A Busca
23 Os segredos da sala secreta
A senha tinha seis dígitos. Já desconfiado de que Mozu não estivesse lhe contando tudo, Nezuo toma-lhe o papel das mãos e disca sem pressa e sem muita esperança de que ela funcionaria. Para sua surpresa, a porta dá um leve tranco, e uma das laterais se solta, movendo-se para frente. Um cheiro de mofo, típico de jornais e revistas bem velhas, sai pelas fresas da porta. Nezuo puxa a porta de aço e encontra no interior duas pastas de documentos, feitas de plástico escuro, embora transparente, e um pequeno objeto marrom e comprido por cima delas. Nezuo pega o objeto marrom com uma face curiosa.
─ Um estojo... de óculos? – comenta Mozu aproximando o rosto – Nunca vi o dai-sensei usando óculos.
─ Ele não usava.
Nezuo destrava a tampa, com a abertura voltada para ele, abre o estojo devagar e, ao ver o que tem dentro, seus olhos se arregalam de espanto. Ele fecha o estojo rapidamente, escondendo o objeto com o ombro e dando a clara impressão de que não queria que seu parceiro visse o que continha ali. E Mozu, que por ficar atrás da tampa do estojo, portanto realmente não pode ver o que era, questiona desconfiado:
─ O que foi? O que tem nesse estojo?
─ É melhor você não saber.
─ O quê? Por quê?
─ Não é nada de valor. Nem para mim, muito menos para você. Então, não insista.
─ Tudo bem. Acredito em você – Mozu estica o pescoço para o interior do cofre – E o que mais tem aí?
O 1º capitão pega as pastas dentro do cofre, nota pela transparência que continham alguns papéis dentro, organizados e grampeados, e dá uma delas para o seu parceiro. Em seguida, abre a que ficou em suas mãos. A primeira palavra que encontra já estava na quarta página do grosso documento, escrita em letras ocidentais.
─ “Projecto Behemot” – diz Nezuo, continuando a leitura com a mente, de forma rápida e despretensiosa, mas já estimando seu ponto de vista – Não sou um especialista no assunto, mas isso parece ser um projeto político. Ou qualquer coisa que seja relacionada à ela.
O capitão folheia mais páginas, sempre lendo um pouco de cada uma e não entendendo absolutamente nada, porque aquilo não lhe despertava interesse. Assim, desistindo da leitura, Nezuo recoloca os papéis na pasta e guarda o documento no cofre. Depois, sentindo-se um pouco tonto, caminha até a porta de saída da Himitsu, onde praticamente cai sentado, pega sua sakazuki e serve-se de mais uma dose do sake.
Só após Nezuo virar mais uma dose de álcool e quase apagar de embriaguez é que Mozu olha com esperança para a pasta em suas mãos. Poderia ser mais um documento inútil, mas se tivesse algum valor não relacionado diretamente à dinheiro, e sim, à um jeito de ganha-lo por outras fontes, ele queria usufruir daquilo sozinho.
Sua pasta continha dois blocos separados de documentos, de dezoito e de doze folhas. Ele coloca um dos documentos junto com a pasta vazia embaixo do braço e começa a folhear o outro, ainda ansioso. É quando encontra uma palavra, escrita de cima para baixo e em três ideogramas japoneses, num tamanho tão grande que pegava todo o frontispício, e que inevitavelmente fez Mozu torcer o rosto de desgosto.
─ Rumiko? – ele lê bem baixinho, para que seu parceiro não ouvisse – O quê será isso?
A escrita parecia-se muito com a de Gengetsu, por isso Mozu passa para a página seguinte sem diminuir muito a expectativa. Ali, se depara com um breve histórico do que encontraria nas páginas adiante, que ele passa os olhos por cima sem prestar atenção em nada até ler, no rodapé da página e escrito de forma modesta, as palavras “Espada Sorridente”.
Aquelas duas palavras foram suficientes para que Mozu sentisse as mãos tremerem de ansiedade. Antes de continuar, ele prende a respiração e tenta se controlar. Mais alguns parágrafos depois e ele, já tendo certeza do tesouro que tinha em mãos, abre um sorriso malicioso, pensando: “ah... isso sim tem algum valor”. Desejando usufruir aquilo quando estivesse em particular, ele fecha o documento, ainda em pensamentos: “Pena que não os descobri antes”.
─ E aí? – Nezuo pergunta de seu cantinho escuro – o que é isso?
─ Ah...! Isso é... – Mozu abre o casaco e coloca o documento dentro, na altura do peito, pegando o outro pacote de folhas nas mãos – Não sei direito o que é... não li ainda.
