A Cólera Dos Deuses
4 Capítulo 4 UMBRAS ET IGNIS(Sombras e fogo)
Notas iniciais
A chuva forte molhava a todos que desciam do Vesúvio e as conversas eram alegres, mesmo que em dado momento, a purificação dos Luperci provocasse algumas dores.
O cheiro da terra molhada junto às rochas vulcânicas misturava-se à fumaça das tochas em procissão acentuando o clima festivo, mas ao mesmo tempo, ritualístico que a Lupercália despertava no povo romano.
O líder dos Luperci, Hades, havia ficado com o centro de Roma, enquanto os demais escolhidos reuniram-se no Monte Vesúvio para purificar e abençoar aqueles que lutavam nos jogos.
Ainda estava escuro quando os gladiadores chegaram à cidade. Milo, Máscara da Morte, El Cid, Aldebaran e Manigoldo haviam passado pelo chicote purificador e agora se encaminhavam para a domus dos amigos, onde Camus, Afrodite, Albafica e Mu os esperavam para uma ceia.
Milo massageou o braço onde o Luperci havia chicoteado. Havia uma marca funda e dolorida em seu braço. Franziu o cenho ao sentir arder o ferimento, mas logo retornou às conversas com os amigos.
— Puta que pariu, esses luperci tem que ser impotentes ! Já notaram como desceram aquele chicote na gente ? – disse Máscara da Morte.
— São homens de poder e gostam de subjugar os outros. Usam a religião como desculpa e a política como arma. – falou El Cid.
— Eu notei que com a gente foi mais violento. Meu braço quase foi cortado. Se não fosse desrespeitoso para Gemini eu tinha feito aquele imbecil engolir aquele chicote. Disse Milo.
— Não só isso, notaram o brilho nos olhos deles ? Pareciam lobos de verdade querendo comer o nosso coração. – falou Manigoldo.
— Acho que não era bem o nosso coração que eles queriam comer... – disse Aldebaran rindo, em seguida.
— É verdade ! Tinha um que queria chicotear o meu pau, mas não foi feliz ! – falou Milo, também rindo.
Todos riram em meio à lama e chuva, encontrando alguns homens e mulheres pelo caminho. El Cid notou que alguns andavam rápido e de cabeça baixa. Outros andavam lentos e pareciam lamentar algo muito grave.
— Parece que aconteceu algo... – disse o gladiador.
Milo, Máscara e Manigoldo prestaram atenção nas pessoas, após a fala de El Cid.
— Aconteceu alguma coisa ? – perguntou Milo a uma jovem cujo rosto estava banhado em lágrimas e respingos de chuva.
— Foi Gemini, meu senhor ! Mataram todos e incendiaram a domus!
Ao ouvir a jovem, os cinco correram o mais rápido que puderam em meio às pedras escorregadias. Havia muita gente nas ruas e, ao chegar próximo da domus as labaredas e a fumaça podiam ser vistas de longe.
— Por Júpiter ! — exclamou Manigoldo e todos os olhares se arregalaram, incrédulos, ao perceber a tragédia que se apresentava aos seus olhos de uma maneira grotesca e cruel.
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Afrodite arrumava a mesa quando ouviu os gritos. Primeiro, pensou que tinha sido esperto em deixar a domus às escuras. Ele, Albafica, Mu e Camus não compartilhavam a crença no poder purificador dos Luperci, então, permaneceram silenciosos e no escuro até a procissão passar, deixando-os em paz. No entanto, algo chamou a atenção dos quatro, eram os gritos que falavam algo sobre Gemini.
Camus foi até a janela e viu a claridade contra as nuvens negras.
— Incêndio ! – disse o ruivo já dirigindo-se até a porta.
Afrodite, Mu e Albafica seguiram o amigo, sentindo a tensão e com mil pensamentos passando pelas mentes aflitas.
