A Cólera Dos Deuses

10 Capítulo 10 PRIMUS FINIS( O princípio do fim...)


Notas iniciais
Oi, galerinha amada!!! A Cólera se encaminha para o final. Espero que gostem do capítulo e agradeço todo o carinho recebido em cada comentário. Obrigada, sempre pela energia luminosa de cada um! Bjs, XD

As sombras oscilavam como espectros nas paredes brancas do palácio. Gemidos abafados ecoavam como um doce murmúrio, até que a lâmina imiscuiu-se na carne tenra e fez o sabor do sangue transbordar nas bocas arfantes...

Um, dois, três guardas caíram no mesmo tempo de um suspirar. Alguns estavam fodendo em uma pequena orgia particular, enquanto outros, apenas cochilavam em serviço.

Escondido atrás de uma coluna dórica, o soldado que guardava o corredor de ligação entre o salão de conferências e os aposentos do imperador fechava os lábios sob os mamilos rosados da cortesã, quando sua vida deixou de existir.

— Sinto ter atrapalhado! – disse Máscara da Morte retirando a lâmina do gládio das costas do homem e sorrindo malicioso para a mulher aturdida ao sentir o sangue do amante respingar-lhe os seios nus. – Acho melhor que vá procurar outro freguês...

Milo nada falou, estava silencioso e tomado pela ira. E, como sempre acontecia, isso acentuava sua parceria com a morte dando-lhe a mesma precisão em cortar e decepar, deixando um rastro de sangue pelos corredores frios.

A cortesã correu com o grito preso na garganta. Não havia mais ninguém para pedir ajuda e foi com horror que ela escorregou no sangue que manchava boa parte do piso de mármore e deixou o palácio agradecendo aos deuses por ter sido poupada.

A guarda que ficava nas antessalas do palácio havia perecido e quando Milo degolou o último, Márcia surgiu, trôpega, e acompanhada de sua escrava.

— O-O... quê? – balbuciou ela, enquanto a escrava encarava Milo com um misto de medo e admiração.

— Saia! – disse Milo olhando para a escrava. – Mas você fica! – completou apontando a espada para Márcia.

— V-Você... Vai me matar? – perguntou Márcia com lágrimas nos olhos, embora estivesse “alta” com o vinho doce que trazia na taça e que agora lhe escapava da mão.

— Se eu quisesse matá-la já teria feito. Entre e fique quieta. – falou Milo.

— Perdoe minha intromissão, mas... seu eu fosse vocês eu a mataria!— disse a escrava que ainda permanecia ali, embevecida com a beleza viril e a aura agressiva dos dois gladiadores.

— R-Ruana! – soluçou Márcia.

A escrava olhou com ódio para sua senhora e depois tornou a olhar para Milo.

Domini Saga é um herói para nós! Os que deixaram Hades feri-lo daquele jeito merecem a morte! Essa vadia que só sabe beber e se lamuriar devia morrer junto do marido! Vocês vieram matá-lo, não é?

— Não. Agora sem mais perguntas. Vá! – disse Milo.

Mostrando sua contrariedade, a escrava deixou o salão, as vestes feitas de tecido grosseiro aderindo às formas esguias de seu corpo.

Márcia abraçou a si mesma, evitando olhar para Milo. Em seguida, ouviu-se um barulho e eis que Titus deixa o aposento para ver a origem de toda aquela conversa.

— Vocês?! O que estão fazendo aqui? – disse ele com autoridade na voz que mascarava a surpresa de ver os dois gladiadores no palácio.

— Viemos ter uma conversinha... – falou Milo.

— Conversa? Pois não vai haver conversa nenhuma! Guardas! – gritou o imperador.

— Perde seu tempo. A não ser que tenha aprendido a reviver os mortos... – disse Máscara da Morte mostrando o gládio sujo de sangue.

Titus não demonstrou medo. Encarou os dois nos olhos, mas foi para Milo que ele dirigiu a palavra.

— O que pretende gladiador? Matar-me? Saiba que se o fizer atrairá a ira dos deuses e de toda a Roma!

Milo sorriu. Não um sorriso largo e sim um esgar sarcástico, antes de responder.