─ Estou falando do que você acabou de esconder.
─ Ããnnn... Não é nada. Nada útil. Tem alguns nomes de pessoas que já nos livramos e de homens do campo da política. Provavelmente é só mais um monte de bobagens sobre política, então também não deve ter valor algum.
─ Então porque está escondendo sob o casaco?
─ Eu gostaria de dar uma lida antes de jogar fora. Quem sabe encontro alguma fonte de renda, certo?
─ Hummm... – Nezuo balança a cabeça, arrotando em seguida e dizendo – Pode fechar o cofre, agora.
─ Claro!
Mozu empurra a porta devagar e, antes de fechá-la, ele observa pensativo para o luxuoso estojo marrom usado para guardar óculos, bem ao fundo do cofre. O que será que tem dentro? Chegou a pensar em pegar e dar uma rápida espiada, mas desistiu. Talvez fosse mesmo melhor, e mais seguro, que ele não soubesse o que tinha naquele estojo. Então fecha o cofre.
Para disfarçar e evitar mais perguntas sobre o arquivo que escondia sob o corpo, Mozu abre o outro documento e começa à lê-lo profundamente. Percebe que é uma espécie de memorando e, por simples vontade de evitar conversar com Nezuo enquanto ele estivesse com aquele olhar de desconfiança, e a fim de encontrar um meio de iniciar um novo assunto para fugir do antigo, Mozu leu toda a papelada, completamente focado.
E na metade do documento, ele, o 2º mais graduado capitão do Gen-Bu, já havia percebido do que se tratava.
─ Ele ia devolver... – Mozu ergue a mão e balança as folhas – Esse documento diz que o Dai-sensei iria devolver todos esses pertences de valor histórico. Bom, ao menos todos os que estão descritos nessa lista.
─ Quais exatamente?
Mozu relê em voz alta a lista de afazeres, que Gengetsu iria seguir quando obtivesse, ou não, sucesso em sua missão de se tonar o Leviatã do mundo.
O documento estava separado por artefatos. Cada página continha uma pequena lista e um breve histórico, contando as origens de cada peça e o porquê deveria ser devolvido para o local indicado. Ao chegar às últimas páginas, relacionadas às obras de arte, Mozu tira sua atenção das folhas e, em seguida, olha ao redor, procurando os quadros nas paredes.
─ Você entende de quadros de pintura?
─ Não muito... Por quê?
─ Está faltando um quadro.
Mozu conta a quantidade de nomes na lista e onde os quadros eram citados numa parte que estava escrito “Obras de pintura”. Ele olha ao redor e novamente conta os quadros nas paredes. Só conhecia a Mona Lisa, assim como Nezuo, mas por dedução e eliminação, soube dizer o nome do quadro faltante.
─ Madonna Benois. É o nome do quadro que está faltando. Acho eu. Apesar de que... – Mozu caminha pela sala, observando os apoios pregados nas paredes – De acordo com essas peças nas paredes, deveriam estar faltando dois quadros. Mas enfim, se Gengetsu tinha intenção de devolver, porque não fez isso antes? Poderia chantagear as terras que são originalmente donas desses artefatos em troca de apoio político.
─ Chantagear não era o estilo de Gengetsu. Ele jamais iria se valer da posse desses artefatos para ganhar vantagem alguma, nem antes e nem depois de sua candidatura. Ele não devolveu por algum motivo obscuro, que só poderia ser explicado por ele mesmo.
─ É um caso de se pensar.
─ Nem tanto – Nezuo arrota e recosta sua cabeça novamente à parede.
A cabeça doía por causa do álcool e do cansaço de estar naquela sala. Era escura, fria, úmida e o cheiro de coisas antigas era desagradável. Além do fato de se sentir inseguro com aquele espelho negro, sempre olhando para eles, não importava em que lugar da sala eles ficassem. A presença da estátua que representava a deusa adorada de Gengetsu, ainda coberta com o lençol de seda negra também pesava em sua consciência. “Vocês vão se arrepender”, “Vocês vão se arrepender” – ele pensava de modo involuntário, com se ouvisse vozes em sua cabeça, vindas direta da deusa Amaterasu.
─ Esquece isso! – Nezuo bafora com raiva, chacoalhando a cabeça – Quero lhe fazer outra pergunta. E desta vez, tome cuidado com o que vai me responder.
─ O... O quê?
