A Caçada
2 Capítulo 1
Como iremos entrar no Outro Mundo? — pergunto, andando com Gwyn para cada vez mais longe do meu pai e de Neena.
O bosque de trás de casa nunca me pareceu tão grande, sombrio e amedrontador.
— Há um portal que nos levará para um lugar próximo ao acampamento da Caçada — Gwyn não olha na minha direção.
— Está longe?
— Já cansada, mortal? — sua voz é desdenhosa.
— Não. — Fecho a cara.
Ouço o toque de pato familiar no meu telefone, que eu podia jurar que havia deixado em casa.
— Não deveria estar trazendo esse aparelho. Irá assustar outras criaturas.
— Eu nem sabia que tinha deixado na mochila — procuro-o entre minhas coisas. — Achei que tinha deixado em casa.
Finalmente localizo o celular, mas ele já não toca mais. Olho o nome de Rá na tela e sinto o coração disparar. Conheci Rá através de uma amiga, e a atração foi quase instantânea. Ele não faz exatamente o tipo de todas as meninas, com seus cabelos negros mais compridos que o dos outros garotos, a barba não tão rala e as vestes peculiares. É um hippie de temperamento calmo, que está no último ano do meu colégio, e acabou se tornando um amigo.
Eu realmente sei que deveria ignorar a chamada, porém, é Rá, o cara que estive a fim praticamente desde que o conheci. Além disso, papai disse que eu ficarei fora por alguns dias, sem tempo definido para minha volta; pode ser por uma semana ou todos os dias das férias de inverno.
Clico no nome dele e, imediatamente, começa a chamar. Gwyn me lança um olhar verdadeiramente irritado e continua a andar.
— Será uma ligação rápida, eu juro — prometo.
— Zara! — Rá atende rindo. — Caramba, eu já estava preocupado. Liguei umas quatro vezes.
— Oi, Rá — inconscientemente, sorrio. — Esqueci o celular na mochila, desculpa.
— Tudo bem. Preciso falar rápido, porque estou atrasado — ele ri; ambos estamos sempre atrasados para tudo. — Lembra-se daquela banda que estávamos conversando no último dia de aula? — Rá não espera pela minha resposta. — Descobri que eles vão fazer um show aqui na cidade, semana que vem. Acha que consegue ir?
— Não sei, na verdade. Viajei hoje de manhã e nem tenho ideia de quando volto — franzo a testa, decepcionada. — Se eu voltar a tempo, ligo para você. Tudo bem?
— Claro. Aproveite a viagem, aliás — alguém chama o nome dele ao longe. — Preciso ir agora.
— Certo. Beijo.
— Beijo, se cuida. — Ele desliga.
Guardo o celular novamente na mochila.
— A forma de passar o tempo no Outro Mundo é igual a como ele passa aqui, no mundo mortal?
— Depende da região, mas no geral, o tempo aqui é mais lento do que lá. — o elfo finalmente para de andar e me olha por sobre o ombro. — Chegamos.
Tudo o que difere este lugar do resto do bosque é o pequeno riacho que serpenteia por entre as árvores. Por incrível que pareça, é tão límpido quanto água mineral, sem os efeitos negativos causados pelo homem. Uma tábua velha liga uma margem à outra, servindo precariamente como ponte. Do outro lado, há apenas um campo comum.
— Já atravessei várias vezes para o outro lado, e nunca fui para o Outro Mundo — murmuro. — Tem certeza de que é mesmo aqui?
— Claro — um meio sorriso quase chega a se abrir em seus lábios. — Syl?
Uma mulher emerge. Os cabelos muito loiros e a pele bronzeada fazem-na parecer uma garota qualquer, contudo, são os pés de cabra que a caracterizam como uma glaistig. Ela sorri, mostrando os dentes pontudos, e nos olha com expectativa.
— Voltou rápido, Gwyn — a glaistig lambe os lábios com a língua púrpura e bifurcada. — Ainda assim, terão que pagar — Syl estende a mão escamosa na nossa direção.