Camus correu, sentindo o coração acelerar, não pelo esforço, mas pela ansiedade em saber o que acontecera. Ao chegar perto da domus, ele sentiu o estômago doer. Havia um caminho de sangue por entre as pedras e um cheiro ocre de fumaça.
Alguns tentavam amenizar o incêndio com bacias d´água, porém a chuva foi se intensificando de forma que as línguas de fogo foram diminuindo até a chegada do grupo.
Andando em meio àquela desolação, Camus reconheceu, Gracus, um dos servos que estava com a garganta cortada, os olhos vítreos e abertos com uma expressão de terror. Com a chuva forte, as chamas arrefeceram, o que possibilitou a entrada no atrium e nas demais peças da domus. E foi ali, que todos constataram o horror maior.
— Júpiter nos proteja... – murmurou Afrodite ao olhar o grande salão.
Obras de arte quebradas, fuligem e sangue espalhados como se ali fosse um campo de batalha. A domus, outrora um lugar requintado e belo, agora jazia alquebrada e imersa em sombras e desolação...
June estava caída em uma poça avermelhada, o corpo perfurado parecendo flutuar em meio à água e sangue. Os cabelos desalinhados criavam desenhos assimétricos como se ela fosse uma ninfa acolhida pela morte trágica em meio ao sono... Porém, os olhos, esses estavam abertos e, ao contrário do brilho mortiço, comum nos mortos, pareciam tão decididos quanto se mostraram em vida.
Afrodite fechou-os com um nó nas entranhas e uma angústia no peito. Não era amigo, nem nutria grande afeto por June. Porém, aprendera a respeitá-la, pois fora testemunha da transformação de sua sordidez e ambição, em humanidade. Havia muita coragem em reconhecer-se, infiel, mas ainda assim, digna de respeito ao enfrentar seus demônios internos e também ao recusar ser o peão de Hades.
— Durma, domina...Durma o sono dos deuses e ande nos jardins hespéricos tomados de lírios e jacintos. Que os deuses tenham piedade e saibam que, no fim, a senhora escolheu o amor. – disse o loiro.
Albafica, Mu e Camus baixaram os olhos em meio à cena dantesca. Em seguida ouviram passos apressados e logo, Milo, Manigoldo, El Cid e Máscara juntaram-se à eles.
— Mas que porra é essa ?! – exclamou Milo olhando para todos os lados.
— Hades ! – disse Manigoldo sentindo um amargor tomar-lhe a boca.
— Ela tinha razão, a tempestade veio. Agora, meus amigos, nenhum de nós está à salvo. – falou Afrodite retirando a capa que usava para cobrir o corpo de June.
Camus estava calado, sua mente analisava aquela atrocidade e a sensação desconfortável aumentava diretamente proporcional a tudo que estava vivenciando. Sentia medo por Milo. Hades era cruel e inteligente. Destruir Gemini fora uma jogada de mestre, pois agora, nenhum deles possuía o apoio de um nobre do status de Saga. Kanon estava fora, Aiolia também.
Estavam entregues a si mesmos... E Hades... ele não descansaria até destruí-los.
— Estão dizendo que Saga foi levado. Preso por traição. – disse El Cid.
— Então vai ser crucificado... – lamentou Manigoldo.
— Ah, mas não vai mesmo ! Nós vamos tirá-lo da prisão de qualquer jeito. – falou Milo.
— E o que podemos fazer ? Tá na cara que Hades conta com isso pra baixar a guarda pretoriana sobre nós ! – exclamou Máscara da Morte.
— Vocês eu não sei, mas esse filho da puta não vai levar a melhor. Pode mandar a guarda, o exército, mas Saga, ele não crucifica como se fosse um cão ! – disse Milo fazendo menção de sair.
— Pare, Milo ! – falou Camus que, assim como Albafica e Mu, estava silencioso.
Ao ouvir a voz do ruivo, Milo estancou. Seu semblante estava alterado, mas quando encontrou o olhar sério de Camus, ele obrigou-se a ouvir e tentar se acalmar.