As palavras e o modo ameaçador de como foi dito assustaram Mozu e ele só conseguiu pensar em uma única possibilidade. Seu parceiro irá perguntar sobre o documento que ele escondeu sob as roupas. Se for isso, ele terá de revelar que não são documentos políticos e sim, segredos sobre a pessoa de Rumiko. Isso deveria ser bom para os dois, visto que ambos sempre desejaram saber os mistérios da arte da Espada Sorridente. Só que ele não sabia como Nezuo reagiria, já que, embora dissesse que não a suportava, por muito tempo ele passou a impressão de se dar bem com a 3ª capitã do Gen-Bu.
De todo modo isso agora não importava mais. Seja qual fosse o sentimento de Nezuo por Rumiko, raiva ou admiração, desprezo ou respeito, Mozu tinha consciência de que mentiu e de que escondeu informações para seu parceiro. Nezuo devia e tinha seus motivos de estar furioso.
Mozu caminha ao centro da sala, evitando o olhar faminto de Nezuo, que o encarava seriamente, e coloca o documento de Gengetsu sobre uma das estantes por módico capricho. Lá ele pega uma adaga curva, com cabo cravejado de pedras preciosas. Uma arma estrangeira, feita com o único propósito de servir de enfeite e admiração, por isso não seria tão eficiente quanto a adaga que Nezuo possuía sobre a cintura. Mesmo assim, Mozu sentiria mais segurança ao tê-la em seu poder do que estar de mãos vazias quando fosse se postar de frente ao homem mais forte do Gen-Bu depois de Gengetsu.
Ao retirar a arma da pequena bainha, igualmente adornada de brilhantes, Mozu sorri. “Quanto será que vale essa faca” – murmura ele, olhando para o objeto e ocultando seu intento assassino. É quando, em resposta, ele é surpreendido pela aguardada pergunta que tanto temia:
─ E então? Acabaram-se as surpresas?
─ Hun? – Mozu interrompe a caminhada, tentando entender o contexto da pergunta – O que quer dizer?
─ Tem mais alguma coisa que você gostaria de me dizer sobre essa sala? Ou talvez, quem sabe, sobre Shun?
Mozu observa seu parceiro com um rosto rígido. Por coincidência, talvez por sorte, ou quem sabe até pelo alívio de não ter que revelar o documento que pretendia esconder, aquela pergunta de Nezuo penetrou fundo em sua mente e lhe fez recordar de mais uma coisa que lhe foi dita por Shun.
─ Tem sim – ele responde finalmente – Tem mais uma informação sobre essa sala.
─ Eu sabia. Não dá pra confiar mesmo em você. O que é agora?
─ Há aqui um objeto, que, segundo Shun, é o mais misterioso de todos. “O único tesouro sobrenatural que o Dai-Sensei possuía”... foi o que Shun me disse.
─ Um tesouro sobrenatural? Não é aquele espelho, por acaso? Aquilo é a coisa mais sobrenatural que eu vi aqui.
─ Não! Não é aquele espelho horroroso. É algo que ele disse estar escondido. E não tem nada nesta sala que esteja mais à vista do que aquela coisa medonha.
─ Bom, dá pra se esconder muita coisa aqui nessa bagunça. Gengetsu com certeza deve ter deixado alguma marca que indicasse o paradeiro desse tal “tesouro sobrenatural”.
Mozu arregala os olhos, claramente se lembrando de alguma coisa importante e estala os dedos da mão direita, fazendo um eco que ressonou pelo corredor – É isso! – Ele exclama, abaixando-se rapidamente, quase caindo de joelhos, e começando a vasculhar o chão, analisando tatame por tatame.
Já achando que o amigo tinha ficado louco, Nezuo questiona:
─ O que está procurando?
─ Uma marca.
─ Uma marca?
─ Quando Shun me disse que Gengetsu guardava, aqui nesta sala, um objeto de alto poder financeiro, ele frisou ser uma coisa que Gengetsu não queria que caísse nas mãos de ninguém. Nem mesmo nas nossas.
─ Assim como tudo aqui.
─ É, mas esse é diferente. Ele não me disse o que era, porque obviamente nem ele deveria saber, mas garantiu que reconheceríamos quando o visse.
─ Já lhe ocorreu que esse item que ele estava falando é aquilo que está guardado no estojo de óculos? Dentro do cofre, lembra?
─ Você me disse que não tinha valor algum.
─ Bom, não... Não tem mesmo. Não para nós. Para nenhum de nós exceto Gengetsu.
─ Então não é isso, porque o valor desse objeto que estamos procurando é inestimável. Além do mais, Shun me falou do cofre. Quanto à esse objeto, ele me contou que estava guardado em um fundo falso, coberto por um tatame marcado.
─ Hum... – Nezuo olha para o chão perto de si, procurando uma placa possivelmente diferente de todas as outras – Como ele sabia disso?
