A Bússola Dos Sonhos
6 Retornando a superfície
Notas iniciais
Luíza pensou em correr, mas percebeu que seria inútil, afinal, nos sonhos, não importa o quanto tentemos correr, nossas pernas se negam a sair do lugar, como se uma esteira invisível estivesse abaixo de nossos pés...
E o palhaço parecia olhá-la como se quisesse devorá-la, e estivesse somente esperando o momento certo para iniciar sua refeição...
A Consciência, embora não reconhecesse o palhaço, pois nunca havia penetrado seus sonhos, sabia bem do temor de Luíza em relação a tal figura, pois ela nunca se esqueceu do dia em que o pai de Luíza a levara ao circo, e ela, a Consciência, guardara para sempre, aquele medo de infância da menina...
-Não se preocupe, Luíza- A Conciência, tenta acalmá-la, embora também estivesse temerosa.
Mas Luíza permanecia trêmula e imóvel, encarando com medo o olhar apavorante daquele palhaço negro...
Em um impulso, a figura negra se levanta, coloca o machado sobre a mesa e começa a caminhar, com passos pesados, em direção a menina, a fitando com um olhar, que transmitia ao mesmo tempo, ódio e sofrimento.
Luíza parecia não suportar mais se manter firme, e já ia começar a correr para tentar, ainda que em vão, escapar da sala sombria, mas dessa vez, não foi a esteira invisível que a segurou, mas sim a Consciência, que segurou firme em seu braço, a encarando com um olhar reprovador.
-Está na hora de crescer Luíza!-A Consciência diz- Você não é mais uma garotinha!
-Você... não entende... -Luíza falava, apavorada.
-Pode ter certeza... Eu entendo mais do que qualquer um! Ou você acha que é a Alma que guarda suas emoções, seus sentimentos, seus medos? Então não venha me dizer que eu não entendo!
-Você pode até entender e sentir, mas nunca viveu os pesadelos que eu vivi! Nunca!
O palhaço continuava se aproximando cada vez mais das duas, Luíza empurrara a Consciência e já se preparava para correr, quando um brilho dourado penetra em seus olhos.
Agora o palhaço não segurava mais o machado, em suas mão podia se ver claramente... Dourada, cravejada de pedras azuis turquesa, com uma corrente cintilante escorrendo pelas mãos do palhaço, ele segurava... A bússola.
Súbito, Luíza fica imóvel, diante do palhaço, que agora se encontrava parado, em frente a menina, que olhava desconcertada para suas mãos negras segurando o objeto que brilhava com uma força descomunal.
A Consciência, que estava há cerca de alguns metros dos dois, com movimentos silenciosos, tentava se proximar de luíza, para tentar acalmá-la, ela sentia, sentia um aperto imenso, uma dor terrível a invadindo, a dor que Luíza sentia...
A figura negra coloca a bússola em seu pescoço, pendurada pela corrente, em seguida, toca o ombro de Luíza com as mãos escuras, e com uma voz tenebrosa, que Luíza jamais havia escutado, recita palavras que soam como uma navalha em Luíza:
-Que o espetáculo... Comece!
Em um salto a Consciência tenta tocar Luíza, mas tudo começa a se afastar da menina, o palhaço, a casa, tudo.
Ela ainda ouve a Consciência gritar "Luíza, não! ", mas ela não conseguia controlar... Tudo estava se afastando, como se estivesse sendo sugada por um grande buraco negro, e derrepente, a escuridão toma conta de tudo, como se já não pudesse mais enxergar nada a sua volta, só escuridão, e uma voz... Uma voz familiar que a chamava...
-Luíza, acorda!- Fala seu irmão, a sacudindo
A menina levanta em um salto, assustada. Ela estava suada e pálida, olha a sua volta, estava novamente em seu quarto... Havia acordado...
-O que aconteceu? — Pergunta o irmão- Você estava se debatendo de um lado para o outro na cama, parecia que ia sufocar!
-E-eu... não sei... acho que foi um pesadelo... — responde Luíza, ainda atordoada
-Deve ter sido horrível, do jeito que você ficou...
-Você nem imagina.
-Toma, bebe um pouco de água, vai te fazer bem — O menino entrega um copo de água para Luíza, que segura com as mãos trêmulas e derrama o líquido pela boca de uma vez só.
-Obrigada- Ela devolve o copo ao irmão
-Tava sonhando com o que?
-Eu tava em uma casa e...- Ela se dá conta do que havia feito- Não! Igor, você não podia ter me acordado!
-O que? Ficou maluca? Você tava tendo um pesadelo, menina!
-Eu sei, mas eu tinha que continuar, tinha que ter ido até o fim! Não podia ter acordado!
-Você pirou? Ningúem quer saber o que acontece em um pesadelo, quer mais é acordar!
-Mas eu não! Você estragou tudo! — Ela empurra o irmão e corre para o banheiro, o único lugar em que realmente tinha privacidade, e podia ficar sozinha...