— Dizem que os imperadores são como os deuses... Considera-se um deus, domini?

— Não seja arrogante comigo, gladiador! É um homem livre graças a mim! E creia-me, eu me arrependo de tê-lo libertado!

— Sou um homem livre graças a isso... – disse Milo encostando a espada no pescoço de Titus. – Mas, admito que o seu toque foi providencial e lhe sou grato. Não vim aqui para matá-lo e sim acabar com essa merda em que Hades envolveu todo mundo! Para vingar-se, Hades manipulou, inclusive, aquele que detém o poder de Roma e iniciou uma jornada que só vai acabar quando eu arrancar a cabeça dele!

Titus franziu o cenho. Era um homem acostumado a todo tipo de gente. Homens rudes, inteligentes, astutos e francos. Tinha Hades como um amigo e o admirava como estrategista. Entretanto, algo na fala do gladiador acionou dúvidas em sua mente. Por que aquele homem se dava ao trabalho de arriscar a vida e a liberdade?

— Afinal, o que quer gladiador?

— Quero que ordene a Hades que leve todos os gladiadores da Ludus Maxima para a arena, hoje, ao entardecer. Diga-lhe que deseja um espetáculo particular e que providencie a segurança do lugar com o maior número de guardas possível, inclusive... o restante da Guarda pretoriana.

— Mas o que significa isso?

— Não interessa, apenas faça!

— Como ousa me dar ordens, seu imbecil arrogante?

— Eu disse antes que lhe sou grato. Uma gratidão de homem pra homem! Não o considero um deus e pouco me importam títulos ou hierarquias! Faça o que eu estou dizendo ou as ruas de Roma se transformarão em rios de sangue! O palácio já está vazio, não me custa seguir com a brincadeira e acabar com todo mundo que cruzar o nosso caminho, inclusive a feliz família real! – respondeu Milo e havia um estranho e perigoso faiscar nos profundos olhos azuis.

Márcia, que até então permanecia quieta e encolhida, sentiu o coração disparar quando sua pequena filha veio trazida pela mão de outra escrava sob a guarda de Máscara da Morte.

— Olha só quem veio dar boa noite!— falou Máscara.

— Júlia... – sussurrou ela vendo a criança, franzina e pálida, esfregar os olhos e, em seguida, olhando para Titus que permanecia inabalável.

Máscara olhou para as duas e, com um brilho insano nos olhos, passou a mão no corpo da espada.

— Então, domini... O que vai ser? – perguntou Milo.

Com os dentes cerrados, Titus dirigiu-se a uma pequena tribuna onde estavam a pena e alguns papiros em branco. Com uma expressão contrariada, escreveu o que Milo ordenara, com o cuidado de colocar um pequeno símbolo no canto esquerdo, uma letra em forma de foice...

— Tome. – disse o imperador estendendo o papiro à Milo.

O gladiador olhou para as palavras, fingindo não entendê-las e então sorriu. Tudo estava saindo como ele planejara...

Em seguida, a escrava pessoal da domina foi incumbida de levar a mensagem até Hades, desencadeando as ações necessárias ao início do plano traçado por Milo...

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Afrodite suportou bravamente o esconderijo apertado e mal cheiroso. Vozes altas e risos haviam retumbado dentro da sua cabeça, o dia todo, assim como os aromas de peixe e especiarias da feira, lhe inundara as narinas, fazendo enjoar o estômago.

Shura havia calculado bem, pois o barril onde se encontrava não fora levado para fora da carroça e agora, quase de madrugada, com o corpo dolorido ao extremo, junto da fome e sede, insanas, finalmente deixava o esconderijo e se esgueirava pela barraca apertada e fedendo a cebolas.

O ronco animalesco do homem encarregado do lugar parecia algo sobrenatural e o deixava até meio zonzo, enquanto ele pensava no que fazer. Num primeiro momento, pensou em roubar a mesma carroça que o trouxera e fugir, rapidamente, dali. Entretanto, uma ideia atravessou-lhe a mente e mesmo sabendo que Albafica jamais faria tal coisa... Porém, quanto mais pensava, mais desejava fazê-lo. Vamos lá, Afrodite! Não custa tentar já que essa pode ser sua única e última chance...