— Hades tornou-se um Luperci e seu poder, junto ao imperador, não se restringe a ser o responsável pela Ludus Maxima. Ele defende o stuatus quo de Roma e tem a amizade e o aval de Titus. Ele planejou tudo isso e deve ter alicerçado suas ações junto à pessoas que pensam como ele. Se quisermos enfrentá-lo, não podemos fazer o que ele espera.
— Camus tem razão. Hades não é qualquer um e se fez tudo isso, sabe que terá o apoio de todos os escravocratas descontentes com a atitude e ideias de Saga. Ele também sabe que somos leais à Gemini e está buscando nos atrair com toda essa situação para que façamos algo que lhe possibilite nos destruir. – disse Afrodite.
— Entendo tudo o que dizem, mas se for condenado por traição, Saga será executado rápido. O que faremos ? – perguntou Manigoldo, ansioso.
— Antes da execução, Saga terá que ser julgado, o que pode ser feito à portas fechadas ou um júri popular. Hades deverá preferir o júri. Ele quer humilhar e mostrar Gemini como uma casa que traiu Roma e, para isso, vai manter Saga preso até convocar os patrícios para julgar. Precisamos agir rápido e resgatá-lo sem parecer que fomos nós. – disse Camus.
— E como faremos isso ? – falou Máscara da Morte.
— A Lupercalia dura até o pôr-do-sol de amanhã. Eles estarão esperando que usemos a força, mas usaremos o mesmo ardil de Hades. Saga morrerá, mas não pelas mãos dele. Albafica, precisaremos do seu conhecimento medicinal. Assim como existem drogas capazes de tirar alguém do ar— disse Camus, relembrando o episódio Hades. – Deve existir uma que produza uma estado letárgico semelhante à morte. Precisamos, apenas, que os guardas acreditem que Saga morreu. Os luperci costumam ter livre entrada nas prisões para fazer uma última visita de purificação aos prisioneiros. Nós entraremos e tiraremos Saga como sacerdotes luperci.
— Perfeito ! Assim, podemos requerer o corpo e sumir com ele, antes que Hades tome conhecimento e possa fazer algo. — falou Afrodite entendendo, de imediato, a ideia de Camus.
Albafica apressou-se em pensar nas ervas certas. Sua habilidade e conhecimento eram tão abrangentes e ele sabia que Camus tinha razão. Havia drogas capazes de induzir, desde o sono, até uma morte aparente. Apesar de nunca ter tentado tal feito, agora era o momento de ousar.
— Vou providenciar o que precisamos. – disse Albafica.
— Onde conseguiremos as vestes destes... lupercis ? – perguntou El Cid.
— Simples, vamos voltar ao vesúvio e pegar emprestado daqueles filhos da mãe. – disse Milo.
— Enquanto isso, eu irei providenciar os ritos fúnebres da domina desta casa. Vou contratar algumas carpideiras. Hades não vai comparecer, mas enviará espiões, então teremos que estar todos juntos, durante um tempo, para que nos vejam. Então, em meio ao cortejo, alguns de nós irão até a prisão, enquanto o restante continua acompanhando, até o fim. Vou ter que avisar os pais de June e seu sobrinho, Shun. – falou Afrodite.
Feitas as combinações, todos deixaram a domus, conscientes que Chronos cobrava seu tributo. Aldebaran pegou o corpo de June em seus braços com facilidade e, embora nunca tivesse simpatizado com ela, ainda assim, sentiu-se responsável em transportá-la da forma mais respeitosa possível.
Afrodite ainda olhou para trás, vendo o que restara da bela domus, quando um gemido baixo chamou sua atenção. Ele avançou alguns metros e reconheceu Nailah caída entre destroços de uma escultura quebrada. Ela parecia desacordada, mas quando ele se aproximou, ela abriu os olhos.
— G-Graças à Hórus ! P-Por favor... m-me ajude... – gemeu ela.