Gwyn deposita duas moedas de ouro na palma da mão dela e espera pacientemente enquanto a paisagem começa a mudar completamente. Agora, vejo como as árvores ao nosso redor são realmente velhas e cobertas por musgo espanhol. Fitas coloridas se prendem em seus galhos e balançam como serpentes com a brisa leve que sopra. O riacho já não é mais algo raso; é um rio, furioso e violento, que corre entre dois penhascos, que antes eram as duas margens de terra vermelha. Ao invés da tábua velha, há uma majestosa ponte de madeira trançada, que se estende por longos metros até o outro lado.
Gwyn não está tão maravilhado quanto eu e logo começa a atravessar a ponte com uma graça sobrenatural e orgulho inabalável. Sigo-o com mais cuidado e lentamente, já que, por mais que o elfo de orelhas pontudas e beleza incrível tenha graça e agilidade, eu não tenho nada disso, o que me torna bem mais propensa a tropeçar e cair nas pedras pontiagudas que se lançam para fora da água lá embaixo.
Ao chegarmos no Outro Mundo, em um campo que se estende até um bosque antigo, olho para trás, onde deveria ser o mundo mortal, e só vejo uma espessa neblina que cobre tudo. Meu coração se aperta devido a isso: tenho problemas com a falta de saídas. Realmente me apavoro quando me encontro em um lugar onde não posso sair e fugir na hora que eu bem entender. Justamente por isso não entro mais em elevadores ou aviões. Mesmo estar em um barco me incomoda, especialmente quando este está em alto mar.
Não que Outro Mundo seja pequeno, mas e se eu precisar sair daqui? Certamente, portais não são tão comuns assim. E se eu nunca mais encontrar um portal que me leve até o mundo mortal?
Nesse instante, eu poderia ser tanto João quanto Maria, depois de se perderem na floresta. Na verdade, até me identifico com os dois irmãos que foram abandonados em uma floresta e perdem a trilha de migalhas de pão que deixaram.
— Você está pálida — Gwyn franze a testa. -, mais do que o normal. O que há?
Percebo que paramos de andar, e isso é um alívio para minhas pernas enfraquecidas e trêmulas. Minha respiração é acelerada e ouço meus batimentos acelerados dentro dos meus ouvidos.
— Zara. — O elfo me chama.
— Você saberia voltar aqui mais tarde? — questiono rapidamente, como se minha vida dependesse disso. — Tipo, sem hesitar? Conhece bem o caminho até aqui?
— Não entendo onde quer chegar com isso. Você não vai fugir...
— Não vou — interrompo-o. — Só... responda, por favor.
— É claro que sei.
A convicção dele me faz sorrir e abandonar, aos poucos, o medo e a tensão. Respiro fundo o ar perfumado com odor floral e abro um sorriso de desculpas.
— Tenho um pouco de problema com limitações espaciais e a falta de saídas disponíveis — explico e retomo a caminhada. — De vez em quando, talvez eu precise de uma confirmação de que realmente conhece as saídas.
Gwyn assente quando entramos no bosque. Aqui, as árvores também são enormes e cobertas por musgo espanhol, fazendo com que pareça um cenário de contos de fadas. A diferença é que eu e Gwyn estamos longe de ser a princesa e o príncipe encantado. Talvez ele seja o caçador e eu... bem, tomara que, no fim da minha estadia aqui, eu já tenha uma vaga noção de quem sou.
— Você pode mentir? — pergunto,quase sem perceber. Ainda assim, além de ser uma comprovação de que Gwyn conhece mesmo a saída, pode ser uma informação bem útil.
Gwyn me olha por sobre o ombro e a expressão divertida que exibe no belo rosto é capaz de fazer com que eu sinta borboletas no estômago.
— Ainda acha que eu não sei reencontrar o portal? — ele arqueia uma sobrancelha negra.
— Não exatamente... — percebo minha nova dificuldade para mentir. — É algo bom para eu saber.
— Seu pai não ensinou a você sobre o Outro Mundo?
— Ele preferiu deixar que eu aprendesse sozinha e por vontade própria — encolho os ombros. — O problema é que eu nunca sei qual informação é ou não verídica.
— Não, eu não posso mentir. — Responde. — E tenho aversão a ferro, antes que pergunte.
— Disso eu já sabia. Mudamo-nos para uma cidade cheia de aço porque lá existiriam menos criaturas para nos atormentar.
— Então foi assim que ele se manteve vivo por tanto tempo — Gwyn pondera.
