A Bússola Dos Sonhos
5 Pesadelos
Notas iniciais
Bem vindos aos pesadelos...
Luíza e a consiência seguiram caminhando pelo gramado, mas agora, as feições do ambiente mudaram, não era mais o jardim de sua avó, agora, a vegetação rasteira dava lugar a uma mata densa e fechada, de um aspecto sombrio e assustador.
Em cada árvore pela qual passavam, Luíza tinha a impressão de ver criaturas as espreitando, como os monstros de sua infância, que a aterrorizavam em seus sonhos de menina, e os sons que ouvia, como gemidos de almas torturadas, só tornavam o ambiente ainda pior. Ela sabia bem o que estava acontecendo, estava tendo um pesadelo...
-Quero sair daqui! — Luíza fala
-Não, luíza! — A Consciência responde- Não podemos desistir agora, você sabe que não!
-Mas... Você não entende? Estou, ou melhor, estamos tendo um pesadelo!
-Pare para pensar um pouco, o que você e todas as pessoas fazem quando tem um pesadelo? O que acontece quando se chega ao clímax de todo pesadelo?
-Bom... As pessoas acordam
-Exatamente! E É por isso que nenhuma pessoa jamais descobriu o que acontece depois! Eu sei tudo que você pensa, Luíza, e sei que jamais se perguntou o que aconteceria se você não acordasse em um pesadelo, mas agora você deve começar a se perguntar isso, porque pode ser a chave para encontrar a bússola e a Alma! Enfrentar seus pesadelos!
-Agora que você falou eu realmente fiquei curiosa, será que nunca ninguém teve essa curiosidade? Quando temos algum pesadelo, nunca temos vontade de saber o que vai acontecer, só queremos acordar o mais rápido possível para nos livrarmos de todo aquele terror.
-Mas e se um dia alguém tivesse coragem de enfrentar seus pesadelos e ir até o fim?
-Mas isso é impossível! Ninguém nunca vai querer viver algo ruim, acho que isso é automático, se você tem um pesadelo, como em um impulso, você acorda!
-Isso inconsciêntemente... Mas você luíza, está comigo aqui, juntas podemos enfrentar qualquer pesadelo, e irmos até o fim dessa história, para encontrarmos a Alma.
-Eu... Não sei se tenho coragem- Luíza sente um arrepio ao ter a impressão de ver um vulto negro passar entre os galhos de uma das árvores daquela mata sombria
A Consciência segura a mão de Luíza, e com uma voz serena e doce a reconforta
-Já se esqueceu que eu estou aqui? Eu vou estar com você a todo momento, pode ter certeza que nada de ruim vai acontecer, afinal, é só um sonho não é?
Tudo o que Luíza pensava, sua Consciência podia ouvir, tudo o que sentia, a gêmea também sentia, e o contrário também acontecia, e foi por tal motivo que Luíza conseguiu sentir certa insegurança invadindo seus pensamentos, ela conseguiu perceber que a Consciência, embora tentasse a confortar, também estava insegura e com medo do que pudesse acontecer, afinal todas corriam perigo igual, se a Alma não fosse encontrada, seria o fim, para todas elas...
-Está certo! Vamos em frente!-Luíza fala- Eu não vou ter medo!
Mas a Consciência sentia o medo de Luíza, e Luía sabia disso, por um instante, sentiu-se idiota por tentar fazer com que a gêmea acreditasse em algo que sabia não ser verdade
-Quer dizer...-Luíza começa a falar, mas é interrompida
-Não precisa fingir que não tem medo Luíza, todas as pessoas tem! E o medo não é algo ruim, pois alguém que não sente medo, não é humano. E nem comece a pensar nisso! Sim, sei que está se achando fraca nesse momento, mas entenda uma coisa: O medo não nos torna fracos, o que nos torna fracos e não termos coragem de enfrentar nossos medos, e coragem... Isso eu tenho certeza que não te falta!
-Você realmente me conhece...
-Ainda não enteendeu quem eu sou?
As duas dão um largo sorriso e se silenciam, recomeçando a caminhada pela floresta de seus pesadelos. Os vultos que antes eram poucos, agora podiam ser sentidos a cada instante, como sereres monstruosos que as espreitavam, só esperando o momento certo para atacarem. Mas agora Luíza sentia-se mais confiante, embora o medo ainda tomasse conta de seus pensamentos.
