A Busca

22 Um Cofre dentro do Cofre


Por quase um minuto, Mozu e Nezuo ficaram completamente paralisados, espantados diante do conteúdo da misteriosa sala himitsu. E perceberam que tinham razão numa coisa: a ideia de se ter uma sala só para guardar dinheiro era estúpida, porque Gengetsu não era tão rico assim. No que se referia à cédulas e moedas, até havia algumas, tanto de ouro quanto de prata, mas representavam apenas uma pequena parte de todo o amontoado. Ainda assim, o que viam em maior quantidade, embora não tivesse muito a ver com dinheiro em si, era decerto muito valoroso.

Espalhados por todo o cômodo, encostados nas laterais e indo até a parede do fundo, amontoados ao máximo que se era possível para manter uma área central livre para se caminhar, objetos de vários tipos e tamanhos lutavam por seu espaço. Era óbvio demais que muitos dos objetos ali, só estavam ali por serem raros, porque aos olhos dos leigos não passavam a imagem de serem caros ou preciosos.

Os capitães passeiam o olhar pelo local, tentando entender cada item em que seus olhos pousavam, já ansiosos para analisar objetos seguintes. Mozu sai primeiro do transe e se adianta alguns passos, caminhando de modo automático. E de costas para seu companheiro, profere:

─ Me sinto como se estivesse no Bunker de Kaiserburg(1).

─ E eu sinto que preciso de uma bebida – replica Nezuo prontamente.

─ Boa ideia. Nós dois precisamos.

─ E eu vou buscar. Não mexa em nada até eu voltar.

Nezuo volta para o corredor do subsolo do Gen-Bu e fica surpreso ao notar que algumas das lamparinas nas paredes, que na verdade eram luminárias elétricas, estavam acesas. Deduziu que elas estavam interligadas com a alavanca que acionou dentro da Himitsu.

Ele atravessou a ponte sem mais demora e chegou ao elevador, subiu ao andar superior e caminhou até outro cômodo que servia como adega. Lá ele pega um dos jarros de barro que continham Sake.(2), e retira uma garrafa de whisky de outro móvel de madeira cruzada, parafusado na parede. Em seguida pega duas Sakazuki(3) para a bebida oriental e um copo de vidro escuro, em formato hexagonal, para saborear o whisky. Preparado, decide voltar para a sala secreta, ainda dando passos lentos e despreocupados.

Antes, porém, lembrando-se de tudo o que continha naquele cômodo e prevendo que a noite seria longa, lembrou-se de avisar que a despedida de Mozu iria atrasar um pouco. Nezuo cobre a face com sua máscara tradicional de carrasco e vai em direção ao salão principal de recepção do dojo.

Lá estavam Klaus, o ichigou de Nezuo, Malakai, o de Nezuo e Kizuato, ichigou de Rumiko, em pose de sentido, esperando, pois seriam os primeiros à alertar e preparar seus homens quando chegasse a hora da despedida. Eles enrijecem ainda mais o corpo, fortalecendo a posição de guarda, assim que veem o 1º capitão das três divisões do Gen-Bu se aproximar decididamente.

─ Senhores, aconteceu um pequeno imprevisto – diz o capitão parando à pouco mais de dois metros e colocando as mãos na cintura – Quero que vocês avisem suas tropas que a despedida do capitão Mozu será amanhã de manhã. Podem dispensá-los por hoje.

Uma simples mesura respeitosa e um “sim senhor” dito com força por todos eles, e Nezuo dá meia volta, retornando para a porta dos fundos do salão principal. Klaus ergue-se devagar, com um pequeno sorriso no canto dos lábios. Sentia-se muito feliz com os decorrentes acontecimentos do Gen-Bu, pois sabia que isso de alguma forma lhe seria favorável.

O Ichigou de Rumiko, conhecido de forma informal pelo apelido de “Kizuato” devido à marca em seu rosto(4), ao aproximar-se de sua divisão e repassar a recente notícia, combina também uma reunião particular numa das pequenas casas que acercavam os domínios do Gen-Bu. Não fazia muita diferença para os soldados o dia em que Mozu fosse embora, ou sequer se iria mesmo partir. Eles estavam mais preocupados com o futuro do Gen-Bu que, agora que Gengetsu se foi, ficaria nas mãos de sádicos ou meros assassinos que só não mostraram suas caras antes por medo de seu senhor.

A casa escolhida por Kizuato era propícia para reuniões ou encontros para uma conversa informal, resumindo-se a apenas uma sala grandiosa, com quatro hastes de ferro nos cantos sustentando uma vela e apenas uma janela, cuja vista dava para a lateral do dojo.