— Qual o problema de criaturas com um ex-imortal? Ele nem representa tanto perigo assim, não para vocês — reviro os olhos.
— Seu pai foi um dos conselheiros do Rei da Corte do Verão, Jon — Gwyn ri sem qualquer humor. — As criaturas do Verão, que o consideram um traidor sujo, e também existem outras criaturas que o odeiam devido a antigas desavenças, além de outros tantos que acreditam que ele é um desonrado, já que negou a própria herança imortal.
Papai nunca havia me contado esse tipo de coisa. Gwyn me observa, esperando por alguma reação, por isso, não me abalo e apenas me mantenho impassível.
— Eu faria o que ele fez — dou de ombros.
— Desistiria da imortalidade por um caso passageiro com um mortal? — arqueia desdenhosamente uma sobrancelha. Seu desdém é tão frequente que até já me acostumei com ele.
— Sim. Primeiramente, acho que a imortalidade se torna monótona com extrema facilidade depois de algum tempo. E eu realmente não suporto o tédio e a monotonia — acaricio o tronco de uma árvore, depois de me certificar que não é uma dríade descansando. — E, também, eles se amavam; não era um caso passageiro.
— Em algum momento, entenderá que o amor não existe — responde, convicto. — Não passa de luxúria e amizade. É algo demasiadamente passageiro para existir.
— Viu? É isso o que a imortalidade causa nas pessoas — acelero o passo para ficar ao lado do elfo. — Vocês ficam cansados da vida, porém, apegados demais a ela para desistir.
— Ou adquirimos uma visão do mundo mais evoluída que vocês, meros mortais. — Rebate, frio como o gelo.
Sinto como o assunto lhe incomoda, e não somente pela volta dos olhares frios na minha direção. Sinto dentro de mim, como se ele fosse um personagem de um dos livros que leio e eu estivesse realmente me identificando com ele, de modo que compreendo seus atos e suas emoções mesmo sem a ajuda das palavras escritas pelo autor. Como se eu o conhecesse profundamente durante toda a minha vida.
Sinto tudo, exceto o motivo. Talvez ele o oculte de propósito ou nossa ligação ainda permita que possamos manter nossos segredos.
— De que adianta ter uma visão do mundo mais evoluída se ela o descolore e minimiza as coisas que nos fazem mais felizes?
— Vocês, aqueles como sangue do Verão, são todos iguais — e ele pragueja.
— Perdão? — não entendo.
— São frívolos, impulsivos e dificilmente estão em seu juízo perfeito — o desdém volta ao seu tom de voz.
— Certo — rio. -, vou usar isso como desculpa na próxima vez que eu ouvir um sermão de papai sobre alguma besteira que fiz por impulsividade — algo me vem à mente e eu torço o nariz. — A partir da sua declaração desdenhosa, imagino que você seja uma criatura do Inverno. Os outros membros da Caçada também são?
— Em sua maioria, mas não todos.
Isso me tranquiliza. Ao menos eu sei que não serei o único elemento de outra Corte. Mas acho que sou a única mestiça. Espero que eles não tenham problemas com mestiços.
A caminhada não dura mais do que duas horas, contudo, quando finalmente avisto a clareira em que fica o acampamento, já é noite.
Há algo invisível envolvendo o acampamento, como uma tremulação do ar ou ondas de vapor.
— O que é aquilo que rodeia todo o acampamento?
— Uma barreira protetora, para afastar saqueadores enquanto Caçamos.
— Posso estar errada, mas não acho que saquear a Caçada Selvagem seja uma boa ideia.
— Muitas criaturas buscam pelo caos, e sabem que o encontrarão conosco – Gwyn esboça um sorriso.
Quando passamos pela barreira, não há qualquer mudança perceptível, e, de dentro do acampamento, sequer parece algo está no envolvendo.
Fico maravilhada com o acampamento, que também parece ter saído de uma das histórias que li. Tudo é iluminado por tochas e lampiões, que acabam clareando tudo. De um lado, vejo alvos de arco e flecha e algo que é muito parecido com um campo de batalha. Do outro lado, uma enorme torre redonda feita com pedra negra e, um pouco mais além, estrebarias. Lobos circulam livremente, especialmente na área próxima ao bosque dentro do acampamento, que se une à floresta lá fora.