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Ainda podia-se sentir a umidade própria da alvorada com sua bruma e seus sons longínquos... A coruja voltava ao seu ninho e o céu ainda permanecia escuro.

Na domus de Hades, os gladiadores que faziam sua guarda pessoal já treinavam no pátio, após uma refeição à base de pão e leite misturado à canela e ao vinho.

Alheio à movimentação, Shun dormia, fazendo movimentos rápidos e involuntários com os olhos. Estava sonhando... E em seu sonho estava, novamente, em seu lar, sorrindo e brincando com seu irmão mais velho. Seus lábios delicados se abriram em um meio e sonolento sorriso, ato que Hades observava sentindo seu corpo reagir.

O cônsul fixou os olhos em toda a extensão do corpo jovem que, de vez em quando, mexia um músculo ou mudava de posição.

Sim, o desejava... Em sua inocência Shun lembrava partes de si que estavam perdidas no passado e que jamais poderiam ser resgatadas. Por um lado desejava mantê-las, mas por outro, ansiava em corromper aquilo que o impedia de realizar seus desejos mais secretos e obscuros. Pensava Hades, enquanto corria os olhos pela pele alva e juvenil do jovem adormecido.

Como se estivesse sendo puxado para fora do sonho, Shun abriu os olhos, contrariado em abrir mão das sensações de alegria e plenitude que sentia. Foi então que viu o olhar de Hades sobre si.

— O que foi? – perguntou o jovem, assustado.

— Nada. – respondeu Hades olhando-o de forma lasciva.

Shun elevou o corpo sentindo um arrepio na nuca e na base da espinha. Sua primeira reação foi se afastar, porém Hades foi mais rápido e sentou na cama, segurando-o pelos ombros.

— Não precisa ter medo de mim...

Os olhos de Shun pareciam um furor verde quando Hades passou o polegar pela maciez de seus lábios entreabertos e fixou os olhos com desejo em sua face.

— N-Não! – sussurrou Shun.

Hades ignorou a fala do jovem e, envolvendo o rosto delicado nas mãos, beijou-o nos lábios...

Por um longo instante, Shun não correspondeu ao gesto, a boca fria e quieta, as costas rígidas. Hades então decidiu aprofundar o beijo e foi quando o jovem reagiu e o empurrou.

— Não me toque!— disse ele com uma expressão de repulsa.

Sem mostrar nenhum abalo, Hades pegou-o pelos cabelos, arrancando um gemido de dor.

— Posso tê-lo a hora em que eu quiser... Sua própria vó o entregou a mim em uma bandeja. – disse o cônsul com a voz baixa e fria. – Vai aprender a obedecer-me de corpo e alma, Shun... E essa lição começa agora! – completou arrancando as vestes do jovem e expondo o tronco esguio.

Shun cerrou os olhos sentindo mais vergonha que dor. O medo de ser possuído à força tomando conta de todas as fibras do seu corpo. Então, ocorreu-lhe algo... Não iria chorar ou gritar, enfrentaria Hades e deixaria explícita a aversão que sentia por ele. O faria saber que, nem mesmo a violação, o quebraria ou o tornaria submisso. Nunca.

Fitando Hades bem no fundo dos olhos, então falou:

— Pode ter-me com violência... Pode ferir-me e ter a ilusão de dar-me uma lição! Mas, ainda assim, não sou eu o escravo! O senhor, sim, é escravo dos seus desejos perversos, da sua ânsia doentia de subjugar os outros!

Uma sonora bofetada deixou marcas na pele alva e, mesmo assim, Shun continuou encarando-o. Não havia lágrimas em seus olhos, nem medo. Havia ira e determinação. Já derramara todas as lágrimas por quem amava. Não as derramaria para dar prazer a um sádico!

— Pensa que pode desafiar-me... Pois vamos ver o que terá a dizer depois que eu estiver dentro do seu corpo, fazendo-o gritar e implorar para que eu pare ou... continue!— disse Hades entre dentes.