Os soldados sentam-se no chão, sobre os tapetes macios exclusivos para isso, com as pernas dobradas, todos de frente para o homem que agora estava no comando da terceira divisão de soldados. O Ichigou senta-se, recostando na parede, mas logo levanta-se incomodado.

─ Tarimbeiros... O que tenho para lhe contar é muito grave e vou precisar da ajuda de todos vocês, mas antes, quero que saibam disso... – o homem pega um papel dobrado do bolso de trás da calça e o abre, com as inscrições voltadas para o seu público – ...isso aqui... é uma carta de nossa Shushou. Está endereçada à mim e gostaria que não peçam para ler. Mas tem instruções aqui que diz respeito à todos vocês. Aqui diz que vocês estão livres.

Os soldados se entreolham, imaginando o que aquilo queria dizer. A palavra “livre” não fazia muito sentido já que ninguém se sentia preso ao Gen-Bu e todos seguiam Rumiko por pura e espontânea vontade. Isto é levantado durante as declarações de Kizuato e ele explica que seguir Rumiko era um estado de sorte, visto que ninguém gostaria de ficar sob as ordens dos outros capitães. Então os homens voltam a ficar em silêncio, concordando com seu chefe de tropa. O ichigou dobra a carta e recoloca no bolso, completando:

─ Ótimo! Estou contando isso porque não quero que se sintam forçados. Agora, só peço que esperem um momento antes de começarmos, porque está faltando alguém muito importante.

Os soldados se entreolham, confusos, já que percebiam que todos os membros do grupo de Rumiko estavam ali. Mas não dizem nada e assim ficaram por alguns minutos até que surge uma sombra na porta. O ichigou faz um aceno de cabeça, de olhos fixos no recém-chegado. É aí que todos olham para trás e veem o sujeito, de blusa de moletom, calças jeans e uma maleta de couro nas mãos.

─ Chegou bem a tempo, padre – o Ichigou ergue o braço com a mão espalmada, convidando-o a se aproximar – Junte-se a nós, por favor.

De volta à sala secreta, Nezuo serviu-se de um pouco de sake, à ele e à Mozu, e foram enfim inspecionar os misteriosos objetos. E agora, à primeira vista, estava explicado o porquê de tanto segredo. Quando voltou à sala, Nezuo encontrou o companheiro sentado sobre um baú de madeira antiga, com armações douradas, apesar de ser dourado só na pintura, não sendo ouro de verdade. Eles abriram o baú e encontraram uma papelada com segredos de pessoas influentes e documentos militares, além de outras escrituras que ambos mal entendiam para que fins fossem destinados. Sabiam que era valioso, mas era retorno que não viria sem um pouco de dor de cabeça. E nenhum dos dois queria ter dor de cabeça.

Porém, o que mais impressionou os capitães logo de cara foram os itens com valores caracterizados por sua raridade ou importância histórica. Eles não eram tão cultos para entender, mas estavam diante de tesouros que muitos pagariam só para ver e outros matariam para possuir.

Tipos como instrumentos musicais, feitos de materiais caros e lustrosos, e outros não tão chamativos, mas igualmente valiosos e antigos, como um belíssimo e bem conservado violino Stradivari, uma manufatura de meados dos anos de 1.700.

Havia uma coroa de pedras preciosas e que tinha, pendurado abaixo dela, um cabide sustentando um manto da realeza, com tons fortes de vermelho, branco e amarelo, rasgado, sujo e bastante envelhecido, embora que ainda ostentasse sua beleza pomposa.

Nas paredes alguns quadros famosos e raros, um deles sendo o famoso “La Gioconda” original, mundialmente conhecida pelo nome de Mona Liza, de Leonardo da Vinci, e outros não tão famosos mas de extremo valor, como o “The Card Players”, de Paul Cézanne, pintura que, até os eventos do desastre global em 2.000, era a obra de arte mais cara do mundo.

Eles viram, numa estante larga, potes pequenos, jarros e pratos, que eram feitos do que parecia ser porcelana ou mesmo barro pintado, mas que passava a clara impressão de serem peças raríssimas, de dinastias antigas e civilizações medievais. Viram adagas cravejadas com pedras preciosas, colares de nácar, com duas ou três voltas, uma maior que a outra. Pertencentes, talvez, à alguma rainha ou imperatriz de centenas de anos do passado. Viram três escudos de combate antigos, de forma circular e côncavos, postados no chão e recostados na estante, dois deles de tom dourado e cravejados de material brilhante e um feito de aço vermelho, com um símbolo negro de uma aranha de patas longas e finas que pegava quase toda a extensão da peça.