Não vejo qualquer outra criatura. Os lobos percebem nossa chegada e arreganham os dentes afiados enquanto se aproximam, rosnando alto.
Não sei se por medo ou instinto, mas não me movo. Não sei se consigo e certamente não tenho a ousadia para tentar, não em uma situação como essa.
— Vamos – Gwyn segura meu cotovelo. -, eles não vão atacá-la se eu estiver junto.
Quando entramos, a torre é bem iluminada por velas em castiçais e alguns lampiões em intervalos regulares. O longo corredor nos leva diretamente a uma sala de jantar, com uma imensa mesa e cerca de vinte homens sentados em cadeiras forradas com veludo escarlate. O odor denso de álcool e cigarro preenche todo o lugar, que estava barulhento antes de chegarmos. Agora, um silêncio tenso reside aqui, ao passo que todos nos encaram como se estivessem prestes a atacar.
O clima constrangedor dura por mais dois segundos, quando o homem mais velho, que se senta na cabeceira da mesa, abre um sorriso acolhedor. Diferente dos outros, os anos parecem ter se abatido sobre o homem com uma barba branca e a pele escura. Todos os outros perdem o ar assassino quando o homem sorri, como se confiassem o suficiente nele para confiar em mim.
— Percebo que trouxe a garota – o homem não deixa de sorrir. – Diga-me, querida, como se chama?
— Zara – tento sorrir tão amigavelmente quanto ele, apesar do meu nervosismo.
— Amigos, sejam educados e dêem boas-vindas a esta mocinha, Zara – o homem ergue seu cálice e os outros homens imitam seu gesto.
— Creio que todos já tenham tomado conhecimento da nossa... situação. – Gwyn eleva a voz, soando como um rei em um filme que vi. – Zara irá passar alguns dias conosco, para que ambos possamos nos acostumar com a ligação que nos une. Tratem-na e protejam-na como se fosse parte da Caçada.
Os homens assentem, com exceção de um deles, louro e de olhos azuis, que abre um sorriso maligno e malicioso.
— Vai mesmo trazer uma desconhecida para a matilha apenas pelo rostinho bonito que ela tem, Gwyn? – a voz do cara loiro é provocante. – Realmente crê que isso seja o melhor para a Caçada? Confia mesmo nela?
— Na verdade, estou aqui pela… situação atual entre nós – como não tenho certeza do que Gwyn contou a eles, tento não me aprofundar no assunto. – Não sei se percebeu, mas me encontro em clara desvantagem, caso haja algum tipo de conflito. Então, se acha que não é páreo para uma mortal de 16 anos, sem qualquer treinamento, especialmente quando você tem uma vantagem de aproximadamente 19 homens treinados, talvez seu lugar não seja na Caçada.
Ouço, de modo desfocado, a risada de ou dois homens da matilha e vejo a expressão de raiva que contorce o rosto do cara de cabelos loiros. Juro que vejo, além de tudo, um começo de sorriso em Gwyn, que ele logo esconde.
— Imagino que Zara já tenha sido suficientemente clara em sua resposta – Gwyn olha diretamente para o loiro. – Vou levá-la até seus aposentos e aproveitar para me retirar também.
Sou levada através de uma porta lateral por uma longa escadaria em forma de caracol, onde não há qualquer decoração na pedra negra além de tapetes e tapeçarias retratando de diversos modos a Caçada. Em sua maioria, são cenas de batalha.
Mais ou menos no 4° andar, entramos em um corredor amplo e curvado, com diversas portas de ambos os lados. Gwyn abre a última porta e sinaliza para que eu entre.
O quarto circular é grande, com uma cama de casal com dossel, coberta com grossas cobertas nas cores creme e carmim, e uma única janela. Um baú fica aos pés da cama, em frente a uma estante lotada com livros antigos e empoeirados, com capas de couro gasto e páginas amareladas. Em cada lado da cama, há um criado-mudo feito em madeira escura, como todos os móveis daqui, e, do outro lado do quarto, uma porta que deve levar ao banheiro.