Ao término da sua fala, Hades se aproximava de Shun, quando um dos escravos da casa adentrou o aposento.

— P-Perdão, domini, mas chegou uma mensagem do imperador. A escrava disse que era urgente! – disse o homem de rosto enrugado.

Shun virou o rosto e cobriu o corpo, enquanto Hades tomava o papiro nas mãos e abria-o com o cenho franzido. Após a leitura, a expressão do cônsul era um misto de surpresa e determinação. Olhou para o jovem que ajeitava as vestes sobre o corpo e sorriu, dizendo:

— Parece que termos um grande espetáculo... Vista-se, quero mostrar-lhe algo.

Com o cenho franzido, Shun abriu a boca para falar, mas desistiu. Não sabia o porquê, mas algo lhe dizia que devia obedecer. Puxou a toga para cobrir o máximo possível de seu corpo e foi com Hades.

Como se nada tivesse acontecido entre os dois, Hades conduzia Shun até o subsolo da domus onde Camus jazia acorrentado.

O estado do ruivo era precário. Dias sem comida e a água lhe era dada, somente, para que permanecesse consciente. A pele mostrava marcas de dentes e picadas de inseto, partes arroxeadas e inchadas, assim como sangue coagulado que podia ser visto, apesar das algemas de ferro, evidenciando que, em algum momento, ele as tinha forçado. Sua cabeça estava pendente quando Hades abriu a cela e aproximou a tocha, iluminando o lugar.

Shun não conseguiu evitar abrir a boca ao ver Camus preso, daquele jeito.

— Pelos deuses... o que significa isso? – falou Shun.

— Ora, ora... Um rapaz tão sensível e inteligente como você deve saber presumir o que isso significa. – devolveu Hades.

Com um aperto no coração, Shun se aproximou de Camus.

— Pelos deuses... – sussurrou Shun compreendendo o que Hades pretendia.

Camus teria aberto os olhos, caso não estivessem tão inchados e comprimidos. No entanto, estava acordado e esperava ver Hyoga, mais uma vez. Precisava economizar forças para falar, para evitar que ele enfrentasse Milo...

— Vamos dar um passeio, meu caro Camus... Carpe diem!— falou Hades com um sorriso cruel e tomando o queixo do ruivo para verificar-lhe o rosto.

Camus permaneceu fingindo estar desacordado e Hades o soltou. No mesmo instante, Shun ouviu vozes alteradas, risos e som de gládios se enfrentando. O cônsul também ouviu e dirigiu-se até o pátio, deixando Shun sozinho com Camus.

Assim que Hades saiu, Shun aproximou-se do ruivo e disse baixinho:

— Eu voltarei para libertá-lo.

Sem poder abrir os olhos, Camus tentou falar, mas sua garganta seca e inchada não permitiu. Então em um esforço, ele abriu os olhos. Havia tanta angústia neles que Shun sentiu-se mal. Com um esforço hercúleo, o ruivo balbuciou:

— H-Hyoga...diga... ao...Milo...

Lágrimas surgiram nos olhos de Shun. Ele não compreendia o que o ruivo tentava dizer e pensava no que fazer.

— Eu farei tudo o que puder.

Camus tentou dizer mais alguma coisa, mas a escuridão tomou conta de seus olhos e ele desmaiou.

No pátio, Hyoga descia o gládio com força sobre Alcion que se movia num círculo cuidadoso, com a rede pendendo solta, da mão esquerda e o tridente equilibrado na direita. A areia fina se elevava do chão ao deslocar dos passos estudados.

— Acaba com ele! – gritavam os companheiros de Alcion, enquanto Hyoga só tinha Kraken ao seu favor.

Alheio aos gritos, o jovem gladiador fixava os olhos azuis em seu oponente e esperava uma brecha para atacar e impedir que ele lançasse a rede. Entretanto, nenhum dos dois conseguiu seu intento, pois foram interrompidos por Hades.

— Parem o treino! Hoje, vocês terão a chance de mostrar-se para o imperador. Ele solicitou um torneio e vamos atendê-lo! Hyoga! Venha até aqui! – disse o cônsul.

