A Bússola Dos Sonhos
4 SOMNIUM
Notas iniciais
O que você sonhou noite passada?
Você se lembra?
“Sabe quando você tem um sonho? Um sonho estranho em que nada faz sentido algum? Mas que não consegue se lembrar o que exatamente aconteceu, por mais que queira? Não é estranho? Por que não conseguimos nos lembrar desses sonhos? Por que?
Por causa DELE...”
-Ele quem?´
Luíza e sua Consciência caminhavam lado a lado em um jardim. Era bonito, com um imenso tapete gramado, muitas árvores repletas das mais diversas flores e alguns animais passando correndo de um lado para o outro, era realmente um lugar especial, e Luíza sabia bem disso pois se tratava de um lugar conhecido... O sítio de sua avó.
Quando era pequena costumava ir a casa da avó sempre, gostava de brincar naquele jardim, que para ela era muito mais que somente um campo florido. Para Luíza, aquele jardim era cenário de todas as suas aventuras, podia ser uma floresta repleta de criaturas fantásticas, um vale dos tempos dos dinossauros, ou o campo de batalha de uma guerra entre os soldados do bem e do mal.
Sem falar na casa, a casa que agora Luíza , em seus sonhos podia ver mais uma vez. A avó costumava fazer as mais deliciosas tortas de morango que a menina já experimentara, quando ela sentia o cheiro invadindo o jardim da casa, abandonava seu mundinho de fantasias e corria para saborear o manjar dos deuses feito por sua heroína.
Mas tudo mudou após o falecimento da avó...
No mundo real a casa já não existia mais, dera lugar a um imenso prédio de cinco andares, e o jardim... O mundo de suas fantasias, SEU mundo de aventuras... Agora, era uma massa cinzenta e negra, de cimento e asfalto, nada mais...
Mas em seus sonhos, ali sim, nada daquilo era verdade, o jardim ainda estava ali, e ela ainda tinha a sensação de sentir o cheiro das tortas de morango, só esperando para ouvir a voz de sua avó a chamando para se deliciar novamente...
Em seus sonhos, a fantasia se mantinha viva...
-Está me ouvindo Luíza?- A Consciência passa a mão nos cabelos de Luíza
-Ah... Desculpe... Não estava prestando atenção...
-Pensando na vovó não é?
-Como sabe?
-Ora Luíza, sou sua consciência, será que ainda não entendeu?
-Ainda não me acostumei com a idéia de alguém que sabe tudo que eu penso, é... Estranho
-hehe, tudo bem...
-Mas com eu estava perguntando, quem é esse cara? O cara que faz a gente se esquecer dos nossos sonhos?
-Não é bem um cara... Não tem sexo definido... Não sei bem, está mais para uma entidade.
-Entidade?- Luíza se lembra do que Ludmila lhe tinha falado- Explica...
-Eu não sei Luíza, quem me contou foi a Alma, é ela quem penetra seus sonhos todas as noites. Ela me disse que em alguma vezes, se encontrou com essa entidade, a entidade que controla nossos sonhos. Essa entidade escolhe o que passa e o que não passa.
-O que?
-O que passa pelo seu filtro de memórias, o que você lembra e o que você não lembra. Aliás, quase nada passa pelo filtro de memórias, em algumas vezes, nada passa, por isso não nos lembramos de nada .
-E por que só passa tão pouca coisa?
-Não sei... Nem a Alma soube me responder isso...
-E quem é essa tal entidade afinal?
-Não sei... Quando perguntei à Alma, ela só me disse que a entidade possuía várias formas, em cada sonho possuía uma aparência diferente, por isso não se pode saber ao certo o que realmente é, só o que se sabe, é que atende ao nome de SOMNIUM.
-SOMNIUM? O que significa isso?
-E como eu vou saber? Minha inteligência se resume a sua inteligência !
-Havia me esquecido
As duas seguem pelo jardim, mas parecia que andavam em círculos.
“Engraçado, nos sonhos tudo parece maior, esse jardim não acaba nunca? “-Luíza pensa
-É claro que não!- Responde a Consciência- Não é o jardim da vovó
-Para de ler meus pensamentos!
-É involuntário! Desculpa!
-Tá bem, tá bem!
-Vamos voltar ao que interessa, achar a Alma!
-Não faço a mínima idéia nem de por onde começar!
-Primeiro, vamos achar a bússola. Temos que nos concentrar em cada detalhe de seus sonhos,pois podem nos levar a pistas de como achá-La!
-Isso eu sei, mas com... Espera! Quem é aquela pessoa ali? Ei, eu conheço!
-É o Matheus, não é?
-O próprio, mas o que ele está fazendo?
Matheus, o amigo músico de Luíza, fascinado pelo rock e tudo que vem dele. Era talentoso com vários instrumentos, inclusive com o lápis, era também um exímio desenhista, e, nas horas vagas, desenhava suas famosas histórias em quadrinhos de super-heróis, que distribuía pelos corredores da escola.
Mas em seus sonhos ele estava muito diferente, não havia instrumentos ou desenhos, Matheus estava sentado, embaixo de um velho carvalho, com roupas rasgadas, uma longa barba branca e um olhar vazio, sem vida.
-Math!-Luíza grita
-O que ele tem?
-Não sei, mas está mal... Muito mal
Elas se aproximam do garoto, ao notar a presença de Luíza, Matheus se vira e estende a mão.
-Pode me dar algo moça?
-Matheus! Do que está falando? O que está fazendo?
-Tentando viver moça, tem algum pra me dar?
-Você é um mendigo? Mas como? Como isso aconteceu?
-Luíza- A Consciência diz, colocando a mão sobre seu ombro- Não se deixe enganar, é só um sonho! Não é real.
-Eu sei... Mas, é triste mesmo assim...
-E então moça- fala Matheus- Vai me dar alguma coisa ou não?
-Desculpa, não tenho nada...-Luíza fala.
-É sempre assim, eles nunca tem nada pra dar... Não sei o que será de nós, os pobres, agora, ainda mais sem a bússola...
-Desculpa, o que disse?
-Não me lembro, o que foi que eu disse mesmo?
-Ah! Você falou de uma bússola Matheus, o que você sabe da bússola? Fala!
-Eu não sei do que você ta falando moça, eu não disse nada disso
-Não Luíza — Fala a Consciência- Você não está ficando louca, se é o que está pensando, ele realmente falou sobre a bússola... Mas como eu já te disse, não é real, ele é apenas fruto de seus sonhos, não é um ser consciente... A Consciência dele não está aqui, muito menos a Alma
-Entendi, mas o que significa isso? O que ele quis dizer com “Não sei o que será de nós, os pobres, agora, ainda mais sem a bússola”
-Não sei- diz a consciência- Mas vamos descobrir!
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