Uma tapeçaria em frente à cama captura minha atenção. É mais alta do que eu e cai pesadamente até o chão, retratando uma das Caçadas. Toda a desordem no desenho é clara, sendo o caos o elemento principal, mas sou capaz de reconhecer o líder deles, um pouco mais à frente. É Gwyn, montado em um cavalo negro como breu. Logo abaixo da cena retratada, vejo a espiral dupla que vi em todas as outras tapeçarias, sempre em algum lugar de destaque.
— Que símbolo é este? – aponto.
— A Dupla Espiral – Gwyn entra no quarto. – No Outro Mundo, a maioria reconhece como o símbolo da própria Caçada – o elfo exibe o próprio pulso, onde, na parte interna, há uma tatuagem quase negra do mesmo símbolo. Certamente, não é uma tinta mortal, nem mesmo henna, ainda que possua uma cor semelhante a esta. – Significa o equilíbrio, e é assim que os mesmos da matilha são Marcados: uma espiral para cada Corte.
— Então, no caso de uma guerra, vocês são neutros e ficam de fora?
— Não. Significa que temos passe livre para circular por entre as Cortes, e, caso haja alguma guerra, podemos escolher nosso lado individualmente – explica. – Não precisamos nos prender a qualquer Corte.
Passo, sem pensar, os dedos sobre o desenho que eu sequer havia notado. Sinto a pele de Gwyn, quente, entrar em contato com meus dedos frios e preciso segurar um suspiro. Tocar em nele é aquele tipo de coisa que ansiamos sem ao menos perceber. Afasto-me, lembrando a mim mesma que eu sequer o conheço, apesar de tudo.
— Por que não existem mulheres na matilha? – franzo a testa. – Para seres que acreditam ter “uma visão do mundo mais evoluída”, excluí-las da Caçada é um gesto bem arcaico.
— É por coincidência, se quer saber – um sorriso contido dança em seus lábios. – Não somos nós que escolhemos quem entra na matilha; é o próprio destino que nos Marca.
— Então mulheres já fizeram parte da matilha?
— Muitas mulheres, porém, após uma batalha com muitas baixas, a formação não tem mudado. Com o tempo, elas e muitos outros morreram, e o destino preferiu deixar por isso mesmo. Ninguém é Marcado há aproximadamente cinco décadas, e, coincidentemente, perdemos muitas mulheres através de anos e batalhas. – Faz uma pausa. – Portanto, você irá dormir nos meus aposentos.
— Como é? – arqueio as sobrancelhas.
— Não confio na maioria dos elfos lá fora, e estará segura comigo.
— Não confia nos membros da própria matilha? – questiono lentamente. – Isso está mesmo certo?
— Criaturas são muito mutáveis e egoístas. Mudam de lado conforme sua própria vontade, dependendo de quem lhes será mais útil, por isso, sempre se deve estar prevenido quando lida com meu povo – sua expressão assume um ar de diversão. – Especialmente depois que você acaba de incitar o ódio de um dos elfos mais fortes daqui, Keenan.
Imagino que Keenan seja o cara de cabelos loiros.
— Bem, ele mereceu.
— E guarda rancor – Gwyn prossegue. – Procure não provocá-lo e, espero, ele não irá mais atormentar ninguém.
— Não vou provocá-lo gratuitamente – reviro os olhos e, em seguida, aponto para a porta do banheiro. – Vou tomar banho.
Gwyn concorda com a cabeça, sem prestar atenção.
Tranco a porta com a chave antiga e chego a temer um pouco a possibilidade de ficar presa. Há uma única janela, no alto, mas meus quadris jamais passariam por ali. A porta parece pesada, e eu torço para que Gwyn saiba arrombá-la, caso haja alguma emergência.
Entro na banheira que se enche rapidamente e tento não demorar muito, já que o cansaço e o frio se abatem sobre mim.
Depois, escovo meus cabelos e volto para o quarto, sentindo a falta do meu quarto. Gwyn passa por mim sem dizer nada e entra pela porta que acabei de sair.
Enquanto o elfo toma banho, tento e acomodar na cama e pensar sobre o que farei a partir de agora. Não que eu seja capaz de bolar um bom plano no momento, já que tudo o que me vem à cabeça é que eu preciso quebrar nossa ligação e sair logo daqui. Seria, na verdade, uma ótima coisa a se fazer – desde que alguém tivesse uma vaga noção do que fazer. Esperar que nós nos acostumemos ou que o próprio tempo quebre a ligação não me parece bom o suficiente. Digo, eu tenho a minha vida e Gwyn tem a dele, e não temos espaço nelas para que o outro a invada de um jeito tão repentino.