Com um sorriso superior, Hyoga olhou para Alcion e dirigiu-se até Hades.

— Sim, domini.— falou o jovem saudando o cônsul batendo o punho fechado contra o peito.

— Lembra-se do homem do calabouço?

Hyoga fez que sim com a cabeça.

— Pois bem, aquele homem será libertado se você vencer as lutas de hoje, principalmente a de abertura do torneio. Acha que consegue?

— Quem eu devo enfrentar, domini?

Hades sorriu e então fez sinal para que Hyoga se aproximasse.

— Creio que não importa saber quem será seu adversário e sim, quem irá salvar, se vencer... – disse o cônsul baixinho.

— E quem eu irei salvar? – devolveu Hyoga.

— Que tal... Seu querido irmão mais velho?

Os olhos azuis de Hyoga pareceram incendiar-se. Se estivesse na arena, aquele olhar seria o estopim de um ataque mortal. No entanto, seguindo a herança familiar de autocontrole e frieza, ele nada disse. Olhou com ódio para Hades e, em seguida, mirou no jovem que adentrava o pátio e que exibia uma marca avermelhada na face direita. Shun não desviou do olhar de Hyoga e sentiu a força da ira que ele demonstrava.

— Preparem-se todos! Logo estaremos rumando ao Coliseu!— disse Hades sob uma aclamação de gládios e escudos.

Shun ficou parado e só então sentiu um mal-estar que o fez cambalear. De costas para ele, Hades ignorava o que acontecia e recebia Radamanthys que chegava e era informado das boas novas.

Hyoga estava a ponto de explodir, mas mantinha-se sob controle. Queria ignorar aquele garoto que, provavelmente, era o puto do maldito cônsul. No entanto, ao vê-lo tão pálido e trêmulo, aproximou-se e perguntou:

— Você está bem?

Shun engoliu em seco. Estava tão aturdido com tudo que presenciara que sentia o corpo fraquejar e arder como se estivesse com febre.

— Não... não estou. – disse, simplesmente e desviou os olhos que, teimosamente, se enchiam de lágrimas.

— Venha, tome um pouco de água fresca. – disse Hyoga tocando o ombro de Shun e conduzindo-o para uma parte reservada do pátio onde havia uma pequena fonte vertendo da parede de pedra.

O jovem aceitou de bom grado aquele toque respeitoso e olhou para Hyoga demonstrando toda a angústia nos olhos grandes e expressivos.

— Vai matar por ele? Crê que ele vá libertá-lo? Hades é um monstro! – disse Shun quase vomitando aquelas palavras.

— Vou matar para salvar meu irmão, o homem que seu amante mantém aprisionado naquela cela imunda! – falou Hyoga com o cenho franzido.

— Camus... Camus é seu irmão? – perguntou Shun, agora compreendendo a sordidez do plano de Hades.

— Sim, ele é. Seu amante o torturou e ainda vai pagar por isso!

— Hades não é meu amante, pare de repetir isso!

— Foi ele quem fez isso no seu rosto? – perguntou Hyoga tocando a face avermelhada de Shun.

— É melhor eu voltar para dentro da domus.— disse Shun, sem, no entanto, se afastar de Hyoga.

O jovem gladiador fitou os olhos doces e sofridos de Shun e de repente podia senti-lo... Seu cheiro, seu coração, a textura da pele clara...

Em sua terra, Hyoga já era considerado um homem e já tinha vivenciado todo o erotismo que se esperava de um. Tivera homens e mulheres, mas nunca compartilhara seu coração. Entretanto, ali, diante daquele estranho, sentia uma mudança radical em seus sentidos e emoções. Foi com espanto que constatou a paixão perfurando-o tão fundo, quanto o gládio que empunhava.

Os dois estabeleceram uma conexão única que eclodiu sem que nada houvesse sido planejado. O desejo surgiu entre eles, naquele simples olhar, e tudo o que Shun conseguiu pensar antes de os lábios de Hyoga esmagarem os seus foi: Eu quero!

