas minha força parecia não superar um certo limite. Finalmente o sangue acabou, e então a verdadeira luta começou. Continuei sugando, objetivando sua alma, mas essa não se liberava do corpo facilmente. Vários minutos se passaram, até que finalmente consegui, e senti uma sensação parecida com orgasmos, mais muito mais forte. Mais forte até mesmo que o que tinha sentido quando usara crack pela primeira vez.
Levantei e olhei em volta. Os neófitos, ou mais provavelmente o fogo, tinham conseguido matar os seguranças. Eles se encontravam caídos no chão, carbonizados. Apenas um dos neófitos estava de pé, mas seriamente ferido – ele tinha uma espada cravada no tórax. Os outros se encontravam caídos no chão, mutilados, muitos provavelmente em torpor invés de mortos. Mas não me preocuparia com esses, deixaria que eles tomassem um bronzeado, pois agora que meu objetivo tinha sido concluído não precisava mais deles. Puxei a espada do tórax do sobrevivente e disse:
— Parabéns, você lutou muito bem, ou teve muita sorte. Você pode se curar com sangue. Agora vou roubar esses cadáveres.
Fui abrindo as carteiras dos cadáveres, e pegando o dinheiro que encontrava. Depois fui com o neófito até meu hotel e aluguei um quarto para ele.
No dia seguinte, testei minhas novas capacidades graças a redução da minha geração. A única diferença é que podia manter mais sangue no meu sistema. Essa vantagem certamente seria útil nas lutas que teria a frente, mas na verdade o efeito tinha sido menor do que eu esperava. Era só isso a diablerie, tão temida pelos anciões?
Continuei treinando o neófito, apesar de ele parecer não ter interesse pelas disciplinas que eu tinha para ensinar. Nos aliamos a Melissa e seu grupo, e os ajudamos lutando contra a Camarilla, mas isso fica para outra história, assim como as consequências do assassinato do príncipe.
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