Talvez, se pesquisássemos. Não é possível que quebrar uma ligação assim seja algo nunca feito antes. Ou, mesmo que este seja o caso, está bem longe de significar que é algo impossível de se resolver; deve haver algo que seja capaz de, no mínimo, melhorar a situação.
Gwyn volta ao quarto, trajando apenas calças negras, fazendo com que meus olhos varram a beleza de seu corpo. Quando me deparo com seu abdome definido, não deixo de me considerar flácida, se comparada ao elfo guerreiro. Antes de erguer os olhos, repreendo-me pelo ato descarado e não deixo de me perguntar por quantos anos ele treinou para ficar assim. Não que Gwyn seja uma montanha de músculos, quase como um leão – ou um urso, dependendo do ponto de vista. Não. Quando o comparei a uma pantera, não achei que meu tiro fosse tão certeiro. Há graça e agilidade em seus músculos e movimentos, como se fosse um lutador de artes marciais ou um membro da realeza muito bem treinado. Gwyn ostenta o porte nobre, desdenhoso e cruel dos felinos, tornando-o quase irresistível.
E, a julgar pelo seu sorriso convencido e zombeteiro, com um ar leve de desdém, deduzo que ele tenha percebido meu olhar. E como não perceberia?
— Onde posso deixar minhas coisas? – questiono, para quebrar o silêncio constrangedor que se instalou. Constrangedor para mim, no caso; Gwyn parecia estar se divertindo bastante com a falta de palavras e o meu recente excesso de olhares.
— Deixe-as em cima do baú, por hoje. – O elfo se deita ao meu lado. – Ao longo dessa semana, já não precisará mais delas. Conseguiremos roupas adequadas e novas para você. E um lugar fixo para guardá-las.
— Não preciso de roupas novas, por isso trouxe as minhas – deixo a mochila onde me foi indicado e volto a deitar. – Aliás, gosto das minhas roupas.
— São roupas mortais. – Sua voz é puro desdém. – No Outro Mundo, nossas vestes são diferentes.
— Isso eu percebi – torço o nariz. – Porém, como eu acabei de falar, gosto das minhas roupas mortais.
— Só o fato de ser semimortal já chama atenção suficiente de criaturas de fora da matilha. Não queremos que suas roupas mundanas chamem ainda mais atenção para o fato de que não é daqui.
Abro um sorrisinho e arqueio
as sobrancelhas.
— Eu deixo de usar as roupas mortais aqui, mas só se eu puder participar e uma Caçada – negocio.
— Não há espaço para mestiços na Caçada Selvagem – sua voz é mais fria do que nunca, como se o próprio Inverno tivesse encarnado nele.
— E ainda assim estou aqui, dentro do seu quarto, no acampamento da Caçada Selvagem, e acabo de conhecer a matilha – retruco. – Talvez tenhamos quebrado alguns de seus preceitos, não acha, Gwyn?
— Não vou desonrar ainda mais a Caçada levando conosco uma impura a tiracolo.
Diante de seu contra-ataque, engulo em seco e ergo a mão, preparando-me para fazer um tapa estalar no rosto do belo elfo, que, contudo, segura meu pulso com força, ainda que sem me machucar.
Papai sempre me disse que um dia eu iria ferrar com a minha vida graças à minha impulsividade inconsequente, que aparece nos piores momentos. Agora, vendo a fúria – e ainda um pouco de desdém – brilhar nos olhos dele, realmente assumo para mim mesma que o tal dia de ferrar com a minha vida pode mesmo ser hoje.
O aperto de Gwyn no meu pulso é firme o suficiente para eu ser incapaz de me soltar. Frio parece irradiar para dentro de mim, como lascas de gelo, e é isso o que torna o toque tão desconfortável – e, claro, o olhar irado de Gwyn.
— Não ouse fazer isso. – Rosna.
— Não ouse tentar me fazer sentir inferior. – Rebato, sem deixar transparecer meu medo e minha insegurança.