Como se já se conhecessem, ambos trocaram um beijo intenso e íntimo. Hyoga apossou-se da boca delicada de Shun, abrindo-a com a pressão da língua, invadindo-a e saboreando-a, para depois se afastar, ligeiramente, e mergulhar de novo e de novo, sendo recebido com igual fervor...

Shun estava em fogo, desconhecendo o próprio corpo que agora implorava pelo toque de um desconhecido e de quem antipatizara à primeira vista. Sua mente estava vazia, imersa nas sensações de prazer que aquele beijo lhe provocava. Agarrou-se a Hyoga como se ele fosse a única realidade possível em meio a tudo aquilo e sentiu-se vivo como jamais havia se sentido, após a perda de June e do lar que tanto amava.

O som do sino convocando a todos quebrou o idílio e ambos afastaram as bocas ofegantes, o calor do hálito um do outro refletindo nos lábios úmidos... Shun sentia a mão áspera de Hyoga tocando seu rosto e, ainda assim, era uma carícia inebriante e bem-vinda que ele não desejava romper.

— Tenho que ir... – sussurrou Hyoga junto dos lábios avermelhados de Shun.

— Não quero que vá! Não quero que morra! – falou Shun em desespero.

— Eu não vou morrer. Não sem antes tê-lo em meus braços e em minha cama... – respondeu Hyoga, beijando os lábios de Shun, uma última vez.

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Esgueirando-se pelas ruas quase desertas, Afrodite chegou ao seu destino, o palácio do imperador.

Uma escultura gigantesca de Titus adornava a entrada constituída de colunas coríntias e uma espécie de palanque que costumava abrigar os guardas que selecionavam os visitantes. Tudo parecia vazio e silencioso, como se algo tivesse acontecido...

Estranhando o silêncio e a ausência dos soldados que costumavam cobrir toda aquela extensão, Afrodite aproximou-se devagar e entrou, verificando se estava sendo seguido. Nada! Sua retaguarda estava livre, agora era seguir em frente.

Foi então que notou a fileira de corpos caídos em poças de sangue. Como estava em jejum forçado, o cheiro da morte fez seu estômago revirar e ele quase vomitou. Era um espetáculo macabro que parecia contracenar com os poderosos e belos afrescos nas paredes mostrando cenas de batalhas e de caça cujo teor também exaltava o sangue.

Passou-se um tempo, até Afrodite conjecturar que o palácio havia sido invadido e pelas mortes, só podia ser...

— Milo! – gritou ele, ouvindo sua própria voz melodiosa ecoar pelo grande salão.

— Afrodite! Como veio parar aqui? Onde está o Camus?– exclamou o gladiador que se preparava para deixar o palácio tendo Máscara da Morte, logo atrás de si, trazendo o imperador junto da mulher e da filha.

— Eu... consegui fugir e... Camus ainda está com Hades.

Ao concluir sua fala, Afrodite olhou por cima do ombro de Milo e viu Máscara da Morte vindo em sua direção.

Belo! — sussurrou o gladiador abraçando-o. – Quase fiquei louco ao pensar no que tinham feito a você.

— Eu estou bem, amor... Os deuses foram misericordiosos e eu tive uma ajuda, também. – disse Afrodite beijando Máscara da Morte.

Milo voltou-se para Titus e continuou vigiando-o, enquanto Máscara e Afrodite matavam a saudades um do outro. Porém, quando os dois se separaram e Afrodite olhou em sua direção, Titus ficou pálido e, por alguns instantes, sua mente voltou ao passado quando estava com Cláudia em seus braços, após terem feito amor...

Eu queria ter um filho seu... Disse ela beijando-o, após o orgasmo.

Não podemos. Seria a sua e a minha ruína. Ele respondera traçando um caminho lento sobre o ventre trêmulo pelo prazer e enfiando a mão por entre as pernas dela.

Eu sei... Mas, mesmo assim, gosto de sonhar com isso. Se eu tivesse uma menina, seu nome seria Afrodite e se fosse menino, Albafica... Sussurrou ela, gemendo e ansiando por tê-lo dentro de si, novamente.

Nomes apropriados... Uma menina seria linda como você! Já um menino seria sério e distante como eu.

Eu te amo, Titus...