O loiro se aproximou, vendo que ela estava ferida, mas nada grave. Estendeu a mão e ajudou-a.
— O-Obrigada ! Foram todos mortos, mas eu... eu consegui escapar. – disse ela.
Olhando-a, fixamente, Afrodite esquadrinhou cada detalhe físico e cada palavra que ela dizia. Gracus tinha sido degolado. June, morta à facadas e Saga, levado após ser espancado com brutalidade.
Por que, então, somente Nailah teria escapado de toda aquela selvageria ? Seria ela, tão esperta ou... um trunfo de Hades para ser usado no tempo certo ?
— Foi muita sorte sua ter escapado e... sem maiores ferimentos. – disse Afrodite, ainda refletindo sobre a serviçal.
— Meus deuses me protegeram. – respondeu ela mostrando um amuleto que trazia junto ao seio e que mostrava a imagem de um olho.
— Os guardas não a mataram como fizeram aos demais... Seus deuses são mesmo poderosos e leais. – falou Afrodite ainda olhando o vestido um pouco rasgado, mas nada comparado ao que acontecera aos outros.
— E-Eu fingi ! Um deles me bateu com o chicote, veja! – disse ela apontando para o ombro desnudo. — Então eu caí por cima daquela estátua e fiquei quieta. Domina gritava com Hades e todos ficaram surpresos quando ela confessou ter envenenado Minos. O cônsul ficou transtornado e a esfaqueou várias vezes ! Depois disso, eles começaram a botar fogo na domus, mas a chuva forte impediu-a de queimar.
— E todo esse tempo você permaneceu fingindo que estava inconsciente ?
— S-sim.
— Então você ouviu-nos, também...
— B-Bem... mais ou menos. Eu... me senti tonta com tudo isso e... fiquei meio...
Os olhos de Afrodite brilharam, perigosos e letais. Naquele exato momento, ele juntou os fatos e soube que a ex-escrava tinha participação em tudo aquilo. Ela sabia mentir, mas não com tanta perfeição ao ponto de enganá-lo.
Certamente, ela tinha fornecido à Hades toda a rotina da casa e permanecera, ali, para continuar espionando. Como um peão em um jogo, ela ouviria e contaria os planos do grupo em troca de mais vantagens, pois sua ambição era tão palpável quanto às paredes, agora enegrecidas, do lugar...
Ele tinha que fazer alguma coisa à respeito, mesmo que isso significasse sujar as mãos...
— Ah, minha querida... venha aqui. Temos que nos unir, agora que estamos entregues a nossa própria sorte. – disse ele estendendo os braços e sorrindo de modo, falsamente, afetuoso.
Nailah não queria ir, mas fazia parte da representação, deixar-se acolher pelo grupo. Hades a instruíra a infiltrar-se entre eles e relatar todos os passos dados, dali para a frente.
Ela se aproximou sentindo uma espécie de calafrio e Afrodite a abraçou de maneira aconchegante, fazendo-a sentir o corpo ereto e perfumado. A mão do loiro deslizou para o rosto da serviçal como uma carícia e, em seguida, um movimento seco e rápido para o lado, provocou um baixo estalido...
O pescoço de Nailah quebrou-se, antes mesmo que ela piscasse ou soubesse o que estava acontecendo.
Durma, minha pequena víbora e adentre os Infernos que é o seu lugar ! Pensou Afrodite enquanto deixava o corpo deslizar, suavemente, até o chão e agradecia ao seu poder de aprender alguns truques ao observar as lutas entre gladiadores.
Albafica notou que Afrodite ficara para trás e voltou. Quando aproximou-se do irmão viu irmão se afastando do corpo caído da serviçal.
— Afrodite...
— Ora veja a fatalidade...Pobre Nailah ! Encontrei-a agonizando. Ela morreu em meus braços, nada pude fazer. – disse o loiro com uma expressão condoída.
— Onde ela estava que não a vimos... ?