A insegurança sempre foi um elemento muito presente na minha vida toda. Demorei anos para ser capaz de superar grande parte dela, e não permitirei que um elfo desconhecido me faça ter outra recaída. Talvez seja essa certeza que me dê a segurança que preciso, apenas o suficiente para eu me manter firme, sem recuar uma única vez.
Kiera, minha irmã, que sempre foi heroína e vilã para mim, estaria orgulhosa se me visse agora. Já papai… bem, provavelmente estaria formulando algum de seus sermões sobre eu agir inconsequentemente. E para eu parar de me atrasar, mas este só seria dito no dia seguinte ou na próxima vez que eu me atrasasse para algo. Mamãe exigiria a educação que muitas vezes esqueço-me de usar.
— Eu sou o líder da Caçada Selvagem e você me deve…
— Não, não, não. –Interrompo-o. – Eu não devo nada a você e nem às Cortes. Não faço parte da Caçada e nem do Outro Mundo, como você já ressaltou, então não devo obediência, adoração ou lealdade a nenhum de vocês.
— Você é minha agora, e me deve ao menos respeito.
— Sou tão sua quanto você é meu, Gwyn – reviro os olhos. – Portanto, se quer respeito, terá que me dar o mesmo em troca; é apenas uma questão de igualdade.
— Não serei controlado por uma semimortal de dezesseis anos.
— Ótimo, porque eu também não serei controlada por você, não importa qual seja o seu título.
Surpreendentemente, Gwyn abre um sorriso suficientemente amigável e solta meu pulso.
— Quando foi que semimortais tornaram-se tão insolentes? – sua pergunta é uma provocação, e não uma ofensa; seu sorriso é irresistível.
— Quando perdemos o senso de autopreservação, segundo meu pai – sorrio de volta.
— Talvez ele esteja certo.
— Vamos esperar que não – aconchego-me embaixo das cobertas e fecho os olhos.
***
De manhã, estou sozinha na cama, e Gwyn não está em qualquer lugar visível. Pela fraca luz que entra pela janela, percebo que ainda é cedo. Penso em voltar a dormir, mas meu corpo está desperto demais. Além disso, ontem tracei planos para que eu seja perfeitamente capaz de sobreviver por aqui.
Acho que minha meta principal é fazer com que as criaturas daqui passem a confiar em mim, e talvez até criar laços de amizade. Tanto com os elfos quanto com os lobos que espreitam lá fora, diga-se de passagem. Certamente, criar desavenças ou fugir deles está fora de cogitação. Gwyn também se encaixa na lista, especialmente ele, pois, além de ser o líder da Caçada, também é meu companheiro de quarto e alguém com quem tenho uma espécie de ligação. E é cruel o suficiente para não dar valor à vida de outros, percebo.
A segunda parte é quebrar minha ligação com Gwyn. De algum jeito, vou descobrir o que podemos fazer.
E, por último, a terceira parte consiste em fazer valer todo o meu tempo aqui. Vivo em uma constante busca por intensidade e emoção, e qual lugar é melhor do que o Outro Mundo para encontrá-las? Aqui, posso convencer os Caçadores a me ensinarem a lutar e, talvez, até a me levarem para uma das Caçadas. Posso tentar, também, explorar este mundo tão exclusivo e procurar alguma inspiração para os desenhos e quadros que de vez em quando faço.
Desço as escadas, já vestida e com um sorriso no rosto. Não é muito difícil, já que a empolgação pulsa em mim como algo vivo. Pergunto-me se Gwyn também a sente; quando suas emoções são fortes, sou capaz de senti-las como se fossem as minhas próprias.
— Bom dia – exclamo quando entro na sala de jantar.
O mesmo elfo de pele morena que me cumprimentou ontem abre mais um de seus sorrisos gentis e me indica um lugar a mesa.
— Por alguns dias, esta será a sua casa, Zara. Acredite nisso e irá se acostumar a ela com uma facilidade incrível.
— Tomara.
Faço café e sento em uma das cadeiras, feliz com a familiaridade e a gentileza com que o homem mais velho me trata, mesmo que ainda nem me conheça de verdade.
— Eu não sei seu nome, aliás – bebo um longo gole de café.