Eu também te amo, Cláudia.

— Onde Hades colocou o Camus? – voltou a perguntar Milo.

— Em uma cela na domus. Ele... torturou o Camus, Milo. Temos que tirá-lo de lá e rápido. – respondeu Afrodite.

— Esse filho da puta vai ter o que merece! Eu vou acabar com ele, mas bem devagar... – vociferou Milo.

— Antes que continue, eu posso falar com o imperador? – perguntou Afrodite causando estranhamento em Milo e Máscara da Morte.

— O que pretende, Afrodite? – falou Máscara.

— Por favor, eu apenas desejo falar às sós com ele. – reiterou o loiro.

Titus estava pasmo, aquele jovem era a personificação da única mulher que amara e, mesmo sendo homem, possuía o nome que ambos haviam gostado, caso tivessem uma criança.

— Está bem, mas seja rápido. E você, não tente nenhuma besteira ou passo a espada em sua mulher e filha! – disse Milo pegando Márcia pelo braço.

— Tem minha palavra, gladiador. Não fugirei. Até porque quero ver o final disso tudo e espero que seja crucificado!— falou Titus.

Quando Milo e Máscara se afastaram junto com Márcia e a filha, Afrodite olhou bem dentro dos olhos do imperador e sorriu tristemente.

— O senhor sabe quem sou eu. Vejo isso em seus olhos. – disse Afrodite.

— Diga o nome de sua mãe. – rebateu Titus, agora frio e controlado.

— Cláudia.

— Você é filho único?

— Não, tenho um irmão chamado Albafica.

Titus franziu o cenho. Novamente, as imagens do passado ocupando sua mente com tanta intensidade que ele quase parou de respirar.

O que você tem? Perguntara numa noite fria, quando ela lhe negara o corpo.

Nada! Apenas não quero ser sua latrina, onde você descarrega seus dejetos e depois vai embora!

O que está dizendo? Eu amo você!

Se me amasse ficaria ao meu lado!

Cláudia, você é uma mulher casada! O que quer que eu faça? Que eu mate o seu marido, é isso?

Não é preciso! Eu já estou morta! Morta! Eu estou grávida dele! Ouviu bem? Estou esperando um filho do meu marido, portanto vá embora! Desapareça!

— Seu irmão se parece com você?- perguntou Titus interrompendo as lembranças dolorosas.

— Não, ele é a sua cara. Inclusive vou dizer a ele que ficará calvo quando estiver com a sua idade. – respondeu Afrodite com o nariz empinado.

— Sua mãe... ela...

— Ela morreu sozinha e louca. Minha tia nos vendeu em troca de um posto para o marido e alguns denários. Sabia disso? Eu sempre me perguntei se foi o senhor quem fez essa proposta ou mandou alguém fazer.

— Eu nunca soube que eram meus filhos. Ela disse que estava grávida do marido e me expulsou da sua vida.

— Pois agora sabe. Sei que nunca irá nos reconhecer, mas eu peço que me ouça. Hades é um homem cruel que está executando sua vingança por problemas que teve com a Casa de Gemini no passado. Ele capturou a mim e Camus para torturar e atrair Milo. Só o senhor pode impedir uma tragédia maior. Mande que Hades pare com essa loucura.

— Hades é meu braço direito e um defensor de Roma! Quando seu amigo invadiu o palácio, assinou sua sentença de morte.

— Ah, é? Quer dizer que o grande Titus não passa de uma marionete inútil sob o controle de um mero cônsul?

— Você é igualzinho a sua mãe... Orgulhoso, autoritário e manipulador! Eu represento o poder e a lei de Roma e escolho aqueles que devem manter ambos em perfeita harmonia. Hades terá a oportunidade de fazê-lo. Se ele falhar, a história será outra. E agradeça o fato de eu ser generoso e não mandar cortar a sua língua afiada!

— Pois eu agradeço aos deuses ter sido vendido e ter ido para na Casa de Gemini! Pelo menos lá eu convivi com homens de verdade! – disse Afrodite com o corpo ereto e o queixo erguido.

Os dois se enfrentaram com olhares cheios de ira, até Milo chamá-los e dizer que estava na hora.