—Aqui mesmo, entre os escombros. Agora vamos !- disse o loiro com uma frieza e tranquilidade que surpreendeu o irmão.
— Mas... vamos deixá-la aí ?
Afrodite suspirou, então olhou para o irmão que continuava a encará-lo.
— Quando enterrarmos os demais, ela terá a sua vez. Ela já está morta, portanto, não vai se importar em esperar, não é mesmo? Agora vamos que não temos muito tempo.
Albafica obedeceu, embora tivesse ficado um pouco desconfiado da cena que presenciara. No entanto, o tempo corria e ele não podia ficar divagando sobre o assunto.
Afrodite, por sua vez, andava sem nenhum remorso. Havia dado uma chance e um aviso à ex-escrava. Desde o dia em que ela sofrera aquele pequeno acidente, ele a tinha instruído a permanecer em seu lugar. Não havia espaço para traidores entre eles. Se ela não soubera escolher o que era certo e insistira em aliar-se ao inimigo, que aguentasse as consequências... no Inferno.
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A pressão na cabeça fez com que Saga acordasse, mas tendo que fechar os olhos por causa do sangue que escorria de sua testa. Ouvia vozes e passos, tudo misturado aos sons da própria respiração entrecortada.
— Pensei que estava morto, amigo dos escravos.
Ignorando a dor na cabeça e o sangue, Saga tornou a abrir os olhos, mais pelo som da voz próxima do que pelo significado das palavras. Forçou-se a manter-se lúcido quando o homem ergueu mais a mão com a tocha, impingindo mais pressão a sua cabeça que latejava terrivelmente.
— Onde estou... Para onde me trouxeram ? – perguntou sentindo o gosto metálico do sangue nos lábios cortados.
— Bem-vindo às masmorras. – disse o soldado segurando-lhe o queixo e forçando-o a encará-lo. Espero que goste das instalações que foram preparadas, especialmente, para abrigá-lo, amigo dos escravos.
Saga sentia a cabeça doer e o ambiente girar. Estava enjoado e ferido. Sua mente dava voltas tentando assimilar as atrocidades que Hades cometera. Possivelmente estava com alguma costela quebrada e por pouco não tinham vazado seu olho.
Sentiu as costas dilaceradas contra a parede fria e os tornozelos e pulsos presos por um jogo duplo de correntes. Em seguida, observou o local onde o aprisionavam. Era escuro, amplo e havia um eco longínquo reverberando por todos os lados. Parecia estar na... arena ? Seria possível que ele tivesse sido arrastado até o Coliseu ?
O guarda sorriu quando viu a expressão atônita do cônsul.
— Sim, amigo dos escravos. Esta é a casa onde os seus amigos ganham a vida ou a morte e onde você irá perder uma e conquistar a outra ! Aproveite a estadia, enquanto pode. – disse o homem se afastando.
Saga tossiu, a dor na cabeça e no corpo atormentando-o e, cada vez mais, ficando difícil pensar com clareza, assim como mover qualquer parte de seu corpo. Impotente, cerrou os olhos e pensou em Kanon. Uma tristeza imensa invadiu seu coração, seguida pelo medo de nunca mais ver o rosto do amado, nem escutar a sua voz.
— Kanon... – murmurou quando uma dor lancinante pronunciou-se em sua cabeça e peito. Então, tudo escureceu.
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O cavalo relinchou, empinando as patas. Kanon se manteve firme na sela, porém sua mente divagou, em plena batalha e uma sensação de peso, aliada à dor atingiu-o no peito, junto com uma lança usada pelo gaulês para derrubá-lo. O general não caiu, mas o golpe forte o fez perder o ar, rompendo as placas de metal protetoras do peitoral que usava e ferindo a carne.
Lutando com dois inimigos, Ikki livrou-se de um, atingindo-o no pescoço com sua espada e fixou os olhos na batalha que o general empreendia. Kanon estava cercado e parecia ferido, embora continuasse a brandir a espada de forma a manter os inimigos longe de si.