Ela lava o rosto com a água fria que escorria pela torneira, e se olha no espelho, ainda estava lá, ainda estava viva, mas por quanto tempo?
Se a bússola estava com o palhaço então ela teria que enfrentá-lo para conseguir o artefato.
Mas quem poderia garatir que aquela era a bússola que estava procurando? E se fosse, quem garatiria que ela conseguiria pegá-la?
Será que conseguiria salvar a Alma com ela? Por quanto tempo mais Consciência e Alma conseguiriam ficar separadas? Se o laço se rompesse definitivamente...
Preferiu não continuar a pensar naquilo. Enxugou o rosto e saiu do banheiro, foi até a cozinha, bebeu mais um copo de água... Olhou para o relógio na parede da cozinha, marcavam 17:00, olhou pela porta que dava no pequeno quintal da casa, ainda se podia ver o sol brilhando lá fora... Resolveu sair, para arejar um pouco a cabeça
Ajeitou as madeixas negras que lhe escorriam pela face, colocou nos ombros a mochila que sempre a acompanhava, pegou as chaves de casa e já ia sair quando sua mãe veio ao seu encontro.
-Aonde vai?
-Só vou dar uma volta, mãe. Aqui no bairro mesmo.
-Já está ficando tarde, Luíza.
-Eu não vou demorar.
A mãe ia falar alguma coisa, mas Luíza dá as costas e sai pela porta dizendo "Eu não vou demorar mãe".
Ela caminha desorientada pela rua, trombando casualmente com os que passavam, o que aquela hora era praticamente inevitável, mal davam 17:00 e as ruas já se enchiam de pessoas apressadas voltando para suas casas, ou partindo para outros compromissos, mas Luíza não, Luíza só andava, sem rumo em meio a calçadas e avenidas.
Ela passa em frente ao mercadinho e vê o mesmo homem que havia visto de manhã, desta vez carregando caixotes vazios para a caminhonete estacionada em frente ao estabelecimento... "A feira deve ter sido boa hoje", Luíza pensa.
Ela ia continuar sua caminhada, mas uma mão a cutucou pelas costas, e a menina, ao se virar se depara com um par de olhos castanhos que a fitavam, e um sorriso largo que a menina estranhou a primeira vista, mas achou bonito ao olhar melhor. Ela nunca tinha o visto antes, pelo menos não que se lembrasse, mesmo assim o achou familiar...
-Oi- O menino disse
-O-oi
-Você é a Luíza né?
-Sou, e você quem é?
-Meu nome é Rodrigo, sou filho do Fernando, do mercado.
-Ah, o seu Fernando, sei quem é. Mas o que você quer?
-Sua mãe fez uma encomenda lá no mercado, o pai viu você passando e pediu pra eu te perguntar se você não pode levar as coisas.
-Ah... Deve ser isso que a mãe falou quando eu saí que não consegui entender.
-Oi?
-Nada não, eu levo sim, você pode pegar pra mim?
-Posso sim, vem comigo.
Os dois caminharam para o mercado, o menino pegou a sacola com as compras da mãe de Luíza e entregou para a menina.
-Eu não tô com dinheiro aqui não- Luíza fala
-Não se preocupa, o pai me disse que sua mãe pendurou na conta
-Hum, então tá, obrigada
-De nada
Luíza, se vira para sair, mas dá meia volta e fala:
-Desculpa perguntar mas, como eu nunca te vi aqui antes?
-É que eu não morava aqui...
-Não? Morava onde?
-Eu... morava com a minha mãe... Os meus pai eram separados- Ele fala com um olhar triste
-Ah- Luíza fica envergonhada- Desculpa, eu não devia ter perguntado.
-Não, tudo bem, não era segredo pra ningúem mesmo...
-Mesmo assim... Não era da minha conta. Olha eu já vou indo, desculpa mesmo, eu já vou... er... Tchau.
Luíza sai apressada do mercado, detestava quando as palavras lhe escapavam da boca e ela perguntava demais, "Que coisa, por que fui perguntar com quem ele morava? Não era da minha conta! Deve ser vingança da Consciência, me fazendo agir inconscientemente..."
Ela coloca a sacola de compras dentro da mochila e segue para casa, já começava a escurecer e ela não queria ouvir dois sermões da mãe no mesmo dia.
Mas algo a reteve no meio do caminho...
Já estava na rua de seu prédio quando sentiu um arrepio passar pela espinha, um vento gélido soprou em seu rosto e ela pareceu ter visto um vulto se espreitando nas árvores que enfeitavam a fachada do prédio em que morava.
Luíza se aproxima cautelosamente do local, parecia que a figura a olhava de longe, mas não podia ser! Ela estava acordada, não podia ser mais um dos monstros de seus pesadelos...
Podia?...
Notas finais
Será que você conseguiria enfrentar seus medos?
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