Na parte mais baixa da estante, dentro dos vãos inferiores, alguns livros velhos, sujos e escuros, de capas duras e rasgadas pelo tempo, sobrepostos num pano cinza de uma seda tão pura e rara que luzia mesmo na escuridão. Dentre eles percebia-se o “Kami-ko”, do Onmyoji Abe no Seimei, o Libri Fatales e o Opera Omnia Paracelsi. Diferente dos outros livros caros, espalhados na mansão de Gengetsu, aqueles da sala Himitsu só estavam ali porque não deveriam ficar à vista de qualquer um. Eram considerados de leitura perigosa, tanto que uma verdadeira horda de magos e ocultistas do mundo todo fariam qualquer coisa para ler só algumas páginas das obras que se encontravam ali.

Em outro canto, mais caixas empilhadas, as quais Mozu, ao abrir duas ou três delas, encontrou pequenas estátuas feitas de pedra esverdeada. Era a imagem de uma criatura horrível, com a face retorcida e de pose encolhida, mas era bem trabalhado. Provavelmente pertencia à uma civilização de muitas eras atrás. Devia ter centenas de anos, talvez milhares. Mozu não quis abrir as caixas restantes, imaginando que encontraria as mesmas estátuas horrorosas, que ele não colocaria de enfeite em canto nenhum de sua casa.

Viam-se também duas estátuas que, anteriormente cobertos com um lençol de seda negro, foram descobertos por Mozu assim que ele ficou só na sala. Uma delas era a estátua de Artemis of the Chase, ou, “Diana de Versalhes”, em seu tamanho quase real, com cerca de dois metros de altura e que, antes do Fim do Mundo, se precisaria viajar até o Louvre, na França, para se contemplá-la. A outra estátua era de Amaterasu, ou uma das aparências que mais belamente lhe representava. Por simples questão de respeito ou, seja lá qual for a razão, Mozu retirou o lençol e, ao reconhecer a deusa xintoísta, tornou a cobrir essa estátua, fazendo uma mesura de desculpas em seguida.

E por fim, na parede ao fundo, paralela à porta de entrada e sem nenhum obstáculo à frente, o item mais bizarro de todos; um espelho de vidro negro, com dois metros de altura e 1,50m de largura, de moldura antiga e detalhada com vincos que o contornavam e formavam desenhos abstratos à cada trinta ou quarenta centímetros de distância entre si. Parecia ser uma moldura de ouro, embora estivesse escurecida e, segundo o que dizem, o ouro não escurece, mesmo que se passe muitos anos. E aquele espelho tinha cara de carregar mais de um milênio de existência. Quando o viu pela primeira vez, Mozu ainda estava sozinho na sala e, mesmo sentindo um frio na espinha, não ousou chegar perto para mexer no objeto, derrubando-o, virando-o de costas ou simplesmente quebrando-o. Ele achou, como melhor coisa a fazer, manter distância e tentar não olhar diretamente nem para a sua própria imagem refletida nele.

Os capitães olharam tudo de longe, mexeram só no que precisaria ser tocado para retirar uma cobertura ou abrir uma caixa, e depois voltaram a se sentar e beber.

─ Precisaríamos de muitos meses para descobrir a origem e o valor disso tudo – comenta Nezuo.

─ Pra mim é só um monte de lixo. Queimaria tudo isso sem pensar se acaso quisesse usar esta sala para outra coisa.

─ Pode ser lixo para você, amigo, mas dependendo do campo de estudo, tem pessoas nesse mundo que pagariam uma fortuna por cada um desses itens.

─ Cada louco com sua mania.

─ É mesmo. E esse espelho então? – Nezuo põe se de pé, já meio zonzo por causa da mistura de sake com whisky – Ele não parece valer droga nenhuma.

─ Também acho – Mozu tenta não olhar para o objeto, que ainda lhe causava calafrios – Por mim eu o destruiria já e queimaria seus restos.

─ Que exagero.

Nezuo aproxima-se cambaleante do único item que ele ainda não havia averiguado e coloca as mãos aos lados do objeto para se apoiar, analisando a moldura dourada e escurecida. Foi quando seus olhos embriagados focaram o vidro negro e ele, assustado, se afasta quase caindo para trás.

─ Mas que feitiçaria é essa? – diz ele.

Nezu encara o espelho, paralisado, olhando para seu vidro escuro e ilógico, e torna a se aproximar. Era ilógico porque o espelho refletia a imagem da pessoa que se posicionasse em frente à ele, como qualquer outro espelho, porém não refletia mais nada. Nem mesmo o brilho do ouro e prata à suas costas ou as luzes das lâmpadas nos cantos do teto eram vistas naquele vidro escuro.

─ Eu não chego nem perto dessa coisa – resmunga Mozu, olhando para um dos quadros nas paredes.