Com um grito de guerra, Ikki decepou a cabeça do inimigo que sobrara e lançou-se na direção de Kanon. Os garanhões esbarraram um no outro, mas ainda assim, ambos se mantiveram sobre eles, conseguindo juntos, livrar-se da horda inimiga que já começava a recuar.
Os outros legionários juntaram-se a eles, conseguindo dispersar os gauleses que combatiam de forma acirrada e, totalmente, à vontade naquele território.
Por algumas horas, ambos os lados iriam descansar e enterrar seus mortos.
— O senhor está bem ? – perguntou Ikki.
— Estou... – respondeu Kanon com os olhos desfocados.
Ikki observou que o general parecia confuso e mesmo tendo lutado como uma fera, parecia, apenas, instinto de sobrevivência. O seu peitoral havia sido rasgado pela lança e o sangue pingava pelas vestes. Ele ofegava, mas não parecia perceber. Havia algo de errado...Ele não estava preocupado consigo e sim com outra pessoa.
— General, o senhor precisa cuidar desse ferimento. – disse Ikki.
Kanon apoiou-se no jovem centurião e só então fixou os olhos nos dele. Havia uma tempestade de dor e medo nos olhos verdes do general, algo que fez Ikki preocupar-se, ainda mais.
— Aiolia... onde está Aiolia ? – perguntou o general.
— Ele foi com sua tropa até o outro lado para impedir que os gauleses nos ataquem pelo oeste.
— Preciso dele... – murmurou Kanon.
— Ele virá, senhor. Mas, agora, precisa cuidar disso. – falou Ikki voltando a enfatizar a ferida de Kanon.
O general desvencilhou-se do jovem centurião e foi em direção ao seu cavalo que parecia tão inquieto quanto ele. Nesse momento, Aiolia voltou com sua tropa e um clima de algazarra começou. Ele notou o ferimento de Kanon e desceu do cavalo, indo ao encontro do amigo e superior.
— Kanon! – disse ele se aproximando.
— Aiolia... Meu amigo... Aconteceu algo! Por favor, ajude-me!
— Claro, general ! Venha, vou ajudá-lo a tratar esse...
— Não! Isso não importa! Aconteceu algo grave, Aiolia... No campo de batalha... eu senti... sentia a dor dele como se fosse a minha. Saga... Saga precisa de mim! – gritou Kanon antes de desmaiar nos braços do amigo.
Aiolia segurou Kanon nos braços e ordenou que fizessem uma padiola para carregar o general. Quando o colocaram nela, o centurião percebeu que seu amigo ardia em febre. Ikki aproximou-se com o cenho franzido, tentando entender o que se passava ali. Quando Aiolia comentou com ele que Kanon tinha um irmão gêmeo, o jovem centurião suspirou e disse :
— Eu o entendo, também tenho um irmão. Não somos gêmeos, mas nossa ligação é forte.
Preocupado, Aiolia permaneceu ao lado do amigo e rezou para que os combates cessassem logo, pois algo em seu íntimo dizia que havia errado acontecendo em Roma. Pensou em Mu e onde estaria, agora, aquele que era dono do seu coração. Com o cenho franzido, mandou que todos montassem e voltassem ao local onde haviam erguido o acampamento.
Horas mais tarde, Kanon voltou a si tendo Aiolia, vigilante, ao seu lado.
— Aiolia... Escute... – disse o general, tentando erguer-se.
— Estou aqui, Kanon. Não tente levantar, está ferido e com febre.- falou Aiolia, tocando o ombro do general.
— Eu estou bem, é com Saga que me preocupo. Algo aconteceu, eu senti em meu corpo, Aiolia. Preciso saber como ele está.
— Enviarei um dos batedores à Roma, amanhã cedo. Agora descanse, ainda temos uma batalha pela frente.
Kanon agradeceu e, contra a vontade, fechou os olhos. Cenas horripilantes chegaram, junto ao sono, e o general debateu-se em febre e pesadelos, durante toda a noite...