Depois de algum tempo caminhando, e nenhuma das duas soube dizer quanto tempo exatamente, pois nos sonhos se perde a noção de tempo e espaço, elas se deparam com o que parecia ser uma casa velha e abandonada, típica de filmes de terror, com os quais costuma-se ter pesadelos. Musgos envolvendo as paredes de madeira, cortinas vermelhas rasgadas tremulando nas janelas, e uma porta, uma imensa porta arredondada em suas partes superiores com uma aldraba de ferro enferrujada.
-Que clichê Luíza! -A Consciência diz sorrindo- Pesadelos com casas mal assombradas? haha
-Ei, não sou eu quem escolhe com o que vou sonhar né?
-Estou só brincando, hehe, e ai, vamos fazer o que sempre se faz nos filmes?
-Entrar para nos darmos de cara com o monstro que nos aguarda lá dentro?
-Isso mesmo!
-Isso é revoltante! Por quê as pessoas fazem isso nos filmes? É tão óbvio que lugares escuros, fechados e assombrados são morte certa!
-Então, vamos para a morte certa?
-Fazer o que né? hehe
As duas caminham em direção a porta de madeira e Luíza já ia levar a mão para a aldraba para chamar quem abrisse a porta, quando a Consciência a conteve
-Acho que não precisa bater — A Consciência diz
-Tem razão... -Luíza responde
Elas abrem a porta, ou melhor, a porta se abre sozinha, "Por quê não estou surpresa?", Luíza pensa, e a Consciência da uma leve risada ao ouvir o pensamento da menina.
Luíza e a Consciência se deparam com um saguão enorme, o qual dispensa comentários, porque é igual aos que se costumam ver em filmes de terror, os móveis apodrecidos, as cortinas rasgadas, a enorme escadaria de madeira e o tapete, é claro, o enorme tapete vermelho conectando o corredor a escada.
-Pra onde vamos? — Pergunta Luíza
-Não é óbvio?
-A esacada.
-Uhum, vamos subir
Sobem os degraus, que faziam um barulho assustador a cada passada que davam, mas agora, tudo parecia engraçado para Luíza. A cena típica dos suspenses do cinema era tão óbvia, que o medo parecia nem existir mais, já que a menina sabia tudo que iria aconter, como se estivesse atuando em um filme de terror.
Mas Luíza havia se esquecido que, como em todo filme de terror, não existem apenas os móveis, as cortinas, os vultos, os rangidos e a casa, existia também, o grande vilão da história, e esse sim era capaz de despertar seus medos novamente... O monstro.
Ao terminarem de subirem os degraus da escada se depararam com um salão escuro, iluminado apenas por meia dúzia de velas, postas em castiçais sobre uma velha mesa de mogno, no centro da sala, e, sentado na ponta da mesa, na cadeira do anfitrião, lá estava ele, e Luíza sabia bem quem era, pois era o mesmo que costumava aterrorizar seus sonhos quando menina, o monstro de sua infância, toda criança tinha um, e o de Luíza, era o palhaço...
Desde pequena Luíza tinha pavor de palhaços, como se estes fossem criaturas demoníacas, prontas para devorarem sua alma a qualquer momento. Quando seu pai a levara a primeira vez em um circo, ela se maravilhara com o espetáculo, o mágico, os trapezistas, o atirador de facas, as dançarinas... Tudo aquilo era fantástico, mas quando os palhaços entraram no picadeiro, tudo mudou...
Ela não sabia dizer porque, mas, simplesmente, se sentiu apavorada com aquelas figuras, e enquanto todas as outras crianças gargalhavam com as piadas daqueles palhaços alegres, ela chorava, com medo...
A partir daquele dia seus pesadelos ganharam um monstro, um palhaço, mas era ainda pior do que os que vira no circo, porque os do circo, embora causassem medo na menina, ela sabia que eram bonzinhos e não a fariam mal, mas aquele... Aquele era diferente...
Não possuia roupas coloridas, mas sim negras, e em sua face, não havia um sorriso pintado, mas sim uma expressão maligna pintada com tinta vermelha que a apavorava, e o palhaço não segurava uma buzina, mas sim um machado, e ficava batendo o machado contra as mãos provocando em luíza um medo descomunal...
E lá estava ele, sentado na mesa, com as mesmas roupas, a mesma expressão, e o mesmo machado...
Notas finais
Qual era o seu?
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