— Vamos, Milo. Eu já terminei aqui. – falou Afrodite sentindo tanta raiva e decepção que seu peito estava oprimido.

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A mente de Hades alternava entre o plano que havia engendrado e as adaptações que teria de fazer devido à nova situação. A mensagem de Titus era clara, Milo o havia tomado como refém e exigido que todos os gladiadores da Ludus Maxima participassem de um torneio fechado. Certamente, o gladiador estava confiante em derrotar todos e assim achar que o deixaria desprotegido e indefeso. Mal sabe aquele arrogante o que está a sua espera...

— Vespúcio, mande chamar Shura. – disse Hades servindo-se de vinho.

Rapidamente, o criado cumpriu a ordem recebida e logo Shura adentrou a domus. Quando Hades ordenou que ele comandasse a guarda que faria a segurança do lado externo do Coliseu, o centurião elevou a sobrancelha de forma interrogativa.

— Faremos a segurança de um simples torneio interno entre gladiadores da mesma casa?

Hades fitou-o, estreitando os olhos e sorvendo um gole de vinho.

— Desde quando um subalterno questiona minhas ordens? Está esquecendo o seu lugar centurião?

— Não, domini. Peço desculpas pela minha indiscrição. Suas ordens serão obedecidas de imediato. Com licença.

Shura deixou a domus encontrando Shun no corredor. O jovem analisou-o buscando uma brecha para confiar ou não naquele homem. Precisava de ajuda e precisava saber mais sobre o tal torneio, antes que Hades o levasse consigo para o Coliseu.

— Senhor... Perdoe-me, mas... Pode me dizer o que o cônsul planeja com este torneio? – arriscou Shun.

— Eu também gostaria de saber, rapaz. Posso apenas intuir que ele deseja atrair aqueles que sempre desejou destruir. – respondeu Shura.

Um suspiro verdadeiro escapou dos lábios de Shun. O centurião não era fiel aos intentos de Hades, embora cumprisse ordens.

— Hades mantém um prisioneiro na cela. O nome dele é Camus. Eu... Eu quero libertá-lo. – disse o jovem fitando os profundos olhos negros do centurião.

— Eu sei. Mas, não podemos fazer nada, por enquanto.

— Por favor, me ajude! Se eu conseguir libertá-lo, posso impedir que Hyoga lute e acabar com toda essa loucura!

Shura quase sorriu. Tinha esquecido como era a inocência.

— Hyoga foi integrado à Ludus Maxima e Camus é a isca que Hades usará para determinado fim. Não há o que fazer agora.

— Tem de haver algo que possamos fazer! – disse Shun.

— Infelizmente, agora a sorte de todos está nas mãos dos deuses. Tenho que ir. – falou Shura.

Shun viu o centurião se afastar a passos largos e tomou a sua decisão. Correu até a cela onde Camus estava, mas para sua surpresa, ele não estava mais lá. Subiu as escadas de pedra que levavam para o interior da domus e viu Hades vestindo uma toga negra. Seu coração disparou quando ele olhou na sua direção e sorriu como se pudesse ler seus pensamentos...

— Então, Shun... Chegou a hora de ver um torneio de verdade. Venha. – disse o cônsul estendendo-lhe a mão. – Como poeta, você deve compreender a morte para exaltar a vida. A arena lhe será de grande e intenso aprendizado...

Notas finais
****Agradecimentos especiais para todas que comentaram, aqueles que leem em silêncio, os que favoritam e recomendam, enfim, é o carinho e a força de vocês que torna minha vida mais cheia de cor e luz! MUITO OBRIGADA MESMO! ***Carpe diem é uma frase em latim de um poema de Horácio, e é popularmente traduzida para colha o dia ou aproveite o momento. É também utilizado como uma expressão para solicitar que se evite gastar o tempo com coisas inúteis ou como uma justificativa para o prazer imediato, sem medo do futuro. *** Titulo do próximo capítulo: MORTEM HABERE NOMINE : SCORPIONIS(A morte tem nome: Escorpião) Preciso dizer mais alguma coisa? HE!HE!HE!