─ Isso ele também não me disse – Mozu retira um tatame, que ele imaginou estar marcado, mas não havia nada abaixo além do piso de cimento – Ele não me revelou nenhuma das suas fontes ou métodos que usou para adquirir suas informações. Mas ele era um ninja então, é de se esperar que ele tenha bisbilhotado um papo entre o mestre Gengetsu e mais alguém que sabia disso. Nenhum dos segredos do Dai-Sensei era de conhecimento unicamente dele.
─ Segredos, segredos, segredos... Gengetsu era cheio de segredos. No fim a gente acabou descobrindo muitos deles. Praticamente todos.
─ É mesmo! Só a Egao tinha o prazer de descer aqui. Só ela deve ter visto esse item.
─ Você e esse seu ciúme – Nezuo debochava sempre que sentia a inveja de Mozu por Rumiko aflorar.
─ Cala a boca! Já disse que não é ciúme – Mozu continua de cara quase no chão, como se procurasse uma agulha – E eu insisto, esse segredo é diferente. Lembra quando o Gin-Ryu invadiu o dojo e levou tudo o que tinha aqui? Eles com certeza abriram esse cofre e levaram o que encontraram dentro.
─ E daí?
─ Eles só não encontraram esse objeto misterioso, porque ele não estava no cofre. – Mozu ergue o rosto e encara Nezuo novamente, instigando-o – E mesmo esse objeto sendo muito valoroso, Gengetsu preferiu passar fome à vende-lo.
─ Cacete! – Nezuo também muda de posição, começando a engatinhar na sala, atrás desse tatame.
Estava zonzo ainda e a pouca iluminação da sala não ajudava muito, mas conseguiria reconhecer uma marca feita propositalmente no chão. Além disso, Nezuo agora estava curioso e não iria desistir até encontrar o esconderijo desse misterioso objeto e ver com seus próprios se ele é mesmo algo de valor inestimável.
─ Achei! – pronuncia Mozu, com uma voz que quase não sai da garganta – Quer dizer, eu acho que... Sim, sim, deve ser esse aqui!
Os dois capitães se ajuntam e posicionam-se, ladeando o suposto tatame marcado com um leve golpe de objeto cortante, provavelmente uma espada. Não havia dúvidas. Tinha que ser ali.
Nezuo faz um gesto com a cabeça, dizendo em seguida para seu companheiro retirar o piso falso. “Eu abri o cofre, agora é a sua vez” – ele completa. Mozu respira fundo por duas vezes antes de finalmente pegar na beirada do tatame com a ponta dos dedos. Ele espera por mais uns segundos até que ergue a placa com bastante rapidez, afastando-se instintivamente.
Um buraco quadrado, pouco menor que o tatame, é revelado. Tinha quarenta centímetros ou mais de profundidade e, no fundo uma pequena caixa de lata, de cor vermelha, que lembrava um pote de balas ou doces, com a tampa fixa à base de pressão. Mozu pega a caixa e puxa a tampa, com força, porém com cuidado, para que ela não abrisse de uma vez e, seja lá o que tivesse dentro, saltasse fora e caísse no chão. Feito o ato, ele olha dentro do pote com grande curiosidade.
Por seu lado, Nezuo mantém os olhos fixos no parceiro, que ficou quieto de repente e, notando suas expressões faciais retorcidas, questiona já impaciente:
─ O que foi? O que tem aí dentro?
─ Nada! – Mozu vira a caixa para Nezuo – Não tem nada dentro.
─ Está vazia? – observa Nezuo.
─ Ela está forrada no fundo com uma almofadinha macia, mas fora isso, está vazia.
─ Provavelmente essa almofada servia para manter o objeto seguro ou acomodado durante o manuseio da caixa.
Mozu fecha o pote com certa irritação e o coloca de volta no buraco, tornando à tampá-lo com a placa de sílica.
─ Seja lá o que tinha dentro, não está mais aqui. Nosso mestre já se livrou do objeto.
─ Se livrou ou... – Nezuo leva a mão ao rosto, coçando o queixo – Ou levou consigo quando fomos ao Brasil.
─ Impossível! Nós pegamos todos os pertences valiosos e averiguamos todos os itens do dai-sensei quando voltamos para o Japão. Cada moeda, cada objeto, cada documento. Ele deve ter dado esse item para alguém e, se deu...
Com uma face pensativa e depois furiosa, Mozu senta-se no chão e profere o apelido que ele mais odiava, mas que seu ciúme ironicamente o fazia pronunciar quase que todo o tempo.
─ Egao!
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