A Caçada
1 Prólogo
O destino sempre exige um preço, ainda que seja cobrado décadas mais tarde e que seja um valor muito maior do que o esperado.
Quando papai desistiu da vida imortal e mudou-se para o mundo dos mortais, sua imortalidade lhe fora tirada, porém, não contente, o destino esperou por mais alguns anos para reivindicar sua parte nisso tudo.
Tudo começou mais ou menos um mês atrás, quando uma dor alucinante invadiu minhas costelas. Senti meu corpo queimar em chamas e arder como nunca antes. Acreditei que a morte se aproximava de mim, irremediavelmente, Gritei e chorei, mas não pela minha dor. Minha dor logo não existia mais. Chorei por ele, porque fora ele quem se ferira. Ele, que eu sequer conhecia.
Tudo o que eu murmurava era que ele morreria, que ele precisava de ajuda. Eu já não pertencia somente a mim: tudo, desde os meus atos até os meus pensamentos mais profundos, passaram a ser dele também.
Papai perguntou quem era ele, e eu não soube responder. Ainda assim,minha preocupação era genuína -tinha que ser.
Eu e minha irmã já sabíamos sobre a vida imortal de papai antes de conhecer mamãe. Sabíamos que ele era um elfo porque metade do nosso sangue pertencia àquele mundo tão distante. Tão distante que jamais imaginamos que nos abraçaria com suas garras terríveis e gentis.
Tão lolo pode, papai me arrastou para uma viagem ao sudoeste do estado, lugar onde vivi os primeiros nove anos da minha vida. É uma cidade pequena, sem indústrias, de modo há alta concentração de seres encantados na região, e por isso tivemos que nos mudar. A parte irônica é que foi na cidade grande, cercada por ferro e aço, que eu oficialmente me envolvi no jogo do Outro Mundo.
A questão é que aqui, nessa cidade pequena, há Neena, uma mestiça que é vidente e curandeira. Neena é quase que da família, já que protegeu a mim e a minha irmã mais velha, Kiera, por longos anos. Ela servia como uma espécie de babá, porém, tornou-se uma terceira avó; é algo lógico pedir por sua ajuda.
Neena mora em uma cabana no bosque atrás da casa onde morei, e que agora estou apenas hospedada. Em seu sangue, podemos encontrar sangue mortal, elfo e, principalmente, dríade, por isso as árvores fazem bem a ela.
A cabana de madeira e coberta por musgo é familiar o suficiente para que eu corra até lá sem qualquer hesitação sobre o caminho ou sobre a minha segurança; Neena me protegeria com a própria vida, da mesma forma que eu o faria por ela.
Quando vejo sua pele pálida e semelhante a uma casca de árvore, os cabelos louros e os olhos azuis, não me contenho e a abraço apertado. Minha garganta queima com lágrimas não derramadas quando ela me abraça de volta e murmura contra meus cabelos:
- Zara, minha menina — sinto ela sorrir. — Andei Vendo você nos últimos dias, e achei mesmo que fossem vir em busca de informação. Como foi a viagem até aqui?
- Cansativa. Papai não quis parar nem uma única vez durante as quatro horas dentro do carro — lanço um olhar irritadiço a papai, um pouco atrás de mim.
- Vamos, vamos. — Neena me solta e arregala os olhos com seu jeito característico enquanto olha ao redor da cabana, certificando-se de que não há ninguém por perto. — Entrem.Temos muito o que conversar.
Antes de qualquer coisa, Neena nos serve um pouco de café. Sentamo-nos à mesa de jantar e meu pai inicia a conversa que eu preferiria adiar o quanto possível:
- Você Viu algo? — ele pergunta. — Já sabe o que está acontecendo?
- Provavelmente. — ela assente. — A alma de Zara foi costurada à de um elfo.
- Achei mesmo que tinha sido algo assim — meu pai esfrega os olhos verdes e cansados. — E creio que seja uma punição a mim por não ter arcado com meu destino imortal.
- Bom, disso temos certeza — Neena, apesar de tudo, condena papai por ter sido inconsequente quando desistiu da própria imortalidade.
- Há algo... — bebo o resto do meu café e sirvo-me de um pouco mais. — Há algo que possamos fazer para acabar de vez com isso?
- Protegê-la, criança — Neena toca minha mão de modo carinhoso.
- Proteger-me dele?
Ele seria capaz de fazer mal a mim?