Lembrando-se subitamente de alguma coisa, Mozu tira as luvas, bate-as com força na altura nas pernas, retirando assim o pó, e as recoloca bem depressa. Então posiciona-se em frente ao quadro da Mona Liza e o retira da parede. Pareceu curioso e ansioso de início, mas, logo em seguida, ficou desapontado ao olhar para a parede que ficava oculta atrás da pintura. O capitão recoloca o quadro no lugar, com cuidado apesar da indiferença com a arte, e vai até um outro. Também o retira do local, olha a parede atrás do quadro, procurando alguma coisa, e recoloca o mesmo no lugar. “Onde será que está?”, sussurra Mozu, indo com dificuldade por causa dos objetos no caminho, em direção do próximo quadro.

Enquanto isso, ainda de frente ao pavoroso objeto, Nezuo estica a mão direita, hesitante, e toca no vidro, exatamente sobre a imagem de seu corpo refletido. Depois, com a mesma hesitação, tentou tocar em uma parte negra, que se tornou inútil porque, obviamente, seu dedo tocou na ponta do dedo de seu reflexo. O vidro era frio, quase gelado, e estava um pouco suado devido ao local úmido e pouco ventilado. Mas fora isso, era um vidro comum, igual à qualquer outro.

Nezuo retorce a cintura e inclina-se um pouco para os lados, tentando visualizar seu parceiro pelo reflexo do objeto, e vê Mozu de mãos erguidas, com os cotovelos dobrados, segurando um “objeto invisível”. Ao se voltar e ver a imagem real, ele nota seu parceiro com um quadro nas mãos.

─ Ele só reflete seres vivos... – deduz Nezu, voltando a cintura para a posição normal – Mas porque ele nos reflete de roupas? Quer dizer, por que isso, se ele só reflete coisas vivas?

─ Eu não quero nem saber. Esse espelho me dá arrepios – Mozu aponta o dedo para seu companheiro – E tire essa porcaria de máscara, que ela também está me assustando.

Nezuo ri alto, zombando da cara do parceiro e torna a olhar para o espelho enquanto retira a máscara. Seria melhor e mais fácil beber sake sem ela mesmo. É quando ele vê, ao lado direito do objeto refletor, a pequena e quadrada porta de aço de, provavelmente uma caixa, embutida na parede. Tinha, no centro dela, uma espécie de disco, com números de 0 à 9.

─ Um cofre?

─ Você o achou? – expressa-se Mozu de sobressalto. Era exatamente isso que ele procurava atrás dos quadros.

─ Como assim, “você o achou”? Você sabia desse cofre?

─ Sabia sim. Shun me disse sobre ele também.

Mozu começa a se aproximar de seu parceiro sem dizer mais nada, afobado e quase tropeçando nas caixas de madeira próximas de si.

─ Como ele sabia desse cofre? – quis saber Nezuo.

─ Isso você vai ter que perguntar para ele. No inferno, é claro, porque ele está morto.

Nezuo olha de esguelha para o seu companheiro assim que ele fica ao seu lado. Não dava mesmo para confiar em Mozu. Ele era ambicioso demais para se confiar. Felizmente estava partindo.

Mozu coloca as mãos na porta, gelada e feita de aço, ansioso para abri-la. Nesse ínterim, Nezuo começa a refletir.

─ Que estranho... Por que é que tem um cofre dentro de uma sala que por si só já é um cofre?

─ Sei lá, mas, seja qual for o motivo, vamos descobrir.

Mozu enfia uma das mãos no bolso da calça e pega um pedaço de papel, revelando.

─ Aqui! Esta é a combinação.

Notas finais
1 - Bunker de Kaiserburg = Um bunker secreto da 2ª Guerra Mundial que ficava localizado abaixo do castelo Kaiserburg, em Nuremberg. Era usado por tropas nazistas para esconder o tesouro especial de Hitler, não relacionado ao dinheiro propriamente dito, mas sim à relíquias valiosas e raras. Entre as relíquias estavam a jóia da coroa do Sacro Império Romano Germânico, um conjunto de paramentos reais e uma caixa contendo uma almofada de veludo vermelho sobre a qual repousava a lança sagrada (a tão procurada lança de Longinus). 2 - Sake = bebida alcoólica japonesa feita à base de arroz fermentado, chamado em países norte americanos como Vinho de Arroz. Possui 15% de álcool numa mistura de ingredientes únicos que são água e arroz. Em português se escreve "Saquê", mas aqui está escrito em japonês por módico capricho. 3 - Sakazuki = Uma vasilha feita para beber Sake. Atualmente é possível encontrar modelos de semelhança bem próxima à um copo, mas no caso do texto é aquela parecida com um pires. 4 - Kizuato = essa é uma das formas japonesas para a palavra “Cicatriz”, que aqui é usado como apelido pejorativo. Desnecessário dizer que Rumiko nunca o chamou assim.