— Pode me chamar de Aldo – ele continua sorrindo. – Parece estar mais animada hoje do que ontem.
— Decidi que é melhor ver o lado bom e estar aqui.
— Isso é bom. Por onde planeja começar?
— Quero conhecer o acampamento, antes de tudo.
— Ótima escolha, mas, se me permite dar um conselho, sugiro que se mantenha afastada da área de treinamento – Aldo ri. – Keenan está treinando arco e flecha. Ele é muito bom, mas quando está zangado como está hoje, é capaz de errar feio o alvo.
— É uma ótima dica – sorrio quando bebo o resto do café. Ergo-me. – Bom, preciso ir.
— Bom passeio – Aldo dá tapinhas no meu ombro.
Caminho pelo longo corredor e, no final dele, faço esforço para mover a porta pesada de madeira muito antiga. Finalmente consigo abri-la.
O dia é nublado, mas iluminado e não tão frio. Os pássaros cantam nos arredores, porém, o canto deles é diferente do canto dos pássaros do mundo mortal. Há variados cantos, todos formando um caos melodioso; uma mistura bela e inquietante, como tudo daqui.
A grama gasta está coberta com pegadas feitas com as botas pesadas dos Caçadores, e o ar é preenchido com gritos distantes, vindos da área de treinamento.
O bosque, à direita, me parece um ótimo lugar para começar. Não é tão denso quanto a floresta lá fora, por isso imagino que eu não vá me perder. E, em caso de pânico, tudo o que eu preciso fazer é encontrar a torre de pedra negra contra o céu cinzento.
Nunca fui muito ligada a atividades esportivas regulares, porém, caminhar me põe para pensar, o que, na situação atual, é uma boa coisa a fazer. É que, bem, não posso desistir do meu futuro para ficar no Outro Mundo. Podem até ter me falado que será por pouco tempo, até que eu e Gwyn sejamos capazes de nos acostumar com a ligação, mas e se isso nunca acontecer? E se, por fim, acabarmos nos acostumando um ao outro? Senti na pele o poder dessa ligação, e realmente me preocupo com o que ela pode nos obrigar a fazer.
Um rosnado, baixo e gutural, me tira de meus pensamentos e u de cara com um lobo enorme, prateado e de olhos azuis chamativos. Os dentes arreganhados e o modo desconfiado com que me fita arrepia os pelos da minha nuca.
Tento manter o medo nas profundezas do meu ser, abaixo de qualquer outro sentimento. Também não olho nos belos e assustadores olhos dele; mostrar que não é um oponente é tão importante quanto deixar claro que não sirvo para ser uma vítima.
A possibilidade de correr é nula; mesmo que eu não fosse a pessoa desastrada e pouco ágil que sou, eu ainda não teria chances de escapar de um lobo da Caçada. Por isso, continuo com minha imobilidade inquietante.
Na melhor das hipóteses, o lobo passa a crer que não mereço uma centelha da sua atenção e vai embora, deixando-me livre. Na pior das hipóteses, serei obrigada a me proteger, atirando-me no chão.
Certa vez, li que um encontro com um lobo dificilmente termina em algum conflito, embora eu não saiba o quão verídica é a informação – e, também, se ela se aplica a lobos do Outro Mundo.
O lobo se aproxima lentamente, farejando. Sinto meu medo aumentar conforme o lobo caminha para mais perto. Tento reprimi-lo, ignorá-lo, o que for… Penso em tudo, menos no que está acontecendo e nas minhas chances de terminar viva, por um tempo tão longo que se torna irreal.
Fecho os olhos bem apertado quando o focinho toca o dorso da minha mão, contudo, volto a abri-los quando não sinto garras e dentes. O lobo esfrega a cabeça na minha mão, como um cãozinho sedento por carinho.
Ao contrário do medo, não reprimo o alívio e, assim, deixo que ele me percorra e me transborde. Acaricio a cabeça do enorme animal e sorrio, torpe.
Ouço galhos estalarem às minhas costas e me seguro para não xingar baixinho. Coloco as mãos na nuca para proteger o pescoço e me abaixo lentamente até o solo, rendendo-me.
— Que diabos está fazendo? – agora, o rosnado pertence a um Gwyn irritado, que se aproxima rapidamente.
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