- A princípio, não — Neena comprime os lábios enrugados. — Ele tem inimigos, Zara.
- Você sabe quem ele é? — engasgo.
Em seguida, repreendo-me pela minha afobação. Pareci uma alcoólatra desesperada por mais uma gota de álcool. Ao menos, papai e Neena entendem a situação: minha alma fora unida à dele, então é normal que eu queira saber mais sobre ele.
- Sei, querida. É Gwyn, líder da Caçada Selvagem — anuncia ela. — Oh, não. Não se assuste. Acalme-se. Não acho que ele realmente faria mal a você, meu bem. Pense que, se fizer algo ruim para você, também estará fazendo a si mesmo.
- Ele é líder da Caçada Selvagem? — franzo a testa. — Tem como ficar mais estranho?
- Sabe o que é a Caçada, Zara? — papai quase parece orgulhoso por eu saber disso, ainda que não esteja surpreso: mitologia sempre foi algo de meu interesse.
- É um grupo de espectros que... bem, são considerados um sinal de má sorte — respondo.
- Eles não são espectros, Zara — finalmente, papai demonstra algum sinal de preocupação ao franzir a testa.
- A parte boa é que não vou precisar lidar com fantasmas — dou de ombros e sorrio.
- Na verdade, alguns deles perambulam pelo acampamento — responde uma voz desconhecida e estranhamente familiar.
Ele.
Ouço o arquejo de Neena e a vejo rezar baixinho. Sorrio, lembrando das diversas vezes que vi essa cena na minha infância.
E então, finalmente o encaro, com seu porte nobre e desdenhoso, alto e de músculos longos e esguios, semelhante a uma pantera. Seus cabelos negros bagunçados contrastam com a pele clara como mármore e com os olhos em uma tonalidade de gris de payne, com reflexos prateados. Olhos tão profundos e sombrios quanto o próprio oceano, os olhos mais bonitos que eu já vi. Na verdade, ele todo facilmente entraria na lista dos homens mais bonitos que já vi. Nunca decidi qual ocupa o 1° lugar, mas posso dizer que Gwyn tem elevadas chances.
Vejo que sua mão pende sobre a espada embainhada e me reteso. Ele deve sentir minha onda de medo, pois vira seus olhos na minha direção e começa a me observar da mesma forma que fiz com ele.
Não conheço realmente Gwyn, mas já somos opostos, mesmo na aparência. Não sou alta e estou longe de possuir um corpo atlético, não sou ameaçadora e meus cabelos com cor próxima ao mel caem até meus quadris, muito largos para meu gosto. Meus olhos são de uma tonalidade bem clara de castanho, com estrias verdes quase invisíveis nas extremidades. E, devido ao meu nariz pequeno e empinado, às minhas bochechas salientes e à covinha no meu queixo, pareço mais nova do que realmente sou. Neena até jura que pareço meiga e angelical, quando não estou em um dia ruim.
Há alguns anos, finalmente deixei um pouco de lado minha insegurança e passei a ver meu reflexo no espelho como algo bonito. Parte de mim realmente quer saber o que Gwyn achou, já que ele não demonstrou reação alguma, porém, a maior parte de mim diz que não estou aqui para agradá-lo -e eu acredito nela.
Agora, o olhar do elfo decai sobre meu pai.
- É quase curioso que esteja vivo — as palavras soam frias. — Achei que criaturas fossem mais cruéis com Renegados.
Renegados são mortais que um dia foram imortais, e que foram transformados pelo destino como forma de punição. Foi a punição do meu progenitor por ter traído a Corte do Verão e se casado com uma mortal. Eu, particularmente, acho que ele fez certo, assim como muitos outros Renegados a quem o destino puniu pelos mais variados motivos.
- O que faz aqui? — pergunto, antes que papai responda.
- Vim buscá-la. Estará mais segura com a Caçada protegendo você.
Aperto a xícara de café e trinco o maxilar.
- Não preciso ser protegida. Posso cuidar de mim mesma.
- Semi mortais são valiosos, especialmente você, que está ligada a mim. Logo, virão atrás de você e de sua família — reponde desdenhosamente.
- Ele está certo, meu bem — Neena acaricia meus cabelos, mas, pelo olhar vago em seu rosto, sei que ela não vê o presente, e sim um possível futuro. — Você deve partir o quanto antes, Zara. Será melhor assim.
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