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O jovem de longos cabelos castanhos sentiu um arrepio. A noite escura sempre o inspirava, mas esta, em especial, trazia inquietações a sua alma. Seus expressivos e grandes olhos verdes se detinham na chuva que caía, quando ouviu passos apressados e seu corpo experimentou outro estremecimento.
— Shun! Shun – chamou uma voz rouca e baixa.
— Sim, vó! O que foi ? – perguntou afastando-se do atrium e adentrando a sala repleta de afrescos bucólicos.
Abeona tinha sido uma mulher bela e inteligente. Casara-se muito cedo, mais por interesse, que por amor, desejando liberdade e conforto que usufruiu por um bom tempo, até seu esposo arruinar-se, desfazendo o encanto do casamento quase perfeito. Entretanto, apesar de tudo, amara as duas filhas que tivera : Hebe e June.
A mais velha morrera, tragicamente com o marido, atingida pela febre deixando dois filhos pequenos que ela aprendera a amar como seus, até a filha mais nova, June, encarregar-se de sua educação.
June era, secretamente, o seu orgulho. Via nela o reflexo de si mesma, de suas esperanças e ambições. Não podia acreditar no que aquele belo homem estava lhe dizendo...
— Domina, sinto vir à esta hora para trazer-lhe uma notícia como essa. – disse Afrodite.
Abeona não chorou, nem gritou. Seu rosto envelhecido estava tomado pela dor e suas mãos tremiam, entretanto, ela, apenas apoiou-se em Shun que viera ficar ao seu lado com aqueles olhos que ela adorava, olhando-a com tristeza e indignação.
— Onde está minha filha ? – perguntou ela.
— Nós a levamos para a domus de um amigo para preparar o corpo. – respondeu Afrodite.
— Como isso foi acontecer ? Por que a mataram ? – perguntou o rapaz que, até então, estava mudo.
Afrodite procurava as palavras certas para dizer quando Abeona se pronunciou :
— Eu quis tanto esse casamento... meu instinto de mãe falhou....Esse Saga com suas malditas ideias revolucionárias ! Foi ele que trouxe a desgraça para minha filha ! – murmurou Abeona apertando a mão do neto.
— Sinto muito, por sua perda. – disse Afrodite olhando para os dois.
— Meu marido não se encontra nesta casa. Certamente, está metido entre as pernas de uma rameira qualquer, apesar da idade. Vou mandar procurá-lo e vestir algo adequado. Minha filha merece que eu esteja à altura em seu enterro.
Engolindo a dor, Abeona retirou-se da sala, ordenando que Shun ficasse. O jovem assentiu e aproximou-se de Afrodite.
— Esse Hades... ele matou minha tia e, mesmo assim, será tratado como um herói, não é mesmo ? – perguntou o jovem.
— Ele representa a vontade do imperador e jurou acabar com Gemini. Creio que poucos serão contra a atitude perversa que ele tomou. – respondeu Afrodite.
— Pois eu quero olhar nos olhos desse homem e acusá-lo por este assassinato. Não vou me calar. – disse Shun com lágrimas nos olhos.
— Shun... sua tia pediu-me para cuidar da sua educação e de tudo o que você precisar. Ela sabia que Hades faria algo contra a Casa de Gemini e... eu concordei em ajudá-lo em tudo que for possível. Antes de tudo, ela quis cuidar da sua segurança.
— Não me importa a minha segurança ! Não vou deixar esse assassino se safar assim, como se tivesse matado um inseto. Deve haver alguém disposto a dar um basta nesse...
— Pare Shun! – gritou Abeona, ao retornar. – Existem outros meios de se conseguir justiça e acredite nessa velha, a morte de June não vai ficar impune.
Afrodite e Shun olharam para a face de Abeona e, por alguns instantes, o semblante envelhecido e tomado pela dor pareceu personificar Nêmesis, a deusa da vingança...
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